A Filha da Floresta

Juliet Marillier · Capítulo 2 de 17

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A Filha da Floresta

Capítulo um

 

 

Três crianças estão estendidas sobre as rochas à beira da água. Uma rapariguinha de cabelo escuro. Dois rapazes, ligeiramente mais velhos. Esta imagem permanece gravada para sempre na minha memória, como uma frágil criatura preservada em âmbar. Eu própria e os meus irmãos. Lembro-me de como a água ondulava à medida que eu corria os meus dedos ao longo da sua superfície brilhante.

 

— Não te inclines tanto, Sorcha — disse Padriac. — Podes cair.

 

Era um ano mais velho do que eu e servia-se dessa pequena diferença para exercer uma certa autoridade sobre mim. O que era compreensível, suponho. No fim de contas, éramos seis irmãos, cinco dos quais mais velhos do que ele.

Ignorei-o, tentando alcançar as misteriosas profundidades.

 

— Ela pode cair, não pode, Finbar?

 

Um longo silêncio. Como este se prolongasse, olhámos ambos para Finbar, que estava deitado de costas, estendido sobre a rocha tépida. Não estava a dormir; os seus olhos reflectiam o cinzento-pálido do céu outonal. O seu cabelo estava espalhado sobre a rocha num emaranhado negro selvagem. Havia um buraco na manga da sua jaqueta.

 

— Os cisnes vêm aí — disse Finbar por fim. Sentou-se lentamente e apoiou o queixo nos joelhos dobrados. — Vão chegar esta noite.

 

Por trás dele, uma brisa fez mover os ramos de carvalhos e ulmeiros, freixos e amieiros e espalhou em todas as direcções as folhas douradas, cor de bronze e castanhas. O lago estava rodeado por montes cheios de árvores, abrigado como num grande cálice.

 

— Como é que sabes? — perguntou Padriac. — Como é que podes ter a certeza? Pode ser amanhã ou no dia seguinte. Ou podem ir para outro lugar qualquer. Tens a mania de que sabes sempre tudo.

 

Não me lembro de Finbar responder, mas mais tarde, nesse dia, quando a noite se aproximou, levou-me de novo até à margem do lago. Naquela meia luz, sobre a água, vimos os cisnes a regressarem a casa. Os últimos raios de sol apanharam um movimento branco no céu que escurecia. Em seguida já eles estavam suficientemente perto para podermos ver o seu voo em formação ordenada, descendo através do ar frio à medida que a luz desaparecia. O barulho das asas, a vibração do ar. O último deslizar sobre a água e o brilho prateado desta, abrindo-se para os receber. Ao amararem, o som parecia o meu nome, uma vez e outra: Sorcha, Sorcha. A minha mão apertou a de Finbar; ficámos ali imóveis até ser escuro e só depois o meu irmão me levou para casa.

 

Se se tem a sorte de crescer como eu, fica-se com muitas coisas boas para recordar. E algumas não tão boas. Uma Primavera, olhando para as minúsculas rãs verdes que apareciam com os primeiros calores, os meus irmãos e eu mergulhávamos na corrente, fazendo tanto barulho que assustávamos qualquer criatura. Três dos meus seis irmãos estavam comigo, Conor a assobiar uma velha canção; Cormack, o seu gémeo, arrastando-se de costas e ficando com o pescoço cheio de lodo. Ambos rolando na margem, lutando e rindo. E Finbar. Finbar estava mais acima, quieto, numa poça provocada pelas rochas. Não virava pedras à procura de rãs; silenciosamente, encantava-as.

 

Eu tinha na mão um ramo de flores silvestres, violetas, rainhas-dos-prados e daquelas a que nós chamamos campainhas. Perto da margem estava uma nova, com flores em forma de estrela, de um delicado verde-pálido e folhas como penas cinzentas. Desci e estendi o braço para a apanhar.

 

— Sorcha! Não lhe toques! — estalou Finbar.

 

Assustada, olhei para cima. Finbar nunca me dava ordens. Se fosse Liam, que era o mais velho, ou Diarmid, que vinha a seguir, não me espantaria. Finbar apressou-se na minha direcção, abandonando as rãs. Mas porque é que eu lhe havia de prestar atenção? Ele pouco mais velho era do que eu e era apenas uma flor.

 

— Sorcha, não... — Enquanto os meus pequenos dedos colhiam um daqueles caules de aparência suave.

 

A dor na minha mão foi como se estivesse a arder uma agonia que me fez contrair o rosto e gritar enquanto tropeçava ao longo da vereda, as flores caídas no chão, calcadas sob os pés. Finbar travou-me bruscamente, as mãos nos meus ombros, parando-me a fuga desordenada.

 

— Morugem — disse ele olhando para a minha mão, que inchava e enrubescia rapidamente. Por esta altura os meus gritos tinham atraído os dois gémeos, que se aproximaram a correr. Cormack segurou-me, visto que era forte, enquanto eu berrava e me debatia com dores. Conor rasgou um bocado da sua suja camisa. Finbar encontrara um par de aguçados galhos e começou a retirar delicadamente, um por um, os minúsculos espinhos que a planta morugem tinha embebido na minha suave carne. Lembro-me da pressão das mãos de Cormack nos meus braços enquanto eu lutava por ar entre soluços e ainda consigo ouvir Conor a falar, a falar, numa voz calma, enquanto os longos e hábeis dedos de Finbar continuavam com a tarefa.

 

— ...e o nome dela era Deirdre, Dama da Floresta, mas nunca ninguém a via, excepto à noite, se se fosse ao longo dos caminhos sob os vidoeiros, quando se podia vislumbrar a sua silhueta alta vestida com uma capa azul, o longo cabelo, selvagem e escuro, flutuando sobre os ombros e a pequena coroa de estrelas...

Quando tudo acabou, ligaram-me a mão com uma ligadura feita da camisa de Conor, com algumas pétalas de malmequer esmagadas e pela manhã já estava melhor. Nem uma palavra foi dita aos meus irmãos mais velhos quando voltaram para casa, de como eu fora tola.

 

A partir dessa ocasião fiquei a saber o que era a morugem e comecei a ensinar a mim própria sobre outras plantas que podiam magoar ou curar. Uma criança que cresce meio selvagem na floresta aprende os segredos que nela existem apenas por bom senso. Cogumelos venenosos. Líquen, musgo e picancilho. Folhas, flores, raízes e casca de árvores. Ao longo da floresta enorme, grandes carvalhos, fortes freixos e gentis vidoeiros, escondiam uma miríade de coisas em crescimento. Aprendi a encontrá-las, quando apanhá-las, como usá-las em pomadas, unguentos ou infusões. Mas não fiquei satisfeita. Falei com as velhas das cabanas até elas se cansarem de mim, estudei os manuscritos que pude encontrar e tentei coisas por mim própria. Havia sempre mais coisas a aprender; e havia sempre trabalho a fazer.

 

Quando é que tudo começou? Quando o meu pai encontrou a minha mãe, perdeu o coração e escolheu desposá-la por amor? Ou foi quando eu nasci? Devia ter sido o sétimo filho de um sétimo filho, mas a deusa pregou uma partida e saí rapariga. Após me ter dado à luz, a minha mãe morreu.

 

Não se pode dizer que o meu pai se tenha entregado à dor. Era forte demais para isso, mas, quando a perdeu, alguma da luz que existia dentro dele apagou-se. Era só concelhos e jogos de poder, negociações por trás de portas fechadas. Era tudo o que ele via e com que se preocupava. Assim, os meus irmãos cresceram meio selvagens na floresta em volta da fortaleza de Sevenwaters (Termo sem tradução que engloba as fadas, os gnomos, os duendes, etc.). Talvez eu não fosse o sétimo filho das velhas histórias, aquele que tinha poderes mágicos e a sorte das Criaturas Encantadas mas segui os meus irmãos e eles amaram-me e criaram-me como só o poderia fazer um bando de rapazes.

A nossa casa tinha o nome dos sete riachos que desciam dos montes até ao grande lago cercado de árvores. Era um lugar remoto, calmo, estranho, bem guardado por homens silenciosos que deslizavam pelos bosques vestidos de cinzento e que mantinham as armas bem afiadas. O meu pai não arriscava. O meu pai era Lorde Colum de Sevenwaters e a sua túath era a mais segura e mais secreta deste lado de Tara. Todos o respeitavam. Muitos temiam-no. Fora da floresta ninguém estava, realmente, seguro. Salteadores contra salteadores, reis contra reis. E havia os assaltantes do outro lado do mar. Casas cristãs de ensino e contemplação eram pilhadas, os pacíficos habitantes mortos ou postos em fuga. Por vezes, em desespero, os santos irmãos pegavam, eles próprios, em armas. A antiga fé entrou para a clandestinidade. Os Nórdicos reclamaram as nossas costas, estabeleceram em Dublin um porto para os seus navios, permanecendo ali no Inverno e, assim, nenhuma época do ano era segura. Até eu tinha visto a obra deles, porque havia umas ruínas em Killevy, onde assaltantes tinham matado as santas irmãs e destruído o seu santuário. Só lá fui uma vez. Havia uma sombra sobre aquele local. Andando pelo meio daquelas pedras em desordem podia-se ainda ouvir o eco dos seus gritos.

 

Mas o meu pai era diferente. A autoridade de Lorde Colum era absoluta. Dentro do anel constituído pelos montes, cobertas pela velha floresta, as suas fronteiras eram seguras, atendendo aos tempos conturbados em que vivíamos. Para aqueles que não a respeitavam, ou que não a compreendiam, a floresta era impenetrável. Um homem, ou um bando de homens, que não soubesse que direcção tomar, perder-se-ia irremediavelmente, presa das brumas repentinas, dos ramais, das pistas enganadoras e de outras coisas antigas que um viquingue, ou um bretão, não poderia aspirar a compreender. A floresta protegia-nos. As nossas terras estavam livres de saqueadores, quer fossem assaltantes do outro lado do mar ou vizinhos que quisessem aumentar alguns acres de pastagens, ou cabeças de gado, aos seus domínios. Temiam Sevenwaters e evitavam-nos.

 

Mas o meu pai tinha pouco tempo para falar dos Nórdicos ou dos Pictos, visto que tínhamos a nossa própria guerra. E essa era com os Bretões. Em particular com uma família de Bretões, conhecida como os Northwoods. Esta contenda era muito antiga. Eu não me preocupava muito com ela. No fim de contas era uma rapariga e, de qualquer maneira, tinha coisas mais importantes para fazer com o meu tempo. Além disso nunca vira um bretão, ou um nórdico, ou um picto. Eram menos reais para mim do que os dragões ou gigantes de uma velha lenda.

O meu pai estava fora a maior parte do tempo, construindo alianças com vizinhos, inspeccionando os postos avançados e as torres de vigilância e recrutando homens. Eu preferia essas ocasiões, quando podíamos passar o tempo como quiséssemos, explorando a floresta, escalando os altos carvalhos, liderando expedições no lago, ficando ao relento toda a noite. Aprendi onde encontrar amoras, avelãs e maçãs silvestres. Aprendi a fazer uma fogueira mesmo com lenha húmida e a cozinhar abóboras-menina, ou cebolas, nas brasas. Conseguia fazer um abrigo com fetos e tripular uma jangada numa corrida.

 

Adorava permanecer ao ar livre e sentir o vento no rosto. No entanto, continuava a ensinar a mim própria a arte de curar, porque o meu coração dizia-me que seria esse o meu verdadeiro ofício. Todos nós sabíamos ler, se bem que Conor fosse, de longe, o mais hábil e havia velhos manuscritos e rolos de pergaminho amontoados num andar superior da fortaleza de pedra que era a nossa casa. Eu devorava-os, na minha sede de conhecimento, achando tudo aquilo normal, já que era o único mundo que conhecia. Não sabia que outras raparigas de 12 anos aprendiam a bordar e a entrançar os cabelos umas das outras com intrincadas grinaldas, a dançar e a cantar. Não percebia que poucas sabiam ler e que os livros e pergaminhos que enchiam o nosso pacífico quarto do andar de cima eram um tesouro inestimável num tempo de destruição e pilhagem. Aninhada entre as suas árvores guardiãs, escondida do mundo por forças mais velhas do que o tempo, a nossa casa era, de facto, um lugar à parte.

 

Quando o meu pai estava presente, as coisas eram diferentes. Não que ele se interessasse muito por nós; as suas visitas eram curtas, misturadas com concelhos e encontros. Mas observava os rapazes a praticarem com as espadas e outro material de guerra, ou a atirarem com os machados enquanto galopavam ou volteavam no dorso dos cavalos. Nunca se sabia em que pensava o meu pai, porque os seus olhos nunca mudavam de expressão. Era um homem de constituição forte, de aparência austera e tudo nele indicava disciplina. Vestia com simplicidade; no entanto, havia algo nele que nos dizia, instantaneamente, que era um chefe. Usava o cabelo castanho fortemente atado atrás. Fosse onde fosse, do átrio ao pátio, dos aposentos de dormir aos estábulos, dois grandes cães-lobo seguiam-no silenciosamente. Essa era, suponho, a sua única satisfação. Mas mesmo essa tinha a sua finalidade.

Sempre que vinha a casa passava pelo cerimonial de nos falar a todos e certificar-se dos nossos progressos, como se fôssemos uma espécie de seara pronta para a colheita. Nós odiávamos esta parada ritual de identidade familiar, se bem que fosse mais fácil para os rapazes assim que atingiram a idade da virilidade e o meu pai começou a vê-los como coisas úteis para ele. Éramos chamados ao grande átrio depois de sermos rapidamente limpos pelo servo que tinha, no momento, a ingrata tarefa de nos vigiar. O meu pai sentava-se na sua grande cadeira de carvalho, os seus homens em volta a uma respeitável distância, os cães a seus pés, descontraídos mas vigilantes.

 

Chamava os rapazes um a um, saudando-os gentilmente quanto baste, começando por Liam e indo, gradualmente, até ao último. Perguntava-lhes, brevemente, como iam os seus progressos e actividades desde a última vez. Isto demorava um bocado; no fim de contas, eles eram seis e mais eu. Não conhecendo qualquer outra forma de educação paternal, eu aceitava tudo aquilo com naturalidade. Se os meus irmãos se lembravam de um tempo em que as coisas eram diferentes, não falavam dele.

 

Os rapazes cresceram rapidamente. Quando Liam chegou aos 12 anos, começou a passar por um intensivo treino nas artes da guerra e passando cada vez menos tempo connosco no nosso alegre e indisciplinado mundo. Não muito tempo depois, a especial habilidade de Diarmid com a lança valeu-lhe um lugar ao lado do irmão e em breve ambos cavalgavam com o bando de guerreiros do meu pai. Cormack mal podia esperar pelo dia em que teria idade suficiente para se juntar àquelas perseguições; o treino que todos os rapazes receberam de mestre-de-armas do nosso pai nunca era o suficiente para lhe satisfazer a sede de excelência. Padriac, que era o mais novo dos rapazes, tinha um talento especial para os animais e um dom para consertar coisas. Também ele aprendeu a montar a cavalo e a manejar uma espada, mas era mais frequente vê-lo a ajudar uma cria a nascer ou a cuidar de um touro premiado ferido por um rival.

Os restantes de nós éramos diferentes. Conor era gémeo de Cormack, mas não podia ter um temperamento mais diferente. Conor sempre gostara de aprender e quando era muito novo iniciou uma combinação com um eremita cristão que vivia numa caverna da encosta sobre a margem sul do lago. O meu irmão levava peixe fresco e ervas do jardim ao padre Bríen, juntamente com um pão ou dois surripiados das cozinhas e, em troca, este ensinava-o a ler. Lembro-me claramente desses tempos. Lá estava Conor, sentado num banco ao lado do eremita, em profundo debate sobre um determinado ponto da língua ou da filosofia e a um canto lá estavam Finbar e eu, de pernas cruzadas no chão de terra batida, quietos como ratos do campo. Os três absorvíamos conhecimento como pequenas esponjas, acreditando, no nosso isolamento, que aquilo era absolutamente natural. Aprendemos, por exemplo, a língua dos Bretões, uma áspera e apertada maneira de falar, sem qualquer música. À medida que aprendíamos a língua dos nossos inimigos, era-nos contada a sua história.

 

Tinham sido, em tempos, um povo parecido com o nosso, temível, orgulhoso, rico em canções e histórias, mas a sua terra era aberta e vulnerável e havia sido invadida vezes sem conta, até que o seu sangue se misturou com o de Romanos e Saxòes e quando por fim veio uma certa paz, a velha raça daquela terra desaparecera e no seu lugar, no outro lado do mar, ficou um novo povo. O santo padre contou-nos isso tudo.

 

Toda a gente sabia de uma história sobre os Bretões. Reconhecíveis pelos cabelos claros, estatura alta e ausência de qualquer decência, fosse ela qual fosse, haviam começado a guerra tomando algo tão intocável, tão profundamente sagrado para o nosso povo, que o seu roubo fora como se nos tivessem arrancado o coração. Era essa a causa da nossa guerra. Little Island, Greater Island e Needle. Lugares de grande mistério.

 

Lugares de imenso segredo; o coração da velha fé. Nenhum bretão devia ter posto o pé nas Ilhas. Nada estaria bem enquanto não os expulsássemos. Toda a gente dizia isso.

Era claro que Conor não estava destinado a ser um guerreiro. O meu pai, rico em filhos, aceitava-o de má vontade. Talvez pensasse que um erudito na família pudesse ter alguma utilidade. Havia sempre registos e contas a fazer, mapas para serem desenhados e o escriba estava a ficar velho. Conor portanto, encontrou o seu lugar na família e instalou-se satisfeito. Os seus dias eram cheios, mas tinha sempre tempo para Finbar e para mim e os três tornámo-nos bastante chegados, ligados pela nossa sede de conhecimento e por uma profunda, calada, compreensão.

 

Quanto a Padriac, podia virar-se para onde quisesse, mas o seu grande amor era examinar coisas e descobrir como funcionavam; fazia perguntas até pôr as pessoas malucas. Padriac era o único que conseguia quebrar a guarda do pai; por vezes, podia ver-se o fantasma de um sorriso nas feições severas de Colum quando olhava para o filho mais novo. Para mim, não sorria. Ou para Finbar. Finbar dizia que era porque nós lhe lembrávamos a nossa mãe, que morrera. Fôramos nós que herdáramos os seus cabelos encaracolados, selvagens. Eu tinha os olhos verdes dela e Finbar o dom da quietude. Além disso, apenas pelo facto de ter nascido, eu tinha-a matado. Não admira que o pai tivesse dificuldade em olhar para mim. Mas quando falava com Finbar, os olhos dele eram como o Inverno. Houve uma ocasião em particular. Foi pouco antes de ela chegar e as nossas vidas mudaram para sempre. Finbar tinha 15 anos; ainda não era um homem, mas já não era uma criança.

 

O pai tinha mandado chamar-nos e reunimo-nos todos na grande sala. Finbar ficou ao lado da cadeira de Lorde Colum, as costas direitas como uma lança, à espera da inquisição ritual. Liam e Diarmid eram agora homens e, por isso, poupados à tortura. Mas estavam presentes, sabendo que isso nos acalmava.

 

— Finbar. Falei com os teus instrutores.

 

Silêncio. Os grandes olhos cinzentos de Finbar pareciam olhar a direito, através do pai.

— Disseram-me que as tuas habilidades se têm desenvolvido bem. Isso agrada-me.

 

Apesar destas palavras de felicitações, o olhar do pai era frio, o tom distante. Liam olhou de relance para Diarmid e este respondeu-lhe com uma careta, como se dissesse agora é que é.

 

— A tua atitude, no entanto, deixa muito a desejar. Disseram-me que conseguiste estes resultados sem uma grande aplicação de esforço ou interesse e, em particular, que te ausentas com frequência do teu treino, sem razão.

 

Outra pausa. Naquele momento, teria sido boa ideia dizer alguma coisa, só para evitar problemas; «sim, pai» teria sido suficiente. A suprema quietude de Finbar era, só por si, um insulto.

 

— Qual é a tua explicação, rapaz? E não quero nenhum dos teus olhares insolentes, quero uma resposta.

 

O pai inclinou-se para a frente, o seu rosto perto do de Finbar e a expressão no seu rosto fez-me tremer e aproximar de Conor. Era um olhar que aterrorizaria um homem adulto.

— Estás em idade de te juntares aos teus irmãos ao meu lado, pelo menos enquanto eu estiver aqui; e dentro de pouco tempo, no campo de batalha. Mas não há lugar para insolências mudas numa campanha. Um homem tem que aprender a obedecer sem perguntas. Bem, fala! Que respondes a esse comportamento?

 

Mas Finbar não ia responder. Se não tenho nada para dizer, não falo. Eu sabia que as palavras lhe estavam na mente. Agarrei a mão de Conor. Já tínhamos visto a ira do pai antes. Seria loucura atraí-la.

 

— Pai. — Liam deu um passo em frente diplomaticamente. — Talvez...

 

— Chega! — ordenou o pai. — O teu irmão não te pediu que falasses por ele. Ele tem língua e mente próprias, deixa-o usá-las.

 

Finbar parecia perfeitamente calmo. Aparentemente, parecia bastante calmo. Só eu, que partilhava cada exalação dele, que conhecia cada momento de dor ou alegria como se fosse meu, que sentia a tensão que lhe ia na alma, é que compreendia a coragem que lhe era necessária para falar.

 

— Eu dou-te uma resposta — disse ele. O seu tom era calmo. — Aprender a dominar um cavalo e a usar a espada, ou o arco, é uma coisa digna. Eu usaria essas habilidades para me defender, ou à minha irmã, ou para ajudar os meus irmãos em caso de perigo. Mas deves poupar-me às tuas campanhas. Não tomarei parte nelas.

 

O meu pai estava incrédulo demasiado espantado para estar zangado, mas os seus olhos ficaram frios como o gelo. Fosse o que fosse que estava à espera, não esperava uma confrontação daquelas. Liam abriu a boca para falar de novo, mas o pai silenciou-o com um olhar selvagem.

 

— Conta-nos mais — convidou ele polidamente, como um predador encorajando a sua presa para uma doce armadilha. — Estás minimamente consciente das ameaças às nossas terras, à nossa vida aqui? Todas essas coisas te foram ensinadas; viste os meus homens voltarem cheios de sangue das batalhas, viste a devastação que os Bretões fazem em vidas e terra. Os teus próprios irmãos pensam que é uma honra lutar ao lado do pai para que os restantes possam viver em paz e prosperidade. Arriscam as vidas para reconquistar as nossas preciosas Ilhas, roubadas ao nosso povo por esta ralé, há muitos anos. Tens tão pouca fé no juízo deles? Onde é que aprendeste esse disparate doentio? Campanhas?

 

— Limito-me a ver — disse Finbar simplesmente. — Enquanto tu persegues, estação após estação, esse inimigo por terra e por mar, os teus aldeões adoecem, morrem e não têm senhor para quem se virarem a pedir ajuda. Os que têm falta de escrúpulos exploram os fracos. As searas são maltratadas, as manadas e os rebanhos negligenciados. A floresta guarda-nos. Ainda bem, porque, se não, terias perdido a tua casa e o teu povo para os Finnghaill, há muito.

 

O pai deu um longo suspiro. Os seus homens deram um passo atrás.

— Por favor, continua — disse ele numa voz que parecia a da morte. — És perito no que respeita aos Nórdicos, estou a ver.

 

— Talvez — disse Liam.

 

— Silêncio! — desta vez foi um rugido, parando Liam quase antes de a palavra lhe sair da boca. — Este assunto é entre o teu irmão e eu. Atira tudo cá para fora, rapaz! Que outros aspectos da minha administração encontras em falta, na tua grande sabedoria? Não te poupes, já que és tão sincero!

 

— Não chega?

 

Detectei, por fim, um toque de insegurança na voz de Finbar. No fim de contas, não passava de um rapaz.

 

— Tu persegues um inimigo distante antes de pores a tua casa em ordem. Falas dos Bretões como se fossem monstros. Não são homens como nós?

 

— Dificilmente poderás dignificar tal gente com o título de homens — disse o nosso pai, espicaçado pela resposta directa, por fim. — Vêm com pensamentos diabólicos e maneiras bárbaras para nos tirar o que é, por direito, nosso. Gostarias de ver a tua irmã sujeita à selvajaria deles? A tua casa invadida pela imundície deles? Os teus argumentos mostram a tua ignorância dos factos e uma grande lacuna na tua educação. Que rica filosofia a tua, quando se enfrenta de espada na mão um inimigo pronto a atacar. Acorda, rapaz. Lá fora, o mundo é real e os Bretões estão lá com as mãos cheias do sangue da nossa família. É meu dever, e também teu, procurar vingança e reclamar aquilo que nos pertence.

 

O olhar fixo de Finbar nunca deixara o rosto do pai.

 

— Não ignoro isso — disse ele, ainda calmo. — Tanto os Pictos, como os Viquingues, têm perturbado as nossas costas. Deixaram a sua marca nos nossos espíritos, mas não nos destruíram. Reconheço isso. Mas os Bretões também sofreram a perda de terras e vidas com esses ataques. Não sabemos bem quais são os seus propósitos ao atacarem as nossas Ilhas, em manterem esta guerra. Talvez fizéssemos melhor se nos uníssemos com eles contra os nossos inimigos comuns. Mas não: a tua estratégia, tal como a deles, é matar e estropiar sem procurar qualquer resposta.

 

— Com o tempo, perderás os teus filhos, assim como perdeste os teus irmãos, numa perseguição cega a um objectivo mal definido. Para vencer esta guerra, deves falar com o teu adversário. Aprender a compreendê-lo. Se lhe fechas a porta, ele será sempre mais astucioso do que tu. Restará a morte, o sofrimento e muita tristeza no futuro, se seguires esse caminho. Muitos irão contigo, mas tu não estarás no meio deles.

 

As palavras dele eram estranhas; o tom arrepiou-me. Sabia que dizia a verdade.

— Recuso-me a ouvir mais! — trovejou o pai, pondo-se de pé. — Falas como um louco de assuntos que não podes compreender. Estremeço só de pensar que um filho meu possa estar tão mal informado e ser tão presunçoso. Liam!

 

— Sim, pai?

 

— Quero este teu irmão armado para cavalgar connosco na próxima vez que viajarmos para norte. Trata disso. Ele manifesta desejo de compreender o inimigo. Talvez o faça quando testemunhar o primeiro derramamento de sangue.

 

— Sim, pai. — A expressão e o tom de Liam eram neutrais. O seu olhar para Finbar, no entanto, era complacente. Assegurou-se, simplesmente, de que o pai não estava a olhar.

 

— E agora, onde está a minha filha?

 

Avançando com relutância, passei por Finbar e rocei a minha mão na dele. Os seus olhos chispavam ódio, num rosto sem qualquer cor. Fiquei diante do pai, dividida entre sentimentos que mal compreendia. Não era suposto um pai amar os seus filhos? Não percebia ele a coragem que fora necessária a Finbar para falar daquela maneira? Fimbar via as coisas de maneira diferente de nós. O pai devia saber, já que as pessoas diziam que a nossa mãe possuía o mesmo dom. Se ele se tivesse dado ao cuidado, teria sabido. Finbar conseguia ver mais além e dar conselhos que depois eram ignorados perigosamente. Era uma habilidade rara, perigosa e opressiva. Alguns chamavam-lhe Visão.

— Aproxima-te, Sorcha.

 

Eu estava zangada com o pai. No entanto, queria que ele me aceitasse. Queria os seus elogios. Apesar de tudo, não podia evitar o profundo desejo que sentia. Os meus irmãos amavam-me. Porque não me amava o pai? Era no que pensava quando olhei para cima. Para ele, eu devia ser uma figurinha bem patética, magricela e desleixada, os caracóis a caírem-me sobre os olhos num total desalinho.

 

— Onde estão os teus sapatos, criança? — perguntou o pai, cansado. Estava a ficar inquieto.

 

— Não preciso de sapatos, pai — disse eu sem pensar. — Os meus pés são fortes, veja! — E levantei um pé pequeno, sujo, para que ele visse.

 

— Não preciso que uma criatura morra para que eu ande calçada. — Este argumento tinha sido usado com os meus irmãos, até que eles se cansaram e me deixaram andar descalça, já que era o que eu queria.

 

— Qual é o servo que está encarregado desta criança? — disparou o pai, irritado. — Ela já não tem idade para andar para aí como a... a filha de um remendão. Que idade tens, Sorcha? Nove, dez anos?

 

Como era possível ele não saber? Não coincidira o meu nascimento com a perda daquela que ele mais amava neste mundo? Porque a minha mãe morrera num dia de pleno Inverno, quando eu ainda não tinha um dia de vida, e o povo dissera que fora uma sorte que Fat Janis, a nossa cozinheira, tivesse um bebé e leite suficiente para ambos, ou eu também teria morrido. Talvez fosse a razão de sucesso do pai, fechar a memória àquela vida anterior, deixar de contar as noites sozinho, os dias vazios, desde que ela morrera.

 

— Faço 13 no solstício de Inverno, pai — disse eu, esticando-me toda. Talvez, se ele me achasse suficientemente crescida, começasse a falar comigo como deve ser, da mesma maneira como falava com Liam e Diarmid. Ou olhasse para mim com aquele meio sorriso que por vezes lançava a Padriac, que era o mais próximo de mim em idade. Por um instante, os escuros, profundos olhos dele encontraram os meus e eu olhei para ele com um olhar verde arregalado que, mal eu sabia, era a imagem do da minha mãe.

 

— Já chega — disse ele abruptamente e o tom era de despedida. — Tirem estas crianças daqui, temos trabalho para fazer.

 

Virando-nos as costas, ficou rapidamente absorvido por um grande mapa que desdobravam sobre a mesa de carvalho. Apenas Liam e Diarmid podiam ficar; já eram homens e privavam com as estratégias do meu pai. Para nós, acabara. Afastei-me da luz.

 

Porque me lembro tão bem disto? Talvez o desgosto do pai, ao ver no que nos estávamos a transformar, o tivesse feito fazer a escolha que fez e assim provocar uma série de acontecimentos mais terríveis de que algum de nós podia imaginar. Na verdade, ele usou o nosso bem-estar como uma desculpa para a trazer para Sevenwaters. Se isso não tinha qualquer lógica, não interessava, ele deve ter sabido, bem lá no fundo, que Finbar e eu éramos feitos de matéria sólida, totalmente formados mental e espiritualmente, se não praticamente adultos e que, esperar que nos dobrássemos a outra vontade seria como tentar alterar o curso das marés, ou esperar que a floresta deixasse de crescer. Mas ele era influenciado por forças que não compreendia. A minha mãe tê-las-ia reconhecido. Mais tarde, pensava com frequência na minha mãe e como ela sabia tanto sobre o nosso futuro. A Visão nem sempre mostra o que uma pessoa quer ver, mas eu penso que ela deve ter sabido, ao despedir-se de nós, quão estranho e torto seria o caminho percorrido pelos pés dos seus filhos.

 

Assim que o pai nos despediu da sala, Finbar desapareceu, como uma sombra, pelas escadas de pedra acima, a caminho da torre. Quando me voltei para o seguir, Liam piscou-me o olho. Podia ser um guerreiro inexperiente, mas era meu irmão. E recebi um sorriso de Diarmid, mas ele limpou-o do rosto, assim como qualquer expressão, excepto respeito, quando se voltou na direcção do pai.

 

Padriac já devia ter saído; tinha uma coruja ferida nos estábulos e estava a tratar dela. Era espantoso, dizia ele, como aquela tarefa lhe tinha ensinado os princípios do voo. Conor trabalhava com o escriba do meu pai, ajudando-o nalguns cálculos; não o veríamos muito durante algum tempo. Cormack estaria fora, praticando com a espada, ou aprendendo com os oficiais. Eu estava sozinha quando subi os degraus de pedra, nos meus pés descalços, na direcção do quarto da torre. Dali podia-se subir até mais acima, até uma área do telhado de ardósia, com um parapeito baixo em volta, provavelmente insuficiente para amparar uma boa queda, mas que nunca nos impediu de subir por ali. Era um local de histórias, de segredos; para estarmos sós, juntos, em silêncio.

 

Ele estava, como eu esperava, sentado no mais precário declive do telhado, joelhos encolhidos, os braços em volta deles, a expressão ilegível, enquanto olhava sobre as pastagens cercadas, celeiros, vacarias e cabanas, para o cinzento-fumado, verde-aveludado e azul-enevoado da floresta. Não muito longe, as águas do lago cintilavam como prata. A brisa era fria, subindo-me pelas saias acima enquanto eu subia pela ardósia e me sentava ao pé dele. Finbar estava completamente imóvel. Não precisava de olhar para ele para lhe adivinhar a disposição, porque eu estava tão sintonizada com a mente deste irmão como o arco com a corda.

 

Ficámos ali, quietos, durante longo tempo, enquanto o vento brincava com os nossos cabelos e um bando de gaivotas nos passava por cima, chamando-se umas às outras. Vozes vinham até nós de quando em quando, assim como metal a bater contra metal: homens do pai em combate no pátio e Cormack estava entre eles. O pai devia estar satisfeito com ele.

 

Lentamente, Finbar voltou de longe. Os seus dedos longos moveram-se para afastar um fio de cabelo.

 

— Que sabes tu, Sorcha, sobre as terras para lá do mar? — perguntou ele calmamente.

 

— Não muito — disse eu, baralhada. — Liam diz que os mapas não mostram tudo; há lugares que até ele conhece mal. O pai diz que os Bretões são temíveis.

 

— Ele teme o que não pode compreender — disse Finbar. — E o padre Brien e os que são como ele? Vieram de leste, pelo mar, mostrando grande coragem ao fazê-lo. Em devido tempo foram aceites aqui e deram-nos muito. O pai não procura conhecer o adversário ou tentar saber o que ele quer. Apenas vê a ameaça, o insulto e passa a vida inteira a persegui-los, matando e estropiando sem fazer perguntas. E para quê? Pensei naquilo por um bocado.

— Mas tu também não os conheces — arrisquei eu com uma certa lógica. — E não é só o pai a pensar que eles são perigosos. Liam disse que se as campanhas não tivessem sido levadas até ao norte, e até às costas do mar oriental, seríamos invadidos um dia e perderíamos tudo o que temos hoje. Talvez não apenas as Ilhas, mas também Sevenwaters. Os velhos costumes desapareceriam para sempre. É o que ele diz.

 

— De certo modo, é verdade — disse Finbar, surpreendendo-me. — Mas há sempre dois lados em todas as questões. Começa sempre com uma pequena coisa, uma observação fortuita, um gesto ligeiro. E cresce a partir daí. Ambos os lados podem ser injustos. Ambos podem ser cruéis.

 

— Como é que sabes?

 

Finbar não respondeu. A mente dele estava-me vedada; não havia aquela comunhão de pensamentos, a silenciosa troca de imagens que passava de um para o outro frequentemente, mais fácil do que a fala. Pensei durante um bocado, mas não encontrei nada que dizer. Finbar mastigou a ponta dos cabelos longos que usava atados na nuca. Os caracóis escuros, tal como os meus, tinham vontade própria.

 

— Penso que a nossa mãe nos deixou algo — disse ele por fim. — Deixou uma pequena parte dela própria a cada um de nós. Com Liam e Diarmid acontece o mesmo. Isso impede-os de crescerem e ficarem como ele.

Eu sabia o que ele queria dizer sem perceber por completo as suas palavras.

 

— Liam é um chefe — continuou Finbar —, como o pai, mas não exactamente. Liam é equilibrado. Sabe como avaliar um problema. Os homens seriam capazes de morrer por ele. Talvez um dia o venham a fazer. Diarmid é diferente. As pessoas seriam capazes de o seguir até ao fim do mundo só pelo gozo.

 

Pensei naquilo; imaginei Liam a defender-me contra o pai e Diarmid a ensinar-me como apanhar rãs e a deixá-las fugir.

 

— Cormack é um guerreiro — arrisquei. — Mas generoso. E bom. No fim de contas, havia o caso do cão. Um dos cães-lobo cruzara-se com um rafeiro e parira cachorros também cruzados; o pai quis afogá-los a todos, mas Cormack conseguiu salvar uma cadela, uma coisinha magricela e malhada, à qual deu o nome de Linn. A sua bondade foi recompensada pela profunda e inquestionável devoção de que só um cão é capaz.

 

— E depois temos o Padriac.

 

Finbar deitou-se de costas nas ardósias do telhado e fechou os olhos.

— Padriac vai longe — disse ele. Há de ir mais longe do que qualquer um de nós.

 

— Conor é diferente — observei eu, mas não fui capaz de pôr essa diferença em palavras. Havia algo de esquivo naquela diferença.

 

— Conor é um sábio — disse Finbar. — Nós todos gostamos de histórias, mas ele adora-as. A mãe tinha algumas maravilhosas, adivinhas e conceitos estranhos de que se ria, de maneira que nunca sabíamos se falava a sério ou a brincar. Conor recebeu dela esse amor por fantasias. Conor é... é ele.

 

— Como é que te lembras de tudo isso? — perguntei eu, sem saber bem se ele não estaria a inventar aquilo tudo para meu benefício. — Só tinhas três anos quando ela morreu. Um bebé.

 

— Lembro-me — disse Finbar e virou a cabeça para o outro lado. Eu queria que ele continuasse porque estava fascinada por falarmos da minha mãe, que nunca tinha conhecido. Mas ele caíra de novo no silêncio. Estava a ficar tarde; as sombras das grandes árvores alongavam-se sobre a relva, lá em baixo.

 

O silêncio prolongou-se, de modo que pensei que ele tinha adormecido. Mexi os dedos dos pés; estava a ficar frio. Talvez eu precisasse de sapatos.

— E a ti, Finbar? — Mas não precisava de perguntar. Ele era diferente de todos nós. — O que é que ela te deu?

 

Ele virou-se para mim e sorriu, a curva da sua boca transformando-lhe o rosto por completo.

 

— Fé em mim próprio — disse ele simplesmente — Para fazer o que está certo, sem hesitar, custe o que custar.

 

— Hoje custou muito — disse eu, pensando nos olhos frios do pai e no efeito que haviam tido em Finbar.

 

E com o tempo custará muito mais. Não saberia dizer se aquele pensamento veio da minha cabeça ou da do meu irmão. Provocou-me um arrepio na espinha.

 

Depois, ele disse em voz alta:

 

— Quero que não te esqueças, Sorcha. Lembra-te que estarei sempre ao pé de ti, aconteça o que acontecer. É importante. Agora, vamos, está na hora de irmos para baixo.

Quando recordo os anos do nosso crescimento, a coisa mais importante é a árvore, íamos lá com frequência, os sete, em direcção a sul através da floresta, sobre a margem do lago. Quando eu era bebé, Liam, ou Diarmid, carregavam-me aos ombros; assim que comecei a andar, dois dos meus irmãos seguravam-me pelas mãos e arrastavam-me, por vezes balançando-me entre eles com um, dois, três, enquanto os outros corriam à frente na direcção do lago. Quando nos aproximávamos, calávamo-nos. A margem onde o vidoeiro crescia era um local profundamente mágico e as nossas vozes abafavam-se enquanto nos juntávamos na relva em volta dele.

 

Todos nós aceitávamos que este mundo é uma porta para o outro, para o reino dos espíritos, dos sonhos e das Criaturas Encantadas, sem qualquer dúvida. O lugar onde crescíamos estava tão cheio dessa magia que ela fazia parte do nosso dia-a-dia para não dizer que encontrávamos um cada vez que íamos apanhar bagas, ou tirar água do poço e que todos nós conhecíamos alguém que sabia de um amigo de um amigo que se perdera na floresta e desaparecera para sempre; ou se aventurara dentro de um anel de cogumelos, tendo desaparecido por um certo tempo, voltando depois subtilmente mudado. Podiam acontecer coisas estranhas nesses lugares. Podia-se desaparecer durante 50 anos e voltar ainda como rapariga; ou apenas por um instante, pelas contas mortais, e voltar velha e encarquilhada. Estas histórias fascinavam-nos, mas não faziam com que tivéssemos cuidado. Se nos fosse acontecer, acontecia, quer quiséssemos, quer não.

 

O vidoeiro, no entanto, era diferente. Era ele que tinha o espírito dela, da nossa mãe, tendo sido plantado pelos rapazes no dia da morte dela, a seu pedido. Assim que lhes disse o que deviam fazer, Liam e Diarmid, de seis e cinco anos, pegaram nas pás, dirigiram-se ao local descrito por ela, escavaram a turfa macia e plantaram a semente ali, na plana margem relvada, sobre o lago. Com as pequenas e sujas mãos, os mais novos ajudaram a nivelar o solo e a carregarem água. Mais tarde, quando lhes era permitido levarem-me com eles, íamos todos juntos. Foi a primeira vez para mim e depois dessa, duas vezes por ano, no solstício do Verão e no solstício do Inverno, reuníamo-nos ali.

Os herbívoros podiam tê-la comido, ou ter sido arrancada pelos ventos frios de Outono, mas era uma árvore encantada; e no espaço de alguns anos começou a crescer, graciosa na sua austera nudez invernal e na sua prateada e sussurrante beleza estival. Consigo ver agora o local, claramente no meu espírito, nós os sete, sentados de pernas cruzadas sobre a turfa, em volta do vidoeiro, sem nos tocarmos, mas ligados, como se as nossas mãos estivessem enclavinhadas umas nas outras. Éramos mais velhos, então, mas ainda crianças. Eu teria cinco, talvez, Finbar oito. Liam esperara até sermos suficientemente crescidos para compreendermos, antes de nos contar a história.

 

... havia algo de assustador no quarto. O cheiro era diferente, estranho. A nossa nova irmã tinha sido levada, havia sangue e pessoas com rostos receosos que iam e vinham. O rosto da mãe estava muito pálido, enquanto ela permanecia deitada com o cabelo preto espalhado pela almofada. Mas deu-nos a semente e disse-nos, a Diarmid e a mim «Quero que peguem nesta semente e a plantem ao pé do lago. No momento da minha morte ela começará a crescer com uma nova vida. E então, meus filhos, estarei sempre ali convosco e quando estiverdes naquele lugar, sabereis que fazeis parte da grande magia que nos liga a todos. A nossa força vem dessa magia, da terra e do céu, do fogo e da água. Voai alto, nadai profundamente, dai à terra o que ela vos dá...»

 

Ela estava cada vez mais cansada, perdia sangue, mas teve um sorriso para nós os dois e nós tentámos sorrir também através das lágrimas, mal compreendendo o que ela nos dissera, mas sabendo que era importante.

 

— Diarmid — disse ela — olha pelos teus irmãos. Partilha o teu riso com eles. — A voz dela ficou cada vez mais fraca. — Liam, meu filho. Receio que vá ser muito duro para ti durante um certo tempo. Serás o chefe deles e o seu guia e és tão novo para carregar tal fardo.

— Eu consigo fazê-lo — disse eu, retendo as lágrimas. As pessoas moviam-se pelo quarto, um físico murmurando para si próprio e abanando a cabeça, mulheres levando as roupas ensanguentadas e trazendo outras novas e depois alguém tentou fazer-nos sair. Mas a mãe disse não, ainda não, e fê-los sair a todos, por um bocado. Então juntou-nos em volta da cama para nos dizer adeus. O pai estava lá fora. Já nessa altura ele guardava a dor para si próprio.

 

Então, ela falou suavemente a cada um de nós, a voz cada vez mais calma. Os gémeos estavam cada um de cada lado dela, deitados, cada um a imagem do outro, os olhos cinzentos como o céu de Inverno, os cabelos castanhos e brilhantes como uma castanha madura.

 

— Conor, meu coração — disse ela. — Lembras-te dos versos acerca do veado e da águia? — Conor acenou que sim, as pequenas feições muito sérias. — Diz-mos, então — murmurou ela.

 

— Os meus pés pisarão suavemente, como um veado na floresta — disse Conor, as sobrancelhas franzidas devido à concentração. — A minha mente será tão clara como a água do poço sagrado. O meu coração será forte como um grande carvalho. O meu espírito abrir-se-á como as asas de uma águia e voará para longe. Este é o caminho da verdade.

 

— Muito bem — disse ela. — Não te esqueças e ensina-os à tua irmã quando ela for mais velha. Achas que consegues fazê-lo?

Outro solene aceno com a cabeça.

 

— Não é justo! — explodiu Cormack, lágrimas de cólera inundando-lhe o rosto. Colocou os braços em volta do pescoço dela e apertou-a com força. — Não podes morrer! Não quero que morras!

 

Ela afagou-lhe o cabelo e acalmou-o com palavras gentis. Conor moveu-se para pegar na mão do irmão gémeo e Cormack sossegou. Em seguida, Diarmid pegou em Padriac, de maneira que o braço da mãe pudesse rodeá-los a ambos por um momento. Finbar, de pé ao lado da almofada dela, estava tão quieto que quase poderia ter passado despercebido, observando em silêncio enquanto ela deixava ir os filhos, um a um. Virou-se para ele, o último dos rapazes e não disse nada, mas fez-lhe sinal para que lhe tirasse a pedra esculpida que trazia ao pescoço e a pusesse no seu. Ele pouco mais era do que um bebé o cordão desceu-lhe até à cintura. Fechou a mão em torno do amuleto. Com ele, ela não necessitava de palavras.

 

— A minha filha — murmurou ela por fim. — Onde está a minha Sorcha?

 

Eu saí para perguntar, Fat Janis entrou e depositou a recém-nascida nos braços da mãe, agora já tão fraca que mal conseguia segurar na pequena trouxa de lã. Finbar aproximou-se, as pequenas mãos ajudando a mãe a segurar na frágil carga.

 

— A minha filha será forte — disse a mãe. — A magia, nela, é poderosa, assim como em todos vós. Sede verdadeiros para vós próprios e para cada um de vós, meus filhos. — Deixou-se cair para trás, por fim, os olhos fechados e nós saímos silenciosamente, não testemunhando o momento da morte. Pusemos a semente no solo, a árvore tomou forma e começou a crescer. Ela foi-se, mas a árvore vive e através dela a mãe dá-nos a sua força, que é a força de todas as coisas vivas

 

O meu pai tinha tantos aliados como inimigos. A parte norte do país era uma manta de retalhos de túaths como a dele, algumas maiores, a maior parte bastante mais pequena, cada uma pertença do seu lorde, numas tréguas precárias com alguns vizinhos. Muito a Sul, em Tara, morava o Rei supremo e a sua consorte, mas no isolamento de Sevenwaters não éramos tocados pela sua autoridade, nem ele, parecia preocupado, pelas nossas rixas locais. As alianças eram feitas à mesa do concelho, reforçadas por casamentos, frequentemente quebradas devido a disputas sobre gado ou fronteiras. Havia muitas pilhagens e guerras, mas não contra os nossos vizinhos, que respeitavam muito o meu pai. Havia, sim, um vago acordo entre eles que os unia contra os Bretões, Pictos e Nórdicos, visto que todos eles nos ameaçavam as costas com as suas línguas estranhas e modos bárbaros. Mas especialmente contra os Bretões, que haviam feito o impensável e escaparam sem castigo.

 

Apercebia-me de que, por vezes, havia prisioneiros, mas estes eram hermeticamente fechados e guardados severamente e nenhum dos meus irmãos falava deles. Nem sequer Finbar. O que era estranho, porque, geralmente, ele mantinha a mente aberta para mim e os meus pensamentos nunca se fechavam para ele. conhecia os seus medos e alegrias; sentia, com ele, os espaços iluminados pelo sol e as profundezas escuras e místicas da nossa floresta, o bater do coração da deusa nas veredas raiadas de luz e na frescura da Primavera. Mas havia uma parte que ele me escondia. Talvez, já então, ele me quisesse proteger. Assim, os prisioneiros eram um mistério para mim. A nossa casa era um local de altas figuras vestidas de armaduras, bruscas trocas, chegadas e partidas precipitadas. Mesmo quando o meu pai estava ausente, o que acontecia durante a maior parte do ano, deixava uma forte guarnição com um mestre-de-armas, Donal, que controlava tudo com mão-de-ferro.

Essa era uma parte da casa; a outra, a mais doméstica, era secundária. Os servos que tínhamos faziam as suas tarefas com suficiente eficiência e o povo da aldeia fazia a sua parte, porque havia sempre paredes de pedra para reparar e telhados para arranjar, havia o moinho e a vacaria. As manadas tinham que ser levadas para as terras altas no Verão, para tirar vantagem das pastagens, os pastores de porcos tinham que levar as suas intratáveis varas para os bosques e as mulheres tinham que fiar e tecer. O nosso camareiro adoeceu com uma sezão e morreu; e depois disso Conor tomou conta da bolsa, e das contas, enquanto o pai estava fora. Subtilmente, começou a assumir a autoridade da casa; mesmo aos 16 anos, tinha uma sobriedade perspicaz que desmentia a idade e que parecia inspirar confiança, mesmo entre os rudes soldados. Tornou-se claro, para todos, que Conor não era um mero escriba. Na ausência do pai, começaram a ocorrer mudanças sem qualquer obstrução; provisões antecipadas de turfa seca para os aldeões, prevendo o Inverno, um quarto tranquilo só para mim, com uma mulher para me ajudar e levar poções aos doentes. Quando os duendes apanharam o marido de Maclge Smallfoot e ele se afogou numa longa queda das rochas para o lago (é por isso que a queda se chama Smallfoot), foi Conor que arranjou maneira de Madge vir trabalhar para nós, amassando farinha e depenando galinhas na cozinha. Eram coisas pequenas, mas já era um começo.

 

Finbar não foi na campanha de Outono desse ano. Apesar das ordens do pai, foram Liam, Diarmid e, para sua alegria, o jovem Cormack, que partiram abruptamente numa brilhante e fresca manhã. A chamada às armas foi inesperada e madrugadora. Extraordinariamente, tínhamos hóspedes: o nosso mais próximo vizinho, Seamus Redbeard de Glencarnagh e vários membros da sua casa. Seamus era um dos de confiança, o melhor aliado do meu pai. Mas mesmo ele não entrou na floresta sem uma escolta de homens do meu pai, que se encontrou com ele na fronteira e o acompanhou até à segurança de Sevenwaters.

 

Seamus trouxera a sua filha, que tinha 15 anos e que tinha uma juba da mesma cor surpreendente da do pai. As suas madeixas de cabelo podiam ser ardentes, mas Eilis era uma rapariga sossegada, rechonchuda e de bochechas coradas; de facto, achei-a bastante maçadora, comparada com os meus irmãos. Os nossos hóspedes já estavam connosco há dez dias, mais ou menos, e como Eilis nunca queria subir às árvores, ou nadar no lago, ou até ajudar-me a fazer cerveja, ou compotas, depressa me cansei da companhia dela e deixei-a sozinha. Estava espantada como os rapazes se interessavam tanto por ela, visto que a sua conversação, quando dizia alguma coisa, não tinha qualquer interesse, era superficial. E isso deveria tirar-lhes o interesse. No entanto, Liam, Diarmid e Cormack podiam ser vistos a escoltá-la pacientemente em volta do castelo e no jardim, curvando-se, com aparente fascinação, tentando apanhar qualquer palavra que ela dissesse, pegando-lhe na mão para a ajudar a descer degraus que eu teria transposto com dois saltos.

 

Era estranho e mais estranho ficou se bem que o mais estranho fosse o tempo que demorei a entender o que estava a acontecer. Após os primeiros dias, Eilis submeteu-se a Liam e não o largou mais. Ele, que a mim me parecia sempre o mais ocupado, tinha sempre tempo para ela. Detectei algo de novo no rosto dele, agora já com os traços rudes de um homem adulto. Era um aviso para que os seus irmãos se afastassem; e eles obedeceram. Eilis ia passear para os bosques com Liam, quando não ia comigo. Com um ar muito inocente, quando à mesa, pressentia quando os olhos escuros de Liam se fixavam nela de outro lado do salão barulhento; levantava os olhos timidamente, olhava para ele por um instante e corava atraentemente, antes de as longas pestanas cobrirem de novo os olhos azuis. Mas eu continuei ignorante até à noite em que o meu pai deu um murro na mesa, pedindo silêncio.

 

— Meus amigos! Meus bons vizinhos!

 

O silêncio estabeleceu-se entre os hóspedes reunidos; taças a caminho da boca fizeram uma pausa e eu pressenti uma certa expectativa, como se toda a gente soubesse o que o pai ia dizer, excepto eu.

 

— É bom, nestes tempos conturbados, divertirmo-nos, beber, rir e partilhar os feitos das nossas pastagens. Em breve, na lua cheia, vamos aventurar-nos de novo, desta vez para, talvez, fazermos com que as nossas costas fiquem salvas de uma vez por todas.

Uns tantos assobios e gritos de aclamação aqui e ali, mas toda a gente esperava algo mais.

 

— Entretanto, sois bem-vindos ao meu salão. Há muito tempo que não dávamos aqui uma festa.

 

Ficou carrancudo por um momento. Seamus Redbeard inclinou-se para a frente, o rosto corado.

 

— És um óptimo anfitrião, Colum e que ninguém se atreva a dizer o contrário — pronunciou ele, a fala sofrendo um pouco com a qualidade da nossa cerveja. Eilis estava corada e olhava para baixo, para o prato. Pelo canto do olho vi Cormack a alimentar a sua cadela, Linn, que se tinha infiltrado para debaixo da mesa, com bocados de carne. Ele segurava entre os dedos, casualmente, um bocado de carne de vaca, ou de galinha e um instante mais tarde o grande focinho peludo aparecia e desaparecia, enquanto Cormack descansava a mão vazia na beira da mesa, fixando o olhar cuidadosamente num ponto qualquer e mostrando um pouco as covinhas do rosto.

 

— E assim exorto-vos, bebei ao feliz casal! Que esta união seja longa e frutuosa e que seja um sinal de amizade e paz entre vizinhos.

Eu tinha perdido qualquer coisa; Liam estava em pé, pálido mas incapaz de manter o sorriso ausente do rosto habitualmente severo e no momento seguinte pegava na mão de Eilis e eu finalmente vi a maneira como eles se olhavam e soube porque era.

 

— Casado? Liam? — disse eu para ninguém em particular. — Com ela? — Mas todos se riam, aplaudiam e até o meu pai parecia quase feliz. Vi o velho eremita, o padre Brien, a falar calmamente com Liam e Eilis no meio da multidão. Apertando a dor contra mim própria, saí do salão, para longe das tochas, das velas e do barulho, para a quietude do quarto que era só meu. Mas não para trabalhar; sentei-me no grande parapeito da janela com um simples toco de vela como companhia e fiquei a olhar para a escuridão da horta. Havia no céu uma lasca de lua e umas estrelas no escuro; lentamente, as formas familiares da horta começaram a revelar-se, se bem que eu as conhecesse tão bem que era capaz de as distinguir na escuridão: o suave azul-esverdeado do absinto, que repelia os insectos; as pontas amarelas da exuberante tanásia, a alfazema cinzenta delicada com os seus espinhos brilhantes roxos e azuis, as ásperas paredes de pedra cobertas de suave musgo, onde florescia uma velha trepadeira. Havia muitas mais; por trás de mim, em prateleiras, os seus óleos e essências brilhavam em frascos, potes ou cadinhos de barro, para curas ou paliativos; as suas flores e folhas secas suspensas sobre a minha cabeça, em molhos ordenados. Um odor curativo delicado pairava no ar calmo. Respirei fundo várias vezes. Estava muito frio; a velha capa que eu deixara num gancho atrás da porta ajudou-me, mas o frio chegava-me aos ossos. O melhor do Verão tinha acabado.

 

Devo ter ficado ali sentada durante muito tempo, já que me sentia gelada, mesmo no meio do conforto das minhas coisas. Era o fim de qualquer coisa e eu não queria que essa coisa acabasse. Mas não havia nada a fazer. Era impossível não chorar. As lágrimas deslizaram-me silenciosamente pelo rosto e não fiz qualquer esforço para as limpar. Após um certo tempo, soaram passos nas lajes, no lado de fora e alguém bateu levemente à porta. Era evidente que tinha de ser um deles. Éramos tão chegados, os sete, que nenhuma ferida infantil passava despercebida, nenhuma ofensa, real ou imaginária, ficava por saldar, nenhuma dor era sofrida sem conforto.

 

— Sorcha, posso entrar?

Pensei que seria Conor; mas era o meu segundo irmão, Diarmid, que se curvou sob o lintel e entrou, dispondo o seu longo esqueleto num banco perto da minha janela. A chama vacilante da vela mostrou-me o seu rosto em contrastes de sombra e luz; magro, de nariz direito, uma versão mais nova de Liam, excepto a boca mais cheia, sempre pronta a rasgar-se num sorriso cruel. Mas, de momento, estava sério.

 

— Devias voltar — disse ele, num tom que me fez sentir que se estava nas tintas para as delicadezas. — A tua ausência foi notada.

 

Engoli em seco e esfreguei as faces com uma ponta da velha capa. Sentia-me mais zangada do que magoada.

 

— Porque é que as coisas têm que mudar? — perguntei eu de mau humor. — Porque é que não podemos continuar como estávamos? Liam era feliz antes, ele não precisa dela.

 

Felizmente, Diarmid não se riu de mim. Estendeu as pernas ao longo do soalho, aparentemente absorvido em profundos pensamentos.

 

— Liam, agora, é um homem — disse ele após um certo tempo. — Os homens casam-se, Sorcha. Vai ter responsabilidades, uma esposa pode partilhá-las com ele.

— Ele tem-nos a nós — disse eu, furiosa. Então, Diarmid sorriu, mostrando uma série de covinhas que rivalizavam com as de Cormack em encanto. Fizeram-me pensar porque não o escolhera Eilis, em vez do sério Liam.

 

— Ouve o que eu te digo, Sorcha. Seja o que for que sejamos, ou façamos, nós os sete nunca nos separaremos. Seremos sempre um todo. Mas estamos a crescer; e as pessoas crescidas casam-se, mudam-se e deixam outras pessoas entrarem nas suas vidas. Até tu farás isso um dia.

 

— Eu? — Fiquei aterrorizada.

 

— Tens obrigação de saber isso. — Ele aproximou-se de mim, pegou-me na mão e eu reparei que a dele era grande e áspera, a mão de um homem. Ele estava com 17 anos. — O pai já está a planear o teu casamento, dentro de alguns anos e tu terás que te ir embora daqui e viver com a família do teu marido. Nem todos ficaremos aqui.

 

— Ir embora? Eu nunca me hei-de ir embora de Sevenwaters! Esta é a minha casa! Prefiro morrer a ir-me embora daqui!

 

Os meus olhos ficaram, de novo, rasos de água. Sabia que estava a ser tola; não era tão ignorante que não soubesse o que eram casamentos e alianças e o que as pessoas esperavam desses dois acontecimentos. Simplesmente, a súbita notícia dos esponsais de Liam chocara-me; o meu mundo estava a mudar e eu não estava preparada para isso.

 

— As coisas mudam, Sorcha — disse Diarmid sombriamente. — E nem sempre como nós queremos. Nem todos nós desejávamos que Eilis fosse para Liam; mas aconteceu e temos que o aceitar.

 

— De qualquer maneira, porque é que ele quer casar com ela? — perguntei infantilmente. — Ela é tão chata!

 

— Liam é um homem — disse Diarmid asperamente, pondo de lado, obviamente, as suas próprias penas. — E ela é uma mulher. O casamento deles foi arranjado há um certo tempo atrás. Têm sorte por se quererem um ao outro, apesar de nunca se terem visto antes. Ela será uma boa esposa para ele.

 

— Eu nunca hei-de ter um marido arranjado — disse eu veementemente. — Nunca. Como é que se pode passar uma vida inteira com alguém que se odeia, ou com quem não se pode falar? Prefiro não me casar.

 

— E ser uma velha sábia entre as tuas bebidas e poções? — sorriu, irónico, o meu irmão. — Bem, és suficientemente feia para isso. De facto, parece-me que já vejo as rugas a aparecerem, avozinha!

Dei-lhe uma palmada no braço, mas também sorri. Ele deu-me um abraço rápido, suficientemente forte para me impedir de chorar de novo.

 

— Vamos — disse ele. — Lava a cara, penteia-te e vamos outra vez para a festa. Liam vai ficar preocupado se ficas fora a noite toda. Ele precisa da tua aprovação. Portanto, é melhor fazeres boa cara!

 

Não dancei durante os esponsais, mas andei por ali entre as pessoas, beijei as faces rosadas de Eilis e disse a Liam que estava feliz por ele. Os meus olhos vermelhos devem ter traído os meus verdadeiros sentimentos, mas no meio do fumo, da luz das tochas e de uma certa quantidade de cerveja a que não estava habituado, Liam não pareceu reparar. Os outros, observavam-me; Diarmid, amável, trazendo-me um pouco de hidromel, assegurando-se de que eu não ficava só durante muito tempo; Connor pouco severo, como se compreendesse demasiado bem os meus pensamentos egoístas. Padriac e Cormack tiravam o melhor partido possível desta rara visita de tantas mulheres, dançando com as mais bonitas damas-de-companhia de Eilis; a julgar pelos risinhos e pestanejares, a juventude dos meus irmãos não era impedimento à sua popularidade. Finbar estava num debate profundo com um velho guerreiro grisalho, um dos da casa de Redbeard.

 

O meu pai estava descontraído; há muito tempo que não o via assim. Abrir a sua casa a convidados fora uma provação, mas necessária, no interesse de uma aliança estratégica com o seu vizinho. O pai tinha notado o meu regresso e quando me tornei útil, conversando com a mais velha das damas-de-companhia de Eilis, até me fez um sinal de contentamento com a cabeça. Era claro, pensei amargamente, que uma filha como Eilis era exactamente o que ele queria, dócil, suave, uma coisa fofa sem vontade própria. Bem, eu podia fazer de conta esta noite, por amor a Liam, mas era bom que ele não pensasse que ia continuar assim.

A noite continuou; o hidromel e a cerveja continuaram a correr, os pratos de comida iam e vinham. Tudo do melhor: porco assado, pão de trigo, frutos com especiarias e queijo de ovelha aveludado. E também a música e a dança os músicos tinham vindo da casa de Seamus e compensavam com vigor o que lhes faltava em subtileza. O que tocava bodhran tinha braços de ferreiro e o da gaita-de-foles gostava muito de hidromel. Tal era o barulho dos pés a baterem no chão, assobios e aplausos, que só alguns minutos antes da agitação na porta grande, provocada pelo choque de metal contra metal e gritos, chegou aos ouvidos dos nossos hóspedes. Lentamente, o som da pândega foi morrendo e a multidão abriu-se para receber um pequeno bando dos homens do meu pai, ainda vestidos de armaduras e com as espadas nuas. Aproximaram-se da cadeira dele, arrastando, entre eles, um cativo, cujo rosto não pude ver, mas cujo cabelo, seguro por um enorme punho, apanhou os raios de luz dos archotes, brilhando como ondas de ouro.

 

— Lorde Colum! — rugiu o comandante. — Lamento perturbar as tuas festividades.

 

— De facto — respondeu o meu pai no seu tom mais gelado. — O teu assunto deve ser muito urgente, para tal intrusão. Que pretendes? Tenho hóspedes.

 

Estava descontente com a interrupção; mas, ao mesmo tempo, levou a mão à bainha da espada. Lorde Colum conhecia bem os seus homens; não arriscariam a sua ira por uma coisa insignificante. Havia nele uma vigilância permanente, o que sugeria um profissional. A seu lado, Seamus Redbeard estava afundado na sua cadeira, sorrindo beatificamente para nada em particular. Devia ter bebido generosamente, mas o seu anfitrião estava sóbrio.

 

— Um prisioneiro, meu senhor, como vês. Encontrámo-lo na orla norte do lago, sozinho; mas deve haver mais por perto. Não me parece um mercenário, Lorde Colum.

Houve um movimento violento e a voz do soldado foi cortada pelos safanões do prisioneiro, tentando libertar-se dos braços que o prendiam. As pessoas aproximaram-se para poderem ver melhor, mas a única coisa que vi através dos corpos foi o brilhante cabelo dourado, o grande punho do homem que o segurava pelo cabelo e o modo como o prisioneiro se comportava, como se fosse ele a única pessoa, no mundo, que importasse.

 

Deslizei por baixo de uns tantos braços, puxei para trás um grupo de raparigas que murmuravam umas com as outras e subi para o grande banco de pedra que rodeava o grande salão. A seguir um outro passo precário para a borda de um pilar e fiquei com uma visão desimpedida sobre as cabeças da multidão. A primeira coisa que vi foi Finbar, num local idêntico ao meu, no outro lado. O seu olhar passou por mim e prendeu-se no prisioneiro.

 

O rosto deste estava bastante ferido; o nariz sangrara e os brilhantes caracóis, após uma inspecção mais pormenorizada, caíam-lhe sobre a testa, cheios de suor e sangue. Por trás deles, os olhos brilhavam como brasas enquanto os fixava no meu pai. Era jovem, estava ferido e destilava ódio. Era o primeiro bretão que eu jamais vira.

 

— Quem és tu e o que te traz aqui? — perguntou o meu pai. — Fala, porque o silêncio não será bom para ti, prometo-te. Para os da tua espécie, só desejamos a morte, porque sabemos bem quais são as vossas intenções. Quem te mandou aqui?

 

O jovem endireitou-se, agitando-se furiosamente contra as cordas que lhe atavam as mãos atrás das costas. Cuspiu violentamente e com perfeita pontaria nos pés do pai. Instantaneamente, um dos captores apertou ainda mais as cordas, torcendo-lhe os braços com força, enquanto o outro lhe assentava um murro na cara, deixando-lhe uma marca vermelha na boca e na face. O ressentimento e a fúria irradiavam dos olhos do jovem, mas cerrou a boca e manteve-se silencioso. O pai pôs-se de pé.

 

— Esta exibição não é própria para senhoras e não deve ter lugar neste salão de festa — disse ele. — Talvez seja tempo de todos se retirarem. — Percorreu o salão com um olhar de despedida, arranjando maneira, naquele breve instante, de agradecer e desejar boa viagem aos seus hóspedes. — Homens, mantende-vos prontos para partirmos rapidamente. Parece que o nosso empreendimento não pode esperar até à lua cheia. Entretanto, vamos ver o que é que este visitante indesejável tem para nos dizer; que os meus capitães venham até mim e que todos os outros se retirem. Meus convidados, lamento que isto acabe com a nossa festa.

 

Toda a casa, num instante, se tornou num acampamento. Apareceram servos; frascos, copos e tabuleiros desapareceram. Eilis e as suas damas-de- companhia desapareceram rapidamente na direcção dos seus aposentos, seguidas pouco depois por Seamus e em breve restavam apenas o pai e uma mão-cheia dos seus homens de confiança. Algures no meio daquilo tudo o prisioneiro era arrastado para fora do salão, ainda silencioso, o rosto vermelho de raiva. Se algumas instruções foram dadas aos seus guardas, não me apercebi delas.

 

E no salão obscurecido, Finbar e eu, cada um no seu lado do salão, escondidos pelas sombras, como tão bem o sabíamos fazer. Não podia explicar porque ficara, mas o padrão que daria forma aos nossos destinos já se estava a formar, sem eu o saber.

 

... já aqui, tão perto; isto quer dizer que eles sabem o suficiente das nossas posições para poderem ameaçar...

... erradicá-los, mas rapidamente, antes que as informações...

 

— É imperativo que ele fale. — Era a voz do pai, autoritária. — Dizei-lhes isso. E tem que ser esta noite, porque a rapidez é essencial. Partimos de madrugada. Dizei aos vossos homens que durmam enquanto podem e depois tende tudo pronto. — Virou-se para um dos homens mais velhos. — Tu supervisionarás o interrogatório. E cuida de que ele seja mantido vivo. Um prisioneiro destes pode ser valioso como refém depois de ter prestado contas. Não há dúvida de que não é um soldado vulgar. Pode, até, ser da família de Northwoods. Diz-lhes que vão com cuidado.

 

O homem acenou com a cabeça e saiu do salão, enquanto os outros regressaram aos planos de ataque. Senti uma certa pena de Liam, ainda agora ficara noivo e já ia partir em campanha. Talvez a vida fosse assim para um homem, mas não era justo.

 

— Sorcha! — Um sussurro por trás de mim fez-me gritar, assustada, e revelar o meu esconderijo. Finbar puxou-me pela manga, arrastando-me, silenciosamente, lá para fora, para o pátio.

 

— Não me assustes assim! — sibilei eu. Os dedos dele nos meus lábios silenciaram-me rapidamente e só quando chegámos à esquina e ele viu, cuidadosamente, que ninguém estava por perto, é que falou.

 

— Preciso que me ajudes — sussurrou ele. — Não te queria pedi-lo, mas não posso fazer isto sozinho.

 

— Fazer o quê? — O meu interesse despertou imediatamente, se bem que não fizesse a mínima ideia do que ele estava a falar.

 

— Não podemos fazer muito agora — disse ele — mas talvez consigamos libertá-lo de manhã, se me deres o que eu preciso.

 

— O quê? — perguntei eu. — O que queres dizer?

 

— Veneno — disse Finbar. Conduzia-me rapidamente através das arcadas, para os jardins. Ambos tínhamos a habilidade de nos movermos rápida e silenciosamente em qualquer tipo de terreno. Resultado de crescermos meio selvagens. De facto, tínhamos uma grande variedade de capacidades invulgares.

 

Assim que chegámos ao meu quarto e as portas exterior e interior foram fechadas, fiz Finbar sentar-se e explicar-se. Ele não queria; o seu rosto tinha aquela expressão de teimosia que punha por vezes, quando a verdade era dolorosa, ou nociva, mas que tinha de ser dita. Uma das coisas que nunca tínhamos aprendido era a capacidade de mentir.

 

— Vais ter que te explicar — disse eu. — Não podes dizer apenas veneno e calares-te a seguir. De qualquer maneira, eu posso dizer-te em que estás a pensar. Já tenho 12 anos e meio, Finbar; tenho idade suficiente para poderes ter confiança em mim.

 

— Eu confio em ti, Sorcha. Não é isso. É que, se me ajudares, arriscas-te e além disso, é... — Começou a torcer as pontas dos cabelos com os dedos, de novo. Calara-se, mas eu estava sintonizada com os pensamentos dele e, por um momento, ele esquecera-se de os esconder. Na escuridão do quarto silencioso apanhei um aterrador vislumbre de um braseiro incandescente, mutilações, carne queimada e ouvi os gritos de um homem. Recuei bruscamente, tremendo. Os nossos olhos encontraram-se no horror da visão comum.

 

— Que espécie de veneno? — perguntei insegura, as minhas mãos desajeitadamente procurando uma mecha para acender uma vela.

 

— Não é para matar. Uma gota suficientemente forte para pôr um homem a dormir até de manhã. O suficiente para quatro homens; e que não saiba mal, de maneira a que possa ser deitado numa caneca de cerveja e não se note. Eu preciso dele antes de o Sol se levantar, Sorcha. Eles tomam o pequeno-almoço cedo e a guarda muda antes do meio da manhã. É pouco tempo. Sabes como fazer tal poção?

 

No escuro, acenei que sim com relutância. Não precisávamos de nos ver um ao outro, bastava que as nossas mentes estivessem em contacto, para nos compreendermos.

 

— Vais ter que me dizer — disse eu lentamente. — Diz-me porque é isto. É ele, não é? Aquele prisioneiro?

A vela cintilou e eu cobri-a com a mão. Era muito tarde, já passava da meia-noite, mas lá fora ouviam-se sons de actividade, cavalos a serem ajaezados, armas afiadas, provisões carregadas; já se preparavam para partir de madrugada.

 

— Tu viste-o — disse Finbar com uma intensidade calma. — É apenas um rapaz.

 

— Era mais velho do que tu — não resisti a alvitrar. — Pelo menos 16 anos, pareceu-me.

 

— Com idade suficiente para morrer por uma causa — disse o meu irmão e eu senti como ele estava retesado, como a sua determinação para fazer o que estava certo o guiava. Se Finbar pudesse mudar o mundo com o esforço da sua vontade, fá-lo-ia.

 

— O que é que tu queres que eu faça? Que ponha aquele bretão a dormir?

 

À luz velada da vela procurava nas prateleiras; o pacote que eu queria estava bem escondido.

— Ele manteve a boca fechada. E vai continuar assim, se o julguei bem. Isso vai-lhe custar muito. Bretão ou não, merece uma possibilidade de liberdade — disse Finbar sobriamente. — A tua poção pode-lhe comprar isso. Não lhe podemos evitar a dor; é demasiado tarde para isso.

 

— Que dor? — Talvez eu soubesse a resposta à minha própria pergunta, mas a minha mente recusava-se a juntar as pistas que me haviam sido dadas, recusava-se a aceitar o inaceitável.

 

— A poção é para os guardas. — Finbar falou relutantemente. Manifestamente, queria que eu soubesse o menos possível. — Prepara-a; eu faço o resto.

 

As minhas mãos encontraram o pacote quase automaticamente: a erva-moira, usada moderadamente e bem misturada com certas ervas, produziria um sono ligeiro com poucos efeitos secundários. O truque era fazer a dose exacta; um pouco mais e a vítima poderia nunca mais acordar. Fiquei quieta, as bagas secas sobre a laje de pedra à minha frente.

 

— O que é? — perguntou Finbar. — Porque é que estás a hesitar? Sorcha, eu preciso de saber se fazes isso, ou não. E tenho que ir. Há outros assuntos a tratar.

 

Ele já estava em pé, morto por se ir embora, a mente trabalhando já na página seguinte da sua estratégia.

— O que é que eles lhe vão fazer, Finbar? De certeza que não, de certeza que não é o que vi há bocado, naquela visão que me pôs doente.

 

— Ouviste o pai. Ele disse, mantenham-no vivo. Deixa, que eu preocupo- me com isso, Sorcha. Faz a poção. Por favor.

 

— Mas como é que o pai...

 

— É fácil — disse Finbar. — Vem com o treino; a faculdade de ver o inimigo como algo que não um homem verdadeiro. É de uma raça inferior, definida pelas crenças, aprende-se a fazer com ele o que se quer e a dobrá-lo segundo os propósitos. — Ele sentiu o meu horror. — Não te preocupes, Sorcha — disse ele. — Nós podemos salvar este, tu e eu. Faz o que eu te peço e deixa o resto comigo.

 

— O que é que tu vais fazer? E se o pai descobre?

 

— Perguntas a mais! Não nos resta muito tempo. Podes fazer o que te pedi?

Virei-me para olhar para ele, os braços em volta do peito. Na verdade, eu estava toda a tremer e não era de frio.

 

— Eu sei que não mentes, Fimbar. Não tenho escolha senão acreditar no que me disseste. Mas eu nunca envenenei ninguém. Sou uma curandeira.

 

Olhei-lhe para o rosto silencioso, para a boca larga e móvel, para os olhos cinzentos-claros que pareciam sempre virados para um futuro de poucas incertezas.

 

— Acontece — disse ele calmamente. — Faz parte da guerra. Por vezes, falam. Por vezes, ficam calados. Frequentemente, morrem. Só ocasionalmente escapam.

 

— É melhor ires fazer o que tens a fazer — disse eu, numa voz que parecia a de outra pessoa. As minhas mãos procuraram uma faca afiada e comecei automaticamente a partir e a cortar os ingredientes da minha poção do sono. Meimendro. Touca-de-bruxa. O pequeno fungo azul a que alguns chamam os ovos-do-diabo. Erva-moira em pequena quantidade. — Vai-te embora, Finbar.

 

— Obrigado — disse ele com um relâmpago daquele sorriso, aquele generoso sorriso, que lhe iluminou o rosto todo. — Nós fazemos uma boa equipa. Uma equipa à prova de tudo. Como é que podemos falhar?

Abraçou-me por um momento, o suficiente para lhe sentir a tensão do corpo, o rápido bater do coração. Depois desapareceu, deslizando pelas sombras como um gato.

 

Foi uma longa noite. Consciente de que o menor erro podia fazer de mim uma assassina, mantive-me alerta e antes da alvorada a poção do sono estava pronta, rolhada com segurança num pequeno frasco de pedra, convenientemente pequeno para se poder esconder na palma da mão e o quarto estava imaculadamente limpo, os traços da minha actividade desaparecidos. Finbar veio ter comigo quando o tinir dos arreios e o som de apressados pés calçados aumentou lá fora.

 

— Acho que também devias fazer esta parte — sussurrou ele. — Eles mal darão por ti. — Lembrei-me, vagamente, de que era suposto ele juntar-se à campanha, desta vez. Não o decretara o pai? Mas então já eu estava demasiado ocupada para pensar, deslizando silenciosamente na direcção das cozinhas sob as instruções sussurradas pelo meu irmão, movendo-me por trás de e entre servos e homens de armas que deitavam a mão a um último bocado de comida, preparavam sacos com provisões, enchiam frascos com vinho e água.

 

— Fat Janis — dissera Finbar —, vai para onde Fat Janis tem o pote de ferro dela sobre o fogão. Se eles trabalharam de noite, ela levar-lhes-á, logo de manhã, cerveja quente. Fabrico especial dela. Eles dizem que tem alguns efeitos secundários interessantes. É ela que a leva pessoalmente; e talvez ganhe algum favor em troca.

 

— Que espécie de favor? — perguntei-lhe eu.

— Não interessa — disse Finbar. — Assegura-te apenas de que ela não te vê.

 

Havia duas coisas em que eu era boa. Uma era as poções e venenos e a outra era ficar calada e invisível quando me convinha. Não seria difícil acrescentar a poção à cerveja quente; Janis virou as costas por um instante, rindo-se de uma piada do homem de armas mais alto enquanto ele metia na boca um último bocado de salsicha e se encaminhava para a porta, afivelando o cinto da espada enquanto caminhava. Eu já tinha acabado e desaparecido antes de ela se voltar de novo. Nunca me chegou a ver. Fácil, pensei, enquanto deslizava na direcção da porta. Devia haver ali 15 pessoas, mas nenhuma me viu. Já estava quase lá fora quando algo me fez olhar para trás. Do outro lado da cozinha, olhando directamente para mim, estava o meu irmão Conor. Estava de pé, no canto mais longínquo, meio na sombra, um rol qualquer numa mão e uma pena na outra. O seu ajudante, de costas voltadas, empacotava provisões num saco de sela. Fiquei gelada com o choque: de onde ele estava, o meu irmão devia ter visto tudo. Como é que eu não o tinha visto? Paralisada entre o instinto de procurar um esconderijo e o chamamento inevitável, hesitei na soleira. Mas Conor baixou o olhar para a sua escrita e continuou com o rol, como se eu fosse invisível. Eu estava demasiado aliviada para me preocupar com uma possível explicação e fugi como um coelho assustado, com os nervos em franja. Finbar não estava à vista. Dirigi-me para o buraco mais seguro de que me lembrava, o velho estábulo, onde o meu irmão mais novo, Padriac, guardava a sua colecção de objectos e animais. Ali, encontrei um canto quente entre a palha e a velha burra, que se afastou, resmungando, quando a empurrei para arranjar lugar. Cheia de fome e frio, confusa e exausta, adormeci.