A Filha da Floresta

Juliet Marillier · Capítulo 12 de 17

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A Filha da Floresta

Capítulo Onze

 

Era a véspera do primeiro de Maio e o tempo estava perfeito. Na herdade, as pessoas estiveram acordadas de noite colhendo flores para as pendurar sobre as portas e as janelas, para honrar os primeiros raios de sol. Ofertas de leite foram deixadas nos buracos de certas pedras; fogueiras foram acesas no alto das colinas. Lembrei-me do meu irmão Conor a chegar a casa com uma tocha a arder, que transportara desde os confins da floresta e a acender o nosso fogão de sala. Aqui, as pessoas pareciam ter pouco tempo para tais rituais, talvez não compreendendo a sua importância. No entanto, para minha surpresa, vi fitas presas nos arbustos à beira dos caminhos e ouvi as raparigas, na cozinha, falarem de uma dança em espiral e quais de entre os jovens gostariam de levar para os bosques quando a dança terminasse. Talvez as velhas tradições não tivessem desaparecido de todo por estes lados.

 

A casa estava cheia de flores e ramos de árvores e as pessoas sorriam, porque um casamento significava renovação, estabilidade e uma nova geração, que aprenderia cuidadosamente a economia das árvores e dos animais e o sustento protector e sábio das boas pessoas do vale. Em Sevenwaters, nunca escolheríamos Beltane para um casamento, se queríamos que ele durasse. Sentei-me a coser no jardim à luz da lanterna e imaginei Red a mostrar ao filho como semear uma bolota; a mostrar à filha pequenina como se tosquiava uma ovelha e como a lã tornava a crescer. Elaine não fazia parte daquela imagem; talvez, pensei eu, sinistramente, mesmo depois do casamento se mantivesse ocupada em favor do pai, que estava sempre muito interessado nos assuntos de Harrowfield.

Tinha chegado nessa manhã, uns dias depois da filha. Pouco o vi, mas ouvi dizer que a expedição não lhe correra de acordo com os planos e ele estava maldisposto O jantar foi uma festa. Toda a família comeu, bebeu, riu e fez as partidas esperadas, mas tudo com bom humor.

 

Richard sentou-se na sua cadeira e observou-me de soslaio. Red e Elaine mantiveram uma conversa tranquila e exclusiva. Ben parecia invulgarmente distante. Bebia moderadamente e de sobrancelhas franzidas, com o pensamento longe dali. Margery não desceu.

 

Lady Anne encheu-nos de orgulho, apresentando prato após prato em escudelas de prata, carnes assadas e peixe fresco, em nenhum dos quais eu toquei; vegetais artisticamente arranjados, sopas, molhos e doces. Eu ansiava pela tranquilidade e privacidade do meu quarto, mas não me atrevia a ofender a família, saindo cedo. E então trouxeram o prato principal, ornamentado e envernizado em tons quentes dourados. Uma grande ave assada, rodeada de cenouras e cebolas, cujo aroma entrava pelas narinas e provocava um estado de espírito de acordo com a festa. Creio que fui lenta a reagir. Por momentos, não pensei. E então percebi o que era, o meu estômago agitou-se, a testa humedeceu-se-me de suor e toda a sala girou e dançou perante os meus olhos. Derrubei a cadeira na pressa de atingir a porta e quase derrubei uma serva que transportava uma molheira. Pelo menos não os envergonhei, vomitando o conteúdo do estômago no soalho do grande salão. Consegui sair a tempo e fiquei no exterior a tremer, num esforço para vomitar, até o meu corpo rejeitar toda a comida que estava lá dentro. A terrível vista continuava perante os meus olhos, o odor horrível ainda nas narinas, agarrando-se-me à roupa e a tudo, ao mesmo tempo que as vozes deles me chegavam, em fragmentos, através da porta aberta.

 

— O que é que se passa com ela?

— Alguém deitou alguma coisa esquisita na comida? Muito bem, quem é o culpado?

 

— Até eu já senti a tentação.

 

— Não te safavas. Está tudo vigiado. Dá que pensar.

 

— Eu é que te digo o que penso. — As vozes baixaram de tom.

 

— ... está grávida... foi o que ouvi dizer... ainda bem para ele... fica livre de sarilhos... casado há tanto tempo...

 

— ... não deve ser o primeiro...

 

— Não deve ser dele, se for verdade. É mais provável que seja de um desses homens que aparecem aí e que desaparecem logo a seguir. Quem mais olharia para ela?

Não era a primeira vez que ouvia coisas daquelas. Um cisne assado; dentro do cisne põe-se um peru, dentro do peru uma galinha e assim sucessivamente até à mais pequena das codornizes. Uma obra-prima de culinária. Nunca mais comeria nada vindo daquela cozinha, nunca mais vestiria aquele vestido, nunca mais...

 

— Sentes-te melhor? — Era Ben, com um copo de água numa mão e uma toalha limpa na outra. — Tens um estômago muito delicado, não tens? — Foi mesmo na melhor altura, pensei. As anedotas estavam a ficar cada vez piores. — Vá lá, bebe; deve restar alguma coisa lá dentro. Assim está melhor. Bem, não te deve apetecer voltar para a festa. Queres que te acompanhe ao quarto? Talvez devesse dizê-lo de outra maneira. Madame deseja que a acompanhe? Sorri, Jenny. Não é assim tão mau.

 

Era bom rapaz, bem intencionado. E como poderiam eles saber? Deixei que ele me acompanhasse até ao meu quarto através do jardim e sentámo-nos no banco durante uns momentos, olhando para as estrelas. Perguntei a mim própria porque não voltara ele para a festa. Não que não gostasse da sua companhia. Tudo era melhor a pensar naquele... naquele...

 

— Pediram-me para te transmitir uma mensagem — Subitamente, Ben ficou sério. — Ele disse... ele disse que esperava que tu fizesses como ele te pediu e que não fizesses muitas perguntas.

 

O quê? Qual mensagem?

— Ele disse para te levantares cedo, amanhã. Muito cedo, antes de amanhecer. Põe uma capa e umas boas botas e está pronta para partires a cavalo. E deixa o cão fechado. Foi o que ele disse.

 

O quê? Mas, amanhã é..?

 

— Não fiques tão preocupada — disse Ben, franzindo as sobrancelhas. — Ele disse-me para te dizer que correrá tudo bem. E que podes deixar ficar o teu... o teu trabalho.

 

Portanto, não me ia mandar para casa. Não me ia mandar embora. Não me mandaria embora no dia do seu casamento, sem as minhas coisas?

 

— Vai correr tudo bem — disse Ben, como se estivesse a tentar convencer-se a si próprio. — E agora, é melhor eu voltar para lá. Senão, dão pela minha falta. E parece que o nosso amigo de Northwoods tem novidades para nós. O quê, não sei. Mas é melhor eu estar lá quando ele disser o que é. Não fiques preocupada.

 

Uma das coisas que as pessoas de Harrowfield gostavam e respeitavam em Lorde Hugh era que inspirava confiança. Confiante, estável, previsível. Não havia surpresas com ele. Se dizia que faria alguma coisa, fá-la-ia. Se fazia uma promessa, cumpria-a. Sólido como um carvalho, assim era Lorde Hugh. Não era preciso estar há muito tempo em Harrowfield para ouvir as pessoas dizer isto. Fora por isso que a minha chegada os chocara; porque era uma quebra num longo e inalterável padrão. Bem, uma aberração podia acontecer, diziam. Podiam muito bem tolerar um erro. Uma vez casado, as coisas assentariam. Uma óptima rapariga, Elaine de Northwoods. Mas voltara a acontecer. Era espantoso, considerando a espécie de pessoa que ele era, que agisse daquela maneira. Nem de propósito teria maior impacte, para ofender mais pessoas, para desgostar ainda mais a sua família. No entanto, foi assim que ele o planeou. E ao fim e ao cabo parecia que, até naquilo, tinha as suas razões.

 

Eu não tinha problemas em acordar cedo, apesar de ter dormido pouco. Alys ficava contente por ter a cama só para ela e não protestou por ter ficado para trás. Não levaria o vestido caseiro, porque imaginava que ainda cheirava à carne assada; portanto, tinha que vestir o azul e as botifarras. Ainda era suficientemente cedo para estar frio, embrulhei-me numa capa e saí com um pressentimento estranho no estômago. Nervos? Mau presságio? Talvez fosse o resultado de ter vomitado com as entranhas vazias. Estava tudo calmo. A casa ainda dormia.

 

Ao portão estavam três cavalos e dois homens embrulhados em capas, armados. Red levou um dedo aos lábios, em sinal de silêncio; não havia necessidade, no meu caso. Red ajudou-me a montar e partimos, mantendo os cavalos em cima da erva para evitar fazer barulho. Antes de o Sol nascer já tínhamos passado os limites do vale, passando a cavalgar pelo meio de denso matagal, por caminhos apenas visíveis para um homem dos bosques experiente. Harrowfield ficara há muito para trás e o dia estava a nascer. Eu tremia de frustração, ansiosa, com perguntas que não podia fazer. Os homens pararam por instantes para atravessar um pequeno lençol de água. Agarrei a oportunidade.

 

Onde é que vamos? O que é isto? Hoje tu casamento! Hoje tu casa! Onde?

 

Houve um esboço de sorriso no rosto de Red, se bem que também ele parecesse não ter dormido.

— Tantas perguntas! Está tudo bem, Jenny. Ainda temos muito que cavalgar, pelo menos até ao meio-dia. Quero mostrar-te uma coisa. Levar-te-emos de volta, sã e salva. E... arranjei... maneira de o teu trabalho ficar guardado e seguro. Aquele teu cão feroz também há de ajudar, não tenho dúvidas. E agora, consegues continuar? Não estás muito cansada?

 

Abanei a cabeça, mas ainda não tinha terminado. Ele ainda não me tinha respondido.

 

Hoje tu casamento? A. mensagem era suficientemente clara no meu rosto, se os gestos não chegassem. Como é que foste capaz de fazer isto? Como é que foste capaz de lhes fazer isto? Red encolheu os ombros, evitando o meu olhar.

 

— Não há razão para preocupações — disse ele. — Tenho tudo controlado.

 

E foi tudo. Continuámos e eu descobri que, apesar da minha confusão e ansiedade, apesar do meu profundo choque com a sua atitude, estava a apreciar a liberdade daquela cavalgada, o aroma suave dos bosques, o ruído surdo dos cascos sobre o tapete de fetos e musgo, a companhia silenciosa dos dois homens. Era quase como quando fizemos aquela grande viagem, Red e eu, quando descansámos debaixo de uma macieira e partilhámos os seus frutos. Quando nos abrigámos numa caverna e vimos mais do que queríamos. Apesar do medo e da incerteza, houvera uma ligação entre os dois, quando eu mal o conhecia. Red olhou para mim de soslaio, desviou o olhar e eu acreditei que ele partilhava os meus pensamentos.

Quando cheguei, pela primeira vez a Harrowfield, a cavalgada a partir do mar demorara a maior parte do dia. Agora, percebia que a linha da costa devia ser muito recortada, ou que fazia uma grande curva, porque o caminho que tomámos era muito mais curto, se bem que mais difícil para os cavalos. Estes pareciam conhecer o caminho, que era, nitidamente, pouco frequentado. Não demorou muito a emergirmos das árvores para a enorme e brilhante extensão do mar, no plano inferior, para o barulho ensurdecedor das ondas e o grito das gaivotas. Um carreiro ia dar, pelo meio das rochas, até à água. Era demasiado inclinado para ir em cima do cavalo. De ambos os lados, projectavam-se pequenos promontórios arborizados; o local era escondido, quase secreto. Os dois homens desmontaram e após um momento fiz o mesmo, algo desastrada, porque não estava habituada a cavalgar durante tanto tempo. Ninguém falou, mas vi Red tocar no braço de Ben, como que a agradecer-lhe e este acenou com a cabeça, segurando nas rédeas dos três cavalos e levando-os para debaixo das árvores.

 

— Por aqui — disse Red, começando a descer o estreito e íngreme carreiro. Não tive outro remédio senão segui-lo. O tornozelo ainda me doía um pouco, mas aguentou-se bem. Havia locais em que o carreiro era íngreme e cheio de pedras soltas e ele precisou de me segurar uma vez ou duas, largando-me logo que possível. Concentrei-me em não escorregar e não olhei em volta. Por fim, fizemos uma pausa numa pequena plataforma rochosa, uns seis ou sete metros acima da praia.

 

— Olha para ali — disse Red. O local em que nos encontrávamos estava a meio de uma enseada abrigada, onde a areia era branca e fina e a falésia cheia de plantas baixas. No outro extremo, os altos promontórios bloqueavam o vento e as intempéries, abrigando a baía do resto do mundo. Diante de nós, uma pilha de rochas, trazidas pelas tempestades, dividia a praia em duas. Segui o olhar de Red para a esquerda e a boca ficou-me aberta, de puro espanto e prazer.

 

Já tinha ouvido falar de tais criaturas, mas apenas em histórias. Aqueciam-se ao sol, enormes, macias, elegantes, tranquilas; fixaram em nós aqueles grandes olhos líquidos como que para nos dizer este local é nosso. O mistério do oceano estava naqueles olhos. Eram, talvez, dez ou doze e enquanto eu as observava saiu outra da água, subindo o areal com uma graça ponderada. Agitou o pesado corpo, provocando em volta uma deslumbrante nuvem de gotas prateadas. Em seguida, deitou-se, com um suspiro, ao pé das outras. Sentei-me devagarinho nas rochas, mexendo-me com cuidado para não as assustar. Porque aquele era um dos lugares onde a harmonia das coisas naturais permanece intocada; onde os mundos se encontram e falam; onde o homem e a mulher devem pisar com o maior dos cuidados. Uma das criaturas mexeu a cabeça, observando-me; em seguida, deixou-a cair em cima do dorso de outra, fechando os olhos lentamente. Senti um sorriso de puro prazer espalhar-se-me pelo rosto. Fiquei ali sentada, durante muito tempo, observando aquelas criaturas ao sol de Maio, com as gaivotas gritando por cima. Senti a força daquele lugar em meu redor, ensopando-me, acalmando-me o espírito e enchendo-me de alegria. Não era um sentimento facilmente explicável por palavras; era o mesmo sentimento que eu sentia nos mais profundos e secretos lugares da floresta, ou nos telhados de Sevenwaters, conversando com Finbar sem quaisquer palavras. Está tudo bem. E estará. Gira e volta a girar. Aquele era um lugar de cura do espírito.

 

Após um certo tempo, lembrei-me que não estava só e virei-me para olhar para Red. Ele estava sentado nas rochas por trás de mim e tinha com ele o livro, a pena e o tinteiro, mas não estava a trabalhar. Estava a olhar para mim.

 

— Vamos ficar aqui um bocado — disse ele calmamente. Então, abriu o livro e destapou o tinteiro. — Ben volta mais tarde; tem coisas a fazer por estes lados. Aqui estás segura.

 

Quando ele disse aquilo, lembrei-me imediatamente das perguntas. Como podia ele estar tão furiosamente calmo? Ia dar-me explicações? Como fazer a pergunta com as mãos?

Por que me trouxeste aqui?

 

— Mais tarde — disse ele. — Temos o dia todo. Mais tarde falamos e eu digo-te, por agora, és capaz de compreender que eu gostaria de dar descanso a essas mãos, apenas por hoje? Que gostaria de libertar a minha prisioneira por algumas horas? Goza o dia, Jenny. Amanhã, começa tudo de novo.

 

Porquê neste dia? E Elaine e a tua mãe — mas não consegui dizê-lo por meio de gestos. Além disso, ele sabia muito bem o que eu queria perguntar, mas mergulhou a pena no tinteiro, virou as páginas do livro e começou a escrever, ali sentado, com o céu por cima e o mar largo defronte e parecia que apenas tinha olhos para o registo ordenado de como as coisas tinham sido, eram e seriam sempre.

 

Assim, tirei as botas e desci para o outro lado da praia, que estava praticamente intocada, salvo pelas pequenas pegadas das aves. Ali não havia grandes criaturas marinhas a dormir, mas sim delicadas e intrincadas conchas atiradas pelas marés, fragmentos de madeira descorada e complexos emaranhados de plantas. Sentia a areia suave sob os pés e era tão bom que levantei o vestido e comecei a correr, apesar do tornozelo dorido, com a brisa nos cabelos, até que a fria água do mar me rodeou os pés e o coração, com um arrepio de liberdade. Atravessei as pequenas ondas e a barra do vestido azul ficou molhada e cheia de areia; corri ao longo da praia e as gaivotas seguiram-me lá no alto, gritando umas para as outras. Corri até ficar tonta e sem respiração, até ao extremo da praia, onde o promontório rochoso se elevava da areia branca. Ali, encostei-me às rochas e fiquei a ouvir o meu coração a bater, sorvendo aquele ar selvagem, marinho. Não me tinha apercebido, até então, de como o fardo que me tinham colocado nos ombros era doloroso, tendo sido preciso um dia de liberdade para o reconhecer.

 

Podia ver Red, uma figura distante, imóvel, sentado nas rochas. O cabelo dele era a única nota vibrante de cor naquela paisagem cinzenta, verde e branca; uma chama sobre a água. Tinha posto o livro de lado e estava sentado, imóvel, de costas direitas, a olhar para mim. Talvez estivesse a pensar que eu tentaria fugir. Mas não; sabia que eu voltaria, porque compreendia, pelo menos, que eu tinha de terminar a minha tarefa, se bem que, se conhecesse as razões de tal tarefa, dificilmente acreditasse nelas. Tais coisas estavam para além da compreensão de um bretão. Vozes na cabeça, sonhos estranhos, isso ele ainda aceitava, com relutância. Mas havia um mundo inteiro para além disso e esse ele não conseguia alcançar.

 

Regressei lentamente. A meio caminho, o mar descobrira um tesouro de conchas, cada uma mais bela do que a anterior. Sentei-me na areia e peguei numa, depois noutra, maravilhando-me com aquelas minúsculas casas que tinham abrigado, cada uma delas, uma pequena criatura do mar. Porque eu era a filha da floresta e nunca me aventurara, durante todos os anos da minha vida, para lá dos seus braços envolventes, nunca imaginara a maravilha, a estranheza do oceano e a sua vida secreta. A concha na minha mão fora aberta por uma grande tempestade qualquer; lá dentro, um sulco após outro, perfeitamente alinhados, como um manto difuso, cor de pérola, digno de uma rainha. Era verdadeiramente espantoso. Fiquei ali sentada durante muito tempo, olhando e sonhando, os meus pensamentos afastando-se daquele local, virada para dentro de mim mesma. E então e então como poderei descrever aquele momento? Uma voz na minha cabeça, não a que me atormentava, nem a que me falava sem sentido e me acordava; uma voz que eu não ouvia há tanto, tanto tempo.

 

Sorcha. Sorcha, estou aqui. Estou aqui, pequena coruja.

 

Conor?

 

Mal me atrevia a pensar no nome dele, mal me atrevia a chamá-lo, com medo que o momento se perdesse. Olhei para o céu, por cima da água. Lá estava uma ave solitária, com as grandes asas abertas, circulando, planando.

Conor? És mesmo tu?

 

Ouve com cuidado. Só posso falar por uns momentos. Depois, tenho de partir

 

Os outros onde estão? Por que é que...

 

Calma, pequena coruja. Ouve.

 

Afastei todos os pensamentos, esvaziei a mente e abri-a.

 

Óptimo. Diz-me, poderei encontrar-te aqui, no solstício do Verão?

 

Não.

Imaginei o vale de Harrowfield o melhor que pude, tentando mostrar-lhe onde era, sobre as colinas, para sudeste. Como poderia um cisne voar até Harrowfield? Um cisne não segue trilhos, pontes, carreiros sob as árvores.

 

Estou a ver esse lugar. Quem é aquele que te guarda? Por que vieste para aqui, atravessando a água? É muito longe, demasiado longe para nós.

 

Senti os olhos marejados de lágrimas e a garganta presa. Não lhe respondi.

 

As camisas estão feitas? Estarão prontas no solstício do Verão?

 

As lágrimas começaram a escorrer-me pelas faces.

 

Não. Ainda falta uma e parte de outra.

 

Não chores, irmãzinha. Estarei lá. No Meán Samhraidh espera por mim. Eu irei lá.

Senti-o afastar os pensamentos dos meus, delicadamente. Nunca fora o mais habilidoso, naquilo. Vi a ave voar em círculo mais uma vez e com um poderoso bater das suas asas brancas dirigir-se para oeste. Fiquei, de novo, sozinha. Mas não só, porque eles estavam vivos. Vê-los-ia de novo em breve, muito em breve, porque já estávamos em Maio. Não me tinha apercebido, até então, de como quase acreditara na inutilidade da tarefa.

 

Obrigada, disse eu, silenciosamente. Obrigada, oh, obrigada. Mas não sabia para quem estava a falar. Havia uma força tão poderosa à minha volta que quase podia ser tocada, uma força nas ondas, nas rochas e nas estranhas criaturas marinhas, com os seus olhos tão dóceis. Ouvira a voz do meu irmão devido a essa força, devido ao local em que me encontrava. Mas não me esquecera de quem me trouxera.

 

Mais tarde, quando a maré atingiu o seu ponto mais baixo, desenhei uma sereia na areia molhada, de longos cabelos louros, olhos cinzentos do feitio de conchas e uma graciosa cauda de peixe. Os seus seios eram redondos, a cintura estreita e as mãos pequenas, delicadas. Era como as criaturas de que eu ouvira falar nas velhas histórias, que chamavam os marinheiros com vozes extremamente sedutoras, capazes de enlouquecer um homem. Fiquei toda molhada e enchi-me de areia, tão absorta que não vi o meu companheiro descer até à praia e só me apercebi dele quando a brisa me atirou o cabelo para os olhos e levantei a cabeça para atirar de novo os caracóis para os ombros. Ele estava sentado não muito longe, a observar-me e surpreendi-lhe um sorriso nos lábios, o primeiro verdadeiro sorriso que já lhe vira, um sorriso que lhe encurvava e suavizava a boca estreita e lhe aquecia os olhos frios, como o gelo; um sorriso que trouxe de volta o sangue ao meu rosto e me fez o coração bater mais depressa. Algo dentro de mim, muito lá no fundo, gritou, perigo! Não te podes dar ao luxo de te desviares do teu caminho. Olhei para além dele, porque quando vi a doçura daquele sorriso senti a mão de Simon ferrar-se na minha, aterrorizado, como se fosse um talismã. Quando olhei para os olhos de Red e vi a profunda solidão, ouvi a voz de Simon, como a de uma criança: não me deixes. Aqueles irmãos, sem uma palavra, pediam mais do que eu podia dar. Sentei-me de costas para ele e observei as aves sobre o mar. Gaivotas, gansos, e outras cujos nomes eu não sabia, grandes viajantes, de grandes asas. Não havia cisnes. Mas algures, do outro lado daquela vastidão aquática, eles estavam à espera. Isso é que interessava.

— Simon e eu costumávamos vir aqui — disse Red por trás de mím. — Há muito tempo. Mais ninguém sabia disto. As focas vêm aqui para descansar, mas não por muito tempo, porque vivem a maior parte das suas vidas no mar e só são vistas quando querem. Nunca sabíamos se elas estariam aqui, ou não. Queria mostrar-tas.

 

Acenei com a cabeça, mas não olhei para ele.

 

— Há uma história antiga acerca deste lugar — disse ele. — É sobre uma sereia igual à que tu desenhaste. O teu povo é hábil a contar tais histórias. Eu não tenho o dom da palavra. Mas penso que gostarias de ouvir esta.

 

Senti-me extremamente surpreendida. Virei-me um pouco. Ele estava sentado na areia, de pernas cruzadas, ainda calçado com as suas botas de montar. Pelo menos, deixara a capa nas rochas, juntamente com o livro, o tinteiro e a pena. Franzi as sobrancelhas, mostrei-lhe os meus pés descalços e apontei para os dele. Mergulhei os dedos na areia.

 

Pelo menos, podes fazer isto.

 

Ele estreitou os olhos, mas tirou as botas, levantou-se e foi até à beira da água, até ao pé da sereia. Estudou-a com um meio sorriso no rosto, enquanto as pequeninas ondas se lhe enrolavam nos tornozelos.

— As pessoas, por estas bandas, vivem da pesca — disse ele. — Os miúdos aprendem a lançar a rede e a apanhar um bacalhau quase antes de aprenderem a andar. Mas havia um que não queria seguir esse caminho. Tudo o que fazia, dia após dia, era sentar-se nas rochas, nos promontórios, a tocar no seu assobio. Danças, árias, melodias estranhas, da sua imaginação. O pai desesperava com ele. A mãe dizia que ele era a vergonha de todos, que não era capaz de andar um dia decente nos barcos. Mas Toby, porque era esse o nome dele, continuava a olhar para o mar e assobiava as suas melodias e com o tempo as pessoas começaram a ouvi-lo com receio, porque a sua música fazia-se eco das alegrias e desejos dos seus corações.

 

Estava estupefacta. Nunca me passara pela cabeça que o sério Hugh de Harrowfield pudesse dizer tais palavras.

 

— O rapaz transformou-se num homem. Por vezes, pediam-lhe que tocasse num casamento e ele fazia-o com relutância, saindo assim que podia. E então vinha a parte estranha da história. Estranha, mas verdadeira, dizem, porque um homem, que estava a remendar umas redes, o viu com os próprios olhos. Lá estava Toby, ao anoitecer de um dia de Verão, sozinho nas rochas escuras, com as notas do assobio a pairarem por cima dele. E de súbito, a seu lado, apareceu uma bela jovem, de pele pálida como o luar e longos cabelos escuros emaranhados, que caíam para lhe esconder a nudez; e olhos líquidos, da cor do vasto oceano. Saiu da água e por um momento o homem pensou ter visto o brilho de uma cauda prateada, o brilho difuso de escamas, à luz do Sol poente; mas quando olhou de novo ela estava sentada nas rochas, escutando, enlevada, a música, parecendo uma mulher normal, salvo que mais bela e mais selvagem do que qualquer outra nas redondezas.

 

Red inclinou-se, com umas algas presas cuidadosamente nas mãos. Colocou-as no pescoço da sereia.

— Toby levou-a com ele para casa e a mãe dele, franzindo as sobrancelhas, arranjou um vestido para a tapar e o pai ficou dividido entre a admiração e o receio, quando Toby declarou que iria desposá-la no dia seguinte. Mas a avó disse, não fiques com ela durante muito tempo. É sempre o mesmo com a gente do mar. Pensamos que nos pertencem e um dia ouvem o chamamento das ondas e vão-se.

 

Os dois mudaram-se para longe do mar, para Elvington, onde Toby tocava em feiras e festas. A sereia manteve-lhe a casa limpa, dormia na cama com ele e com o tempo deu-lhe duas filhas, de frondosos cabelos escuros e olhos afastados. E as pessoas hesitavam em passar pela casa deles ao escurecer, porque por vezes ouviam o som de um assobio, cadenciado, e outras a voz da esposa, entoando um lamento que lhes punha os cabelos em pé, tal era a nostalgia que encerrava ali. Passaram-se os anos e as coisas não iam bem entre eles, porque a esposa de Toby emagreceu e empalideceu e o seu cabelo lustroso ficou seco e quebradiço. Já não se ouviam os sons suaves do assobio ecoando no crepúsculo. As pessoas diziam que a esposa estava perto da morte e que o homem já não era o mesmo, porque ela era a mulher da vida dele e não conseguia pensar em separar-se dela.

 

“Então, uma manhã, saíram de Elvington tão silenciosamente como haviam chegado: Toby, a sua pálida mulher enrolada num grande xaile e as duas filhas lado a lado, numa carroça puxada por um burro. Viajaram até à costa e a cada passo que o burro dava na direcção do barulho das ondas e da vastidão do oceano, mais os olhos da esposa brilhavam e mais os de Toby empalideciam e envelheciam. Seguiu-se outro crepúsculo, até que, por fim, chegaram de novo às rochas e olharam para ocidente. As pequeninas começaram a brincar nas poças de água, indiferentes ao frio do mar. Ninguém sabe o que Toby disse à esposa, ou ela a ele. Mas dizem que ficaram os dois juntos, mão na mão, até que o último raio prateado de sol desapareceu na água e então Toby tirou o assobio do bolso e começou a tocar um lamento. E quando esse lamento terminou a sereia tinha desaparecido, abraçada pelas ondas. E na água escura moveram-se caudas; e ouviu-se o som de estranhas vozes, cantando uma música de despedida.

 

Movi as mãos, à espera de mais. Uma história deve ter um fim como deve ser.

— Ela era uma criatura das profundezas e para lá devia voltar, ou morreria. Toby compreendeu-o, mas isso não o ajudou. Porque tudo o que lhe restou dela foi a recordação, na qual ele guardou cada momento em que ela lhe pertencera. Foi tudo o que lhe restou, para afastar a solidão. As suas filhas cresceram, casaram-se e os seus descendentes ainda vivem por estas bandas. Mas isso é outra história.

 

Red sentou-se, de costas para mim, perto, mas não demasiado. Houve um pequeno hiato de silêncio, enquanto a lenda assentava nas nossas mentes. Pensei que Toby encontrara um tesouro, encontrara a mulher dos seus sonhos e a perdera. Tudo o que tu pescaste foi uma rapariga magricela, com uma maldição que prejudica todos aqueles que se aproximam dela. Fizeste um mau negócio, Hugh de Harrowfield. Mais valia cortar as amarras e deixar-me ir. Mas, onde aprendera um bretão uma lenda como aquela? Na verdade, estava a ser um dia muito estranho.

 

Red trouxera a pequena trouxa com ele, para a areia. Ofereceu-me a garrafa de água, tirou um bocado de pão, que dividiu, e um canto de queijo, que cortou com a sua pequena faca. Descobri que, apesar de tudo, tinha fome. Ele observou-me a comer, mas pouco comeu. O espaço entre os dois estava pesado, cheio de pensamentos calados. Quando terminei, meteu na trouxa a garrafa e o pano, rodeou os joelhos com os braços e pôs-se a olhar para ocidente.

 

— Hoje — disse ele — acabei a última página do meu diário. — É tempo de começar outro. Já muitos foram escritos. Cada carvalho plantado, cada celeiro construído, cada geração de ovelhas e gado. As batalhas travadas; os fogos e as cheias enfrentados. A história do vale. Foi sempre o que quis, continuar o trabalho feito pelos meus antepassados; para que os meus animais prosperem, as minhas colheitas cresçam sadias e o meu povo se sinta seguro e feliz. Foi para isto, creio, que nasci.

Seguiu-se uma pausa. Olhei para ele de lado. O seu perfil era muito severo.

 

Mas? sinalizei eu com as mãos.

 

— Mas... Desde que Simon se foi embora, desde... Desde que te encontrei e trouxe para Harrowfield, é como se andasse pelo meio das sombras, brincando com fantasmas. Como se tivesse perdido o meu rumo. Ou., ou como se o rumo que eu sempre acreditei ser o meu estivesse a alterar-se sob os meus pés. Antes, sempre me pareceu suficiente, porque a minha vida seguia esse caminho, como o meu pai antes de mim e o pai dele antes dele. Mas eu saí desse caminho e não posso voltar atrás. Não tenho medo, não por mim; mas não me sinto à vontade, porque o real e o irreal se aproximam cada vez mais, enredando-se um no outro, de maneira que não consigo separá-los. Ouço duas versões da mesma história e não sei qual delas é a verdadeira. Aqui estou eu a contar histórias e quase acreditando nelas. Porque, por vezes, penso que também tu voltarás um dia, ouvirás o chamamento do mar e deslizarás para a água. A sereia de Toby fê-lo. Ou talvez uma noite, quando estiver a olhar pela tua janela, veja uma coruja a levantar voo e desaparecer na floresta; e quando for à tua procura talvez só encontre uma pequena pena na tua almofada.

 

As minhas mãos estavam incapazes de falar por mim. Desde aquela noite, quando tentara confortá-lo e o enfurecera, que perdera a esperança de algum dia me falar daquela maneira. Acreditara que as janelas se tinham fechado para sempre. Por que escolhera aquele momento para revelar tanto de si próprio? Precisava de palavras. Para lhe dizer que era o feitiço. O encantamento que caiu sobre ti, para me protegeres. Para eu poder completar a tarefa. Agora, a tarefa estava quase terminada, os meus irmãos descobrir-me-iam e então também o teu feitiço será quebrado. Poderás voltar para o teu vale e para o caminho ordenado da tua vida e eu... eu irei para casa.

— Não estás a dizer grande coisa — disse Red.

 

Não fiz qualquer esforço para responder. Pensei que fosse o que fosse que tentasse dizer, ou fazer, seria errado e a máscara desceria de novo. Talvez se eu me sentar aqui muito quieta, consiga guardar este momento, com o céu, e o mar, e o calor do dia, com a voz do meu irmão na mente e Red sentado a meu lado, a falar, como se... como se...

 

— Faz as tuas perguntas agora, se quiseres — disse ele acanhadamente — Devo-te uma explicação. Várias explicações. E tenho algo para te dizer, assim como algo para te pedir. Não há pressa. Temos o dia todo.

 

Aquilo preocupava-me. Assim, a minha primeira pergunta foi: Sol a pôr-se a cavalo para casa?

 

— Não te preocupes com isso — disse ele, franzindo um pouco as sobrancelhas. — Disse que te levaria de volta sã e salva e fá-lo-ei. Pelo menos, nisso podes confiar em nós.

 

Fiz um gesto de exaspero. Ele era perito em construir respostas que não eram respostas. Mostrei-lhe: Tu casamento hoje?

— Por esta hora — disse ele, olhando para o Sol, que ia alto. — Elaine e o pai dela devem ir a caminho de casa. Não haverá qualquer celebração em Harrowfield.

 

Fi-lo perceber que achava aquela resposta inadequada.

 

— Não vão perder tempo com perguntas — disse ele cuidadosamente. Elaine ficou de dar a notícia a Richard esta manhã, assim como à minha mãe. Não desejará ficar mais tempo do que o necessário. — Sim, Jenny, ela já sabia. Não sou tão frio como pensas.

 

Elaine triste, zangada?

 

Ele teve um pequeno sorriso lúgubre.

 

— Não. Desapontada e aborrecida, talvez. Mas ela nunca me quis. Passa-lhe depressa. Com o pai dela é que a história é outra.

 

Continuava a não responder à verdadeira pergunta, a única que importava.

Porquê?

 

Não havia um gesto definido, mas não era preciso; a pergunta devia estar escrita nos meus olhos.

 

— Eu... eu hei de explicar-te, um dia. Há razões. É complicado. Eu...

 

Terás que fazer melhor do que isso.

 

— Porquê hoje? Por que não dizer-lhes e acabar com tudo? Acreditas se eu te disser que foi por querer trazer-te aqui, mostrar-te este local, ver-te correr pela areia? Porque só o poderia fazer se mantivesse este dia escondido de todos, salvo daqueles a quem confio a minha própria vida?

 

Abanei a cabeça.

 

— No entanto, é uma das razões, Jenny. Desde... Desde o dia em que John morreu que... não, não tenho palavras que cheguem.

Fiz um gesto:

 

Leva o tempo que quiseres. Estou a ouvir.

 

— Tens sofrido muito, desde esse dia. Eu não sou cego, eu... Tens de compreender que naquele dia, quando aquilo aconteceu, quando lá chegámos, eu pensei... pensei que ambos... e então, descobri que não podia... Desculpa, isto é... não tenho palavras, só espero que me consigas compreender. Fui injusto para contigo. Não te protegi como devia. Não tiveste culpa do que aconteceu. Cada um de nós se culpa a si próprio. Se eu tivesse feito isto, ou aquilo... mas a culpa foi apenas daquele que deu a ordem. Foi esperto, não há provas. Mas, agora, penso que armou uma cilada a ele próprio, que pode ser descoberta. Só que... — calou-se de novo.

 

Esperei.

 

Após um certo tempo disse:

 

— Está a ficar muito quente. Não devias ficar ao sol muito tempo.

Segui-o pela praia acima e sentámo-nos de novo à sombra do promontório, onde as sombras começavam a arrastar-se ao longo da areia. À beira-mar a maré, subindo, começava a lamber a cauda da sereia, levando-a de volta para o mar.

 

— Preciso de te fazer uma pergunta — disse Red, virando e revirando uma concha na mão. — Não precisas de responder, se te for proibido. Mas se puderes, responde.

 

Acenei com a cabeça. Parecia coisa séria. Mas pensei que num dia como aquele pouco mais me surpreenderia.

 

— Aquela coisa que ele fez para ti, aquele bocado de madeira gravado — disse Red e por um momento não percebi o que queria dizer. — A gravação com as armas de Harrowfield... preciso de saber, foi o meu irmão que ta deu? Pôs-ta nas mãos, percebeste o que ele queria dizer?

 

Abanei a cabeça. Não, ele deixou-a para mim, apesar de eu o ter abandonado quando mais precisava de mim e quando peguei nela já ele se tinha ido há muito. Não conseguia contar aquela parte.

 

— Podes dizer-me — disse ele e olhou-me fixamente nos olhos — se o meu irmão ainda vivia no momento em que te conheci?

A pergunta fora feita cuidadosamente. Abanei a cabeça. Acredito que os seus ossos jazem algures na minha floresta. Mas não os vi. Não lhe contei aquela parte.

 

— Sabes, com alguma certeza, se Simon está morto?

 

Os seus olhos estavam pálidos sob o sol de Verão Pálidos como poças de água às primeiras luzes do dia. Profundos como recordações por dizer.

 

Abanei de novo a cabeça.

 

— Então, não tens a certeza — disse ele, olhando para longe. — Talvez estejas a pensar por que te faço esta pergunta neste momento. Devo dizer-te que... que o teu cativeiro pode ter chegado ao fim. Que a resposta que procuro pode estar noutro lado. Reparaste, suponho, no regresso dos meus mensageiros? Porque também eu tenho informadores espalhados por aí, tal como o meu tio; simplesmente, não falo neles.

 

Por aquela altura já ele captara a minha atenção por completo, se bem que não conseguisse dizer o que se aproximava. Senti que estava mais à vontade, estabelecendo uma estratégia, um plano; em território mais seguro.

— Pensei que todos os vestígios de Simon se tivessem perdido. A pista fria, apagada pelo tempo. O meu tio falou em procurá-lo e eu varri essa ideia por achar as palavras vãs, atiradas ao vento para manter a minha mãe esperançosa. No entanto, mandei os meus mensageiros em busca de notícias dele. E, por fim, chegaram.

 

Notícias? Que notícias?

 

Como é que podia haver notícias de Simon, ao fim de tanto tempo?

 

— O meu informador ouviu uma história — disse Red — acerca de um jovem de cabelos dourados e olhos azuis, muito brilhantes, um homem tão estrangeiro no teu país como nenhum; que vivia numa comunidade de santos irmãos, numa pequena ilha a oeste da costa de Erin. É muito longe daqui. Um jovem que parecia não estar ferido, no seu perfeito juízo. Só que... só que a sua memória parecia ter desaparecido, tendo apenas conhecimento do presente. Inocente como um recém-nascido; e dizem que tinha 18 ou 19 anos.

 

Fosse quem fosse, não era Simon, disse para mim própria. Não estava ferido? No seu perfeito juízo? Não podia ser o rapaz de quem eu tratara, cujo espírito estava tão ferido como o desventurado corpo. Mas não o podia dizer.

 

— Acredito que deve ser o meu irmão — disse Red, olhando para mim. — Sendo assim, vou procurá-lo. E depressa, antes de qualquer outro.

Estava a assustar-me. Porquê?

 

— Porque — disse ele — não foram as únicas notícias que recebi. Depois de te teres retirado, ontem à noite, o meu tio reuniu-nos a todos e disse-nos que tinha provas em como Simon fora morto, logo depois de o grupo com quem ia ter, sofrido a emboscada na floresta. Capturado, torturado e morto. O corpo dele enterrado sob as árvores, onde a floresta, sempre a crescer, o cobriu. Foi-lhe contado em primeira mão por quem o testemunhou e mais tarde traiu o seu senhor.

 

Ambas as histórias eram falsas, pensei. Mas como não podia negar uma, também não podia refutar a outra. Não sem lhe dizer a verdade sobre o que sabia. E não o faria. Não enquanto não tivesse palavras. Mesmo então, seria suficientemente doloroso.

 

— Richard está a mentir — disse Red rudemente. — Por qualquer razão, não quer que o meu irmão seja encontrado. Por isso, devo ir só e em segredo. Nem mesmo a minha mãe deve saber, porque seria cruel alimentar-lhe esperanças enquanto eu não tiver a certeza. Além disso, continua a ser irmã de Richard. Só falei disto a Ben e agora a ti. Há uma longa vastidão de território hostil a atravessar. Jenny devo dizer-te que parto esta noite. Não vou regressar a Harrowfield. Só quando o encontrar.

 

Senti-me esmagada, instantaneamente, sob um pânico terrível. Estava tudo errado, não podia ser o irmão dele, alguém lhe estava a montar uma armadilha e... pensei no meu regresso a Harrowfield e como seria sem ele presente. Pensei que até poderia nem regressar. A minha mão fugiu-me, involuntariamente, tocou-lhe numa prega da túnica, sobre o coração e mordi o lábio para segurar as lágrimas. O que se passava comigo? Não era eu a mais forte dos sete, aquela cujos pés mal vacilavam no caminho?

 

— O que me leva — disse Red num tom que pouco mais era do que um sussurro — à última parte daquilo que quero dizer. Acredita-me, há muito que penso nisto; custou-me muitas noites de sono. Não te deixaria sozinha de livre vontade, porque a ameaça à tua segurança é suficientemente real. Mas se o meu irmão está vivo, preciso de o encontrar. Tenho... Tenho-te protegido o melhor que posso. Muitas vezes, não tão bem como desejaria. Gostaria de fazer mais, mas tu nem sempre tens sido uma pessoa fácil. Desta vez, deixo o Ben, contra a sua própria vontade, aliás. Vou só; posso passar sem ser visto, creio, durante a maior parte da viagem. Ben tomará conta de ti e haverá outros que te apoiarão. Pode ser que não seja por muito tempo. Não fiques muito preocupada, Jenny.

 

Senti uma lágrima na face.

 

Vai ser por muito tempo.

 

Senti o peso de um mau presságio no coração, um sentimento profundo de que coisas más estavam para vir. Não vás. Ainda não. Mas não podia dizer-lho.

 

— Uma vez disse-te que havia uma solução para o problema da tua segurança — continuou ele de modo muito estranho, como se estivesse a andar sobre vidros partidos. Um passo em falso e o dano estaria feito. — Tenho visto muito bem como te tratam, até a minha mãe, como olham para ti e falam nas tuas costas. Como detestam a tua presença no seio da família. Não te aceitam como amiga porque não compreendem... quero dizer, o teu lugar na minha casa permanece pouco claro para eles. O que te deixa vulnerável às pequenas partidas, à falta de delicadeza e aos preconceitos. Mas, como te disse, a solução não será do teu agrado. Qual é? Promete-me — disse ele — que me ouves. Que me escutas, que não foges ou bloqueias a mente, até teres ouvido tudo o que tenho para dizer.

 

Olhei para ele. A minha mão desprendeu-se da túnica dele e caiu no meu colo. Acenei com a cabeça.

 

— Como minha convidada — disse ele cuidadosamente — o teu estatuto está... sujeito aos caprichos de outros; a tua segurança não pode ser garantida se não estou presente para te proteger. Como minha mulher, ficarias salva. — O meu coração estremeceu e levantei-me de súbito, o meu vestido enchendo-lhe o rosto de areia. A minha resposta devia ser clara nos meus olhos, à medida que as minhas mãos se mexiam convulsivamente para rejeitar as suas palavras. — Não. Tu não podes fazer isso. Não. Prometeste que ouvias — disse ele calmamente e eu tinha prometido. Assim, sentei-me de novo com os braços em volta do corpo, como que para me proteger. Subitamente, aquele dia solarengo de Primavera tornou-se frio, o seu brilho desapareceu.

 

— Estás assustada. Não esperava outra coisa. Jenny, eu sei... eu soube que... alguém te magoou, que foi cruel para contigo... sei que ainda te afastas de mim, se bem que espere, apesar de tudo, que sejamos amigos. Este casamento seria... seria apenas no nome, um casamento de conveniência. Ofereço-te a protecção do meu nome, para que possas terminar a tua tarefa em segurança. Nem mais, nem menos.

 

Não podemos fazer isto. Está errado, tudo errado. Como é que podes pensar — oh, palavras, para lhe dizer como deve ser. A história dele era uma confusão, cheia de nós, um caos. Uma coisa era alterar o padrão, outra destrui-lo por completo.

— Pelo menos, toma atenção ao seguinte — continuou Red, com a voz muito calma, muito suave, como quando tentava controlar-se. Pela minha parte, apetecia-me bater-lhe, esbofeteá-lo, forçá-lo a ver a realidade. Não sabia que aquilo não era a resposta? Não conseguia ver que aquilo era impossível? Imaginava-me a viver em Harrowfield como dona da casa. Até acharia a cena cómica, se não doesse tanto. — Pelo menos, pensa um pouco. Ainda temos algum tempo antes do regresso de Ben.

 

Percebi, com um horror crescente, que ele desejava que aquilo acontecesse imediatamente; aquele era, na verdade, o dia do seu casamento. Porque estava de partida para o outro lado do mar; e não regressaria; e pretendia que eu ficasse tão protegida quanto possível, antes disso. Mas...

 

— Olha para mim, Jenny — disse Red e eu olhei. Olhei para o rosto forte, para a palidez da pele, para a cor de fogo do cabelo cortado curto, como o pêlo de uma raposa. Para os profundos e sérios olhos.

 

— Eu nunca tomei uma mulher contra a sua vontade — disse ele. — Nunca. E não vou começar agora. Especialmente... — não terminou aquele pensamento particular. — Acreditas em mim?

 

Acenei com a cabeça.

— Não é só isso; se bem que também seja. Ajudaria se te disser que há outras pessoas a saberem disto, que o teu regresso a Harrowfield foi bem preparado? Não precisarás de dar a novidade à minha mãe. Foi Elaine que a deu, antes de regressar a casa.

 

Pensava que não ficaria mais chocada; enganei-me. Elaine sabia? Quem mais? Toda a casa sabe, antes sequer de tu me pedires?

 

Ele teve um pequeno sorriso amargo, que não lhe chegou aos olhos.

 

— Falei apenas com aqueles em quem confio. Com Elaine, sim; ela merecia uma explicação e eu dei-lhe uma. Não é apenas minha prima, Jenny é também uma velha amiga; conheço-a desde criança. Foi ela que carregou o fardo por nós, hoje, ao dizer-lhes; sempre me perguntei como é que aquele meu tio produziu uma filha assim. Ben também sabe; o papel dele nesta história é vital. Será ele que te levará para casa e te protegerá enquanto eu estiver ausente. E... e tinha falado a John nas minhas intenções, há muito tempo.

 

Houve um silêncio. Um silêncio pesado. Por fim levantei-me e caminhei de novo até ao mar e a areia continuava a saber-me bem sob os pés e a tarde continuava benigna. Mas tudo o resto tinha mudado. Na ocasião, não tinha percebido as últimas palavras de John, rejeitara-as como a confusão delirante de um homem às portas da morte, sofrendo de intensas dores. Que dissera ele? Red, escolha certa. Diz sim. Algo assim, se juntarmos as palavras todas. E eu acenara-lhe com a cabeça, esperando suavizar-lhe as dores. Tinha concordado. Não se falta a uma promessa a um moribundo. Especialmente quando a sua morte é culpa nossa.

Caminhei de novo ao longo da praia, enquanto as sombras se alongavam e o mar escurecia. À beira da água, a sereia tinha quase desaparecido. Tudo o que restava dela era um pedaço de cabelo emaranhado e uma mão delicada, estendida. Sentei-me e fiquei a ver o oceano levá-la de volta para os seus profundos lugares secretos. Clareei a mente; procurei respostas. Mas desta vez nenhuma voz interior veio em minha ajuda. Havia apenas duros e frios factos. Os meus irmãos estavam de regresso. Havia ainda uma camisa para terminar e outra ainda inacabada. Alguém me queimara o trabalho, alguém me matara o meu amigo. Red ia-se embora. E eu tinha prometido a John. Só havia uma conclusão Tinha de acreditar que Hugh de Harrowfield tinha tomado outra das suas sensatas e calculistas decisões. Que ele era, como toda a gente o descrevia, um homem que não faria, nunca, a escolha errada. Tinha que dizer sim, se bem que o meu coração gelasse só de pensar nisso.

 

No entanto, enquanto permanecíamos os dois nas rochas, um pouco mais tarde, observando as grandes criaturas marinhas uma última vez, à medida que desciam lentamente pela praia e deslizavam para a água, transformando-se instantaneamente em nadadoras graciosas, mágicas, tinha outra pergunta para fazer. Pergunta essa que ele conhecia muito bem.

 

Tu prometeste eu, casa? Eu, atravessar a água, casa?

 

— Não faltarei à minha promessa, Jenny — disse ele. — Quando chegar a ocasião, quando estiveres preparada para ir, levar-te-ei lá, sã e salva Quando chegar a ocasião, pede-me e... — não terminou a frase. Mas foi o suficiente.

 

Estava a fazer-se tarde. A praia estava meia mergulhada em sombra, o céu escurecia cada vez mais. Percebi que não regressaria nessa noite a Harrowfield. Ele não me apressou no sentido de lhe dar uma resposta; limitou-se a ficar ali, observando as focas, esperando. Esperava há muito. O seu diário jazia aberto sobre as rochas, por trás de si e a brisa que se levantava agitava-lhe as folhas, virando-as até mostrar a última, onde escrevera as meticulosas palavras finais dessa manhã, quando estava sentado ao sol; nessa manhã que parecia ter acontecido já há muito. Mas não havia palavras naquela página, apenas imagens, pequenas e delicadas imagens, desenhadas com cuidadosos traços de pena. Já o tinha observado a trabalhar e ficara maravilhada ao ver como preferia escrever, em vez de se extasiar com a beleza que o rodeava. Mas parecia que não precisava de olhar, para lhe apreender a beleza. Porque aquela página mostrava o céu aberto, as suaves e brilhantes faces de pedras molhadas e o suave quebrar das ondas. Mostrava as grandes focas com os seus olhos inteligentes e o voo de uma gaivota contra minúsculas nuvens. No pé da página, muito pequeno, estava o último desenho do livro. Uma jovem a correr, os cabelos esvoaçando como uma nuvem escura, selvagem, o vestido colado ao corpo pela brisa, o rosto iluminado de alegria. Red aproximou-se e fechou o livro com firmeza, metendo-o no pequeno saco. Pensei que, ao fim deste tempo todo, afinal não conheço este homem. De todo. Houve um som vindo de cima, para lá da falésia. O pio de uma ave; um que já ouvira antes. Red levou as mãos à boca e respondeu ao chamamento.

 

— Chegou a altura de nos irmos embora — disse ele; mas continuou parado. Respirei fundo. Nunca desejara tanto não precisar de responder. As minhas mãos meteram-se ao trabalho. Indiquei a minha própria pessoa; apontei para a mão esquerda, para o terceiro dedo. Acenei com a cabeça ligeiramente. Não me pude impedir de acrescentar um encolher de ombros e um franzir de sobrancelhas. Assegurei-me de que ele compreendia. Houve um lampejo de reacção, do fundo dos seus olhos pálidos, instantaneamente reprimido. Acenou com a cabeça gravemente, o rosto desprovido de qualquer emoção.

 

— Óptimo. Tinha esperança de que concordasses. Vamos, então. Não me resta muito tempo.

 

Fora tudo planeado, até ao mais ínfimo pormenor. Partira do princípio, pensei com alguma amargura, que eu diria sim. Sabia que eu não tinha escolha. Ben estava à espera; percorremos uma pequena distância e parámos numa clareira, ao pé de uma construção de pedra, onde estava outro homem à espera. Com uma tonsura na cabeça e um hábito caseiro. Um santo padre; um eremita solitário, como o meu velho amigo, o padre Brien. E tudo terminou rapidamente, tão depressa que não houve tempo para pensar. Ele pronunciou as palavras da cerimónia e nós respondemos como era suposto. Houve um momento estranho e depois tornou-se evidente que eu devia pronunciar o meu voto sem palavras. O padre de olhos perspicazes olhou para Red, olhou para mim e hesitou. Mas perguntou-me, delicadamente, se eu compreendia as palavras; se eu sabia o que estava a fazer. E eu acenei com a cabeça, outra vez e em breve tomava Hugh de Harrowfield como marido através dos laços do santo matrimónio. Ben foi testemunha, disse pouco e manteve a mão no punho da espada. Parecia que apenas naquela enseada encantada estivéramos seguros. E apenas por um dia.

 

Escurecia cada vez mais. Ben afastou-se alguns passos com o eremita, falando em voz baixa. Que se passa agora, pensei? Vamos ficar aqui nos bosques até ser dia!

 

— Tenho uma coisa para ti — disse Red, que se mantinha a meu lado. Estava a tirar algo da algibeira. — Quero que uses isto, se não te importas. Uma noiva não deve regressar a casa sem um testemunho do seu casamento, apesar de regressar sem um marido. Toma, leva isto.

 

Uma coisa pequena, leve, pendurada num fio fino e forte. Era um anel; mas, ao segurá-lo contra a luz cada vez mais fraca, reparei que nunca tinha visto um anel como aquele. Aquele delicado objecto tinha sido esculpido a partir do coração de um grande carvalho. Era fino e delicado, trabalho de um mestre. A face interior era suave como a seda e a exterior tinha um desenho intrincado, fruto de muitos golpes de faca ao longo de muitas e longas noites; um pequeno círculo de folhas de carvalho, com minúsculas bolotas aqui e ali e uma pequena coruja de olhos solenes, empoleirada na folhagem. O anel não fora feito para Elaine. Passei o fio pelo pescoço e meti o testemunho no decote do vestido, sobre o coração, onde ele ficou ao lado de outro velho talismã, pertencente, em tempos, à minha mãe e depois a Finbar. Olhei para Red. O rosto dele não deixava transparecer qualquer emoção. Pensei que aquilo não fazia qualquer sentido. Ele já pensava no casamento antes da morte de John, durante noites a fio, à lareira, no Inverno. O que queria dizer...

— O barco está à tua espera. — A voz de Ben vinha da escuridão. — O barqueiro diz que te consegue desembarcar antes do amanhecer, a tempo de te esgueirares. Estás pronto?

 

— Não — disse Red. — Mas tenho que ir, de qualquer maneira. Adeus, Jenny. Sê prudente e até ao meu regresso.

 

Eu estava gelada, incapaz de me mexer. Não vás. Ainda não. É muito cedo. Mas as minhas mãos ficaram quietas e a minha língua, como sempre, silenciosa.

 

— Eu trago-te uma maçã — disse ele e, virando-se, desapareceu nas sombras. — A primeira maçã da estação. — E desapareceu. E eu não me tinha despedido.

 

Uma história pode começar de muitas maneiras. Desse modo, transforma-se em várias histórias. Ao mesmo tempo, cada uma delas não passa de uma maneira de contar a mesma. Era uma vez dois irmãos. Esta é a história do irmão mais velho, um homem que tinha tudo. Era bom, forte, sábio e rico. Era um homem que fazia sempre as escolhas certas. Era um homem satisfeito com o que tinha; mais do que satisfeito, porque era obrigado pelo amor e pelo dever a solidificar a sua herança. Até que um dia descobriu que não era o suficiente. Era uma vez dois irmãos. Esta é a história do irmão mais novo, que era esperto, habilidoso e selvagem, um homem de cabelos encaracolados, da cor do sol do Verão num campo de cevada. Havia pessoas que gostavam dele, mas ele não o sentia. Havia um lugar para ele, mas nunca se sentia bem-vindo. Sentia-se sempre a mais. O seu irmão herdaria a herdade; ele, uma pequena parcela de terra que ninguém queria. O seu irmão casar-se-ia bem, para salvaguardar a herdade e consolidar o seu poder; mas quem quereria o filho mais novo, sem qualquer futuro? O seu irmão fazia sempre as coisas bem-feitas. Ele, por vezes, cometia erros de proporções épicas. Esta é também a história de uma jovem. Quem ela era, ninguém sabe bem, excepto que tinha uns olhos verdes estranhos, um cabelo como a meia-noite e que veio do outro lado do mar. Num momento de loucura incaracterística, o irmão mais velho tomou-a como esposa. Em seguida, desapareceu, tal como o irmão mais novo; e tudo o que ambos deixaram para trás foi a rapariga-bruxa, que passava o tempo a fiar, a tecer e a coser um estranho tecido de espinheiro e da boca dela não saía uma única palavra, um único som. Dizem que ela não falava, nem quando as rochas lhe caíram ao pé e um homem morreu. Dizem que era uma mulher sem sentimentos humanos, uma feiticeira, e que quando arrebatou Lorde Hugh à sua prometida, mesmo debaixo do nariz dela, sem lhe pedir licença, arrancou o coração de todo o vale. É o que dizem.

 

Foi um regresso a casa difícil. A confidência de Red, de que Elaine prepararia a sua entrada na família, não era de todo verdadeira. Ela fizera o melhor que pudera; todos sabiam que o casamento fora cancelado e que, em vez disso, Hugh fizera o impensável e casara comigo. Elaine fora-se embora, assim como Richard e eu tinha uma grande dívida para com ela por causa disso. O que ela não lhes disse, porque não podia, porque ninguém sabia, salvo Ben e eu, era que o seu amado Hugh não regressaria a casa com a sua noiva. Foi um regresso desconfortável, enquanto Ben explicava o melhor que podia, sem dizer exactamente para onde Red fora e eu fiquei no átrio, cansada, rodeada de rostos chocados e olhares curiosos. Lady Anne era uma mulher corajosa. Foi a primeira a recuperar, aparentemente, pelo menos. Os servos foram despachados, em busca de cerveja e hidromel. As damas foram despedidas e os homens de armas foram enviados para os seus lugares. Para Lady Anne, o dever era soberano. Assim, deu-me um beijo gelado na testa e disse «Bem-vinda, filha», numa voz sufocada pelo constrangimento. Foi só nesse momento que me lembrei que só passara um dia desde que Richard lhe dissera que Simon estava morto. Em seguida, fez-me sentar e meteu-me uma taça de hidromel nas mãos; e passado um bocado chamou Megan para me mostrar os meus novos alojamentos. Eu ainda nem sequer tinha pensado naquilo. Mas tudo estava pronto, numa câmara espaçosa, no andar superior, que eu suspeitava nunca tinha pertencido a Red, porque era demasiado confortável. Havia uma cama larga, com cobertores de boa lã e no fogão coberto de telha ardia um pequeno e acolhedor fogo. Havia tapeçarias nas paredes e velas acesas. Grinaldas de flores decoravam a cama, o fogão e a soleira da porta; não tinham sido ali colocadas para mim, de certeza. Mas a um canto estavam a minha arca de madeira, a minha roca e o meu fuso, o meu cesto e os fardos de morugem. Alys estava junto aos calcanhares de Megan e não demorou muito a instalar-se junto ao calor do fogo.

Nessa noite não dormi muito, nem nas muitas que se seguiram, à medida que o Verão avançava e se aproximava o regresso dos meus irmãos. Sentar-me-ia a trabalhar o dia todo, descendo apenas quando fosse preciso, para tomar o meu lugar na mesa à direita de Lady Anne e comer a minha refeição sob o olhar atento dela. Eu sabia que havia coisas que ela queria dizer, perguntas que ardia de desejo por fazer. Mas não lhe estava na natureza. Além disso, sabia que não obteria respostas da minha parte. Por vezes, punha-me a pensar se ela saberia onde fora o filho, porque as explicações de Ben tinham-me parecido bem fracas. Um velho amigo; uma disputa territorial. Onde, perguntaram? Ben não sabia exactamente onde. Mas não demoraria muito; em breve voltaria. Mas, se era só isso, perguntaram as pessoas (como a estação ia avançada), porque não voltara? E se era assim, porque não contara os seus planos a ninguém? Nem sequer à própria mãe? Os rumores abundavam e eu estava em todos eles. Assim, mantive-me calada e quando saí da mesa fui trabalhar para a minha câmara iluminada por velas, apenas com Alys como companhia. O tempo era cada vez mais escasso.

 

O sono continuou a fugir-me. Andava de um lado para o outro do quarto, a cabeça cheia de visões de Red, capturado e torturado pelos homens do meu pai. De cisnes voando sobre a água tempestuosa, os movimentos das asas cada vez mais difíceis. De Red sofrendo de um ferimento qualquer, num território hostil, sem qualquer ajuda. Sozinho na floresta. Não haveria uma rapariga habilidosa com a agulha e o fio. Nem sequer tivera tempo de lhe coser uma cruz de sorveira-brava no vestuário, antes de ele me deixar. Imaginei Finbar na última vez que o vi, demasiado fraco para andar. Demasiado fraco para voar. Imaginei o rosto de Red, quando finalmente encontrasse o jovem sem passado. O homem que ele acreditava ser o seu irmão. Não podia ser Simon. Se lho pudesse ter dito, talvez não tivesse partido, deixando-me só. Então, a minha pequena e sensível voz falou. Despacha-te, Sorcha. Despacha-te. Não há tempo para essas coisas. Fia. Tece. Faz as tuas camisas. Tens menos tempo do que pensas. No entanto, tinha menos controlo sobre os meus pensamentos do que gostaria. O pequeno anel estava pendurado no meu pescoço, por baixo do vestido, onde ninguém o podia ver. Quando estava só, por vezes tirava-o para fora, imaginando como soubera ele o tamanho, sem mais nada senão os meus dedos inchados e nodosos para se orientar. Imaginando se as minhas mãos algum dia voltariam a ser o que eram, pequenas, brancas e finas. Quando isso acontecesse, se acontecesse, há muito que me teria ido embora. E teria deixado para trás marido e anel de noivado. Não importava muito se o tamanho era o certo ou não. No entanto, quando pensava nisso, dava com a minha mão a pegar no anel, como se não quisesse separar-me dele. É meu, dizia algo dentro de mim. Este sentimento perturbava-me muito.

Na ausência do filho, Lady Anne tomou as rédeas da herdade, como obviamente já o fizera antes, com tranquila competência. Mas agora a tarefa já não era tão fácil. Os dias seguiram o seu padrão familiar, mas sem Red não era o mesmo. As disputas demoravam mais tempo a resolver. Um homem queimou o telheiro de outro e um burro foi salvo in extremis. Um estranho, que passava na estrada, parou numa das cabanas e pediu cerveja e abrigo. Na manhã seguinte foi encontrado morto no pátio com um ferimento de punhal entre as costelas. Alguns dos homens queixavam-se de receber ordens de Ben. Quem pensava ele que era, afinal de contas? Lá porque tinha sido protegido do velho, pai de Lorde Hugh, não podia dar-se ares, agora que Hugh se tinha ausentado. O rapazito andava a armar-se. Além disso, se Mister Benedict não estivesse presente no dia em que Lorde Hugh... bem, tu sabes. Lady Anne disse-lhes para voltarem ao trabalho e deixarem de gastar o tempo de Ben e o dela; a herdade não funcionava sozinha. Os homens obedeceram, resmungando. Mas todos o sentíamos. Os bons tempos tinham acabado. À medida que a Primavera avançava para o Verão e um brilhante e fértil calor arranhava a terra, a desconfiança e a suspeição floresciam. As pessoas andavam receosas e irritadas, não apenas para comigo e para os que me protegiam, mas também para com eles próprios.

 

As coisas atingiram o máximo uns dias antes do solstício de Verão. A mulher de um camponês foi assaltada; um outro camponês foi acusado, mas protestou a sua inocência. Formaram-se facções. Parecia ser apenas uma questão de tempo, antes que um entusiasta qualquer, brandido uma forquilha ou uma gadanha, ferisse alguém seriamente. Lady Anne chamou as partes e tentou arbitrar a questão. Ben, com a ajuda de um punhado de homens leais, conseguiu mantê-los afastados das gargantas uns dos outros. Mas não se chegou a qualquer solução e a disposição geral piorou. Não havia notícias de Red. Assim, Lady Anne mandou chamar o irmão.

 

Se a atmosfera da casa já estava tensa, assim que Richard fechou a sua mão bem tratada sobre nós, a casa passou a andar no fio da navalha. O seu método de resolver o problema imediato foi muito eficiente. O acusado foi sumariamente levado, para um lugar qualquer, extremamente privado, acompanhado por vários homens grandes, vestidos com as cores castanho-avermelhado e negro de Northwoods. Mais tarde, no mesmo dia, Richard avisou Lady Anne de que o homem tinha confessado. Mais tarde ainda, foi pendurado numa árvore e foi o fim. Dizem que quando o tiraram de lá o corpo tinha ferimentos que não tinham sido feitos por uma corda em volta do pescoço. É o que dizem, o que não é muito difícil de acreditar. Ninguém se atreveu a salvar aquele homem, que podia ser, ou não, culpado. Não havia nenhum Finbar, nem nenhuma Sorcha, para intervirem, nenhuma criança apaixonada, suficientemente corajosa, para tomar a lei nas próprias mãos, como tínhamos feito com Simon. As outras coisas que se diziam é que teriam preocupado Red. Coisas como, pelo menos Lorde Richard sabe como resolver os problemas. Age com rapidez. As pessoas ficam a saber o que podem e não podem fazer. É claro que a outra facção discordou por completo. Murmuravam coisas como, qualquer homem confessava, fosse o que fosse, se lhe fizessem aquilo, e, que tal uma audiência justa e perguntas como deve ser de ambos os lados? Onde estava Lorde Hugh quando precisavam dele? E quem pensava Lorde Richard que era, para tomar assim decisões? Ouviste o que aconteceu aos homens dele, quando os mandou ao outro lado do mar numa missão de loucos?

 

Eu mantive-me no meu quarto, mal me aventurando a sair, a não ser para fazer as minhas abluções. Penso que Megan me compreendeu e desculpou na refeição da noite uma, duas, três vezes. Estômago delicado. Não conseguia segurar nada. Antes, Lady Anne ter-me-ia mandado chamar. Mas agora eu era nora dela e tinha que mostrar respeito pelos meus desejos. Eu era, pelo menos no nome, a dona da casa. Megan regressou e disse-me que havia rumores acerca da minha súbita doença. Um pouco cedo, talvez, mas era evidente que Lorde Hugh estivera ocupado, diziam; experimentando o artigo antes de o comprar. Senti uma fúria cega quando ouvi aqueles rumores, mas mantive as rédeas curtas. Não tem importância, disse para mim própria. Nada é importante, senão o meu trabalho. Sempre sozinha no meu quarto, terminei a quinta camisa e comecei a última.