À Espera de um Milagre

Stephen King · Capítulo 6 de 9 · parte 1/3

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À Espera de um Milagre

Parte Quatro .......................................................................................

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

 

A má sorte do Eduard Delacroix

 

Pondo de parte toda esta outra escrita, tenho vindo a manter um pequeno diário desde que fixei residência em Georgia Pines - nada de muito importante, só uns dois parágrafos por dia, em grande parte acerca das condições do tempo - e ontem ao fim do dia passei-lhe uma vista de olhos. O meu objetivo era saber há quanto tempo é que os meus netos, Christopher e Danielle, me tinham forçado a vir para este lar.

- É para o seu próprio bem, avô - haviam eles dito na altura. É claro que disseram. Não é isso o que a maior parte das pessoas costuma dizer, quando finalmente conseguem ver-se livres de um problema que anda e fala?

Passaram pouco mais de dois anos. Mas o mais estranho é que não sei se realmente parece que já passaram dois anos, mais tempo, ou menos. Tenho a sensação de que o meu sentido da passagem do tempo está a liquefazer-se, tal como o boneco de neve de uma criança que se derrete com o degelo de Janeiro. É como se o tempo, como sempre foi, tenha deixado de existir. Aqui existe apenas o Tempo de Georgia Pines, que é o mesmo que dizer, o Tempo do Homem Velho, o Tempo da Senhora de Idade e o Tempo de Mijar na Cama. O resto... desapareceu por completo.

Este é um lugar perigoso. Ao princípio não nos apercebemos disso, pensamos que é apenas um lugar enfadonho que se deve temer tanto como um jardim-infantil durante a hora da sesta; contudo, é perigoso, sem dúvida. Já tive ocasião de ver muita gente entrar num estado de senilidade desde que aqui cheguei e às vezes isso não se processa com suavidade - às vezes afundam-se à velocidade de um submarino a mergulhar no menor espaço de tempo possível. Essas pessoas dão entrada aqui em condições de saúde bastante razoáveis - com o olhar um pouco opaco, grudadas à bengala, talvez um pouco soltos dos intestinos, mas, fora isso, bem - e depois passa-se qualquer coisa com elas. Um mês mais tarde só conseguem estar sentados na sala da televisão, a olhar fixamente para a tela com uma expressão abstrata, o queixo descaído e um copo de sumo de laranja esquecido na mão, e que entretanto se inclinou e começou a gotejar. Um mês depois, é necessário dizer-lhes os nomes dos filhos quando estes vêm visitá-los. E um mês depois é o raio dos seus próprios nomes que é preciso recordar-lhes. De fato, há qualquer coisa que lhes acontece: é o Tempo em Georgia Pines o que lhes acontece. A passagem do tempo por aqui assemelha-se a um ácido fraco que primeiro apaga a memória, e que em seguida elimina o gosto pela vida.

É necessário lutar contra esse estado mórbido. É o que eu digo constantemente à Elaine Connelly, a minha amiga muito especial. No que me diz respeito, a situação melhorou desde que comecei a escrever sobre o que me aconteceu em 1932, o ano em que o John Coffey chegou à Milha Verde. Algumas destas recordações são horrorosas, mas o certo é que as sinto a aguçar-me a memória e o meu estado de alerta, da mesma forma que o gume de uma faca afia a ponta de um lápis, e só por isso compensam o sofrimento que causam. No entanto, a escrita e a memória por si só não são o suficiente. Também tenho um corpo, independentemente do quanto hoje em dia ele possa ser grotesco e estar deteriorado, e eu exercito-o tanto quanto possível. De início foi difícil - os velhos jarretas como eu não são muito dados ao exercício físico, quando este é feito sem um incentivo - mas agora é-me mais fácil, uma vez que passou a existir uma finalidade nos meus passeios.

Costumo sair antes do pequeno-almoço - na maior parte dos dias, assim que a manhã começa a despontar - para dar o meu primeiro passeio. Esta manhã estava a chover e o tempo úmido provoca-me dores nas articulações, mas vesti um impermeável que estava pendurado no bengaleiro à porta da cozinha, e mesmo com o tempo chuvoso saí. Quando um homem tem uma tarefa a cumprir, esta tem de ser levada a cabo, e se isso lhe causar dores, pois bem, tanto pior. Além do mais, há que levar em consideração todas as compensações. A principal é conseguirmos manter esse sentido do Tempo Verdadeiro, ao contrário do Tempo em Georgia Pines. E além disso, a chuva agrada-me, com dores ou sem dores. Especialmente, às primeiras horas da manhã, quando o dia ainda é jovem, e nos dá a impressão de estar repleto de possibilidades, até mesmo para um velhote desgastado como eu.

Atravessei a cozinha, detendo-me para implorar a um dos cozinheiros, de olhos ainda meio adormecidos, que me desse duas torradas, e saí. Percorri o campo de jogos e parte do pequeno campo de golfe coberto de ervas. Por detrás dessa área existe um arvoredo de pequenas dimensões, com uma vereda estreita e sinuosa, assim como dois barracões que já não são utilizados, e que se vão deteriorando com a passagem do tempo. Num passo lento, percorri este caminho, escutando o gotejar da chuva, suave e envolto em mistério, a tombar sobre os pinheiros, enquanto ia trincando as torradas com os poucos dentes que me restam. Sentia dores nas pernas, mas estas não eram muito intensas e conseguiam suportar-se. De uma maneira geral, sentia-me bastante bem. Inspirei o ar úmido e pardacento tão profundamente quanto me foi possível, os meus pulmões engolindo-o como se fosse comida.

Quando cheguei ao segundo dos velhos barracões que mencionei, entrei durante algum tempo e tratei do que tinha a tratar ali.

Vinte minutos mais tarde, quando voltei à vereda por onde tinha ido, comecei a sentir o bichinho da fome a agitar-se no meu estômago; pensei que já me apetecia alguma coisa um pouco mais substancial do que as torradas. Talvez uma tigela de papas de aveia, ou mesmo um ovo mexido com uma salsicha ao lado. Gosto de salsichas, sempre gostei, mas hoje em dia, se por acaso como mais do que uma, tenho propensão a ficar com diarréia. No entanto, só uma não deveria causar-me transtorno. Em seguida, com a barriga cheia e com o ar úmido ainda a espevitar-me o cérebro (ou assim o esperava), tencionava ir para o solário começar a escrever sobre a execução do Eduard Delacroix. Fá-lo-ia o mais depressa possível, para não perder a coragem.

Quando voltei a atravessar o campo de jogos, em direção à porta da cozinha, era o Mister Jingles que me preenchia os pensamentos - a maneira como o Percy Wetmore o tinha esmagado com o sapato, partindo-lhe a espinha, e de como o Delacroix havia desatado a gritar ao dar-se conta daquilo que o seu inimigo fizera - e só dei pela presença do Brad Dolan, que estava meio oculto pelos contentores do lixo, quando ele subitamente me agarrou pelo pulso.

- Com que então saíste para dar um pequeno passeio, não é verdade, Paulie? - perguntou ele.

Dei um safanão, soltando o pulso, sobressaltado - qualquer pessoa apanhada de surpresa faria a mesma coisa - mas não só. Recordam-se de que eu estivera a pensar no Percy Wetmore, e de cada vez que vejo o Brad lembro-me logo do Percy. Isso deve-se em parte ao fato de o Brad andar sempre com um livro de bolso enfiado na algibeira (no caso do Percy era sempre uma revista de aventuras; com o Brad são livros de anedotas que só têm graça no caso de se ser estúpido, ou ter mau coração), e à maneira como ele se comporta, como se fosse o maior, mas principalmente por ele ser matreiro e ter prazer em fazer mal aos outros. Reparei que acabara de pegar ao trabalho - nem sequer ainda tivera tempo de vestir o uniforme branco de servente do lar. Trazia um par de calças de ganga e uma camisa grosseira. Numa das mãos tinha o que restava de um bolo que roubara da cozinha. Estivera debaixo do beiral a comê-lo, para se proteger da chuva. E para poder observar a minha chegada, nesta altura estou bem certo disso. Também estou certo de outra coisa: preciso de ter cuidado com o Brad Dolan. Ele não gosta muito de mim. Não sei por que razão, mas também nunca cheguei a saber porque é que o Percy Wetmore sempre antipatizara com o Delacroix. Na realidade, antipatia é uma palavra demasiado fraca. O Percy odiara o Del com todas as veias da sua alma desde o primeiro instante em que o pequeno francês surgira na Milha Verde.

- O que é que se passa com esse impermeável que trazes vestido, Paulie? - perguntou ele, sacudindo a gola. - Não é teu. - Tirei-o do corredor, junto à porta da cozinha - repliquei. Detesto que ele me chame Paulie e estou convencido de que ele está bem ciente disso, mas raios me partissem se eu lhe daria a satisfação de aludir ao assunto. - Há imensos impermeáveis pendurados no bengaleiro. Seja como for, não estou a danificá-lo, não te parece? E é exatamente para a chuva que eles se destinam.

- Mas não foram feitos para ti, Paulie - retorquiu ele com um pequeno sorriso de desdém. - Aí é que está o busílis. Esses impermeáveis são para os empregados e não para os residentes.

- Continuo sem compreender que mal é que posso ter feito.

Ele lançou-me um sorriso por entre os lábios cerrados.

- Isto não tem nada a ver com mal, mas sim com os regulamentos. O que seria a vida sem regulamentos? Paulie, Paulie, Paulie. - Abanou a cabeça, como se só o fato de ser forçado a olhar para mim fizesse com que lamentasse estar vivo. - Provavelmente, estás convencido de que um peido velho como tu não tem de se preocupar mais com os regulamentos, mas isso não é verdade. Paulie.

A sorrir para mim. Antipatizando comigo. Talvez chegasse ao ponto de me odiar. E porquê? Não sei. Por vezes não há qualquer motivo. Esse é que é o aspecto assustador da questão.

- Bom, lamento muito se desobedeci aos regulamentos - continuei. A minha voz saiu choramingada e um pouco esganiçada; detestei-me por ter falado daquela maneira, mas já sou velho e as pessoas de idade choramingam com facilidade. As pessoas velhas assustam-se com facilidade.

- As tuas desculpas são aceites - disse o Brad com um acenar de cabeça. - Agora vai pendurar isso. Em qualquer dos casos, não tens nada que andar a passear à chuva. Muito em especial, naquele arvoredo. E se escorregasses e caísses, fraturando o raio da bacia? Hem? Quem é que pensas que seria obrigado a arrastar a tua velha carcaça pela colina acima?

- Não sei - respondi-lhe. O meu único desejo era afastar-me dele. Quanto mais o ouvia falar, mais o achava parecido com o Percy. O William Wharton, o tresloucado que estivera na Milha Verde durante o Outono de 32 numa ocasião agarrou no Percy e assustou-o tanto que ele mijou nas calças. Se falarem disto a alguém, dissera-nos o Percy depois do ocorrido, daqui a uma semana estão na fila para a sopa dos pobres. Agora, depois de decorridos todos esses anos, eu quase conseguia ouvir o Brad Dolan a articular aquelas mesmas palavras, exatamente no mesmo timbre de voz. É como se, ao escrever sobre esses tempos passados, eu tivesse aberto uma porta medonha que ligava o passado ao presente - o Percy Wetmore ao Brad Dolan, a Janice Edgecombe à Elaine Connelly, a penitenciária de Cold Mountain ao lar da terceira idade de Georgia Pines. Se este pensamento não me mantiver acordado à noite, estou em crer que nada o conseguirá.

Fiz menção de entrar pela porta da cozinha, e o Brad voltou a agarrar-me pelo pulso. Não sei quanto à primeira vez, mas desta feita ele o fez de propósito, apertando-me o pulso até me magoar. Os seus olhos percorriam tudo em seu redor, certificando-se que não havia ninguém por ali com aquele tempo úmido do início da manhã, ninguém que pudesse testemunhar que ele estava a abusar de uma das pessoas de idade das quais deveria cuidar.

- O que é que fazes quando vais por aquele caminho? - perguntou ele. - Eu sei que não vais por ali para bateres uma punheta, esses dias há muito que ficaram para trás. Portanto, o que é que vais fazer?

- Nada - respondi, dizendo a mim mesmo que me acalmasse, para não lhe dar a mostrar o quanto estava a magoar-me; era preciso manter a calma, ter em mente que ele só mencionara a vereda e não dissera nada sobre o barracão. - Vou só passear. Pôr as idéias em ordem.

- É tarde de mais para isso, Faulie, a tua mente nunca voltará a pensar com clareza. - Uma vez mais, apertou o meu pulso de homem fragilizado pela idade, fazendo pressão sobre os ossos quebradiços, sempre a olhar de um lado para o outro para se assegurar de que ninguém presenciava aquela cena. O Brad não receava infringir os regulamentos; o seu único receio era ser apanhado a fazê-lo. Até nisso ele agia como a Percy Wetmore, o qual nunca permitia que ninguém se esquecesse que ele era sobrinho do governador do estado. - Tão velho como és, é um autêntico milagre que sejas capaz de te recordar de quem és. És demasiado velho. Até mesmo para um museu como este. Causas-me arrepios na espinha, Paulie.

- Larga-me - ripostei, tentando falar numa voz que não fosse choramingada. O que não se devia apenas ao meu orgulho. Pensei que se ele o detectasse poderia ficar todo inflamado, da mesma forma que o cheiro do suor pode, por vezes, inflamar um cão de maus fígados - um cão que, noutras circunstâncias, se limitaria a rosnar - levando-o a morder. Aquilo trouxe-me à recordação a imagem do repórter que fizera a cobertura do julgamento do John Coffey. O repórter era um homem horroroso de nome Hammersmith, e a coisa mais horrível acerca dele é que nunca se apercebera de como era horroroso.

Em vez de me soltar, o Dolan voltou a apertar-me o pulso. Comecei a gemer. Não queria fazer tal coisa, mas foi mais forte do que eu. As dores percorreram-me o corpo até aos tornozelos.

- O que é que costumas fazer ali em baixo, Paulie? Diz-me. - Nada! - respondi. Não chorava, ainda não, mas receava que isso viesse a acontecer dentro em pouco, caso ele continuasse a magoar-me daquela maneira. - Nada, limito-me a passear, eu gosto de passear, larga-me o pulso!

Ele acedeu, mas somente pelo tempo suficiente para poder agarrar-me pela outra mão. Essa estava fechada num punho. - Abre-a - disse ele. - Deixa o papá ver o que é que tens aí.

Obedeci-lhe, o que lhe provocou um resmungo de nojo. Eram só os restos da minha segunda torrada. Quando ele começara a apertar-me o pulso esquerdo,. eu cerrara-a na outra mão e, como estava barrada de manteiga - que é como quem diz... com um sucedâneo, como é evidente, eles ali não tinham manteiga da verdadeira -lambuzara-me os dedos.

- Vai para dentro e lava a porcaria das mãos - ripostou ele, retrocedendo e dando outra dentada no seu bolo. - Jesus Cristo!

Subi os degraus. Sentia as pernas a tremer, e o meu coração pulsava como um motor que tivesse válvulas que não vedassem e pistões velhos. Enquanto rodava a maçaneta que abriria a porta da cozinha – e me proporcionaria segurança - o Dolan continuou a falar.

- Se contares a alguém que eu te torci esse pulso velho, Paulie, eu digo-lhes que andas a ver coisas. O início da demência provocada pela senilidade, muito plausivelmente. E sabes que eles acreditarão em mim. Se por acaso houver nódoas negras, pensarão que foste tu que as fizeste a ti próprio.

Sim. Aquilo era verdade. E, uma vez mais, poderia muito bem ter sido o Percy Wetmore a proferir aquelas palavras, um Percy que conseguira manter-se jovem e malévolo, enquanto eu tinha envelhecido, ficando com um corpo frágil.

- Não tenciono dizer nada seja a quem for - repliquei entre dentes. - Não tenho nada a dizer.

- É isso mesmo, minha velha doçura. - A sua voz era suave e mordaz, a voz de um mentecapto (para utilizar o termo do Percy) que estava convencido que se manteria jovem para sempre. - E podes crer que vou descobrir o que é que andas a tramar. Não hei de descansar até saber. Estás a ouvir o que te digo?

Estava e muito bem, mas não lhe daria a satisfação de lho dizer. Entrei, atravessando a cozinha (chegava-me às narinas o aroma dos ovos e das salsichas, mas eu entretanto tinha perdido o apetite), e pendurei o impermeável no cabide. Em seguida, subi as escadas até ao meu quarto - descansando em cada degrau e dando tempo ao meu coração para que se acalmasse - afim de ir buscar o meu material de escrita.

Desci até ao solário; preparava-me para me sentar à pequena mesa junto das janelas, quando a minha amiga Elaine enfiou a cabeça pela porta entreaberta. Tinha um aspecto fatigado e, pensei, pouco saudável. Penteara os cabelos mas continuava com o roupão vestido. Nós, as velhas doçuras, não costumamos estar com muitas cerimônias, quanto ao traje que envergamos; na maior parte dos casos, não podemos dar-nos a esse luxo.

- Não quero incomodar - disse ela -, estou a ver que estás a preparar-te para começar a escrever...

- Não digas disparates - repliquei. - Tenho tempo de sobra. Entra.

O que a Elaine fez, mas continuando junto à porta.

- E que não consegui dormir... outra vez. E por acaso olhei pela janela ainda não há muito tempo... e...

- E viste o Dolan e eu próprio embrenhados numa pequena conversa deveras agradável - continuei. Esperava que ela se houvesse limitado a observar; que a janela dela se tivesse mantido fechada, impedindo-a de me ouvir a choramingar, pedindo ao homem que me largasse.

- Não me parece que tenha sido agradável nem tão-pouco amigável - acrescentou ela. - Paul, esse Dolan tem andado por aí a fazer perguntas a teu respeito. Fez-me perguntas sobre ti, na semana passada. Na altura não pensei muito no assunto, pois acho que ele é muito bisbilhoteiro em relação às outras pessoas, mas agora estou com algumas dúvidas.

- Fez perguntas sobre mim? - Só esperava que a minha voz não desse a entender o mal-estar que me invadira. - A perguntar o quê?

- Para começar, queria saber onde é que vais quando dás os teus passeios. E também por que razão vais passear. Tentei rir-me sem grande êxito.

- Aí está um homem que não acredita nos benefícios do exercício físico.

- Ele pensa que tu tens um segredo. - A Elaine fez uma pausa. - E eu também.

Abri a boca - não sei bem para dizer o quê - mas a Elaine ergueu uma das suas mãos enodadas, mas tão estranhamente bonitas, antes de eu ter oportunidade de proferir uma única palavra.

- Se for esse o caso, não pretendo saber o que é, Paul. Os teus assuntos só a ti dizem respeito. Foi assim que fui educada, embora isso não aconteça com toda a gente. Tem cuidado. Era só o que queria dizer-te. E agora vou deixar-te sozinho com a tua escrita.

A Elaine voltou-se, fazendo menção de se ir embora; antes que pudesse transpor a porta, chamei-a. Virou-se para mim com uns olhos inquiridores.

- Quando eu terminar o que tenho andado a escrever... - comecei a dizer, abanando ligeiramente a cabeça. Aquilo era incorreto. - Se eu conseguir acabar o que tenho andado a escrever, estarias disposta a lê-lo?

Pareceu ter ficado a pensar no assunto; ao fim de algum tempo, brindou-me com aquela espécie de sorriso por que um homem se poderia apaixonar facilmente, até mesmo um homem envelhecido como eu próprio.

- Para mim, isso seria uma honra - respondeu a Elaine por fim.

- É preferível leres antes de começares a falar em honras - retorqui, pensando na morte de Delacroix.

- Seja como for, gostaria de ler os teus escritos - continuou ela. - Cada palavra. Prometo. Mas primeiro tens de acabar de escrever.

Com aquelas palavras, deixou-me sozinho, mas ainda decorreu muito tempo até que começasse a escrever qualquer coisa. Fiquei sentado a olhar pela janela durante quase uma hora, batendo com a caneta contra a mesa, observando o dia pardacento a iluminar-se um pouco por breves instantes, a pensar no Brad Dolan, o qual me chama Paulie e nunca se cansa das piadas sobre os chinocas, os saloios e os negros, a pensar no que a Elaine Connelly tinha acabado de me dizer. Ele pensa que tu tens um segredo. E eu também.

Talvez eu tivesse. É possível que sim. E, como é evidente, o Brad Dolan queria conhecê-lo. Não porque pensasse que era importante (e calculo que não fosse, exceto para mim), mas só porque pensava que os velhos como eu não deviam ocultar segredos. Tão-pouco devem tirar os impermeáveis dos bengaleiros junto da porta da cozinha. Ou ficar com a idéia de que os da nossa igualha continuam a ser seres humanos. E por que razão não deveria ser-nos permitido tal idéia? Ele não sabe. E também nesse aspecto é muito parecido com o Percy.

Por conseguinte, os meus pensamentos, como as águas que dobram o cotovelo de um rio, regressaram finalmente ao ponto onde haviam estado na altura em que o Brad Dolan estendera a mão, perto da cozinha, para me agarrar o pulso: ao Percy, ao Percy Wetmore, o homem de espírito maldoso, e à forma como ele exercera a sua vingança sobre alguém que ousara rir-se de si. O Delacroix estava a lançar o carretel de cores garridas - aquele que o Mister Jingles ia buscar a correr - quando este fez ricochete na parede da cela, e saltou para o corredor. Não foi necessário mais nada; o Percy viu ali a sua grande oportunidade.

 

2

 

- Não, grande idiota! - berrou o Brutal, mas o Percy não lhe prestou a mínima atenção. Assim que o Mister Jingles chegou junto do carretel, demasiado concentrado no objeto para se aperceber de que o seu velho inimigo se encontrava por perto, o Percy colocou-lhe em cima a sola do seu pesado sapato preto de trabalho. Ouviu-se um estalar bastante audível quando a espinha do Mister Jingles se partiu, tendo começado a jorrar-lhe logo sangue da boca. Os seus pequenos olhos negros imobilizaram-se esbugalhados nas órbitas; neles li uma expressão de agonia e de surpresa que era demasiado humana.

O Delacroix gritou de dor e de horror. Lançou-se contra a porta da cela, enfiando os braços por entre as barras de ferro, esticando-se tanto quanto possível e gritando vezes sem conta o nome do rato.

O Percy voltou-se para ele com um sorriso nos lábios. Também se virou para o Brutal e para mim.

- Já está - disse ele. - Sabia que acabaria por apanhá-lo. Na verdade, era uma questão de tempo. - Virou costas e começou a andar pela Milha Verde, sem pressa, deixando o Mister Jingles estendido em cima do linóleo, o sangue vermelho a derramar-se por cima do verde.

O Dean levantou-se da mesa do guarda de serviço, batendo com o joelho num dos cantos, fazendo tombar o baralho de cartas com que tinha estado a jogar, que se espalharam em todas as direções. Nem o Dean nem o Harry, que estavam quase a terminar o seu turno, prestaram a mínima atenção às cartas.

- O que é que fizeste desta vez? - gritou o Dean ao Percy. - Que porra é que fizeste desta vez, meu estupor? O Percy não lhe deu resposta, passando junto da secretária a acamar o cabelo com os dedos. Atravessou o meu gabinete em direção à sala da arrecadação.

Foi o William Wharton quem respondeu no seu lugar. - Chefe Dean? Parece-me que o que ele fez foi ensinar a um certo francês que este não é muito esperto quando se ri dele - disse o Wharton, desatando a rir-se. Foi uma boa gargalhada, um riso do campo, jovial e profundo. Conheci pessoas ao longo desse período da minha vida (na sua maioria, pessoas deveras assustadoras), que só pareciam normais quando se riam. O Bill Selvagem era uma delas.

Uma vez mais, cheio de perplexidade, baixei o olhar até ao rato. Continuava ainda a respirar; viam-se pequenas gotículas de sangue entre os filamentos dos seus bigodes, e os olhos, que até então tinham estado brilhantes que nem pequenas contas negras, começavam a ficar toldados. O Brutal apanhou do chão o carretel colorido, olhou para o objeto e depois fitou-me. Mostrava-se tão aparvalhado quanto eu próprio. Atrás de nós, o Delacroix não parava de gritar, dando largas a todo o desgosto e horror que sentia. Não se tratava apenas do rato, como é óbvio. O Percy havia destruído o mecanismo de defesa do Delacroix, e todo aquele horror brotava do seu interior. Mas o Mister Jingles era o centro de todos esses sentimentos reprimidos; era horrível ouvi-lo.

- Oh, não - gritava ele repetidamente por entre os berros e as súplicas balbuciadas e as orações em cajun. - Oh, não, oh, não, pobre Mister Jingles, pobre velho Mister Jingles, oh, não.

- Dê-mo a mim.

Intrigado com aquela voz profunda e retumbante, ergui o olhar, sem que inicialmente soubesse a quem pertencia. Deparei com John Coffey. À semelhança do Delacroix, também enfiara os braços por entre as barras da porta da cela, mas ao contrário do Del, ele não os abanava. Limitava-se a mantê-los estendidos tão longe quanto podia, com as mãos abertas. Era uma postura quase de urgência. O seu timbre de voz possuía as mesmas características, motivo por que, suponho eu, de princípio não a reconheci como pertença sua. Dava a impressão de ser um homem diferente em relação àquela alma lacrimosa e perdida que ocupara a sua cela durante as últimas semanas.

- Entregue-mo, Mister Edgecombe! Enquanto ainda se vai a tempo!

Foi então que me lembrei do que ele fizera por mim, e compreendi. Supus que mal não faria, embora estivesse convencido de que também não iria servir de muito. Quando apanhei o rato do linóleo, retraí-me ao tocar-lhe no corpo - havia tantos ossos quebrados e espetados em vários pontos dos quartos traseiros e dianteiros do Mister Jingles, que a sensação era a de agarrar numa almofada de alfinetes coberta de pêlos. Aquilo não era nenhuma infecção urinária. Ainda assim...

- O que é que estás a fazer? - perguntou-me o Brutal quando coloquei o Mister Jingles na palma da gigantesca mão direita do John Coffey. - O que raio?...

O Coffey recolheu o rato através das barras. O animal mantinha-se inanimado na sua mão, com a cauda pendurada por cima do arco formado pelo polegar e dedo indicador, a agitar-se fracamente no ar. Em seguida, o Coffey cobriu a sua mão direita com a esquerda, criando uma espécie de concha, no interior da qual o rato se encontrava deitado. Tínhamos deixado de poder ver o Mister Jingles, víamos apenas a sua cauda, suspensa e contorcendo-se fracamente na ponta, qual pêndulo prestes a imobilizar-se. O Coffey ergueu as mãos até ao rosto e, ao fazê-lo, abriu os dedos da direita, criando espaços como os existentes entre as barras da prisão. Naquele momento, a cauda do rato continuava pendurada do lado das mãos virado para nós.

O Brutal aproximou-se de mim, continuando a segurar o carretel colorido.

- O que é que ele pensa que está a fazer? - Chüuuu - fiz-lhe eu.

Entretanto, o Delacroix parara de gritar.

- Por favor, John - sussurrou ele. - Oh, John ajuda-o, por favor ajuda-o, oh, s'il vous plaït.

O Dean e o Harry tinham-se juntado a nós; este último trazia numa das mãos o nosso velho baralho de cartas.

- O que é que se passa? - perguntou o Dean; como resposta, limitei-me a abanar a cabeça. Uma vez mais, estava a sentir-me hipnotizado, raios me partam se não estava.

O Coffey colocou a boca junto de dois dos seus dedos, inspirando profundamente. Por um momento, tudo se manteve em suspenso. Pouco depois, ergueu a cabeça, afastando-a das mãos, o que me permitiu ver a expressão de um homem que aparentava estar gravemente doente, ou sob um sofrimento terrível. Os seus olhos ardentes exibiam uma expressão alerta; os seus dentes superiores mordiam com força o lábio inferior; as suas faces negras tinham adquirido uma tonalidade desagradável, que mais se assemelhava a uma pasta de cinzas misturadas com lama. Emitiu um som estrangulado bem do fundo da garganta.

- Adorado Jesus, Senhor e Salvador - murmurou o Brutal. Os seus olhos pareciam querer saltar-lhe das órbitas. - O que é que?... - A voz do Harry mais parecia um ladrar. - O quê?

- A cauda! Não estás a ver? A cauda!

A cauda do Mister Jingles deixara de se assemelhar a um pêndulo prestes a imobilizar-se, e zurzia vigorosamente de um lado para o outro, como a cauda de um gato pronto a caçar pássaros. E então, do interior das mãos em concha do Coffey, ouviu-se um guinchar perfeitamente familiar.

O Coffey soltou uma vez mais aquele som estrangulado de quem estava amordaçado, e rodou a cabeça para o lado, como um homem que houvesse puxado um jato de escarros e pretendesse lançá-lo da boca para fora. Em vez disso, expeliu uma nuvem de insetos negros da boca e do nariz. - pelo menos, eu penso que fossem insetos, tal como os outros, mas até hoje não estou absolutamente certo disso. - Começaram a zunir à sua volta, formando uma nuvem escura que temporariamente obscureceu as suas feições.

- Credo, o que é aquilo?! - perguntou o Dean numa voz esganiçada e receosa.

- Não há problema - ouvi-me eu a dizer. - Não entres em pânico, está tudo bem, dentro de alguns segundos desaparecerão.

Tal como na ocasião em que o Coffey tinha curado a minha infecção urinária, os “bichinhos” ficaram brancos e desapareceram.

- Mas que merda é esta?! - sussurrou o Harry atônito. - Paul? - chamou o Brutal numa voz pouco firme. - Paul?

O Coffey voltara a apresentar um bom aspecto – como um fulano que tivesse conseguido cuspir um bocado de carne que estivera quase a sufocá-lo. Dobrou-se para baixo, colocou junto do chão as mãos que continuavam a formar uma concha, espreitou por entre os dedos e abriu-as. O Mister Jingles, são que nem um pêro - sem o mínimo defeito na espinha nem tão-pouco um único alto nos quartos - começou a correr. Deteve-se por breves instantes junto da porta da cela do Coffey, e em seguida atravessou a Milha Verde até à cela do Delacroix. Quando o rato ia a correr, reparei que ainda tinha algumas gotículas de sangue agarradas aos bigodes.

O Delacroix pegou no animal, rindo e chorando ao mesmo tempo, cobrindo o rato com beijos repenicados sem quaisquer mostras de embaraço. O Dean, o Harry e o Brutal observavam em silêncio, perplexos. Então, o Brutal avançou e entregou ao Delacroix o carretel colorido através das barras da cela. De princípio, este não reparou; estava demasiado enlevado com o Mister Jingles. Era como um pai cujo filho tivesse acabado de ser salvo de um afogamento. O Brutal bateu-lhe com o carretel no ombro. O Delacroix olhou, viu o que era, aceitou o carretel e voltou a dedicar toda a sua atenção ao Mister Jingles, acariciando-lhe o pêlo e devorando-o com os olhos, sentindo necessidade de renovar constantemente a sua percepção de que sim, o rato estava bem de saúde, o rato continuava inteiro e em excelente forma.

- Lança-o - disse o Brutal. - Quero ver como é que ele corre.

- Ele está bem, chefe Howell, ele está bem, louvado seja Deus...

- Lança o carretel - repetiu o Brutal, insistente. - Faz o que te digo, Del.

O Delacroix dobrou-se, um pouco relutante, pois não desejava que o Mister Jingles voltasse a sair-lhe das mãos, pelo menos de momento. Mas então, com toda a suavidade, arremessou o carretel. Este rolou pelo chão da cela, passando pela caixa de charutos Corona, até chegar à parede. O Mister Jingles foi atrás do objeto, embora o não fizesse com a celeridade que demonstrara anteriormente. Dava a impressão de coxear, ainda que ligeiramente, da pata traseira esquerda, pormenor que me despertou mais a atenção do que tudo o resto - era, suponho, o que tornava tudo aquilo tão real. Aquele pequeno coxear.

No entanto, o rato chegou junto do carretel, agarrou-o sem problemas e, com o focinho, empurrou-o para junto do Delacroix com o mesmo entusiasmo de sempre. Voltei-me para o John Coffey, que estava junto da porta da cela com um sorriso nos lábios. Era um sorriso cansado e não aquele que eu classificaria de realmente feliz; todavia, o sentido de urgência que eu lhe vira na fisionomia quando me implorara que lhe entregasse o rato tinha desaparecido, assim como a expressão de dor e de medo. Uma vez mais, era o nosso John Coffey, com o rosto de quem não se encontrava ali de corpo e alma e os estranhos olhos que pareciam fitar à distância.

- Conseguiste evitar o mal - disse eu. - Não foi, vadio?

- Foi isso mesmo - anuiu o Coffey. O sorriso alargou-se um pouco e, durante um momento ou dois, espelhou felicidade. - Eu consegui evitar o mal. Eu consegui evitar o mal, consegui evitar o mal no rato do Del. Eu ajudei... - A sua voz enfraqueceu incapaz de se recordar do nome.

- O Mister Jingles - adiantou o Dean. Observava o John com uns olhos intrigados e cautelosos, como se esperasse que ele ficasse envolto em chamas a qualquer instante, ou que talvez começasse a flutuar pela cela.

- É isso mesmo - disse o Coffey -, o Mister Jingles. Ele é um rato do circo. Vai viver numa casa com vidros de folha de mica.

- Podes apostar o que quiseres - retorquiu o Harry, juntando-se a nós na observação a que submetíamos o John Coffey. Por detrás de nós, o Delacroix deitara-se em cima da sua tarimba com o Mister Jingles em cima do peito. Entoava-lhe uma canção, uma qualquer melodia em francês que parecia ser uma canção de embalar.

Com o olhar, o Coffey percorreu a Milha Verde, detendo-se na mesa do guarda de serviço; fitou a porta que dava para o meu gabinete, concentrando-se na sala da arrecadação para lá deste.

- O chefe Percy é mau - disse ele. - O chefe Percy é mau. Pisou o rato do Del. Pisou o Mister Jingles.

E então, antes de lhe podermos dizer fosse o que fosse - isto é, se tivéssemos sido capazes de pensar em alguma coisa para lhe dizer - o John Coffey regressou à sua tarimba, deitou-se e voltou o rosto para a parede.

 

3

O Percy encontrava-se de costas para nós quando o Brutal e eu entramos na arrecadação, cerca de vinte minutos mais tarde. Descobrira uma lata de pomada para polir mobília nu ma prateleira por cima do cesto da roupa onde costumávamos colocar os nossos uniformes (e por vezes, também as roupas à paisana; a lavanderia da prisão não se interessava pelo que lavava) e começara a puxar lustro à madeira de carvalho dos pés e dos braços da cadeira elétrica. Isto, provavelmente, poderá parecer-vos aberrante, -talvez até mesmo macabro, mas, na minha opinião e na do Brutal, aquilo parecia ser a coisa mais normal que o Percy fazia em toda aquela noite. No dia seguinte, a Velha Faísca tinha encontro marcado com o seu público, e o Percy, finalmente, poderia dar a impressão de ser o responsável.

- Percy - chamei numa voz calma.

Voltou-se; a pequena canção que tinha estado a trautear morreu-lhe na garganta; olhou para nós. Não deparei com o receio de que estivera à espera, pelo menos de início. Apercebi-me de que o Percy parecia ter envelhecido. O John Coffey tinha razão. De fato, ele tinha um aspecto maligno. A maldade é como uma droga - ninguém à face da Terra se encontra mais qualificado do que eu para poder dizer isso - e ocorreu-me que, depois de ter experimentado, o Percy ficara viciado naquilo. Sentia prazer no que fizera ao rato do Delacroix. E sentia ainda mais prazer nos gritos de desgosto que o Delacroix soltara.

- Não comeces a implicar comigo - proferiu ele num tom de voz quase agradável. - Quer dizer, que diabo, não passava de um rato. Para começar, o seu lugar nunca foi aqui, como vocês muito bem sabem.

- O rato está de boa saúde - retorqui. Sentia o coração a bater-me aceleradamente dentro do peito, mas obriguei-me a falar numa voz calma, quase desinteressada. - Está ótimo. Anda outra vez a correr e a guinchar atrás do carretel. Tu não és melhor a matar ratos do que a fazer a maior parte das outras coisas que fazes por aqui.

O Percy olhava fixamente para mim, espantado e sem querer acreditar no que eu lhe dizia.

- Estás à espera que eu acredite numa coisa dessas.

O raio do animal ficou esborrachado! Eu ouvi o barulho que fez! Portanto, não podes...

- Cala a boca - atalhei.

Olhou para mim de olhos esbugalhados. - O quê? O que é que acabaste de dizer?

Dei um passo, aproximando-me mais dele. Sentia uma veia a latejar a meio da testa. Não era capaz de me recordar de qual fora a última vez em que me encolerizara.

- Não estás satisfeito por o Mister Jingles se encontrar bem de saúde? Depois de todas as conversas que tivemos sobre a nossa função de manter os prisioneiros calmos, em especial quando se encontram próximos do seu fim, pensei que ficarias contente. Aliviado. Porque o Del amanhã terá de fazer a caminhada final e tudo o mais.

O olhar do Percy desviou-se de mim para o Brutal; a sua calma estudada dissolveu-se na incerteza.

- Que raio de brincadeira é que pensam que estão a fazer? - perguntou ele.

- Nada disto é brincadeira, meu amigo - replicou o Brutal. - O fato de pensares que é... pois bem, é apenas uma das razões por que não podemos confiar em ti. Queres saber qual é a verdade? Acho que inspiras piedade.

- Aconselho-te a teres atenção ao que dizes - redarguiu o Percy. Naquele momento, transparecia na sua voz uma certa agressividade. Ao fim e ao cabo, o medo apoderava-se dele a pouco e pouco... medo daquilo que talvez pretendêssemos dele, medo do que lhe pudéssemos vir a fazer. Senti-me satisfeito ao detectar aquele medo. Assim era mais fácil lidar com ele. - Eu tenho conhecimentos. Gente importante.

- Assim o dizes, mas és um grande sonhador - acrescentou o Brutal. Dava a impressão de estar prestes a rebentar em gargalhadas.

O Percy deixou cair o pano do pó em cima do assento da cadeira com as braçadeiras nos braços e nas pernas.

- Eu matei aquele rato - continuou ele numa voz pouco firme.

- Vai ver com os teus próprios olhos - aconselhei. - Estamos num país livre.

- É o que vou fazer - disse ele. - Vou, sim.

Passou por nós num passo brusco, lábios firmemente cerrados, e com as suas pequenas mãos (o Wharton tinha razão; elas eram bonitas) a remexer no pente. Subiu os degraus e baixou a cabeça para poder passar por baixo da ombreira da porta que dava para o meu gabinete. O Brutal e eu deixamo-nos ficar junto da Velha Faísca, à espera que ele regressasse, e sem trocarmos qualquer palavra. Não sei quanto ao Brutal, mas por mim não conseguia pensar numa única coisa para dizer. Nem sequer sabia o que pensar acerca do que acabáramos de testemunhar.

Decorreram três minutos. O Brutal agarrou no pano do pó que o Percy utilizara e começou a puxar lustro às travessas espessas das costas da cadeira elétrica. Teve tempo de acabar uma e começar outra antes de o Percy ter regressado. Este ao descer os degraus do meu gabinete até à arrecadação, tropeçou e quase caiu por eles abaixo; quando se aproximou de nós, vinha num passo cambaleante. A sua expressão era de descrença e choque.

- Vocês trocaram de rato - afirmou ele com uma voz esganiçada e acusadora. - Não sei como, mas vocês substituíram o rato, grandes estupores. Estão a brincar comigo, mas garanto que irão arrepender-se, caso não ponham fim à brincadeira! Ainda hei de vê-los no raio das filas da sopa dos pobres se não pararem com isso! Quem é que julgam que são?

Interrompeu-se, arquejando e com falta de ar; tinha as mãos enclavinhadas.

- Eu digo-te quem é que somos - repliquei. - Somos as pessoas com quem trabalhas, Percy... mas não durante muito mais tempo. - Estendi os braços e assentei firmemente as minhas mãos sobre os seus ombros. Não com muita força, mas ainda assim com firmeza. Sim, de fato foi isso. - Tira as... - começou o Percy a dizer, erguendo as mãos até às minhas.

O Brutal agarrou-lhe na mão direita - envolvendo por completo aquela mão pequena, macia e branca, que desapareceu no interior do punho bronzeado do Brutal.

- Cala o buraco dos bolos, filho. Se sabes o que é bom para ti, aproveita esta última oportunidade para limpar a cera que te tapa os ouvidos.

Fi-lo dar meia volta, icei-o para cima do estrado e obriguei-o a retroceder até que a parte de trás dos seus joelhos bateu contra o assento da cadeira elétrica, forçando-o a sentar-se. Toda a sua calma se esfumara, assim como a maldade e a arrogância. Aquelas facetas do seu caráter eram verdadeiras, mas é preciso não esquecermos que o Percy ainda era muito jovem. Naquela idade, elas não passavam de uma camada fina de verniz, como se fossem um tom desagradável de tinta de esmalte. Continuava a ser possível descascar a camada. Calculei que naquele momento o Percy estivesse pronto para ouvir o que tínhamos a dizer.

- Quero a tua palavra - disse eu.

- A minha palavra sobre o quê? - Os seus lábios continuavam a querer exibir um esgar escarninho, mas os olhos mostravam-se aterrorizados. A energia que vinha do quadro elétrico estava desligada, mas o assento.de madeira da Velha Faísca possuía um poder muito próprio, e, naquele momento, imaginei que o Percy estaria a senti-lo.

- Atua palavra de que se amanhã à noite te deixarmos trabalhar na linha da frente irás de fato para o Briar Ridge, deixando-nos em paz de uma vez para sempre - declarou o Brutal, expressando-se com uma veemência que eu nunca lhe tinha ouvido. - Que pedirás transferência logo no dia seguinte.

- E se eu não quiser? E se eu decidir telefonar a umas determinadas pessoas, informando-as de que vocês me ameaçam e não param de me assediar? Que se comportam como arruaceiros para comigo?

- É possível que corram com os nossos traseiros daqui para fora se os teus conhecimentos forem tão bons como pareces acreditar que são - retorqui -, mas juro-te que antes disso trataremos de garantir que também deixarás derramado no chão o teu quinhão justo de sangue, Percy.

- Por causa desse rato? Pensam que alguém vai interessar-se por eu ter pisado o rato de estimação de um assassino condenado à morte? Fora das paredes deste asilo de doidos?

- Não. Mas há três homens que te viram de braços cruzados enquanto o Bill “Selvagem” Wharton tentava estrangular o Dean Stanton com a corrente que lhe prendia os pulsos. As pessoas interessar-se-ão por isso, Percy, garanto-te que sim. Se tiver conhecimento dessa situação, até o manda-chuva do teu tio governador se interessará.

A testa e as bochechas do Percy enrubesceram com manchas avermelhadas.

- E pensas que alguém acreditaria em ti? - perguntou ele; contudo, a sua voz tinha perdido muita da força que a ira lhe emprestara. Era evidente que o Percy pensava que alguém iria acreditar em nós. E não gostava de se ver metido em problemas. Infringir os regulamentos não era uma coisa por aí além. Mas ser apanhado a infringi-los já não era nada bom. - Quero acrescentar que tenho algumas fotografias do pescoço do Dean tiradas antes de os hematomas terem começado a desaparecer - continuou o Brutal. Eu não fazia a mais pequena idéia se aquilo corresponderia ou não à verdade, mas o que é certo é que soava bem. - Sabes o que é que essas fotografias dizem? Que o Wharton teve uma esplêndida oportunidade antes de alguém o ter impedido de continuar, embora tu te encontrasses mesmo junto dele, e ainda por cima numa posição em que ele não poderia ter dado pela tua presença. Ver-te-ias obrigado a dar resposta a umas quantas perguntas bem difíceis, não te parece? E uma coisa dessa natureza pode bem acompanhar um homem durante bastante tempo. O mais certo seria acompanhá-lo até muito depois de os seus familiares terem deixado de exercer funções na capital do estado e regressado a suas casas, onde passarão o tempo a beber uísque com folhas de hortelã-pimenta, sentados no alpendre da frente. A folha de serviço de um homem pode transformar-se numa coisa deveras interessante, e há muita gente que tem a oportunidade de a examinar ao longo de uma vida.

Os olhos do Percy percorriam cada um de nós, refletindo desconfiança. A sua mão esquerda ergueu-se até aos cabelos, que alisou. Não disse nada, mas pensei que quase o tínhamos na mão.

- Vamos lá a pôr fim a isto - disse eu. - Não te apetece estar aqui mais do que nós te queremos aqui, não será verdade?

- Eu detesto trabalhar aqui! - explodiu ele. - Odeio a forma como sou tratado, o fato de nunca me teres dado qualquer oportunidade!

A última observação encontrava-se longe da verdade, mas considerei que a ocasião não era propícia a discutir o assunto. - Mas também não gosto que me dêem ordens a torto e a direito. O meu pai ensinou-me que assim que começamos a percorrer esse caminho, o mais certo é acabarmos por permitir que as pessoas façam gato-sapato de nós durante toda a vida. - Os seus olhos, que não eram tão bonitos como as mãos, chisparam. - Muito em particular, não me agrada receber ordens de gorilas gigantescos como este tipo. - Lançou um olhar ao meu velho amigo e resmungou: - Brutal... Pelo menos deram-te a alcunha adequada.

Tens de compreender uma coisa, Percy - atalhei. - Quando se observam as coisas da nossa perspectiva, vemos que és tu quem tem andado a fazer gato-sapato de nós. Dizemos-te vezes sem conta como é que costumamos fazer as coisas e tu continuas a fazê-las como bem te apetece, escudando-te atrás dos teus conhecimentos na política sempre que as coisas dão para o torto. O fato de teres espezinhado o rato do Delacroix... - O Brutal olhou para mim, chamando-me a atenção, pelo que arrepiei rapidamente caminho. - De teres tentado pisar o rato do Delacroix... ilustra bem o nosso ponto de vista. Forças as coisas, forças e voltas a forçar; estamos apenas a pagar-te na mesma moeda e mais nada. Mas ouve bem, se andares acertadamente, acabarás por sair de tudo isto muito bem visto... como um jovem em franca ascensão, a cheirar a rosas. Ninguém precisa de vir a ter conhecimento desta nossa pequena conversa. Portanto, o que é que tens a dizer? Comporta-te como um adulto. Promete-nos que depois do Del te irás embora.

O Percy ficou a pensar no assunto. Após alguns momentos, surgiu-lhe no olhar uma determinada expressão, o gênero daquelas com que um fulano fica depois de ter tido uma boa idéia. Isso não me agradou muito, uma vez que qualquer idéia que pudesse parecer boa ao Percy não seria certamente boa para nós.

- Se não por mais nada - interveio o Brutal -, pensa pelo menos no quanto seria agradável ficares bem longe do saco de pus do Wharton.

O Percy assentiu com a cabeça; deixei-o levantar-se da cadeira. Endireitou a camisa do uniforme, meteu a fralda para dentro das calças e com o pente deu uma penteadela nos cabelos. Em seguida, olhou para nós.

- Muito bem, de acordo. Amanhã à noite estarei na linha da frente para o Del; peço a transferência para o Briar Ridge logo no dia seguinte. E a partir daí ficamos quites. Está bem assim?

- Suficientemente bem - respondi. Ele continuava a manter aquela expressão nos olhos; naquela altura, porém, eu sentia-me demasiado aliviado para me interessar por aquele Pormenor.

- Damos um aperto de mão para selar o assunto? - perguntou o Percy, estendendo a mão.

Assim fiz. O Brutal também lhe apertou a mão. Conseguira enganar-nos uma vez mais.

 

4

O dia seguinte provou ser o mais abafado e o último do nosso estranho Outubro, que tão quente se mantivera até então. A oeste ouvia-se o ribombar da trovoada que me acompanhou até ao trabalho, e as nuvens enegrecidas haviam começado aí a formar um manto. À medida que a noite descia sobre nós, mais elas se aproximavam; por entre aquele manto nebuloso, avistávamos as forquilhas azuis e brancas dos relâmpagos que as aguilhoavam. Por volta das dez da noite, o município de Trapingus foi atingido por um tornado - provocou a morte a dez pessoas e arrancou os telhados das cavalariças municipais de Tefton - acompanhado de trovoadas de grande intensidade e vendavais, que se abateram sobre Cold Mountain. Mais tarde ocorreu-me que eram os próprios céus que protestavam pela má morte do Eduard Delacroix.

Continuar: parte 2 de 3