A extinção do arco-íris: ecologia e história

Jozimar Paes de Almeida · Capítulo 8 de 17

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A extinção do arco-íris: ecologia e história

A apropriação da vida

O homem está na natureza como um dos seus componentes e não é por outra razão que Engels adverte que:

...não podemos dominar a natureza como um conquistador

domina um povo estrangeiro, como alguém situado fora da

natureza; mas sim que lhe pertencemos, com a nossa carne, o

nosso sangue, nosso cérebro, que está mais no meio dela; e

que todo nosso domínio sobre ela consiste na vantagem que

levamos sobre os demais seres de chegar a conhecer suas leis

e aplicá-las corretamente27 .

 

A apropriação da vida

No que se refere à extensão e propriedade da terra, Joseph L. Love em seu livro A Locomotiva, expressa a apropriação das terras pela agricultura comercial de exportação, movimento pioneiro do capitalismo monopolista nas terras do Estado de São Paulo:

Ao contrário de muitos donos de terra na América Latina, os

cafeicultores paulistas não tendiam a ver a terra como um

patrimônio ancestral, a ser conservado; consideravam-na um

fator de produção e estavam constantemente a comprar novas

propriedades à medida que as velhas perdiam a sua

fertilidade28

Este apetite voraz dos empresários capitalistas, pela apropriação e exploração pioneira da terra, destruindo-a juntamente com o seu ecossistema, sem preocupações com o futuro da humanidade, foi uma das características do movimento de ocupação do espaço pelo capital. E é comungando as mesmas idéias sobre propriedade da terra, enquanto fator de produção, que se comportam as agroindústrias.

Assim como as estrelas, o ar, a chuva, o vento e o oceano não têm proprietário, a terra também não o tem. Mas o homem em determinadas épocas e sociedades se arvorou em ser dono dela, patrimônio universal e das gerações de todos os seres vivos, não só do homem.

A terra é uma fonte de vida, composta de recursos renováveis (solo, ar, água, mas estes podem ser impedidos de sua renovação pela ação do homem) e não renováveis a médio prazo (pois a sua formação e renovação demoram centúrias de milhares de anos), é o caso do petróleo, gás e minerais.

Se o homem não souber utilizar os recursos naturais poderá diminuir o seu tempo de vida e o de outros seres vivos, já previamente finito pela mortalidade do Sol, um dos elementos fundamentais por ser fornecedor das condições de sustentação da vida.

A propriedade privada deste meio de produção -terra -é um dos pilares de sustentação do sistema capitalista, resultando em primeiro plano de uma apropriação antropocêntrica, com todas as suas considerações a respeito da superioridade humana sobre outros seres vivos.

É certo que esta idéia passou por um processo de uniformização de várias idéias nas culturas ocidentais, pelos canais de comunicação de massa, excluindo valores diferentes de relação homem/natureza assumidos por culturas orientais. Como exemplos mais remotos de diferenciação dessas idéias temos o cristianismo divulgado c dominante nas culturas ocidentais, expressando a sua relação de dominação e propriedade em um documento bíblico -gênese -, que se tomou símbolo do racionalismo antropocentrista.

Este antropocentrismo se revela quando o homem considera-se o dominador da natureza, desta forma poderoso.

...e (por fim) disse: façamos o homem à nossa imagem e

semelhança e presida aos peixes do mar, e às aves do céu, e

aos animais selváticos, e a toda a terra, e a todos os répteis

que se movem sobre a terra. E criou Deus o homem à sua

ima$em; criou o à imagem de Deus, e crioulos varão e fêmea.

E, Deus os abençoou, e disse: crescei e multiplicai-vos, e

enchei a terra, e sujeitai-a, e dominai sobre os peixes do mar e

sobre as aves do céu, e sobre todos os animais que se movem

sobre a terra.

A este pensamento de sujeição da terra pelo homem, contrapõe-se o pensamento oriental do filósofo taoísta Chuangtsé, que entende o homem na natureza:

...dizes que as contradições da vida continuam sendo violadas,

que a vontade impenetrável da natureza continua não sendo

cumprida, que os animais do campo são dispersos e dizimados,

que os pássaros do céu gritam de noite, que o granizo e as

pragas açoitam as árvores e as ervas, que a morte e a

destruição se estendem entre as coisas e seres que se

arrastam. Ai, meu amigo, isto é culpa de todos aqueles que

querem governar o mundo à força. Descansa porém na inação

ou na não intencionalidade e o mundo se reformará por si

mesmo. Esquece-te de teu corpo e vomita tua sagacidade e

erudição. Faz caso omisso de todas as diferenças aparentes e

torna-te um com o infinito. Deixa a tua percepção em liberdade,

libertando assim também o espírito... só assim as coisas que

parecem te afligir crescerão e prosperarão, e tudo voltará à sua

raiz. E quando retornem à sua raiz, sem nada conhecer à

respeito, o resultado constituirá num todo uniforme que nunca e

ninguém poderá desmembrar; tentar conhecer esse todo

significa desvirtuá-lo. Não perguntes pelo seu nome. Não

investigues sua natureza e todas as coisas florescerão por si

mesmas.

A noção de apropriação da terra e seu ecossistema como privilégio antropocêntrico, carrega em seu bojo, imediatamente após, uma segunda expropriação. Esta irá se realizar no interior das relações humanas, dos ditos seres iguais, mas com um discurso de legitimação da exclusão de outros (compostos pela maioria) pelo trabalho, inteligência e competência dos proprietários capitalistas.

Ressalte-se que é esta propriedade privada que estudo na análise da agroindústria e como suas relações de produção integrantes do processo de produção (determinante do trabalho) influenciam o meio ambiente, enfatizando ainda que pela sua extensão e produção ela seja considerada um latifúndio.

 

20. ALMEIDA, Aluízio de. O Vale do Paranapanema. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, 246: 165-239, 1960, p. 201/202.

21. ALMEIDA, Aluizio de. O Vale do Paranapanema. Revista do instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, 246: 165-239, 1960, p. 201/201.

22. TROPPMAIR, Helmut. A Cobertura Vegetal Primitiva do Estado de São Paulo. Revista Ciência e Cultura, São Paulo, S.B.P.C., 26 (3): 240-243, Mar., 1974, p. 241.

23. Idem, op. cit., P. 241.

24. MONBEIG, Pierre. Pioneiros e Fazendeiros de São Paulo. Trad. Ary França e Raul de Andrada e Silva. São Paulo, Hucitec/Polis, 1974, p.27.

25. SOARES VICTOR, Mauro Antonio. A Devastação Florestal. São Paulo, Sociedade Brasileira de Silvicultura, s/do Anexo contém 09 mapas que nos mostram a situação primitiva e a dos anos de 1854, 1886, 1907, 1920, 1935, 1952, 1962 e 1973.

26. CROALL, Stephen e RANKIN, William. Ecologia para principiantes, Lisboa, Dom Quixote, 1982, p. 64.

27. ENGELS, Friedrich. A Dialética da Natureza, 3.ª ed. Rio de Janeiro, paz e Terra, 1979, p. 224.

28. LOVE, Joseph L. A Locomotiva. Trad. Vera Alice Cardoso da Silva, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982, p. 2.