A Filha da Floresta
Capítulo Sete
Se na ocasião me restasse ainda alguma vontade, teria seguido a sugestão de Padriac e mantido junto à margem do lago, deslocando-me perto dos salgueiros pendentes até chegar a um lugar de relativa segurança. Pensei, de modo indistinto, que a Dama assim quisera e me fizera mudar para me proteger, enquanto completava a minha tarefa. Mas não tinha energia para governar o barco. A minha mente estava nublada devido à fome e eu supunha que estava doente; o fraco balanço do barco parecia-me estranhamente errático, a água estava turbulenta e as árvores, à passagem, inclinavam-se e oscilavam, provocando-me tonturas. Senti, vagamente, que outras mãos faziam mover o pequeno barco numa direcção que não da minha escolha.
As Sílfides da floresta desapareceram lá atrás e na ondulação das águas do lago outras vozes se ergueram, líquidas, evasivas, murmurando umas para as outras, à medida que as suas ondas empurravam o pequeno barco rapidamente, com demasiada rapidez, para longe, para as cada vez mais agitadas águas. Pestanejei e olhei, tentando perceber quanto era real e quanto era imaginação febril. Havia longas e pálidas mãos na água, rostos com grandes olhos e cabelos parecidos com ervas daninhas, cinzentos, verdes e azuis. Havia caudas de escamas brilhantes.
Depressa, depressa cantavam, umas para as outras. Chegou a hora.
E assim o barco deslocava-se cada vez mais depressa, como se num rio rápido. Do céu pendiam pesadas nuvens e o dia ficou escuro. Gordas gotas de chuva começaram a salpicar-me e ouvi um distante trovão. A pequena parte de mim que ainda estava acordada registou aquelas coisas e também que estava sozinha naquela grande extensão de água, de pés descalços e no meu velho vestido, num barco construído para pacíficas lagoas. O vento levantou-se e a pequena barca baloiçava enquanto continuava a sua rota.
Pequenas ondas entravam pelos lados, ensopando-me até à cintura. Mas eu não tinha frio; em vez disso, sentia-me em brasa e ouvia as vozes delas chamando-me, em volta, por baixo, por trás e à minha frente, na água cada vez mais escura.
É fácil, fácil, Sorcha. Atira-te, atira-te pela borda fora e vem ter connosco. Aqui, debaixo de água, está fresco. Atira-te.
E outra.
Vem, vem cá para baixo. Diz adeus à tua dor, deixa que a água a lave. Vem, deixa que a água te leve. Vem e dança connosco no fundo.
As vozes delas coaxavam suavemente. Eu queria sentir a água fresca na testa a escaldar, queria dormir e esquecer. Seria tão simples deixar-me cair, desaparecer sob a água, para longe de tudo.
Atira a tua trouxa! Atira! Deixa cair o teu fardo!
Vi os dedos longos e em forma de garra estenderem-se para cima, na minha direcção, acordei e apertei a trouxa contra o peito, sem querer saber das farpas, que me feriam através do tecido.
Não. Não deixo
Então ouvi-as rir, vozes altas, profundas e o esparrinhar das caudas na água, à medida que se moviam em volta do barco. E depois desapareceram, deixando-me a enfrentar o vento e a água.
Suponho que quase me afoguei, nessa noite. Mas sentia-me doente e cansada e na ocasião o perigo parecia-me pouco importante. Pouco depois o céu escureceu e a luz fendeu a escuridão como grandes lanças brancas, atiradas com tremenda força contra a terra. Uma chuva tempestuosa começou a cair e o barco ficou meio cheio de água. Agarrei-me com as duas mãos para manter o equilíbrio e soube que era apenas uma questão de tempo, antes de me afogar. Soube, também, que não viveria muito mais tempo na água. Há muito que o lago se estreitara até formar um rio rápido e a margem estava agora perto; um raio de luz iluminou paredes de rocha e pequenos bosques de arbustos. Estávamos para lá dos limites da floresta, em campo mais aberto. Aqui e ali podia ver fendas nas rochas e pequenas áreas de terra seca para onde poderia nadar, se tivesse a força necessária. Agarrei no pau, esperando guiar o barco para a margem, porque talvez ali fosse pouco profundo. Mas a minha mente não parecia capaz de me guiar as mãos e o pau fugiu-me e caiu à água, flutuando rapidamente para fora de alcance. Eu estava demasiado fraca para o apanhar, nadando, quanto mais conseguir chegar à margem. E se não me afogasse, o frio acabaria comigo antes da manhã seguinte. Ardia em febre e não sentia o frio, mas a curandeira que havia em mim sabia como aquele calor era enganador e como podia gelar até à morte.
As nuvens tempestuosas afastaram-se por instantes e a Lua apareceu. Uma luz pálida estendeu-se, subitamente, sobre a superfície das águas.
Havia também uma luz na margem e, um momento mais tarde, a voz de um homem gritando:
— Hei! O que é aquilo?
E outra.
— Além... olha! Está alguém lá dentro! Parece-me uma rapariga
O vento uivava, emaranhando-me os cabelos em frente dos olhos. O barco estava outra vez a afastar-se da margem. Perscrutei na direcção da pequena luz. Havia dois homens, um transportando uma espécie de lanterna, enquanto o outro tirava a camisa e se atirava à água, nadando, lutando, na minha direcção.
— És maluco! — gritou o outro.
O homem aproximava-se. Apesar do vento e da corrente, o seu corpo poderoso, branco à luz da Lua, movia-se, em linha recta, na minha direcção. Era um homem grande, nadando com grande determinação. O meu corpo estava tenso de medo e subitamente o pensamento de me deixar cair borda fora, de me afogar, deixando este mundo, pareceu-me tão bom, a única coisa sensata a fazer. Agarrei na trouxa com ambas as mãos e fiquei de pé, pouco segura. O vento fez o resto, inclinando o barco, de maneira que ele se encheu de água e se afundou. A água fechou-se sobre a minha cabeça.
Durante alguns momentos o frio foi uma bênção e o desejo de esquecimento suficientemente forte para apagar tudo o resto. Depois, os pulmões começaram a pedir ar e o espírito disse Não Ainda não. E eu vim à superfície sufocada, tossindo, tremendo e aterrorizada. Vim à superfície ao mesmo tempo que o homem dava as últimas braçadas e me agarrou em volta da cintura com um par de braços que pareciam de ferro. Não conseguia gritar, mas lutei contra ele com quantas forças tinha, arranhando e dando pontapés com as forças que me restavam.
— Pára de lutar, estúpida — disse ele e tapou-me a boca com uma grande mão, virando-me de costas e puxando-me para a margem. Mordi-o. Ele praguejou, utilizando uma palavra que eu ouvira apenas uma vez, porque a língua que ele falava era a dos Bretões. O abraço dele abrandou o suficiente para me permitir deslizar para a água de novo e tentei nadar para longe dele, de qualquer maneira, mas o meu nariz encheu-se de água, o peito doeu-me, ele agarrou-me pelos cabelos e eu senti-me, inexoravelmente, rebocada para a margem, segura num amplexo demasiado forte para mim. Eu chorava, o ranho corria-me pelo nariz e desta vez eu estava tão assustada que desejava, verdadeiramente, ter-me afogado.
Chegámos à margem, onde ele me pôs aos ombros sem a menor cerimónia, como uma peça de caça.
— Maluco — observou o companheiro.
Começaram os dois a andar na direcção dos arbustos, para longe da água. Reparei que ele levava a minha trouxa na outra mão. Ambos tinham facas nos cintos. Pensei que roubaria uma quando eles parassem e me pusessem no chão. Antes que me fizessem alguma coisa, matar-me-ia. Por que haveriam dois homens como aqueles de me salvar, senão para se servirem do meu corpo e o atirarem depois fora? Que mais quereriam de uma rapariga miserável, meio morta de fome, meio afogada? Mas não os deixaria violarem-me. Desta vez, não. Impedi-los-ia por todos os meios ao meu alcance.
Mas quando chegámos ao abrigo sob uma parede de rocha e eu vi que havia um terceiro homem à espera na escuridão, não tive forças para me proteger e fiquei ali, indefesa, onde ele me deixou cair. Tinham diminuído a chama da lanterna, mas pude ver que eram Bretões e vestidos para viajarem, depressa e em silêncio, pelo país.
— Vamos ter que acender uma fogueira. — Era a voz do meu salvador.
— És maluco — disse o outro, o que tinha a lanterna. — E Redbeard e os homens dele? Não devem estar muito longe.
— Ouviste o que ele disse. Acende uma fogueira. — Era o terceiro homem, que parecia mais velho do que os outros. Não me atrevi a abrir os olhos mais do que uma pequena fenda. — Uma fogueira pequena. Esta tempestade vai manter os nossos perseguidores longe de nós até de madrugada. Nessa altura já estaremos longe.
Ouvi alguém a mexer na lanterna e após alguns instantes um suave crepitar. Espalhou-se um pequeno brilho, lançando-lhes para os rostos severos reflexos cor de laranja. Falaram baixo uns com os outros e após alguns momentos consegui dar-lhes nomes. O mais velho chamava-se John; aquele que transportara a lanterna, jovem, de cabelos dourados, chamava-se Ben. Quanto ao alto, que me pescara do rio, o nome dele parecia ser Red, por mais estranho que parecesse. Este encaminhou-se para a minha trouxa. Fechei os olhos e tentei não tremer.
— Ela estava agarrada a isto com todas as forças. O que é que está lá dentro, as jóias da família?
Não houve resposta. Pouco depois abri os olhos um pouco. Red estava a fechar a trouxa.
— Não tem grande coisa — disse ele. A voz soava de modo estranho. Ele também parecia estranho, o rosto focado e desfocado à medida que se inclinava para mim. Cerrei os dentes de repulsa.
— Creio que está doente. Dá-me a tua capa, Ben.
— Hei, está frio. E eu? — A réplica era queixosa, mas o companheiro deu-lha e eu senti o seu calor cobrir-me. A mão do homem tocou-me no ombro e eu estremeci, gritando. Por um momento olhei-o nos olhos, que eram azuis e tinham um ar baralhado. Tinha as sobrancelhas franzidas.
— Calma — disse ele. — Calma! — Como se falasse com um cavalo nervoso, ou um cão meio selvagem. É agora, pensei. É agora que vão agarrar em mim e eu... e eu... mas a minha mente não conseguiu ir mais além porque eles eram três, todos armados e muito maiores do que os outros. Estes eram viajantes endurecidos. Não tinha qualquer hipótese. Mas tinha dentes e unhas afiadas e usá-los-ia até as forças me faltarem.
— Despe-te — disse Red e o meu corpo enroscou-se de terror. Senti-me estremecer. O meu coração, aos pulos, media o silêncio. Quanto tempo demoraria ainda a porem-me as mãos em cima? Por quanto tempo ainda sufocaria o grito de ultraje que me brotava da garganta?
— O que é que se passa contigo? — A sua voz era de exaspero. — Toma. — Segurava algo na minha direcção. Ben falou.
— Ela não te compreende, Red. No fim de contas, é nativa e novinha.
— É mais provável que tenha sido magoada — disse o homem mais velho. — Demasiado aterrorizada para te deixar aproximar. Dá-lhe as roupas e afasta-te. Não vale a pena tentar falar com ela; duvido que ela consiga compreender-te, para já não falar da língua. Tens que lhe mostrar que não lhe queres fazer mal.
O meu salvador arqueou as sobrancelhas e pousou o que transportava no chão, ao pé de mim. Depois os três afastaram-se para a borda da plataforma e, trocando olhares, viraram-me as costas.
— Isto é uma estupidez — disse Ben, de costas voltadas para mim. — Quem é ela, afinal, uma princesa de sangue? Primeiro, é uma bárbara; segundo, é pouco esperta e terceiro, os homens de Redbeard estão-nos nos calcanhares, armados até aos dentes e estamos nós para aqui a olhar para os escrúpulos da modéstia feminina Acho que esta miúda da floresta vos deu a volta à cabeça.
— Cala-te, Ben — disse Red e o companheiro calou-se.
Reparei que me tinham dado uma camisa enorme de linho cru e um cinto para a atar. Cheirava a suor, mas estava seca. Havia também uma espécie de camisola interior.
Red olhou por cima do ombro.
— É suposto tu tirares as tuas roupas molhadas e vestires essas — disse ele, mas era evidente que não esperava que eu o compreendesse. Virou-se e gesticulou na minha direcção enquanto eu olhava para ele.
Talvez, pensei, eles não quisessem mesmo fazer-me mal. Em qualquer dos casos, tinha pouco a perder. Podia sentir a febre a subir, queimando-me. Tinha suficiente senso comum para saber que umas roupas secas me ajudariam. Red virou-me, de novo, as costas.
— Para que é que te maças a falar com ela? — perguntou Ben. Parecia alguns anos mais novo do que o amigo, talvez a idade suficiente para uma expedição como aquela, fosse ela qual fosse. Se, na verdade, eram Bretões, estavam muito longe de casa. — Basta olhar para ela para ver que lhe falta qualquer coisa. Podes ter as tuas razões para vir até aqui, mas tens de admitir que foi uma perda de tempo. E agora arriscamos as nossas hipóteses de fuga por uma rapariga meio maluca. É a última vez que me arrastas para uma coisa destas.
— Tu falas assim agora — disse John —, a quente. Mas quando ele te pedir outra vez, vais logo. Portanto, cala a boca, antes que digas coisas piores.
E, enquanto discutiam, eu lá ia, de coração aos pulos, despindo o meu vestido ensopado e lutando com as roupas secas, atando a grande camisa, o melhor que podia. O cinto dava-me duas vezes a volta à cintura e continuava largo.
A discussão chegou ao fim. Os três viraram-se e, sentada, fui escrutinada, ainda tremendo, ao pé da minúscula lareira. Havia uma sombra de divertimento no rosto do homem mais velho quando olhou para mim. Suponho que o meu aspecto devia ser bem estranho.
— Até agora, tudo bem — disse Red, cuja expressão não deixava transparecer nada. — Põe a capa, também.
Não dei a entender que tinha compreendido. Ele pegou nela e deixou-ma cair sobre os ombros. Recuei quando as mãos dele se aproximaram, mas o calor da capa era bem-vindo e puxei as abas.
— Óptimo — disse ele. — Agora, descansa. Descansa. — Apontou para o chão perto da lareira e pousou o rosto nas mãos. Aquilo parecia, subitamente, uma ideia sensata e eu deitei-me, ainda a tremer e em breve caía num meio sono febril, na bruma do qual as vozes baixas deles me chegavam, a intervalos.
— Tu és maluco, Red. Temos menos de um dia para chegar à costa e encontrar o barco. Que vamos fazer com ela? — Era Ben, aquele que segurava a lanterna na margem.
— Em todo o caso, não ia deixá-la afogar-se — disse John. — Amanhã já ela está boa, se lhe deixarmos um cobertor.
— Pergunto-me o que anelava ela a fazer por aqui. Tempo esquisito para pescar — observou Ben.
— Esta gente é estranha — disse o homem mais velho. — Ouvi dizer que, por vezes, se afastam, à deriva, das margens, como se fosse um castigo. Talvez esta rapariga tenha ofendido alguém.
— Devias tê-la deixado afogar-se.
Aquele a quem chamavam Red parecia ser um homem de poucas palavras. Quando falou, fê-lo mais calmamente do que os seus companheiros.
— Ela tem febre. Mais do que isso, tem um medo de morte.
— Bem, deve ter — disse Ben. — É um deles, não é? O que faz de nós o inimigo. Talvez ela espere a mesma espécie de tratamento que o povo dela dá àqueles de quem não gosta.
— Até agora, não falou — observou John. — Nem um único som. Talvez seja muda. Parece meio selvagem. Pode muito bem ter sido abandonada pelo povo dela, ao verem que tinha uma deficiência, deixando-a por sua conta. Eu não me preocuparia muito com ela, Red. Já fizeste a tua boa acção. Ela recupera.
Houve um silêncio durante alguns instantes. Os homens partilharam uma garrafa de água e umas tiras de carne seca. Deixaram uma ração ao pé de mim, mas eu não conseguia tocar em carne salgada e bebi apenas um gole ou dois da taça. Depois, Red ofereceu-se como voluntário para ficar de vigia e apagaram a lanterna. Os outros enrolaram-se nos cobertores e em breve dormiam. Pareciam homens que estavam em movimento há muito tempo e sabiam como fazer as coisas de maneira ordenada e com pouco barulho. Mas a minha presença ali era tudo menos ordenada.
Espantosamente, devo ter dormido durante algum tempo, para acordar abruptamente antes de amanhecer, o coração aos pulos, devido a um sonho qualquer. Até no sono devo ter guardado silêncio, mas o bretão viu-me sentar-me e levantou-se. Suponho que o meu rosto reflectia os demónios que ainda me espreitavam pelos cantos da consciência. O homem ficou ali sentado, muito quieto, à luz dos restos da minúscula fogueira, observando-me. Podia ver, agora, de onde vinha aquele nome, Red. O cabelo dele estava cortado muito curto, mas, juntamente com a barba de alguns dias, era iluminado pelo brilho do fogo, parecendo as folhas dos carvalhos no Outono. O rosto era formidável, se bem que fosse um homem novo, talvez da idade de Liam. O nariz era longo e direito, os maxilares firmes, a boca larga e de lábios finos. Não gostaria de ter aquele homem como inimigo. Mais longe, os dois companheiros dele continuavam a dormir, enroscados nos cobertores. Parecia que tinha ficado de vigia dois turnos, para os deixar descansar. A plataforma rochosa tinha-nos mantido secos; lá fora, a tempestade amainara e o único som que se ouvia era o da água a correr por entre as pedras.
Enrosquei os braços em volta de mim própria, segurando nas pontas da capa com ambas as mãos. Sentia a cabeça mais clara e o pesadelo estava em retrocesso. Talvez tivesse força suficiente para fugir. Talvez, quando ele virasse as costas, pudesse escapar-me devagarinho. Ficariam satisfeitos por se verem livres de mim. Parecia-me que a velocidade seria essencial e, pelo aspecto, aquele jovem gigante preferiria não me ter ao pé para atrasar a expedição, para onde quer que fossem. Não havia dúvida de que já estava arrependido por me ter pescado das águas do lago. Eu estava concentrada, calculando quantos passos precisaria para me pôr ao largo, entre os arbustos. E então ele falou, fixando-me.
— É melhor comeres alguma coisa. E beber.
Fiquei muito quieta. Parecia-me sensato não dar a entender que compreendia a língua deles. Se pensassem que era uma rapariga selvagem dos bosques, uma idiota qualquer da aldeia, estaria salva. Não seria um grande trofeu, nem mereceria um resgate. No fim de contas, eu era a filha do meu pai.
— Hum. — Ele escrutinou-me enquanto eu estava ali sentada, confusa, na semiescuridão. E então ele tentou de novo, baixando a voz para não acordar os outros.
— Tu... comida? Tu... água? — Parecia que tinha aprendido algumas palavras da nossa língua. O sotaque era de rir. Olhei para ele e ele segurou numa taça de campanha. Afastei-me dele porque, por mais amáveis que fossem as suas palavras, era um homem, muito alto e largo de ombros, suficientemente grande e forte para fazer o que lhe apetecesse comigo. A minha febre baixara, mas eu não parecia capaz de parar de tremer.
Ele pousou a taça no chão, perto de mim e afastou-se. Quando não respondi, tentou de novo.
— Tu... água — repetiu ele. — A não ser — continuou na sua própria língua — que tenhas, tal como eu, engolido metade da água do lago. Fizeste uma boa tentativa para me afogares.
Por um momento, senti uma curiosa sensação, como se já tivesse visto aquela cena, numa ocasião qualquer da minha vida, mas algo diferente. Mas depois essa sensação desapareceu, peguei na taça, aborrecida com a maneira como a minha mão tremia e bebi.
E ele tinha razão, senti-me melhor.
— Óptimo — disse ele, não desviando de mim os olhos vigilantes. Bebi de novo, a minha mão mais segura na taça, desta vez. Dentro de um minuto tentaria levantar-me. Veria se poderia andar. Se poderia correr, o suficiente para fugir. Porque os Bretões tinham a sua própria expedição desesperada. Não perderiam tempo a procurar-me, ficariam antes aliviados por perderem um fardo inesperado. Então, eu... mas, então, o meu pensamento ficou em branco. Estava em território desconhecido, sem roupas adequadas, sem comida, ferramentas ou ajuda de qualquer espécie. E, se bem compreendera, um bando de homens, armados e perigosos, marcharia rapidamente sobre nós assim que amanhecesse. Eles disseram Redbeard. Seria Seamus Redbeard, o pai de Eilis? E se eles me encontrassem? Haveria homens que me conheceriam, mesmo depois daqueles dois anos. O que aconteceria? Nem me atrevia a pensar nisso. Haveria um rápido regresso à casa do meu pai e a Lady Oonagh. O pensamento fez-me ficar com pele de galinha. Naquela direcção havia apenas escuridão e morte, para mim e para os meus irmãos. Eu estava em perigo, tanto por causa dos Bretões, como dos seus perseguidores. Tinha de fugir.
— Toma. Come. — O bretão segurava numa tira de carne seca, como se a estivesse a dar a um cão nervoso. Abanei a cabeça. — Come — repetiu ele, franzindo as sobrancelhas. Os olhos dele eram tão azuis como o gelo, tão azuis como o céu numa manhã gelada de Inverno. Eu tinha fome; mas não tanta que conseguisse comer carne crua. Então, ele voltou a pôr a carne no saco onde parecia que conservavam as suas rações de viagem, procurou outra coisa qualquer e os olhos desviaram-se-lhe, por um momento. Movi-me rápida e silenciosamente, usando todas as minhas capacidades. Para cima, para a frente, sob a plataforma, para fora...
A mão dele moveu-se com tanta velocidade que mal a vi. Agarrou-me no braço dolorosamente, fazendo-me dobrar os joelhos a seu lado. Sufoquei um grito de frustração e medo.
Não me parece. Nem sequer levantara a voz. Os outros continuavam a dormir. Não afrouxou o aperto da mão; sabia como usar a mínima força para causar a maior dor possível, isso era certo. Puxou-me para cima, de encontro a ele, demasiado perto para meu agrado, porque lhe cheirava o suor e a fúria, sentia-lhe a respiração no rosto e via-lhe o gelo nos olhos. A sua força e rapidez alarmaram-me: como pudera pensar em fugir? A febre deve ter-me estupidificado. Mas também estava zangada. Que jogo estava ele a jogar? Por que manter-me ali, quando precisavam de continuar em frente, rapidamente e livres de qualquer estorvo?
Mal se movera do lugar onde estava sentado, o suficiente para me aprisionar o braço e segurar-me contra ele. Os seus dedos cravaram-se-me na carne. Tinha umas mãos muito grandes. Não pude evitar um queixume de dor e o aperto diminuiu, mas pouco.
— Raios te partam — disse ele, sempre naquela voz calma e sempre no mesmo timbre. — Há mais de três meses que estou neste malfadado país, à procura de respostas. Já viajei até aos mais estranhos lugares da terra; já segui todas as pistas, virei do avesso todas as pedras que encontrei. Pus a vidas de amigos em risco. E para quê? Por fome, frio e uma faca no escuro. Não há uma única verdade nesta tua ilha. Em vez disso, há tantas verdades como estrelas no céu; e todas diferentes.
Olhei para ele, espantada. Fosse o que fosse que esperava da boca dele, não era aquilo, de certeza.
— Juraria que me entendes — disse ele, olhando directamente para os meus olhos. — No entanto, como seria possível?
O que é que Conor dissera uma vez, a propósito de mim e de Finbar? Ambos são como livros abertos... os pensamentos deles chispam como raios a saírem-lhes dos olhos... Esperava que aquele bretão não conseguisse ver isso tão bem. Começava a haver luz; ouvi os companheiros dele a mexerem-se.
— Tu queres ir-te embora — disse ele. — Para onde, não consigo imaginar; mas suponho que tens um esconderijo perto daqui. Talvez para te esconderes até chegarem os teus conterrâneos; talvez penses em vê-los cortar-nos aos pedaços. Não pensei em ti como nossa inimiga; nem sequer quando impedi que te afogasses. Talvez sejas uma inocente, como os meus amigos acreditam; demasiado simplória para seres perigosa.
Tentei arrancar o braço àquele aperto.
— Não— disse ele sem ênfase. — Três meses sem respostas e agora, no último dia, no último, encontro a primeira peça do quebra-cabeças. E quem encontro eu para a explicar? Uma rapariga que não pode falar, ou não quer. Estás a ver isto? — Metera a mão na algibeira e pela primeira vez havia um tom na sua voz que ia além do seu habitual timbre de conversação. — Diz-me onde arranjaste isto.
E lá estava aquilo. A pequena peça de madeira de Simon, o pequeno carvalho dentro do seu círculo protector e das linhas onduladas, que podiam ser, ou não, água. Nada de interesse na minha trouxa, dissera ele aos amigos. Nada de especial. Só por si, aquela afirmação fora estranha; pensar-se-ia que as camisas de morugem valiam um comentário. Mas fora aquela coisa que lhe chamara a atenção.
— Diz-me — disse ele. — Quem te deu isto?
E agora ele estava realmente a assustar-me. Tentei ficar impávida. Não pensar em nada. Não o deixar saber nada. Ainda bem que fora obrigada ao silêncio. Não era nenhuma mentirosa; mas pense-se como soaria a verdade. Foi-me dado por um da tua raça. Foi torturado em casa do meu pai e quase morreu devido ao ferro quente. Quase morreu e quase enlouqueceu. Nós salvámo-lo e eu tentei ajudá-lo, ele estava a melhorar e então... e então deixei-o só, quando mais precisava de mim. Foi-se embora para a floresta sem meios de sobrevivência. O musgo deve, agora, cobrir-lhe os ossos brancos, algures por baixo dos grandes carvalhos. As aves devem puxar-lhe o cabelo dourado para fazerem os seus ninhos e os seus olhos vazios olham para cima, para as estrelas. Aquela era a verdade.
— Raios te partam — disse o bretão de novo. — Porque é que não falas? Eu sou capaz de te arrancar a resposta antes de te deixar ir. — E então os outros estavam a acordar, levantando-se em silêncio, enrolando os cobertores, guardando os utensílios, verificando as armas e aprontando tudo para uma partida rápida. E eu pensei, vais esperar muito por uma resposta. Porque tens que esperar até as seis camisas de morugem estarem fiadas, tecidas e cozidas; até ao dia em que os meus irmãos regressarem e eu lhas passar pelas cabeças, quebrando o feitiço. Até esse dia, não ouvirás qualquer resposta da minha boca. E nenhum homem tem paciência para esperar tanto tempo.
Na luz cinzenta antes do amanhecer, observei-os a prepararem-se e maravilhei-me com a silenciosa compreensão entre eles, que falava dos longos dias e noites no campo ou em fuga. Não sabia o que eram, ou onde iam. Talvez fossem espiões, como os que o meu pai capturara e mantinha na sua câmara secreta; ou talvez fossem mercenários. Os rostos vigilantes, os corpos robustos, o material leve e as armas cuidadosamente tratadas falavam de grande experiência e vontade férrea.
Em breve estavam prontos, arranjando tempo, até, para me permitirem uns momentos de privacidade para as necessidades do corpo. Sabia agora que não poderia tentar fugir. Ele agarrar-me-ia, fosse eu para onde fosse. Vencer-me-ia pela astúcia, por mais que eu tentasse. Por agora. Quando regressei das minhas abluções, os três estavam a falar em voz baixa.
— ...não vale a pena discutir. Se Red diz para a levarmos, levamo-la. Vamos devagar;
é melhor partirmos agora e cobrirmos a maior distância possível antes de ser dia claro.
Ben estava zangado; as palavras saíam-lhe como se sibilasse, porque estavam a abafar as vozes. Supunha que os homens que os procuravam deviam estar por perto.
— Isto é um loucura completa! Esquece a rapariga; ela fica bem aqui, mas, se não ficar, que te interessa? Os da raça dela são uns selvagens, todos uns assassinos. Quantos homens já se perderam nestes bosques malditos, ou voltaram para casa meras imagens do que eram anteriormente? Não sei que impulso cavalheiresco te deu, Red, mas sei que não arrisco a minha pele por ela. Quanto a ti, John, deves estar louco para o deixares ir em frente com isto. É pura loucura.
Red não lhe ligou, colocando antes a sua trouxa às costas e estendendo-me uma mão.
— Anda — disse ele estalando os dedos e eu olhei para ele. Não me deixaria tratar como um cão qualquer que segue o dono à mínima ordem. — Anda — disse ele de novo e desta vez agarrou-me no braço no local onde antes me tinha magoado e eu sufoquei um grito de dor.
— Ela tem algumas nódoas negras — observou John. — Espero que saibas o que estás a fazer, Red.
Red olhou para ele.
— Sei — disse ele. — Agora separamo-nos, para que aqui o meu amigo não se possa queixar de que a rapariga o atrasa. Vocês dois sigam a rota original que vai dar à enseada. Se partirem agora, conseguem manter-se à frente deles e o barco deve estar lá, pronto para vós, antes de eles lá chegarem. Com sorte.
— E tu? — perguntou Ben.
— Eu levo a rapariga. Dou a volta pela falésia e desço pelo carreiro da escarpa. É, se calhar, mais perigoso, mas é mais directo. É provável que eles vos sigam, creio. Atravesso o rio o mais longe que puder. Se não estiver lá a tempo de apanhar o barco, não esperem. Atravessem. Encontramo-nos no priorado.
— Como? — perguntou John coçando a cabeça. Mas não houve resposta e ninguém ia discutir. Parecia ser sempre assim. Red escolhia e os outros aceitavam, mesmo quando, como parecia ser o caso, lhes fazia confusão. Como podia um homem, que agia de maneira tão imprevisível, que tomava decisões tão erráticas, ser o chefe deles? Se fosse o caso de Liam, consultaria os seus homens e teria chegado a um compromisso sensato. Aqui, não havia lugar para discussão. Ben e John puseram as trouxas às costas e desapareceram por entre os arbustos, silenciosos, e Red segurou-me no pulso e puxou-me de volta ao rio. Eu resisti, fazendo força suficiente para que ele se virasse, exasperado.
— Assim, não vamos longe — disse ele. — Eu... — Ele viu para onde eu estava a apontar. A minha trouxa, com a sua carga de moagem, continuava onde fora deixada, sob a plataforma, perto dos restos da pequena fogueira.
— Está bem — disse ele, pegando nela e atirando-ma. — Mas és tu que a carregas.
Foi uma manhã longa e desesperante. Tentei acompanhá-lo, mas sabia que estava a atrasá-lo. O andamento não era fácil, especialmente uma vez que o terreno subia, escarpado e cheio de arestas, o estreito carreiro atravessando rochas, cascalho e vegetação enfezada, subindo sempre e afastando-se do curso tumultuoso do rio. O lago e a floresta ficavam cada vez mais longe à medida que nos movíamos na direcção de leste e um pouco para norte. O Sol subia, firme, no céu. Fizera muitos passeios pela floresta com os meus irmãos, dormindo ao relento, vivendo de modo selvagem durante um dia ou dois. Era rápida e sabia caminhar pelos bosques e escolher um carreiro. Mas isto era diferente. Para começar, estava muito mais fraca do que pensara e tinha que parar cada vez mais vezes para recuperar o fôlego, antes de continuar. E estava descalça. Apesar de os meus pés estarem calejados, as rochas cortavam-nos e sangravam. Red dava poucas concessões, para além de me agarrar no pulso, ou no braço, para me arrastar ou esperar, silenciosamente, que eu o apanhasse. A expressão dele era sombria. Arrependido da decisão que tomara, pensei, e não admirava. Tinha água numa vasilha de pele e partilhou-a comigo. O Sol subiu alto, prometendo um dia quente. Atravessámos o rio; ou antes, ele atravessou-o, caminhando com segurança com água até à cintura e carregando-me ao ombro. Quando chegámos à outra margem deixou-me cair sobre uma rocha lisa.
— Até agora, tudo bem — disse ele, acocorando-se para que os seus olhos ficassem ao nível dos meus. Olhou para mim de perto. O brilho azul-claro era perspicaz. — Eles ainda estão lá para trás — disse ele. — Mas não muito. Penso que dividiram forças. Podes continuar?
Tentei não mostrar que o compreendia. Não era fácil. Os meus pés doíam-me e sentia de novo, na cabeça, aquele estranho e impreciso sentimento. No entanto, sabia que não tinha escolha, senão continuar.
— Homens — disse ele, tentando a linguagem que sabia que eu podia compreender. — Homens maus. Eu... Tu... caminhar? — Usou gestos para me ajudar a compreender e eu senti vontade de rir, apesar da seriedade da situação. Fechei a boca com firmeza, determinada a não mostrar qualquer fraqueza ou emoção. Tentei lembrar-me vagamente do rumo que eu devia ter seguido quando a Dama da Floresta me mandou para o lago num pequeno barco. Onde teria errado? Porque este, de certeza, era o rumo errado, para leste, sempre para leste, com a cabeça a palpitar, os pés a sangrarem e um estranho de rosto severo como companhia. Como me encontrariam os meus irmãos, tão longe de casa?
Olhei de novo para Red. Ele estava a observar-me os pés, depois as mãos e a sua expressão era esquisita. De troça, pensei; mas essa expressão não me era destinada, era íntima.
— És teimosa, não és? — disse ele, tirando a trouxa do dorso e procurando algo dentro dela. Tirou de lá uma velha peça de vestuário de linho, que rasgou às tiras, segurando uma ponta entre os poderosos dentes brancos. — Mas esses pés não aguentam mais hoje. Deixa cá ver. — As mãos dele trabalharam com agilidade, atando-me os pés, firmemente, com as tiras do tecido. Ele era bom; eu não teria feito melhor. Deixei-o fazer o trabalho, agradecida pelo breve descanso. Não importava se aquelas ligaduras não iam durar um dia de marcha. Supunha que o fazia por bem. No fim de contas, se eu não conseguisse percorrer a distância, ele também não conseguiria. A não ser que me deixasse para trás.
— Óptimo — disse ele —, e agora precisas de comer alguma coisa, para depois terminarmos a nossa jornada. Há maçãs por aqui, reparaste? Parece que amadurecem cedo, por aqui. Talvez gostes mais do que da minha ração. — E eram mesmo maçãs; pequenas, verdes, com pequenas manchas cor-de-rosa na casca. Redondas e perfeitas. Ele apanhou uma e cortou-a em quatro com uma faca pequena, letal. — Toma — disse ele, oferecendo-me um bocado. Peguei nele, espantada. Na verdade, tinham amadurecido antes de tempo e de modo estranho. Havia várias árvores naquele local abrigado, mas apenas uma tinha frutos, que pareciam prontos a ser comidos. Nas outras pendiam duros e verdes. Há muitas histórias no nosso país acerca de maçãs; são os frutos das Criaturas Encantadas e são usados, mais do que uma vez, para tentar os mortais, homens ou mulheres, a ficarem por baixo do monte mais tempo do que o devido. As maçãs são um sinal de amor, uma promessa. Era evidente que Red nunca ouvira falar no que significava o facto de um homem partilhar uma maçã com uma rapariga. Talvez, pensei, não resultasse com Bretões. Além disso, eu tinha fome e ainda havia muito caminho para andar. Assim, aceitei o presente dele e comi-o, e mais um bocado, e foi a melhor coisa que alguma vez provei. Quando acabámos, levantei-me para começar a andar, mas ele fez-me parar.
— Não — disse ele. — Assim é mais rápido. — E pegou em mim ao colo como se eu fosse uma criança. — Segura-te — disse. — Não te preocupes, não mordo.
Era uma corrida perdida desde o princípio. Talvez, se as suas previsões estivessem certas e os perseguidores fossem atrás dos seus dois companheiros, talvez conseguíssemos chegar a tempo. O bretão marchava sem descanso, carregando-me sem aparente dificuldade, pousando-me para escalar uma parede de rocha, puxando-me com um braço, ao mesmo tempo que subia; ou ajudando-me a contornar uma plataforma, ou a descer um talude pouco seguro. Mas em breve se tornou evidente que eles se estavam a aproximar. Eu não sabia quanto faltava ainda. Havia no ar um cheiro húmido, fresco, que sugeria uma grande extensão de água e muitas aves voavam por cima de nós. Passávamos por bosques cerrados de sorveiras-bravas e, à medida que avançávamos, as nossas roupas eram rasgadas por silvados e os rostos e braços chicoteados e arranhados por ramos e espinhos. O passo era rápido; senti o bater do coração do bretão quando ele começou a correr com cuidado sob as árvores. Praguejava a cada fôlego. E eu ouvia o som inegável de muitas botas esmagando folhas, à nossa direita, à nossa esquerda, à nossa retaguarda e o silvo de uma seta por cima do ombro dele, indo alojar-se, vibrando, no tronco de uma imponente sorveira-brava carregada de bagas. O bretão murmurou uma praga e deixou-me cair.
— Foge — disse ele, desembainhando a sua curta espada e encostando-se à árvore. — Vai, foge! — Fez um movimento premente com o braço; queria que eu continuasse sozinha, enquanto ele lutava com os perseguidores. — Foge, raios te partam, foge! — Descobri que não me conseguia mexer; e então era tarde. Eles estavam à nossa volta, homens armados da mesma maneira que os meus irmãos, homens com as longas faces inteligentes e os cabelos escuros encaracolados da minha raça. Homens com ódio e vingança nos olhos. Um estava a rearmar um arco; os outros tinham as espadas desembainhadas. Avançaram com cuidado.
— Tenho uma faca na bota esquerda — murmurou Red, mudando a espada de uma mão para a outra. — Pega nela. Usa-a. E foge, se puderes.
Agarrei-a, ele olhou para mim rapidamente antes de dar um passo em frente, puxando-me para trás dele e o primeiro dos nossos atacantes carregou, gritando e brandindo a espada de um modo que eu reconheci igual ao praticado nos treinos efectuados no pátio do nosso castelo. Os meus irmãos teriam respondido mergulhando e cortando as pernas do oponente. Red não mergulhou. Em vez disso, a sua bota ergueu-se, rápida e arrebatou a espada da mão do seu atacante, apanhando-a com a sua. Num instante pusera o homem a vacilar, com sangue na manga direita.
Reuniram-se em semicírculo, não muito perto. Entre eles havia homens que eu já vira antes, à mesa do meu pai. Fiquei por trás de Red, o mais afastada que pude.
— Ele sabe lutar — disse um. — O filho-da-mãe sabe lutar. Quem é o próximo?
Era como a lenda de Cu Chulainn, quando o filho deste vai à luta. Mas eu não sabia que os homens continuavam a jogar este jogo mortal. Uma espécie de combate singular, no qual cada um tem a sua vez com o intruso, até que por fim este é vencido, ou os adversários se cansam e o atacam em conjunto para acabar com ele. Podia ser uma maneira bem lenta de morrer.
— Eu tomo conta dele — disse outro, erguendo a espada. — O meu irmão morreu na emboscada de Ardruan; é verdade, assim como outros amigos. Ele vai pagar com sangue o sangue que foi lá derramado.
O arqueiro recuou, a arma apontando para o solo; era evidente que, por mais que escolhessem qual deles teria a sua vez com o bretão, o resultado seria apenas um, no fim. O segundo homem preparou-se, ameaçadoramente, para o combate; era mais hábil do que o anterior e a sua táctica era evidente, afastar Red do seu local defensivo, da sorveira-brava onde estava encostado, levando-o para uma posição mais vulnerável. Mas Red tinha a vantagem de ser mais alto e mais pesado; e também era hábil com a espada. Além disso, era ágil de pés, para um homem da sua estatura e o entrechocar das lâminas e o som das respirações pesadas continuou durante algum tempo. Os homens que observavam iam fazendo comentários; trocistas quando o companheiro cometeu um erro e a lâmina de Red desenhou uma delicada linha escarlate no rosto do seu oponente; chocantes e injuriosos quando dirigidos ao bretão. Acusavam-no das coisas mais vis. Era um desporto bem cruel.
Red continuou a lutar sem uma palavra, aparentemente sem se cansar. Creio que ele compreendia o que os seus adversários pretendiam, se não o que diziam. O seu silêncio, penso, enervou o seu oponente, porque por um momento este desviou o olhar do bretão. Foi o suficiente; a parte plana da lâmina de Red bateu-lhe no braço e ele deixou cair a espada, o braço, subitamente, inútil. Talvez partido.
— Filho-da-mãe — sibilou ele através dos dentes cerrados. — És um porco a lutar, como todos os do teu povo.
Então, os restantes aproximaram-se e de súbito eram quatro ou cinco contra um e o caos instalou-se à minha volta. Red mantivera-me sempre atrás dele; mas agora era forçado a rodiar para um e outro lado, à medida que um homem, após outro, o atacava. Mais longe, o arqueiro esperava, silencioso. Mantive a pequena faca na minha mão, perguntando-me se conseguiria servir-me dela, se tivesse ocasião. Corpos caíam pelo chão, ouviam-se gemidos e maldições e pude ver que pelo menos um homem estava morto; a cabeça dele estava num ângulo improvável. Red afastara-se da árvore e girava em volta dos seus oponentes. Dei-lhe mais uns momentos.
— Foge! — gritou ele sem olhar para mim. — Foge, raios te partam!
Então, um dos homens avançou e ele evitou-o, mas ao mesmo tempo outro feriu-o nas pernas, outro atacou-o por trás e ele deixou sair um suspiro quando a espada lhe caiu no chão. Senti-me agarrada pelo ombro e pelos cabelos e virei-me para dar de caras com um dos homens de Seamus.
— Eu conheço-te — disse ele lentamente. — Conheço-te de um lado qualquer, tenho a certeza. O que é que um cuzinho como o teu anda a fazer por estas bandas com um aborto destes? Ou talvez não sejas nenhuma menina bem comportada. Talvez lhe andes a vender segredos juntamente com o teu corpo? Veremos o que o meu senhor tem a dizer a isso.
Puxou-me o cabelo dolorosamente.
— Espera aí — disse um dos outros. — Não é... não, não pode ser. Ela morreu. Há uns dois anos, ou talvez mais. Não pode ser ela.
— Queres dizer...
— É ela. Olha para os olhos verdes. Como os de um gato. É ela.
— Ata-lhe as mãos. Vamos levá-la.
— Fazê-la prisioneira? Podes arranjar sarilhos por causa disso. Sabes de quem ela é filha. Pensa no que os irmãos te fariam, se soubessem. Ela é da nossa raça.
— Poucas probabilidades têm de voltar. Além disso, por que estava ela com ele? Ata-lhe as mãos.
Quando o homem me procurava os pulsos, de corda na mão, fiz um movimento para cima com a faca e ele deixou sair uma praga, soltando-me. O sangue brotou-lhe da mão. Deixei cair a faca. Red era atacado por todos os lados; parecia ter dificuldade em se manter de pé, como se uma das pernas lhe faltasse. Um dos homens mais altos tinha uma faca perto do pescoço de Red; este agarrou no pulso do homem e afastou a faca, os músculos tensos. Por cima da lâmina brilhante os seus olhos encontraram os meus e a sua expressão mostrou-me algo para lá da serenidade gelada. Ia morrer e eu seria levada para casa. Para o pé de Lady Oonagh e para uma morte certa dos meus irmãos.
Gritei por socorro. Se alguma vez precisara da ajuda das Criaturas Encantadas, era agora. Não que me tivessem ajudado muito até agora. Chamei por eles, por alguém que pudesse estar a ouvir, num grito silencioso, do fundo do coração.
Ajudai-o. Ele não deve morrer assim. Ajudai-me. Porque se eu morrer, também os meus irmãos morrem.
E veio a chuva. Veio de um céu claro subitamente cinzento, ao mesmo tempo que o dia quente se transformava num dia gelado de Inverno. Uma chuva torrencial, misteriosa, druídica, que cegava e ensurdecia; que isolava os homens do mundo. Era como estar por baixo de uma grande catarata; era como estar no coração de uma tempestade. Eu não conseguia ver ninguém, não ouvia senão o rugido da torrente à medida que caía, encharcando-me num instante, transformando o chão em lama sob os meus pés descalços. Então procurei por entre o lençol de água, uma grande mão apanhou a minha e os dois começámos a correr, aos trambolhões, escorregando na lama, por entre arbustos e ramos, respirando com dificuldade, os rostos e os corpos a escorrer, os pés fazendo sons de sucção no solo molhado. Desta vez conseguia ouvir a respiração de Red; o som entrecortado, difícil, de um homem ferido seriamente, que exige o máximo de si próprio. Pensei que ele não iria muito mais longe; e então faltou-nos o chão e começámos a deslizar, a cair por uma encosta íngreme, tentando agarrar-nos a ramos, chocando com a folhagem, embatendo em rochas que nos feriam e magoavam, até que finalmente parámos em solo duro e seco. O som da nossa descida precipitada morreu lentamente; pequenas pedras continuavam a cair, deslocadas pela nossa passagem. E depois tudo ficou calmo, com excepção do som da chuva e dos dois lutando por ar.
— Estás bem? — perguntou Red com voz estranha. Afastei a água dos olhos, usei ambas as mãos para afastar os cabelos saturados de água do rosto e tentei secá-los, torcendo-os. Estávamos no interior de uma caverna; olhando para cima, conseguia ver o estreito orifício pelo qual tínhamos, afortunadamente, caído naquele local abrigado. O chão era de rocha dura. Por trás de nós, uma estreita passagem que parecia ir dar a outra caverna maior, mas que dava uma curva, obscurecendo a visão. Olhei para o outro lado. A luz entrava através de uma cortina de folhagem que dissimulava a entrada; a chuva parecia ter parado, tão abruptamente como começara. Movi-me na direcção da entrada.
— Cuidado — disse Red, segurando-me na parte de trás da camisa, quando passei por ele. Dei um safanão para me libertar, mas continuei lentamente, porque as rochas estavam escorregadias à entrada da caverna, devido à chuva. Espreitei para fora por entre a folhagem. E fiquei imóvel, maravilhada.
— Nunca tinhas visto o mar — observou Red, calmamente. Era verdade. Se bem que os meus irmãos me tivessem falado da grande extensão de água selvagem, da miríade de aves e da luz que brilhava, mudava e brincava na superfície ondulada, nada me preparara para aquilo. A caverna onde estávamos situava-se no alto de um declive íngreme, que mais abaixo se transformava numa falésia a pique e eu podia observar até uma grande distância e toda essa distância era água, água até ao horizonte. O céu era azul, não havia qualquer nuvem. As rochas em volta fumegavam gentilmente ao sol. Em breve qualquer sinal da súbita tempestade de chuva teria desaparecido. Excepto, talvez, mais tarde, em lendas. E os nossos perseguidores ir-se-iam embora. Virei-me para o bretão.
Ele estava sentado de costas contra a parede de rocha, com uma perna estendida à frente, de qualquer maneira. Tinha sangue nas roupas, muito sangue. Agora que olhava para ele como deve ser, reparei que tinha o rosto muito branco e os lábios arrepanhados. Os homens conseguem ser um pouco estúpidos acerca dos ferimentos recebidos em batalha, como se, fingindo que está tudo bem, esse ferimento desapareça, ou que as pessoas não notem, se não disserem nada.
— Eles hão de vir atrás de nós — disse ele. — E nem um punhal, ou um pedaço de ferro temos. Receio que não tenhamos escolha, senão ficarmos aqui até escurecer. Talvez então consigamos escapar. Há uma aldeia mais acima, na costa, e pequenos barcos ancorados lá.
Olhei para ele, pensando na grande extensão de água e evitando pensar nas implicações do que ele acabava de dizer. Mas, pelo aspecto daquela perna, já teria sorte se conseguisse coxear até à entrada da caverna, quanto mais descer a falésia e ir até à aldeia. E que aconteceria depois? Decidi que o amigo dele, Ben, tinha razão. Ele era louco. Dito isto, ele precisava da minha ajuda e eu estava determinada a dar-lha. Porque não tinha dúvidas de que me salvara a vida, pelo menos uma vez, talvez duas. Devia-lhe algo, fossem quais fossem os motivos dele.
Ainda tinha a minha pequena trouxa e ele a sua. Uma pequena mercê. Ele olhou para mim quando me acocorei à sua frente, examinando-lhe o ferimento. Portanto, tinha perdido a espada e a outra arma. O que constituía um problema. Mas, e a pequena faca que utilizara para cortar tão perfeitamente aquela maçã? Procurei na trouxa. Ele continuava silencioso. Encontrei-a, juntamente com os restos da velha camisa que ele utilizara para fazer ligaduras para os meus pés. Olhei para baixo; estas tinham quase completamente desaparecido e os meus pés eram uma mistura de sangue e lama.
— Água — disse ele para ajudar. — Vais precisar de água. Consegues compreender-me, não é verdade?
Acenei com a cabeça; parecia que o tempo dos fingimentos tinha acabado. Ele soubera, pensei, quando me dissera para agarrar no punhal, para me defender e eu assim fizera. Apontei para diversos locais da caverna; ouvia-se o som de água a correr e a pingar e soube que descobriria água fresca mais abaixo. Que fazer primeiro? As roupas dele estavam completamente rasgadas; cortei mais um bocado e consegui tirar-lhe a bota deteriorada, o que lhe deve ter causado muita dor, mas à parte uma súbita inalação de ar, pareceu não dar por isso. Havia luz suficiente para eu poder ver o corte feio que lhe percorria a perna, do joelho à anca; para poder ver o sangue que continuava a brotar, para poder ver a profundidade do ferimento e o brilho do metal alojado profundamente na coxa. Olhei-lhe para o rosto.
És teimoso, não és?
O ferimento não o mataria; não se fosse tratado rapidamente por um curandeiro hábil, com uma faca e bons cuidados posteriores. Mas aqui, presos numa caverna, sem provisões e ambos cobertos de lama e detritos e a necessidade de tranquilidade, o caso mudava de figura.
— Nada bom, hã? — disse ele expressivamente. — Consegues consertá-la? Enrolares uma coisa qualquer em volta? — Acenei com a cabeça, tentando mostrar-me capaz e tranquilizadora. Não penso que o tenha conseguido; vi-lhe um canto da boca firmemente fechada torcer-se por um segundo, no que parecia ser um sorriso. Pensando melhor, devia ser uma careta involuntária de dor. Os Bretões não tinham sentido de humor; como podia um povo sem magia, sem vida espiritual, conhecer o riso?
Descobri a vasilha de água em pele na trouxa de Red e embrenhei-me na caverna. Mais abaixo, abria-se de modo assombroso. Estava muito escuro, mas conseguia ver as formas sombrias de grandes rochas que subiam e de outras que se estendiam de cima, tentando alcançá-las; senti que havia pequenas criaturas a dormir muito por cima de mim, na escuridão. E encontrei água fresca, gotejando e caindo, gentilmente, em pequenas poças, na rocha. Enchi a vasilha e regressei.
Desejei desesperadamente o padre Brien, ou outro com a sua habilidade, naquele dia. Fiz o melhor que pude. Pelo menos, podia lavar as mãos e limpar a ferida. O fluxo de sangue era bom, escorrendo apenas e não golfando numa maré mortal. Ajudaria se os humores maléficos deixassem o corpo. Recordei o homem que tinha ferido com o punhal de Red; devia ter perdido muito sangue. Podia ter-lhes dito como estancá-lo; mas não o fiz. Ao vê-los rodearem Red, esquecera-me que era uma curandeira.
Até agora, tudo bem. O meu espectáculo mudo é que se estava a tornar mais dificultoso. Tentei indicar a Red que havia algo na perna dele, algo que eu precisava de ter, que me ajudaria se ele fosse um pouco menos estóico, ou se houvesse um pouco de hidromel, ou cerveja, ou umas ervas bem escolhidas para uns goles adormecedores.
— Não tenho a certeza do que estás a — dizer disse ele. — Precisas de fazer algo mais? Vai doer? Bem, continua.
Por meio de gestos fi-lo compreender que devia permanecer muito quieto, porque tinha apenas a ponta afiada da pequena faca para desalojar o objecto de metal. Ele acenou com a cabeça, muito sério. Pensei para comigo porque não me dissera ele para não me intrometer e deixá-lo em paz. Não tinha qualquer razão para confiar em mim.
Demorou um bocado. Aprendi outra praga na língua inglesa. À parte isso, ele manteve-se quieto, se bem que lhe ouvisse a respiração entrecortada e o rosto a ficar pegajoso de suor. As minhas mãos já não eram tão ágeis como antigamente, mas já há algum tempo que não fiava ou tecia morugem, já que, na minha miséria, negligenciara a minha tarefa e o inchaço estava a desaparecer. Ainda bem. A operação era delicada. A pequena lasca, produto da pancada dada no osso pelo punhal ou espada, estava profundamente alojada e fiquei com as mãos cobertas de sangue antes de a conseguir tirar. Limpei a ferida de novo com água fresca e sequei-a o melhor que pude. Não tinha camomila, alfazema, nem nenhum cataplasma de bagas de zimbro. Não havia mãos hábeis, nem fio para suturar a ferida. Respirei profundamente algumas vezes e peguei numa agulha de osso, a mais pequena que tinha, a que usara para coser os colarinhos das camisas. E na trouxa havia um rolo de fio, fio esse que não era de morugem, antes suave e forte, que um dos meus irmãos tinha roubado naquela noite de solstício de Verão. Cerrei os dentes e comecei a trabalhar, com um ouvido na respiração do bretão. Ele mantinha-a lenta e firme, mas um pouco esforçada. Não me apressei; o trabalho foi feito com tanta limpeza e cuidado quanto pude. Ficaria com uma cicatriz, mas a perna sararia. Terminei, mordi o fio e senti a grande mão dele cobrir a minha.
— Diz-me — disse ele sem levantar a voz — como é que uma rapariga bem-nascida, de pele branca como o leite, tem as mãos de uma peixeira? Quem te infligiu semelhante castigo? O teu crime deve ter sido hediondo.
Foi demais para as minhas forças, creio. De repente, a fome, o choque e a exaustão tomaram conta de mim e deixei-me cair no chão, o mais longe dele que pude e levei as minhas pobres mãos ao rosto, ao mesmo tempo que grossas lágrimas me corriam pelas faces. Não estava zangada com ele, com os homens que nos tinham atacado, nem com ninguém em particular. Sentia-me encharcada, miserável, cansada e queria os meus irmãos, o meu jardim e o meu cão, queria poder contar histórias de novo e voltar a rir. Chorei de autocompaixão e porque sabia que nunca mais poderia voltar. Escolhe-se um determinado caminho e pronto. Chorei pelo padre Brien e por Linn, pelo que os meus irmãos poderiam ter sido e pela minha inocência perdida. Chorei porque tinha umas mãos horrorosas. No fim de contas, só tinha 14 anos.
— Lamento — disse ele de modo estranho, o que não ajudava nada. Descobri que, uma vez a chorar, não conseguia parar. Tal como uma criança pequena, cuja angústia ultrapassa, muitas vezes, a dor, como se o choro, em si próprio, engendrasse mais lágrimas. Chorei até me doer a cabeça e ver estrelas diante dos olhos e finalmente deitei-me sobre a rocha dura e adormeci, ainda a fungar. Ele deve ter feito um grande esforço para se mover, colocando-me uma capa por cima e uma camisa dobrada sob a cabeça, porque foi assim que acordei, mais tarde. Estava tudo escuro, lá fora era noite. Por um momento senti-me completamente desorientada, tacteando em volta, tomada de pânico. Forcei-me a ficar sentada, quieta e a respirar lentamente. E após um certo tempo vi um pálido luar, os seus finos raios entrando por entre a folhagem da entrada da caverna e àquela luz pude ver o bretão a dormir, encostado à parede mais longínqua, o rosto pálido, as pestanas pesadas por um sono de completa exaustão. A ligadura parecia limpa, pelo menos pelo que podia ver dela. Não havia sangue novo. Isso era bom.
Permaneci sentada por um bocado, à medida que a luz aumentava e pequenos sons me entravam na consciência, aos poucos e poucos. Uma coruja a piar, muito perto. Por cima, devia haver outra entrada para a caverna, porque sentia, mais do que ouvia, uma miríade de pequenas criaturas entrando e saindo, uma chiadeira e um roçagar. E para lá, um rugido distante, penetrante, um grande, calmo, movimento sem fim. O mar. O mar, que era tão vasto que não tinha margens; o mar, que se espraiava para oeste, para as ilhas das velhas lendas. O mar, que provocava um rasto de luar na direcção de leste; para a morada dos Bretões. Não precisava de pôr a cabeça de fora da caverna; a sua vastidão estava-me gravada na mente e eu receava que me tivesse capturado o espírito. Não tínhamos nós, em tempos, condenado os nossos criminosos para lá da nona vaga, para morrerem ou serem atirados para uma costa qualquer, segundo a vontade dos deuses? E aquele estrangeiro, que dormia a meus pés, não tinha ele vindo não só do lado de lá da nona vaga, como ainda de mais longe? Falara de barcos e amaldiçoara a terra que não lhe dera qualquer resposta. Ia para casa. Um arrepio invadiu-me o corpo, eriçando-me os pequenos pêlos do pescoço. Ele ia para casa; e obrigar-me-ia a ficar com ele até lhe dizer aquilo que, tão desesperadamente, queria saber. Percebi, com uma certeza que me pesava, como uma pedra no coração, que também eu viajaria para lá da nona vaga, deixando os meus irmãos para trás.
Podias fugir agora, dizia-me a minha voz interior. Podias fugir enquanto ele dorme, talvez para aquela aldeia. Pega nalgumas coisas, volta para a floresta e começa de novo. Ele não acorda tão cedo; e quando acordar será um homem lento. Ouvia-me a mim própria e respondia a mim própria. Não o posso deixar. Tem a perna ferida, os inimigos dele estão perto. Não o posso deixar.
Ainda havia duas maçãs na trouxa dele. Peguei numa e comi-a, pevides, caroço e tudo. Bebi um pouco de água da vasilha; era fria e leve. E então ouvi as vozes. Do interior profundo da caverna, suaves, apelativas, ecoando da escuridão da câmara abobadada.
Vem. Vem, Sorcha. E havia luzes vacilantes, douradas e prateadas, luzes torturantes, coagindo-me a segui-las.
Senti-me compelida a segui-las, os braços abertos tocando nas paredes de rocha, os pés descalços no chão duro, de pedra. Descendo, descendo sempre, para onde o ar era frio e húmido e o peso da terra me pesava nos ombros. Descendo até onde as raízes das árvores pendiam da abóbada; até onde a água cristalina gotejava, fazendo poças na escuridão, sob os pilares de rocha. As luzes acenaram-me, tochas, lanternas, sempre para lá da próxima curva. Tropecei e pensei ouvir uma risada. E música, o fraco sussurrar de uma harpa, o canto melodioso e ritmado de um violino, um assobio, tecendo uma grinalda de notas em volta de uma velha canção. Portanto, até no leste, até na costa mais longínqua as Criaturas Encantadas tinham morada. Porque não duvidava que aquele lugar, onde a sorte nos trouxera, era uma das portas de entrada, de que se falava nas velhas lendas, uma daquelas portas entre o nosso mundo e o delas. Eram encontradas muitas vezes em tais locais, numa caverna ou numa fenda, uma abertura na terra, onde os dois mundos se tocavam por breves momentos, na ocasião propícia.
Cheguei, finalmente, a uma câmara, mais vasta e grandiosa do que qualquer das outras precedentes, onde os pilares de rocha viva iam do solo macio até ao tecto arqueado, as suas formas imponentes reflectidas numa poça grande e calma. Eles estavam ali e o seu riso e canções cessaram abruptamente quando eu avancei para a luz das tochas. Muitos olhos em mim. Vi um rosto conhecido, palidamente belo, com olhos escuros, intensos e o cabelo como seda negra, sussurrante. Acenou-me com a cabeça, solenemente. Mas à sua volta havia muitos mais da sua espécie, todos mais altos um palmo do que os comuns mortais e vestidos com tecidos difusamente brilhantes, trajes de gaze, como asas de borboletas, ou negros e brilhantes como as penas de um corvo. As suas cabeças estavam cobertas com estranhos adornos, penas, conchas e algas, nozes, bagas e folhas. Os seus olhos eram estranhos, profundos, conhecedores, perscrutadores; os seus rostos eram ao mesmo tempo belos e terríveis. Observaram-me em silêncio. Então o círculo de tochas fechou-se ligeiramente e o mais alto dos homens avançou.
— Bem, bem — disse ele, olhando-me de alto a baixo. — Estou a ver que finalmente vieste. Avança, mostra-te. — Olhei para cima, para ele. O seu rosto era brilhante, mais brilhante do que a luz das tochas; alguma da luz parecia fazer com que a sua pele se tornasse dourada e prateada. O seu cabelo afastava-se do rosto como se estivesse coroado por chamas e era de um vermelho-brilhante, excepto onde a geada lhe tocava nas têmporas e na barba cerrada. Os seus olhos não tinham cor e tinham todas as cores. Trajava um vestido branco e quando a luz incidia nele o tecido chispava, como se estivesse cheio de minúsculas pedras preciosas.
Meu senhor.
Saudei-o silenciosamente. Virei-me para a Dama da Floresta, que se mantinha a seu lado.
Minha senhora. Que quereis dizer finalmente vieste?
Ele riu-se atirando a cabeça para trás, deixando o som reverberar pela grande câmara rochosa. Ouviu-se um sussurro de vozes, que morreu instantaneamente quando ele se calou. A Dama não se riu, limitando-se a olhar para mim solenemente.
— Não imaginas que estás aqui por acidente, pois não? — perguntou o Resplandecente. — Imaginas? Esqueço-me quão pouco a tua espécie compreende, quão limitada é. O vosso tempo no mundo é breve e assim o vosso conhecimento está de acordo com esse tempo.
Eu não vim aqui para ser insultada. Descobri que fervia em pouca água. A sua ajuda tinha sido bem pequena até agora, à parte a tempestade de chuva, que eu tinha de admitir, fora bem oportuna. Mas, Criaturas Encantadas ou não, não deixaria que oprimissem. Que quereis de mim?
— De ti, nada, criança da floresta. — Fora ela que falara, a Dama e a sua voz, pelo menos, tinha um tom de calor. — Nada para além do que sabes que tens a fazer. Mostra-me as tuas mãos, Sorcha.
Estendi-lhas, pestanejando, ao mesmo tempo que uma lanterna se aproximava de mim. As minhas mãos foram inspeccionadas.
— Estas mãos não têm sinais de trabalho recente — disse o do cabelo em chamas, franzindo as sobrancelhas. — Como hão de os teus irmãos viver, se tu negligencias a tua tarefa? Como hão de essas camisas serem feitas sem o fuso ou o tear?
Olhei para ele. Isso não é justo.
E todos se riram de novo, eles e elas, enchendo-me os ouvidos de desdém com as suas vozes musicais.
— Justo! — arfou o Resplandecente por entre o riso. — Justo, diz ela? Que criança esta. Tendes a certeza, minha senhora, de que esta é a criança certa? Porque me parece que é maluquinha, para além de preguiçosa.
Aproximou-se de mim e, tomando-me o rosto entre as suas mãos, inclinou-me a cabeça para trás para me examinar mais de perto. Os seus olhos eram muito brilhantes, movendo-se, mudando. Era difícil olhar para eles sem ficar tonta.
— Não tendes necessidade de mo perguntar — disse a Dama da Floresta. — Sabeis muito bem que é ela. No fim de contas fez-vos frente e mantém a cabeça bem alta. Não há razão para duvidar da sua força.
— Negligencia o trabalho. O tempo urge — disse ele e segurou-me nas mãos, virando-as para cima e para baixo. — Será isto vaidade? Choras por as tuas mãos nunca mais serem suaves e brancas?
— Deixa-a.
A minha cabeça virou-se rápida, como um relâmpago; o Senhor e a Dama, assim como todos os seus companheiros, viraram as cabeças estranhas e luminosas para a entrada da caverna, a mesma por onde eu entrara. A luz tremeluzente das tochas mostrou um Red cambaleante, o rosto pálido como giz, uma mão pousada na rocha, à procura de equilíbrio. A sua expressão era feroz.
— Eu disse, deixa-a.
As mãos do Resplandecente afastaram-se das minhas e ele teve um pequeno sorriso, perigoso, mas totalmente inútil para o bretão.
— Toca-a de novo e responderás com sangue — disse Red muito calmamente e avançou, colocando-se a meu lado. Houve um silêncio breve e então os presentes juntaram as mãos e bateram palmas, lentamente, ironicamente. Red começou a levantar um braço e eu levantei uma mão, detendo-o. Era evidente que não fazia a menor ideia de com quem, ou quê, se estava a meter.
O Resplandecente cruzou os braços e olhou para nós com um meio sorriso. Se ele falou na língua dos Bretões, ou noutra qualquer, não me lembro. Só sei que todos o compreendemos.
— Lorde Hugh de Harrowfield, creio ser esse o teu nome? Diz-se que o que se vê não é o que parece; carregas muito ódio sob essa máscara de controlo, jovem. Estás muito longe de casa; demasiado longe, dirão alguns. Que te traz a este lado do mar e à floresta, só, entre estranhos?
Red olhou-o nos olhos. Utilizou o meu ombro para se equilibrar; parecia que a perna não o aguentaria por muito mais tempo.
— Não sou responsável perante ti — disse ele.
— Disparate, exijo-te que respondas — replicou o Resplandecente e eu vi um clarão, como um minúsculo raio de luz, sair-lhe dos olhos na direcção do bretão. Red suspendeu a respiração; fosse o que fosse, tinha-o magoado.
— Responde.
O bretão permaneceu silencioso e obrigou-me a ficar ligeiramente por trás dele. Vi o rosto do Resplandecente ficar contraído e os olhos adquirirem laivos vermelhos. Estava desejoso de uma batalha de vontades e eu sabia que só haveria um vencedor. Não se podia esperar brincar com as Criaturas Encantadas e sair ileso.
Deixai-o em paz. Enviei a minha mensagem ao da coroa flamejante, mas também à Dama. Ele não sabe como jogar este jogo. Deixai-o.
— Diz-me, Lorde Hugh. — Agora era a Dama que falava. — Por que levas a nossa rapariga contigo, quando sabes que ela apenas quer ir para casa? Ela não pertence ao teu mundo.
Aquelas palavras levaram-no a responder.
— A rapariga não é vossa, nem minha, nem de ninguém. Por agora, viaja sob a minha protecção e aquele que lhe puser uma mão em cima terá de responder perante mim.
— Belas palavras — disse a Dama. — Mas perdeste a tua espada e o punhal. A tua perna está aberta até ao osso, tens fome e sono e estás em território inimigo. As tuas ameaças têm pouca substância.
— Tenho os meus dois braços e a minha vontade — disse Red girando, de maneira a servir-me de escudo contra os dois. — Chega. Ele que se atreva. — As costas dele eram suficientemente sólidas; até em bicos de pés eu tinha dificuldade em lhe olhar por cima dos ombros. Era pena a perna, que não duraria mais do que um momento, se fosse posta à prova. Era louco; bravo, mas louco.
— Sai daí — disse o Resplandecente, cansado. — Deixa que a rapariga se mostre. Não lhe queremos fazer mal; ela é um dos nossos.
E o momento de crise parecia ter passado.
— Sabes escolher, filha da floresta — observou a Dama, olhando para Red e depois para mim.
Que queres dizer sei escolher? Eu escolho? Eu não escolhi nada. Estaria aqui se tivesse possibilidade de escolha?
— Silêncio, criança. Há sempre possibilidade de escolha; sabia-lo quando puseste os pés neste caminho.
— Não respondeste com a verdade, Lorde Hugh de Harrowfield — disse o Resplandecente. Nem sequer respondeste. Por que levas a rapariga para longe da floresta dela? Por que tem ela de atravessar o mar? Que queres tu dela?
— Diz a verdade — disse a Dama e havia um aviso na voz dela.
— Não tenho qualquer obrigação para contigo — disse Red. — Não te darei qualquer resposta.
— És louco. — O Resplandecente estendeu as mãos na direcção do céu numa pantomina exasperada. — Pensei que gostarias de saber o que aconteceu ao teu irmão, a sério que pensei. Mas mantém-te silencioso, se assim o queres; se não consegues fazer as perguntas certas, não deves esperar respostas sensatas.
O efeito deste discurso no bretão foi electrizante. Começou a andar em frente, esquecendo a perna ferida, tropeçou e quase caiu; endireitou-se à custa de muito esforço, o rosto alagado em suor. Algo de novo acordara nos seus olhos pálidos, frios.
— O meu irmão! — arquejou ele. — Sabes algo acerca do meu irmão! Conta-me!
— Ah... ah... ah... mais devagar — disse o Resplandecente, astutamente. — Nenhuma informação é de graça, aqui. Além disso, ela é que te pode contar, não eu. — E apontou um longo dedo na minha direcção.
— É por isso que queres levá-la contigo, não é? Não porque ela esteja só, sem ajuda e precise de protecção; mas pela informação que te pode dar. E ela pode dar-ta; ela viu-o, falou com ele e ele deu-lhe a coisa que tu guardas, de maneira tão ciumenta, na tua algibeira. Pergunta-lhe e ela dir-te-á tudo o que queres saber sobre o teu precioso irmão; e outras coisas que não quererás saber.
— A rapariga não pode falar — disse Red e eu percebi que lutava para manter a voz controlada — ou não quer. Dizes que ela falou com o meu irmão. Mas ela, agora, não fala.
— Oh, ela sabe falar muito bem — disse o Senhor com leveza. — Nós ouvimo-la. Ela pediu-nos para não te atormentarmos. Diz que és demasiado estúpido para ser perigoso.
— Mas, eu não consigo ouvir nada — disse Red. — Ela está silenciosa. Está sempre silenciosa.
A Dama olhou para ele.
— Isso é porque tu não aprendeste a ouvir como deve ser — disse ela. — Mas, um dia, ela falará contigo. És um homem paciente?
Red olhou selvaticamente de um para outro.
— Diz-me só uma coisa — disse ele. — O meu irmão ainda vive? Hei de encontrá-lo?
Mas as tochas começavam a apagar-se, os duendes brilhantes com elas, os sinais de risos e seda sussurrante e as fracas notas de harpa pareciam dissipar-se lá em cima, na fria humidade da caverna, frágeis como o perfume de uma flor de Outono.
A Dama ficou diante de mim depois de todos os outros já terem desaparecido.
— Leva isto para te iluminar o caminho, filha da floresta — disse ela. — Disseste-me que estavas cansada de ser forte. Talvez já não precises de ser forte. — Pousou uma pequenina vela redonda, cheirando a ervas, na minha mão aberta. Virou-se para o bretão. — Magoaste-a com as tuas palavras precipitadas — disse ela e os seus olhos tinham perdido qualquer calor que tivessem tido antes. — Procura não a magoares de novo.
E antes que ele pudesse recuperar a respiração, ela virou-se e desapareceu.
Fizemos o caminho para a superfície no mais completo silêncio, as nossas mãos tocando-se para não nos perdermos um do outro na mais completa escuridão, alumiados apenas pela luz tremeluzente da vela. Era eu que transportava a pequena chama na palma da minha mão; cheirava a rosmaninho, rainha-dos-prados e alcaravia. Tal como a partilha de uma maçã, também ela estava cheia de propósitos escondidos. Pus-me a pensar, não pela primeira vez, no que andavam a fazer as Criaturas Encantadas.
Lá em cima, na primeira caverna, fazia um frio de rachar, porque soprava um vento cortante de leste. As nossas roupas ainda estavam húmidas da chuva e a capa não estava melhor. Ia ser uma noite bem desconfortável. Não que o sono fosse possível, de qualquer maneira. A minha mente girava e voltava a girar e não me deixava descansar. Deitei-me no meu lado da caverna e fechei os olhos, mas não conseguia parar de tremer. E pensei, o irmão dele! Devia ter adivinhado. O irmão dele! Não admirava que perseguisse aquela demanda de maneira tão teimosa. E depois pensei, Lorde Hugh. Lorde Hugh de... De qualquer coisa. Como é que eles sabiam o nome dele? Ele não parecia um lorde de coisa nenhuma, com o cabelo cortado à escovinha e as roupas usadas, a maneira como os amigos lhe falavam, como se fosse um igual. Por outro lado, no entanto, pensei em como o meu pai avisara os seus homens para que se certificassem de que Simon permaneceria vivo naquela noite. Fora um prisioneiro de alguma importância; uma pessoa de valor no futuro, talvez como moeda de troca. Assim, talvez o irmão dele fosse Lorde Hugh de qualquer coisa. Achei que Red lhe ficava melhor. Pela Dama, estava frio. Desejei que a manhã viesse; mas ao mesmo tempo a minha mente encolhia-se perante os problemas do dia seguinte. Mudei de posição, tentando arranjar algum conforto.
— Estás a tremer — disse o bretão do outro lado da caverna. — É melhor vires para aqui e deitares-te ao pé de mim. Essa capa pode cobrir-nos a ambos.
Mas eu abanei a cabeça, apertando a capa molhada contra mim. Depois do que me fora feito, creio que nunca mais seria capaz de me deitar ao lado de um homem, nem sequer para dormir, nem sequer com alguém em quem confiasse. E eu não confiava nele com aqueles olhos tão frios e os seus silêncios.
— Não precisas de ter medo de mim — disse ele. — Ficaríamos muito mais quentes.
Mas eu encolhi-me, cruzei os braços no peito, encolhi as pernas de encontro ao peito, fazendo-me pequenina sob a capa. Olhei para a vela; ainda ardia, pequenina e dourada, no espaço entre os dois. Por uns momentos, fez-se silêncio.
— Como queiras — disse Red. Ele estava deitado de costas, olhando para o tecto abobadado da caverna e a luz da vela tremeluzia-lhe na alta ponta do nariz, na maxila firme e na boca severa, fechada. Andei à deriva num sono irregular, com fragmentos de pesadelos, penosas recordações e visões de um inimaginável futuro. E de cada vez que acordava olhava para o outro lado e via-o esticado, com a cabeça sobre a trouxa, o rosto branco à luz da Lua e os olhos abertos. Mas uma vez, ao acordar, vi-o sentado, imóvel, olhando na direcção da abertura da caverna. Quando olhei para lá, num ramo escuro que se estendia em frente da abertura, estava empoleirada uma coruja totalmente branca, debicando as penas fastidiosamente com um bico delicado, observando-nos de tempos a tempos, com os seus olhos brilhantes, antigos. Suspendi a respiração olhando-a, e quando por fim ela abriu as grandes asas e levantou voo, senti como que um fim das coisas, uma continuação e uma despedida que não seria detida por qualquer erva mágica a arder, nem por qualquer intervenção humana ou espiritual. Era tão inevitável como a morte e eu levei as mãos à boca, para me manter silenciosa.
— Que fogo é este — disse Red num sussurro — que fogo é este na minha cabeça que não me deixa descansar?
Olhei para ele; mas não era para mim que ele falava.
Perto da madrugada caímos ambos num sono exausto. E foi assim que, quando os primeiros raios de sol começaram a espalhar-se pelo céu, fomos encontrados por um dos dele, não pelos homens de Seamus. Acordei com um sobressalto e comecei a levantar-me, tremendo, assim como ele, mas mais lentamente, por causa da perna; fôramos ambos acordados por um roçagar nos arbustos, no exterior. Nem sequer havia tempo para pensar. Então, ouvimos o chamamento de uma ave marinha, muito perto; e Red espantou-me, levando as mãos em concha à boca e emitindo o mesmo chamamento. Era um sinal; e um minuto mais tarde uma figura de cabelos loiros como o milho, com roupas de viagem manchadas e botas muito usadas, apareceu na entrada da caverna, afastando a folhagem para entrar, sem fôlego.
— Que subida difícil — disse Ben, porque era um dos companheiros do bretão, dobrando-se para recuperar a respiração, as mãos apoiadas nos joelhos. E por trás dele o outro homem, John. Este olhou para mim e depois para Red, com uma expressão zombeteira.
— Ainda a tens contigo — observou ele. Red franziu as sobrancelhas.
— Eu disse-vos para continuardes sem mim — disse ele. — E Redbeard e os homens dele? Não fostes perseguidos?
Ben deu uma risada trocista.
— Fomos; mas nós somos rápidos e discretos e tínhamos alguns truques na manga. Houve um pequeno problema no promontório, mas nada que não pudéssemos resolver.
— Disse-vos para continuardes sem nós — repetiu Red. Parecia que não gostava de ser desobedecido. Por mim, nunca me senti tão contente por ver alguém, como aqueles dois. Pelo menos agora sempre havia uma hipótese de o descer pela falésia inteiro, mesmo com a perna naquele estado.
— Ficámos ao largo durante a noite — disse John, não parecendo nada apologético.
— Suficientemente mau para me revirar as entranhas — acrescentou Ben pitorescamente. — E aqui estamos. Talvez te queiras matar, armado em herói, mas não contes com a nossa ajuda.
— O barco está à espera aqui em baixo, debaixo das rochas — disse John. — Diria que temos tempo antes de amanhecer por completo; com sorte, podemos estar longe antes de eles aparecerem. Mas precisamos de ir já e rapidamente. Tivemos sorte por te encontrarmos tão depressa.
Red não disse nada, mas agarrou na trouxa e avançou, a coxear.
— Maravilhoso — disse Ben, olhando para as ligaduras improvisadas e para o rosto de Red. — Como é que pensavas escapar sem nós? Não terias conseguido descer metade do caminho; é tão escarpado como o telhado de uma igreja, e a desfazer-se.
— Cá nos teríamos arranjado — disse Red. Os companheiros olharam para mim, um para o outro e nada mais foi dito.
Quando íamos a sair da caverna, olhei em volta em busca dos restos da vela, porque o seu aroma herbário ainda se mantinha, ligeiro, no ar matinal. Mas era demasiado tarde. Foi Red que se inclinou, estranhamente, para levantar a pequena sobra de cera da rocha e segurá-la na mão por um momento, antes de a meter numa algibeira.
— Disparate, claro — disse ele para si próprio. Os outros estavam à entrada da caverna, Ben olhando lá para fora e John afastando os ramos e a folhagem para abrir uma passagem segura. — Apenas um sonho. No entanto, que sonho. Um homem é capaz de perder o juízo neste país maldito.
Então o bretão virou-se, saiu e eu segui-o, já que me parecia ser a única coisa a fazer.