A extinção do arco-íris: ecologia e história
Prefácio à segunda edição
Prezados leitores, este prefácio foi elaborado para ressaltar algumas informações da época em que originalmente, 1988, o livro veio a público e, tecer breves considerações sobre a pertinência do tema analisado nos primórdios do campo de pesquisa em construção da História Ambiental.
O estudo efetuado, no mestrado em história da Unesp-Assis-SP, realizou uma análise da agroindústria de açúcar e álcool no início da década de 70 do século passado, na mesma região em que se situava este campus universitário e, quando os primeiros passos mais efetivos no planejamento e aplicação de uma política pública energética, eram adotados governamentalmente para a produção deste biocombustível.
Destaque-se que, naquele momento a produção de obras no campo da história, que abordavam o tema, era quase inexistente, no entanto, isso não serviu como desestímulo, ao contrário, neste contexto limitado de referências específicas, construí um corpo teórico metodológico que pudesse me auxiliar em tal empreitada.
Não se buscava realizar uma história do ambiente ou sobre o ambiente, mas de criar uma possibilidade de analisar historicamente um dado problema e, com uma articulação conceitual utilizada por outros campos do saber, tais como: ecologia, biologia, física.
Desta forma, noções como natureza, ecossistema, biodiversidade não foram tratados como objetos passivos de citação textual em referência a complexidade, essencialmente transdisciplinar do conhecimento ambiental, mas construíram uma estratégia de análise, realizaram, portanto, um diálogo com uma abordagem histórico-ambiental.
Considero importante, reafirmar, que o contexto teórico e espaço/temporal do estudo refletiram as condições em que foi produzido e, neste momento atual, podemos constatar permanências e transformações dos problemas anteriormente levantados. Por exemplo, a Extinção do Arco-Íris, expressão metafórica da eliminação da biodiversidade na agroindústria sucroalcooleira permanece, bem como, o problema social de concentração de renda e riqueza pelo latifúndio.
Permitimo-me ponderar que depois de 33 anos da criação do pró-álcool (1975) não ocorreram melhorias nas condições de trabalho e, de vida dos cortadores de cana, muitos morrem de estafa no eito.
As periferias das cidades vizinhas destas usinas, locais de moradias destes trabalhadores, continuam à míngua dos benefícios urbanos de saúde, de educação, de segurança, de transporte, de lazer.
Por que o debate sobre a sustentabilidade ambiental não inclui as condições sócio-econômicas desta população? Por que os intelectuais de renome que defendem incondicionalmente o funcionamento de tal aparato produtivo não computam estes dados em suas análises?
A medição de CO2 no cano de escapamento de veículos movidos a álcool é irrelevante, por isso ecologicamente limpo? A queima da palha não gera CO2? Não elimina a fauna? Não desperdiça energia? O açúcar não é alimento transformado em álcool para ser queimado em motores de carros? Os carros são mais eficientes ecologicamente do que os navios, os trens, os ônibus, as bicicletas? Não existe um limite de terra agricultável para ser transformada em cana-álcool para atender a crescente demanda do mercado?
A mídia expressa este debate ou atende os interesses das grandes corporações que lucram com este processo produtivo e contratam no mercado publicitário e acadêmico os seus defensores?
A necessidade de ampliação da área agricultável para monocultura em extensas áreas de produtos agrícolas para biocombustíveis empurra para regiões de florestas outras práticas de agropecuária, devastando o pouco que resta de ambiente autóctone e colocando em risco o ecossistema planetário.
A escala agrícola da prática da monocultura é fator obrigatório a ser considerado em uma análise ambiental. Os questionamentos imprescindíveis de qualquer estudo implicam em perguntar: O que se produz? Para quê se produz? Como se produz? Quem produz? Quais alternativas possíveis a este processo produtivo?
A partir destes dados pode-se ponderar sócio-ambientalmente na matriz concentração/distribuição de riquezas e destruição/preservação ambiental sobre os benefícios e malefícios deste processo. Destaca-se também, que entre estes binômios opositores há uma ampla escala de nuances que qualificam o grau de suas definições.
Rumamos para um momento de aprimoramento na produção de bioenergia ao se extrair etanol da celulose, que tanto pode ser da palha da cana, como de outras espécies vegetais. O lixo orgânico também está sendo objeto de pesquisa para a geração deste biocombustível.
Continuando a minha trajetória de pesquisa neste campo, realizei uma análise de pós-doutorado, do Programa Nacional de Produção do Biodiesel, publicada recentemente, pela Atritoart, intitulada: “Biodiesel: O “Óleo Filosofal”: Desafios para a educação ambiental no caldeirão do “Desenvolvimento Sustentável”“. O sistema de produção de bioenergia álcool ou, biodiesel e a ponderação sobre os impactos sócio-ambientais referentes a estas práticas já se prenunciam pela diminuição da recomposição orgânica do solo devido às transformações realizadas no processo químico-industrial destes vegetais e, pela manutenção de um injusto sistema social de produção. Os futuros desafios de nossa sociedade poderão ser resolvidos ao se analisar o processo histórico que a constituiu, desta forma, uma investigação do passado se faz presente.
Londrina, 2008
Jozimar Paes de Almeida