À Espera de um Milagre

Stephen King · Capítulo 8 de 9 · parte 1/4

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À Espera de um Milagre

Parte Seis .........................................................................................

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

 

 

O Coffey percorre a milha

 

Encontrava-me eu sentado no solário de Georgia Pines, com a caneta de tinta permanente do meu pai em riste, e o tempo perdeu todo o sentido para mim, quando me recordei da noite em que o Harry, o Brutal e eu levamos o John Coffey para fora da Milha, até junto da Melinda Moores, para tentar salvar-lhe a vida. Já escrevi acerca da forma como drogamos o William Wharton, o qual se julgava a reencarnação do Billy the Kid; também já descrevi como é que pusemos o Percy na camisa-de-força, tendo-o enclausurado na cela do isolamento situada ao fundo da Milha Verde; da mesma maneira, narrei a nossa estranha jornada a coberto da noite - que tanto teve de aterrador como de empolgante - e o milagre que nos envolveu a todos quando esta chegou ao fim. Vimos o John Coffey arrancar uma mulher, não só da beira da sua sepultura, mas também daquilo que dava a impressão de ser o seu fundo.

Também escrevi sobre a minha percepção da vida que existia à minha volta em Georgia Pines. As pessoas de idade desciam para o jantar, depois dirigiam-se todas para o Centro Recreativo (sim, pode esboçar um sorriso de troça), para a sua dose de programas de comédia do serão apresentados pelas grandes cadeias televisivas. Acho que me recordo de a minha amiga Elaine me trazer uma sanduíche, e de eu lhe ter agradecido, tê-la comido, mas não posso dizer-vos a que horas da noite é que ela ma ofereceu, nem tão-pouco de que é que era. A maior parte de mim encontrava-se em 1932, ano que as nossas sanduíches eram habitualmente transportadas no carrinho de merendas, coberto com as inscrições dos Evangelhos do velho Pouca Terra, carne de porco a cinco cêntimos e carne em conserva a dez cêntimos.

Lembro-me da altura em que o lar começava a ficar sossegado à medida que as relíquias que ali residiam se preparavam para outra noite de sono agitado e pouco prolongado ouvi o Mickey - que talvez não fosse o melhor auxiliar daquele lugar, mas que sem dúvida alguma era o mais simpático ,, a cantar Red River Valley na sua voz de tenor, enquanto distribuía os medicamentos que as pessoas tinham de tomar à noite: apeste vale, dizem que vais partir... Teremos saudades dos teus olhos brilhantes e do teu doce sorriso...” Uma vez mais, aquela canção trouxe-me a Melinda à memória, assim como o que ela dissera ao John depois do milagre ter ocorrido. Sonhei contigo. Sonhei que andavas perdido na escuridão, tal como eu. Encontramo-nos.

O silêncio apoderou-se do lar Georgia Pines; a meia-noite chegou e passou, e eu continuei a escrever. Cheguei à altura em que o Harry nos chamou a atenção para o fato de que, embora houvéssemos conseguido levar o John de regresso à prisão sem termos sido apanhados, continuávamos a ter o Percy à nossa espera. “A madrugada só terminará depois de termos tratado dele”, foi mais ou menos o que ele disse na altura.

Foi nesse ponto que aquele longo dia passado a escrever com a caneta do meu pai me levou a melhor. Pousei-a - pensei que só por alguns segundos, de forma a poder imprimir um pouco mais de energia aos meus dedos tensos - e então apoiei a cabeça sobre o braço, cerrando os olhos para lhes dar algum descanso. Quando voltei a abri-los e ergui a cabeça, o sol da manhã banhava-me entrando através das anelas. Olhei para o relógio, verificando que já passava das oito horas. Tinha dormido, com a cabeça sobre os braços, qual bêbedo envelhecido, durante o que deveriam ter sido seis horas. Levantei-me da cadeira, entorpecido, e espreguicei-me, tentando injetar um pouco de vigor nas minhas costas. Pensei em descer até à cozinha, para arranjar algumas torradas antes de iniciar o meu passeio matinal. Mas foi então que olhei para a grande quantidade de folhas de papel já escritas e espalhadas pela mesa. Sem qualquer hesitação, decidi adiar o passeio por algum tempo. Sim, de fato eu tinha uma tarefa a cumprir, mas esta poderia esperar, para além de que naquela manhã não me apetecia brincar às escondidas com ° Brad Dolan.

Em vez de ir passear, estava decidido a terminar a minha história. Em certas circunstâncias é preferível darmos cumprimento ao que temos pela frente, apesar de a nossa mente e o corpo poderem protestar. Por vezes, essa é a única maneira de atingir um objetivo. Aquilo que mais fortemente ficou gravado no meu pensamento quanto a essa manhã foi a forma desesperada como eu queria libertar-me do fantasma persistente do John Coffey.

- Muito bem - disse eu para comigo mesmo. - Uma milha mais. Mas primeiro...

Fui à casa de banho situada ao fundo do .corredor do segundo andar. Enquanto urinava, lancei, por acaso um olhar ao detector de fumos instalado no teto. Isso fez-me pensar na Elaine, na maneira que ela arranjara para distrair o Dolan, para eu poder dar o meu passeio e cumprir a minha pequena tarefa no dia anterior. Acabei de urinar com um sorriso arreganhado.

Regressei ao solário, sentindo-me melhor (e muito mais confortável nas minhas partes baixas). Alguém - a Elaine, não me restava a mais pequena dúvida - colocara sobre a mesa um bule cheio de chá, perto das minhas folhas. Bebi com avidez, primeiro uma chávena e logo outra, mesmo antes de me sentar. Retomei o meu lugar, tirei a tampa à caneta de tinta permanente e, uma vez mais, recomecei a escrever.

Estava eu prestes a embrenhar-me de corpo e alma na minha história quando se projetou uma sombra sobre mim. Ergui o olhar e senti uma reviravolta nas entranhas. Era o Dolan, que se colocara entre mim e as janelas. Exibia um grande sorriso arreganhado.

- Senti a falta do teu passeio matinal, Paulie - comentou ele, mordaz. - Por isso, pensei em vir até aqui para ver o que andavas a fazer. Para me assegurar de que não estavas doente.

- Tens um coração imenso - repliquei. A minha voz era firme, pelo menos até ao momento, mas o meu coração batia descontroladamente. Eu tinha medo dele e não me parece que isso fosse novidade. Embora ele me lembrasse o Percy Wetmore, eu nunca sentira receio deste... Mas, quando conheci o Percy, eu ainda era novo.

O sorriso do Brad alargou-se, embora não se tenha tornado menos desagradável.

- Algumas pessoas disseram-me que passaste toda a noite aqui, Paulie, a escrever o teu pequeno relatório. Vamos lá a ver, isso não é muito bom. Os velhos jarretas como tu necessitam do seu sono de beleza.

- Percy... - comecei a dizer, mas então avistei um jeito no seu sorriso arreganhado e apercebi-me do meu erro. Respirei fundo e recomecei. - Brad, o que é que tem contra mim?

Por breves momentos, ele mostrou uma expressão intrigada, talvez até mesmo de insegurança. Mas pouco depois a careta risonha regressou.

- Meu velho - redarguiu ele -, é possível que seja apenas o fato de eu não gostar da tua cara. Seja como for, que é que estás para aí a escrevinhar? O último testamento quanto aos teus testículos?

Aproximou-se, elevando-se acima de mim. Coloquei vigorosamente a mão sobre a folha em que estivera a escrever e comecei a reunir as outras com a mão livre, machucando algumas com a pressa de as colocar debaixo do braço, em segurança.

- Ora vamos lá a ver - continuou ele como se falasse para uma criança -, isso não vai resultar, minha velha doçura. Se o Brad quiser ver, o Brad vai ver. E até podes levar essa merda para o cofre de um banco.

A sua mão, jovem e hediondamente forte, cerrou-se em redor do meu pulso e começou a apertar. As dores apoderaram-se da minha mão como se fossem dentes; soltei um gemido.

- Larga-me o pulso - disse eu a custo.

- Quando me deixares ver isso - replicou ele. Deixara de sorrir. No entanto, a expressão no seu rosto era de jovialidade; a espécie de júbilo que se vê apenas nos rostos dos indivíduos que gostam de infligir mal aos outros. - Deixa-me ver, Paulie. Quero saber o que é que andas a escrever. A minha mão começou a afastar-se da página do topo. Era nessa em que eu narrava a nossa jornada de regresso com o John, através do túnel sob a estrada. - Quero ver se tem alguma coisa a ver com o sítio onde tu...

- Deixe esse homem em paz.

Aquela voz era como o vergastar de um chicote num dia quente e seco... e, pela forma como o Brad Dolan saltou, poder-se-ia pensar que o alvo da zurzidela fora o seu traseiro. Largou imediatamente a minha mão e esta tombou contra as folhas de papel; ambos olhamos para a porta.

A Elaine Connelly estava junto à ombreira, mostrando um aspecto mais fresco e vigoroso do que aquele que eu vira em muitos dias. Usava umas calças de ganga que deixavam ver os contornos das suas ancas magras e pernas alongadas; tinha os cabelos presos por uma fita azul. Nas suas mãos atacadas pela artrite havia um tabuleiro - continha sumo, um ovo mexido, uma torrada e mais chá. Os seus olhos chamejavam.

- O que é que você pensa que está a fazer? - perguntou o Brad. - Ele não pode comer aqui.

- Pode e é isso mesmo o que vai fazer - respondeu ela no mesmo timbre de voz seco e cheio de autoridade. Eu nunca lhe tinha ouvido aquela entoação de voz, mas naquele momento foi muito bem-vinda. Procurei detectar algum vestígio de receio nos seus olhos, mas não vi nada... Neles só adivinhava raiva. - E o que você vai fazer é pôr-se a andar daqui para fora antes que passe da fase de uma simples barata incomodativa à de um verme ligeiramente maior... digamos, de Ratos americanus.

O Brad deu um passo na direção da Elaine, parecendo simultaneamente inseguro e furioso. Aquela combinação era perigosa; todavia, a Elaine não vacilou por um segundo quando ele se aproximou.

- Aposto que sei quem é que acionou o raio daquele detector de fumos - acrescentou o Dolan. - O mais certo é ter sido uma determinada cabra velha que tem garras em lugar de mãos. Agora ponha-se a andar daqui para fora. O Paulie e eu ainda não concluímos a nossa pequena conversa.

- O nome dele é Mister Edgecombe -ripostou ela -, e se eu voltar a ouvi-lo tratá-lo por Paulie mais alguma vez, tenho a impressão de que posso garantir-lhe que os seus dias de trabalho em Georgia Pines terão chegado ao fim, Mister Dolan.

- Mas quem é que você julga que é? - perguntou ele à Elaine. Naquele momento, a sua figura corpulenta sobrepunha-se à dela, e tentava rir-se, mas sem grande êxito.

- Julgo, começou ela a dizer com muita calma - que sou a avó do homem que presentemente é o porta-voz da Câmara de Deputados da Jórgia. Um homem que adora os seus familiares, Mister Dolan. Muito em especial, os seus familiares mais idosos.

O sorriso desenhado a muito custo sumiu dos lábios do homem, da mesma forma que o giz desaparece de uma ardósia. Vi incerteza, a possibilidade de estar a ser enganado receio de que não fosse esse o caso, e o nascer de uma suposição lógica: seria bastante fácil verificar a veracidade da afirmação, porque, ela deveria sabê-lo bem, logo, estava a dizer a verdade.

Subitamente, desatei a rir e, embora o meu riso estivesse bastante emperrado, não deixava de ser adequado. Recordo-me das inúmeras vezes em que o Percy Wetmore nos ameaçara, invocando os seus conhecimentos. Agora, pela primeira vez ao longo da minha extensa vida, ouvia essa ameaça ser proferida uma vez mais... mas, daquela feita, em meu beneficio.

O Brad Dolan olhou para mim com uma expressão coroscante e depois voltou a concentrar a sua atenção na Elaine. - Estou a falar a sério - disse ela. - De início, ainda pensei em não interferir... já estou velha e essa atitude pareceu-me ser a mais fácil. Mas quando vejo os meus amigos a serem maltratados e ameaçados, não deixo ficar as coisas como estão. Agora, saia daqui sem proferir uma só palavra que seja.

Os lábios do Dolan movimentavam-se como os de um peixe... Oh, como ele desejava proferir só mais uma palavra (talvez aquela que rima com macabra). No entanto, não se atreveu. Lançou-me um último olhar, passou pela Elaine com brusquidão e saiu para o corredor.

Soltei a respiração num suspiro longo e entrecortado, enquanto ela colocava o tabuleiro à minha frente e se sentava no lugar oposto ao meu.

- O teu neto é realmente o porta-voz da Câmara de Deputados? - perguntei.

- É - respondeu-me ela.

- Nesse caso, o que é que estás a fazer aqui?

- O fato de o meu neto ser o porta-voz de um organismo estatal dessa importância dá-lhe poder suficiente para lidar com um verme como o Brad Dolan mas não o torna rico' explicou ela com uma gargalhada. - Além do mais, gosto de viver aqui. A companhia agrada-me bastante.

- Vou aceitar as tuas palavras à guisa de um cumprimento - disse eu, o que era verdade.

- Paul, estás bem? Pareces tão cansado. - A Elaine estendeu a mão e afastou-me os cabelos da testa e das sobrancelhas. Os seus dedos estavam contorcidos, embora o seu toque fosse maravilhoso, e de uma grande frescura. Por breves momentos, cerrei os olhos. Quando voltei a abri-los já tinha tomad° uma decisão.

- Estou ótimo - repliquei. - Estou quase a chegar ao fim da minha escrita. Elaine, gostarias de ler uma coisa? Ofereci-lhe as páginas que tinha reunido desajeitadamente. O mais provável era terem perdido a seqüência certa - de fato, o Dolan conseguira assustar-me bastante - mas uma vez que haviam sido numeradas, a Elaine poderia voltar a colocá-las facilmente na devida ordem.

Ela observou-me com ar pensativo, sem contudo aceitar o que eu lhe oferecia. Pelo menos, de momento.

- Já acabaste?

- Vais precisar da tarde toda para ler tudo o que já escrevi - disse-lhe eu. - Isto é, se fores capaz de decifrar a minha letra.

Naquele momento, ela aceitou as folhas, olhando para as páginas manuscritas.

- Tens uma letra muito cuidada, ainda que as tuas mãos estejam obviamente fatigadas - observou ela. - Não terei qualquer problema em ler o que escreveste.

- Quando tiveres acabado, já eu terei passado para o papel a parte que ainda me falta - acrescentei. - Poderás ler o resto dentro de mais ou menos trinta minutos. E então... se continuares interessada e quiseres... gostaria de te mostrar uma coisa.

- Isso terá alguma relação com o lugar onde costumas ir na maior parte das manhãs e tardes?

Acenei afirmativamente.

Elaine meditou naquilo durante o que me pareceu ser uma eternidade e depois fez um acenar de cabeça e levantou-se da cadeira com as páginas escritas na mão.

- Vou sentar-me nas traseiras - disse ela. - Esta manhã o sol está muito quente.

- E o dragão foi derrotado - retorqui. - Desta vez pela gentil dama.

A Elaine sorriu debruçou-se sobre mim e beijou-me naquele ponto sensível que me provoca sempre um arrepio de prazer.

- Esperemos que sim - redarguiu ela -, mas a minha experiência diz-me que os dragões como o Brad Dolan são muito difíceis de desaparecer. - Teve um momento de hesitação. - Boa sorte, Paul. Só espero que consigas derrotar o que quer que seja que te tem vindo a atormentar. - Também eu espero que sim - declarei eu, pensando no John Coffey. Eu não consegui impedir o mal, dissera ele. Tentei, mas já era demasiado tarde.

Comi os ovos mexidos que a Elaine me trouxera, bebi o sumo e deixei a torrada para mais tarde. Em seguida, agarre¡ de novo na caneta e recomecei a escrever, pelo que esperava viesse a ser a última vez. Uma última milha. Uma milha verde.

 

2

- E se isso não resultar, agacha-te no sítio onde calculas que ele vai cair, para lhe amortecer a queda - acrescentou o Brutal.

- Credo! - exclamou o Harry numa voz murcha. - Devias.estar no mundo do espetáculo, Brute, pois consegues ter muita graça:

- Sem dúvida que tenho sentido de humor - admitiu o

Bruto e no fim, lá conseguimos levar o John pelas escadas acima. A minha maior preocupação era a probabilidade de ele vir a desmaiar,. mas tal não se verificou.

- Vai até à sala da arrecadação e vê se não está lá ninguém -disse eu ao Harry, respirando com dificuldade.

- E se não estiver, o que é que devo dizer? - perguntou o Harry, agachando-se para poder passar por baixo do meu braço. - “Ninguém à vista!” e depois dou um salto até aqui?

- Não te armes em chico-esperto - disse-lhe o Brutal. O Harry entreabriu um pouco a porta e espreitou. Fiquei com a sensação de que esteve naquela posição durante muito tempo. Por fim, afastou a cabeça para trás, apresentando uma expressão quase jovial.

- Ninguém à vista. Está tudo tranqüilo.

- Esperemos que as coisas se mantenham assim - retorquiu o Brutal. - Vamos lá, John Coffey, já estás quase em casa.

Conseguiu atravessar a arrecadação pelo seu próprio pé, embora tivéssemos de o ajudar a subir os três degraus até ao meu gabinete, e depois quase o empurrássemos para que transpusesse a porta baixa. Quando voltou a pôr-se de pé, a sua respiração era estertorosa e os seus olhos tinham uma expressão vitrificada. E - reparei eu com verdadeiro horror - a parte direita da sua boca arrepanhara-se para baixo, assemelhando-se à deformidade de que a Melinda sofrera.

O Dean deu pela nossa chegada e aproximou-se vindo da mesa no outro extremo da Milha Verde.

- Graças a Deus! Pensei que nunca mais voltavam; quase julguei que tinham sido apanhados, ou que o diretor se havia virado contra vocês ou ainda que.. - interrompeu-se reparando no John pela primeira vez desde que se aproximara de nós. - Deus nos valha, o que é que ele tem? Parece que está a morrer!

Ele não está a morrer... pois não, John? - perguntou o Brutal. O seu olhar transmitiu uma advertência ao Dean.

Nessa madrugada, quando levamos o John Coffey de volta ao Bloco E, a maca foi uma necessidade em vez de um luxo. Duvido muito que ele houvesse sido capaz de percorrer o túnel pelo seu próprio pé; exige mais energia caminhar agachado do que a direito, e aquele teto era diabolicamente baixo para qualquer pessoa da altura do John Coffey. Não me agradava nada a idéia de ele poder ir-se abaixo naquele lugar. Como justificaríamos nós a sua presença ali e a razão por que havíamos metido o Percy na casaca de cerimônia dos loucos, para depois o enclausurarmos na cela do isolamento?

No entanto, tínhamos a maca - graças a Deus - e o John Coffey deitou-se nela como se fosse uma baleia acabada de dar à costa, enquanto o empurrávamos pelos degraus que

davam para a arrecadação. Saiu da maca a cambalear e ficou de cabeça baixa, a respirar com dificuldade. A sua pele tinha uma tonalidade tão acinzentada que dava a impressão que ele se havia rebolado por um monte de farinha. Eu estava convencido de que por volta do meio-dia já ele teria dado entrada na enfermaria... isto é, se não tivesse morrido já a essa hora.

O Brutal lançou-me um olhar acabrunhado e desesperado. Retribuí-lhe com outro parecido.

- Não somos capazes de carregar com ele para cima mas podemos ajudá-lo - disse eu. - Tu colocas-te debaixo do braço direito dele e eu do esquerdo.

- E eu? - perguntou o Harry.

- Tu vens atrás de nós e, se te parecer que ele vai tom' bar para trás, dás-lhe um empurrão para a frente.

- Claro que não, eu não quis dizer que ele estivesse realmente a morrer - corrigiu o Dean com um pequeno sorriso de nervosismo. - Mas que coisa...

- Acaba com isso - intervim eu. - Ajuda-nos a levá-lo para a cela.

Uma vez mais, não passávamos de pequenas colinas que circundavam uma montanha, só que naquele momento a montanha tinha sofrido alguns milhões de anos de erosão e estava bastante curvada e fraca. O John Coffey caminhava com lentidão, respirando através da boca como um homem de idade que fumasse em demasia, mas, pelo menos, deslocava-se pelo seu próprio pé.

- E quanto ao Percy? - perguntei. - Ele tem estado aos pinotes?

- Ao principio, sim - respondeu o Dean. - Tentava gritar através da fita-cola com que lhe tapaste a boca. E praguejou.

- Que Deus nos valha! - atalhou o Brutal. - Ainda foi uma boa coisa os nossos ouvidos sensíveis terem estado algures que não aqui.

- Desde então, tem-se limitado a dar um coice de mula, de vez em quando, contra a porta. - O Dean parecia tão aliviado por nos ver que quase balbuciava incoerentemente. Os óculos escorregaram-lhe para a ponta do nariz, que brilhava devido ao suor, e ele empurrou-os para cima. Passamos pela cela do Wharton. Aquele jovem sem préstimo algum encontrava-se deitado de costas, a ressonar como uma tuba. Naquela ocasião, não restava a mínima dúvida de que os seus olhos estavam fechados.

O Dean reparou em mim a olhar para o interior daquela cela e riu-se.

- Esse tipo não arranjou problemas! Desde que se deitou na tarimba que não voltou a mexer-se. Tem estado como morto para o mundo. Quanto ao Percy ter dado alguns pontapés à porta de quando em vez, isso nunca chegou a incomodar-me muito. Para vos dizer a verdade, até me senti satisfeito com isso. Se ele não fizesse barulho nenhum, teria começado a perguntar a mim mesmo se ele não teria sufocado com a mordaça. Mas isso não foi o melhor. Sabem o que é que foi o melhor? Isto por aqui tem estado tão tranqüilo como uma manhã de Quarta-Feira de Cinzas em Nova Orleans! Durante a noite ninguém veio cá abaixo! - O Dean disse as últimas palavras numa voz de triunfo cheia de regozijo. - Conseguimos executar o nosso plano, rapazes! Missão cumprida! Aquilo o fez lembrar-se do motivo por que havíamos decidido levar a cabo toda aquela comédia, e perguntou pela Melinda.

Está ótima - respondi. Entretanto, chegáramos à cela do John. Aquilo que o Dean dissera tinha começado a penetrar nos nossos pensamentos: Conseguimos executar o nosso plano, rapazes”. Missão cumprida.

- Foi como... Vocês sabem o que quero dizer... Como com o rato? - inquiriu o Dean. Lançou um “rápido olhar para a cela vazia onde o Delacroix vivera com o Mister Jingles e em seguida olhou para a cela do isolamento, a qual parecera ter sido o ponto de proveniência do rato. Baixou a voz, da mesma maneira que as pessoas costumam fazer ao entrar numa igreja espaçosa, onde até mesmo o silêncio dá a impressão de sussurrar. - Foi um... - O Dean interrompeu-se, engolindo em seco. - Uma coisa repentina. Vocês percebem o que quero dizer... assim como um milagre?

Nós os três, os que haviam estado presentes, entreolhamo-nos por breves instantes.

- O que ele fez foi arrancá-la ao raio da sepultura - disse o Harry. - Sim, podes ter a certeza de que se tratou de um autêntico milagre.

O Brutal abriu a fechadura dupla da porta da cela e deu ao John um empurrão suave para que este avançasse.

- Vamos lá a entrar, vadio. Descansa um pouco. Nós só vamos tratar do Percy...

- Ele é um homem mau - atalhou o John em voz baixa com uma entoação monocórdica.

- Isso é uma grande verdade, sem dúvida, é mau como bruxo - concordou o Brutal no seu tom de voz mais tranqüilizador - mas não tens de te preocupar com ele, pois não permitiremos sequer que ele se aproxime de ti. Só tens de te deitar confortavelmente na tua tarimba, e eu vou preparar num instante aquela caneca com café que te prometi. Bem quente e forte. Vais sentir-te um novo homem.

O John sentou-se pesadamente sobre a tarimba. Pensei que ele se estenderia ao comprido e se voltaria para a parede, como era hábito; contudo, limitou-se a ficar sentado, com os dedos entrelaçados de forma lassa entre os joelhos, de cabeça baixa e a respirar pela boca com dificuldade. A medalha do São Cristóvão, que a Melinda lhe oferecera, saíra da abertura do pescoço da camisa e oscilava, suspensa no ar, de um lado para o outro. “Manter-te-á em segurança”, dissera-lhe ela mas o certo é que o John Coffey não parecia estar nada em segurança. Pelo contrário, dava a impressão de ter tomado o lugar da Melinda à beira da sepultura de que o Harry falara,

Todavia, naquela altura, eu não podia dedicar a minha atenção ao John Coffey. Virei-me para os outros.

- Dean, vai buscar a pistola e o bastão do Percy.

- De acordo. - Dirigiu-se para a secretária e abriu a gaveta fechada à chave onde aqueles objetos haviam sido guardados, trazendo-os para onde nos encontrávamos.

- Estão prontos? - perguntei. Os meus homens... bons homens, e eu nunca me tinha sentido tão orgulhoso deles como naquela noite... acenaram afirmativamente. O Harry e o Dean mostravam um certo nervosismo; o Brutal mantinha-se firme como sempre. - Muito bem, serei eu a conduzir a conversa. Quanto menos vocês abrirem a boca melhor, e muito mais depressa daremos este assunto por encerrado... para o melhor ou para o pior. De acordo?

Voltaram a acenar afirmativamente. Respirei fundo e encaminhei-me para o fundo da Milha, em direção à cela do isolamento.

Quando abria porta, o Percy soergueu o olhar, piscando os olhos quando a luz incidiu sobre ele. Encontrava-se sentado no chão a lamber a fita-cola com que eu lhe tapara a boca.

A parte que eu tinha enrolado na região posterior do pescoço já se deslocara (provavelmente a transpiração e a brilhantina que ele aplicara tinham contribuído para que isso acontecesse), estando ele prestes a conseguir descolar também o resto que ainda faltava. Mais uma hora e teria começado a berrar por socorro com toda a força dos seus pulmões.

Quando entramos, ele serviu-se dos pés para se impulsionar um pouco recuando, mas deteve-se, sem dúvida ao dar-se conta de que não podia ir para lado nenhum, a não ser para o canto sudeste daquele espaço.

Retirei das mãos do Dean o seu revólver e o bastão, apontando-os na direção do Percy.

- Queres voltar a ficar com isto? - perguntei. Ele olhou para mim com uma expressão desconfiada e assentiu com a cabeça.

- Brutal - chamei. - Harry. Ponham-no de pé. - Ambos se debruçaram agarrando-o pela lona da camisa-de-força abaixo do sovacos e levantando-o do chão. Aproximei-me dele até termos ficado quase nariz contra nariz. Às minhas narinas chegou o cheiro acre do suor que o encharcava. Este devia ter tido origem nos esforços que ele fizera para se libertar da camisa-de-força e nos ocasionais pontapés à porta que o Dean tinha ouvido; no entanto, concluí que a maior parte da sua transpiração se devia pura e simplesmente ao medo; medo daquilo que poderíamos fazer-lhe quando regressássemos.

“Não me acontecerá nada, eles não são assassinos”, teria pensado o Percy... mas talvez se tivesse lembrado da Velha Faísca e que sim, de certa forma, éramos assassinos. Eu próprio tinha tratado da execução de setenta e sete, mais do que qualquer dos homens cujo peito tinha prendido com a correia, mais do que os que foram creditados ao próprio sargento York durante a Primeira Guerra Mundial. Matar o Percy não teria tido qualquer lógica, mas o certo é que já nos comportáramos de maneira ilógica, teria ele pensado enquanto estivera sentado ali, com os braços presos nas costas, a trabalhar ativamente com a língua a fim de conseguir libertar a boca da fita-cola. Além do mais, o mais provável seria a lógica não ter qualquer poder sobre os pensamentos de uma pessoa, quando esta se encontra quase imobilizada no chão de uma sala com paredes almofadadas, tão bem embrulhada como uma aranha imobilizava qualquer mosca.

O que significava que, se eu não conseguisse fazer com ele o que quisesse naquele momento, jamais o conseguiria. - Agora vou tirar a fita da boca se me prometeres que não começas a berrar - disse-lhe eu. - Quero ter uma conversa contigo e não um concurso de gritos. O que é que tens a dizer a isto? Prometes ficar calado?

Vi o alívio no seu olhar quando ele compreendeu que, se eu desejava realmente conversar, ainda lhe restavam algumas hipóteses de sair daquela situação com o couro intacto. Acenou que sim com a cabeça.

- Se começares a fazer barulho, a fita regressa à tua boca - adverti-o eu. - Estás a compreender?

Um outro acenar de cabeça, desta feita bastante impaciente. Estendia mão agarrei no extremo da fita que ele já tinha soltado e dei-lhe um vigoroso puxão, o que provocou um som estridente. O Brutal retraiu-se todo. O Percy ganiu de dor e começou a esfregar os lábios. Tentou falar, mas apercebeu-se, de que era impossível fazê-lo com a mão a cobrir a boca - afastou-a.

- Tira-me deste casaco de doidos, imbecil - disse ele desabridamente.

- Num minuto - afirmei. - Agora! Agora! Já...

Dei-lhe uma bofetada em cheio na face antes mesmo de me aperceber que estava prestes a fazê-lo... mas é claro que me encontrava bem ciente de que as coisas poderiam chegar àquilo. Até mesmo durante a primeira conversa que eu tivera com o diretor Moores acerca do Percy, aquela em que ele me aconselhara a delegar a responsabilidade da execução do Delacroix no Percy eu soubera que a situação poderia chegar àquele ponto. A mão de um homem é como um animal que só está meio domesticado; a maior parte das vezes é boa, mas por vezes descontrola-se e morde a primeira coisa que lhe surge à frente.

O som foi o de um estrépito agudo, como o estalar de um galho ressequido. O Dean arquejou. O Percy ficou a olhar para mim profundamente chocado, com os olhos arregalados quase a saltarem-lhe das órbitas. A sua boca abriu-se e fechou-se como a de um peixe a nadar dentro de um aquário. - Cala a boca e ouve o que tenho para te dizer - ordenei eu. - Merecias ser castigado pelo que fizeste ao Del, e demos-te o que merecias. Esta foi a única forma. Todos concordamos, com exceção do Dean, mas ele está pronto a alinhar conosco, caso contrário virá a arrepender-se. Não é verdade, Dean?

- Sim - respondeu este num murmúrio. Estava pálido como a cal. - Acho que sim.

- E faremos com que te arrependas de ter nascido - acrescentei. - Iremos conseguir que as pessoas tenham conhecimento da maneira como sabotaste a execução do Delacroix...

- Sabotei!...

- ... e de como quase fizeste com que o Dean morresse. Daremos tanto à língua que te impediremos de conseguir manter qualquer emprego que o teu tio te arranje.

Entretanto, o Percy começara a sacudir violentamente a cabeça. Ele não acreditava naquilo, talvez não fosse capaz de acreditar naquilo. A marca da minha mão ficara na sua face empalidecida.

E, independentemente do que possa vir a acontecer, assegurar-me-ei de que sejas espancado quase até à morte. Não é necessário sermos nós a fazê-lo. Também temos alguns conhecimentos, Percy, ou serás tão idiota que ainda não tenhas compreendido isso. Eles não se encontram sediados na capital do estado, mas isso não impede essas pessoas de saberem como legislar a respeito de determinados assuntos. São pessoas que têm amigos aqui dentro, pessoas que têm irmãos aqui, que têm pais cá dentro. Teriam todo o gosto em amputar o nariz ou o pênis de um monte de merda como tu. Estavam dispostos a fazê-lo apenas para que alguém por quem se interessam pudesse ter mais três horas por semana no pátio.

O Percy deixara de abanar a cabeça. Naquele momento, limitava-se a olhar com fixidez. Tinha os olhos marejados de lágrimas, apesar de estas não caírem. Na minha opinião eram lágrimas de raiva e de frustração. Ou talvez eu esperasse que assim fosse.

- Muito bem... Agora olha para o lado bom das coisas; Percy. Os teus lábios ardem-te um pouco por eu ter arrancado a fita adesiva, calculo eu, mas além disso não tens mais nada lesionado, se excluirmos o teu orgulho... e mais ninguém tem necessidade de saber aquilo que se passou, exceto os que se encontram presentes nesta sala neste momento. E nós nunca falaremos disto, não é verdade, rapazes?

Todos eles anuíram.

- Claro que não - asseverou o Brutal. - Os assuntos da Milha Verde permanecem na Milha Verde. Sempre assim aconteceu.

- Tu vais ser transferido para o Briar Ridge e nós deixar-te-emos em paz e sossego até que isso aconteça - acrescentei. - Tencionas deixar as coisas como estão, Percy, ou pretendes armar-te em duro conosco?

Fez-se um longo silêncio, muito longo, enquanto ele ponderava a questão... Eu quase conseguia ver as cremalheiras a engrenarem na sua cabeça, enquanto ele considerava e rejeitava possíveis contra-ofensivas. Por fim, deve ter havido uma verdade mais básica que se sobrepôs ao resto: a fita adesiva fora retirada da sua boca, mas ele continuava imobilizado no interior da camisa-de-força, e o mais certo seria ter muita vontade de mijar.

- Muito bem - anuiu ele finalmente. - Vamos considerar o assunto encerrado. Agora tirem-me de dentro desta cela. Nem sinto os ombros...

O Brutal deu alguns passos em frente, afastando-me ao passar por mim e agarrando no rosto do Percy com as suas mãos enormes - os dedos fizeram pressão sobre a bochecha direita do homem e o polegar deixou uma marca profunda na esquerda.

- Daqui a pouco - disse ele. - Primeiro tens de ouvir o que quero dizer-te. Aqui o Paul é o grande chefe, o que por vezes; o força a exprimir-se com uma certa elegância,

Tentei recordar-me de qualquer coisa elegante que pudesse ter dito ao Percy, mas não me recordei de nada. Ainda assim, concluí que talvez fosse preferível manter a boca fechada. O Percy parecia adequadamente aterrorizado e eu não queria estragar isso.

- As pessoas nem sempre compreendem que ser-se elegante não é o mesmo que ser-se frouxo, e é aí que eu costumo entrar em ação - continuou o Brutus. - Não me preocupo em agir de forma elegante, limito-me a dizer diretamente o que tem de ser dito. Portanto aqui vai: caso decidas faltar à tua promessa, nós vamos ser lixados. Mas depois havemos de te encontrar... nem que tenhamos de ir à Rússia, havemos de te encontrar... e seremos nós quem vai lixar-te. Vamos lixar-te até que desejes estar morto e, em seguida, esfregaremos vinagre nas partes que estiverem a sangrar. Estás a compreender?

O Percy acenou que sim. Com os dedos do Brutal a enterrarem-se-lhe nas faces macias, o Percy assemelhava-se estranhamente ao velho Pouca Terra.

Então, o Brutal largou-o e recuou. Acenei para o Harry, ele aproximou-se do Percy por trás e começou a desapertar fivelas e a desabotoar.

- Não te esqueças daquilo que acabamos de dizer, Percy - disse o Harry. - Não te esqueças e deixa que águas passadas sejam águas passadas.

Tudo aquilo era adequadamente assustador, três papões de uniformes azuis... Todavia, eu senti-me invadido por um grande desespero. Ele podia ficar calado por um dia ou uma semana, considerando as várias hipóteses, mas no fim haveria dois fatores que se conjugariam: a crença nos seus conhecimentos e a incapacidade que tinha de se afastar de uma situação de onde sairia a perder. Quando isso se concretizasse deitaria tudo da boca para fora. Talvez tivéssemos ajudado a salvar a vida da Melly Moores ao levarmos o John Coffey até junto dela; e eu não teria voltado atrás (“nem por todo o chá da China”, como se costumava dizer nesses tempos), mas no fim haveríamos de ir parar ao banco dos suplentes e o árbitro iria expulsar-nos do jogo. A menos que o assassinássemos, não existia maneira nenhuma de podermos obrigar o Percy a manter a sua parte da combinação, sobretudo depois de estar longe de nós e de começar a rememorar aquilo por que tinha passado. Olhei de esguelha para o Brutal e verifiquei que ele estava a pensar na mesma coisa que eu. Isso não me surpreendeu. A estupidez era coisa que não caracterizava o filho de Mrs. Howell, Brutus. Encolheu ligeiramente os ombros, mas foi o suficiente para eu compreender. E então?, dizia aquele encolher de ombros. O que mais podemos fazer, Paul? Fizemos o que tínhamos a fazer, e fizemo-lo da melhor maneira possível.

Sim. E os resultados também não tinham sido tão maus como isso.

O Harry desapertou a última fivela da camisa-de-força. Com uma expressão de desdém e raiva, o Percy deixou-o cair pelos braços indo tombar aos seus pés. Não olhava para nenhum de nós, pelo menos de frente.

- Devolvam-me a minha arma e o meu bastão - pediu ele. Entreguei-lhos. Meteu o revólver dentro do coldre, e o bastão no suporte habitual.

- Percy, se pensares sobre o assunto...

- Oh, mas isso é o que tenciono fazer - interrompeu ele, passando de raspão por mim. - Tenciono pensar muito no assunto. E vou já começar. A caminho de casa. Um de vocês poderá picar o meu cartão de ponto à hora a que o turno terminar. - Alcançou a porta da cela do isolamento e voltou-se para nos observar com uma expressão desdenhosa, onde se adivinhava constrangimento e cólera... uma combinação letal para o segredo que ainda tínhamos esperanças de conseguir manter. - A menos que, como é evidente, queiram explicar por que motivo larguei o serviço mais cedo.

Abandonou a cela e começou a percorrer a Milha Verde num passo largo, esquecendo-se, no meio de toda a agitação que o invadia, qual a razão por que o corredor central de linóleo verde era tão largo. Já cometera o mesmo erro numa ocasião anterior e safara-se sem problemas de maior. Mas, desta feita, não ia ser capaz de se desvencilhar com tanta facilidade.

Segui-o até à porta, tentando pensar em algo que o acalmasse - não queria que ele saísse do Bloco E daquela maneira todo suado e desalinhado, com a marca avermelhada da minha mão na sua bochecha. Os outros três seguiram os meus passos.

O que aconteceu em seguida, aconteceu com muita rapidez - e não durou mais de um minuto, talvez até menos. No entanto, recordo-me vividamente de tudo até hoje - em grande parte porque, acho eu, contei o que sucedeu à Janice quando cheguei a casa. Aquilo que aconteceu em seguida - a reunião com o Curtis Anderson ao alvorecer, o inquérito, o encontro com a imprensa que o Hal Moores organizou para nós (como é óbvio, nessa altura já ele havia reassumido as suas funções), e a comissão de inquérito que foi instituída temporariamente na capital do estado - essas coisas foram-se apagando da minha memória com a passagem dos anos, à semelhança de tantas das minhas recordações. Mas no que diz respeito ao que realmente aconteceu logo em seguida na Milha Verde, sim, disso recordo-me perfeitamente.

O Percy caminhava pelo lado direito da Milha com a cabeça baixa, e sou forçado a dizer isto: nenhum prisioneiro vulgar lhe poderia ter chegado. No entanto, o John Coffey não era um prisioneiro vulgar. O John Coffey era um homem gigantesco, pelo que o seu braço tinha um alcance de gigante. Vi os seus longos braços de pele castanha saírem disparados por entre as grades.

- Atenção, Percy atenção! - gritei-lhe. O Percy começou a voltar-se, levando a mão esquerda ao punho do bastão. Mas foi puxado com violência contra a frente da cela do John Coffey, com o lado direito do rosto a esmagar-se contra as barras de ferro.

Soltou um grunhido e voltou-se na direção do Coffey, erguendo o bastão de nogueira. Sem dúvida que a posição do John era vulnerável em relação ao bastão o seu próprio rosto encontrava-se tão fortemente pressionado entre o espaço existente nas duas barras centrais que dava a impressão de pretender fazer passar toda a sua cabeça por aquela abertura. Claro que isso teria sido impossível, mas de fato era o que parecia estar a acontecer. A sua mão direita sondou e encontrou a nuca do Percy, fechou-se à volta do pescoço deste e puxou a cabeça violentamente para a frente. O Percy desferiu um golpe com o bastão na fronte do John. O sangue começou a jorrar.

Apesar de o Coffey não ter prestado a mínima atenção a isso. A sua boca pressionou-se contra a do Percy. Comecei a ouvir um som sussurrante - o ruído de algo a ser libertado, como o exalar de respiração há muito contida. O corpo do Percy deu um solavanco como o de um peixe preso no anzol tentando libertar-se,.mas nunca chegou a ter a mínima hipótese de fuga; a mão direita do John mantinha-se firmemente agarrada à região posterior do pescoço do Percy. Os rostos dos dois pareciam querer fundir-se como as faces de duas pessoas enamoradas que já tive a oportunidade de ver, enquanto se beijavam apaixonadamente por entre barras.

O Percy gritou, um som abafado como se houvesse sido solto através de uma mordaça, e fez outro esforço para conseguir recuar. Durante breves instantes, os lábios dos dois apartaram-se um pouco, o que me permitiu avistar o turbilhão negro que saía da boca do John Coffey e entrava na do Percy Wetmore. O que não entrava na deste através de lábios frementes, entrava pelas suas narinas. Pouco depois, a mão que apertava a nuca do Percy soltou-se um pouco, e o rosto deste foi de novo puxado na direção da boca do John; era como se houvesse sido trespassado pelos lábios dele.

Os dedos da mão esquerda do Percy abriram-se. O seu precioso bastão de nogueira tombou sobre o linóleo verde. Ele não voltou a ter oportunidade de o apanhar do chão.

Tentei lançar-me para a frente, imagino que me lancei para a frente, mas senti os movimentos tolhidos, como teria acontecido a uma pessoa idosa. Levei a mão à arma, mas a correia continuava atravessada na posição de segurança, e inicialmente não fui capaz de a sacar do coldre. Abaixo de mim, tive a sensação de que o solo estremecia, à semelhança do que tinha acontecido no quarto da casa dos Moores. Não tenho bem a certeza mas parece-me que uma das lâmpadas do teto se estilhaçou. Os fragmentos de vidro começaram a tombar para o chão. O Harry soltou um grito de surpresa.

Por fim, consegui soltar com o polegar a correia de segurança que atravessava a coronha da minha pistola de calibre trinta e oito, mas, antes de poder retirá-la do coldre, o John já tinha empurrado o Percy, afastando-o de si e recuando para o interior da sua cela. O John exibia um arreganho sorridente, esfregando os lábios, como se houvesse provado algo de desagradável.

O que é que ele fez? - perguntou o Brutal aos gritos. O que é que ele fez, Paul?

- Aquilo que ele extraiu do corpo da Melly encontra-se neste momento dentro do Percy - respondi.

O Percy fora arremessado contra as barras da antiga cela do Delacroix. Os seus olhos estavam arregalados e sem qualquer expressão. Aproximei-me dele com cautela, esperando que ele começasse a tossir a qualquer momento e a sufocar tal como o John fizera depois de largar a Melinda, mas isso não aconteceu. Limitou-se a ficar de pé no mesmo lugar. Fiz estalar os meus dedos em frente dos seus olhos

- Percy! Eh, Percy! Acorda!

Nada. O Brutal juntou-se a mim e aproximou as mãos do rosto apático do Percy.

- Isso não vai resultar - disse eu.

Ignorando as minhas palavras, o Brutal bateu palmas com todo o vigor, duas vezes, exatamente em frente do nariz do Percy. E de fato resultou, ou pelo menos pareceu resultar. As pálpebras do Percy estremeceram e ele olhou em volta, atordoado, como alguém que houvesse sido atingido na cabeça e que se esforçasse por recuperar a consciência. Olhou para o Brutal, e depois olhou para mim. Decorridos todos estes anos, tenho a certeza de que ele não viu nenhum de nós, mas nessa altura achei que sim; convenci-me de que ele estava prestes a despertar daquela espécie de transe.

Afastou-se das barras da cela e cambaleou um pouco. O Brutal ajudou-o a recuperar o equilíbrio.

- Calma, rapaz; estás bem? - O Percy não respondeu, passou pelo Brutal e virou-se para a secretária no corredor, o posto do guarda de serviço. Na altura não cambaleava, não se poderia dizer que o fizesse; contudo, adernava um pouco para bombordo.

O Brutal estendeu a mão para o equilibrar. Afastei-lhe o braço.

- Deixa-o sozinho. - Teria eu dito a mesma coisa se soubesse o que iria acontecer a seguir? Tenho feito essa pergunta a mim mesmo num milhar de ocasiões desde o Outono de 1932. Nunca consegui obter a resposta.

O Percy deu doze ou catorze passos e voltou a parar, sempre de cabeça baixa. Nesta altura encontrava-se do lado de fora da cela do Bill “Selvagem” Wharton. Este continuava a emitir aqueles ruídos que pareciam saídos de uma tuba de bocal largo. Tinha estado adormecido durante todos estes acontecimentos. Agora que penso no assunto, tenho de conclui que ele esteve a dormir ao longo de toda a sua morte, o que o fez ter muito mais sorte do que a maioria dos homens que acabava os seus dias ali. Certamente que foi mais afortunado do que aquilo que merecia.

Antes de compreendermos o que estava a suceder, o Percy sacou da arma, deteve-se junto das barras da cela do Wharton e disparou os seis tiros para o corpo do homem adormecido. Os disparos foram consecutivos, à velocidade a que o gatilho da arma o permitia. O som que se ouviu naquele espaço confinado foi ensurdecedor; quando narrei o ocorrido à Janice na manhã seguinte continuava a mal conseguir ouvir o som da minha própria voz, devido ao zumbido que sentia nos ouvidos.

Corremos para ele, os quatro em simultâneo. O Dean foi o primeiro a chegar - não percebo bem como, uma vez que ele se encontrava atrás do Brutal e de mim na altura em que o Coffey agarrara no Percy - mas o certo é que foi. Agarrou no pulso do Percy, preparado para retirar a arma da mão deste, mas não foi necessário fazê-lo. O Percy soltou o revólver, que foi cair no chão. Os seus olhos percorreram-nos como se fossem patins e nós fôssemos o gelo. Ouviu-se um som sibilado acompanhado de um cheiro acentuado a amoníaco quando a bexiga do Percy não se conteve, seguido de outro ruído e de um fedor ainda mais desagradável quando ele encheu também o outro lado das calças. Os seus olhos haviam-se prendido a um canto afastado do corredor. Eram uns olhos que, tanto quanto sei, nunca mais voltaram a ver nada neste mundo verdadeiro onde vivemos. Logo no início desta narrativa, eu escrevi que o Percy se encontrava no Briar Ridge, na altura em que o Brutal descobriu as lascas coloridas do carretel do Mister Jingles, o que aconteceu dois meses mais tarde, e não menti quanto a isso. No entanto, nunca chegou a tomar posse do gabinete com a ventoinha ao canto; tão-pouco teve ao seu dispor um grupo de doentes loucos, com quem pudesse fazer o que muito bem lhe apetecesse. Mas imagino que, no mínimo dos mínimos conseguiu ter um quarto só para si.

Ao fim e ao cabo o homem sempre tinha alguns conhecimentos.

O Wharton encontrava-se deitado de lado com as costas contra a parede da cela. Eu não conseguia avistar muita coisa nesse momento, para além de uma grande quantidade de sangue a empapar o lençol e a espalhar-se pelo chão de cimento; todavia, o médico legista afirmou que o Percy tinha disparado como a Annie Oakley 14. Ao recordar-me da história do Dean sobre a maneira como o Percy lançara o bastão de nogueira contra o rato, não lhe acertando por um triz, não me senti muito surpreendido. Desta vez a distância a que o alvo se encontrava tinha sido muito menor, e ele estava imóvel. Um tiro nas virilhas, um nas entranhas, um no peito e três na cabeça.

O Brutal tossia e agitava as mãos, tentando dissipar a nuvem de fumo provocada pelos disparos. Eu próprio também tossia, apesar de só então me aperceber disso.

- Fim da linha - disse o Brutal. A sua voz era calma, embora fosse impossível ignorar a expressão de pânico que se espelhava no seu olhar.

Olhei para o corredor e vi o John Coffey sentado na beira da sua tarimba. Uma vez mais, entrelaçara os dedos entre os joelhos, mas tinha a cabeça erguida e já não apresentava quaisquer vestígios do aspecto doentio que tivera antes. Acenou ligeiramente na minha direção, tendo-me eu surpreendido a mim mesmo - tal como acontecera no dia em que lhe estendera a mão - ao retribuir-lhe aquela espécie de saudação.

- O que é que vamos fazer? - perguntou o Harry numa voz titubeaste. - Oh, meu Deus, o que é que nós vamos fazer?

 

14 (Phoebe Anne Oakley Mozer, 1860-1926; conhecida atiradora norte-americana (N. da T.)

- Não podemos fazer nada - retorquiu o Brutal no mesmo timbre de voz muito calmo. - Estamos fritos. Não é verdade, Paul?

Entretanto, a minha mente começara a raciocinar a toda a velocidade. Olhei para o Harry e o Dean, que me fitavam como miúdos assustados. Em seguida, olhei para o Percy, que continuava de pé com os braços flácidos e o queixo descaído. Por último, olhei para o meu velho amigo, o Brutus Howell. - Não vamos ter muitos problemas - disse eu.

Finalmente, o Percy começou a tossir. Dobrou-se sobre si mesmo com as mãos apoiadas nos joelhos, quase sem respiração. O seu rosto começou a adquirir uma tonalidade avermelhada. Abria boca, com a intenção de dizer aos outros que se mantivessem afastados, mas não cheguei a ter oportunidade de falar. O Percy emitiu um som que era um cruzamento entre o coaxar de uma rã-gigante e um vômito seco, abriu a boca e cuspiu uma nuvem negra formada por coisas rodopiastes. Era tão densa que durante alguns instantes não conseguimos destrinçar a sua cabeça.

Continuar: parte 2 de 4