A Filha da Floresta

Juliet Marillier · Capítulo 6 de 17

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A Filha da Floresta

Capítulo Cinco

 

A Dama da Floresta escolhera bem o nosso refúgio. Ficava perto da margem norte do lago, num local onde a curva de um pequeno promontório arborizado abrigava da vista uma pequeníssima baía. No local onde a terra se elevava a partir daquela baía havia uma caverna que devia tanto a uma engenharia astuta como à natureza. Apesar de estar muito próxima da margem, nodosas sorveiras-bravas e pendentes trepadeiras escondiam-na completamente da vista, de maneira que ficaria invisível de qualquer pista ou caminho público. Um pouco mais longe, no alto da encosta, numa pequena clareira, havia uma pequena nascente e ali as ervas cresciam meio selvagens, no local onde haviam sido cultivadas por um vagabundo qualquer, como eu. E ao longo de leito da corrente, até ao lago, cresciam os grandes caules e as folhas leves da morugem. Esta planta não morre no Inverno, permanecendo verde sob o frio mais intenso. Assim, poderia começar imediatamente.

 

A caverna, em si, fora uma surpresa. As suas paredes tinham marcas de escavações cuidadosas e aqui e ali havia símbolos misteriosos gravados, cujo significado apenas adivinhei indistintamente. Pensei que Conor devia ter sabido que aviso, ou protecção davam, que história contavam. Havia cavidades nas paredes e nem todas estavam vazias. Encontrei cobertores num embrulho oleoso, várias capas velhas e um par de facas com cabos de osso decorados e lâminas maravilhosamente bem conservadas. Parecia que outros se haviam abrigado ali antes de mim, talvez protegidos pelas Criaturas Encantadas. Ainda mais útil, havia papas de aveia numa panela, um stock de doce e maçãs secas.

Os cobertores eram a melhor descoberta, porque se estava perto do solstício do Inverno e não me sentia muito segura a acender senão uma pequena fogueira, para que a minha presença não fosse detectada. Eu já tinha frio, que entrava até aos ossos durante as longas noites e que era muito doloroso nas manhãs cheias de geada. Enrolei os cobertores em volta de mim mesma e tentei não o sentir.

 

Talvez eu fosse estúpida ao acreditar que poderia quebrar o feitiço. Demasiadas histórias, se calhar, uma cabeça cheia de lendas, onde o herói cumpre determinadas tarefas e ganha, depois, o coração da sua amada. Mas eu não era assim tão tola, mesmo então. Uma vez, disse a Simon que ele podia terminar a sua história da maneira que quisesse. O que não era totalmente verdade. Escolhi o meu caminho; mas havia outros que influenciavam o seu curso, que divergiam, o mudavam e confundiam. E como a Dama da Floresta me avisara, até o princípio seria muito difícil. Muito mais difícil do que acreditara ser quando primeiro a ouvi, pálida, descrever-me a minha tarefa.

 

Fiar e tecer com linho, ou lã, estraga as mãos, com o pente e os torções a rasparem e ferirem os dedos, ao mesmo tempo que o movimento do fuso começa a provocar uma dor grande nas articulações. Pode-se descobrir uma fiandeira pelas mãos. Enquanto dão beleza ao seu trabalho, estas vão ficando nodosas, torcidas e velhas. As damas nobres das velhas lendas, Etain e Sadb, que se transformou num veado, e Niamh, dos cabelos dourados, cujo nome a minha mãe partilhara, não podiam ter sido fiandeiras e tecedeiras, porque as suas mãos são descritas como brancas e perfeitas, decoradas com anéis de prata, mãos para um bravo guerreiro beijar quando regressa vitorioso de uma batalha. Mãos feitas para bordar, ou para tocar harpa. Dedos esguios para esconder um bocejo delicado, ou para tocar na face de um amante. As damas das velhas lendas nunca ouviram falar da morugem.

 

Já falei antes desta planta, como parece suave como as penas de uma pomba, com a sua folhagem cinzenta-esverdeada delicada e flores parecidas com estrelas. Como enterra as suas minúsculas agulhas na carne, queimando, furando e torturando como se fosse fogo. Como a carne incha, fica vermelha e lateja, como a dor permanece até que o último vestígio de veneno seja retirado. Mal sabia por onde começar, porque não havia maneira de proteger as mãos e fazer a tarefa. Podia utilizar uma faca para cortar os caules e segurá-los com um bocado de tecido. Essa era a primeira coisa. Mas não podia cortar os caules e as folhas e transformá-los em fio com as mãos enluvadas. Além disso, sabia o suficiente sobre magia para reconhecer que não podia fazer batota. Para salvar os meus irmãos, teria que sofrer o que eles sofriam. Como o meu pai, de certeza, sofria à sua própria maneira, porque nem ele poderia ficar indiferente ao súbito desaparecimento de todos os seus filhos de uma vez só. Perguntava a mim própria que explicação lhe dera Lady Oonagh. Não, eu teria de arrancar aquela planta e fazer aquelas camisas com as mãos nuas, sangrando e fá-lo-ia, porque sabia que era a única maneira de quebrar o feitiço.

 

Não tinha ferramentas nem muita habilidade. Sabia como fazê-lo porque observara as mulheres da aldeia, sentadas nos seus bancos altos, extraindo a fibra de lã, alimentando-a alternadamente da roca para o fuso, deixando o fio entrançar e crescer, enquanto o fuso rodava lentamente ao nível do solo. Em seguida o fio enredava-se no eixo, giravam o fuso e recomeçava tudo de novo. O trabalho era rítmico e muitas vezes elas cantavam durante a operação, parecia uma coisa simples. Mas eu não ia trabalhar com lã. Uma planta fibrosa, como a morugem, teria que ser ensopada, batida e seca antes de conseguir fabricar o respectivo fio. Teria de começar de qualquer maneira.

 

Primeiro, fiz o fuso. Havia muitos pinheiros no alto da encosta e até uma extensão de ramos finos, despidos de galhos, que serviriam como fuste do fuso. Quando cortei a madeira com o machado não me esqueci de agradecer silenciosamente aos espíritos da árvore. Se ia viver ali sozinha, a sua boa vontade seria essencial. Linn resolveu a minha parte seguinte do problema enquanto farejava o solo, procurando aromas interessantes. Ela aprendera o jogo da busca e trouxe-me uma pinha que caíra da árvore antes de amadurecer e deixou-a cair, expectantemente, aos meus pés, esperando que eu a atirasse para longe, de maneira a ela poder ir buscá-la. A pinha era bem modelada, simétrica e pesada. E assim arranjei o meu fuso. Afaguei Linn e atirei outra pinha para ela correr atrás. Quando regressei à caverna, utilizei a pequena faca para fazer um buraco na base da pinha e nele enfiei a ponta do fuste. Fiz um entalhe na outra ponta, onde o fio seria preso. Até agora, tudo bem. Em seguida, peguei na faca e fui cortar morugem.

Não me demorarei muito neste processo. Cortei os caules e meti-os em sacos, o que me poupou um pouco as mãos, mas mesmo assim as agulhas alojavam-se-me na carne e as mãos doíam-me mais do que eu julgava ser possível. Apesar da quantidade de plantas, a tarefa decorria lentamente. Quando tinha um conjunto de caules pronto, fui até à margem do lago à procura de um lugar onde pudessem ser encharcados. Tive sorte. A corrente passava por entre grandes pedras cheias de musgo e aqui e ali formavam-se pequenas poças. Mesmo acima da margem pedregosa havia um lugar onde podia mover uma pedra ou duas, de maneira que apenas uma pequena corrente passava por uma poça pouco profunda. Ali abri os braços cheios de caules espinhosos. Com algumas plantas e madeira de freixo fiz uma fogueira para apressar a preparação da fiação. Sabia isso devido ao meu estudo das ervas.

 

Decidindo que não fazia mal nenhum tentar, esperei até que a minha pequena fogueira arrefecesse e de manhã peguei num punhado de cinza mole e levei-a para a borda-d’água. Borrifei com ela os caules e usei uma pedra redonda para bater e quebrar as duras fibras até ficarem com o aspecto de fios isolados. Torci cada um daqueles novelos duros em volta de um pau, coisa que consegui fazer entre as pedras da poça, de maneira que a água rodeava-os por completo. Depois, esperei. Três dias demorou a espera, tempo suficiente para retirar das mãos os espinhos da morugem e para lhes aplicar uma pomada, tempo suficiente para fazer um inventário das minhas magras provisões e para perceber que, sem provisões, ou sem roubar, não duraria até à Primavera. Tempo suficiente para aprender a ferver aveia em água sobre a fogueira para fazer umas papas simples e para explorar um pouco a minha nova casa. Fiquei surpreendida ao descobrir que não estava muito longe do cume da encosta ocidental e que, de onde estava, podia ver uma extensão de terreno aberto, liberto de floresta, para efeitos de pastagem. Havia lá pequenas casas de fazenda, uma ou duas. Estavam suficientemente perto para, talvez, me poderem fornecer provisões. E estavam suficientemente perto para serem uma ameaça à minha segurança.

 

No quarto dia retirei a morugem da água, bati de novo as fibras e pendurei-as dentro da caverna até ficarem quase secas. No dia seguinte comecei a fiar.

Pobre Linn. Estava bem adaptada ao meu estado de espírito e mantinha-se humilde e fiel como só um bom cão o pode ser. Estava-lhe para além do entendimento o porquê do meu choro, porque todo o meu corpo estava tenso devido à dor e porque não me conseguia fazer sentir melhor ao lamber-me, gemendo e sentando-se tão perto de mim quanto podia. A sua aflição incomodava-me e tentei trabalhar enquanto ela estava fora, caçando; mas a tarefa era lenta, tão lenta, fio atrás de fio quebradiço que se partia, se desenredava e não torcia, a tentativa para continuar e em breve a dor se tornou demasiado insuportável, deixei cair o fuso e corri para mergulhar as minhas pobres mãos na corrente para suavizar a dor.

 

Foram tempos difíceis e eu ouvia uma voz interior que me dizia que aquela tarefa era impossível. Porque não desistir? Vê, as tuas mãos estão inchadas e arruinadas, choras dia sim, dia não e qual é o resultado? Um pequeno carretel de fio de má qualidade, rugoso e frágil, que mal dá para fazer a bainha de uma jaqueta para uma borboleta, quanto mais para uma camisa de homem. Esta tua tarefa não pode ser levada a cabo. Além disso, como podes ter a certeza de que a Dama da Floresta não te mentiu? Talvez isto não passe de um truque cruel e o teu trabalho não sirva para nada.

 

Era difícil ignorar semelhante voz. Mais do que uma vez tirei da algibeira a pequena peça de madeira e olhei para a pequena árvore gravada nela, imaginando-me a falar com Simon, falando, falando sempre do seu desespero, ódio por si próprio e miséria. E comecei a contar histórias a mim própria, não em voz alta, mas mentalmente; e procurava concentrar-me nessa história, quer fosse sobre um herói, um gigante ou três irmãos que saíam de casa em busca de fortuna. Se não me lembrava de uma, inventava-a, ou melhorava outra que conhecesse.

 

Durante todo o dia, as minhas mãos iam fazendo aquele terrível trabalho e a dor permanecia, assim como o inchaço, que tanto dificultava o controlo do fuso e do fio. Mas a minha mente ultrapassava a dor e ia viver com damas encantadoras, nobres guerreiros ou viajantes cheios de sorte, dragões, serpentes e desejos mágicos.

Quando o anoitecer tornava o trabalho impossível, punha de lado o que tinha feito, tentando não ver quão magra fora a quantidade de fio que produzira. Não havia nenhum irmão para me arrancar da carne as agulhas da morugem, nenhum trovador para me confortar, nenhum amigo para me tratar as mãos com unguentos curativos. As farpas ficavam-me na pele, porque os meus dedos inchados e dormentes não tinham o controlo suficiente para as extrair. De vez em quando a carne supurava e os humores surgiam e escorriam das lesões. Então, ficava febril e tonta. Mas tinha escolhido bem entre o stock de remédios do padre Brien. Trouxera uma pomada de erva-férrea e consolda e fiz uma infusão de casca seca de salgueiro e de uma erva medicinal com água de nascente que utilizava, tanto para me lavar, como para beber. Pouco tempo depois senti-me suficientemente bem para recomeçar, se bem que mais fraca. Parecia que o meu corpo aceitava o inevitável e as minhas mãos ficaram cheias de cicatrizes e ásperas devido ao tratamento precário. A dor mantinha-se, mas eu podia continuar.

 

O Inverno transformou-se em Primavera e eu emagreci. Conseguia contar as costelas e sentia o frio de noite, se bem que Linn dormisse ao meu lado. E tinha fome. Pois um saco de alimento não dura muito, mesmo para uma rapariga e a não ser que mendigasse, ou roubasse, tinha de contar com o que encontrava. Não comia carne ou peixe desde miúda, porque sempre sentira uma relação muito forte com as outras criaturas, o que fazia com que os meus sentidos se revoltassem à ideia de as comer. Linn aprendera a caçar na floresta; a fazer desaparecer os restos das presas habilmente e longe da vista da sua companheira humana. Para mim era mais difícil. Precisava de encontrar comida, agora que o tempo estava mais quente, uma boa provisão de cogumelos, agriões nas nascentes e cebolas selvagens. Ainda era muito cedo para outras coisas e racionei o que me restava de cevada e a decrescente provisão de feijão para quando chegasse a ocasião das bagas e nozes maduras. Apesar da fome, detestava todo o tempo perdido à procura de comida vegetal.

 

O cavalo estava cada vez mais esquelético e de olhar selvagem e eu já não podia continuar com ele. Um dia, quando o Sol estava descoberto e os primeiros calores da Primavera pairavam no ar, levei-o através do bosque para o local onde a terra fora desbravada para ser transformada em pastagem, de onde se podia ver os campos verdes, os muros de pedra, uma vaca ou duas à distância e uma coluna de fumo saindo de uma pequena cabana. Pousei-lhe a testa no pescoço durante um momento, tentando dizer-lhe que o padre Brien gostaria que ele ficasse em segurança, fosse útil e bem alimentado. Então, dei-lhe uma palmada no flanco e apontei para a frente. O animal partiu cautelosamente através do campo e eu deslizei de regresso às árvores e deixei-o. Espero que tenha encontrado gente bondosa e um estábulo quente.

 

No princípio da Primavera houve uma grande trovoada que açoitou a floresta durante um dia e uma noite, chicoteando o topo das árvores numa dança frenética e empurrando agulhas de chuva gelada para dentro do meu abrigo, de maneira que cada cobertor, peça de roupa, canto de solo, estava saturado. A minha fogueira tornou-se inútil e eu sentei-me e tremi desamparadamente, enquanto a cadela fazia os possíveis para me manter quente. Na segunda manhã, quando a trovoada amainava lentamente, fui acometida por convulsões e só conseguia pensar no grande fogão do vestíbulo de casa, com os seus toros de pinho a estalarem e a pequena lareira do meu quarto, que iluminava a coruja e o unicórnio tecidos na tapeçaria. Meio a sonhar, imaginei uns braços fortes a embrulharem-me num cobertor e a embalarem-me até adormecer, quente e segura. Acordar deste sonho, ensopada e a tremer de frio, foi muito cruel. Após um certo tempo, Linn cansou-se de mim e saía de manhã, enquanto eu ficava a chorar silenciosamente, pensando que ia desistir de tudo, ou quase, se alguém me trouxesse uma malga de cerveja forte da Fatjanis.

 

Não sei quanto tempo fiquei assim, mas o meu sentido de autopiedade foi interrompido pelo ladrar de Linn e eu coxeei para o exterior, os membros entorpecidos a protestar, para ver que um dos grandes freixos tinha caído durante a noite, trazendo com ele muitos dos seus irmãos mais pequenos e jazendo agora no lado de fora da minha porta. Linn estava mais acima, na encosta, procurando algo no solo.

 

A morte desta grande árvore abrira um grande espaço na densa floresta em volta da minha caverna e eu podia ter um vislumbre do lago, entre os jovens ulmeiros e salgueiros. Permaneci ao lado do gigante caído, pousando-lhe na casca cinzenta e suave as minhas mãos inchadas e falei intimamente com o espírito que vivera dentro dele, porque a trovoada levara-o com um gesto violento. Agradeci-lhe pelos anos de abrigo que a árvore dera às pequenas criaturas, pelo alimento que deixara cair no solo e pela permanente paz e compreensão. Disse-lhe que daria bom uso à madeira, fabricando novas ferramentas para o meu ofício, alimentando a minha fogueira e assegurei-lhe que a luz que agora banhava a encosta, branca e fria, no seu brilho após a trovoada, daria origem a nova vida no solo. Com o tempo, outro vidoeiro cresceria ali. Disse-lhe isso e a fria suavidade da casca acalmou-me a dor dos dedos. Senti o conhecimento e o mistério da grande árvore absorvidos pelo meu espírito, senti-lhe a singularidade, a solidão, a vida e a morte. Ainda não lhe cortaria a madeira. Esperaria que o espírito se afastasse e então, na altura própria, cortaria, secaria e moldaria uma nova roca e um novo fuso e tentaria fabricar um tear, porque pensava que já tinha fiado fio suficiente para começar a fazer a primeira camisa. A minha força ainda não era suficiente para atacar o maciço tronco ou os grandes membros de tamanho gigante, mas o meu pequeno machado podia cortar os ramos mais baixos. Olhei para as minhas mãos inchadas e flecti os dedos doridos. Ia ser duro.

 

Entretanto, o grande freixo ficaria onde estava, o musgo trepar-lhe-ia para o tronco e as pequenas criaturas fariam os seus ninhos nos pequenos buracos. Até na morte seria um elo na grande cadeia dos seres da floresta.

 

A estação continuava. As abelhas atacavam as doces flores da alfazema e os bosques estavam atapetados de flores resplandecentes. O dia e a noite equilibravam-se, as aves andavam em busca de pedaços de palha e pequenos ramos, preparando os ninhos para novos nascimentos. Aventurando-me até à margem do lado, uma manhã, vi bandos de aves aquáticas lá longe, na direcção das pequenas ilhas, vagueando sobre a superfície prateada da água, subindo para o céu em grandes nuvens de asas batendo ou mergulhando, à procura de peixe. Não conseguiria dizer, àquela distância, se alguma delas era um cisne.

 

A água estava mais quente e eu consegui despir-me, lavar-me e limpar o meu vestuário coberto de lama. Durante todo este tempo, não vira qualquer sinal de vida humana na margem. Era como se este canto selvagem estivesse, de alguma maneira, protegido de interferência mortal e talvez fosse verdade, pelo menos por algum tempo. A floresta esconder-te-á, dissera a Dama da Floresta. Quem poderia saber quanto da sua influência não estaria presente?

O tempo passou e a floresta explodiu com vida nova. Todos os dias eu dava uma volta pelas redondezas. Levantava-me de madrugada para me lavar na água do lago, soprava as brasas da minha pequena fogueira para a trazer de novo à vida e fervia água com, talvez, uma mão-cheia de agriões e cebolas selvagens, para um pequeno-almoço frugal. Depois, Linn desaparecia ao longo da margem, ou nos bosques, em busca de caça e eu ia à procura de comida. À medida que a Primavera se aproximava do Verão, esta tarefa tornou-se mais fácil. As amoras amadureciam e havia por aqui e por ali groselhas, prontas a serem colhidas. Os sabugueiros estavam cobertos de branco. As ervas selvagens eram abundantes, os pés-de-leão, a salva, a manjerona e a ficaria. Reparei onde cresciam as madeiras e as aveleiras, porque me forneceriam uma boa colheita mais tarde, no Outono. Já sabia, então, que iria viver aqui, pelo menos, mais um Inverno, já que a tarefa era terrivelmente lenta. Ainda mal tinha fio para uma camisa e já estávamos quase no Verão. Quando regressava da minha busca de comida, pegava na roca e no fuso, no inesquecível fardo de fibras e fiava, fiava, sentindo as farpas entrarem-me na carne, e contava a mim própria histórias em silêncio, com os olhos fixos no vazio. De vez em quando levantava-me para dar um passeio sob as árvores, encostando as costas e ombros doridos a um grande carvalho ou robusto ulmeiro. Então, a minha mente procurava-os, para lá do lago, no céu, algures, onde os meus irmãos pudessem estar.

 

Onde estás, Finbar?

 

Mas não havia qualquer resposta. E podiam estar mortos, caídos por terra, vítimas da seta de algum caçador, de um lobo, ou um javali.

 

Onde estais?

Não me podia permitir fazer isto durante muito tempo. Linn voltava lambendo os beiços, sentava-se ao pé de mim para me fazer companhia e eu voltava para a roca. Mais tarde, durante o dia, pegava no fio que fizera de manhã e acrescentava-o ao que já tinha. Estava para além das minhas capacidades fazer um tear como os que vira as mulheres, em casa utilizar. Mas encontrara um bocado de casca de árvore liso, com duas mãos de comprimento, um pouco menos de largura. Arredondara-lhe os cantos e atara-lhe o fio em volta. A trama tecia-a à mão, com uma agulha de osso, trazida do padre Brien. Por baixo e por cima, por baixo e por cima. O tecido era rugoso e irregular, mas aguentava-se. Mais tarde teria tempo para pensar em como aquilo poderia ser transformado numa camisa.

 

O solstício do Verão apanhou-me quase de surpresa. Estava a trabalhar tão regularmente quando podia e comecei a procurar morugem mais longe, porque já quase tinha esgotado o stock perto da caverna e tinha de o deixar de lado, para que recuperasse. Um dia, aventurei-me pelo velho carreiro por onde tinha levado o cavalo, pela encosta acima, por entre vinha virgem e trepadeiras, fetos e musgo, pela luz verde-escura filtrada da velha floresta, até estar quase ao pé do local onde o tinha deixado. Havia um sentimento estranho dentro de mim, como se tivesse que me certificar que o resto do mundo não se fora embora enquanto eu permanecia escondida na minha caverna, a fiar. Porque, que era das histórias dos rapazes e raparigas levados pelas Criaturas Encantadas para debaixo da encosta? Passavam uma noite com elas, cantando e dançando e, quando voltavam para casa, descobriam que se tinham passado cem anos e que todos os seus familiares tinham morrido. Quem poderia dizer que não me aconteceria o mesmo?

 

Aproximei-me o mais que me atrevi da orla da floresta e trepei calmamente para os braços abertos de uma nogueira. Linn ficou a guardar-me a trouxa, feliz por ficar no meio dos fetos, porque o Sol estava quente e o ar pesado, anunciando trovoadas de Verão. Do meu ponto privilegiado olhei por cima de uns amieiros jovens, para um trilho de carroças bordejado por espinheiros-alvar e para lá, para campos divididos por muros, alguns semeados de cevada ou centeio e outros utilizados para pastagens. Havia uma cabana ou duas, bastante longe. Aqui e ali a terra elevava-se em pequenas colinas cónicas, algumas cobertas de pinheiros ou carvalhos no topo. E para lá das terras cultivadas, recomeçava a floresta. Fiquei sentada tranquilamente naquela quietude, praticamente não pensando em nada. O doce cheiro da flor do espinheiro-alvar sentia-se no ar e eu sentia o movimento das pequenas criaturas na sua labuta, insectos indolentes no calor do Verão, o restolho de coelhos e esquilos no solo e os misteriosos e pouco vistos habitantes das árvores, cujas vozes flutuavam no ar como música frágil, sussurrante.

 

Olá, Sorcha. Sorcha, nossa irmã. O tinir de um riso e o brilho súbito de uma asa delicada ou de uma teia de aranha, meio escondida na luz malhada. Por vezes, podemos cruzar-nos com uma grande mecha de cabelo dourado, ou uma delicada pegada, no local onde passaram. Vem dançar connosco, irmã. Agradeci-lhes em silêncio, sabendo que elas sabiam que não podia segui-las. E então, numa grande agitação, desapareciam; porque ao longo do trilho de carroças vinha um bando de jovens, rapazes e raparigas, rindo, assobiando, gritando, com flores e fitas nos cabelos. Observei-os calmamente e Linn permaneceu silenciosa no sítio onde estava; um gesto seco da minha parte fora o suficiente para a obrigar a obedecer. À medida que o bando passava por entre os espinheiros-alvar, fazia pausas para envolver os ramos, ainda perfumados da floração, com bandeirolas, cantando uma velha canção, pedindo à Grande Mãe uma colheita abundante. Os jovens cantavam com faces e olhos brilhantes; e quando terminaram as raparigas desataram aos risos e correram pelo trilho abaixo com os rapazes a perseguirem-nas, recomeçando tudo de novo.

 

Dois dos rapazes levavam às costas feixes de lenha e o grupo separou-se, as raparigas continuando pelo trilho afora até cada espinheiro-alvar ficar com a sua bandeirola dourada e branca e fitas verdes. Os rapazes encaminharam-se para a colina mais próxima, vi-os preparar uma fogueira no topo e percebi que eram os preparativos finais para o Meãn Samhraidh, o solstício do Verão.

 

Esta noite haveria oferendas passadas por cima da fogueira e ervas a arder seriam transportadas para os estábulos e celeiros, para os campos e cabanas, pedindo a bênção de Dana, a mãe-deusa, para todas as criaturas neles residentes.

 

E chegara a hora. A hora para descobrir, se queria acreditar no que a Dama me dissera. Hora de saber se era verdade que eu podia quebrar o feitiço. Porque recordava muito bem a sua promessa; duas vezes por ano, no solstício do Verão e no solstício do Inverno, eles virão ter contigo, se puderem e do anoitecer ao amanhecer poderão retomar o seu aspecto humano. Aquelas palavras estavam cheias de incerteza. Mas eu acreditava que os meus irmãos viriam e que tinha que voltar para o lago para os esperar.

 

As raparigas ainda estavam à vista no carreiro e não me atrevi a mexer-me enquanto pudesse ser vista. E agora havia outro rapaz que se aproximava, hesitantemente, muito atrás dos outros. Era atarracado e tinha as feições grosseiras e inocentes de um mal-nascido, um que estaria sempre um passo atrás dos outros. Corria ao longo do carreiro o melhor que podia, coxeando um pouco, as grandes mãos abrindo-se para tocar uma fita aqui, uma flor ali, o grande sorriso revelando um conjunto de dentes salientes.

 

Os outros tinham-se afastado, mas ele parecia não se importar. Em vez disso, escolheu o local, mesmo por baixo da minha árvore, para se sentar e vasculhar nas algibeiras. Eu queria ir-me embora, mas não me podia mexer. O rapaz tirou um bocado de pão e queijo e começou a comer sem pressa. Quase podia tocar-lhe; no fim de contas, ele escolhera o mesmo local que eu para gozar a vista e os cheiros deste glorioso dia de Verão. Assim, esperei, enquanto ele ia enchendo a boca. Há muito tempo que eu não provava pão. Depois de acabar, o rapaz pareceu adormecer, o chapéu sobre os olhos, as mãos penduradas nos joelhos, aparentemente alheio ao que o rodeava. Esperei um pouco mais. Ele não mostrava sinais de que se iria mexer. Pensei nos meus irmãos e na grande caminhada até ao lago e comecei, muito lentamente, a descer da árvore.

 

Houve tempos em que podíamos mexer-nos através da floresta, os meus irmãos e eu, com rapidez e em total silêncio. Ninguém nos poderia ver, ou ouvir, ou apanhar. Mas agora as minhas mãos tinham perdido muita da sua sensibilidade. Estavam inchadas e calejadas e as falanges doíam-me, mesmo com o calor do Verão. Não consegui segurar-me, por um momento, agarrei-me a um ramo e ouvi a madeira a estalar, um som mínimo. Num relâmpago, ele estava de pé, olhando-me de frente e os seus redondos olhos castanhos estavam cheios de espanto.

— Uma fada! — exclamou ele em voz alta, ligeiramente indistinta. — Uma fada!

 

O seu sorriso era enorme e jubiloso, como se o seu mais caro sonho se tivesse tornado realidade; como se tivesse visto o objecto mais maravilhoso da sua imaginação. Por um instante, fiquei também a olhar para ele. Depois, deslizei para o solo, peguei na minha trouxa e desapareci na floresta, certificando-me de que o meu rasto seria tão difícil de descobrir, que ninguém me poderia seguir. Pobre rapaz. Imagino quantas vezes terá ele esperado, naquele local, pela visita de uma fada. Muitas vezes, era a pessoas assim que elas apareciam. Esperava, se ele contasse a sua história, que lhe pusesse muita imaginação. Com sorte, acreditariam que tinha sido, na verdade, uma pequena fada que ele tinha visto.

 

O encontro abalara-me. Fora uma grande loucura, arriscando-me a ser descoberta no dia do regresso dos meus irmãos. Jurei nunca mais voltar ali, por maior necessidade que tivesse de contacto humano, por maior que fosse o meu isolamento. Nenhuma desconfiança deve chegar à minha aldeia e dali a Lady Oonagh. Porque viria atrás de mim, não tinha qualquer dúvida. Além disso, perdera tempo precioso. Já se estava a meio do Verão e mal começara a primeira camisa. Por aquele andar ficaria ali durante muitas luas. Apressei-me através da floresta, ansiosa pelo cair da noite.

 

Para dizer a verdade, mal acreditava que eles aparecessem aquela primeira vez, como ela me dissera. Mas preparei-me para eles, lavando-me, passando um pente pelos caracóis em desordem e pondo a melhor ordem que podia na minha simples morada. Deixei o fogo aceso, se bem que abafado e encaminhei-me para o lago muito antes do pôr do Sol. Ali, cumpri o ritual, sozinha e em silêncio. Tive o cuidado de não deixar nada de lado. Agradeci à vez aos espíritos do Fogo, do Ar, da Água e da Terra. Não pedi qualquer favor. Em vez disso, abri a mente para o que viria. Disse-lhes que o aceitaria, fosse o que fosse. Pedi-lhes que me aceitassem pelo que era na grande teia da vida e que fizessem de mim o que quisessem. Quando terminei, peguei no bordão de carvalho que pertencera ao padre Brien e desenhei o círculo na areia branca à minha volta. Sentei-me de pernas cruzadas no meio e esperei, com as vastas e vazias águas do lago defronte. Gradualmente, os sons da floresta começaram a entrar-me na consciência. As árvores restolhavam e as aves chamavam e respondiam, lá no alto. Não podia fazer mais nada.

 

O céu tornou-se rosa, violeta e cinzento-escuro. Uma coruja voou por cima de mim, invisível, o seu grito queixoso flutuando no ar de fim de tarde. Faltava pouco. Faltava pouco, agora. Linn tinha estado tranquila, agachada na relva, observando-me cuidadosamente. Mas aproximou-se, rosnando ligeiramente. E eles apareceram, na água, deslizando juntos, fantasmas brancos na ondulação escura. O meu coração saltou, mas fiquei sentada e esperei. Os trovões ouviam-se lá longe, a ocidente e o ar pegava-se, húmido, à pele.

 

O último raio de sol extinguiu-se; a noite estendeu os braços sobre a floresta. Quando o crepúsculo se transformou em escuridão, houve um movimento na água e eles vieram à margem, um a um. O momento da transformação foi-me vedado pela noite, porque a Lua ainda não se tinha mostrado através das nuvens muito juntas. Vi vagamente a forma de uma grande asa, o curvar de um forte e curvo pescoço. E então eles estavam ali, os meus irmãos, os meus queridos, na areia, à minha frente, aturdidos e molhados, meio vestidos com os mesmos trajes usados antes e então, bálsamo para o espírito, veio a saudação silenciosa de mente para mente, aos tropeções e incoerente, a princípio, mas enchendo-me o coração com a maior das alegrias.

 

Sorcha. Sorcha, estamos aqui.

 

Aproximei-me e toquei em cada um deles, mal me apercebendo, à luz da minha pequena lanterna, da desolação e confusão nos olhos deles, ouvindo as suas vozes hesitantes. Nada estava bem com eles. Se eu esperava que eles viessem ter comigo inteiros como antes, bravos e verdadeiros, rindo como eu os recordava, então não compreendia a natureza dos encantamentos.

Não é assim tão mau. Conor passou-me o braço pelos ombros enquanto eu lhe ouvia a voz interior. Lembras-te da história das quatro pequenas fadas de Lir? Foram transformadas em cisnes durante novecentos anos e quando por fim voltaram à forma humana eram velhinhos e velhinhas, dobrados e deformados. Nós voltámos incólumes, pelo menos de corpo e mais cedo do que elas.

 

Estas palavras pouco me tranquilizaram. Não sabiam os meus irmãos nada do feitiço e do contra-feitiço? Nada da duração do seu encantamento e do método de o desfazer? Como lho explicaria eu sem o poder da fala e com a exigência do silêncio no meu discurso? E havia outra coisa qualquer que estava mal.

 

Onde está Finbar? Porque a minha mente conseguia tocar apenas na mente de um dos meus irmãos e as minhas mãos contavam apenas cinco.

 

— Ele vem. Dá-lhe tempo — disse Conor em voz alta e eu fiquei tranquilizada porque o som da voz dele era quase o mesmo de antigamente. E os outros estavam agora a levantar-se, resmungando ligeiramente como se tivessem bebido cerveja demais, ou tivessem estado a lutar no pátio e como as suas consciências humanas regressavam lentamente, juntaram-se à minha volta, abraçaram-me, agarraram nos ombros uns dos outros, como se quisessem ter a certeza de que não era outra visão, ou truque, ou feitiçaria. A cadela encaminhou-se de esguelha para Cormack, cautelosa. Ele curvou-se para lhe afagar as orelhas e passou-lhe uns dedos carinhosos pela cicatriz do focinho. E então ela conheceu-o, saltando e pousando-lhe as patas no peito, latindo em êxtase. Vi-o recuar por um segundo e um olhar, quase de medo, passou-lhe pelo rosto; mas depois passou, quando ele lhe afagou o pêlo, rindo.

Tomei conta da jaqueta de Conor, afastando-o da margem. Na outra mão transportava a pequena lanterna. Os meus irmãos seguiram-me pela encosta acima até à caverna, mas eram lentos no regresso ao reconhecimento total e estavam quase todos silenciosos, seguindo-me sem qualquer pergunta. Chegámos à caverna, reavivei o fogo e acendi outra lanterna. Não seria perigoso. Esta noite todas as almas estariam reunidas para os festejos do solstício e apenas os mais temerários, ou um mortal ignorante qualquer, se aventuraria nas profundezas da floresta àquela hora.

 

Os meus irmãos sentaram-se em volta da pequena fogueira como espíritos perdidos que tinham sido afastados do caminho escolhido. A princípio houve alguma conversa; pareciam atordoados e de vez em quando um estendia um braço para tocar na mão de outro, como que para se assegurarem que tinham, na realidade, voltado à forma humana. Ao fim de um certo tempo apercebi-me de que Finbar também estava presente, saído silenciosamente da água para se juntar ao nosso pequeno círculo. Foi quando estendi uma mão para atirar outro toro de freixo para o fogo que a mão dele me agarrou; os seus olhos sempre tinham sido perspicazes.

 

— As tuas mãos — disse ele severamente — o que aconteceu às tuas mãos? — E os seus longos dedos moveram-se por cima dos meus, sentindo as rugosidades, o inchaço e a rigidez das articulações. — Sorcha, que aconteceu? Por que não falas connosco?

 

Eu estava atenta ao facto de que a minha história não podia ser contada, nem sequer aos meus irmãos. Assim, toquei nos lábios fechados com os dedos, juntei as mãos, abri-as rapidamente e abanei a cabeça. Não posso falar. Nada. Não vos posso dizer. Colocara um forte escudo em redor dos meus pensamentos, mas não contara com a intuição de Conor.

 

— Ela também te amaldiçoou — disse Conor. — É claro. Com que fim? Terá isto um fim?

Abanei a cabeça miseravelmente, mostrando-lhe de novo, com os dedos nos lábios, que não lhe podia dizer.

 

— Não podes dizer nada? — Tentou Diarmid com o rosto cheio de frustração. — Mas então, como é que nós havemos de saber... como é que nós...

 

— Não tens memória do tempo passado? — perguntou-lhe Conor cautelosamente.

 

— Memória? Não. É mais como se...

 

— Um sentimento, mais do que um pensamento — disse Padriac que, de todos, parecia o mais parecido com ele próprio, talvez um pouco mais calmo. — Fome, medo, calor, frio, perigo, abrigo. É tudo o que os cisnes sentem. É... Diferente. Muito diferente.

 

Vi-o olhar para os braços, por um momento e suspeitei que desejava que, como homem, ainda pudesse voar.

— Precisas de compreender, Sorcha — disse Conor no seu modo comedido —, que a mente de uma criatura selvagem não é como a de um homem, ou de uma mulher. Creio que muito pouco passa connosco, quando mudamos. Como cisnes, podemos ver as coisas que acontecem aos homens e às mulheres, mas não as compreendemos como tu; e uma vez de volta à nossa forma humana, apenas recordamos a outra vida muito levemente, como se através de uma névoa de Outono. Padriac resumiu-a bem. Uma criatura selvagem conhece a necessidade de se esconder, de se proteger, de fugir, de procurar comida e refúgio. Mas consciência, justiça e razão, isso está-lhe para além da mente. Finbar acha este castigo demasiado duro, porque valoriza estas coisas acima de todas as outras. Até parece que Lady Oonagh escolheu esta maldição especialmente para ele; quanto aos restantes, é suficientemente duro.

 

Olhou em volta do círculo iluminado pela fogueira, para Finbar, que nos observava em silêncio, com o rosto na sombra.

 

— O castigo de Sorcha ainda foi pior — disse Cormack sobriamente. — Ficar sozinha na floresta, longe de tudo e sem poder falar.

 

Olhou para mim de perto.

 

— Ao menos regressámos e poderemos endireitar as coisas para ti — disse Liam, que estava a esticar cuidadosamente as suas longas pernas, como que para verificar se ainda funcionavam. — Ou será isto uma visão, desaparecermos antes de termos tempo para um pensamento, ou um gesto? Por quanto tempo regressámos às nossas formas humanas?

Mas eu não lhe podia responder. Responder era contar parte da história e isso era proibido.

 

— Suspeito que não por muito tempo, a julgar pelo olhar miserável de Sorcha — disse Diarmid amargamente.

 

— Creio que será por uma noite — disse Conor. — Nas velhas lendas é entre o anoitecer e o amanhecer que as coisas mudam. Devemos estar preparados para o pior.

 

— Uma noite? — Diarmid sentia-se insultado. — O que é que se pode fazer numa noite? Eu gostava de me vingar; gostaria de desfazer o mal que ajudei a criar. Mas estamos muito longe de casa, demasiado longe para regressar. Por que é que estás aqui, Sorcha? E que é feito do padre Brien, que devia ter-te ajudado?

 

Aquela história era diferente e podia ser contada. Contei-lha com mímica. Uma cruz cristã; dedos nos olhos fechados. Um voo para o alto, para o céu infinito e para ocidente. Todos me compreenderam suficientemente bem.

 

— Portanto, o nosso amigo está morto — disse Liam.

 

— E não de causas naturais, aposto — acrescentou Cormack. — Aquele tipo era como um carvalho, por mais frágil que parecesse; tinha uma força interior maior do que a de um grande guerreiro.

 

— O braço de Lady Oonagh chega longe — disse Diarmid. Conor olhou para ele.

 

— Haverá vingança — disse ele. — Uma vingança total e terrível. Os assassinos dele serão cortados aos bocados e os corvos hão de comer-lhes a carne até aos ossos.

 

Olhámos todos para ele. O tom nem sequer tinha mudado.

 

— Acreditamos em ti — disse Diarmid, levantando uma sobrancelha.

 

— Ele era cristão — acrescentou Padriac. — Talvez tenha desejado perdão, em vez de retribuição.

 

Conor olhou para o fogo.

— A floresta protege os seus — disse.

 

— Esta foi uma grande perda para ti, Sorcha — disse Liam. — Não tens nenhuma companhia aqui, salvo a solidão?

 

— Ela não to pode dizer — disse Conor. — Mas tudo isto tem um propósito qualquer, não tenho dúvida. Sorcha, sabes quanto tempo vai durar este encantamento? Terá um fim? E quando é que poderemos regressar aqui?

 

Abanei a cabeça, levando ambas as mãos à boca. Por que não paravam eles de me fazer perguntas? Senti uma lágrima a escorrer-me pela face.

 

— Penso que vai durar muito tempo. — A voz de Finbar era muito suave. — Um tempo para ser medido em anos, em vez de luas. Não deves pressionar Sorcha em busca de perguntas.

 

Nenhum deles questionou o que ele disse. Porque quando Finbar falava dizia sempre a verdade.

 

— Anos! — exclamou Liam.

— Ela não pode ficar aqui sozinha esse tempo todo — disse Diarmid. — Não é seguro, nem nada que se pareça.

 

— Não há outra alternativa — disse Conor. — Além disso, conheces as velhas lendas tão bem como nós. Tem que haver um propósito nisto tudo, só que ela está proibida de falar nele. Certo, Sorcha?

 

— Tarefas — disse Cormack tranquilamente de onde estava, com os braços em volta da cadela. — Há tarefas para cumprir antes do fim. — Viu o meu sinal de assentimento. — Podemos fazer alguma coisa, Sorcha?

 

Abanei a cabeça e afastei as mãos.

 

Nada. Nada, mas mantende-vos a salvo. Permanecei vivos o tempo que for preciso.

 

— Tem algo a ver com as mãos dela — disse Conor lentamente e a voz dele era sombria devido a um sentimento qualquer que eu não conseguia compreender totalmente. — Tu não te magoavas assim sem um propósito. Há um poder maligno qualquer nisto tudo, tenho a certeza.

Abanei a cabeça para baixo e para cima porque ele tinha meia razão.

 

Não. Maligno, não. Mas é a única maneira. Deveis deixar-me fazê-lo. Posso salvar-vos.

 

— Olhai — disse Padriac por trás de mim. Não o tinha visto entrar na caverna e ele emergia dela com o meu fuso numa mão e uma quantidade de fio pendurado na outra, acerado e quebradiço. A luz da fogueira incidia no seu enganador e delicado aspecto. Houve um parar colectivo de respiração e Padriac sentou-se entre os outros, o fuso balançando-lhe entre as mãos capazes.

 

— O que é isto? — perguntou Liam ultrajado, ao mesmo tempo que os seus dedos tocavam na fibra. — Este fio está cheio de finíssimas agulhas. Não admira que as mãos dela estejam como estão. Este fio é...

 

— É morugem — disse Padriac. — Sorcha tem as fibras prontas para fiar e já tem algumas tecidas.

 

— Fiar com morugem! — exclamou Cormack. — Quem é que já ouviu semelhante coisa?

— Tu próprio falaste em tarefas — lembrou Conor ao irmão gémeo. — Parece que tinhas razão.

 

— Não precisas de estar tão surpreendido — disse Cormack com um esboço do seu velho sorriso.

 

— Seis irmãos — Finbar estivera muito quieto e agora a sua voz saía-lhe constrangida, como se só falasse porque tinha necessidade. — Seis irmãos, seis trajes, talvez?

 

— Trajes de morugem? Nunca usaria de bom grado uma camisa desse material — comentou Diarmid.

 

O olhar de Conor percorreu-os a todos, calculando-os.

 

— Talvez as usassem de boa vontade — disse ele lentamente — se elas tivessem o poder de desfazer o feitiço.

 

Não precisara de muito tempo para perceber tudo.

Por um momento, enquanto olhavam todos uns para os outros por cima da fogueira, pareceu-me que havia uma comunicação qualquer entre os meus irmãos que não precisava de palavras e que eu ficava de fora. Olhei em volta do círculo, sentindo que estavam agora mais próximos uns dos outros do que nunca e então encontrei os olhos de Finbar, do sítio onde estava sentado, um pouco à parte, observando-me. Havia uma prudência na expressão dele que eu nunca vira antes, uma incerteza que me dizia respeito porque, de todos eles, fora sempre o mais seguro de si. Tentei chegar até ele com a mente.

 

O que é, Finbar?

 

Mas foi Conor que respondeu.

 

— É duro voltar, Sorcha, e mais duro para uns do que para outros.

 

— Talvez nos reste pouco tempo aqui — disse Liam, pondo-se de pé. — Se o que Conor sugere está correcto, talvez tenhamos só até de madrugada. Devemos fazer os possíveis para abastecer a nossa irmã.

 

— Apenas uma noite e estamos aqui enfiados na floresta — disse Diarmid, amargo. — Por onde havemos de começar, quando há tanto a fazer?

— Algumas coisas podem ser feitas — disse Liam, assumindo o controlo. — Pequenas coisas, talvez, mas úteis. Acredita-me, Sorcha, magoa-nos muito e envergonha-nos sermos forçados a deixar-te aqui sozinha. Mas, pelo menos, podemos assegurar-te um pouco de conforto. Cortar lenha e preparar este local para o Inverno, porque receio que não regressemos antes de a neve começar a cair aqui com força: isto pode ser feito à luz da lanterna. Tens um machado?

 

Acenei com a cabeça.

 

— Para ocidente há terra de pastagens e grão armazenado — disse Conor.

 

— A que distância? — perguntou Cormack.

 

— Consegues chegar lá e voltar antes de amanhecer — respondeu-lhe o irmão gémeo. — Leva a Linn. Está escuro e os caminhos são traiçoeiros. Ela guia-te. Penso que não consentiria em ficar para trás, de qualquer dos modos.

 

— Eu vou contigo — disse Padriac. — Ou gostaria de ir, mas estas botas matam-me. É este o problema das transformações. Continuamos a crescer, mas as roupas ficam do mesmo tamanho. Talvez as tuas me sirvam, Finbar. Serviam-lhe o suficiente, porque o meu irmão mais novo estava meia cabeça mais alto do que quando o vira pela última vez. O seu par de botas talvez me servisse um dia, se eu crescesse o suficiente. E lá foram Padriac e Cormack, desaparecendo entre as árvores, a pequena lanterna na mão e facas nos cintos, porque também as tinham encontrado. Esperei que as armas não fossem necessárias. Pensei que talvez passassem despercebidos entre os que festejavam o solstício, andassem por onde andassem. Linn seguiu-os. Pelo menos, dos três, ela conhecia o caminho.

 

Liam e Diarmid foram com o machado e a machadinha cortar pernadas do vidoeiro morto e armazená-las sob um alpendre natural. Trabalharam com uma rapidez e precisão que me espantou e não pararam por comida ou bebida. Levaram a segunda lanterna para lhes iluminar a tarefa, deixando os restantes na semiescuridão, junto da lareira.

 

— Bem — disse Conor — agora quero ver essas mãos. Tens alguns unguentos? Cera de abelha?

 

Mostrei-lhe a minha diminuta provisão, guardada num nicho da caverna.

 

— Isto não vai durar muito — disse ele com gravidade. — E depois, o que farás? Há alguma outra maneira de esta tarefa ser levada a cabo?

 

Abanei a cabeça.

— Então, pelo menos, posso tratar-te esta noite e talvez arranjar-te alguma ajuda. Precisas de compreender, corujinha, que isto é o que mais nos custa. Não estar aqui contigo, ter de te ver sofrer à nossa custa, ver-te sacrificar a tua vida por nós, custa-nos muito. Para Finbar ainda é pior. Ele, de todos nós, é o que mais precisa de seguir o seu caminho, forem quais forem os obstáculos que encontre no meio. Tirar-lhe isso, pelo que parece ser pouco mais do que um capricho, destrói-lhe o coração. E agora, ainda tem de magoar aquela que mais ama.

 

Voltámos para junto da fogueira, onde Finbar continuava sentado em silêncio. Conor tomou a minha pequena mão na dele e começou-me a espalhar o unguento gentilmente sobre a pele, rolando e dobrando-me os dedos com os dele. Deixou de falar e começou a murmurar suavemente uma pequena canção monótona sem princípio nem fim, continuando sempre e que parecia ir bem com a estranha quietude da noite. Longe, o lento som surdo do machado na madeira ritmava com a canção. Comecei a relaxar. Ao princípio tinha hesitado, porque magoa ter alguém a mexer-me nas mãos; mas após um bocado a canção embalou-me e comecei a ouvir as corujas nas árvores em volta e o coaxar das rãs nas pequenas poças em volta do lago. E depois Finbar veio sentar-se ao pé de mim e segurou-me a outra mão na dele. A mão de Conor estava quente e cheia de vida; a de Finbar estava fria como o gelo. Ficámos ali sentados por um bocado e eu entreguei os meus pobres dedos aos cuidados dos meus irmãos, armazenando imagens e sensações que me durariam até ao solstício de Inverno. Teria de ser suficiente. Conor continuava a murmurar fragmentos de canção a cada respiração, usando a força das suas mãos nas minhas e, através delas, entrando dentro de mim. Por fim, Finbar falou.

 

— Lamento, Sorcha. Nem sei o que dizer. Uma noite. Tão pouco tempo para acordar as nossas memórias deste mundo. A minha mente tem tantas e eu tenho visto... eu... não, algumas coisas, é melhor ficarem por dizer.

 

Virei-me para ele e desta vez o olhar dele encontrou o meu. Vi luz a tremeluzir-lhe nos olhos cinzentos e havia dúvida neles.

O que é que se passa? Não podes desistir! Tu, acima de todos. O que é que está errado?

 

Mas ele manteve o véu descido.

 

— Podes falar connosco, Finbar — disse Conor calmamente. — Aqui, nós os três estamos ligados, mão com mão. Conhecemos-te. Conhecemos a tua coragem. Fala no que te perturba, se não nos abres a tua mente.

 

Conor disse aquilo com gentileza, mas havia uma tal autoridade nas suas palavras que Finbar pareceu não ter escolha.

 

— Porquê Sorcha? — disse ele. — Porquê ela para tanto sofrimento? Ela está inocente de qualquer maldade, incapaz de um pensamento mau. Por que há de ela fazer este sacrifício por nós?

 

— Porque é a mais forte — disse Conor simplesmente. — Porque dobra com o vento, mas não quebra. Sorcha é o fio que nos liga a todos. Sem ela somos como folhas ao vento, sopradas de um lado para o outro.

— Nós somos fortes. Somos todos fortes.

 

— À nossa maneira, sim. Mas cada um de nós quebraria ante uma tempestade como esta. Até tu, porque há ocasiões em que o caminho se esboroa sob os pés, ou é levado pelas correntes e então, se não tomas outro, perdes-te. Só Sorcha nos pode levar para casa.

 

— Falas por enigmas — disse Finbar, impaciente. — E tu? Como podes estar tão calmo, tão disposto a aceitar, quando vês a tua irmã magra como um fantasma, vestida de farrapos e com a carne a supurar? Eu preferia morrer, ou ficar sob esta maldição para sempre, do que deixá-la sofrer desta maneira por mim. Como podes tu aceitar isto?

 

Conor olhou para ele com gravidade.

 

— Não me julgues mal. Eu sinto profundamente a dor de Sorcha e ela sabe-o. Mas já passei por isto; e estive no limiar, entre o outro mundo e este. Talvez isso tenha facilitado as coisas porque, ao contrário de vós, carrego ambos dentro de mim. Para ti, a mudança será cada vez mais difícil. Mas as tuas dúvidas não facilitam em nada a tarefa de Sorcha. Ela precisa da nossa força, enquanto estamos aqui. Precisa de nos tocar enquanto aqui estivermos.

 

Ficámos sentados calmamente por um bocado. Ocorreu-me que Conor não tinha respondido, na realidade, à pergunta do irmão. Já era tarde e a floresta estava tranquila, com excepção do som dos golpes de machado na escuridão. Lembrei-me de uma ocasião, quando li uma vez a mente de Finbar, apesar dos seus esforços para se fechar; o frio, a queda, o voo... era isso o que ele temia, as visões, que lhe diziam o que estava para vir? O que veria ele? E seria o futuro tão mau, que ele não se atrevia a partilhar essas visões?

 

A minha mente estava bem escudada, mas Finbar falou como se conhecesse os meus pensamentos.

 

— Sorcha — disse ele suavemente. — Acredita-me quando te digo que não devias estar a fazer isto; seria melhor se te fosses embora, para longe e nos esquecesses. Deixa a floresta e procura protecção entre os santos irmãos do oeste. Nunca estarás segura aqui.

 

Torceu as pontas dos cabelos com dedos irrequietos.

 

— Vamos morrer todos? — perguntou Conor calmamente. — Lady Oonagh ficaria muito satisfeita com isso. Ofendes a tua irmã com tal sugestão, Fimbar. Nós somos irmãos dela; ela ama-nos, assim como nós a amamos; ela não poderia fazer tal escolha.

 

— Ela não deve ficar aqui — disse Finbar. O escudo da mente dele era firme; fosse qual fosse o conhecimento sombrio que nela guardava, não era para nos ser mostrado.

— Essas imagens da mente — disse Conor, mexendo nas brasas com um pau comprido — podem ser, em si mesmas, enigmas. Aquilo que vês pode ser a verdade, ou meia verdade, ou um pesadelo imaginado por ti próprio, nascido dos teus medos e desejos. O encantamento de Lady Oonagh até pode estar a funcionar, neste momento, dentro de ti. Talvez ela interfira com as tuas vozes interiores, da mesma maneira que te muda a forma. Não podes confiar nessas visões.

 

— Em que outra coisa posso eu confiar? — replicou Finbar. — Sem o conhecimento do tempo que não estivemos presentes, que outro mapa temos para guiar as nossas hipóteses? Mal temos tempo para nos recordarmos de quem éramos, antes de sermos, de novo, apagados. O nosso pai até pode estar morto. Ou pior.

 

— Ele ainda está vivo — disse Conor suavemente. — Enfraquecido pela perda dos filhos e atado pelo feitiço da mulher, mas não totalmente sob o seu domínio. Tem sobrevivido, até agora.

 

— Como é que sabes?

 

As suas palavras tinham-nos chocado, aos dois; fizemos a mesma pergunta ao mesmo tempo, eu mentalmente, Finbar em voz alta. Os nossos olhos estavam fixos intensamente em Conor. A nossa expressão, penso, era a mesma.

 

Conor olhou para baixo, para as nossas mãos unidas, sorrindo um pouco lugubremente.

— Tendes razão, claro — disse ele. — Não se pode ser pássaro e homem ao mesmo tempo. Ao entrar nesse novo estado de consciência, perde-se a memória do velho. Não se pode ser homem sob as penas de um cisne; não é assim tão simples. Muda-se por completo; e a visão do mundo é a de uma criatura selvagem: voar, segurança, perigo, sobrevivência. O lago; o céu. Pouco mais há. Durante esse tempo, pode-se voar sobre a fortaleza de Lorde Colum, ou nadar perto da margem onde Eilis e as suas damas jogam à bola, mas não se vêem, não como um homem. Não se pode; mas eu posso.

 

Finbar suspendeu a respiração sonoramente.

 

— Eu devia saber — disse ele lentamente. — Estás muito mais longe no teu caminho do que eu pensava. Lamento, tanto como estou contente; o teu fardo pode ser mais pesado, assim.

 

Lady Oonagh. Que é dela?

 

— Ainda manda, Sorcha. E dará à luz uma criança por ocasião das colheitas. A sua influência é grande. Continua à tua procura, mas sem sucesso, porque os habitantes da floresta protegem-te.

 

— O pai. Disseste que ele não estava totalmente sob o feitiço dela. Que querias dizer? — perguntou Finbar firmemente. — Olhei para ele, surpreendido. Talvez não o conhecesse tão bem como pensava. Ele apanhou-me a expressão.

 

— O poder do encantamento é grande, Sorcha — disse ele mais calmamente. O poder da perda também é grande. Começo agora a perceber porque agiu ele como agiu. Portanto, é preciso que ele sobreviva. É preciso que ela seja detida. Mas há um limite para o preço que todos nós devemos pagar.

 

— Podia-te falar no pai — disse Conor. O som do machado na madeira cessara; os meus dois irmãos mais velhos desceram a encosta, respirando com dificuldade e sentaram-se ao pé de nós. — Podia dizer-te mais; mas, por vezes, é melhor não saber.

 

— Não saber o quê? — perguntou Liam, sentando-se entre mim e Conor e pondo-me um braço em volta dos ombros.

 

— O que se passa e o que muda no mundo, enquanto estamos naquele outro estado — disse Conor. Liam olhou para ele vivamente.

 

— Então, tu sabes — disse ele, não aprovando de imediato.

 

— Algumas coisas, sim, mas outras, não. Não posso estar em toda a parte ao mesmo tempo; o meu corpo é igual ao vosso. Simplesmente, vejo as coisas de outra maneira. Fica tranquilo, que o teu pai continua vivo e não está completamente perdido, se bem que o seu desgosto seja terrível. O que ele mais deseja é ver a filha, em cujo rosto está a última recordação daquela que mais amou e perdeu. Lady Oonagh odeia isso — disse Conor.

 

O meu queixo caiu, de surpresa. Eu? Mas, ele mal reparava em mim quando lá estava.

 

— Qual foi a história que ela lhe contou, para ele achar que ela está inocente? — perguntou Diarmid com grande amargura na voz.

 

— Isso não te sei dizer — disse Conor. — Além disso, porquê aprofundar a dor e as frustrações? Não podemos fazer nada por ele, ou contra ela, até o encantamento ser quebrado. Portanto, devemos fazer como Sorcha quer e deixá-la aqui para completar a sua tarefa, por mais que isso nos destroce os corações.

 

Foi terrível como o resto da noite passou. Sentámo-nos à lareira, falando disto e daquilo, tentando não olhar para o céu muitas vezes, à procura dos primeiros vestígios da alvorada. Mais tarde, muito mais tarde, os rapazes e Linn voltaram da sua expedição. Tinham escapado à parte mais triste da noite, preenchendo-a com actividade. Seria uma noite longamente recordada pela gente local, um Meán Samhraidh de actividade fora de normal; vários estendais ficaram sem peças, umas poucas vacarias e adegas ficaram com espaços vazios nas prateleiras. Padriac passou-me um quente vestido de lã de um vivo vermelho, vários tamanhos maior, um grande xaile e algumas meias, bem remendadas. Seriam óptimas coisas para o Inverno. Cormack trouxe uma grande saca de carne e um molho de cebolas, um queijo redondo e uma robusta corda. Ambos traziam as algibeiras cheias de pequenos tesouros. Linn lambia os beiços.

— Espero que tenhais tido cuidado para não serdes vistos — disse Liam, franzindo as sobrancelhas. — Não quero que se saiba nada sobre Sorcha entre essa gente, sabes como são as línguas. Basta um viajante para a história ir parar aos ouvidos de Lady Oonagh e isso enquanto o diabo esfrega um olho.

 

— Tudo bem, irmãozão — riu-se Cormack. — Podemos não ter a certeza se somos homens ou pássaros, mas não perdemos as nossas habilidades. Garanto-te que não deixámos qualquer vestígio. Até a cadela cooperou, não foi Linn?

 

A cadela dançava em volta dele alegremente; ele estava de volta e o mundo estava de novo no seu lugar. Podia ter chorado por ela, sabendo quão curta a sua estadia ia ser.

 

— Teremos que recompensar esta gente quando formos nós outra vez — disse Diarmid. — É errado roubar; além disso, são pobres e mal podem dispensar tais coisas. No entanto, acredito que Sorcha, neste momento, precisa mais de que eles.

 

— Não te preocupes — disse Padriac levemente, sentindo que aquela prelecção lhe era destinada. — Não nos esqueceremos. Numa véspera qualquer de um solstício qualquer, nos anos que vêm, os duendes hão de deixar-lhes à porta uma saca de madeira, um barril de cerveja e alguma quinquilharia. Havemos de voltar.

 

— Talvez — disse Finbar.

— Chega! — A voz de Liam era cortante. — Para terminar a sua tarefa, Sorcha precisa do nosso apoio, precisa da nossa confiança. Não disseste sempre que nós os sete temos de estar sempre presentes para cada um, que a nossa força está na nossa união? Claro que Sorcha há de completar a sua tarefa e nós havemos de voltar. Não tenho dúvidas nenhumas disso.

 

— Tão certo como o Sol se segue à Lua — disse Conor calmamente. — Tão certo como sete ribeiros se tornarem um grande rio que corre e rodopia sobre pedras e sob grandes penhascos, nunca hesitando na sua jornada em direcção ao mar.

 

— Na próxima vez, Sorcha — disse Padriac — hei de fazer-te um tear melhor. Pus a secar uns bons bocados de vidoeiro debaixo daquele alpendre nas traseiras da caverna. Devem estar bons no solstício de Inverno, se mantiveres a chuva longe deles. E guarda essa corda, vou precisar dela.

 

Sorri para ele; tão desejoso de ajudar e ainda tão novo. Talvez as botas já não lhe servissem, mas, na sua essência, não tinha mudado nada. Não, não era com o meu irmão mais novo que eu estava preocupada.

 

— Pergunto a mim próprio — disse Finbar com uma nota de teimosia na voz que todos reconheceram — por que é que isto tem de ser assim. Por que é que Sorcha tem que sofrer, por que se há de sacrificar tanto, quando podia estar a salvo, protegida e continuar com a sua vida em paz? Por que não deixar-nos como estamos? Pelo que sei, quando a tarefa estiver terminada, se puder ser terminada, talvez o nosso pai já esteja morto, ou mudado para sempre; por que precisamos, então, de ser salvos e arruinar a vida da nossa irmã?

Olhámos todos para ele. Houve uma ligeira pausa. Foi Conor o primeiro a falar.

 

— Porque não devemos permitir que o mal triunfe — disse ele.

 

— Porque devemos reclamar aquilo que é nosso — acrescentou Liam.

 

— E salvar o nosso pai, se pudermos — disse Cormack. — Ele é um bom homem, apesar de todos os seus defeitos e sem a sua liderança as nossas terras estão perdidas. Os Bretões, os Viquingues e os Pictos invadem as Ilhas e chegam às nossas portas.

 

— Porque Sorcha acredita que é a coisa certa a fazer — disse Padriac com uma simplicidade devastadora.

 

— Não posso permitir que Lady Oonagh escape sem castigo — disse Diarmid. — Se não fosse a minha estupidez, talvez a pudéssemos ter impedido. A minha honra exige-me que a encontre e lhe ponha um fim.

— Ouvi — disse Padriac. — Está quase a amanhecer.

 

Ficaram todos em silêncio. Um pássaro solitário começou a cantar lá em cima, nos ulmeiros. E o céu já começava a clarear com a primeira palidez cinzenta da madrugada.

 

Encaminhámo-nos para a margem. Liam ia à frente, transportando a lanterna. Eu ia ao lado de Finbar e tentei dar-lhe a conhecer os meus sentimentos, mas não sabia se ele me ouvia.

 

Vai correr tudo bem. Acredita-me. Aguenta-te e vive. Por todos nós.

 

Era como enviar pensamentos para o vazio, ser levada por uma brisa qualquer.

 

Esperámos pela luz de mãos dadas, em círculo, calados, passando força e amor de uns para os outros. Finbar estava entre Conor e eu; deixou-nos pegar-lhe nas mãos, mas estas continuavam geladas, como se nada conseguisse, nunca mais, aquecê-las. Mesmo antes da alvorada, Conor pediu-me que voltasse para a caverna, porque, disse ele, seria melhor se eu não os visse partir. Abraçaram-me, um a um; primeiro Conor e depois os outros à vez, até que só faltava Finbar. Pensei que ele se iria sem uma palavra; mas tocou-me na face e, por um momento, deixou-me entrar.

 

Mantém-te a salvo, Sorcha. Até a próxima. Continuo aqui, para ti.

O coro das aves aumentou. Era como naquela outra manhã, naquela manhã em que a névoa subira do lago e os levara de mim. Subitamente, foi de mais para mim e senti os lábios tremerem-me e as lágrimas encheram-me as faces.

 

— Vai-te embora, corujinha — disse Conor gentilmente e a voz dele chegou até mim como se viesse de um profundo e estreito túnel.

 

— Até ao nosso regresso — disse Cormack, ou talvez fosse outra coisa e então a madrugada chegou e houve o som de um vento apressado, águas que se agitaram, asas a baterem e eu corri, cega pelas lágrimas, para a caverna, onde fiquei a chorar, porque perdê-los agora não era mais fácil do que da última vez e não queria ver, ou sequer imaginar, o desaparecimento das suas mentes e a transformação deles próprios em criaturas selvagens.

 

Lá fora, Linn começou a uivar terrivelmente, ecoando pelos bosques, por sobre a água e para cima, para o vasto rosa, laranja e deslumbrante azul do céu, à medida que a madrugada se transformava em dia.