A extinção do arco-íris: ecologia e história

Jozimar Paes de Almeida · Capítulo 11 de 17

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A extinção do arco-íris: ecologia e história

A industrialização da agricultura na Usina Nova América

A industrialização da agricultura na

Usina Nova América

 

A indústria deverá preocupar-se cada vez mais em proteger

pelo menos em parte o meio ambiente, e isso não por

inquietação filantrópica da famosa e sinistra 'qualidade de vida',

mas simplesmente para poder continuar a funcionar.

Jean Pierre Dupuy

Várias são as concepções sobre a grande propriedade. Ressalto aqui a de Marx, porque a considero mais próxima da análise que desenvolvo neste trabalho:

Grande indústria e grande agricultura, exploradas

industrialmente, atuam conjuntamente. Se, originalmente, elas

se diferenciam pelo fato de que a primeira devasta e arruína

mais a força natural da terra, mais tarde, ao longo do

desenvolvimento, ambas se dão as mãos, ao passo que o

sistema industrial na zona rural também extenua os

trabalhadores e, por sua vez a indústria e o comércio

proporcionam à agricultura os meios para esgotamento da

terra31 .

As frases sublinhadas, nesta última citação, esclarecem às relações existentes entre indústria e agricultura nas suas atividades de degradação das forças naturais: humana e telúrica (ecossistema).

Esta destruição se amplia quando estes meios de produção se fundem na agroindústria provocando alterações fundamentais na utilização intensiva das forças naturais, pela velocidade imposta à produção com objetivos de lucro visando a venda do produto no mercado.

A grande empresa rural U.N.A., instalada na região de Assis, será orientada por uma racionalidade capitalista empresarial de produção para o mercado, assim como também se constituirá num mercado consumidor das indústrias que produzem para a agricultura (inseticidas, maquinários, adubos, implementos, etc.).

A utilização deste conjunto tecnológico de implementos, pela empresa em estudo e outras empresas similares, atrairá para a Cidade uma fábrica de adubos e defensivos agrícolas, a Ultrafértil, que ao comemorar a sua instalação, expressa no jornal de maior circulação da cidade as suas concepções de desenvolvimento.

O desenvolvimento econômico de uma região se caracteriza

pelo aumento de produção, pelo aumento dos bens de

produção e pelo aumento de renda 'per capita', possibilitando

maior poder aquisitivo.

A renda "per capita", como se sabe, é resultado de um cálculo matemático que não leva em conta a sua distribuição e a propriedade dos meios de produção. Seu cálculo é realizado pela somatória da renda de todas as pessoas consideradas produtoras, sendo dividida por este mesmo número total de pessoas; desta forma não revela a concentração de renda, devido à divisão harmônica entre os produtores da somatória da renda.

Sem se contar que este aumento de produção caracterizado como "desenvolvimento" econômico, descapitaliza e destrói a fonte de todos os recursos, a natureza. Desta forma ao considerar a economia como uma disciplina da ecologia, não existe lucro, mas sim prejuízo no cálculo da descapitalização extenuante da natureza.

Como se sabe, o "desenvolvimento" de um país é calculado pelo índice do Produto Nacional Bruto. Este registra o movimento de materiais (mercadoria) impulsionado pelo capital. Neste cálculo, porém, não se desconta o esgotamento do solo, ar, água, em suma, da qualidade da vida.

Até mesmo no caso de doença e morte do ser humano, tal fato é entendido como um "desenvolvimento" do país pelo aumento do P.N.B. em consumo: hospitais, remédios, médicos, energia, funerárias e sepulturas, na lápide dos mortos se poderia até constar, ironicamente, uma homenagem sincera das empresas do país: "Muito obrigado senhor X, por nos ter dado lucro até na morte."

Nos anos de 1974/75, a agroindústria sucro-alcooleira viu-se favorecida devido a problemas de conjuntura internacional. O mercado mundial não conseguiu realizar um acordo internacional para o açúcar, que estabelecesse o preço e as quotas de produção de cada país fornecedor, havendo também quedas de produção em vários outros países produtores.

O petróleo, largamente utilizado na indústria e nos transportes, em que está alicerçada a maior parte da malha viária brasileira, sofreu acréscimos consideráveis de preços por parte de seus fornecedores (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). Como o Brasil importava a quase totalidade desta matéria prima, aumentaram os grandes déficits na balança comercial. A tentativa de saída governamental foi o projeto do álcool, vindo a beneficiar os seus produtores. Questão a ser estudada é se essa empreitada não estava na estratégia dos países dominantes do sistema capitalista.

O apoio governamental através do projeto facilitou a hegemonia da cana-de-açúcar como uma das principais culturas da região, sendo noticiada assim pelo jornal da cidade "Voz da terra":

A Usina Nova América S.A recebeu recentemente resposta da

carta consulta que havia remetido ao conselho nacional do

álcool, requerendo aumento da quota de moagem por dia. Isso

exigirá, segundo cálculos técnicos cerca de 3.500 alqueires de

terra cultivados de cana, constituindo-se tal evento numa nova

opção de plantio para os agricultores cujas propriedades

circundam num raio de 25quilômetros do complexo industrial da

empresa.

A possibilidade de produtores agrícolas que operam em várias

culturas como soja, trigo, café, etc., com mais de 70 alqueires

cultivados, transformarem suas propriedades em canaviais

desponta com naturalidade, já que a mudança requer mínimas

alterações em termos de maquinários, e ainda porque tais

operações são totalmente financiáveis pelo Banco do Brasil em

faixa própria através do Pró-álcool.

Para se ter uma visualização da produção agroindustrial da U.N.A., desde 1947 até 1984, foram confeccionados quatro gráficos com o objetivo de comparação dos dados fornecidos pela U.N.A., acompanhados por duas tabelas.

Tomo como referência neste gráfico -comparação visual -o privilégio por períodos produtivos, objetivando destacar o crescimento da Usina vinculada necessariamente a fatores do mercado sucro-alcooleiro que incentivaram este crescimento. O programa governamental do álcool tem um destaque principal enquanto alternativa energética escolhida pelo governo para enfrentar a crise mundial do petróleo, intensamente utilizado nas indústrias e nos transportes.

Isto pode ser constatado no Gráfico 1 -produção de álcool em litros de 1954 a 1984, demonstrando um crescimento acelerado da produção a partir de 1976 com nítida influência dos incentivos do Pró-álcool.

GRÁFICO 1

Produção so álcool em litros, de 1954 a 1984 - Usina Nova América

 

Até 1976 a produção de álcool não é privilegiada, realizando-se de

uma forma oscilante em comparação com o açúcar -gráfico 2 -em que se constata uma estabilidade crescente progressiva. Quando existe uma queda na produção do açúcar, esta relaciona-se a problemas naturais, “carvão da cana", ou diminuição da área de plantio num ano -1975 (vide gráfico 3 -Área de cana plantada em (Ha) de 1947 a 1984), em que se configura uma crise de conjuntura internacional ou mesmo ao se realizar um rápido incremento na produção do álcool em 1970 e 1979, por ser o açúcar uma matéria prima para a produção do combustível.

GRÁFICO 2

Produção de Açúcar em casos de 50 Kg., de 1947 a 1984 - Usina

Nova América

 

Estas oscilações são significativas no sentido de mostrar os privilégios que ocorrem na agroindústria, influência em sua maior parte de fatores conjunturais, mas, não se deve esquecer também que a produção na agricultura é sazonal.

TABELA 1

Aspecto comparativo da quantidade de açúcar (saco de 50 Kg) e

álcool (por litro) por área (Hectare) de cana cultivada 1947-1984

Usina Nova América

 

No entanto, se utilizar a tabela 2 -de moagem de cana por tonelada -cana de 1947-1984 e, o seu gráfico 4, que leva o mesmo nome, assim também o gráfico 3, já citado, como básicos, pode-se perceber que as oscilações existentes no decréscimo da produção são secundárias no processo global de produção da U.N.A., sendo explicáveis por fatores naturais ou, de conjuntura internacional e nacional.

TABELA 2

Moagem de cana por tonelada-cana de 1947 a 1984

Usina Nova América

 

O aumento da produção na agricultura pode ser realizado de várias formas. A primeira delas diz respeito à ampliação do espaço plantado, considerando-se que a área acrescida seja provida de terras no mínimo de igual fertilidade. O aumento na produção é proporcional à quantidade de novas terras integradas.

Uma segunda forma poderia ser alcançada com um aumento no potencial de produtividade ligado, em primeiro lugar, à fertilidade do solo e, em segundo, a um aumento de velocidade no ciclo germinativo e de maturação da planta (revolução genética), objetivando aumentar a quantidade de matéria bruta (vegetais) dentro do mesmo espaço de tempo em que se produzia naturalmente.

Preliminarmente com essas considerações é possível compor um quadro sobre as condições de produção em uma empresa agrícola, objetivando compará-la com a produção em uma fábrica.

Para realizar uma ampliação de sua produção é necessária a ocorrência de alguns dos seguintes fatores: aumento do tempo de produção (jornada de trabalho), da velocidade de produção (ritmo imposto pela máquina), da quantidade e qualidade das máquinas (e por decorrência, da energia e operários para o seu funcionamento), como também da quantidade e qualidade da matéria bruta a ser transformada em produto. As modificações tecnológicas aplicadas neste processo têm importância fundamental e são frutos da ciência.

Este conjunto emaranhado de fatores do sistema capitalista de produção assemelha-se a uma floresta em funcionamento sem, entretanto o seu mecanismo principal, o equilíbrio homeostático, ocasionando a ausência de reciclagem dos recursos naturais limitados e simplificação do ecossistema da vida, pelo privilégio do lucro provocando o ciclo da morte do capital por destruir a vida.

GRÁFICO 3

Área de cana plantada em (Ha) de 1947 a 1984 - Usina Nova

América

GRÁFICO 4

Moagem da cana por tonelada-cana de 1947 a 1984

 

A opção do plantio da cana vem em resposta a um mercado de comercialização e consumo. Quando este mercado se toma favorável, aumenta-se a demanda pelo produto abrindo opções ao produtor; neste caso, o usineiro intensifica a sua produção.

O empresário agrícola instalado no país ligado ao setor da agroindústria sucro-alcooleira, viu-se favorecido pelo programa governamental do Pró-álcool (decreto 79.593 de 1975), que lhe dava subsídios sob forma de créditos pelas instituições financeiras governamentais (Banco Central e do Brasil), no sentido de ampliar a sua produção com preços garantidos de compra de seu produto.

Era a opção energética do álcool como substituto do petróleo assumido pelo Estado. O apoio financeiro estrutural foi dado às grandes destilarias, privilegiando claramente os detentores do grande capital, concentrando as usinas e o poder nas mãos de poucos.

Ao se comparar o atendimento do governo dado aos usineiros, com os produtores agrícolas de gêneros alimentícios que em sua quase totalidade compõem-se de pequenos proprietários, vê-se claramente o privilégio dado aos primeiros.

Esta relação direta realizada entre os representantes do Estado e a classe detentora dos grandes meios de produção, é bastante ilustrativa do tratamento especial a eles dispensado. O Estado intervém como elemento dinamizador, regulador e direcionador da economia. Isto não exclui necessariamente o laissez-faire do mercado. No entanto, a opção energética do Pró-álcool veio favorecer as grandes empresas rurais e as automobilísticas, em sua estrutura de produção, portanto, de poder.

Definem-se, em conseqüência, suas relações sociais de produção e as formas dessas relações com o meio ambiente, com seus valores de apropriação privada, o chamado "progresso e desenvolvimento", segundo declarações, de um usineiro na imprensa: "Cremos na terra, que com suas riquezas naturais, se constitui na mola propulsora do progresso da nossa nação." Está claro para o usineiro que o conceito de progresso se realiza com a exploração das 'riquezas naturais que em nosso sistema econômico são mercadorias.

O Estado concede aos usineiros fundos para investimentos e consumo, estes são fundos públicos manipulados a fim de facilitar a dinâmica capitalista na agricultura. Senão vejamos:

o crédito rural é instrumento de política econômica destinado a

incentivar a aquisição de produtos industriais por parte da

agricultura. Assim, embora pareça apenas um 'privilégio' do

setor agrícola, não deixa de ser também um 'crédito ao

consumidor', como tantos outros financiamentos existentes no

país: o governo paga para que a agricultura ajude a indústria.

Mas não a indústria em geral e sim a grande indústria, o grande

capital32 .

Para se ter uma idéia deste subsídio, no período de 1976 a 1980, o Banco do Brasil e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, financiavam a implantação, ampliação ou modernização de destilarias de álcool em um prazo máximo de 12 anos, com 3 anos de carência. A taxa de juros era de 17% ao ano, chegando a financiar até 80%, ou mais em casos especiais, do total do projeto, sendo que as usinas já operantes seriam privilegiadas no recebimento destes recursos. O plantio da cana-de-açúcar também foi subsidiado, com taxa de juros de 7% ao ano, prazo máximo de 5 anos, com carência de até 2 anos.

O Estado apóia também as instituições de pesquisa que trabalham com a cultura de cana, como o PLANALSUCAR (Programa Nacional de Melhoramentos da Cana-de-Açúcar), a Copersucar, o Instituto do Açúcar e do Álcool e também pesquisas realizadas em universidades, por exemplo, ESALQ-USP.

Com o suporte financeiro e técnico concedido pelo governo por intermédio do Pró-álcool, as usinas de açúcar e álcool foram fortemente beneficiadas, duplicaram e/ou triplicaram de tamanho, sendo que as áreas dos fornecedores de cana também ampliaram.

Os subsídios governamentais de pesquisa e financiamento concedidos aos produtores de álcool são frutos da arrecadação de impostos dos mais variados setores produtivos do país. Ele será utilizado, no entanto, para beneficiar o empresário particular fortalecendo o seu capital privado.

Além disso, o complexo agroindustrial elabora artifícios para aumentar ainda mais suas facilidades. É o caso de se subdividir em várias propriedades, uma mesma empresa. Assim é que se pode considerar como Usina Nova América todo o complexo agroindustrial, subdividido em várias fazendas: Nova América, Nova Aliança, Tarumã e Dourado.

Todas estas propriedades pertencem diretamente e unicamente à família, mas estão assim organizadas devido às:

Vantagens de um proprietário em manter vários imóveis, ainda

que contíguos: a) evita que pela soma das áreas seja

classificada como latifúndio por dimensão; b) tem várias

unidades distintas para fornecer como garantia hipotecária, o

que facilita a burocracia necessária à obtenção de crédito

bancário; c) permite 'jogos contábeis' que reduzem impostos

devidos; d) no caso específico das Usinas, permite uma

operação de arrendamento fictício entre 'duas empresas

distintas' de modo a contornar a legislação que fixa uma

determinada proporção de quota a ser preenchida pelos

fornecedores, etc33 .

Um dos instrumentos jurídicos criados pelo Estado para legislar na produção sucroalcooleira, como exemplo o Estatuto da Lavoura Canavieira (decreto-lei n. 3.855, de 21/11/1941), é também driblado pelo usineiro para lucrar mais.

Este decreto lei estipula que a usina só pode produzir 40% da cana que irá transformar em açúcar e álcool, ficando a quota restante de 60% distribuída entre fornecedores, que a usina é obrigada a receber pagando um preço que é estipulado pelo Instituto do Açúcar e do Álcool.

Este decreto é uma tentativa de preservar as propriedades vizinhas da usina para que elas não sejam englobadas pela mesma que procura ampliar a sua plantação para atender o ritmo de produção industrial. Entretanto, este decreto não é cumprido, pois as usinas invertem a porcentagem das quotas estabelecidas de produção de cana, chegando, como por exemplo, no caso da usina nova América a produzirem até 68% da cana utilizada no processo industrial.

No entanto, nem mesmo com essa inversão de cotas poder-se-á realizar um controle, pois a usina poderia arrendar as terras dos fornecedores para a produção de cana para ela própria constando apenas nos autos fiscais, de que foi o fornecedor quem vendeu o produto.

Segundo o gerente da empresa U.N.A. não existe liberdade empresarial no setor sucroalcooleiro, pelo controle governamental exercido:

Dominamos a tecnologia da cana, temos indústrias que operam

na fabricação de equipamentos para usina de cana, sabermos o

suficiente acerca do cultivo de cana para garantir uma produção

econômica... operamos com o preço de venda dominado, preço

político, pois ao álcool são atribuídos valores pré-fixados e

controlados.

O que se deduz de tudo isso é a existência de um preço oficial estipulado para a compra de matéria-prima, como uma cota de compra da cana do fornecedor pela usina, assim como o pré-estabelecimento do preço de venda do produto.

As formas empregadas pelos usineiros para se aumentar a produtividade e lucratividade são: maior produção própria em quantidade e melhor qualidade da matéria bruta, para render mais em seu beneficiamento. Tentam reduzir assim ao máximo os custos de sua produção. Isto obrigará a empresa a obter instrumentos tecnológicos de maior precisão no cálculo de seus custos e preços pagos ao fornecedor (pagamento pelo teor de sacarose e não apenas em quantidade e peso). É o aperfeiçoamento de extração de rendimentos no processo de produção do álcool de cana.

Os equipamentos destinados às condições de segurança dos empregados e do meio ambiente serão no máximo os consideráveis indispensáveis pela lei (e na maioria dos casos não serão utilizados). Quanto às reciclagens e a reutilização de determinados dejetos da produção só serão realizados se forem economicamente viáveis,

A racionalidade administrativa e técnica, o ritmo de produção industrial na Usina obrigam o setor agrícola da empresa a se comportar nos mesmos moldes de produção de quantidade, qualidade e ritmo de entrega se matéria bruta (cana) a ser transformada em álcool. Este artigo do jornal da Usina exemplifica bem a situação:

Agrícola Amplia para Abastecer Indústria. "Cerca de 60% das

12.000 toneladas de cana que a Usina Nova América irá moer

na próxima safra, será a quota de fornecimento de cana própria,

produzida pela Companhia Agrícola Nova América, cujo gerente

de operações Sebastião Carlos Aizzo, explicou que a expansão

industrial terá que ser acompanhada de idêntico crescimento

agrícola. O gerente comentou também que haverá necessidade

de ampliar em 80% a frota canavieira, da mesma forma como

será aumentado o número de cortadores de cana empregados,

o mesmo acontecendo com o carregamento da cana cortada.

Isso tudo, segundo disse, está programado e sendo executado

porque a expansão industrial exige idêntico comportamento da

estrutura agrícola, cujo esquema administrativo também terá

que ser adequado.

Constata-se daí que são as exigências do processo de produção industrial que determinam a produção na natureza, tentando-se adaptá-la às mesmas características de controle utilizadas na fábrica (ambiente artificial construído pelo homem). Assim, atende-se às exigências que poderão variar de acordo com a sociedade e as relações sociais de produção nela contidas.

A produção na U.N.A. ao objetivar o lucro pela redução dos custos, necessita de um aumento na produtividade. Um dos meios para se chegar a este objetivo é pelo melhoramento na qualidade da matéria bruta vegetal tentada através da produção de híbridos.

A produção de híbridos realiza cruzamentos de várias espécies de cana, tentando conseguir uma espécie que seja rica em teor de açúcar e que seja resistente às “pragas”.

A engenharia genética aplicada a vegetais tem como objetivo o melhoramento genético para o aumento da produtividade (lucros). No entanto, este melhoramento destrói mecanismos autóctones da planta para a sua proteção, como tecidos resistentes, presença de tanino, sementes muito pequenas, neutralização das enzimas digestivas dos herbívoros, espinhos, produtos de efeito inseticida (rotenona, piretrina, nicotina, estricnina, aletrina, etc.), e isto obrigará o agricultor a adquirir um pacote tecnológico cada vez maior de adubos e defensivos para a proteção da planta "melhorada", aumentando também sua dependência a esses fatores.

A introdução de variedades de cana mais produtivas vai, sem

dúvida, ao encontro dos interesses das usinas, dos

fornecedores de 'insumos modernos', e até do País como um

todo, na medida em que elas permitiram aumentar as

exportações a custos· mais baixos34 .

A U.N.A. implantou um sistema para medir a qualidade da matéria que entra no processo de produção resultando na quantidade final do volume de produção. É o pagamento pelo teor de sacarose.

O sistema implica na retirada de amostras de cana do caminhão carregado; estas amostras serão identificadas, desfibradas e esmagadas e o seu caldo será destinado a uma análise laboratorial que determina o teor de sacarose.

A racionalidade e organização técnica da produção agrícola é auxiliada por terminais de computadores da empresa agilizando o controle e administração da mesma, funcionando comparativamente em igualdade com os setores produtivos considerados mais modernos em ambientes artificiais de trabalho.

A U.N.A. dispõe de sete postos de observação climatológica, que lhe fornece dados objetivos e precisos para elaborar mapas anuais de comportamento climático da micro-área de atuação das estações, contribuindo para orientar as várias operações para o cultivo de cana. Dispõe também de um mapeamento do solo em todo território agricultável da Nova América. O mesmo tem condições de orientar devidamente todas as operações agrícolas da empresa, em conformidade com a natureza do solo, desde o emprego de máquinas e equipamentos, até o uso de fertilizantes e diferentes variedades de cana.

A produtividade agora é uma das palavras chave para o funcionamento da usina. Se no início da formação da empresa faltava em certo método de organização para produção, em 1984 parece que o problema está solucionado. Isso foi resolvido com o mapeamento do solo, o estudo do comportamento climático, a utilização de computadores para se agilizar e centralizar o controle, a leitura do teor de sacarose, o melhoramento da cana por hibridação, e o ritmo e a intensidade da produção agrícola sendo determinada pela produção industrial, estendendo-se até ao controle do desgaste e velocidade da força de trabalho. Este artigo do jornal da Usina nos explicita bem estes pressupostos, quando o gerente de produção:

lembrou que no início da safra, por exemplo, durante a reunião

com os fiscais administrativos foi calculado o total de cana

cortada por minuto na empresa, e portanto quanto de matéria-

prima se deixava de cortar a cada minuto perdido, a mesma

forma significativa em ganho para o trabalhador os minutos

perdidos durante o dia. Não queremos - continuou - ter

supercortadores de cana e sim trabalhadores que mantenham a

sua produtividade média no mesmo ritmo o ano todo.

Tal como o meio ambiente, os trabalhadores também têm seus limites físicos: um esforço muito intenso dos mesmos pode esgotá-los e reduzir a sua produtividade, quebrando o ritmo médio de fornecimento de matéria bruta, alterando, portanto, a sintonia de produção da usina, que é organizada para trabalhar num movimento constante.

Quanto à produtividade, o fundamental a reter é que o

progresso técnico implica um aumento da produtividade do

trabalho. E progresso técnico do sistema capitalista significa o

progresso das técnicas capitalistas destinadas a aumentar o

lucro dos proprietários dos meios de produção35 .

A racionalidade organizacional não está preocupada com quanto um trabalhador deixa de ganhar por não cortar cana um minuto. Ela está preocupada é que a ausência desta matéria bruta pode prejudicar a sintonia industrial de produção na Usina, ocasionando prejuízos.

A empresa não estará perdendo de uma forma salarial por este minuto perdido, pois o cortador de cana é contratado para ser pago pela quantidade de cana cortada e não pelo tempo de serviço.

Se é muita a preocupação com este minuto "improdutivo" por que a Usina não utiliza cortadeira mecânica? O seu uso foi testado e publicou-se o resultado do teste em seu jornal que é o seguinte:

Trata-se de um equipamento com tecnologia específica que

corta a cana inteira, atingindo com suas duas lâminas em

ambas extremidades, e deposita-a no solo em sentido

longitudinal (contrário ao convencional). A preocupação da

empresa, ao desenvolver a experiência decorre da prevista

escassez futura de mão-de-obra para o corte de cana, e

também da necessidade de dominar esta tecnologia, para

empregá-la caso seja necessário; não existe porém nenhuma

intenção de substituir o corte manual pelo mecânico, o que só

ocorreria na hipótese de falta de mão-de-obra.

Este modelo de máquina também corta cana deitada, e tem

como desvantagem, a dificuldade que gera para o

carregamento, por depositar a cana em sentido inverso no solo.

Se a empresa tem como objetivo o lucro, que pode ser ampliado através da redução dos custos de produção, por que não utiliza a cortadeira apesar de seu inconveniente para o carregamento? Em alguns casos ela não pode ser usada em terrenos inclinados, no entanto a problemática principal reside no seu custo operacional, tornando vantajoso a utilização da mão-de-obra empregada para efetuar tais serviços.

De acordo com o artigo citado, esta máquina só seria empregada em caso de ausência de mão-de-obra. Será que não deve haver nenhuma relação com possíveis futuras greves de trabalhadores neste setor, em que o usineiro utilizaria tais máquinas para substituí-los, servindo como elemento de pressão pela empresa para negociação salarial?

Se a preocupação é com o desemprego, por que a U.N.A. não elimina os caminhões, tratores, carregadeiras e realiza o transporte de cana e preparo da terra com a força humana? Sem dúvida nenhuma ampliar-se-ia em milhares de empregos a serem preenchidos para efetuar os serviços necessários.

Na realidade, a utilização dos maquinários na produção agrícola vem ao encontro dos interesses e objetivos de ampliação da produção, com baixos custos e com um ritmo mecânico definido. Os serviços realizados por estes maquinários são os mais diversos: destocamento, gradeamento, subsolagem, aplicação de calcário e adubos, aplicação de biocidas, construção das curvas de nível e carreadores, realização de carregamento, transporte, etc. As suas aquisições são facilitadas por entrarem na parte financiável do projeto Pró-álcool.

Nota-se um considerável aumento no número de tratores de maior potência, comprovada, como se segue, pelos dados do censo agrícola do I.B.G.E. da microrregião da Alta Sorocabana de Assis para os anos de 1975/80.