A extinção do arco-íris: ecologia e história

Jozimar Paes de Almeida · Capítulo 7 de 17

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A extinção do arco-íris: ecologia e história

"In memorian" a um ecossistema devastado

"In memorian" a um ecossistema

devastado

 

Quando brotarem as flores

Quando crescerem as matas

Quando colherem os frutos

Digam o gosto prá mim.

Ivan Lins/Victor Martins

Os primeiros raios de sol começam a penetrar nos últimos vestígios do manto negro da noite, Inicialmente a luminosidade de nosso astro rei, faz estender sobre a terra sombras imensas dos pequenos montes do horizonte.

Com a chegada da manhã os habitantes dos campos, florestas, lagos e rios, movem-se lentamente, preguiçosamente e sonolentos em direções opostas, para a luta pela sobrevivência. São sentidos divergentes, porque uns utilizaram-se da escuridão da noite e de um tênue brilho da lua e das estrelas, para poderem locomover-se e encontrar alimentos. Outros repousavam nos mais diferentes e variados lugares, para poderem agora com a luz e o acalanto do Sol procurar nutrientes para viver.

Com a ascensão da névoa úmida da manhã, distinguem-se mais claramente as diferentes silhuetas destes habitantes; são mamíferos, répteis, aves, insetos, anfíbios e peixes com as suas variações de cor, tamanho e espécies convivendo harmoniosamente no meio físico.

Esta narrativa fictícia teria todas as condições materiais de estar acontecendo em 1886, no vale do Paranapanema, devido às descrições do ecossistema da região feita pelos membros e sertanistas da Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo, como se segue:

Enquanto isso, percorríamos a região em torno num raio de 2 a

3 léguas, atravessamos seus belos campos, tão lindos, tão

enfeitados de flores róseas de jalapa, povoado de perdizes e

codornas, retalhados de quando em quando por cursos de

águas frias e cristalinas, ou cursos assinalados ao longe lá

embaixo pela fita verde da vegetação mais alta que lhes

sombreia a corrente. Vimos matas vigorosas, ainda intactas,

cobrindo a cumiada dos montes e derreando-se pela lombada

dos contrafortes, a encerrarem neste círculo verde os campos

de tons alourados, estendidos, longos, sumindo-se além da

fímbria do horizonte.

A madeira preciosa e variada nas suas essências, diz bem do

que vale o solo destas redondezas, assentando sobre rochas

argilosas, chistos e grés, atravessados por diques de diábase

de rocha eruptiva que se desmancham na terra roxa de alto

expoente de fertilidade20 .

Nota-se, por intermédio dos relatos dessa comissão, a formação ecológica da região em estudo, a composição do solo, os rios cercados pela floresta Galeria, alguns animais que compõem a fauna, assim como a multiplicidade de espécies vegetais integrantes da flora. Outro trecho da descrição da referida comissão:

A mata virgem oferece aos conhecedores da boa terra os

indícios mais inconcussos da sua superioridade: a figueira

branca com as raízes colossais, o pau d'alho, a peroba com

troncos grossos e linheiros, a cabreúva, o cedro, a chumbuva,

guarataí, o jataí, jacarandá são as árvores gigantescas.

Enormes variedades de cipós ou plantas sarmentosas faz

através da mata uma rede impenetrável. Grande abundância de

orquídeas e de bromélias cobrem os troncos envelhecidos,

enquanto a massa espessa da folhagem se levanta em esbeltas

e lindíssimas palmeiras de que também há aqui uma grande

variedade21 .

As dificuldades enfrentadas para o levantamento da cobertura vegetal primitiva foram· várias, devido à imprecisão da localização correta das áreas. É reduzida a quantidade de fontes históricas produzidas pelos sertanistas. Estas dificuldades são em seguida explicitadas por Helmut Troppmair, que por meio de estudos toponímicos, históricos e ecológicos reconstituiu em um mapa, a cobertura vegetal primitiva do Estado de São Paulo. Informa o autor que:

As fontes históricas infelizmente são escassas, pois os

desbravadores que se aventuraram para os sertões do oeste

ocuparam a terra e com exceção do termo de posse e dos

limites da área nada mais deixaram registrado22 .

 

Em seguida refere-se, também, às descrições dos sertanistas:

Aspectos semelhantes apresentam os relatos de viajantes do

século passado, além de serem esparsos, a dificuldade

principal reside na localização correta das áreas pois as

descrições são vagas como por exemplo: após três dias de

viagem alcançamos os campos23 .

Pode-se notar a dificuldade da reconstituição integral do ecossistema da região, ao passar por estas lacunas expressas pelos relatos dos sertanistas, barreiras para uma descrição mais pormenorizada da constituição da flora e fauna.

Assim, em 1870, os planaltos e as florestas do oeste de São

Paulo e do norte do Paraná constituíam vasto sertão, região

mal conhecida, habitada sobretudo por índios, na qual se

perdiam alguns sertanistas audazes24 .

O que se constata das referências anteriores é a existência de uma exuberância vegetal, expressa pela multiplicidade de diferentes espécies da flora abrangendo vastos espaços do Estado. Os mapas que se seguem, reconstituem os espaços abrangidos pela cobertura vegetal, que foram devastadas progressivamente pela ação do

homem 25 .

Esta composição de vegetais cria condições e é o habitat de uma fauna integrada por uma variedade de peixes, anfíbios, insetos, aves, mamíferos e répteis que em suas relações com a flora e a terra, água e ar constituem o denominado ecossistema.

Neste ecossistema funciona um complexo mecanismo de troca de energia, equilibrado e auto-regulado, a homeostase que se constitui em um grande sistema contido na ecosfera: biosfera, atmosfera, hidrosfera e litosfera.

Faz-se necessário expor que a homeostase não é um equilíbrio perfeito de troca de energia, pois existe uma perda desta para o exterior do sistema; a esta liberação de calor maior do que o recebimento de energia denomina-se entropia. É importante expor que a análise deste sistema se refere principalmente ao planeta, já que esta energia dissipada no espaço exterior continua existindo e pode voltar a se concentrar em alguma parte do universo.

O funcionamento do ecossistema no planeta sem a interferência da população humana, revela uma perda não intensa de energia, porém com a interferência desta produção, principalmente em nosso período tecnológico-industrial essa perda de energia se intensificou diminuindo, por conseguinte o tempo de existência de vida na terra.

Um dos elementos principais para a manutenção deste equilíbrio na ecosfera, é a realização da fotossíntese pelas plantas ao captarem a energia solar, gerando com isso os ciclos bio-geoquímicos os quais produzem as condições básicas para o funcionamento da vida na terra. Nesta, todas as espécies são essenciais e indispensáveis, pois são órgãos componentes de um mesmo organismo vivo.

A extinção de uma determinada espécie, ou a modificação da correlação de forças energéticas das espécies que compõem um habitat em uma região, ou na ecosfera como um todo, ocasionará certamente intensificação de perda de energia na homeostase, prejudicando o funcionamento normal do organismo como um todo.

Podem ocorrer, nos casos mais graves, a destruição de todas as formas de vida que existiam em um equilíbrio harmônico, desde as mais simples, até às mais complexas, as quais sobreviviam pela interdependência de troca energética. O homem considerado atualmente o mais complexo dos seres vivos sobre a terra, não teria condições de existência sem os vegetais transformadores de energia, produtores de oxigênio e alimentos.

A morte natural dos organismos vivos, ao ocorrer no sistema auto-regulado da homeostase, cumpre o seu papel de fornecimento de condições para o surgimento e a manutenção da vida, pois os desejos orgânicos que retomam à terra servem de adubo aos vegetais. Quem diria que o movimento dos contrários (morte-vida), fosse tão claramente expresso e importante na natureza!

A heterogeneidade e multiplicidade de seres vivos formam um complexo sistema que se regula automaticamente, pela composição dos próprios organismos. A simplificação desta diversidade diferenciada quebra a harmonia da vida e diminui progressivamente o tempo finito de sua existência no planeta, já condenado antecipadamente pela não eternidade do Sol, fonte da energia primordial: a fotossíntese. Aumentamos a velocidade de nossa extinção ao eliminar a diferença auto-reguladora dos seres vivos encontrada no ecossistema.

A manutenção do ritmo biológico da vida, resultado de um processo de evolução, tem velocidade própria diferenciada por espécies desde a sua procriação, crescimento, maturação e morte, completando o ciclo da existência.

Este ritmo obedece ao equilíbrio homeostático natural e se instituiu nos milhares de anos desde a formação de toda gama de espécies, e por funcionar desta forma, estabelece condições ideais para o fortalecimento e perpetuação das espécies.

O tempo de existência dos mecanismos de sustentação de vida em nosso planeta não é eterno e a partir de sua formação e desenvolvimento caminham natural e gradativamente para o desaparecimento.

A existência de uma cobertura vegetal sobre o solo, impede que determinados agentes naturais (sol, chuva, vento) possam vilipendiar a sua camada orgânica. Ao despir o solo desta proteção permite-se a erosão, um dos processos que acelera a destruição do solo, pelo carregamento de sua camada fértil pela ação do vento e/ou da chuva. A erosão realiza-se, principalmente, devido ao despojamento da cobertura vegetal que apara a violência de impactos variados: chuva ou vento sobre o solo. Dessa forma, tal cobertura impede o arrasto da camada fértil para as bacias hidrográficas, provocando assoreamento em seu leito, ocasionando problemas pela elevação do nível da água e prejudicando o equilíbrio da fauna e flora aquática.

Ao se impedir o escoamento violento das águas da chuva na terra, pelo aparato vegetal, permite-se a infiltração da água no solo, que irriga as plantas e forma um lençol freático de onde originar-se-ão os riachos que por sua vez vão alimentar os rios. Estes rios são ladeados por uma floresta denominada Galeria, protegendo-os contra a erosão em suas margens e o assoreamento em seus leitos, fornecendo determinados frutos para a sua fauna aquática.

A existência dessa cobertura vegetal impede também a queima, por exposição ao nosso sol tropical, da micro-fauna existente no solo:

Uma grama de solo fértil contém cerca de 100 milhões de

bactérias vivas, um metro quadrado de terra arável pode ser

habitado por 55 milhões de vermes e 50 mil pequenos insetos e

aracnídeos26 .

A micro-fauna é importantíssima para que o solo possa ser considerado fértil pela interação recíproca e dependente da flora e fauna, localizando um micro clima e contribuindo com a homeostase.

O que procuro enfatizar é que na Natureza como em um corpo, o todo que existe depende de tudo que o compõe, pelas funções que exerce. Ela é um conjunto de elementos que passou por modificações e combinações orgânicas durante milhares de anos e que dentro de seu ritmo biológico segue adiante em um movimento contínuo.