A Filha da Floresta

Juliet Marillier · Capítulo 16 de 17

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A Filha da Floresta

Capítulo Quinze

 

Navegámos durante todo o dia e toda a noite e quando finalmente acostámos estávamos na escuridão da nossa costa. Uma vez no mar, tornara-se claro que passaria a ser Liam a comandar e no fim era ele que dirigia o barqueiro, por meio de gestos precisos, para uma linha de costa selvagem, aparentemente habitada por vegetação batida pelo vento e rochas espalhadas. Cormack içou-me para fora do barco, Conor pegou no meu saco e ali estávamos nós, os sete, de pé, em Erin, mais uma vez, na noite fria. O pequeno barco desapareceu na escuridão com um leve chapinhar.

 

Os meus irmãos não tinham enjoado. Quase se tinham divertido. Entre vómitos, tivera tempo de ver o brilho de excitação no rosto de Padriac enquanto lhe permitiam segurar no leme, na vela ou no remo. Não que os meus irmãos não estivessem familiarizados com pequenos barcos; uma família de rapazes não vive tanto tempo próximo de um grande lago sem aprender, por si, algumas habilidades velejadoras. Mas aquilo era diferente. Podia detectar no rosto de Padriac a visão de mares longínquos, um desejo de aventura e terras misteriosas, para além do alcance dos mapas. Vi nos seus olhos o reflexo do que vira há muito tempo, quando libertara a coruja da mão enluvada e ela subira em espiral para o céu infinito. E ouvi a voz interior de Fimbar.

Brevemente, também ele voará para longe . O meu irmão estava sentado, calado, no barco, a capa negra mal lhe escondendo as penas brancas Regozija-te com a felicidade de Padriac. Porque este regresso a casa não é um triunfo.

 

Fôramos bem abastecidos pela casa de Harrowfield e mal alcançámos o abrigo de um bosque, os meus irmãos acamparam com a calma eficiência advinda da longa prática. Acenderam uma pequena lanterna, abrigando-a de modo a que a pequena luz não se espalhasse para além da pequena clareira onde nos sentámos.

 

— Nada de fogueiras — disse Liam. — Esta noite, não. E não procuraremos cavalos, apesar de estar ansioso por chegar a casa. É melhor chegarmos sem sermos anunciados e a pé.

 

— Assim, Sorcha fica muito cansada. — Conor vigiava-me de perto; a ver se eu acabava todas as migalhas do pão de centeio e da papa de feijão que ele me tinha dado. — É muito longe; quatro ou cinco dias, mesmo para nós.

 

Liam franziu a testa.

 

— Aqueles Bretões hão de pagar pelo que fizeram à nossa irmã. Mas temos tempo. Há outros assuntos mais importantes.

— Estou ansioso por pôr as mãos no pescoço da feiticeira. — Diarmid cerrava e descerrava os punhos. — Não podemos ir directamente e fazer justiça rápida? Contava a história a todos e fazia com que Lady Oonagh pagasse, de modo a que todos pudessem testemunhar.

 

— És demasiado precipitado — disse Cormack, cortando um bocado de pão e mastigando pensativamente. — Ainda não sabemos o que aconteceu em Sevenwaters. Liam tem razão. Não nos podemos precipitar com as espadas em riste. Essa aproximação pode conduzir a uma chacina e não só do nosso inimigo.

 

Conor olhou fixamente para o irmão gémeo.

 

— Aprendeste alguma coisa durante estes anos afora — observou ele com um pequeno sorriso. Cormack atirou-lhe com uma côdea de pão e falhou.

 

Padriac concordou, acenando com a cabeça.

 

— O elemento surpresa pode ajudar-nos — disse ele. — É melhor Lady Oonagh não saber que estamos a chegar.

Ficámos silenciosos por um instante. As recordações eram dolorosas e o medo não desaparecera por completo.

 

— Mesmo assim — disse Diarmid parece demasiado tempo para esperar.

 

— Por muito tempo que seja, não será o suficiente. O suficiente para atravessar a floresta e chegar a casa. O suficiente para voltarmos a ser o que éramos.

 

Ouvira a voz de Finbar, mesmo que os outros não a tivessem ouvido.

 

— Devemos fazer como nos aconselha Liam — disse eu baixinho. — Depois de uma jornada tão longa, devemos regressar a casa como deve ser. Eu aguento a distância. Até sou bastante forte.

 

— Hum. — Conor estava a olhar-me de alto a baixo. — Talvez consigamos que nos prometas comer cinco boas refeições por dia até lá chegarmos. Mas ela tem razão, Diarmid. É a única maneira.

 

E assim atravessámos o país a pé, os meus irmãos ao ritmo dos meus passos. Aquele caminho era diferente daquele que tomara quando deixara a floresta e o rio me transportara tão rapidamente para longe de casa e me depositara nas mãos de um bretão de passagem. Aquele caminho levava-nos através de campos abertos, de um afloramento rochoso para outro, abrigando-nos quando possível em pequenos bosques de árvores descaídas pelas tempestades, acampando de noite e partindo pouco depois do amanhecer. Evitávamos os trilhos humanos, movendo-nos como sete sombras silenciosas, o nosso avanço testemunhado apenas por falésias, rochedos e árvores. E ao terceiro dia chegamos à orla da floresta.

 

Parámos no cimo de uma encosta à medida que o Sol atravessava as nuvens e vimos um falcão solitário a pairar no ar, por cima do panorama cinzento, verde e dourado outonal que se estendia à nossa frente até onde a vista alcançava.

 

— Chegámos — disse Conor. Respirei fundo e senti um manto de paz apossar-se do meu espírito. Então, recomeçámos a andar, descendo por entre pedras cobertas de musgo, sob o manto das árvores e dirigimo-nos para casa por trilhos que nos eram familiares, sem mapa ou guia, que nenhum estranho poderia seguir. As árvores tremiam ao vento frio do Outono e eu era seguida por vozes. Sorcha, oh Sorcha. Em casa. Finalmente, chegaste. Levantou-se vento e as folhas caíam à nossa volta, numa chuva brilhante de vermelho e dourado. Irmãzinha, por que continuas tão triste? Regressaste a casa. Se levantasse os olhos, quase as podia ver. Moviam-se à luz fraca do Sol, ao vento, entre os ramos nus dos vidoeiros e dos freixos, quase invisíveis. Se me voltasse para as ver, desapareceriam repentinamente.

 

— Os postos de vigia estão desguarnecidos — observou Liam, franzindo o sobrolho. — É uma loucura. Quanto mais nos aproximávamos de Sevenwaters, mais os rostos dos meus irmãos ficavam atentos e vigilantes.

 

Passámos três noites na floresta e os meus irmãos certificaram-se sempre que eu tinha uma cama confortável de fetos e comia o que me ordenavam. O nosso avanço era lento, pois não era a única enfraquecida pela fome e falta de sono e a jornada não fora fácil. Ali, podíamos fazer uma pequena fogueira e fazer uma espécie de chá com as ervas que se encontravam à mão. Aquilo aquecia o corpo, se não o espírito. Ali, na floresta, estávamos em segurança e os meus irmãos dormiam bem à noite. Todos, à excepção de Finbar. Para ele, não havia descanso. Durante o dia, andava como que num sonho. À noite, sentava-se, de pernas cruzadas, olhando para longe, com olhos que pareciam não ver. Não comia nada; não dizia uma palavra. Era como se não estivesse ali, o seu corpo uma concha oca, cujo espírito habitava um mundo qualquer que os restantes não podiam tocar. Quanto a mim, ficava de olhos abertos na escuridão, a esperar pelo sono. Devia estar contente. Não voltara para onde pertencia, para o lugar do meu espírito, com os meus irmãos salvos à minha volta, prontos para recomeçarem as suas vidas? Não os salvara e levara a cabo a minha tarefa contra todas as probabilidades? Mas o meu coração estava engelhado e frio e a minha mente incapaz de ver um futuro se não de total solidão e sonhos por concretizar.

 

Quanto mais o tempo passava, mais eu me afastava da costa e mais reconhecia quanto abandonara. Disse a mim própria para não ser estúpida. Para não ser egoísta. Que esperava, que Red me tivesse pedido para ficar? Mesmo que isso tivesse acontecido, teria sido obrigada a recusar. Como poderia ter ficado com ele? Para o arrastar para uma vida miserável, como esposa indesejável, objecto de ódio e desconfiança para todo o seu povo? Não lhe podia fazer uma coisa assim. Aquilo que eu queria não interessava. Se eu tivesse ficado, tê-lo-ia destruído. Então, por que me sentia tão miserável?

 

Que se passava de errado comigo? Qualquer um pensaria... qualquer um pensaria que já não tens medo dos homens

 

Era a pequena voz sensata, como um banho de água fria. Tenho. Ainda tenho, disse eu para mim própria, porque ainda me recordava como aqueles homens me tinham magoado e envergonhado, das coisas que me tinham dito, com todos os pormenores. A recordação ainda me gelava o corpo, de repugnância. Nunca desapareceria. Esse era um aspecto. O outro, porque havia outro lado, era que daria quase tudo para ter de novo aquele momento, o momento em que permitira que o braço de Red me rodeasse como um escudo contra o mundo, os lábios dele encostados ao meu cabelo e o seu coração batendo contra a minha face. Nesse momento, ele não quisera afastar-se. Está tudo bem. Está tudo bem, Jenny, dissera ele. Mas não estava. Deixei-me ficar ali na escuridão, sob as árvores e amaldiçoei silenciosamente as Criaturas Encantadas pela maneira como nos usavam e abandonavam nos seus jogos estranhos, nada preocupadas com o mal que causavam.

 

Era o sétimo dia e aproximávamo-nos dos domínios de Sevenwaters. Por entre os ramos nus dos salgueiros, as águas do lago brilhavam e os patos chapinhavam nas poças. Estava tudo muito calmo.

 

— Não há sentinelas — disse Liam severamente. — Não há postos avançados. Qualquer homem pode vir até aqui à vontade. Que se passa com ele?

 

Emergimos da orla das árvores, por trás do castelo e o meu coração teve um sobressalto de choque. Para além dos campos murados e das cabanas, das muralhas do domínio, da colina antes vestida de belos vidoeiros, fortes freixos e nobres carvalhos, havia uma grande cicatriz, no lugar onde uma extensão de árvores mais velhas tinha caído e ardido. Não ficara um fragmento de vida, nenhuma árvore sagrada, nenhum espinheiro-alvar para suavizar a ferida. Atrás de mim, Conor começou a cantar suavemente, um lamento cujas palavras eu não compreendia, mas cuja mensagem foi direita à minha alma.

 

— Que tremenda destruição — disse Liam. — Um acto de pura premeditação, sem outro propósito senão o de fazer mal. Nem sequer deram uso à madeira, queimaram-na no lugar onde ela caiu.

 

Caminhámos ao longo da aldeia, cujas ruas estavam sulcadas e enlameadas e cujos habitantes tinham olhares tristes e atormentados. Mas aqueles habitantes eram o nosso povo, povo esse que conhecia a ténue linha que separava este mundo do outro. Todos eles tinham visto já um primo ser levado pelos duendes, ou encontrado uma criança estranha sob um monte de urtigas, ou falado com alguém que se aventurara demasiado dentro de uma caverna, ou entrara num anel de cogumelos à luz do luar. Não havia perguntas, olhos semicerrados ou olhares de desconfiança. Em vez disso, saíram de suas casas com os rostos sorridentes e as mãos estendidas em sinal de boas-vindas. Só quando olharam para Finbar é que se calaram, num silêncio de profundo respeito.

 

— Mister Liam! Mister Conor! Voltastes! — Niall, o moleiro, avançou para dar uma palmada no dorso de Liam.

 

E Paddy, o porqueiro, com um sorriso de orelha a orelha, agarrou no braço de cada um dos irmãos, exclamando:

 

— Até que enfim, que voltastes! Eu não disse que eles haviam de voltar, Mary, não disse?

 

E antes de eu ter dado dois passos pela rua acima já a neta do velho Tom me segurava pelo braço, levando-me até à sua cabana, para ouvir o peito asmático do velho. Prometi-lhe uma infusão de bálsamo e hortelã-pimenta, para lhe facilitar a respiração.

 

— E uma fogueira — acrescentei. — Gela-se, aqui dentro. — Tens de acender uma fogueira.

Mas não havia lenha seca, nem homens lá em cima, para ajudarem a cortá-la e armazená-la. Este ano, as colheitas não tinham sido nada boas; a distomatose tinha-se instalado com as chuvas de Outono. Pouco fora armazenado para a fria estação que se avizinhava. Os rebanhos tinham sido atacados pela peste e tinham morrido muitas cabeças.

 

— E o nosso pai? — perguntou Conor, com as sobrancelhas escuras franzidas. — Ele não tomou providências para o vosso bem-estar, durante estes últimos Invernos? Não há nenhum feitor para vigiar as searas, nenhum intendente para entregar provisões àqueles que estão em dificuldades?

 

Os camponeses balançaram de um pé para o outro, pouco à-vontade.

 

— Então? — perguntou Liam, parecendo exactamente como o nosso pai.

 

— Lorde Colum, ele... ele não tem sido ele, desde que vós desaparecestes — arriscou o moleiro. — As coisas mudaram para todos nós.

 

— Que queres dizer? — perguntou Cormack, franzindo o sobrolho. Mas ninguém estava preparado para responder.

Assim, com promessas de ajuda, de reparações e provisões, deixámos a aldeia e encaminhámo-nos, pelo trilho de carroças, para a nossa velha casa. E ali, na barreira de espinheiros-alvar, por fim, encontrámos uma sentinela.

 

— Quem vem lá? Dizei quem sois e ao que vindes! — Não podíamos ver o homem, mas a voz parecia-nos familiar.

 

— À vontade — respondeu o meu irmão mais velho. — Sou Liam de Sevenwaters. Regressado a casa com os meus irmãos e a minha irmã.

 

— Regressados para reclamar aquilo que nos pertence — acrescentou Diarmid, carrancudo.

 

O homem apareceu com a espada apontada, firmemente, na nossa direcção. Estava vestido com um corpete de pele, de calças e por cima uma túnica muito usada com, no peito, o símbolo orgulhoso dos dois colares interligados; o brasão de Sevenwaters. A boca do homem ficou aberta e a espada caiu no chão.

 

— Liam! — um grande sorriso espalhou-se pelo rosto crestado.

— Donal! — Porque era o velho mestre-de-armas, que fora banido pelo nosso pai, à exigência da sua nova mulher. — Pensei que te tinhas ido há muito destas terras! Pensei que isto estava desguarnecido. Afinal, sempre há algum senso, aqui.

 

— Muito pouco — grunhiu Donal, dando grandes palmadas nos ombros de Liam e abanando a cabeça de espanto. — Por tudo o que há de mais sagrado, que bom é ver-te, rapaz. Vinde, vinde, eu levo-vos até casa.

 

Mas assim que nos aproximámos do pátio ele já não pareceu muito interessado em continuar. Em vez disso, fizemos uma pausa no local onde eu o ouvira, em tempos, ser despedido pelo meu pai e Conor explicou-lhe o que nos acontecera e onde estivéramos.

 

— Hum — Ruminou o velho guerreiro pensativamente, quando a estranha história terminou. — Contaram-se muitas histórias por aí, claro e o povo achou que ela tinha a mão no caso. Bastava olhar para ela, para ver que não prestava. Alguns disseram que vós tínheis desaparecido para sempre, mas eu sabia que vós os sete éreis capazes de olhar por vós próprios. Era apenas uma questão de tempo, o vosso regresso. — Olhou para Finbar e abanou ligeiramente a cabeça. Mas vejo que o vosso irmão mudou, infelizmente.

 

Ninguém fez qualquer comentário e talvez Finbar nem tivesse ouvido, tão ligeiro fora aquele movimento. Donal voltou a abanar a cabeça.

 

— Ides encontrar as coisas mudadas, aqui — avisou ele — Muito diferentes. Fiquei chocado, posso dizer-vos. Também voltei há pouco tempo, pensando que o passado tivesse sido esquecido e que talvez houvesse aqui um lugar para mim. Estou muito velho para pôr a minha espada ao serviço de quem mais paga. Três anos disso foram suficientes. Comecei a ouvir histórias, por volta do solstício do Verão, de que Colum estava em apuros. Isso fez com que eu voltasse e fiquei. Alguém tem que montar guarda

 

— Apuros? Que espécie de apuros? — perguntou Liam.

 

— Diziam que ele estava a perder a garra. Que os homens estavam a desertar aos magotes, os postos desguarnecidos, os concelhos abandonados. As selecções de Outono por fazer e a maior parte do gado morreu à fome, no Inverno passado Os campos foram desbravados sem qualquer propósito. Diziam que ele já não queria saber. Ela dominava-o e ele não conseguia libertar-se

 

Diarmid andava de um lado para o outro impacientemente, as sobrancelhas carregadas e a mão no punho da espada.

 

— Onde está ela? — perguntou ele impacientemente. — Onde podemos encontrar Lady Oonagh?

 

Seguiu-se uma pequena pausa.

— Foi-se embora — disse Donal.

 

— O quê? — O ar pareceu fender-se com a fúria e a frustração de Diarmid. — Foi-se embora? Como, foi-se embora?

 

— Fez as malas e partiu à pressa, há sete ou oito dias atrás, ao anoitecer. Como se tivesse apanhado um susto. Levou o filho e os homens dela e desapareceu na noite. Foi um alívio, digo-vo-lo eu.

 

— Ela levou o nosso irmão? — Havia uma nota de preocupação na pergunta de Conor — Portanto, Ciarán também foi?

 

— Foi o golpe final no vosso pai — disse Donal sobriamente. — Ides encontrá-lo muito alterado.

 

— As tuas palavras perturbam-me muito — disse Conor franzindo o sobrolho. — Como é que ele está, agora que ela se foi?

 

— Colum sempre foi forte — disse Donal. — Mas a vossa perda foi um grande golpe. Alguns dos antigos servidores da casa ficaram e eu soube o que lhe aconteceu por eles. Culpou-se a si próprio pelo vosso desaparecimento e talvez com razão. À medida que o tempo passou, a culpa começou a comê-lo por dentro. Ele podia ter feito mais, mas não conseguia ver-se livre dela. Perdeu a vontade. Os esforços dele para vos encontrar foram em vão. Agora que estais aqui, por fim, não vos posso dizer se ides ser recebidos com alegria, ou simplesmente com confusão.

 

— Disseste que ele tentou encontrar-nos — disse eu, sem me aperceber. — Disseram-me... disseram-me que lhe ofereceram o meu regresso em troca de ouro ou terras. E que ele recusou.

 

— O quê? — O tom de Diarmid era de ultraje. Cormack praguejou.

 

— Pergunta-lhe — disse Donal gravemente. — Diria que isso é impossível. Ele não desejava outra coisa senão o teu regresso. Acredito que ele teria dado tudo para o conseguir. Quem te disse isso devia estar a mentir.

 

— Veremos — disse Liam, de rosto fechado.

 

Se eu contasse uma história semelhante, que não inventada por mim, dar-lhe-ia um fim limpo e satisfatório. Os filhos regressariam a casa e o pai recebê-los-ia de braços abertos. A madrasta malvada seria punida pelo mal que fizera e seria banida da casa. O pai e os filhos poriam tudo em ordem e viveriam todos felizes para sempre. Nessas histórias não há fins maus. Não há pontas a desenvencilhar, ou fios retorcidos. As filhas não dão o coração ao inimigo. Os maus não desaparecem assim sem mais nem menos, levando com eles a satisfação da vingança. Os jovens não acabam divididos entre dois mundos. Os pais sabem onde estão os filhos.

 

Mas aquela era a minha história. E, surpreendentemente, fui a primeira a encontrar o meu pai, porque quando os meus irmãos seguiram Donal até ao interior da casa, eu escapei-me até ao meu velho jardim, que Oonagh, no seu ódio, tinha destruído. Então, ficara com o coração destroçado. Quão fraco conhecimento tinha da dor, então.

 

O meu jardim continuava um amontoado de pedras e terra revolta, mas as estações tinham sido amáveis desde a minha partida. O musgo cobria o carreiro destruído e vencera a parede de pedra. As trepadeiras emaranhavam-se em redor dos restos de uma ramada; na Primavera estariam cobertas de flores de um branco alvo. Havia vistosas espigas de alfazema entre as ervas daninhas, uma ligeira névoa azul-acinzentada e conseguia cheirar o aroma curativo do tomilho. A porta da oficina estava entreaberta. O velho banco estava quase completamente coberto por uma penugem frondosa de absinto e camomila e nele estava sentado o meu pai, envolto numa capa escura, olhando em frente com olhos vazios O seu rosto, em tempos severo e forte, parecia enevoado, como se alguém tivesse passado um pincel molhado sobre as feições de um rei, num retrato qualquer. Dos seus dois cães-lobos, que em tempos lhe seguiam todos os passos, não havia sinal.

 

Atravessei o jardim, pisando com cuidado no pavimento escavacado. Ele virou a cabeça lentamente ao ouvir o som e os seus olhos profundos ficaram com uma expressão de puro espanto. Aproximei-me.

 

— Niamh? — perguntou ele, incrédulo.

— Não, pai — disse eu, engolindo com dificuldade. — Sou eu, a Sorcha, a sua filha. Voltei para casa. Voltámos todos para o pé de si, sãos e salvos.

 

Sentei-me no banco ao pé dele. Seguiu-se um longo silêncio. Peguei-lhe na mão e segurei-a com as minhas. Tremia.

 

Não sabia o que dizer. Quando partira era uma criança e ele uma severa e distante figura, que eu mal conhecia. Agora, era como se eu fosse o pai e ele a criança.

 

— Pai? — arrisquei. — Sabe quem sou eu? — Ele demorou muito tempo a responder.

 

— A minha filha era uma rapariguinha — disse ele finalmente. — Já... já passou um certo tempo. Perdi-os, sabes? A todos. Até o mais pequeno.

 

À nossa volta, o jardim estava tranquilo.

 

— Pai, talvez fosse melhor entrarmos. Os meus irmãos estão cá, todos. Já está tudo bem. — Mas eu sabia que não era verdade.

Ele suspirou.

 

— Não me parece. Ainda não. Vou ficar aqui um bocado. Vai tu. — Voltou a cair no silêncio e os olhos voltaram a perder o interesse. Por fim, levantei-me e caminhei até à porta, o meu vestido roçando pela camomila e pelo tomilho rastejante, despertando um aroma doce no ar frio da manhã. Quando cheguei à porta, ele falou de novo, por trás de mim.

 

— Lamento, Niamh — disse ele. — Lamento tanto.

 

Mas quando virei a cabeça ele não estava a olhar para mim. Poder-se-ia dizer que o seu olhar estava fixo no muro de pedra, mas eu pressenti que ele estava a ver algo mais longe, tão distante como uma velha recordação, ainda doce e forte como a nota de uma harpa e tão dolorosa como um golpe profundo de espada. Entrei para procurar os meus irmãos.

 

Levaria tempo. Era o que Conor ia dizendo, à medida que cada um de nós tomava parte nas diversas tarefas que era necessário levar a cabo, decisões que precisavam de ser tomadas. Tempo para que o pai voltasse a ter força de vontade, recobrasse de novo o espírito despedaçado, voltasse ao conhecimento de onde estava e de quem era. Tempo para que Finbar emergisse do silêncio, perdesse aquele brilho selvagem do olhar, aquela sinistra palidez da pele. Entretanto, havia trabalho para ser feito e aqueles que tinham a força e a vontade tinham que o fazer. Felizmente, o meu pai não tinha primos, ou sobrinhos, que se pudessem ter habilitado ao domínio, na ausência dos seus filhos. Mas tinha vizinhos poderosos, que não tardariam muito em tirar vantagem da fraqueza de Lorde Colum. Ouvi Liam discutir isso com Donal em frente de uma taça de hidromel, nessa noite.

— É incrível como Eamonn ainda não deu um passo para atacar — disse Donal.

 

— Seamus Redbeard continua nosso aliado, se bem que tenha casado Eilis com esse traidor — disse Liam. — Conheço-o bem e quando chegar a ocasião, ataco. Eu tinha relatado ao meu irmão mais velho, já há muito tempo, a duplicidade de Eamonn e a sua aliança com Richard de Northwoods. Liam ouvira-me com gravidade, retendo a fúria. Não disséramos nada a Diarmid sobre os laços entre esses homens e Lady Oonagh porque, dissera Liam, era uma situação que exigia um tratamento delicado e um cálculo preciso. Em devido tempo, ele e Seamus lidariam com a situação. Diarmid, ardendo, com razão, de desejo de vingança, ficava melhor de fora até o assunto ficar resolvido.

 

— Eu sei que a ideia de vingança rápida é tentadora — continuou Liam. — Mas tenciono empregar métodos subtis, porque o homem tem informações úteis para nós e preciso de saber quais são, antes de lhe dar um fim

 

— Seamus já tem um neto — observou Donal. — Não temes essa aliança? Quem pode dizer se o velho não muda de opinião?

 

Liam teve um pequeno sorriso, que não lhe chegou aos olhos.

 

— O filho de Eamonn não será criado como inimigo de Sevenwaters — disse ele.

A notícia do nosso regresso espalhou-se depressa, como todas as notícias do género. Assim como a história do que Lady Oonagh nos fizera e da tarefa que eu completara, de maneira a libertar os meus irmãos do seu encantamento. Como já disse, o nosso povo aceitava estas situações sem grandes surpresas, mas com o tempo a história foi aumentando e enriquecendo, tomando lugar entre as grandes e heróicas lendas que o povo contava nas longas e frias noites de Inverno depois do jantar, frente a uma caneca de cerveja. Na história não se dizia grande coisa sobre os Bretões e como me tinham ajudado; à excepção de Lorde Richard e da tentativa de me queimar viva. Toda a gente gosta de um bom vilão.

 

Liam calçou as botas do nosso pai, como sempre pensámos que o faria, um dia. Restava pouco pessoal da casa aquando do nosso regresso. Donal e uma meia dúzia dos homens do meu pai, aqueles cuja lealdade os impedia de se irem embora, mesmo naquelas condições; aqueles, demasiado fortes, ou teimosos, que Lady Oonagh não conseguira corromper. Fat Janis, de olhos encovados e magra como um cão, sempre na faina numa cozinha quase vazia, apenas com os restos de uma tardia e desesperada colheita. Um par de rapazes, que dormia nos estábulos e que tratava dos animais. Era tudo. Mas, aos poucos, começaram a voltar, um grupo de homens hoje, um par de criadas risonhas no dia seguinte. Todos sentiram a força da língua de Liam, pela sua deserção. Todos encontraram um lugar na casa e começaram a trabalhar. Começaram a aparecer visitantes de longe, que passavam as noites em profunda discussão com o meu irmão. Acreditava que um dia Eamonn de Marshes acordaria para descobrir que lhe fora estendida uma armadilha, da qual não escaparia. Não pedi quaisquer pormenores. Durante o dia, a voz de Donal percorria o pátio e ouvia-se o som familiar do choque de metal com metal, juntamente com o rufar dos cascos dos cavalos. Na cozinha, Janis ladrava ordens, ao mesmo tempo que a lenha era cortada e os fogões alimentados e a roupa era esfregada e pendurada a secar. A casa de Sevenwaters recomeçou, lentamente, a respirar.

 

Pareceu-nos, de algum modo, natural, regressar ao vidoeiro da nossa mãe, num dia em que o ar estava seco e frio e as árvores nuas continuavam em volta do pequeno relvado, à beira do lago. Não planeámos nada. Mas parecia que o tínhamos feito, quando naquela manhã especial segurei Finbar pela manga e o guiei através da floresta, ao mesmo tempo que os outros se encaminhavam também para a margem, sozinhos ou aos pares, até que os sete se encontraram todos no local. Desta vez não houve objectos rituais, nem qualquer cerimónia. Limitámo-nos a colocar-nos em círculo em volta do tronco prateado da árvore, deixando que o silêncio nos entrasse nos espíritos. Uma voz, dentro de mim, disse, Estás aqui. Regressaste a casa, minha filha e a ferida sarou. Não nos deixes de novo. Mas se era a voz da minha mãe, ou a voz da própria floresta, não sabia.

 

Observei os rostos dos meus irmãos enquanto eles permaneciam ali, silenciosos. O feitiço fora quebrado e nós regressáramos a casa. Isso era verdade. A casa desfeita, as alianças quebradas, podiam ser refeitas com trabalho árduo. Mas havia um dano mais profundo, que continuava por consertar e que talvez nunca o viesse a ser. Enviei uma súplica às Criaturas Encantadas, para que os meus irmãos pudessem voltar a ser o que eram, todos eles. E que eu conseguisse, de algum modo, libertar-me daquela terrível dor no peito, que parecia não querer desaparecer.

 

— Estamos quase no Inverno — disse Conor, baixinho. — Depois da escuridão do Inverno, vem a luz da Primavera. Depois do sono do Inverno, acordamos para a Primavera. Não podemos perder a esperança, quando esta verdade nos é mostrada, ano após ano.

 

Mas os outros não disseram nada e após uns momentos cada um de nós tocou com a mão na casca pálida da árvore, regressando depois lentamente a casa.

 

Nem todos se limitaram a apanhar os cacos e a começar de novo. Para Diarmid, era-lhe insuportável que a nossa madrasta tivesse desaparecido na floresta sem ser vista, aparentemente incólume, levando o filho com ela. Ela tinha de ser punida. Devia pagar pelo que fizera. Sem a devida vingança, a história não podia terminar, o padrão não ficava completo. Liam e Conor tentaram chamá-lo à razão. O que fora feito, não podia ser desfeito, disse Conor. Ele tinha que deixar partir a ira e começar de novo. Era como se não houvesse outra saída para as energias dele. Diarmid era um diamante em bruto. Ela tinha de pagar. A feiticeira tinha de pagar. Por que não iam em frente, procurá-la e exigir o preço?

 

Permaneceu no fio da navalha da sua ira e os seus oponentes é que pagavam a factura na prática diária, no pátio. Lutava com uma intensidade assustadora, não se preocupando, aparentemente, com a sua própria segurança. Sempre que um ataque envolvia Diarmid, lá estava Donal por perto, observando cada movimento; e ainda bem.

 

Finbar não se aventurava fora do castelo, porque as pessoas seguiam-no e esticavam os braços para lhe tocar nas penas suaves da grande e brilhante asa, como se fosse um talismã; e ele retraía-se ao mínimo toque, como se algo da criatura selvagem continuasse a viver dentro dele. Eu tinha medo por ele e não sabia como ajudá-lo.

 

Conor fez um inventário dos magros haveres. Lançou o olhar sobre o gado que restava, o estado das casas de lavoura, as necessidades de conserto de cabanas e celeiros. Deslocou-se a outras aldeias para se assegurar da lealdade dos rendeiros locais, para verificar o estado das manadas e dos rebanhos e em nome de Liam para tentar conseguir aprovisionar os postos avançados de guarda. Mas andava invulgarmente abstracto, passando muito tempo a uma janela, olhando para a floresta; como se estivesse à espera de qualquer coisa. Algumas vezes desaparecia, simplesmente, para regressar à noite sem qualquer explicação. E recebia os seus próprios visitantes. Anciãos vestidos com grandes mantos e jovens com olhos de ancião. Falava com eles em particular, fora de portas e depois ficava muito quieto, como se os seus pensamentos estivessem num local distante, longe de Sevenwaters.

 

Entretanto, os aldeões começaram a sucumbir a uma maleita invernal que atingia o peito, provocando farfalheira e fazendo com que o corpo sentisse calafrios. Tirei Cormack do pátio, onde passara a desempenhar o papel de braço direito de Donal, como se já o tivesse feito antes. Encontrei Padriac no estábulo, onde estava a tratar de um cavalo coxo, com os dois rapazes pendurados de cada palavra que ele dizia. Arranjei uma carroça carregada de lenha e os três, juntamente com os dois rapazes, fomos até à aldeia e assegurámo-nos de que todas as casas recebiam um pequeno fornecimento. Levei sopa, que Janis inventara com cebolas, azedas e bocados de uma galinha velha. Não me faltava trabalho. O Velho Tom estava muito doente; não sabia de nenhum bálsamo, ou hortelã-pimenta, que lhe conseguisse curar a tosse. O fogo ajudou-o um pouco. Mas havia outros que podiam ser salvos, se lhes ministrasse os devidos cuidados.

 

De regresso a casa, pus uma das raparigas a apanhar e preparar as ervas que ainda cresciam em volta da casa e no jardim e começámos a armazená-las de novo, nas prateleiras da ervanária. O meu trabalho era aquele; aquele era o meu lugar. Eu era a filha da floresta, uma criança que crescera no coração do seu misticismo, imutável, se bem que nunca o mesmo. Mas não conseguia apagar as imagens que subiam do meu coração. Desejava-o tanto; queria-o ao pé de mim, ansiava por sentir os seus braços em redor do meu corpo, ouvir a voz dele, muito baixa, como quando lutava por controlar os seus sentimentos. Está tudo bem, Jenny. Tudo bem. Os meus dias de trabalho iam passando e, por mais que tentasse, a cada momento que passava, a minha mente imaginava onde estaria e o que faria nesse mesmo momento. Imaginava-o no salão de Harrowfield, resolvendo as disputas das pessoas da sua casa, escutando gravemente, distribuindo o seu parecer com sensatez. Pensei nas manhãs de Inverno, nele e em Ben, praticando os seus jogos de guerra. Corpos em esforço, um contra o outro, cabelos louros contra cabelos cor de fogo. As raparigas amontoadas à porta, admirando-os. Depois de terminarem, os dois homens dariam pancadas nos ombros um do outro, rindo. Ben diria uma piada idiota. No dia seguinte talvez fossem reparar um telhado, construir um muro de pedra, ou partir o gelo dos barris de água. Os aldeões de Harrowfield não passariam fome, nem sucumbiriam a maleitas por falta de cuidados. Não dissera adeus a Margery. Sentia-me triste por isso. Talvez Johnny estivesse agora a dar os primeiros passos. Não veria isso. Tinha de aceitar que nunca mais veria Red. Tinha de o esquecer e continuar por um novo caminho. Mas, tal como Diarmid, descobri que não conseguia esquecer.

 

Diz-se que o tempo cura as doenças do coração e que tais sentimentos se desvanecem devido à ausência. Comigo, não. Durante o dia, exauria as minhas forças com trabalho, mas a imagem dele estava sempre presente na minha mente. À noite dormia pouco e, quando conseguia dormir, sonhava com o que perdera. Os meus irmãos brincavam com isso, chamando-lhe paixão da juventude, algo de que, em breve, despertaria. Apesar de tudo, continuavam a ver-me como uma criança e esperavam ver-me de novo no meu antigo papel em Sevenwaters, como se nada tivesse mudado. Não conseguiam imaginar que eu amava um bretão, que dera o meu coração a um homem em cuja casa quase morrera. Não servia de nada tentar explicar-lhes. Apenas Finbar compreendia a profundidade da minha ligação a Red.

 

O pai pouco falava. Gostava de se sentar no meu pequeno jardim, fosse qual fosse o tempo. Se chovia um pouco, ele abria um velho saco sobre a cabeça e os ombros e deixava-a cair. Se o vento era frio, embrulhava-se na capa. Quando não estava ocupada na aldeia, trabalhava ao pé dele, cavando, arrancando as ervas daninhas, limpando, enquanto a minha pequena ajudante trabalhava na ervanária.

 

Às vezes, encontrava também Finbar no jardim, uma figura pálida, silenciosa, cujo rosto continuava doentio e gasto; cujos olhos continham ainda um saber selvagem, para além da compreensão humana. Desde a última noite em Harrowfield que ele erguera um escudo, escondendo de mim os seus pensamentos e a sua voz interior continuava silenciosa. Não sabia o que se passava com ele; mas sabia que falava com o pai, mentalmente.

 

Talvez o pai lhe respondesse da mesma maneira. Recordei o que o padre Brien nos dissera, há muito tempo. Como os anciãos teriam escolhido Colum, como ele quisera aprender o seu ofício secreto e memorizara os conhecimentos, para se tornar, com o tempo, um membro daquela irmandade mística. Mas Colum pousara os olhos em Niamh, naqueles caracóis escuros, naquela pele branca como o leite e naqueles grandes olhos verdes e perdera o coração. Depois disso, só havia um caminho para ele. E assim Conor fora escolhido no lugar dele. O padre Brien falara de amor e da nossa família. Que dissera ele? Ainda não sabeis nada do amor que atinge como um raio, que vos aperta o coração, tão irrevogavelmente como a morte, que se torna a estrela polar, pela qual guiais o resto das vossas vidas... está na natureza do vosso sangue, amar assim.

 

Eu já sabia, infelizmente, o que era amar assim, como o meu pai amara a minha mãe. Percebi que Finbar tentava ajudar o pai a recuperar o conhecimento, de volta a um lugar onde ele pudesse tocar neste mundo sem ser destruído pela culpa, pelo desgosto, pela angústia. Eles ficavam sentados em silêncio e eu movia-me em redor deles, apanhando alfazema e rosmaninho, incapaz de reprimir os anseios do meu próprio coração.

 

O tempo ficou cada vez mais frio. As chuvas pararam e foram substituídas por dias claros e brilhantes e noite de grandes geadas. As últimas folhas caíram dos freixos, dos vidoeiros e dos grandes carvalhos, cujas raízes estavam agora cobertas pelos restos das suas coberturas de Verão. O legado de Lady Oonagh era grande e terrível. O Velho Tom morreu e a sua neta desenvolveu uma grande farfalheira e um brilho febril nos olhos. Atendi crianças cujos corpos estavam pegajosos de suor, que berravam por água fria, enquanto a neve se amontoava à porta das cabanas. Vi homens fortes ficarem débeis como crianças, agarrando-se às minhas mãos como se estivessem com medo do escuro. Nesse Inverno perdemos dez boas pessoas da nossa aldeia. Se não estivessem fracas devido à falta de tratamento, talvez tivessem conseguido lutar.

 

Estava cada vez mais cansada e zangada e só o percebi quando um dia Diarmid anunciou, solenemente, que ia em busca da feiticeira, para que fosse julgada e que se ninguém queria ir com ele, o problema não lhe pertencia. Alguém tinha que ser arrojado e ter a coragem para fazer o que tinha de ser feito, disse ele. Pegou na espada e no arco e fez-se à estrada, sozinho. Um pouco mais tarde, de lábios cerrados, Cormack selou um cavalo e foi atrás dele, porque, como ele disse, Diarmid era como uma flecha perdida, que tanto podia encontrar o alvo certo, como o errado e era melhor ele assegurar-se de que um mal maior fosse evitado.

 

— Eu trago-o de volta são e salvo — disse Cormack, ao mesmo tempo que o seu cavalo se inquietava e escarvava o solo, ansioso por partir. — Há uma criança que deve ser encontrada. O nosso irmão. Diarmid esquece-se disso, na sua paixão. Ficarei ao lado dele até que se recomponha. Voltaremos na Primavera.

Conor esticou-se do lugar onde estava, ao lado do cavalo, para apertar a mão do irmão gémeo.

 

— Tende cuidado na vossa jornada, irmão — disse ele calmamente.

 

— E tu também — replicou Cormack com um sorriso torcido.

 

Seamus veio visitar Liam. Passaram dois dias a conferenciar e chegaram a um acordo para a partilha de homens de armas e para a defesa comum das fronteiras. Falaram de Eamonn de Marshes, que se casara com Eilis. Os seus rostos estavam carrancudos e o comportamento de ambos cheio de intenções. Seamus deixou em Sevenwaters um pequeno grupo dos seus homens e promessas de ajuda. Mas, antes da partida, Seamus esteve sentado com Lorde Colum durante uma tarde inteira, falando calmamente e eu pensei ver um relâmpago de reconhecimento nos olhos do meu pai.

 

Com Diarmid e Cormack ausentes, aproximámo-nos mais uns dos outros. O Inverno estava a ser terrível e tornou-se cada vez mais difícil manter a aldeia aprovisionada, assim como os postos avançados. Trabalhávamos todos os dias até cair de exaustão. À noite, havia pouca cerimónia. A casa reunia-se, senhores, servos e homens de armas na cozinha, onde um fogo era mantido aceso. Janis providenciava o que podia, geralmente uma sopa e fatias de pão escuro. Comíamos juntos, trabalhávamos juntos. O salão estava deserto, demasiado grande para poder ser aquecido, devido à lenha cuidadosamente racionada. Quando a simples refeição terminava, este ou aquele contava uma história, enquanto Janis ia passando malgas de vinho quente com açúcar, retirado do que eu sabia ser o seu sortido, cada vez mais pequeno, de especiarias e frutos secos.

E lentamente, à medida que uma noite escura se seguia a outra noite escura, os olhos do meu pai começaram a perder aquela expressão morta, gelada e a acordar para as lendas acerca de heróicas batalhas ou amores infelizes. Sorriu um pouco quando eu contei a história da rainha guerreira com um grande apetite por rapazes. Acenou com a cabeça gravemente, quando Padriac contou a velha saga da derrota dos três gigantes por parte de Culhan, cada um maior do que o outro. Até Donal, relutantemente, foi persuadido, uma noite, a juntar-se, contando a grande viagem de Maeldun e as coisas incríveis que encontrou, como uma ilha onde as formigas eram tão grandes como cavalos, ou um pomar de macieiras que dava maçãs todo o ano, ou uma fonte que deitava, com força, leite fresco. Uma vez esta história começada, toda a gente lhe acrescentava uma coisa e passaram-se muitas noites até terminar. O meu pai sentava-se ao pé de Finbar, ouvindo aquela história e uma vez ou duas inclinou-se para o filho, fazendo um comentário em voz baixa, enquanto Finbar acenava com a cabeça muito suavemente. Então chegou o dia em que, em vez de se encaminhar para o jardim, para se sentar em silêncio, o pai foi em busca de Liam, no local onde este estava, observando os homens a adestrar os cavalos. Ficou com ele toda a tarde e o que disseram um ao outro não perguntei. Mas nessa noite havia um novo calor nos seus olhos.

 

Lentamente, começou a falar e a responder, como se nos conhecesse. No entanto, as coisas não eram como antigamente. O nosso pai parecia um homem muito mais velho. O fardo que carregava, e que nos fizera carregar, era-lhe quase insuportável e creio que, por vezes, apenas um ligeiro fio o mantinha mentalmente equilibrado. Era Finbar que olhava por ele, em silêncio, sempre presente nas sombras, como se a sua mente ajudasse a segurar a do pai, tecendo uma teia de protecção em volta do espírito que ia sarando lentamente. Assim, pai e filho começaram a entender-se mutuamente e uma outra ferida sarou. Mas a vitória fora muito cara. Finbar ficou cada vez mais magro, comendo cada vez menos e sempre sem dizer uma palavra. Não era possível uma pessoa dar tanto de si própria sem um custo terrível.

 

O meu pai quase não me falava. Dizia para mim própria que isso não era nenhuma novidade. Antigamente, parecia não saber o que fazer da sua filha mais nova, que tanto se parecia com a mãe. Agora, era como se fosse Niamh, tão parecida, que a princípio me confundiu com ela, a quem amou tanto e perdeu. Os meus irmãos contaram-lhe a minha história. Ele sabia que eu casara com um bretão, um daquela raça que ele tanto desprezava. Um daquela raça que nos roubara as ilhas que guardavam o mais sagrado dos lugares sagrados do nosso povo e para nada, apenas como um ponto de apoio para outras aventuras de ira e ganância, para ocupar a nossa terra. Disseram-lhe isso. Mas, tranquilizou-o rapidamente Liam, não fora um casamento a sério. A união podia ser anulada, disse Conor e com o tempo, encontrariam um marido adequado para mim. Com o tempo. Não havia pressa. O meu pai ouvia e não dizia nada.