A extinção do arco-íris: ecologia e história

Jozimar Paes de Almeida · Capítulo 13 de 17

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A extinção do arco-íris: ecologia e história

O privilégio da monocultura e suas pragas

Ainda comparando com o gás metano que pode ser gerado por biodigestão, este corresponde à metade do álcool de cana produzido em 1984 no Brasil, além do resíduo de cerca de 17 milhões de toneladas, rico em matéria orgânica, a ser utilizado como alimento para gado ou fertilizante no cultivo agrícola.

Além dessa constatação de desperdício de energia, e aumento de poluição gerada pela queima da palha da cana, existem outros desperdícios tão importantes, que são o da prática da monocultura extensiva aos limites da propriedade fundiária, a queima· de microorganismos do solo, a queima de oxigênio e contribuindo para ampliar o efeito estufa pela liberação de energia.

 

O privilégio da monocultura e suas pragas

A agroindústria ocupa áreas agrícolas e matas naturais buscando espaço na necessidade de produzir matéria-prima para o fabrico do álcool e açúcar para venda no mercado.

Simplifica-se dessa forma, todo o ecossistema, produzindo um desequilíbrio intenso da homeostase e favorecendo o surgimento de pragas, assim como a degeneração do solo.

A monocultura de cana representa uma ameaça na ocupação de terras férteis que eram usadas, ou que poderiam ser usadas, para o plantio de alimentos.

Esta voracidade de terras por parte da agroindústria infligida pelo ritmo de produção é um reflexo do mercado concorrente capitalista que irá impor a sua racionalidade técnica no processo de produção, impedido pela forma como se estruturam as grandes destilarias (empresas), de se realizar a rotação de culturas, ou o cultivo intercalado, por ausência de área.

Por não haver uma rotação de cultura, no caso uma tentativa de controle por homeostase do ecossistema, verifica-se o surgimento de pragas como: carvão de cana, raquitismo de soqueira, etc.

Esta última para ser solucionada recebe um tratamento de aquecimento das gemas a uma temperatura de 50º graus, sendo depois mergulhadas em uma solução de fungicida, para serem replantadas no campo em três estágios onde sofrem irrigação.

Os perigos da prática da monocultura são abordados exemplarmente por Jean Dorst:

A monocultura deve ser considerada, na maioria dos casos,

como uma das calamidades da agricultura moderna, quando

encarada no seu contexto econômico e político. Não se pode,

em um plano estritamente biológico, garantir a perenidade do

rendimento cultivando apenas uma planta mesmo que se

proteja eficazmente o solo, restituindo-lhe os restos da cultura

(principalmente fonte de conservação do teor de matéria

orgânica) e os elementos que dela foram retirados (distribuindo

adubos adequados). É muito raro que isto seja possível e,

desse modo, tal prática de cultivo empobrece o solo, fazendo

incidir toda a pressão da cultura sobre determinados elementos

minerais e orgânicos37 .

E continua ressaltando as conseqüências dessa simplificação, referindo-se:

Ao fato de o rendimento global de um meio artificial ser

nitidamente inferior, comparativamente ao dos meios naturais;

no caso de culturas, o desperdício de energia vindo do sol é

considerável.

Em vez de explorar as inúmeras possibilidades do meio,

deforma-o.

E evidente que uma planta não pode nunca substituir todas as

que vivem em estado natural no mesmo local, e o número de

plantas cultivadas é incrivelmente pouco elevado relativamente

às que constituem o mundo vegetal38 .

Esta opção pela monocultura, nunca é demasiado enfatizar, é resultado de uma estrutura sócio-econômica, em que se produz para mercado objetivando lucro, segundo cálculos que não levam em conta o desperdício energético, a degradação da limitada natureza, a apropriação centralizada da terra, poder e riqueza, provocando concomitantemente a degradação da força natural e do homem pelo seu passado, seu presente e suas perspectivas de condições de vida.

A cana-de-açúcar é uma planta que pode conviver com outras culturas, mas o seu cultivo sob a forma de monocultura é resultado dos fatores sócio-econômicos da estrutura concentrada da propriedade fundiária.

Entende-se a razão da prática da monocultura enquanto

resultado de interesses econômicos-políticos nas mãos dos

empresários capitalistas centralizando poder e produção e

executando a lógica do capital. Esta lógica funciona da seguinte

forma, segundo Engels; "A ciência social da burguesia, a

economia política clássica, ocupa-se apenas com os efeitos

sociais imediatos a serem obtidos através das atividades

humanas dirigidas no sentido da produção e do intercâmbio...

Daí a razão porque os capitalistas, cada um por seu lado,

produzem e trocam tendo apenas em vista o lucro imediato e,

assim sendo, só podem colocar em primeiro lugar os resultados

mais próximos e diretos. Considerando que qualquer industrial

ou comerciante apenas se preocupa em vender, com um

pouquinho de lucro, embora a mercadoria fabricada ou

comprada, está claro que fica satisfeito e não mais se interessa

pelo que pode acontecer com a mercadoria e com o seu

comprador. O mesmo (sucede) com as conseqüências naturais

dessas mesmas atividades39 .

Além das já citadas práticas que prejudicam o meio ambiente, ainda fazem parte dessas conseqüências naturais a infestação de pragas que se expressa usualmente com o seguinte significado:

O termo praga aplica-se a animais que são capazes de reduzir

a quantidade ou a qualidade de alimentos, rações, forragens,

fibras, flores ou madeiras durante a produção, colheita,

processamento, armazenagem, transporte ou uso, que podem

transmitir doenças ao homem, aos animais domésticos e as

plantas cultivadas, que injuriam ou perturbam o homem ou seus

animais; que estragam plantas ornamentais, gramados ou·

essências florestais; ou que danificam propriedades ou objetos

de uso pessoal40 .

Esta definição generalizadora empregada não leva em conta especificidades que podem ocorrer em determinadas circunstâncias. Por isso ela não é tão esclarecedora e pode levar a sérios enganos. Explicitando:

Os pombos podem ser pragas num milharal, caso seu proprietário tenha como objetivo apenas vender o milho, mas, e se estiver criando pombos também?

Os homens e animais domésticos podem me transmitir doenças. Eles são pragas? A prática exercida pelo homem sobre o meio ambiente pode se revestir e agir com múltiplas finalidades tentando aproveitar respeitar e dar continuidade ao equilíbrio homeostático. No entanto a ratio capitalista utilizada na agricultura por produzir o direcionamento, padronização, unificação das espécies, objetivando produtividade e lucro, denomina selvagens e inúteis às espécies que não foram submetidas ao totem mercadoria com finalidades de mercado pelo empresário.

O capitalismo pode transformar tudo em mercadoria para a sua exploração, desde fulgurantes corpos celestes (veja o cometa Halley e a venda de sua marca) até mesmo a apropriação do Universo, que se deu pelo decreto legislativo n.º41 de 2 de outubro de 1968, que aprova o "Tratado sobre princípios reguladores das atividades dos Estados na exploração e uso do Espaço Cósmico, inclusive a Lua e demais corpos celestes", adotado pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 19 de dezembro de 1966. Haja pretensão humana!

Enfim, as pragas veiculadoras do desequilíbrio homeostático em sua maioria são decorrentes da ação do homem sobre o meio ambiente, ao estabelecer a agricultura sob a forma de monocultura, utilizando

biocidas41, introduzindo espécies exógenas em ambientes que não se encontram aptos a receber a espécie alienígena. Afeta-se assim a relação de equilíbrio e suporte de vida da região, por expandir-se numa taxa exponencial, devido a intenso desequilíbrio homeostático, que suprimiria o excesso dessa nova espécie.

As "pragas" podem surgir também das alterações climáticas provocadas ou não, favorecendo determinadas espécies por várias circunstâncias como produção, alimento, competição, predação, dispersão.

A U.N.A., por praticar monocultura simplifica o meio ambiente, provocando o descontrole do ecossistema e o surgimento de "pragas". Para eliminá-las temporariamente (devido ao ressurgimento) a Usina utiliza biocidas, que matam também outros seres vivos.

O biocida mais utilizado na cultura de cana na usina Nova América tem sido o heptacloro e o aldrin, para tentar resolver problemas que foram gerados por ausência de rotação ou intercalação de culturas; planta-se cana há trinta, quarenta anos na mesma área.

O aldrin e o heptacloro são compostos do grupo de inseticidas organoclorados. Persistem no solo até mais de trinta anos após a sua aplicação. São lipossolúveis, depositando-se cumulativamente na gordura animal e humana com efeito cancerígeno. Eles penetram no organismo absorvidos pelas vias respiratória, dérmica e oral, atingindo o sistema nervoso central e periférico, provocando lesões e diversos efeitos negativos na saúde dos indivíduos.

O aldrin teve seu uso e comercialização proibidos na comunidade européia desde 1981, exceto em casos especiais no tratamento do solo utilizado para plantas ornamentais. Na União Soviética, Turquia e Israel sua proibição se estendeu até à produção.

O heptacloro de uso restrito no Canadá, Dinamarca e Estados Unidos, teve seu uso e comercialização proibidos na Suécia; República Federal da Alemanha, Nova Zelândia, Turquia e restante comunidade européia.

No Brasil, o seu uso, comercialização e distribuição estão proibidos pela portaria n.º 329, de 2 de setembro de 1985 do Ministro de Estado da Agricultura, constituindo exceção à regra nos seguintes casos previstos no parágrafo único do artigo primeiro:

a) O uso de iscas formicidas à base de Aldrin e Dodecacloro.

b) O uso de cupinicidas à base de Aldrin para emprego em florestamento e reflorestamento.

c) O uso de referidos produtos quando aplicados pelos órgãos públicos competentes, em campanhas de saúde pública de combate a vetores de agentes etiológicos de moléstias.

d) O uso emergencial na agricultura, a critério da Secretaria Nacional de Defesa Agropecuária -SNAD -do Ministério da

Agricultura42 .

Para controlar o surgimento de "pragas", a usina Nova América utiliza intensamente biocidas em sua monocultura de cana-de-açúcar, acondicionando-os em reservatórios de 8 mil litros.

Este produto é pulverizado pelos trabalhadores nas lavouras sem a mínima preocupação na utilização de equipamentos de proteção, levando a empresa. a ampliar o seu ambulatório para atender casos de intoxicação por via respiratória, resultante da pulverização.

Os efeitos dos biocidas, não se restringem somente à vida humana, mas a todas as espécies desse ecossistema, seja pelos seus efeitos cumulativos e degenerativos, seja pela dizimação rápida da flora e fauna atingidas.