A Filha da Floresta
Capítulo Quatro
Lady Oonagh tinha-me dito que as minhas viagens à aldeia deviam cessar; era inadmissível, dizia ela, que a filha de Lorde Colum andasse pela vizinhança como a filha de um qualquer remendão, com os pés cheios de lama e misturada com toda a espécie de canalha. Eu tinha que pôr todo aquele disparate de parte e começar a aprender a ser uma senhora. A música isso já era apropriado. Passei uma manhã a tocar flauta para ela e, com relutância, harpa, porque ela ordenara que o nosso pequeno instrumento fosse colocado no vestíbulo. Felizmente o meu pai, nesse dia, andava ocupado algures. Rapidamente se lhe tornou claro que eu pouco mais precisava de aprender. A costura, então. Pediu para ver os meus trabalhos e fui obrigada a confessar que não tinha nenhum. Oh, eu sabia coser e fazer a bainha de um vestido ou de uma túnica. Mas naquela casa de homens nunca fora preciso um trabalho requintado. Oonagh mostrou-me um véu da mais fina cambraia, salpicado com uma quantidade infinita de pequenos pássaros e flores. Na verdade, era belo; disposto sobre o seu brilhante cabelo, dava-lhe o ar de uma rainha. Ensinar-me-ia as técnicas de que eu necessitava para fazer um trabalho semelhante. Exigiria muito tempo e aplicação, por isso, fim às visitas aos doentes com um cesto de loções e poções. Outra qualquer que o fizesse.
— Mais ninguém tem as minhas capacidades — disse eu sem pensar. Era a verdade pura. Os olhos de Oonagh estreitaram-se e as belas e arqueadas sobrancelhas estreitaram-se de aborrecimento.
— Que pena — disse ela. — Então, essa gente terá de fazer o que fazia antes de tu apareceres, minha querida. Quero que estejas aqui com as tuas agulhas e linhas amanhã, logo a seguir ao pequeno-almoço. Temos muito tempo perdido a recuperar.
Durou apenas alguns dias. Os meus dedos, tão ágeis com ligaduras, misturas e medidas, eram desastrados e grosseiros com a agulha e a seda.
Sob o seu olhar escrutinador quebrei a linha, deixei cair a agulha e manchei o tecido delicado com o sangue do meu dedo picado. Ansiei por um dos meus irmãos para que me interrompesse e socorresse, mas nenhum deles o fez. Faziam-se planos para outra jornada para lá das nossas fronteiras e eles consultavam mapas, exercitavam os cavalos ou poliam e afiavam, interminavelmente, as armas.
Até o meu pai andava preocupado na presença de Lady Oonagh e ela não gostava nada. Algo o perturbava. Mas eu continuei a manejar a agulha, com ela sempre a observar-me. Por vezes, fazia perguntas e por vezes sentava-se em silêncio, o que era pior, porque conseguia sentir-lhe a mente a tentar penetrar na minha, como se soubesse os meus pensamentos mais profundos. Tentei escudar-me, da mesma maneira que Finbar aprendera a escudar a mente dele da minha. Mas ela era muito forte e se não conseguia ler-me os pensamentos, era muito esperta com as palavras, sabendo como estender-me armadilhas.
— O teu pai tem andado muito ocupado nestes últimos dias — disse ela de modo agradável uma manhã, olhando para mim enquanto eu cosia, laboriosamente, um longo caule com cambiantes de verde. — Parece que vai partir outra vez em campanha. Esperava que ele ficasse mais tempo em casa, mas os homens tornam-se irrequietos. — Deu uma pequena gargalhada, encolhendo os ombros estreitos dentro do vestido de veludo azul. — As esposas habituam-se a isso, eventualmente, suponho.
Odiava os esforços que ela fazia para ser tagarela, mais do que a hostilidade.
— É o trabalho deles — disse eu, franzindo as sobrancelhas para a minha agulha.
— No entanto, a última campanha foi na última estação — disse Oonagh, olhando pela estreita janela que dava para o pátio, onde Liam e Diarmid passavam e voltavam a passar a cavalo, praticando a descida e a subida para a sela em andamento, sempre com a espada na mão, um truque que eles usavam, ocasionalmente, em combate corpo-a-corpo, a acreditar no que eles me diziam. Provocava um efeito surpreendente no inimigo, diziam. — O que será que os chamará de novo tão cedo? Mais intrusos nas nossas fronteiras, talvez?
— Não sei — disse eu, desfazendo uma série de pontos.
— Ou talvez andem à procura de prisioneiros evadidos — disse ela suavemente. — O meu senhor disse-me que tenciona despedir o mestre-de-armas, porque parece que houve alguma negligência de deveres, aqui. Que estranho. Põem tanta energia naquilo que fazem. No entanto, os prisioneiros evadem-se misteriosamente de noite. Pergunto-me como pôde acontecer semelhante erro.
Fiquei subitamente gelada até aos ossos. Ela sabia. Permaneci em silêncio enquanto ela voltava para o pé de mim, sorrindo.
— Pobre Sorcha, estou a aborrecer-te, minha pobre criança. Que interesse tem tudo isto para uma rapariga, no fim de contas? Rixas sangrentas e reféns desaparecidos. Na verdade, tens tido uma infância estranha, nesta casa. Ainda bem que eu estou agora aqui para cuidar da tua educação. Mostra-me lá o que já fizeste. Oh, querida, isto está tudo torcido. Receio que tenhas que desfazer tudo outra vez.
Finalmente fiquei livre e fui à procura de Finbar; porque, de certeza, o pai não tencionava ver-se livre de Donal, que fazia parte da guarnição desde que eu me lembrava, que supervisionara todo o treino dos meus irmãos desde pequeninos, cujas feições severas e robusta constituição faziam parte da nossa família, tanto como as próprias muralhas. Mas não consegui encontrar Finbar; em vez disso, fui surpreendida por uma rapariga da aldeia, vinda em busca de socorro para a avó, cuja febre não havia maneira de descer. Como é que lhe podia dizer que estava proibida de ajudar? Aquela gente contava comigo. Fui buscar o meu saco, atirei para cima dos ombros uma velha capa, calcei as minhas rudes botas e segui a rapariga.
Assim que me viram na aldeia, outros aldeões vieram ter comigo em busca de ajuda. Após cuidar da mulher com febre, fui a casa do velho Tom, para o tranquilizar acerca de um furúnculo que lhe aparecera num local estranho. Tratei-o e ele acumulou-me de agradecimentos, louvando também o meu irmão Conor, que dera trabalho nos estábulos aos seus netos, tirando-os, disse Tom, de roda das saias da filha e ensinando-lhes, ao mesmo tempo, uma coisa útil. Depois, fui chamada para ir tratar um minúsculo e doente bebé. Deixei à ansiosa e jovem mãe algumas ervas para fazer um chá que lhe fortaleceria o leite e prometi trazer legumes frescos da minha horta.
Quando acabei já a tarde ia a meio e voltei para casa tão depressa quanto pude. Já passara muito tempo desde o pequeno-almoço e já quase sentia no seco e frio ar do Inverno o sabor dos bolos de aveia de Janis. Uma névoa começava a descer sobre os bosques de espinheiro-alvar enquanto eu subia a calçada na direcção da horta. Ia mergulhada nos meus pensamentos e quase tropecei no pai e em Donal quando virei uma esquina. Estavam absorvidos numa conversação e não me viram. Estaquei e voltei para trás da esquina, porque a calma intensidade da voz de Donal disse-me que aquela troca de palavras era extremamente privada.
— ...não é minha intenção contestar a vossa decisão, meu senhor. Mas, pelo menos, ouvi-me, antes de eu me ir embora.
A voz de Donal estava sob o mesmo tenso controlo que exercia para com as suas montadas, a sua espada e os seus homens de armas.
— O que é que tens para me dizer? — disse o pai, friamente. — A minha decisão está tomada. Que mais há?
Tinham parado mesmo à minha frente e eu não me podia mexer sem ser detectada. O pai tinha as costas voltadas para mim. Donal mantinha-se erecto como sempre, mas os profundos sulcos em volta da boca e do nariz traíam as suas emoções.
— Eu aceito total responsabilidade pelo que aconteceu. Não há desculpa para tamanho erro. Os meus homens foram exemplarmente punidos e eu recebi o vosso castigo. O passado não pode ser desfeito. Mas este grau de punição é injustificado, meu senhor Colum.
— Um prisioneiro escapou. Não foi o primeiro. Um prisioneiro importante, desta vez. Como posso eu deixar passar isso em claro? Saí daqui com o homem preso, não apenas bem guardado, mas inconsciente, que mal podia andar, quanto mais fugir. No dia seguinte, recebo uma mensagem a dizer que o cativo tinha desaparecido. Os teus homens estavam drogados. Deve ter havido ajuda do interior. Como resultado da tua negligência, a nossa posição ficou enfraquecida. Quem sabe a vantagem que tal refém nos poderia ter conferido? Não me posso dar ao luxo de um outro erro parecido. Se não consegues controlar os teus homens, não há aqui lugar para ti. Devias dar-te por contente por ter permitido que continuasses ao meu serviço enquanto o assunto era investigado. Devia ter-te despedido no dia em que regressei.
— Pai. — Não tinha percebido, até que ele falou, que Liam estava presente, fora do meu campo de visão. As botas dele fizeram barulho nas pedras da calçada. — Ouve Donal, por favor. Não tem ele sido o nosso guia e tutor ao longo destes 14 anos e mais? Devemos-lhe e a toda a sua paciência, todas as nossas capacidades. Com certeza que o despedimento é um castigo demasiado pesado por uma infracção?
— A decisão é minha, não tua — cortou o pai. — Ainda és muito novo para te meteres em tais assuntos. Talvez não estejas a ver bem a importância desta infracção. Devido a esta inaptidão e à demora em ser informado do que acontecera, o nosso prisioneiro bretão pode muito bem ter regressado a casa, conhecedor do número das nossas tropas, do nosso terreno e das nossas posições. O grupo dele não era um simples bando. Não nos podemos dar ao luxo de nos expormos desta forma.
— Ele estava quase morto naquela noite — disse Donal. — Não pode ter viajado para longe. Além disso, já tínhamos concordado em que ele não tinha nada para dizer. Creio que tereis subestimado a sua importância.
— Eu subestimei? Eu? — A voz do pai subiu de tom. — Não estás em posição de questionar o meu julgamento.
— Talvez não — disse Donal. — Mas há a questão da lealdade. Servi-vos bem, como diz o vosso filho, durante estes 14 anos. Desde os dias da vossa esposa, quando esta casa era um lugar de alegria. Transformei os vossos filhos em jovens e bons guerreiros, prontos para lutar ao vosso lado pelas vossas ilhas perdidas; bem treinados em todas as artes da guerra, para defender as vossas terras e trazer honra ao vosso nome. Gastei com eles o tempo que vós não podíeis dispensar. Vi a vossa filha crescer à imagem da mãe dela, uma rapariga tão doce e visionária como estas florestas nunca viram nascer. Treinei os vossos homens física e espiritualmente e a lealdade deles para convosco está fora de questão. Mas agora... pela senhora, Colum, devo falar, já que não tenho mais nada a perder.
— Recuso-me a ouvir — disse o pai severamente e o manto dele esvoaçou quando ele rodou nos calcanhares.
— Tens de o ouvir, pai. — As mãos de Liam pousaram nos ombros do pai, detendo-o e eu vi o punho fechado do pai erguer-se como que para esmurrar o filho e depois descer lentamente.
— Sentis dificuldade em olhar para mim e ouvir as minhas palavras. — Donal falava com alguma dificuldade. — Podeis crer, a mim ainda me é mais difícil e só o faço porque tenho de deixar este lugar que se tornou a minha casa. Meu senhor, nunca vos pedi muito, para além do meu sustento e a possibilidade de fazer um bom trabalho. Mas peço-vos que me oiçais.
Houve um silêncio. E depois o meu pai disse:
— Então?
— Vou ser directo, meu senhor. Conheço-vos bem, por vezes melhor do que vós próprio. Durante estes anos todos nunca vi o vosso julgamento falhar. Como dizem os vossos homens, por vezes sois duro, mas sempre fostes correcto. É por isso que eles vos seguem até à morte, se for preciso. É por isso que sois dono de tantas terras, da grande floresta até aos pântanos, temido e respeitado por todo o norte. Não cometeis erros. Até agora. Até...
— Continua — disse o pai no tom gelado que utilizava, geralmente, para com Finbar.
— Até conhecerdes Lady Oonagh — disse Donal pesadamente. — Desde então, a vossa mente não vos pertence. A vontade dela está por trás de todas as decisões que tomais e a sua influência cega-vos...
— Chega! — O punho do meu pai atravessou o ar e chocou, duramente, contra a face de Donal. O mestre-de-armas aguentou-se, ao mesmo tempo que uma marca vermelha lhe aparecia no rosto.
— Eu digo a verdade e no vosso coração sabeis que é assim — disse ele muito calmamente. — Nunca me haveis batido antes. Fizeste-lo por causa dela. Envenenou-vos os pensamentos e haveis perdido a capacidade de julgamento. Tende cuidado, meu senhor, porque se os vossos homens perdem a fé em vós, as vossas terras correm perigo.
— Cala-te! — A raiva do meu pai era palpável. — Não fales no nome da minha senhora, porque as tuas palavras conspurcam aquilo que não tem mancha. É assim que me pagas a confiança que depositei em ti? Desaparece da minha vista.
— Pai, ele está simplesmente a pedir-te que o oiças — A voz de Liam tremia ligeiramente. — Donal não está só nestes pensamentos. Lady Oonagh tem um poder que... que nos afecta a todos. Os teus homens não se sentem à vontade, a casa toda está intranquila. Eilis e o pai dela foram forçados a partir. A tua senhora procura dividir o irmão do irmão, o pai do filho e o amigo do amigo, até que cada um de nós esteja só. Destruirá esta família, se a deixares.
Desta vez houve uma longa pausa e eu podia ouvir a respiração do pai e ver o rosto branco e ansioso de Liam. Arriscara imenso. Após uns momentos, o pai disse lentamente:
— O que é que queres dizer, forçados a partir? A rapariga estava mal do estômago, é tudo. O que é que isso tem a ver com a minha senhora?
— Havia veneno na comida — disse Liam calmamente. — Um veneno específico, apenas no prato dela. Tentámos dizer-to. Sorcha sabe muito dessas coisas, que foi o que valeu a Eilis, senão teria morrido. Não há provas, mas os boatos espalham-se depressa.
— Culpar a minha mulher é tão estúpido como culpar a minha filha — disse o pai, mas o tom mudara, como se, por fim, estivesse a ouvir o que lhe diziam. — Por que faria ela semelhante coisa?
Para dividir pai e filho, pensei, para que o seu próprio filho possa herdar. Ou talvez o seu plano seja ainda maior.
— Houve veneno antes — disse o pai. Fixou o olhar no de Donal. — Tu disseste que deram aos teus homens uma droga para eles dormirem, no dia em que o prisioneiro escapou. E isso foi antes da chegada de Lady Oonagh. Essas teorias não passam de invenções, fantasias para salvares o teu orgulho, um estratagema para que eu mude de ideias e te mantenha no cargo por mais algum tempo.
— Isso não é verdade — disse Donal e pegou no pequeno pacote que tinha ao lado. Reparei, então, na espada e no arco, que ele tinha ao ombro. — O meu coração está aqui, assim como o trabalho da minha vida, mas sairei daqui como cheguei. Apenas te peço que prestes atenção às minhas palavras e às do teu filho. Fica avisado e toma cautela.
Estendeu o braço para tocar no cotovelo de Liam e havia lágrimas nos olhos do meu irmão mais velho. E Donal partiu, desaparecendo da nossa vista pelo caminho abaixo. Ouvi o barulho dos arreios quando ele montou o seu cavalo e o som dos cascos desaparecendo lentamente na distância. O pai olhava em frente por entre os olhos semicerrados.
— Primeiro, Eilis e o pai dela, agora Donal — disse Liam. — Se não acordas rapidamente, perdes-nos a todos, um a um.
O pai olhou para ele.
— Talvez fosse melhor dizeres-me o que queres dizer — disse ele.
Liam aproximou-se, pousando uma mão pelo ombro do pai e começou a falar muito suavemente. Um momento mais tarde ouviu-se o repique de um riso e o som de passos leves e Lady Oonagh apareceu, uma visão vestida de veludo, correndo pelo caminho, os pés metidos em delicados chinelos. Uma nuvem de cabelos vermelhos envolvia-lhe as faces coradas e os seios estavam mal cobertos pelo corpete apertado do vestido azul. Uma rede de pequeninas veias sobressaía-lhe na carne cor de pérola e subitamente percebi, talvez mesmo antes dela, que estava grávida do meu pai. A sua pele de alabastro brilhava a partir de dentro. Atrás trotava o meu irmão Diarmid, cheio de covinhas fervorosas no rosto.
— Meu senhor! — Abanava-se a si própria com a mão, fingindo exaustão. — Tão solene, tão sério! Deixai-me alegrar-vos! Está um dia bonito demais para olhares tão agoirentos!
Pôs-se em bicos de pés, as pequenas mãos segurando a frente da túnica e beijou-o nos lábios. O momento de Liam perdera-se para sempre. O braço do meu pai rodeou a sua mulher possessivamente e ela encostou-se a ele como uma trepadeira à sua árvore, enquanto regressavam ambos a casa. Eu fiquei a olhar enquanto Diarmid os seguia, abatido e confuso. Fiquei a olhar enquanto Liam apanhava uma mão-cheia de pedras do chão e as atirava de novo, com força, contra o solo. Vi-o afastar-se a passos largos na direcção dos estábulos, com a frustração nitidamente estampada no rosto. Então e só então saí do meu esconderijo.
Levou-me um momento ou dois, depois de atravessar a casa e chegar à ervanária, a perceber que algo estava errado. Quando um local nos é tão familiar, quando é nosso, tomamo-lo como certo, mal nos apercebendo das cores e formas à nossa volta, como se fosse uma extensão de nós próprios. Assim, demorei uns momentos. Tirei a minha capa e pendurei-a num prego. Virei-me para colocar o saco sobre a mesa. E depois, vi. As prateleiras estavam vazias, as ervas penduradas de qualquer maneira, e as tranças de cebolas e alhos, assim como as plantas secas, tinham desaparecido. As minhas especiarias, os meus unguentos e tinturas, as minhas roupas, badas e trouxas, todas as ferramentas do meu ofício tinham sido levadas. Havia alfazema seca espalhada pelas lajes e a porta exterior estava escancarada. De coração aos pulos, saí para o jardim.
Ao fundo, encostada ao muro, ardia uma pequena fogueira e o seu fumo odorífico espalhava uma suave nuvem sobre a devastação à minha frente. De cada lado do carreiro central, todos os canteiros haviam sido mexidos, todas as plantas desenraizadas e uma confusão de caules quebrados, raízes expostas e solo calcado cobria toda a área. Tropecei por ali, espantada. Alfazema, absinto, tanásia e camomila. Malva silvestre e rosmaninho. Andei pelo meio daqueles restos calcados e o aroma suave das folhas pisadas evolava-se num adeus. Os ramos maiores estavam atirados pelo chão ou empilhados para serem queimados. A minha árvore lilás fora cortada. Não cortes, nunca, madeira viva, dissera Conor, a não ser que precises. E nunca sem pedires ao espírito que vive dentro dela. Não lhe destruas a casa sem uma boa razão. Vagueei por ali, silenciosa, a tremer, cega, de uma vítima para outra. Os bolbos precoces, cuja vida secreta permanece escondida, profundamente, no interior das suas coberturas protectoras; os cogumelos que eu cobrira com tanto cuidado contra o frio do Inverno, cortados, esmagados, expostos, no solo revolto. A minha trepadeira, arrancada do muro e cortada em mil bocados; nunca chegaria a abrir as suas minúsculas flores brancas para dar as boas-vindas, de novo, ao sol da Primavera. Continuei a andar. O pequeno carvalho, a mais querida árvore de todas, que me chegava mais ou menos aos ombros, acarinhada e guardada desde os meus oito anos; esperara vê-la crescer, ano após ano, dar sombra e proteger o meu domínio. Fora arrancada pela base e nunca mais germinaria de novo com a vida da nova estação. Caí de joelhos, remexendo selvaticamente o solo, num vão esforço para salvar alguma coisa; mas não conseguia chorar. Aquilo estava para além das lágrimas, para além do pensamento. No meu coração dei um grande grito de angústia.
Não chamei os meus irmãos em voz alta, mas dois deles ouviram-me. Finbar foi o primeiro a chegar, envolvendo-me com os braços, afagando-me o cabelo, praguejando entre cada respiração. Um momento mais tarde apareceu Conor, avançando pelo carreiro com o rosto atormentado, chamando em altos berros pelos jardineiros, virando a sua fúria para os dois homens em quem eu não reparara, que se escondiam por trás da fogueira, de pá e ancinho na mão, encolhidos sob o interrogatório furioso do meu irmão.
Agarrei com força o gibão de Finbar e lutei para controlar a respiração. A minha cabeça explodia de raiva, desgosto e choque. Após uns momentos, ele parou de falar e tentou acalmar-me com a mente.
Chora, Sorcha. Deixa lá. O que está feito, está feito.
Até as minhas violetas! Até o meu pequeno carvalho! Podiam ter deixado ficar o carvalho!
Tu sobreviveste. Nós somos fortes. E estas coisas voltam a crescer.
Como podem elas crescer se o demónio está aqui? Como pode crescer seja o que for? As minhas ervas, as minhas ervas desapareceram, todas as minhas coisas... como é que eu posso fazer o meu trabalho sem as minhas coisas?
Chora, Sorcha Deixa lá. Nós estamos todos aqui contigo. Deixa lá, irmãzinha. A terra guarda o teu jardim no coração. Ela chora contigo.
Ele era convincente e finalmente sucumbi, com grandes soluços, encharcando-lhe a camisa enquanto ele me abraçava; e depois chegou Conor.
— Foram ordens directas de Lady Oonagh — disse ele firmemente. — Ordens específicas, sem omitir qualquer pormenor. Os homens não podem ser culpados, não tinham escolha; agora já sabem que, de futuro, têm que me perguntar primeiro. Mas para ti é demasiado tarde, pequena coruja. Lamento. Sei como trabalhaste neste paraíso e amaste os seus habitantes. Sei o que isto significa para ti e para aqueles que tu tratas.
— Só porque... só porque... — disse eu entre dois soluços.
— Ofendeste-a em alguma coisa? — perguntou Conor gentilmente.
— Não é preciso ofender. — A voz de Finbar estava fria como eu nunca a ouvira antes. Parecia-se com a do pai. — Lady Oonagh não precisa de provocação para fazer semelhante coisa. Ela vai destruir-nos, um a um, se não for detida!
— Ela... ela disse-me para não ir à aldeia — consegui eu dizer, assoando-me no lenço que Conor me ofereceu. — Mas eles mandaram-me chamar e nunca pensei... eu só queria... e ela... e ela...
Os meus irmãos trocaram olhares.
— Sorcha, respira fundo — disse Conor, levando-me para o banco de pedra, que era o único sobrevivente solitário daquela desolação. — Agora senta-te. Assim está melhor.
Ajoelharam-se os dois a meu lado e Conor segurou-me as mãos nas dele.
— Menina bonita.
Junto da fogueira, os dois jardineiros juntavam destroços, atirando mais ramos arrancados para a pilha. Atiravam olhares nervosos na nossa direcção.
— Muito bem, Sorcha. Quero que vás para o meu quarto e que fiques lá esta noite. Não tentes vê-la, ou ao pai, até termos todos falado e decidido o que fazer. Sei que estás triste; mas Finbar tem razão. As plantas crescem de novo e com a tua habilidade e amor voltarão a florescer no mais difícil dos lugares. Tu não sofreste nada. Isso é que é mais importante.
Eu não conseguia falar. A dor no coração ainda era avassaladora e as lágrimas caíam-me pelas faces abaixo. Agora que começara a chorar, parecia que não me era possível parar.
— Precisamos de falar, todos — disse Conor. — Creio que tu tens a chave disto tudo, Sorcha. Mas primeiro deves ir para dentro, precisas de tempo para te recompores.
— Aqui fora não é seguro para ela — disse Finbar rudemente. — Isto atingiu-a profundamente e, através dela, atingiu-nos a todos. Foi um golpe bem calculado e levado a cabo com perícia. Não podemos ficar parados e deixar que a nossa irmã suporte tal coisa. Devíamos mandá-la daqui para fora, antes que seja tarde.
— Agora, não — disse Conor. — Sorcha precisa de descansar. E tu, irmão, tem cuidado, porque palavras duras, agora, podem pôr-nos ainda em maior perigo. Não tentes pedir contas disto a Lady Oonagh, ou ao nosso pai. Não é essa a maneira.
— Por quanto tempo? Por quanto tempo temos de esperar antes de entrarmos em acção? Por quanto tempo, antes de o fazermos ver quem ela é, do que é capaz?
— Não muito — disse Conor, ajudando-me a levantar. O braço dele em volta dos meus ombros era forte, pesado e reconfortante. — Amanhã agiremos, porque, tal como tu, acredito que chegou a altura. Entretanto, fala aos outros no que aconteceu e manda-os ao meu quarto depois de escurecer. Mas mantém a boca fechada, irmão e mantém a tua mensagem afastada dos olhos. Lady Oonagh lê melhor em ti do que pensas.
Também tu, pensei. Apercebera-me gradualmente e ainda não era totalmente claro. Mas ele viera ajudar-me, logo a seguir a Finbar e algo que ele dissera confirmava-o. Acreditara que o encontro sem palavras era apenas para Finbar e para mim. Imaginei há quanto tempo conseguia Conor ler os nossos pensamentos e sentimentos e porque nunca nos deixara tomar conhecimento disso. Estava ligado, não sei como, ao que o padre Brien nos explicara. Supunha que, se as pessoas olhassem para nós como uma espécie de guia espiritual, pudesse querer dizer que tínhamos alguns poderes para lá do normal, talvez alguns de que ninguém suspeitasse.
— Conor — disse eu enquanto subíamos as escadas com cuidado, para não sermos vistos.
— Não faz mal — disse Conor, abrindo-me a porta para eu entrar. — Os teus pensamentos ficam seguros comigo. Raramente uso esta habilidade e só quando necessito. A tua dor, por vezes, transborda, assim como a de Finbar. Estou aqui para ajudar.
Chegámos ao quarto partilhado por Conor e Cormack. Não muito tempo depois de nós chegou Cormack, o rosto crispado, com Linn trotando logo a seguir e saltando para se instalar perto de mim, na cama estreita. Seguiram-se Padriac e Liam, o primeiro com uma taça de vinho de especiarias que era suposto eu beber, o outro segurando-me na mão, beijando-me a face e depois afastando os irmãos para falar rapidamente e em voz baixa, quase em sussurro. Após um certo tempo, foram-se todos embora menos Cormack, que ficou dentro do quarto com uma faca na mão. Finbar não voltou a aparecer. Após espalhar a notícia, tinha desaparecido para tratar de qualquer assunto seu. Eu sentia-me ferida e vazia e permaneci deitada por um bocado vendo a luz a desaparecer e deixando o cão lamber-me os dedos. E após um certo tempo o vinho fez efeito e eu caí num sono inquieto.
Mais tarde, muito mais tarde, vieram todos, todos menos Diarmid. Eu estava acordada e eles trouxeram-me pão de cevada com mel, mas eu não conseguia comer e dei-o à cadela. Talvez estivesse a sofrer do que nas histórias se chamava doença do coração. Este, o estômago e todo o interior do meu corpo sentiam-se vazios, ocos e doridos.
— Pensa nos bons tempos — disse Conor, mas eu não conseguia. Finbar, quando entrou, colocou um pequeno fardo a meu lado, na cama. Linn farejou-o, esperançada. Desfiz o pacote. Lá dentro estava o meu jardim em embrião: delgadas estacas de alfazema, tanásia, ruda e absinto; uma lasca de madeira de lilás que podia ser enxertada; uma pedra branca, redonda, do carreiro destruído; uma simples bolota. Voltei a embrulhar tudo cuidadosamente. Talvez, talvez pudesse recomeçar. O meu irmão permaneceu de costas voltadas para mim. Senti o amor dentro dele, assim como a raiva.
— Agora — disse Conor — tenho de te perguntar, Sorcha, se partilhas um segredo com os teus irmãos. Com todos.
— Que segredo? — Receava o que ele ia dizer a seguir. Lady Oonagh não conseguira fazer-me tropeçar no meu mais perigoso segredo, aquele que, certamente, poria irmão contra irmão. Porque três deles eram guerreiros, comprometidos com a causa, sempre prontos para a vingança sangrenta; e três deles procurariam sempre arbitrar, emendar, lutar com palavras, não com golpes violentos.
— Ele está a falar na Visão, no espírito que viste na floresta, Sorcha — disse Finbar do seu canto escuro. — Conor crê que isso nos pode ajudar. Podes dizer-lhes.
— Ela veio ter comigo — disse eu. — A Dama da Floresta. Tal como nas histórias. Ela... ela falou-me, acerca do que eu devo fazer da minha vida. Que o percurso seria longo e difícil e que eu devia manter-me nesse caminho. Foi tudo.
Nem tudo. Mas eu não contaria o resto.
— Se lhe pedisses, achas que essa Visão te apareceria de novo? — perguntou Liam. O quarto estava escuro, apenas com uma única vela acesa e os meus irmãos pareciam altos e severos nas sombras, três deles em volta da cama, Finbar no canto mais distante e Padriac de guarda junto da porta.
— Ela não me aparece só porque eu lhe peço — disse eu, recordando quão desesperadamente eu procurara orientação nas minhas tentativas para ajudar Simon. — Ela só aparece quando acha necessário.
— Lady Oonagh abre as asas cada vez mais a cada dia que passa — disse Conor. — O poder dela está a crescer. Eu acho que precisamos de arranjar uma força ainda maior para a combater. Tu podias tentar. No local certo, na altura própria, connosco à tua volta, podias tentar.
— Fazes isso por nós, Sorcha? — Cormack só se apercebeu mais tarde daquilo que estava em questão. Linn levantou a cabeça ao ouvir o som da voz dele. A ferida dela estava a começar a sarar muito bem.
— Como? — perguntei. — Quando?
Olharam todos para Conor. Subitamente, ele parecia ter mais de 16 anos, como se outra sombra dele próprio lhe pairasse por cima.
— Amanhã — disse ele. — Ao pé da árvore da nossa mãe, ao amanhecer. Tratarei do que for necessário e Sorcha vai comigo. Tu, Liam, tens de fazer com que Diarmid também lá esteja. Não me interessa como, trata de o levares lá. Temos de estar todos presentes. Sem cavalos; vão a pé. Sorcha, leva um pacote com coisas para uma noite ou duas, porque não vais voltar para aqui por uns tempos. Tu também, Padriac. Não vou deixar a Sorcha longe, sozinha. Depois de acabarmos, vão os dois ter com o padre Brien e ele arranja-vos um lugar seguro. Acho que o próximo passo dela será matar, talvez virando-nos uns contra os outros. Seremos um bando bem miserável, se não conseguirmos proteger a nossa irmã de tal poder demoníaco.
— Quais são os teus planos, Conor? — perguntou Cormack, olhando de perto para o irmão gémeo.
— Não me perguntes — disse Conor. — Quanto menos souberem, melhor. Não podemos levantar quaisquer suspeitas. Por que é que tu pensas que afastei Sorcha e Finbar da nossa refeição da noite? Ambos são como livros abertos, dizem a verdade com risco das próprias vidas e quando guardam silêncio os pensamentos deles ardem-lhes nos olhos como um farol. É admirável, mas perigoso. Já foi suficientemente mau com o nosso irmão mais velho, aqui, sentado de lábios fechados e franzindo as sobrancelhas às polidas perguntas de Lady Oonagh.
— Ela está furiosa, apesar das boas maneiras — disse Liam. — Ela impediu-me, esta tarde, de falar com o pai. Mas não antes de ele sentir qualquer coisa; não antes de uma pequena semente de dúvida ter sido plantada. Ela deve estar pronta para agir muito brevemente; leio-lhe essa intenção nos olhos.
— Também eu — disse Conor gravemente. — Portanto, fica longe esta noite. Quando o Sol se levantar sobre o lago, encontramo-nos na margem onde cresce a árvore da nossa mãe. Acredito que conseguiremos invocar um poder perante o qual até Lady Oonagh será forçada a recuar.
Cormack deixou o cão dele comigo, como companhia, foi dormir num local qualquer e foi o próprio Conor que ficou de guarda à porta nessa noite, com uma arma perto. Eu dormi aos repelões, acordando muitas vezes sobressaltada, como nas longas noites junto do padre Brien e de todas as vezes o meu irmão estava ali, de pé, com o olhar fixo numa distante visão qualquer, entoando cânticos, suavemente, numa língua desconhecida para mim. Talvez a meia luz me estivesse a pregar uma partida, ou talvez não, mas pareceu-me que ele permanecia com um pé ligeiramente levantado do chão e um braço flectido atrás das costas; e só um dos olhos estava aberto. Permanecia imóvel como uma pedra. A única vela provocava sombras na parede e, por um momento, vi uma ave de grandes asas brancas a voar e uma grande árvore. Deslizei de novo para o sono.
O dia seguinte amanheceu cheio de orvalho e uma névoa persistente cobria a margem do lago. Partimos antes da alvorada e a barra do meu vestido em breve estava ensopada. Segurei com força no pequeno pacote que trouxera comigo. Não tinha muitos tesouros. Percorremos os caminhos da floresta em completo silêncio e sem qualquer luz. Conor ia vestido de branco e eu seguia-o como uma pequena sombra confiante. Atrás de mim, Linn seguia os meus passos. Sentindo uma necessidade de secretismo, refreava a vontade de perseguir qualquer som na vegetação e permanecia em silêncio.
Fomos os primeiros a chegar ao nosso destino. No entanto, já outros lá tinham estado antes de nós, porque na relva ao lado do jovem vidoeiro, onde nos juntáramos tantas vezes antes, havia objectos ali depositados com precisão, esperando a nossa chegada. Os primeiros sinais de pré-alvorada permitiam distinguir margaridas brancas e amarelas, espalhadas pela relva a leste da árvore, onde o solo subia na direcção da floresta. No meio delas estava uma faca, desembainhada, com cabo de osso. No lado ocidental, onde a margem descia para o lago, uma tigela de barro, pouco profunda, permanecia encostada à árvore e, como o cálice de Isha, estava cheia, até às bordas, de água límpida. A sul e a norte, uma delgada vara de vidoeiro e uma pedra cheia do musgo do coração da floresta. Tais eram os preparativos para a nossa cerimónia. Não sabia quem ali pusera os objectos rituais nem o ia perguntar a Conor, porque sentia a necessidade de guardar silêncio, um imenso secretismo e a importância do momento. No entanto, tentava imaginar quem os teria levado para ali, já que o meu irmão estivera comigo toda a noite.
Lentamente, foram chegando. Cormack, uma figura alta, saindo da névoa. Logo a seguir a ele Padriac, transportando um pequeno pacote como o meu. Conor mantinha-se perto da árvore, à espera. Um a um ocupámos os nossos lugares ao lado dele, sem falar. Subitamente, senti Finbar ao meu lado, se bem que não o tivesse visto ou ouvido chegar. O seu sussurro urgente quebrou o silêncio.
— Sorcha. Olha para isto. Diz-me o que é. — Uma pequena garrafa com uma tampa de vidro. Um pequeno vaso elegante, próprio para o perfume de uma senhora. Retirei a tampa, cheirei e retirei uma pequena quantidade de pó negro para a palma da minha mão. Já havia suficiente luz para confirmar a conclusão a que chegara o meu nariz. Era um dos venenos mais mortais que havia. Olhei para Finbar e ele leu a resposta nos meus olhos.
— É acónito — sussurrei. — Onde é que o encontraste?
— Nos alojamentos dela, entre as coisas dela. Pelo menos, prova o que aconteceu a Eilis.
— Silêncio — disse Conor. — Esperai pelos outros. Ainda não amanheceu.
E assim permanecemos, em silêncio e eu tentei esvaziar a minha mente dos pensamentos turbulentos que nela grassavam e focá-la no nosso objectivo. A floresta mantinha-se calma; ainda não chegara a hora de os habitantes das árvores começarem as suas canções à alvorada. Era um momento de verdade e nós devíamos fazer dele o nosso. Mas ainda não estávamos todos juntos. E, sem os sete, o nosso objectivo não seria atingido.
Pareceu uma eternidade, mas, provavelmente, durou pouco tempo até que ouvimos umas leves, rítmicas pancadas na água e um pequeno barco acostou à margem. Era Liam que remava; Diarmid vinha sentado à proa, desinteressado, enrolado numa capa cinzenta, como se fosse um xaile. Cormack desceu pela margem para os ajudar a vir para terra; foram precisos ambos, ele e Liam, para transportar Diarmid e depositá-lo na relva. Havia um cheiro forte a cerveja. Diarmid cambaleava entre os dois irmãos, meio inconsciente, os olhos avermelhados. Liam não parecia melhor. Parecia que tinha competido com o seu prisioneiro, bebida atrás de bebida, no seu esforço para o embriagar.
— Já estamos todos e faltam só alguns minutos para a alvorada — disse Cormack.
Senti de novo a presença de outros, mais sábios, mais fortes, mais velhos, sentando-se em volta dele, como um manto. Em vez de um jovem de cabelos escuros, vestido de branco, era como se um velho sábio estivesse ali ao nosso lado e a clareira parecia, de qualquer modo, alargar-se em volta dele.
— Vamos começar dentro de pouco tempo. Mas aviso-vos. Devemos manter-nos unidos, os sete; aquela que tenta cortar os laços que nos unem fá-lo por sua conta e risco. Este mistério é grande e pode alcançar o fim a que nos propomos. Mas, como em todas as coisas, apenas retiraremos do mundo espiritual a ajuda e a força que os seus habitantes nos quiserem dar. Para além disso, teremos de confiar na nossa própria inteligência, coragem e capacidade de resolução. Agora, vamos começar a nossa cerimónia. E quando acabar, separar-nos-emos por algum tempo. Tu, Sorcha, e tu Padriac, deveis esconder-vos. O padre Brien dar-vos-á abrigo e procurar-vos-á um local seguro. Quando tudo aqui estiver terminado, iremos buscar-vos. E quer o que vamos fazer nos ajude, quer não, nós, os restantes, agiremos hoje, para o bem ou para o mal. Temos a prova; o nosso pai tem de ser confrontado com a verdade e escolher.
Fizemos um círculo em volta da pequena árvore, como muitas vezes antes, bastante perto uns dos outros, de maneira que, se cada um esticasse um braço, poderia tocar na mão do que lhe estava a seguir. Mas não havia necessidade de nos tocarmos. Aquele era o nosso local ritual de unidade; os velhos carvalhos e faias tinham ouvido os nossos versos infantis, os nossos segredos juvenis, tinham testemunhado a nossa comunhão com o espírito da nossa mãe. Por vezes tínhamos sido solenes e sérios e por vezes tínhamos brincado e rido. Aquelas árvores guardavam nos seus corações a história dos anos do nosso crescimento e agora iam testemunhar um mistério maior do que qualquer outro da nossa existência.
O primeiro raio do Sol nascente iluminou a abóbada celeste. Conor virou-se para sul e levantou diante de si a vara de vidoeiro.
— Criaturas do fogo, espíritos que viveis no meio do fogo — disse Conor — crianças das chamas purificadoras, inabaláveis nos vossos propósitos, saudámo-vos!
Pareceu-me que o ar se movera, num momentâneo tremeluzir de luz; mas a clareira continuava envolta em nevoeiro.
Liam permanecia no lado ocidental e olhava para lá das águas do lago. Diarmid não conseguia manter-se direito no seu lugar, encostando-se ao ombro de Cormack, pestanejando face à luz cada vez maior. Cormack apertava com força o braço do seu irmão cambaleante. Liam levantou a taça para colher a pálida alvorada.
— Espíritos da água, mutáveis e fugidios, de grande coragem, sábios, guardiões de mistérios, saudámos-vos — disse ele e baixou de novo a taça.
Finbar virou-se para norte, onde as pedras desordenadas formavam uma espécie de caminho para gigantes por entre as grandes árvores. As suas longas mãos seguravam a pedra coberta de musgo; a luz, que acordava, mostrava a sua superfície, cheia de pequenas marcas e símbolos gravados.
— Habitantes da terra, guardiões de segredos, narradores da verdade, sábios e dignos, nós veneramo-vos — disse ele. Virou-se para o interior do círculo e pousou cuidadosamente a pedra sobre a relva.
— Agora tu, Sorcha — disse Conor calmamente.
Olhei para cima, para as árvores majestosas, espreguiçando-se, perante os meus olhos, para leste. Lá no alto, uma cotovia começou a cantar e Padriac, a meu lado, sorriu, de puro prazer, ao ouvir aquele som. A luz no céu mostrou-nos que a aurora estava a chegar, se bem que a floresta mascarasse o momento do nascer do Sol.
Eu tinha a faca na mão e flores em volta dos pés.
— Sílfides da floresta — sussurrei. — Espíritos dos carvalhos, das faias e dos freixos, dríades das sorveiras-bravas e das aveleiras, ouvi-nos. Vós, que tendes guiado e guardado todos os nossos passos, vós, cujas copas abrigaram o nosso crescimento, veneramo-vos. Dama da Floresta, Dama do manto azul, ouve-me. Ajuda-nos nesta hora, vem até nós neste tempo de escuridão. Vem até nós, se assim o quiseres.
Baixei a faca, virando-me para completar o círculo. Em volta da clareira os pássaros cantavam, enchendo o ar com aqueles sons de flauta. Em volta dos nossos pés e sobre a superfície do lago, a névoa começou a dissipar-se com o Sol nascente. Permanecemos em silêncio, de cabeças baixas. O nosso círculo não podia ser desfeito. Esperámos enquanto o céu passava de cinzento a azul e o brilho das águas do lago furava o nevoeiro rasante.
E então ela apareceu. Era como se tivesse estado sempre ali, connosco, uma leve figura encoberta, de pé, onde a água de lago tocava a areia; e por trás dela, um pequeno barco, escuro, encostado ao outro. Ela ouvira-me e viera. Deu um passo na nossa direcção e depois outro. A névoa chegava-lhe ao vestido. Mas algo estava errado. Linn rosnou, profundamente. E depois um súbito e silencioso aviso vindo de Finbar, de Conor.
Foge, Sorcha, foge.
Para a floresta. Já. Foge!
Vi os primeiros dedos de névoa predadora estenderem-se e enrolarem-se em volta dos corpos dos meus irmãos, segurando-os com força e depois virarem-se para onde eu estava, no outro lado da árvore. E depois vi os olhos dela, escuros como amoras, sob as sobrancelhas arqueadas, e os caracóis castanhos-escuros sob o grande capuz. Levantou uma mão branca para retirar o capuz e o triunfo estava escrito nas feições delicadas de Lady Oonagh. Virei-me e corri, o terror dando asas aos meus pés, sobre as pedras e os seixos, escorregando na lama e no cascalho, subindo sempre pela colina acima até que a floresta me escondeu nas suas sombras quietas. À minha frente corria Linn, com a cauda entre as pernas.
Quando já me tinha afastado o mais que podia, subi para um grande carvalho, que me acolheu nos seus maciços ramos, enquanto eu lutava para recuperar a respiração e o coração me batia desordenadamente. Linn escondeu-se no solo, deixando escapar gemidos de desassossego. Não precisava de ver a margem do lago, porque podia ver através dos olhos de Finbar, sentir com o meu irmão, momento cruel após momento cruel, o inevitável desenrolar da intriga.
Foge, Sorcha, foge! A nossa irmã vira-se e corre através da clareira como uma pequenina coruja e um poder desconhecido esconde-a na segurança das árvores. Mas nós, os seis, estamos imóveis, à medida que os húmidos farrapos de névoa se movem como uma qualquer criatura viva, pelos nossos corpos acima com um propósito inexorável. As nossas pernas estão presas ao chão, os nossos braços atados, as nossas línguas silenciadas. Apenas as nossas mentes ainda lutam, infrutiferamente, por liberdade
Ela retira o capuz e a luz da manhã dança-lhe no cabelo encaracolado. Atira a cabeça para trás num riso triunfante.
— Oh, se vós pudésseis ver a vós próprios, irmãozinhos! Tão cómicos, tão divertidos! — A voz dela escurece. — Pensáveis que me iludíeis com esta reles representação, esta patética tentativa de feitiçaria? Que vergonha! Teríeis feito melhor se vos tivésseis limitado aos vossos brinquedos de guerra e não vos metêsseis em assuntos para lá do vosso entendimento. Bem, aí tendes a vossa recompensa, meus rapazes, veremos como ficareis depois de eu tratar de vós. Porque receio que me tenhais subestimado.
Ela anda em volta do círculo em que nós nos mantemos, impotentes. Junto de cada um ela pára e fala.
— Liam. Protector e chefe. Não foi esse o papel que a tua infortunada mãe reservou para ti? Fizeste um mau trabalho hoje, primogénito. Mas não faz mal. O teu pai pode ter mais filhos como tu. Estas terras nunca serão tuas. Oh, Colum sentirá a tua falta, não duvido, mas só por algum tempo. Eu conforto-o. Além disso, ele já esqueceu o teu aviso.
Move-se na direcção de Diarmid, que continua encostado ao ombro do irmão, mal compreendendo o que se passa.
— Ora, ora, meu doce amante, meu querido. Pensaste que podias tomar o lugar do teu pai, não pensaste? Mas tu não és nada, nada. — Ela dá ênfase ao insulto fazendo estalar os dedos sob o nariz dele. Diarmid pestaneja. — Porque haveria eu de perder tempo com uma criança como tu, quando posso ter um homem a sério na minha cama?
Vira-se para Cormack.
— Gostaste do corte da tua faca em carne viva, belo guerreiro? Talvez estejas interessado em saber no que a tua irmã anda metida quando estás longe de casa. Porque nem todos vós partilhais o mesmo inimigo, receio bem. Aprendeste bem a lição do teu pai, bate primeiro, pergunta depois. Talvez devesses tentar essa técnica em mim.
Vejo os olhos de Conor, porque está de frente para mim. Brilham de coragem. Retine todos os fragmentos de vontade para lhe resistir. Mas ainda é muito novo.
— Falhaste, druidazinho. Falhaste por completo. E aqueles que se atravessam no meu caminho não têm segunda hipótese. Pensaste na verdade que o poder dela era superior ao meu? Sabes muito pouco, mas pensas que sabes muito. Somos ambas a mesma.
Volta-se e fica de frente para mim. Não vou ter medo dela. Chega-me de novo o frio, a estranheza, o grande bater de asas. Vejo a face da morte.
— Tu eras capaz de me desafiar em frente do teu pai — diz ela. Sinto arrepios gelados pela espinha acima. — Terias salvo a tua irmã a qualquer preço. Mas eu conheço-te e vejo-te como aquilo que és, meu velho inimigo. A tua irmã nunca se livrará de mim; hei de encontrá-la e há de sofrer até me pedir a morte. E hei de enviar-te para onde não haja grandes ideais, conceitos morais, bem, ou mal. Apenas sobrevivência. Que preço terão, então, os teus grandes feitos heróicos?
Por fim, vira-se para Padríac, em estado de choque.
— Tu querias saber tudo. Os segredos do voo, as voltas e reviravoltas de tudo o que se move e tem vida, o ideal de todas as criaturas vivas. Vais saber o que é voar e sentirás o terror e a dor de um animal selvagem. Viverás assim até que pedirás para regressar ao mundo dos humanos. Sofrerás e depois morrerás; e não haverá remédio para isso.
Permaneci enroscada na grande árvore, de olhos cerrados, as mãos encostadas, com força, aos ouvidos. As imagens passavam-me pela mente. Não conseguia tirar Finbar do pensamento, por mais que tentasse. A angústia dele estava para lá de qualquer controlo que pudesse ter sobre os seus próprios pensamentos e eu era una com ele à medida que a intriga se desenrolava.
Ela levanta as mãos lentamente. A capa escura cai para trás, mostrando o vestido azul e o transparente lenço de delicada arquitectura de pétalas e flores. As mãos apontam para o céu e os olhos escuros parecem puxar as sombras para baixo. Começa a entoar um cântico misterioso em voz alta, numa língua desconhecida, carregada de ameaças. Subitamente, em volta dos nossos corpos, que continuam imóveis, começam a tremeluzir raios de luz. Esses raios vêm-lhe das mãos, do céu, da terra. A clareira fica cheia de raios e chamas. As aves fogem, assustadas. O cântico atinge o seu auge e cessa. E então, acontece. O frio, o ímpeto, a mudança. Onde havia pesadas botas de pele, aparecem os pés com membrana interdigital de grandes aves aquáticas. Onde as capas ocultavam jovens e musculosos braços, aparecem asas de penas brancas, grandes e arqueadas. Por fim, a mente, o espírito.
Adeus, Sorcha. Adeus, pequena coruja. A luz, a manhã, a água. Agora somos cisnes. O lago e nós somos um. Somos...
Desapareceram. Os meus irmãos tinham desaparecido. Mas a voz deles continuava, sonora, na minha cabeça.
— Não me esqueci de ti, Sorcha, irmãzinha. Quando estiveres cansada e com fome, quando a floresta não for capaz de te abrigar, encontrar-te-ei. Quando menos esperares, estarei ao pé de ti. Porque sem os teus irmãos tu não és nada. Primeiro, vou tratar do teu pai; e depois vou atrás de ti.
A minha passagem pela floresta nesse dia, a caminho do eremitério do padre Brien, aparece confusa na minha memória. Rasguei as roupas, arranhei os joelhos e feri o corpo saltando de rocha em rocha, de árvore em árvore. Linn manteve-se sempre ao pé de mim, olhando-me ansiosamente, esperando enquanto eu lutava para atravessar o rio e me arrastava pela falésia acima. Sentia a cabeça vazia, a garganta inchada e seca, de angústia. Subi e chorei, chorei e voltei a subir, chegando, por fim, à caverna do eremita.
O Sol brilhava e o dia estava agradável. A tarde ia a meio; a minha fuga disparatada fora rápida e tivera alguns custos, porque me sentia tonta e sem fôlego e todo o corpo me doía.
Foi Linn a primeira a ver a silhueta escura de uma mulher alta, sentada tranquilamente no banco à sombra das sobreiras-bravas, o cabelo escuro esvoaçando-lhe pelo dorso. O seu longo manto era do azul das montanhas distantes ao anoitecer. O cão fez uma pausa e continuou depois lentamente em frente, a cauda agitando-se hesitantemente. A mulher estendeu uma mão.
— Vem, filha da floresta. — A sua voz era profunda e ressonante.
Não me movi. Linn submeteu-se aos dedos acariciadores; também ela estava cansada da nossa corrida precipitada e lambeu ligeiramente a mão da mulher, antes de se dirigir à gamela da água para beber com goles longos, sedentos.
— Vem, Sorcha. Sabes quem sou?
Não fez qualquer movimento na minha direcção. Funguei e levei uma mão ao nariz para me assoar. Onde estava o padre Brien?
— Vem, pequena. Chamaste-me quando precisaste de ajuda. Estou aqui, venho ajudar-te.
Então, a ira subiu dentro de mim e eu avancei, ficando à sua frente e fixando-lhe os profundos olhos azuis.
— Não vieste! Chamámos-te, todos... e agora os meus irmãos... os meus irmãos desapareceram... e ela disse, ela disse que tu e ela eram a mesma pessoa, foi a ela que chamámos. — Não conseguia apagar a imagem de todos eles a transformarem-se, a mudarem, a mudarem de homens para cisnes e o terrível vazio enquanto as suas mentes se afastavam de mim e se perdiam para sempre. — Como é que sei em qual das duas hei-de acreditar?
O olhar dela era cortante.
— A espécie dela dir-te-á que não há negro nem branco, apenas sombras. Que tanto pode haver o errado como o certo, que o bom e o mau são duas faces da mesma moeda. Acredita nela, se quiseres. Talvez diga a verdade e eu seja uma mentira. Tens de decidir e tens de escolher o teu próprio caminho. E tens de o fazer agora.
— Não há escolha possível — lamentei-me. — Ela levou-os, transformou-os e desapareceram para sempre! Que outra coisa posso fazer senão correr e esconder-me e estar só? Ela disse que vinha atrás de mim, não posso ficar aqui, tenho de encontrar o padre Brien...
— Chega — disse ela levantando a mão, o que eu fiz, aspirando o ar aos solavancos. — Ele não te pode ajudar desta vez. Escuta.
E eu escutei, sentindo-me subitamente atingida pela ausência de qualquer som. Até os insectos pareciam ter parado de viver. O bosque estava profundamente silencioso.
— És capaz de te perguntar por que razão este local está tão calmo. É a imobilidade do sono, do adeus. Ele está aqui, mas não está aqui.
— O que queres dizer?
Pensei que não era capaz de sentir mais nada; mas as palavras dela gelaram-me.
— Temos pouco tempo — disse ela levantando-se e eu senti o poder da sua presença, tal e qual como da primeira vez naquele mesmo local; era como se o coração da grande floresta estivesse ali concentrado. — Deves escutar e escutar bem. Porque tens uma escolha. Podes fugir e esconder-te, esperando ser encontrada. Podes viver os teus dias em permanente terror, sem o quereres. Ou podes fazer a escolha mais difícil e salvá-los.
Olhei para ela. Linn saciara-se e estava deitada ao sol, com a língua de fora. Houve um pequeno silêncio.
— Salvá-los? — sussurrei após um bocado. — Queres dizer... este feitiço pode ser desfeito?
— Pode — disse a Dama —, mas não será fácil. Tu és a única que o pode conseguir e, portanto, tens de ter muito cuidado, porque ela suspeita disso e procurar-te-á, de modo a impedir-te. O aviso dos teus irmãos salvou-te, mas eles não conseguiram salvar-se a si próprios. Só tu o podes fazer.
— Mas ela disse-lhes... ela disse não há remédio. Eu ouvi as palavras dela, como se fosse um sino a dobrar a finados.
— Ela quis deixá-los sem esperança, pensando apenas que tinham falhado, não apenas na tentativa de se salvarem a si próprios, mas também na tentativa de te protegerem e resgatarem o vosso pai. Sem esperança ficarão vulneráveis, com menos capacidade para sobreviverem. Ou assim pensa ela.
— Que crueldade — disse eu. — Por que é que ela fez isto?
— Está-lhe na natureza — disse a Dama tranquilamente. — De acordo com os seus caprichos, pratica o mal, de uma maneira ou de outra; algumas vezes prejudica muito, outras nem tanto. Este plano dela é grande; mas não sabe que há outros padrões, mais velhos e maiores do que os dela. Tu podes desfazer-lhe o feitiço, desta vez, se tiveres vontade.
Senti renascer em mim um pequeno lampejo de esperança.
— Que devo fazer?
— Demorará tempo, será árduo e doloroso, Sorcha. Terás força suficiente?
— Sim! Sim! Diz-me o que devo fazer.
Os olhos dela mostravam compaixão enquanto se sentava de novo no banco.
— Senta-te aqui ao pé de mim, minha filha. Assim está melhor. Agora, ouve com atenção. Tens de fazer uma camisa para cada um dos teus irmãos. Tanto o fio, como a tecelagem, como todos os pontos, têm de ser feitos por ti.
— Eu consigo fazer isso, eu posso...
— Silêncio. Seria uma tarefa bem fácil, mesmo para um animalzinho selvagem como tu. Mas há mais. A partir do momento em que abandonares este local, até ao momento do regresso final dos teus irmãos à humanidade, nenhuma palavra deve passar pelos teus lábios, nenhum suspiro. Nem contarás a tua história através de desenhos, ou letras, ou sob qualquer outra forma a qualquer criatura viva. Permanecerás silenciosa, muda como os cisnes. Se quebrares o silêncio, a maldição será para sempre.
— Compreendo — disse eu tranquilamente. — E que mais? Como é que eu encontro os meus irmãos, para lhes vestir essas camisas?
— Ah, mais devagar — disse ela e tomou-me as mãos entre as dela. — As dificuldades ainda mal começaram. As camisas não serão feitas de lã, linho, ou pele. Serão tecidas e cosidas a partir das fibras da morugem. Os ramos aguçados cortar-te-ão, os espinhos rasgar-te-ão a carne. Não terás qualquer irmão para te confortar e lavar-te as mãos feridas. Chorarás em silêncio, mordendo os lábios para não chorares em voz alta. Consegues fazer isso?
— Consigo — sussurrei. Linn aproximou-se de mim, enfiando o nariz frio na minha mão. Percorri-lhe o pêlo suave com os dedos. — Voltarei a ver os meus irmãos?
— Vê-los-ás. No próximo ano, na véspera do solstício de Verão e depois duas vezes por ano, no solstício de Verão e no solstício de Inverno, entre o anoitecer e a alvorada, eles retomarão por algum tempo a forma humana e virão ter contigo, se puderem. Mas lembra-te, não deves emitir qualquer som, não deves contar a tua história, mesmo a eles, ou serão cisnes para sempre. A tarefa será longa, Sorcha. Deves deixar este local e ir em busca de segurança, tal como os teus irmãos planearam. Segue o rasto da carroça para oeste. Antes do cruzamento há um velho trilho para a direita, que volta para trás, para a floresta. Olha com atenção, ou não darás por ele, porque está escondido. Segue esse caminho ao longo da margem do lago. Levar-te-á a um lugar seguro, onde a floresta te esconderá, pelo menos por algum tempo. Leva daqui o que precisares. Escolhe com cuidado.
Falei hesitantemente.
— Por vezes, os meus irmãos... por vezes, falamos sem palavras. Através de imagens na mente. Até isso é proibido? Como poderia eu sobreviver se até aquele laço for quebrado?
Olhei para cima, para ela. As suas feições eram muito severas. Pensei que me estava a avaliar, tentando descobrir se eu era tão forte como dizia. Abriu a boca para falar e depois hesitou. Respirei profundamente.
— Farei o que tiver de fazer — disse eu. — Mas os meus irmãos fazem parte de mim e... — não lhe podia pedir mais nenhum favor.
A Dama teve um pequeno sorriso, como se compreendesse demasiado bem.
— Não fui eu que lancei este feitiço; apenas procuro contra-atacar. Creio que a fala silenciosa é segura. Lady Oonagh joga com forças que não compreende na totalidade. A ligação entre os teus irmãos e tu própria é muito mais poderosa de que ela alguma vez poderia imaginar. Não conseguirás chegar até eles, dessa maneira, enquanto forem cisnes. Mas podes fazer uso dela quando eles regressarem. Arriscas-te, se o fizeres. Lembra-te, não lhes deves contar a tua história porque, se o fizeres, o feitiço não será quebrado. Deves aprender a manter a tua mente fechada, até para eles.
— Mas e se...
— Silêncio, filha. Os feitiços são assim, assim como os encantamentos, determinam-nos estas tarefas. Podes escolher fazer como eu te disse, ou não. Lembra-te, quando as camisas estiverem feitas, deves colocá-las no pescoço dos cisnes, um a seguir ao outro e, se mantiveste silêncio, os teus irmãos voltarão a ser homens de novo.
Senti um restolhar de vento nos arbustos à nossa volta e no espaço de uma piscadela de olho ela tinha desaparecido.
Já tinha visto gente morta antes. A natureza de meu ofício tornava-o inevitável. Mas nunca, até agora, acontecera com uma pessoa chegada. O padre Brien jazia no chão da caverna, onde caíra. Não havia tempo para tristezas. Se houvesse, talvez o tivesse chorado e descoberto a causa da sua morte. Talvez tivesse sido natural, um espasmo do coração, ou humores doentes no sangue. Também podia ter sido veneno, ou um dedo aplicado no pescoço com habilidade, Fechei-lhe os olhos sem vida e toquei-lhe na face. Fosse o que fosse que tivesse acontecido, o rosto dele, agora, irradiava a tranquilidade de uma profunda e permanente aceitação. Estava onde queria e desejava infinitamente continuar assim. Dizem que o espírito não deixa o corpo por completo até à terceira manhã após a morte. O meu velho amigo não partira há tanto assim, mas o seu interior tinha voado para longe, para a grande vastidão abobadada do céu, que ele costumava observar do alto de Ogma’s Peak, por sobre o topo das árvores escuras, as águas do lago e para oeste. Coloquei-lhe a cruz de madeira entre as mãos e as palavras de um cristão vieram-me à mente, mas não as disse. Quem sabe para onde teria voado o seu espírito? Sempre fora um homem aberto para os dois lados; na morte, muitas portas se abririam para ele.
Não tinha qualquer desejo de abandonar o corpo, mesmo desabitado, sem qualquer cerimónia. Devia cremá-lo, mas atear uma fogueira era chamar a atenção. Além disso, precisava de empacotar umas coisas e sair dali enquanto era dia. Havia apenas tempo para lhe deitar por cima ruda, folhas de tanásia e um pouco da sua reserva de acónito. Linn rondava a entrada; não entraria. Não o chorei. Em vez disso, senti um frio sentimento de resolução apoderar-se de mim. A dor ainda estava presente, assim como o vazio. Mas conseguia concentrar-me no que devia ser feito e mexi-me rapidamente para levar a cabo as tarefas necessárias.
Abençoei mais de uma vez o bom padre pelo seu espírito prático. O seu velho cavalo estava ali, atado sob as árvores. Devido à necessidade de rapidez e disfarce, não levaria a carroça, mas o animal poderia carregar as coisas e, assim, ajudar-me. Porque não tinha dúvida de que devia partir sozinha e defender-me a mim própria durante bastante tempo. Se tivesse sabido quanto, talvez me faltasse a coragem. Seis camisas, pensei. Isso duraria, pelo menos, até meio do Verão. E como não encontraria ninguém durante esse período, precisaria de comida, sementes, ervas medicinais e o necessário para fazer fogo, coser, fiar e tecer. O padre Brien não previra isso, mas, de qualquer maneira, preparara-se bem, esperando aprovisionar-me e ao meu irmão para uma viagem para lá das fronteiras da floresta. Eu tinha abandonado o meu próprio pacote na margem do lago, quando fugi aterrorizada. Não teria as minhas roupas, as salvas e remédios, ou os restos de meu jardim arruinado, que Finbar reunira com tanto cuidado. Procurei na algibeira de meu vestido. A pequena e suave peça de madeira, com os seus símbolos gravados, continuava lá.
O padre Brien guardava as suas coisas nas traseiras da cabana e eu levei tudo o que me pareceu útil. Um saco de cevada, um saco de feijão seco, uma pequena caneca de mel. O tempo já estava fresco. Vesti uma velha capa e uma túnica dele. As botas de Simon ainda ali estavam e apropriei-me delas. Uma faca afiada, uma foice e um pote para cozinhar. Ia ser difícil alimentar a cadela. Esperei que ela desenvolvesse uma súbita habilidade para caçar. O padre Brien não tinha roca nem fuso, nem tear. Mas até o vestuário de um santo padre precisa, por vezes, de ser remendado, por isso descobri agulhas de osso e um rolo de fio, coisas que meti no pequeno saco. Uma garrafa de água e uma pá. O cavalo olhou para mim um pouco queixosamente, retorcendo as orelhas. Coloquei no topo alguns cobertores amarrados e atei a carga com firmeza. O pequeno pacote, que continha algumas coisas cuidadosamente seleccionadas da reserva de ervas e especiarias de padre Brien, carregá-lo-ia eu mesma. E usaria o seu bordão de carvalho para me facilitar a jornada.
Permaneci ali um momento, antes de me despedir. A clareira estava cheia de recordações. A chegada do padre Brien, as suas orações, leituras, curas, a sua vida solitária na floresta e os seus ensinamentos. Os seus jovens visitantes: o solene Liam e o alegre Diarmid, os gémeos, como se fossem imagens de um espelho. Cormack, corajoso e temível, Conor, profundo e subtil. Finbar, com a sua integridade apaixonada. Padriac, sedento de conhecimento. E a pequena irmã deles, que não era o sétimo filho do sétimo filho, mas que ia com eles para toda a parte. Ensinara-nos muito ao longo dos anos e agora tinha partido. Agora, o lado humano dos meus irmãos também era só isso, uma recordação, até eu conseguir trazê-los de volta. Ali estava a sorveira-brava, junto da qual eu vira a Dama da Floresta pela primeira vez. Ali, o local onde Simon encostara a sua faca ao meu pescoço e nos perguntara porque não acabávamos com a sua vida miserável. As árvores sussurravam as recordações das minhas histórias e o ar quieto segurava ainda os sons da sua voz; não me deixes, dizia a voz, não me deixes só.
Passei uma mão com força pelas faces e fiz estalar os dedos para chamar Linn. Aprenderia rapidamente que não poderia voltar a chamá-la, ou elogiá-la com palavras amáveis. Peguei na corda que segurava o cavalo, virei o rosto para a floresta e caminhei firmemente para oeste.