A extinção do arco-íris: ecologia e história
Encher o tanque, esvaziar a terra - a questão hídrica
A própria usina realiza uma campanha de captura às cobras encontradas, com uma espécie de colaboração da empresa ao Butantã, que necessita desses répteis para a extração do soro antiofídico, que está se tornando cada vez mais raro, devido ao uso excessivo de biocidas nas lavouras, que provocam o extermínio das cobras.
A empresa procura capturar as cobras vivas para a fabricação do soro, comumente utilizado para salvar pessoas, mas ao mesmo tempo por utilizar biocidas contribui para a dizimação da espécie. Isto denota uma preocupação para com o réptil não enquanto ser vivo, mas por só ser útil no momento em que possa fornecer um antídoto ao humano infectado por um veneno mortal. Qual é o antídoto para o homem, quando se percebe que o veneno mortal da destruição da natureza o modelo de sociedade industrial adotado é fruto de suas concepções antropocêntricas?
Ainda em relação à cobra, entendendo-a como um animal pertencente ao ecossistema cumpre o seu papel na cadeia ecológica ao ser predadora de determinados animais (anfíbios, mamíferos, aves e peixes) controlando naturalmente a expansão demográfica destes, ao mesmo tempo sendo controlada por ser presa de determinados animais (aves de rapina).
Além disso, ao serem carregados pelas chuvas para os rios, esses biocidas matam a sua flora e fauna que é predadora de alguns insetos, provocando mais desequilíbrio ecológico.
Encher o tanque, esvaziar a terra - a questão
hídrica
Um dos componentes principais do processo de produção da agroindústria sucro-alcooleira, é a água. Ela é usada em vários momentos e setores da produção (lavagem da cana, resfriamento das máquinas, vapor das caldeiras, serviços de saneamento). Com uma utilização mais intensa deste líquido pela expansão patrocinada pelo Pró-álcool, a usina começará a dedicar uma atenção toda especial, no sentido de racionalizar a sua utilização, visando um reaproveitamento.
O jornal da empresa em um artigo divulga esta preocupação:
Os três milhões e quinhentos mil litros de água por hora
necessários à lavagem de cana na Usina Nova América
retomam por gravidade depois de utilizados até um grande
reservatório construído em alvenaria onde será realizado
tratamento para reutilização. Sofre apenas um adicionamento
de 50 metros cúbicos, que é igual a 50 mil litros de água limpa
por hora, sendo que a mesma quantidade da reposição é
retirada do tanque e lançada numa pequena área de sacrifício,
mantida exclusivamente para este fim.
Em 72 horas, ou três dias, a quantidade total de água utilizada na lavagem da cana em uma hora (3.600.000 litros) é lançada inteiramente na citada área de sacrifício. Será que este espaço salinizado, e por isto estéril, é pequeno como diz o artigo, já que suporta a água da lavagem da safra inteira e das outras antecedentes e posteriores? Para onde vai a água armazenada no tanque quando termina a safra? Porque a preocupação com a reutilização deste líquido gratuito e abundante é preocupação ambiental? Ou não existe tanta água disponível para a utilização da Usina? São questões que podem ser colocadas face a esses dados.
Em matéria posterior a esta, o mesmo jornal divulga que foi ampliado o sistema de lavagem de cana, de 3.600.000 litros para 4.500.000 litros por hora, expressando o aumento de quantidade de resíduos poluidores que serão jogados na área de sacrifício, conseqüentemente aumentando-a também.
Quanto a água utilizada em outros setores da produção, ela também passa por um processo de tratamento para que voltando ao lago de onde foi retirada, possa conservar a flora e fauna aquática, isto segundo artigo do jornal da Usina:
Toda água servida no complexo industrial de agora em diante
sofrerá um tratamento de oxigenação e resfriamento antes de
ser lançada de volta ao lago, iniciativa que visa garantir a
conservação da flora e fauna aquática.
Constata-se aparentemente até agora que essa preocupação expressa da empresa, em não esbanjar o precioso líquido na lavagem de cana e mesmo em tratá-lo para que volte purificado ao lago, é uma preocupação ecológica singular e suspeita, comparando-se este elemento à degradação de outros -flora e fauna silvestres ou à extenuação do solo pela monocultura.
Evidencia-se que os interesses são outros, pois a Usina só km cuidados com este elemento, por constatar que a sua oferta não é ilimitada para suprir as necessidades da voracidade do processo industrial capitalista.
A atenção da Usina em revestir os seus problemas de produção, por extenuação dos recursos naturais ou aproveitamento dos resíduos (vinhaça, torta, restilo, bagaço) com um discurso ecológico, é significativo no intuito de espelhar esta face da Medusa, mas ao visualizá-la diretamente sem a utilização do espelho, petrifica-se por desvendar seus interesses econômicos, o objetivo específico não refletido.
Ainda sobre o problema da água, o órgão de divulgação oficial da usina realiza uma campanha de economia do líquido, junto aos funcionários da empresa e os moradores das colônias, para evitar a falta do líquido.
Percebe-se que a economia é a palavra de ordem para os trabalhadores e colonos, tudo isso para não faltar água, utilizada em grandes quantidades no processo de produção. Só no sistema de lavagem, como exemplo, são utilizados 4.500.000 litros por hora. Quanto ao tratamento dedicado a água utilizada no processo industrial, esta é decorrência da necessidade de uma melhor qualidade deste líquido para sua reutilização na refrigeração de máquinas.