À Espera de um Milagre
Parte Cinco ........................................................................................
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Jornada na noite
1
Mr. H. G. Wells em tempos escreveu uma história sobre um homem que inventou uma máquina do tempo, e eu cheguei à conclusão que, ao escrever estas memórias, criei a minha própria máquina do tempo. Ao contrário da de Wells, esta só pode viajar para o passado - na realidade, de regresso a 1932, altura em que eu era o manda-chuva dos guardas prisionais do Bloco E, na penitenciária de Cold Mountain - mas, não obstante essa peculiaridade, é fantasmagoricamente eficiente. Seja como for, esta máquina do tempo traz-me à recordação o velho Ford que eu conduzia nessa altura: podia-se ter a certeza de que o motor acabaria por pegar, embora nunca se soubesse se uma volta com a chave na ignição seria o suficiente para iniciar a combustão ou se seria necessário utilizar a manivela, até que o nosso braço estivesse prestes a soltar-se do corpo devido ao esforço.
Tenho tido muitos arranques fáceis desde que comecei a nanar esta história sobre o John Coffey, mas ontem fui obrigado a servir-me da manivela. Estou em crer que foi por ter chegado ao assunto da execução do Delacroix, e parte da minha mente não desejar reviver esses momentos. Tratou-se de uma morte muito má, uma morte terrível, e foi-o por causa do Percy Wetmore, o jovem que adorava pentear-se, mas que não era capaz de suportar que se rissem dele - nem sequer um pequeno francês, meio calvo, que jamais voltaria a ver outro Natal.
No entanto tal como acontece com a maioria das tarefas repugnantes, o que custa é começar. Para um motor é indiferente que a sua ignição se faça por meio de chave ou de manivela; depois de ligado, funciona sempre da mesma maneira. Foi o que aconteceu comigo ontem. Ao princípio, as palavras começaram a brotar-me da boca aos arrancos, mas depois seguiram-se frases completas que culminaram numa torrente de fluência verbal. A escrita é uma forma bastante aterradora e muito especial de rememorar, tal como vim a descobrir. Reveste-se de uma inteireza que quase se assemelha a um crime de estupro. É possível que eu tenha essa percepção somente porque sou um homem já muito velho (por vezes tenho a sensação de que isso aconteceu nas minhas costas, sem que eu me desse conta); todavia, não estou muito seguro. Acredito que a combinação lápis e memória dá origem a uma magia prática, e a magia é perigosa. Na minha qualidade de homem, que conheceu o John Coffey e assistiu àquilo que ele era ca- paz de fazer - tanto aos ratos como aos homens - sinto-me bastante habilitado a fazer essa afirmação.
A magia é perigosa.
Em qualquer dos casos, ontem escrevi durante todo o dia, as palavras fluíram sem a mínima dificuldade, e o jardim de' Inverno deste glorioso lar para pessoas da terceira idade desapareceu para dar lugar à arrecadação situada no extremo da Milha Verde, onde tantas das minhas crianças problemáticas se sentaram pela última vez, e ao fundo das escadas que davam acesso ao túnel abaixo da estrada. Foi aí que o Dean, o Harry, o Brutal e eu próprio confrontamos o Percy Wetmore a por causa do corpo fumegante do Eduard Delacroix, e onde o obrigamos a renovar a sua promessa de que pediria transferência para o Briar Ridge, o estabelecimento hospitalar do estado destinado aos doentes mentais.
No solário há sempre flores frescas, mas, por volta do meio-dia de ontem, a única coisa que me chegava às narinas era o cheiro nauseabundo da carne cozinhada do corpo do homem morto. O som da máquina de cortar relva no relvado mais abaixo fora substituído pelo gotejar cavo da água que se infiltrava lentamente através do teto abaulado do túnel. Eu viajara de regresso a 1932, se não corporalmente, pelo menos de alma e mente.
Dispensei o almoço, tendo ficado a escrever até mais ou menos às quatro da tarde, e, quando por fim pousei o lápis, sentia a mão dorida. Num passo lento dirigi-me à extremidade do corredor do segundo andar. Nesse lugar existe uma janela sobranceira ao parque de estacionamento dos funcionários do lar. O Brad Dolan, o servente que me faz lembrar o Percy - e aquele que mostra uma curiosidade excessiva; quanto às minhas idas e vindas e quanto ao que faço durante os meus passeios - conduz um velho Chevrolet cujo pára-choques tem um autocolante que diz: “Eu VI DEUS E O SEU NOME É NEWT.” O automóvel não estava no parque de estacionamento; o Brad tinha terminado o seu turno e seguira para qualquer que fosse o jardim a que chamava lar. Imaginei uma caravana em cujo interior estivessem coladas com fita-cola as páginas centrais das revistas pornográficas, com latas de cerveja Dixie nas prateleiras.
Saí através da cozinha onde já haviam começado a preparar o jantar.
- O que é que leva nesse saco, Mister Edgecombe? --perguntou-me o Norton.
- É só uma garrafa vazia - respondi-lhe. - Lá em baixo, no bosque, descobri a fonte da juventude. Todas as tardes, por volta desta hora, vou até lá buscar um pouco. Costumo beber o líquido antes de me deitar. Só te digo que é de boa qualidade.
Pode ser que o mantenha jovem - interveio George, o outro cozinheiro -, mas não está a fazer nada para que fique mais bem-parecido.
Todos demos uma boa gargalhada com aquele comentário e eu saí para as traseiras. Dei comigo a olhar em redor, à procura do Dolan, embora o seu carro não se encontrasse ali; disse a mim próprio que era um idiota chapado por permitir que o homem me bulisse tanto com os nervos. Atravessei o campo de jogos. Para lá deste existe um arremedo de campo de golfe de aspecto miserável, que parece ser muito mais agradável nas fotografias das brochuras de Georgia Pines, havendo por detrás deste uma vereda sinuosa, que vai dar a um pequeno arvoredo situado a oriente do lar. Também existem dois velhos barracões à acostamento deste caminho, que hoje em dia não têm qualquer serventia. Chegado ao segundo, que se situa próximo do elevado muro de pedra erigido entre os terrenos de Georgia Pines e a Auto-Estrada 47 que atravessa a Jórgia, entrei, tendo permanecido no seu interior durante algum tempo.
Nessa noite comi um bom jantar, vi um bocado de televisão e deitei-me cedo. Há muitas noites em que acordo e, sorrateiramente desço até à sala do televisor, onde costumo ver filmes antigos no canal de filmes americanos. No entanto, isso não aconteceu na noite passada; na noite passada dormi que nem uma pedra, sem ter sido perturbado por nenhum dos sonhos que tanto me têm assombrado desde que iniciei as minhas incursões no campo da literatura. Devo ter ficado cansado com toda a escrita desse dia. Como sabem, já não sou jovem como costumava ser.
Quando despertei e vi que o retalho de sol, que habitualmente se projeta no soalho às seis da manhã, já subira até aos pés da minha cama, levantei-me de um salto, tão alarmado que nem dei pelas guinadas de dor na bacia, nos joelhos e nas articulações dos tornozelos. Vesti-me o mais depressa possível e saí apressadamente para o corredor, em direção à panela que dá para o parque de estacionamento, na esperança de que o lugar onde o Dolan costumava estacionar o seu velho Chevrolet continuasse a estar desocupado. Por vezes ele chegava a atrasar-se meia hora...
Naquele dia não tive essa sorte. O carro estava no parque, ferrugento sob o sol da manhã. Porque Mr. Brad Dolan tinha um motivo para chegar pontualmente nestes últimos tempos, não é verdade? Sim. O velho Paulie Edgecombe costuma ir a um lugar desconhecido logo de manhã cedo, o velho Paulie Edgecombe anda a tramar alguma, e o Brad Dolan está determinado em descobrir do que é que se trata. O que é que costumas fazer ali em baixo, Paulie? Diz-me. O mais provável era ele já estar à minha espera, oculto para que eu não o visse. O melhor seria eu deixar-me ficar onde estava... Só que não podia.
- Paul?
Dei meia volta com tanta rapidez que estive prestes a cair. Era a minha amiga Elaine Connelly. Tinha os olhos muito abertos e estendera as mãos para a frente, como se pretendesse suster a minha queda. Felizmente para ela, recuperei o equilíbrio; a Elaine tem artrite e o mais provável teria sido eu quebrá-la em duas, como se fosse um galho seco, caso tivesse tombado para cima dos seus braços. O romance não more quando se entra naquela estranha zona que se situa para lá dos oitenta anos, mas podemos muito bem esquecer-nos das tretas do estilo E Tudo o Vento Levou.
- Desculpa - disse ela. - Não tive intenção de te pregar um susto.
- Não tem importância - repliquei-lhe, oferecendo-lhe o esboço de um sorriso. - É melhor acordar assim do que com um balde de água fria no rosto. Eu devia contratar-te para fazeres isso todas as manhãs.
- Estavas à procura do carro dele, não é assim? Do carro do Dolan. Não valia a pena tentar enganá-la, pelo que me limitei a acenar que sim.
. Quem me dera ter a certeza de que ele está na ala oeste. Gostaria de sair por algum tempo, mas não me quero arriscar a que ele me veja.
Elaine sorriu-me - o fantasma do sorriso endiabrado e tentador que ela deveria ter tido nos seus tempos de rapariga. - Ele é um intrometido, não achas?
- Sim - concordei.
- E também não está na ala oeste. Já desci para tomar o pequeno-almoço e posso dizer-te onde é que ele se encontra, porque dei uma espreitadela. Neste momento, está na cozinha.
Olhei para ela, embasbacado. Eu sabia que o Dolan era curioso, mas não àquele ponto.
- Não podes adiar o teu passeio da manhã? - perguntou a Elaine.
Fiquei a pensar naquela sugestão. - Suponho que poderia, mas... - Devias fazê-lo - sugeriu ela. - Não. Não devia - retorqui, resoluto.
Agora, pensei, ela vai perguntar-me onde é que vou, e o que é que tenho a fazer lá em baixo, no arvoredo, que seja assim tão diabolicamente importante.
A Elaine, porém, não fez isso. Pelo contrário, brindou-me uma vez mais com aquele seu sorriso endiabrado, que tinha um aspecto estranho e absolutamente maravilhoso naquele rosto emaciado e marcado pela dor.
- Conheces Mister Howland? - perguntou-me ela.
- Com certeza - respondi apesar de não costumar vê-lo muitas vezes. Encontrava-se instalado na ala oeste, o que, em Georgia Pines era quase o mesmo que viver num país vizinho. - Porque perguntas?
- Sabes o que é que ele tem de especial? - Sacudi a cabeça, indicando-lhe que não sabia. - Mister Howland - continuou Elaine exibindo um sorriso extremamente rasgado - é um dos únicos cinco residentes de Georgia Pines que tem autorização para fumar. Isso acontece porque ele já vivia cá antes de os regulamentos terem sido alterados.
Devia ser uma velha cláusula, antiqüíssima. E que lugar era mais adequado para tal cláusula do que um lar para a terceira idade?
A Elaine levou a mão à algibeira do seu vestido às riscas azuis e brancas, e tirou de lá duas coisas: um cigarro e uma carteira de fósforos.
- Apequena Ellie vai fazer xixi na cama esta noite cantarolou ela numa voz engraçada.
- Elaine, o que é...
- Acompanha esta velhota até ao andar de baixo - convidou ela, voltando a colocar o cigarro e os fósforos dentro do bolso, agarrando no meu braço com uma das suas mãos enodadas. Começamos a percorrer o corredor na direção inversa. Enquanto caminhávamos, decidi desistir e colocar-me' nas suas mãos. Elaine já tinha uma idade avançada e um corpo frágil; todavia, não era nada estúpida.
Enquanto seguíamos para baixo, andando com o cuidado que merecem as relíquias em que o tempo nos transformou, a Elaine retomou a palavra.
- Espera ao fundo dos degraus. Vou à ala oeste, à casa de banho do corredor. Sabes a qual é que estou a referir-me, não sabes?
- Sim - respondi. - A que fica mesmo ao lado da tina de hidromassagem. Mas porquê?
- Há mais de quinze anos que não fumo um cigarro continuou ela -, mas esta manhã está a apetecer-me fumar um. Não sei quantas baforadas serão necessárias para acionar o detector de incêndios que existe nessa casa de banho, mas tenciono vir a descobrir.
Fiquei a olhar para ela com uma nova admiração, pensando no quanto ela me recordava a minha mulher - a Jan poderia muito bem ter feito a mesma coisa. A Elaine fitou-me com o seu sorriso atrevido e endiabrado. Com a palma da mão em forma de concha envolvi-lhe a nuca esguia, cheguei o rosto dela ao meu e beijei-a ao de leve nos lábios.
- Amo-te, Ellie - disse-lhe eu.
- Mas que conversa tão séria - retorquiu ela, mas eu vi que se sentia agradada.
- E quanto ao Chuck Howland? - perguntei. - Isto vai arranjar-lhe problemas?
- Não, porque ele está na sala a ver televisão com mais duas dúzias de pessoas. Assim que o detector de incêndio entrar em ação e o alarme da ala oeste desatar a tocar, eu tenciono desaparecer rapidamente.
. Tem cuidado, não vás cair e magoar-te, mulher. Eu nunca seria capaz de me perdoar se...
- Oh, deixa-te disso - atalhou a Elaine e desta vez foi ela quem me beijou. O amor entre as ruínas humanas. É possível que a alguns de vós isto possa parecer estranho, ou grotesco, mas permitam-me que vos diga uma coisa, meus amigos: um amor que possa parecer estranho é melhor do que amor nenhum.
Observei-a a afastar-se num passo lento e rígido (no entanto, a Elaine só se serve de uma bengala nos dias de chuva, e, mesmo nessas alturas, só se as dores forem insuportáveis; é uma das suas poucas vaidades), e aguardei. Passaram cinco minutos, depois dez, e quando eu já estava prestes a concluir que ou ela tinha perdido a coragem, ou então descobrira que a pilha que acionava o detector de incêndios da casa de banho estava gasta, começou a soar o alarme na ala oeste com um som estridente e ininterrupto.
Sem mais delongas, dirigi-me para a cozinha, embora caminhasse num passo lento - não havia razão para me apressar até ter a certeza de que o Dolan não se cruzaria comigo. Entretanto, começou a sair da sala da televisão (aqui chamam-lhe Centro Recreativo; ora, isso é que é grotesco) um grupo de velhotes, a maioria de roupão, curiosos por saberem o que é que estava a passar-se. O Chuck Howland encontrava-se entre eles, tal como verifiquei para meu grande contentamento.
- Edgecombe! - chamou o Kent Avery na sua voz enrouquecida, agarrando-se à andadeira com uma mão, enquanto com a outra coçava obsessivamente a região das virilhas por baixo do pijama. - Trata-se de um alarme a sério ou outro dos falsos? O que é que te parece?
- Acho que não há maneira de saber - respondi. Nessa altura passaram por nós três serventes a correr em direção à ala oeste, gritando às pessoas que se encontravam arpadas junto da porta da sala de televisão, que saíssem para o exterior onde deveriam aguardar até que alguém lhes dissesse que não havia perigo. O terceiro deles era o Brad Dolan. Quando passou nem sequer olhou para mim, fato que me agradou extraordinariamente. Enquanto me dirigia para a cozinha, ocorreu-me que a dupla formada por a Elaine Connelly e o Paul Edgecombe seria provavelmente uma dupla que chegaria para uma dúzia de Brad Dolan, juntamente com meia dúzia de Percy Wetmore para compor o ramalhete.
Os cozinheiros continuavam a arrumar as coisas do pequeno-almoço na cozinha, sem prestarem a mínima atenção ao alarme contra incêndios, o qual continuava a fazer-se ouvir com toda a estridência.
- Mister Edgecombe - disse o George -, parece-me que o Brad Dolan andava à sua procura. De fato, perdeu-o, por pouco.
Que sorte a minha!, pensei, tendo dito em voz alta que haveria de me cruzar mais tarde com o Dolan. Em seguida perguntei se havia sobrado alguma torrada do desjejum.
- Com certeza - disse o Norton - mas nesta altura já está completamente fria. Esta manhã atrasou-se.
- Pois atrasei, mas tenho fome.
- Só preciso de um minuto para lhe preparar uma torrada fresca e bem quentinha - acrescentou o George, estendendo a mão para o pão.
- Não, a fria serve perfeitamente - atalhei e quando ele me deu duas torradas em pão de forma (com uma expressão intrigada... na realidade, tanto um como o outro se mostravam deveras intrigados), saí apressadamente porta fora, sentindo-me como o rapazinho que em tempos fora, faltando à escola para poder ir à pesca, levando um bolo embrulhado em papel de cera na parte da frente da camisa.
Já do lado de fora da porta da cozinha, olhei rapidamente à minha volta, numa atitude reflexa, à procura do Dolan, não tendo avistado nada que pudesse alarmar-me; dirigi-me num passo apressado para o campo de jogos e atravessei a zona de golfe, mordiscando uma das torradas enquanto caminhava. Quando cheguei ao arvoredo, que me protegeria de olhares indiscretos, abrandei o passo e, ao percorrer a vereda, os meus pensamentos concentraram-se na pavorosa execução do Eduard Delacroix.
Nessa mesma manhã, eu falara com o Hal Moores e ele dissera-me que o tumor que a Melinda tinha no cérebro estava a fazer com que ela às vezes praguejasse e utilizasse uma linguagem ordinária... o que a minha mulher, posteriormente, classificou (bastante a medo; ela não sabia se se tratava exatamente da mesma coisa) de Síndrome de Tourettet 13. Os tremores na voz do Moores, em conjunto com a maneira como o John Coffey curara tanto a minha infecção urinária como a espinha fraturada do rato de estimação do Delacroix eram fatores que finalmente me haviam impelido para lá da linha que se estende entre o pensar uma determinada coisa e o passar à fase de concretização dessa mesma coisa.
E existia algo mais. Uma coisa que se relacionava com as mãos do John Coffey e com o meu sapato.
Por conseguinte, eu telefonara aos homens com quem trabalhava, os homens a quem tinha vindo a confiar a minha vida ao longo dos anos - o Dean Stanton, o Harry Terwilliger e o Brutos Howell. Eles foram almoçar a minha casa no dia seguinte ao da execução do Delacroix e escutaram-me com atenção a delinear-lhes o plano que concebera. É claro que todos eles sabiam que o Coffey tinha curado o rato; de fato, o Brutal até assistira a essa cura. Assim, quando sugeri que um outro milagre poderia vir a dar resultado, caso levássemos o John Coffey até junto da Melinda Moores, eles não desataram a rir-se. Foi o Dean Stanton quem levantou a questão mais preocupante: e se o John Coffey decidisse tentar a fuga enquanto o levávamos a dar aquele passeio pelo campo?
- Suponhamos que ele tinha oportunidade de matar alguém - perguntara Dean. - Eu não gostava nada de perder o emprego e passar uma temporada na penitenciária... Tenho mulher e filhos que dependem de mim para comer mas não me parece que odiaria qualquer dessas coisas tanto como ter na consciência o peso de outra garotinha morta.
13 (Uma doença rara, que deve o seu nome ao médico francês Georges Gilles de la Tourette caracterizada por tiques involuntários e por uma verbalização incontrolável, que envolve especialmente ecolalia e o uso de linguagem obscena. (N. da T.)
Naquele momento fez-se silêncio, os três ficaram a olhar para mim, para ver como é que eu responderia àquilo. Eu sabia que tudo iria alterar-se se dissesse o que tinha na ponta da língua; chegáramos a um ponto para lá do qual era impossível bater em retirada.
Deve acrescentar-se que, pelo menos no que me dizia respeito, a retirada já era impossível. Abri a boca e comecei a falar.
- Isso não virá a acontecer - afirmei.
- Como é que podes estar assim tão certo? - perguntou o Dean.
Não dei resposta imediata àquela pergunta. Não sabia bem por onde havia de começar. Eu soubera de antemão que aquela questão acabaria por vir à baila, mas continuava sem saber como dizer-lhes o que sabia. Foi o Brutal quem veio em meu auxílio.
- Não acreditas que ele tenha feito aquilo, pois não, Paul? - perguntou-me ele com uma expressão de incredulidade. - Achas que o idiota gigante está inocente.
- Tenho a certeza absoluta que ele está inocente - repliquei.
- Como é que podes ter tanta certeza?
- Existem duas coisas - continuei. - Uma delas tem a ver com o meu sapato.
- Com o teu sapato?! - exclamou o Brutal, atônito. - O que é que o teu sapato tem a ver com o fato de o John Coffey ter morto, ou não, aquelas duas garotinhas?
- Ontem à noite descalcei um dos meus sapatos e entreguei-lho - expliquei. - Depois da execução, quer dizer, quando as coisas se acalmaram um pouco. Meti-o por entre as barras da cela e ele agarrou-o com aquelas suas mãos enormes. Disse-lhe que atasse o atacador. Eu tinha de estar absolutamente certo, porque, bem vêem, todas as nossas crianças problemáticas habitualmente usam pantufas, pelo que o meu sapato era necessário; não nos esqueçamos de que um homem realmente determinado a suicidar-se poderá fazê-lo com os atacadores, no caso de estar mesmo empenhado. Isso é uma coisa de que todos temos conhecimento.
Os três confirmaram com um acenar de cabeça.
- Ele colocou o sapato em cima das coxas e começou a entrecruzar as pontas dos atacadores sem qualquer dificuldade, mas de repente ficou sem saber o que fazer. Disse que tinha quase a certeza de que alguém lhe mostrara como é que se fazia quando ainda era um rapazinho, talvez o pai ou um dos namorados que a mãe tivera depois de o marido se ter ido embora, mas perdera-lhe o jeito.
- Eu estou como o Brutal... Continuo sem compreender qual a relação do teu sapato com o fato de o John Coffey ter morto ou não as gêmeas Detterick - disse o Dean. Consequentemente, passei uma vez mais em revista a história do rapto e assassínio - que eu lera nos jornais da biblioteca da prisão naquele dia de muito calor, enquanto os meus órgãos genitais pareciam uma fornalha e o Gibbons ressonava a um canto, e narrei tudo o que o repórter Hammersmith me contara posteriormente.
O cão dos Detterick não era muito de morder, mas a ladrar era dos melhores do mundo - expliquei. - O homem que levou as garotas manteve o animal calado, dando-lhe salsichas. Cada vez que lhe oferecia uma, chegava-se mais perto do animal, imagino eu, e, enquanto o rafeiro comia a última, agarrou-lhe a cabeça, torceu-lhe o pescoço e partiu-lho.
“Mais tarde, quando encontraram o Coffey, o assistente do xerife que chefiava o grupo de voluntários, o Rob McGee, reparou numa saliência no bolso do peito do fato-macaco que o Coffey usava na ocasião. De início, o McGee assumiu que poderia ser uma arma, mas o Coffey disse-lhe que se tratava de uma merenda, como efetivamente veio a provar-se, umas duas sanduíches com picles, embrulhadas em papel de jornal e atadas com um cordel. O Coffey não foi capaz de se lembrar de quem é que lhas tinha dado; a única coisa de que se recordava era que tinha sido uma mulher que usava um avental.
- Sanduíches, picles e nada de salsichas - disse o Brutal. - Não havia salsichas - concordei.
- Claro que não havia - interveio o Dean. - Ele deu-as a comer ao cão.
- Pois bem, foi isso exatamente o que o promotor de justiça disse durante o julgamento - admiti -, mas se de fato o Coffey tivesse desembrulhado a merenda para poder dar as salsichas ao cão como é que ele teria voltado a atar o embrulho de papel de jornal com o cordel? Nem sequer sei quando é que ele teria tido oportunidade para fazer isso, mas deixemos esse assunto de lado pelo menos de momento. O homem nem sequer é capaz de dar um nó simples.
Fez-se um longo silêncio de grande estupefação, que finalmente foi quebrado pelo Brutal.
Como é que ninguém se lembrou de levantar essa questão.durante o julgamento?
- Porque ninguém pensou nisso - retorqui, dando comigo a pensar de novo no Hammersmith, o repórter, o Hammersmith que tinha freqüentado a universidade em Bowlin Green, o Hammersmith que gostava de se considerar uma pessoa esclarecida, o mesmo Hammersmith que me dissera que os cães rafeiros e os negros eram mais ou menos a mesma coisa, que tanto uns como outros, de repente e sem mais nem menos, são capazes de nos decepar um membro, sem que para isso haja a mínima razão. Só que ele passara o tempo todo a referir-se a eles como os vossos negros, como se estes continuassem a ser propriedade de alguém... mas não propriedade sua. Não, não lhe pertenciam. Impossível que fossem seus. E nessa época, toda a região do Sul se encontrava repleta de gente da laia do Hammersmith. - Ninguém teve capacidade para pensar nesse aspecto, nem o próprio advogado de defesa do Coffey.
- Mas tu tiveste - retorquiu o Harry. - Raios partam isto, rapazes, aqui estamos nós sentados na companhia do Sherlock Holmes. - O seu tom de voz era, simultaneamente, um misto de assombro e troça.
- Oh, pára lá com isso - atalhei. - Também não me teria ocorrido se não tivesse começado a juntar o que ele disse nesse dia ao assistente do xerife, o McGee, com o que me disse depois de ter curado a minha infecção e depois de ter curado o rato.
- O quê? - perguntou o Dean.
- Quando eu fui à cela do Coffey, senti-me como se houvesse sido hipnotizado. Tive a sensação de que seria incapaz de resistir a fazer aquilo que ele queria, ainda que o tentasse.
- Não me agrada nada o que está implícito nisso - interveio o Harry, agitando-se na cadeira.
- Perguntei-lhe o que é que ele queria, ao que me respondeu: “Só evitar o mal”. Recordo-me disso com toda a clareza. E quando tudo ficou terminado e comecei a sentir-me melhor, ele ficou bem ciente disso. “Eu consegui evitar o mal”, disse o Coffey. “Eu consegui evitar o mal, não é verdade?”
- Tal e qual como com o rato - comentou o Brutal com um acenar de cabeça. - Tu disseste: “Conseguiste evitar o mal”, e o Coffey repetiu a mesma coisa como se fosse um papagaio. “Eu consegui evitar o mal no rato do Del.” Foi nessa altura que soubeste? Foi isso, não é assim?
Sim, calculo que foi. Recordei-me daquilo que ele tinha dito ao McGee, quando este lhe perguntou o que sucedem. Foi publicado em todos os artigos sobre os assassínios, ou quase todos. “Eu não consegui evitar o mal. Tentei desfazer o que estava feito, mas já era tarde de mais.” Um homem que diz uma coisa destas e que tem uma garotinha em cada braço, ambas de raça branca e louras, enquanto ele é grande que nem uma casa... não admira que eles se tenham enganado. Ouviram aquilo que ele dizia, dando-lhe a interpretação que se ajustava ao que tinham à frente, e o que viam era de raça negra. Partiram do princípio de que ele estava a confessar o crime, que se sentira compelido a raptar as duas garotas, a violá-las e a matá-las. Que mais tarde se apercebera do ato que tinha cometido, tentando desfazer...
- Mas nessa altura já era demasiado tarde - murmurou o Brutal.
- Sim. Só que o que ele tentava realmente dizer-lhes era que as havia encontrado e tentara corá-las... fazê-las regressar à vida, sem qualquer êxito. Elas já se encontravam irremediavelmente mortas.
- Paul, acreditas nisso? - perguntou o Dean. - Acreditas mesmo numa coisa dessas?
Examinei o meu coração, tão cuidadosamente quanto estava ao meu alcance, e acenei num gesto afirmativo. Não só eu sabia naquele momento, como existia em mim uma faceta intuitiva que soubera que algo não batia certo na situação do John Coffey assim que o Percy irrompera pelo bloco, arrastando o Coffey por um braço e berrando com toda a força dos seus pulmões: “Homem morto a caminhar!” Eu até lhe tinha apertado a mão, não era verdade? Nunca apertara a mão de um homem que tivesse dado entrada na Milha Verde; não obstante isso havia dado um aperto de mão ao John Coffey.
- Jesus! - exclamou o Dean. - Meu bom Jesus Cristo! - Portanto, o teu sapato é uma das coisas - continuou o . - Qual é a outra?
- Não muito antes de o grupo de voluntários ter encontrado o John Coffey e as garotas, os homens saíram do bosque próximo da margem sul do rio Trapingus. Nesse local, encontraram um trecho do caminho com as ervas acamadas, uma grande quantidade de sangue derramado, e o que restava da camisa de noite da Cora Detterick. Durante algum tempo, os cães mostraram-se confusos. A maior parte dos animais indicava que queria seguir em direção a sudeste, pela corrente abaixo ao longo da margem. Mas dois deles... os dois cães caça, pretendiam continuar rio acima. O responsável pelos cães era o Bobo Marcham e quando ele deu a camisa de dormir a farejar aos animais, estes voltaram atrás e juntaram-se ao resto da matilha.
- Os cães de caça ficaram confusos, não é verdade? -” perguntou o Brutal. Aos cantos da sua boca dançava um pequeno sorriso estranho e mórbido. - Eles não foram criados para seguir rastos, pelo que se sentiram baralhados.
- Sim - confirmei.
- Não estou a entender - admitiu o Dean.
- Os cães de caça tinham-se esquecido do que quer que fosse que o Bobo lhes colocara debaixo do focinho para iniciar a busca - explicou o Brutal. - Quando surgiram na margem do rio, os animais seguiram a pista do assassino e não a das garotas. O que não era problema desde que o homicida e as garotinhas permanecessem juntos, mas...
Começava a fazer-se luz na mente do Dean. O Harry já tinha percebido.
- Quando se pensa no assunto - continuei -, interrogamo-nos como é que alguém, até mesmo um júri que desejasse atribuir o crime a um tipo de raça negra sem pouso certo, pôde ter acreditado, ainda que só por um minuto, que o John Coffey era o homem que procuravam. Por si só, a artimanha de manter o cão sossegado com comida até se lhe poder torcer o pescoço estava muito para além das capacidades mentais do Coffey.
“Ele nunca esteve mais próximo da quinta dos Detterick do que a margem sul do Trapingus, e esta é a minha opinião. A dez quilômetros ou mais. Deambulava por ali sem destino, talvez a pensar em descer pelos carris da estrada-de-ferro, a fim de apanhar um comboio de mercadorias com destino a algures... quando eles saem do viaduto não trazem muita velocidade, o que permite que se salte para o seu interior... quando se apercebeu do tumulto mais a norte.
- E o assassino? - inquiriu o Brutal.
- O assassino. Possivelmente, já as teria violado, ou talvez fosse isso mesmo o que o Coffey ouviu. Seja como for, a área de ervas ensangüentadas foi onde o homicida terminou o assunto, bateu violentamente com as cabeças das raparigas uma na outra, deixou-as cair no solo e depois pôs-se a mexer.
pôs-se a mexer em direção a noroeste - acrescentou o Brutal - Precisamente para onde os cães de caça queriam ir. Certo. O John Coffey surge de entre um maciço de nieiros, que se encontra um pouco mais a sudeste do lugar onde as garotas foram deixadas, provavelmente curioso por causa de todo aquele tumulto, e depara com os corpos. É muito possível que uma delas ainda continuasse viva; talvez até as duas, embora por pouco tempo. Sem dúvida que o John Coffey nunca teria sabido se elas continuavam vivas ou não. Tudo o que sabe é que possui nas mãos um poder que lhe permite curar e tentou usá-lo na Cora e na Kathe Detterick. Ao ver que os seus esforços não resultavam, foi-se abaixo, começando a chorar histericamente. Foi nesse estado que os homens o encontraram.
- Mas porque é que ele não ficou ali, no lugar onde as havia encontrado? - inquiriu o Brutal. - Por que motivo as levou para sul, ao longo da margem do rio? Fazes alguma idéia?
- Aposto que inicialmente se deixou ficar no mesmo lugar - repliquei. - Durante o julgamento falou-se de uma grande área espezinhada, em que as ervas ficaram todas esmagadas. E o John Coffey é um homem corpulento.
- O John Coffey é um gigante do caralho - corroborou o Harry, falando em voz baixa para que a minha mulher não pudesse ouvi-lo a dizer asneiras, caso ela estivesse a prestar atenção à nossa conversa.
- Talvez ele tenha entrado em pânico ao verificar que os seus esforços não produziam efeito. Ou talvez tenha ficado com a impressão de que o assassino ainda andaria por ali, no arvoredo, a observar os seus movimentos um pouco mais rio acima. Como vocês bem sabem, apesar de toda a sua corpulência, o Coffey não prima pela bravura. Harry, lembras-te de quando ele perguntou se costumávamos deixar as luzes acesas no bloco, depois da hora de deitar?
- Sim. Recordo-me de ter pensado que isso era bastante peculiar, tendo em vista o tamanho dele. - O Harry parecia abalado e pensativo.
- Pois bem, se não foi ele quem matou as garotas, então quem foi? - perguntou o Dean.
- Outra pessoa qualquer - respondi com um abanar de cabeça. - Algum branco. O promotor de justiça fartou-se de dizer que era necessário um homem com muita força para poder matar um cão como o que os Detterick tinham, mas...
- Isso não passa de uma treta - resmungou o Brutos. , Qualquer rapariga forte, de doze anos de idade, seria capaz de torcer o pescoço de um cão, se apanhasse o animal de surpresa e soubesse por onde é que havia de o agarrar. Se não foi o Coffey, é possível que tenha sido qualquer pessoa... isto um homem qualquer. O mais provável é nunca virmos a saber quem foi o responsável.
- A menos que ele volte a fazer o mesmo - atalhei eu. -Mesmo nesse caso não saberíamos, se ele decidisse cometer o crime no Texas ou na Califórnia - disse o Harry. O Brutal recostou-se para trás e, com os punhos fechados, esfregou os olhos, como se fosse um rapazinho com sono, e voltou a deixá-los cair sobre as coxas.
- Isto é um pesadelo - disse ele. - Temos um homem que pode estar inocente... que possivelmente está inocente,.. e, no entanto, vai percorrer a Milha Verde tão certo como Deus ter criado as árvores grandes e os peixes pequenos. O que é que devemos fazer a este respeito? Se começarmos a falar dessa merda dos dedos com poderes curativos, toda a gente vai partir o coco a rir, e ele acabará por ir parar na mesma à velha chapa dos grelhados.
- Preocupemo-nos com esse assunto mais tarde - sugeri, uma vez que não fazia a mínima idéia do que responder. - A questão que se nos coloca neste momento é o que fazer... ou não fazer, em relação à Melly. Eu diria que nos acalmássemos e meditássemos durante alguns dias sobre o assunto, mas estou em crer que cada dia de espera aumenta as hipóteses de ele não poder vir a fazer nada por ela.
- Estão lembrados de como ele estendeu as mãos para o rato? - perguntou o Brutal. - Dizendo: “Entreguem-mo enquanto ainda há tempo.” Enquanto ainda há tempo.
- Lembro-me sim.
- Podem contar comigo - afirmou o Brutal com um acenar de cabeça depois de ter pensado durante algum tempo - Eu também me sinto mal com o que aconteceu ao Del, mas acima de tudo acho que só quero ver o que é que acontece quando ele lhe tocar. O mais provável é não suceder nada, mas talvez...
- Eu duvido muito, mas mesmo muito, que cheguemos ao ponto de conseguir tirar aquele grande idiota do bloco interveio o Harry, soltando um suspiro e acenando com a cabeça. - Mas que interessa isso? Contem comigo.
Eu também alinho - acrescentou o Dean. - Quem é que vai ficar de guarda ao bloco, Paul? Vamos tirar à sorte? - Não, senhor - respondi - Nada de tirar à sorte. És tu que fica.
Assim, sem mais nem menos? Uma ova é que fico! - vociferou o Dean, magoado e encolerizado. Tirou os óculos e começou a limpar furiosamente as lentes com a fralda da camisa.
- Que raio de combinação é essa?
- É uma daquelas a que se chega quando se é suficientemente jovem para ter filhos em idade escolar - explicou o Brutal. - O Harry e eu somos solteiros. O Paul é casado e tem filhos, mas pelo menos estes já são adultos e vivem por conta própria. Estamos a planear um esquema muito louco; tenho a impressão de que quase de certeza seremos apanhados. - Olhou para mim com uma expressão solene. - Há uma coisa que ainda não mencionaste, Paul; ainda que consigamos trazer o Coffey para fora da prisão e depois se chegue à conclusão de que os seus dedos curativos não produzem efeito, é o próprio Hal Moores quem poderá vir a denunciar-nos. - Deu-me oportunidade de responder às suas palavras, talvez para as refutar, mas eu não tinha quaisquer argumentos e por isso fiquei de boca fechada. O Brutal voltou a dedicar a sua atenção ao Dean, prosseguindo: - Não me interpretes mal: continuarás a correr o risco de vir a ser despedido, mas pelo menos terás a oportunidade de te manter afastado da prisão, no caso de as coisas começarem a aquecer realmente. O Percy ficará convencido de que tudo não passou de uma simples partida; se estiveres de serviço, podes alegar que pensaste a mesma coisa, uma vez que nunca te pusemos ao corrente da situação.
- Continuo a não gostar dessa combinação - insistiu o Dean, mas era evidente que estava disposto a alinhar nela, quer esta lhe agradasse ou não. Pensar nos filhos pequenos tinha-o levado a decidir-se. - E vai ser esta noite? Vocês têm a certeza?
- Se estivermos dispostos a levar isto para a frente, é melhor que seja esta noite - adiantou o Harry. - Se eu pensar mais no assunto, o mais certo é perder a coragem.
- Deixem que seja eu a ir à enfermaria - pediu o Dean. Pelo menos posso fazer isso não posso?
- Desde que o faças sem seres apanhado - respondeu o Brutal.
O Dean ficou com uma expressão ofendida e eu dei-lhe uma palmada no ombro.
- Assim que pegares ao serviço poderás prosseguir, parece-te bem? - perguntei.
- Podes crer.
Naquele momento, a minha mulher meteu a cabeça pela porta entreaberta, como se eu lhe tivesse indicado que o fizesse.
- Quem é que quer mais chá gelado? - perguntou ela com vivacidade. - Tu, Brutus?
- Não, obrigado - replicou ele. - O que me apetece é um bom trago de uísque, mas, dadas as circunstâncias, talvez isso não seja muito boa idéia.
A Janice olhou para mim; tinha um sorriso nos lábios e os olhos preocupados.
- Em que alhada é que estás a meter estes rapazes, Paul? Mas mesmo antes de eu ter começado a estruturar uma resposta, ela ergueu a mão e acrescentou: - Esquece, não interessa, não quero saber.
3
Mais tarde, muito depois de os meus colegas se terem ido embora, enquanto eu vestia o uniforme para ir trabalhar, a Janice agarrou-me por um braço, fez-me dar meia volta e olhou-me nos olhos com uma intensidade arrebatadora.
- A Melinda? - perguntou lacônica. Acenei que sim. - Podes fazer alguma coisa por ela, Paul? Fazer realmente alguma coisa por ela, ou é apenas uma esperança ilusória provocada pelo que viste ontem à noite?
Pensei nos olhos do Coffey, nas mãos do Coffey, no modo como eu me tinha dirigido a ele, como que hipnotizado, quando ele quisera que eu o fizesse. Lembrei-me também da forma como ele estendera as mãos para o corpo mutilado e moribundo do Mister Jingles. “Enquanto ainda há tempo” - dissera o Coffey. E aquelas coisas negras esvoaçantes, que depois se tornaram brancas e tinham desaparecido.
- Acho que somos a única oportunidade que lhe resta disse eu por fim.
- Nesse caso, não a desperdices - replicou Janice, abotoand° os botões da frente do meu novo sobretudo de Outono. Havia estado pendurado no guarda-roupa desde o meu aniversário, no início de Setembro, mas era apenas a terceira ou quarta vez em que eu o usava. - Não a deixes fugir - insistiu ela.
A minha mulher empurrou-me praticamente pela porta fora.
4
Nessa noite marquei o cartão de ponto - sob muitos aspectos, foi a noite mais estranha de toda a minha vida - às seis horas e vinte minutos. Pensei que ainda me chegava às narinas o cheiro vago a carne queimada que continuava a pairar no ar. Não fora uma ilusão - as portas que davam para o exterior, tanto do bloco como da arrecadação, tinham estado abertas durante a maior parte do dia e os dois turnos anteriores haviam passado horas a esfregar esta última -, mas isso não alterava o que o meu nariz me dizia, e acho que não teria sido capaz de comer o jantar ainda que não me tivesse sentido assustado de morte perante a noite que se desenhava à minha frente.
O Brutal entrou no bloco às seis e quarenta e cinco, e o Dean às sete e dez. Perguntei ao último se poderia ir à enfermaria pedir um emplastro para eu aplicar nas costas, alegando que tinha a impressão de as ter esforçado nessa madrugada ao ajudar a transportar o corpo do Delacroix até ao túnel. O Dean respondeu-me que teria todo o gosto em fazer o que eu lhe pedia. Estou convencido que ele queria piscar-me o olho, mas conseguiu refrear-se.
O Harry marcou o cartão de ponto às sete menos três. - A camioneta? - perguntei.
- Está onde combinamos - respondeu-me.
Até ali, tudo a correr pelo melhor. Decorreu algum tempo em que estivemos junto da mesa do guarda de serviço a beber café, sem que deliberadamente aflorássemos o assunto em que todos pensávamos e em que depositávamos tantas esperanças: que o Percy chegasse atrasado, que o Percy talvez não aparecesse de todo. Levando em consideração as críticas de que fora alvo quanto à forma como lidara com a eletrocussão, aquela hipótese parecia-nos ser, no mínimo, bastante Plausível.
Todavia, o Percy perfilhava, aparentemente, aquele velho axioma, que dizia que não se deve deixar para amanhã o que se pode fazer hoje; transpôs a porta às sete horas e seis minutos, resplandecente no seu uniforme azul, com o coldre presa a uma anca, enquanto na outra trazia o bastão de nogueira dentro daquela ridícula bainha feita de encomenda. Marcou o cartão de ponto e olhou para nós com uma expressão desconfiada (exceto para o Dean, que ainda não regressara da enfermaria).
- O meu motor de arranque avariou-se. Tive de pôr o carro a funcionar com a manivela - informou ele.
- Au! - exclamou o Harry. - Pobrezinho.
- Devias de ter ficado em casa para poderes arranjar a maldita coisa - acrescentou o Brutal num tom de voz ameno. - Não queremos que esforces o teu braço, não é verdade, rapazes?
- Pois, era isso mesmo o que vocês queriam, não é verdade? - retorquiu o Percy com escárnio, mas fiquei com a impressão de que ele se sentira tranqüilizado devido à relativa brandura com que o Brutal proferira o seu comentário. E ainda bem. Durante as próximas horas, não poderíamos ser demasiado hostis nem excessivamente cordiais. Depois do que sucedera na noite anterior, ele acharia suspeita qualquer coisa que se assemelhasse, ainda que muito vagamente, à simpatia.
Não iríamos conseguir apanhá-lo sem as suas defesas a postos, como sabíamos, mas eu estava convicto de que conseguiríamos armar-lhe a cilada, se jogássemos as nossas cartas com todas as precauções. Era importante - pelo menos no que me dizia respeito - que ninguém saísse lesionado. Nem sequer o Percy Wetmore.
Entretanto, o Dean regressara ao bloco, fazendo-me um pequeno acenar de cabeça.
- Percy - disse eu - quero que vás à arrecadação e laves o chão com o esfregão. Incluindo os degraus que dão para o túnel. Em seguida, podes começar a escrever o teu relatório sobre a noite passada.
- Isso é que deve ser um trabalho cheio de criatividade - comentou o Brutal, mordaz, enfiando os polegares dentro do cinto e olhando para o teto.
- Vocês têm mais piada do que uma queca dada na igreja- retorquiu o Percy, mas não levantou qualquer objeção. Nem sequer referiu o que era óbvio: que o chão da sala da arrecadação já tinha sido lavado pelo menos em duas ocasiões nesse dia. O meu palpite é que ele se sentiu satisfeito com aquela oportunidade de poder manter-se afastado de nós.
Comecei a examinar o relatório correspondente ao turno anterior, não li nada que me dissesse respeito e dirigi-me para a cela do Wharton. Este encontrava-se sentado na sua tarimba com os joelhos dobrados para cima e com os braços à volta das canelas, fitando-me com um grande sorriso pleno de hostilidade.
- Ora bem, com que então temos aqui o grande chefe - disse ele, mordaz. - Tão grande como a vida e duas vezes mais feio. Tem um ar mais contente do que o de um porco mergulhado na merda até aos joelhos, chefe Edgecombe. A sua mulher fez-lhe uma festa na picha antes de ter saído de casa, foi?
- Como é que estás, Kid? - perguntei num tom neutro, o que fez com que ele mostrasse uma expressão verdadeiramente iluminada. Estendeu as pernas, levantou-se e espreguiçou-se. O seu sorriso alargou-se, dando origem a que alguma da hostilidade lhe desaparecesse da fisionomia.
- Raios me partam! - exclamou ele. - Para variar acertou no meu nome. O que é que se passa consigo, chefe Edgecombe? Está doente ou qualquer coisa no gênero?
Não, não estava doente. De fato tinha estado doente, mas o John Coffey tratara disso. As suas mãos já haviam esquecido como se atavam os atacadores dos sapatos, se é que alguma vez o tinham sabido, mas sabiam fazer outras habilidades. Sim, na realidade sabiam.
- Meu amigo - disse-lhe eu -, se queres ser um Billy the Kid em vez de um Bill Selvagem, é-me completamente indiferente.
Ele ficou todo inchado, como um daqueles peixes de aspecto asqueroso que vivem nas águas dos rios da América do Sul e que conseguem picar-nos com os espigões que têm na Parte de cima e nos lados do corpo, até ficarmos prestes a morrer. Durante o tempo em que trabalhei na Milha, fui forçado a lidar com muitos homens perigosos, mas poucos, ou nenhum deles, eram tão repelentes como o William Wharton, o qual se considerava um fora-da-lei de grande envergadura, mas cujo comportamento na penitenciária raramente se elevou acima de mijar, ou escarrar, por entre as barras da sua cela.
Até ao momento ainda não lhe havíamos concedido a admiração respeitosa que ele achava merecer por direito, acontece que, naquela noite, muito em especial, eu pretendia que ele se portasse de uma maneira minimamente tratável, Se isso significava que tinha de lhe passar a mão pelo pêlo com toda a meiguice, fá-lo-ia com a maior das satisfações.
- Eu tenho muito em comum com o Kid, e é melhor que acredite nisso - continuou o Wharton. - Não foi a roubar rebuçados na mercearia do meu bairro que vim parar aqui acrescentou ele com tanto orgulho como se tivesse acabado de se alistar na Brigada dos Heróis da Legião Estrangeira Francesa, em vez de ter acabado de ir parar com o couro a uma cela que distava setenta passos longos da cadeira elétrica. - Onde é que está o meu jantar?
- Deixa-te disso, Kid, o relatório diz que o comeste às cinco e meia. Rolo de carne picada com molho, purê de batata e ervilhas. Não consegues enganar-me com essa facilidade.
Ele riu-se expansivamente e sentou-se de novo na sua tarimba.
- Nesse caso, ligue o rádio.
- Talvez mais tarde, vadio - repliquei. Afastei-me da sua cela e com o olhar percorri o corredor. O Brutal tinha ido até ao extremo mais afastado para verificar se a fechadura da cela do isolamento estava só trancada e não fechada à chave. Eu sabia que era esse o caso, porque eu próprio já tinha verificado. Mais tarde, iríamos querer abrir essa porta o mais rapidamente possível. Não haveria tempo para retirar do interior toda aquela tralha que as pessoas têm por hábito guardar nos sótãos das suas casas ao longo dos anos; já retiráramos tudo e fizéramos uma seleção, tendo arrumado as coisas noutros lugares pouco depois de o Wharton se ter juntado à nossa feliz banda. Tínhamos a impressão de que a cela com as paredes almofadadas estava pronta a ter bastante uso, pelo menos até o Billy the Kid caminhar pela Milha.
O John Coffey, que já deveria estar deitado àquela hora, com as suas pernas grossas e compridas a saírem-lhe para fora da tarimba e de rosto virado para a parede, encontrava-se sentado na ponta da tarimba com os dedos entrelaçados, observando o Brutal com uma expressão tão alerta que não era nada habitual. Os seus olhos também não lacrimejavam.
O Brutal experimentou a maçaneta da porta da cela do isolamento, após o que voltou a percorrer a Milha. Lançou um olhar ao Coffey quando passou pela sua cela, e este disse algo de curioso.
Com certeza. Gostaria de dar um passeio - como se em resposta a qualquer coisa que o Brutal houvesse dito. O olhar deste cruzou-se com o meu. Ele sabe, podia eu quase ouvi-lo a dizer. Não sei como, mas o certo é que ele sabe
Encolhi os ombros e abri os dedos das mãos, como se replicasse: Claro que ele sabe.
5
O velho Pouca Terra efetuou a sua última volta da noite pelo Bloco E por volta das oito e quarenta e cinco. Compramos o suficiente da porcaria que ele vendia, para lhe fazermos assomar aos lábios um sorriso de avareza.
- A propósito, algum de vocês viu o rato? - perguntou ele. Respondemos-lhe com um abanar de cabeça.
- Talvez o Rapazinho Bonito o tenha visto - sugeriu o Pouca Terra, fazendo um gesto com a cabeça na direção da arrecadação, onde o Percy estaria a lavar o chão, a escrever o seu relatório ou a meter o dedo no olho do cu.
- O que é que isso te interessa? - perguntou o Brutal. - Não é assunto que te diga respeito. Põe as rodas a rolar, Pouca Terra. Estás a empestar o bloco.
O Pouca Terra esboçou aquele seu sorriso tão peculiarmente desagradável, desdentado e com as faces encovadas, e pôs-se a cheirar o ar de forma acintosa.
- Este cheiro não é meu - disse ele. - Deve ser o do Del a dizer adeus.
Com um riso de escárnio, começou a empurrar o seu carrinho, saindo pela porta que dava para o pátio de recreio. E continuou a fazer rolar aquele carrinho por mais dez anos - raios, por muito tempo depois de Cold Mountain ter desaparecido - vendendo bolos e refrigerantes aos guardas e prisioneiros que tinham dinheiro para comprá-los. Por vezes, até mesmo agora, parece-me que estou a ouvi-lo nos meus sonhos, a gritar que está a fritar, está a fritar, que é um peru assado.
A passagem do tempo alongou-se interminavelmente depois de o Pouca Terra ter saído do bloco, e os ponteiros do relógio pareciam arrastar-se. Ligamos o rádio durante hora e meia, e o Wharton riu-se a bandeiras despregadas ao ouvir o programa do Fred Allen O Beco de Allen, embora eu estivesse pronto a apostar fosse o que fosse em como ele não compreendia muitas das piadas. O John Coffey continuava sentado no extremo da tarimba, com as mãos entrelaçadas e olhar que mal se desprendia de quem quer que se encontrasse sentado na mesa do guarda de serviço. Já tive oportunidade de observar homens com a mesma atitude, os quais aguardavam nos terminais das camionetas que seja anunciada a partida do seu transporte.
Por volta das dez e quarenta e cinco, o Percy saiu da arrecadação, tendo-me entregue um relatório laboriosamente feito a lápis. A folha de papel ainda tinha restos da borracha com que ele havia apagado algumas partes, sobre as quais voltara a escrever. Passei o polegar por uma destas zonas manchadas.
- Isto é apenas um primeiro rascunho - apressou-se ele a dizer. - Quero copiá-lo para outra folha. Qual é a tua opinião?
A minha opinião era que aquele maldito relatório era o mais ultrajante branqueamento que eu lera em toda a minha permanência à face da Terra. Mas disse-lhe que estava ótimo, e ele afastou-se todo satisfeito consigo próprio.
O Dean e o Harry jogavam às cartas, falando num timbre de voz demasiado elevado, e implicando um com o outro em demasia por causa da contagem dos pontos, enquanto de cinco em cinco segundos lançavam olhares aos ponteiros do relógio que davam a impressão de não avançar. Em pelo menos um dos seus jogos dessa noite, fiquei com a sensação de que haviam efetuado três voltas em vez de duas. O ambiente estava tão carregado de tensão que parecia ser possível cortá-lo à faca; as únicas pessoas que, aparentemente, não se sentiam afetadas por aquela tensão eram o Percy e o Bill Selvagem: