A Filha da Floresta

Juliet Marillier · Capítulo 9 de 17 · parte 1/2

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A Filha da Floresta

Capítulo Oito

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

 

 

Mais tarde, surpreendi-me por não ter ficado com o coração destroçado ao ter que atravessar o mar, para longe da floresta, não deixando qualquer sinal que pudesse ser lido pelos meus irmãos, nenhum mapa, ou carta, pelos quais eles me pudessem encontrar. O barco rumou a leste e talvez um pouco a sul; supus que íamos a caminho da Bretanha. Mas para onde? Se eu tivesse conseguido pensar, se estivesse em mim, teria sido um dia quase impossível de suportar. Mas o mar, além de ser vasto para lá da imaginação, estava agitado por ventos caprichosos e em breve eu estava deitada de lado no pequeno barco à vela, vomitando convulsivamente, enquanto o meu corpo rejeitava a mais pequena quantidade de comida. Entre todos aqueles espasmos, ouvi os comentários cáusticos dos dois homens, Ben e John e do severo barqueiro que ia ao leme. Red estava ocupado e não disse nada. Perguntei-me até quando ele os deixaria falar, antes de lhes dizer que eu compreendia as piadas e as pragas deles. Apesar disso, fizeram turnos para me segurarem na cabeça, limparem-me o rosto e cobrirem-me do vento. A viagem parecia que ia durar para sempre e eu desejei que, quando por fim regressasse a casa, fosse a única e última vez sobre a água. Sentia-me destroçada, mal conseguia pensar para além do meu estômago revoltado e da minha pobre cabeça, sempre a latejar. E assim a minha terra desaparecia no horizonte e eu mal sentia a dor da partida.

 

Por fim, o balanço terminou e o barco ficou quieto. Estava a escurecer e eu podia ouvir as gaivotas a chamarem. Os homens mantinham as vozes baixas. Nórdicos, diziam, e abaixa-te. Então, fui arrancada do barco e carregada para o abrigo de uma caverna pouco profunda, pouco mais do que a saliência de uma rocha, por baixo da qual o vento se sentia ligeiramente menos. Ali fiquei embrulhada na minha capa, tremendo. Nem sequer tinha a energia para olhar em volta, à última luz do dia, para ver onde tínhamos atracado.

 

— Nada de fogueiras — disse Red. — John, ficas com o primeiro turno. Acorda-me, depois. Temos de partir antes da madrugada; quanto menos atenções atrairmos por estas bandas, melhor. As ilhas providenciam-nos uma atracação segura, mas de novo em águas abertas somos presa fácil para os Dinamarqueses ou Pictos.

 

O meu coração parou de bater, íamos partir de novo, de madrugada. Portanto, ia haver mais. Devíamos estar, talvez, a meio caminho e teríamos de continuar para cima e para baixo, para cima e para baixo...

 

— A rapariga não está bem — disse John, sem cerimónias. — É melhor dar-lhe, pelo menos, alguma água, se queres que ela dure mais um dia.

 

Não houve qualquer resposta, mas algum tempo depois foi colocada uma taça de água ao pé de mim e eu peguei nela e bebi-a, sabendo muito bem o que era bom para mim. Consegui mantê-la no estômago e comecei a sentir-me um pouco melhor. Mas tinha frio, tinha cãibras nos braços e nas pernas e dores no corpo todo. Sentei-me e olhei em volta.

 

A pequena extensão de areia e as pedras pontiagudas que a rodeavam estavam banhadas por um luar frio. Estávamos muito perto da água, já que o trecho de costa que subia até àquele meio abrigo era estreito; e sobre o sussurro suave das pequenas vagas, à medida que avançavam e recuavam, penso que conseguia ouvir as profundas e fracas vozes de estranhas criaturas, lá longe, na escuridão, chamando-se umas às outras. Ao longo das rochas que entravam pelo mar adentro, estava John, perscrutando.

 

— Toma. — Os outros dois, Ben e Red, estavam sentados perto de mim, encostados à parede de rocha e comiam. O barqueiro parecia estar a dormir. Ben oferecia-me uma tira de carne seca e eu estremeci, como resposta.

 

— Ela só come maçãs — disse Red. — Toma, tenta isto.

 

O meu estômago começava a estabilizar e eu percebi que tinha fome. Ele cortou o fruto com firmeza e passou-mo bocado a bocado, até que desapareceu.

 

— Óptimo — disse ele, aprovador. — Agora levanta-te e caminha para afastares as cãibras das pernas, porque temos outra viagem amanhã. Mas mantém-te calada. Atracados aqui, estamos em segurança, mas é melhor não arriscar.

 

Caminhei ao longo do areal, estiquei as pernas doridas e olhei por sobre a água, tentando descobrir o que havia para lá dela. Mas era noite e não tinha a certeza se teria visto terra, ou se simplesmente desejava que estivesse lá, na escuridão. Mais tarde, apesar do frio, dormi e depois chegou a madrugada e eram horas, de novo, de embarcar.

Ouvi Red dizer ao barqueiro que navegasse a direito na direcção do priorado. Ouvi os homens a falarem sobre cavalos, quão rapidamente poderiam chegar a casa e antecipando, animados, a comida, o vinho e um coração quente. E então olhei para trás, para o caminho que tínhamos feito. Olhei para trás, para o local onde nos abrigáramos e percebi o que era. As águas estavam calmas, transformadas em azul-pérola, cinzento e rosa pela madrugada. Havia uma grande ilha um pouco para norte de nós; baixa, arborizada e com sinais de habitação humana. Mas não fora ali que ancoráramos.

 

— Não acostámos ali — disse Red, que me observava. — Se acostares numa daquelas enseadas, tanto podes dar de caras com um picto, um dinamarquês, ou um amigo. É por isso que nos servimos de Little Island.

 

Não dera por ela antes, quando falámos do assunto. Estava demasiado cansada e enjoada para pensar. Mas ali, atrás de nós, nas águas brilhantes, já quase desaparecendo da vista à medida que o nosso pequeno barco rumava a leste, estavam três ilhas. Pouco mais eram do que rochedos na vasta imensidão do mar, locais onde as aves deviam nidificar e as ervas daninhas deviam crescer, precariamente, nas encostas escorregadias. Eram locais por onde os pescadores deveriam passar, sem lhes prestar grande atenção, preocupados apenas com os rochedos afiados que rodeavam a mais alta. Mas mesmo sem lhes saber os nomes, reconheci-as pelo que eram. Greater Island, Little Island e Needle. Dormira no solo mítico das Ilhas e não me apercebera disso até já estar longe. Olhei para trás, até que o alto pilar de rocha, que era Needle, desapareceu da vista; e então o meu estômago agitou-se, deitei-me de lado e tudo recomeçou.

 

Foi preciso uma boa parte de outro dia, velejando para leste e depois um pouco para norte, para vermos de novo terra. Havia falésias e vagas a quebrarem nos rochedos e do outro lado erguia-se, ondulada, uma verde colina, dotada de bosques de carvalhos e faias. Havia também um longo e baixo edifício construído no alto e uma torre com uma cruz. Parecia que íamos passar a noite ali, antes de continuar.

Era uma casa de mulheres; irmãs consagradas, dedicadas, tal como o padre Brien, à fé cristã, mas vivendo em comunidade, ao contrário do meu solitário amigo. O que elas pensavam da nossa súbita aparição à sua porta era difícil de dizer. Parecia que conheciam Lorde Hugh, a quem tratavam com algum respeito, quase deferência. Fui introduzida rapidamente no interior e os homens retiraram-se para outro local qualquer, para recuperarem forças. John tinha carregado comigo desde o local da acostagem; as boas irmãs olharam para mim e ordenaram-lhe que me entregassem aos cuidados delas. Enquanto me levavam, olhei em volta, descontroladamente, em busca da minha trouxa; estivera no barco, tinha a certeza, mas com aquele enjoo todo, esquecera-me dela. Não deve haver qualquer negligência da minha parte, a partir de agora, em relação à minha tarefa, tinham-no dito as Criaturas Encantadas. Onde estavam as minhas três camisas de morugem? Tinham de ser bem guardadas, era a única coisa que interessava. Os cisnes podiam morrer com tanta facilidade; a seta de um caçador, as mandíbulas de um lobo, a mordedura do Inverno. Como pudera esquecer-me deles assim? À medida que as irmãs me conduziam, virava-me para olhar por cima do ombro. Os homens estavam a abandonar o edifício. À saída, Red virou-se por um momento. Encontrou o meu olhar desorientado e fez um gesto para a minha pequena trouxa, colocada por cima da dele. Em seguida, desapareceu. Dentro dos claustros apenas podiam circular mulheres. Veríamos os homens mais tarde, informou-me a irmã, na refeição da noite. Agora devia ir com ela, porque, como me disse o seu nariz retorcido, eu estava a precisar de me lavar.

 

Eu continuava enjoada e exausta. Deixei-as deitar-me água quente por cima e lavar-me dos pés à cabeça, exclamando como os meus ossos me furavam a pele, falando das minhas mãos defeituosas, apontando as minhas outras feridas, ainda não saradas, perguntando-me gentilmente, mas de maneira perspicaz, quem eu era e de onde vinha. Lavaram-me o cabelo com óleo de rosmaninho e enxaguaram-mo com alfazema. Encontraram-me um vestido caseiro e um cinto e alimentaram-me com pão e leite, enquanto uma jovem noviça, de tez fresca e rosada, tentava levar a cabo a tarefa de me pentear. Tiveram o cuidado suficiente em não me deixarem comer demasiado; eu própria sabia o efeito que poderia provocar comer demasiado depois de ter passado fome. Após aquilo tudo descansei, com o meu cabelo entrançado de novo pelas costas abaixo e as roupas novas, ásperas e desconfortáveis, contra a pele. Gradualmente, o mundo deixou de girar à minha volta e o meu estômago estabilizou. Uma tranquila irmã sentou-se ao pé de mim por um bocado, mas quando pensou que eu adormecera, deixou-me sozinha na minúscula cela de paredes brancas, com uma cruz de madeira de freixo como único ornamento. Não conseguia dormir e fiquei a pensar; e mais tarde levantei-me e saí para o jardim, sombrio e sereno à luz do crepúsculo. Estava bem tratado, com ervas culinárias em canteiros bem ordenados, flores para secar e vegetais para a mesa, em companhia harmoniosa, umas das outras, naquele pequeno espaço. Sentia-me melhor ali, na terra, entre as couves, com as mãos em volta dos joelhos. Há muito tempo que não dormia dentro de casa.

 

Havia um saudável cheiro a pão recém-cozido e a sopa a ferver. Havia luz no edifício, no canto mais longínquo do jardim e ouvia-se o som de pratos a baterem uns nos outros. Antes, ouvira o som de sinos; talvez as irmãs estivessem a rezar. No entanto, ouvi vozes no lado de fora da parede do jardim.

 

— ...seria melhor deixá-la aqui. Ela já não tem forças para continuar. Precisa de descanso, comida e conselho espiritual.

 

— Isso não é possível. Há muito que estamos longe de casa. A vossa hospitalidade, por esta noite, é bem-vinda, mas teremos de continuar amanhã.

 

O suspiro da irmã foi audível.

 

— Perdoai-me, Lorde Hugh. Espero que sejais capaz de ouvir os conselhos de uma mulher de idade e não os acheis impróprios. Ela não passa de uma criança e foi ferida, penso, talvez mais do que pensais. Deixai-a connosco e continuai a vossa viagem, se assim achais. Ela ficará melhor aqui e para vós será melhor se a deixardes connosco.

Houve uma pausa.

 

— Não posso fazer isso — disse ele. — A rapariga viaja comigo.

 

— Já pensastes como reagirá a vossa família, se regressardes com ela a Harrowfield? A raça dela não é aqui bem-vinda; e vós tendes inimigos poderosos.

 

— Achais que não consigo protegê-la?

 

— Meu senhor, não duvido da vossa força e da vossa integridade. Penso, antes, que não compreendeis bem o que está aqui em jogo. Talvez não avalieis, na sua totalidade, o sentimento contra este povo. Não podeis dar abrigo a uma coruja órfã no vosso galinheiro e esperar que não haja penas pelo ar. Insistindo, não apenas colocais a rapariga em perigo, como arriscais a vossa própria segurança e a da vossa família.

 

Não houve resposta. Ouvi-lhes os passos num carreiro de saibro, que devia passar, para baixo e para cima, do outro lado da horta.

 

— Devo perguntar-vos — acrescentou a freira num tom tímido — e não tomeis isto de modo errado. Há muito que vos conheço, meu senhor, e é a partir desse conhecimento que falo de um assunto tão delicado. Disse-vos antes que a rapariga fora ferida. Ela pouco mais é do que uma criança; cansada, esfomeada e doente da alma. Quanto ao resto, é uma mulher; e houve um homem que abusou dela recentemente. Devo perguntar-vos se confiais nos vossos companheiros. Não vos insultarei sugerindo...

 

Red praguejou de modo explosivo e ouvi o som de botas a baterem nas pedras do caminho, como se ele tivesse feito um súbito movimento violento.

 

— Sendo assim — continuou a irmã calmamente — talvez reconsidereis a sensatez de a levardes para vossa casa? O silêncio e a contemplação que praticamos talvez lhe curem o corpo e o espírito. E aqui não andará assustada.

 

Houve outra longa pausa.

 

— Obrigado pelos vossos conselhos — disse ele finalmente e o tom formal distanciou-a. — Vou esperar mais esta noite, até a rapariga estar descansada. Em seguida seguiremos para Harrowfield.

 

Parecia que a conversa tinha terminado e ambos se afastaram.

Durante o dia e as duas noites que passei naquele local, adquiri duas coisas. Passeei pelo jardim, de manhã cedo e por trás dos canteiros ordenados de vegetais, das estacas, dos fios prontos para receber a cobertura de ervilhas ou feijões e do recente monte estrume, vi uma planta familiar. Não estava deslocada naquela cena doméstica, com as suas folhas de um amarelo agradável, se se estiver preparado para manusear os seus implacáveis caules. Estavam duas irmãs a trabalhar tranquilamente no jardim e eu consegui transmitir-lhes, por meio de gestos, o que pretendia. Consultaram-se uma à outra seriamente e uma delas afastou-se, talvez para pedir a opinião da prioresa, ou para perguntar a Red. Quando voltou, trazia um saco e uma faca e deu-mos sem qualquer pergunta. Devia ter escrito no rosto o contentamento que sentia, porque as irmãs sorriram e continuaram metodica- mente com o seu trabalho, ao mesmo tempo que eu começava com todas as minhas forças. Pelo fim da manhã já eu tinha um saco cheio de morugem, o suficiente para me durar até ao solstício do Inverno, pensei. Tentei não pensar no que aconteceria se não me deixassem fiar, tecer e coser, no sítio para onde íamos.

 

A segunda coisa que adquiri foi um nome. O priorado podia ser um local de calma contemplação, mas as irmãs não eram isentas de sentido de humor e a refeição da noite era ocasião para conversas relaxantes e até espirituosas. Algumas delas, pensava eu, tiravam grande prazer da inesperada presença de três homens à mesa e eu supunha que as mais velhas deviam pensar que um pouco de alegria também faz bem à alma após longos dias de tranquila meditação. Quando nos sentámos à mesa, na segunda noite, uma das irmãs abordou o assunto.

 

— A vossa jovem companheira precisa de um nome — disse ela. — Não podeis continuar a chamar-lhe «rapariga», como se ela fosse um cão seguindo os vossos passos. Ela tem nome?

 

— Se tem, não nos pode dizer qual é — disse John. — Mas tendes razão, irmã. Todas as coisas vivas precisam de um nome.

— Ela devia receber um antes de regressardes a casa — disse a prioresa. — Um bom nome cristão, Elizabeth, talvez, ou Agnes. Agnes é um bom nome.

 

Uma das jovens noviças falou.

 

— Ela lembra-me um passarinho, talvez um jenny-wren — disse ela sorrindo com os ossos delgados e os olhos claros. — Jenny é que seria um bom nome.

 

Sob o olhar da superiora calou-se, corando.

 

— Carriça.

 

— Mais valia ter o nome de uma ave de rapina, daquelas que têm o bico afiado — resmungou Red, que estava sentado ao meu lado. — Talvez uma coruja, que só fala quando os outros dormem. — Falou de maneira a que todas o pudessem ouvir. — Mas Jenny serve perfeitamente.

 

E assim fiquei a chamar-me Jenny, um estranho nome, pouco parecido com o meu, mas que era melhor do que ser chamada com um estalido dos dedos. E na segunda manhã havia cavalos prontos para nós e partimos após a alvorada, deixando as irmãs calmamente em pé à porta do priorado e uma delas, pelo menos, com as sobrancelhas franzidas de preocupação. Mas parecia, mais uma vez, que o que Red queria, fazia-se. E assim cavalgámos na direcção de Harrowfield.

 

Imagine-se um vale todo forrado de verde, onde manchas suaves de freixos e faias são interrompidas, aqui e ali, pelos perfis mais fortes de carvalhos ainda vestidos com os trajes de Outono. Ao longo desse vale ondula um rio brilhante com as margens cheias de salgueiros inclinados. O caminho segue ao longo do rio, curvando aqui e ali, entre campos bem tratados, passando por cabanas e redis de ovelhas, vacarias e celeiros. Os camponeses saem para ver passar os viajantes e os seus rostos abrem-se em boas-vindas quando reconhecem os três homens, cada um dos quais veste uma capa branca sobre as roupas sujas de viagem. Estas capas, tiradas do fundo das trouxas antes da entrada no vale, têm um brasão desenhado nas costas e na frente. É um sinal de quem os homens são e a quem pertencem; é a imagem de um carvalho, com nobres e largos ramos, fechado num círculo e por baixo umas linhas, que poderiam significar água.

 

Os camponeses clamam:

 

— Bem-vindo, meu senhor! Boa colheita, Lorde Hugh! E tudo do melhor no vosso regresso!

 

Aquele a quem eles se dirigem não sorri; parece que raramente sorri. Mas reconhece as saudações com uma cortesia grave, abrandando o andamento do cavalo uma ou duas vezes para agarrar uma mão que se estende, para tocar uma criança oferecida em busca de bênção. E, quando abranda, o povo consegue ver mais de perto a pálida jovem que vai na garupa do seu cavalo, embrulhada numa capa escura, os caracóis negros açoitados pelo vento e as mãos seguras no cinto dele para manter o equilíbrio após uma viagem tão longa. Não fazem perguntas; não lhes cabe fazê-las. Mas calam-se e depois de os cavaleiros passarem murmuram entre si e um ou dois fazem sinais discretos com os dedos, para afastar o demónio.

Foi assim a nossa chegada a Harrowfield. O vale abriu-se e surgiu uma grande e baixa herdade. Tinha muitos edifícios, um óptimo celeiro, estábulos e cabanas encostadas à casa principal. As paredes eram de pedra, bem construídas e havia uma avenida de árvores altas, direitas. Os cavaleiros fizeram uma pausa e Red olhou para trás, por cima do ombro.

 

— Tudo bem? — perguntou ele. Eu acenei com a cabeça. Era tudo novo, diferente. Eu não estava exactamente assustada; mas não fazia ideia de como seria, quando chegássemos à grande casa. Vira e ouvira o suficiente para não esperar boas-vindas. Seria eu uma prisioneira, uma refém? Uma serva? Iria ser guardada até lhe dar, por fim, a informação que ele queria e libertada depois? Ou iriam tentar fazer-me falar por outros meios, como a minha família fizera ao irmão dele? Creio que não aguentaria isso. A Dama da Floresta ordenara-lhe que fizesse de maneira a que eu não fosse ferida de novo. Mas um bretão não era capaz de aceitar o mundo subterrâneo e as maravilhas que ele continha; Red afastara-as como se tivessem sido um sonho. Nunca compreenderia porque procedia eu assim; era mais fácil catalogá-las como uma espécie de loucura, uma doença estranha da mente, que fazia com que eu me magoasse a mim própria para além da razão. Devia amar o irmão com uma intensidade feroz; mas nunca se compararia com aquilo que eu tenho de fazer pelos meus.

 

Sem qualquer sinal visível, os três homens incitaram os cavalos a um galope ligeiro e eu tive que me segurar com força. Seguimos rapidamente por entre os álamos dourados e Ben deixou sair um grito exuberante, mostrando os dentes ao mesmo tempo que o vento lhe chicoteava a cabeleira loira como se fosse uma bandeira. Os olhos de John brilhavam de antecipação. E assim entrámos ruidosamente num pátio tão limpo e ordenado como tudo o resto, parando perante uns largos degraus e uma maciça porta de carvalho, que estava completamente aberta. As pessoas tinham sido avisadas, sabe-se lá como, da nossa chegada, porque nos esperava um grupo de boas-vindas nos degraus. Servos bem treinados apareceram para segurar nas rédeas e levar os cavalos cansados e uma pequena multidão reuniu-se. A primeira coisa que Red fez, depois de me fazer descer do cavalo, foi tirar a sua trouxa, fazendo sinal ao servo para que a deixasse com ele. Depois avançou e com a mão livre segurou-me no pulso, de maneira que fui obrigada a segui-lo.

A mulher que esperava, no cimo dos degraus, não me viu. Apenas tinha olhos para Red.

 

— Mãe — disse ele em voz baixa.

 

— Hugh — disse ela e exercia o mesmo controlo que eu tinha visto nos seus dois filhos. Via-se bem que fazia um grande esforço para não quebrar e chorar, ou dar-lhe um grande abraço, ou comportar-se de modo indecoroso perante o pessoal. — Bem-vindo. Bem-vindos, Ben e John. Há tanto tempo. — Havia perguntas desesperadas nos seus olhos, que ficariam por esclarecer até mais tarde.

 

— Bem-vindo, sir. Bem-vindo, meu senhor. — Estavam ali muitos servos para saudar Lorde Hugh; empurravam-se, tocavam-lhe nos ombros, agarravam-lhe na mão. Ele pousou a trouxa no chão, mas não me largou; eu estava em vias de desaparecer no meio da multidão. Olhei para Ben, que continuava a mostrar os dentes com ar louco, rodeado por um bando de lindas raparigas. Mais longe vi John com uma mulher pequena, loira, alguns anos mais nova do que ele. Estava grávida; calculei que daria à luz dentro de três luas, mais ou menos. Era a mulher dele. Ela pendurou-se no braço dele e ele olhou para ela como se não houvesse mais ninguém no mundo. Pensei que também ele exercia o mesmo controlo. Como deve ter ansiado pelo regresso a casa, como o seu coração devia andar apertado, durante todas aquelas luas no outro lado do mar. No entanto, seguira Red sem hesitar. Havia ali uma lealdade que ia para além da minha compreensão.

 

Só quando conseguimos desprender-nos daquela alegre e dolorosa manifestação de boas-vindas é que a dama reparou em mim. Um servo foi enviado em busca de vinho; entrámos num vestíbulo onde estava preparada uma grande lareira com toros de freixo e espinheiro-alvar, mas ainda não acesa, porque o dia não estava frio. Ela sentou-se numa cadeira perto da lareira e fez sinal ao filho para que se sentasse ao pé dela. Havia outros familiares presentes, mas a uma distância discreta. Os nossos companheiros de viagem tinham desaparecido. Cada um deles tinha, supunha eu, a sua própria manifestação de boas-vindas. E assim Red sentou-se ao pé da mãe, estendendo a perna ferida com alguma precaução. A longa cavalgada fora o último tratamento de que ela necessitara para sarar convenientemente. E eu fui deixada em pé ao lado da cadeira dele, sentindo-me só num círculo de olhares curiosos. Ele continuava a segurar-me no pulso, de maneira que não podia mexer-me. A mãe dele olhou-me nos olhos. O rosto dela era redondo e suave sob o delicado tecido do véu; tinha uma rede de finas linhas em volta dos olhos e da boca. Pequenos caracóis escapavam-se da coifa que lhe cobria a cabeça, de um louro-claro. Em tempos, o seu cabelo deve ter sido da mesma cor do do seu filho mais novo; e os seus olhos eram do mesmo azul-brilhante. Li-lhe choque na expressão, medo e também um pouco de irritação. Não falou. Red deixou-me cair o pulso.

 

— Lamento — disse ele. — Esperava trazê-lo para casa. Mesmo depois de tanto tempo, esperava poder fazê-lo. Como vedes, não o encontrei. E não tenho qualquer notícia para vós. Lamento não ter podido... não...

 

— Aprendi a não esperar demasiado — disse a mãe dele e a dama fazia esforço para não chorar. Se chorasse, seria mais tarde, quando estivesse só. — Regressaste são e salvo. Devemos estar gratos por isso.

 

— É como se ele se tivesse desvanecido no ar — disse Red. — Aquele país é, na realidade, muito estranho e está cheio de lendas acerca de casos parecidos. Disparates, claro. Mas nós estivemos perto, muito perto, do local onde tantos dos homens de Richard morreram. Que ele esteve ali, não resta qualquer dúvida. Mas não havia qualquer sinal de que Simon tivesse estado com eles. Falámos com quem pudemos, a coberto da escuridão. Ninguém sabia de prisioneiros, fugitivos ou reféns. Voltei de mãos vazias, mãe. Lamento muito a dor que a minha ausência vos causou; lamento não trazer respostas.

— Confesso que tinha alguma esperança — disse ela. — Não que ele regressaria ao fim deste tempo todo. Mas algo, um pequeno sinal, que me dissesse que ele estava vivo, ou que tinha morrido, uma resposta qualquer para acabar com esta terrível espera.

 

Houve uma pequena pausa.

 

— Não havia nada — disse Red. Absolutamente nada. Descobri que tinha estado a suspender a respiração e deixei-a sair rapidamente. Mas ainda não estava segura.

 

— Parece que não regressaste de mãos completamente vazias — disse a mãe dele e olhou para mim, de cima a baixo, como se inspeccionasse um bocado de carne para a mesa, mas que não a satisfazia. Devolvi-lhe o olhar, firme. Não tinha vergonha de ser a filha de Lorde Colum, apesar do que ele fizera. O meu povo era antigo, muito mais antigo do que o dela e eu era.

 

— Como foste capaz de trazer uma... um deles para a tua própria casa? Como consegues, sequer, estar perto dela? Essa gente levou-te o teu irmão; mataram os homens de Richard barbaramente, de modo inimaginável, com uma crueldade inconcebível. Os modos deles já nem sequer são estranhos; perderam qualquer bondade. Como foste capaz de a trazer para minha casa?

A voz dela tremia de emoção. É agora, pensei. Ele agora vai-lhe dizer que eu sou a única ligação com o filho mais novo. E ela vai-me exigir a informação imediatamente, algo que a convença de que o filho ainda está vivo. E tentarão fazer-me falar, seja de que maneira for. Como poderá ele dizer que não à própria mãe? Estranhamente, compreendi como ela se sentia.

 

Red pôs-se de pé, colocou-se por trás de mim e eu senti-lhe as grandes mãos nos meus ombros.

 

— O nome dela é Jenny — disse ele em voz baixa. — Está aqui como minha hóspede enquanto lhe apetecer, o que pode demorar um bocado. E será tratada com respeito. Por todos. — A dama olhou para ele com a boca ligeiramente aberta. A minha expressão devia ser semelhante, porque eu não esperava aquilo. Trabalhar na cozinha, talvez, a lavar pratos; era o que eu esperava. — Não quero insultar-vos, mãe. Estou apenas a dizer-vos como será. — Ele levantou a voz, o suficiente para que todos o ouvissem. — Esta jovem é bem-vinda a minha casa. Será tratada como membro da família. Dar-lhe-eis a bondade e a hospitalidade que daríeis a outro hóspede qualquer. Não o direi mais vez nenhuma. Que fique claro. — Havia uma ameaça, pensei, naquelas últimas palavras, mas ele não precisou de dizer mais nada. Um silêncio mortal caiu na sala.

 

O servo apareceu com o vinho. Red fez-me sentar e pegar numa taça, mas apenas bebi um gole ou dois. O meu estômago ainda estava destabilizado e sentia-me muito cansada. E havia pessoas a mais, demasiada luz, demasiados sons. Tudo o que eu queria era estar só por um bocado e descansar. E queria uma roca, um fuso, um tear e tempo, muito tempo.

 

— Não me parece grande coisa — disse a mãe de Red, fungando ligeiramente. — O que é que ela vai fazer aqui? Será capaz de fazer qualquer coisa útil?

A boca de Red curvou-se num sorriso que não lhe chegou aos olhos.

 

— Penso que descobrireis que Jenny sabe fazer muita coisa — disse ele. — Maneja muito bem a agulha e o fio. Mas não é para lhe arranjarem um emprego como serva; espero que as vossas damas a acolham como uma igual.

 

— Sinto-me chocada por me pedires isso, Hugh. Talvez eu tenha alimentado esperanças, demasiadas, de que me trarias Simon são e salvo para casa. Em vez disso, trazes o inimigo que o destruiu e pedes-me que faça desse inimigo um amigo. — Sob a máscara da gentileza, ela estava furiosa com ele.

 

Red olhou para ela e depois para mim.

 

— Jenny não fala — disse ele — porque não pode. Mas faz-se compreender muito bem, vereis. E compreende tudo o que dizeis. — Com aquela resposta, que não era de todo uma resposta, ela teve de contentar-se, mas havia um delicado franzido entre as suas sobrancelhas e eu vi uma profunda angústia nos seus olhos.

 

— Não nos dás possibilidade de escolha — disse ela de modo fatigado. Pensei em Simon e nas coisas que dissera acerca da sua família. Na sua história acerca dos dois irmãos, o mais novo nunca fora suficientemente bom; nunca estivera à altura do mais velho. Por que pensara que não gostavam dele? Por que pensara em si próprio como uma segunda escolha? Até na sua ausência estava entre a sua mãe e o outro filho, tão vivo como se estivesse ali em carne e osso.

 

A conversa mudou para terreno mais seguro. Falaram dos assuntos da casa, das colheitas e do gado, do bem-estar dos camponeses. Red fez pergunta atrás de pergunta; parecia ansioso por pegar, de novo, nas rédeas da casa. A minha mente vagueava, revivendo aqueles dias em que Simon estivera ao meu cuidado, recordando as longas histórias, as noites febris, demoníacas, a lenta cicatrização do corpo e do espírito. Recordei a faca dele na minha garganta; recordei as lágrimas dele de furiosa autorepugnância. Estas imagens eram fortes; mal dava pelo que se passava à minha volta. Além disso, estava a ficar tonta por causa do vinho e do dia, que já ia longo. Assim, tive um sobressalto quando senti algo frio e molhado contra a perna, abaixo da bainha do vestido caseiro que as irmãs me tinham dado. Olhei para baixo. Espreitando debaixo do banco onde eu estava sentada estava um cão muito pequeno, velho e cinzento, que olhava para mim com olhos tristes, ramelosos, abanando a cauda gentilmente. Baixei-me e ofereci-lhe uma mão para ele cheirar; ele vacilou e mostrou uma pequena língua cor-de-rosa, lambendo-a num cumprimento. Depois, com um suspiro, sentou-se pesadamente sobre os meus pés como se fosse ali ficar por muito tempo. Abafei um bocejo.

 

— Estás cansada — disse-me Red. — As damas da minha mãe arranjar-te-ão um sítio qualquer para dormires. Foi um dia bem longo. — De maneira esquisita, levantou-se de novo.

 

— A tua perna — disse a mãe dele, reparando pela primeira vez que ele estava ferido. — Que aconteceu à tua perna?

 

— Oh, nada de especial — disse Red de modo previsível. — Um pequeno corte. Não precisais de vos preocupar. — Olhou para mim, viu a minha expressão e eu apanhei-lhe, fugidiamente, aquele ligeiro arabesco que, noutro homem qualquer, passaria por um sorriso reprimido. A mãe dele observava-nos a ambos e o franzir das suas sobrancelhas acentuou-se.

 

— Megan! — chamou ela. Uma jovem serva, com uma cabeça cheia de caracóis castanhos rebeldes avançou, esboçando uma espécie de cortesia.

 

— Arranja um quarto decente para... para... a nossa visitante, Megan — disse a dona da casa e eu senti que ela tivera que fazer um esforço para dizer aquelas palavras. — Água para ela se lavar, algo simples para comer. Diz-lhe onde nos há de encontrar amanhã de manhã.

 

— Sim, minha senhora — disse Megan curvando-se de novo e os seus olhos mantiveram-se, recatadamente, no chão. Mas assim que deixámos a sala, seguindo-a e com o cão trotando atrás de mim como uma sombra, o olhar dela transformou-se numa mistura de viva curiosidade e medo.

 

— Não te esqueças disto — disse Red à minha passagem, entregando-me a minha pequena trouxa. Acenei com a cabeça em agradecimento e saí. Por trás de mim, ouvi a mãe dele a falar de novo e penso que me senti contente por não poder ouvir o que ela dizia.

 

Penso que o quarto que me escolheram era próprio de uma bárbara; pequeno, afastado, mal mobilado, localizado perto dos alojamentos dos servos e a pouca distância do barulho das cozinhas. Se pensavam insultar-me, enganaram-se. Porque gostei, instantaneamente do minúsculo quarto quadrado com as suas paredes de pedra, a dura enxerga com armação de madeira e a pesada porta de carvalho que abria para um canto de um jardim mal cuidado, cheio de arbustos emaranhados uns nos outros e que estavam a florir. Assim que houvesse luz iria lá fora e veria se havia lá morugem a crescer. Uma velha rosa trepava pela parede no lado de fora da porta e uma minúscula trepadeira, florida de azul, atapetava os degraus de pedra. Havia um carreiro cheio de musgo, tapado por ervas daninhas. Através da única janela redonda, colocada no alto da parede, o luar velaria pelo meu sono. Havia uma arca de madeira, um cântaro e uma bacia. Megan trouxe-me água quente e uma outra rapariga, de olhar furtivo, trouxe um tabuleiro com pão, queijo e frutos secos, escapulindo-se, depois, do quarto. Pousei a minha trouxa aos pés da cama e esperei que Megan saísse. O cão inspeccionou os cantos todos do quarto com cuidado, farejando calmamente; por fim, satisfeito, reuniu forças e deu um heróico salto para a enxerga, onde se instalou com as patas sobre o nariz.

 

— Onde está a tua bagagem? — perguntou Megan de modo estranho. — O teu roupão, as outras coisas?

 

Abanei a cabeça, indicando a pequena trouxa.

 

— É só? — Parecia chocada. Conseguia ouvir as perguntas por fazer. — Onde te encontrou ele? Que lhe deu para te trazer para aqui, sem mais nada senão as roupas que trazes no corpo? Porquê?

 

Megan falou de novo, surpreendendo-me.

 

— Essa era a cadela de Simon — disse ela. — O irmão do meu senhor Hugh. Alys, chamava-lhe ele. Já está muito velha; tinha-a desde criança. Nunca deixou ninguém aproximar-se desde que ele se foi embora. Era capaz de nos arrancar os dedos se nos aproximássemos para lhe fazer uma festa. Até agora. — Esboçou uma tentativa na direcção da velha cadela; esta respondeu com uma rosnadela profunda, mostrando os dentes. — Estás a ver? — disse Megan de modo leviano. — Coisinha depravada. Mas parece que gosta de ti.

 

Esbocei um sorriso e ela devolveu-mo, a curiosidade natural sobrepondo-se à prudência.

 

— Vou falar com a minha senhora Anne — disse ela. — Para te arranjar um roupão e algumas outras coisas. E venho ter contigo amanhã de manhã, para te mostrar onde deves ir. Aqui, levantamo-nos cedo.

 

Nessa noite dormi; mas o cansaço e os efeitos do vinho não foram suficientes para apagar, por completo, os terrores nocturnos que ainda me assaltavam e acordei subitamente de um sonho que é melhor ficar por contar, um sonho que tinha muitas vezes, a espécie de sonho que se prolongava até aos meus pensamentos diurnos, fazendo com que tremesse cada vez que um homem me tocava, a espécie de sonho que me fazia encolher o corpo todo, estremecer e bater o coração no peito. Alys dormia pesadamente sobre os meus pés; não acordara. Uma luz difusa, proveniente da lua em quarto-minguante, entrava-me no quarto. E havia vozes baixas no exterior.

 

Levantei-me e fui suavemente até à janela. Ambas as portas estavam fechadas, se bem que tivesse preferido deixar uma aberta para cheirar os aromas de alfazema e madressilva da noite, sentir a leve brisa na pele. Mas eu perdera a capacidade de confiar; já não estava protegida pela suave capa da inocência. Assim, aferrolhara as portas. Mas pus-me em bicos dos pés em cima da arca e olhei para o jardim. Duas silhuetas conversavam; ambas estavam vestidas de escuro e vi o reflexo de armas à luz fraca do luar. Uma delas saiu por um portão no muro; de cabelos loiros, desenvolto no modo de andar, apesar de ser noite. A outra era mais alta e andava com um leve coxear. Encostou-se ao muro no canto mais longínquo do jardim, relaxado mas alerta, uma das pernas esticada, quase invisível na escuridão. Era uma longa vigília até de madrugada.

 

Não consegui perceber se me sentia melhor ou pior, sabendo que estava guardada. Para onde pensavam eles que eu podia fugir, ali no meio do país deles, sem sequer um par de botas ou uma garrafa de água? Além disso, depois da recepção que tivera até agora em Harrowfield, parecia-me pouco provável que os locais me oferecessem ajuda se eu tentasse atingir a costa. E o que faria então, nadaria para casa? Não, estava presa ali, quer quisesse ou não. Portanto, por quê a guarda?

 

Imaginei, por um momento, se aqueles homens alguma vez dormiriam. Lembrei-me, então, de Red na caverna, o rosto branco de dor e exaustão. Era humano, pensei; simplesmente, não gostava que as pessoas soubessem. E parecia que tinha em grande valor a informação que eu lhe poderia dar; faria com que não lhe escapasse enquanto esperava que eu falasse.

 

Levantaram-se todos cedo, mas não tão cedo quanto eu. Antes da alvorada já eu estava levantada, lavando a cara na água fresca, indo à retrete, desaferrolhando a porta e saindo para o jardim mal cuidado. A pequena Alys seguiu-me, mas lentamente, com as articulações perras, devido à idade. Alguém tinha cuidado bem daquele jardim, em tempos. Mas não havia morugem; mais tarde, quando precisar de mais, precisarei de a procurar no campo. Amaldiçoei-me por negligenciar a minha tarefa, antes de deixar a floresta. Havia uma velha tina de água por baixo dos arbustos de absinto, meio cheia de lama. Podia usá-la para ensopar as fibras que trouxera do priorado. Havia ali muitas ervas; as suficientes, se eu as tratasse bem, para armazenar uma boa quantidade de pomadas e unguentos, tinturas e essências. Perguntei a mim própria se me deixariam ter um almofariz, algumas facas, cera de abelhas e óleo. Depois, pensei que não havia tempo para isso. E Finbar, Conor e os outros? O tempo corre para eles e já estamos no Outono. No entanto, não havia nada a fazer e quando Megan me veio buscar estava eu a arrancar ervas daninhas, a separar as plantas jovens das velhas, a planear como seria se podasse, cavasse e plantasse. Quase me tinha esquecido onde estava. Dos meus guardiões nocturnos não havia sinal, salvo pelas marcas das botas deles no solo macio. Tinham-se desvanecido com a primeira luz.

 

A atitude das pessoas de Arrowfield para comigo podia ser descrita como uma espécie de fria cortesia. Lady Anne dava o exemplo. Era evidente que o seu filho era o chefe da casa, esperava ser obedecido e nem ela o questionava. Assim, apenas me falava quando as circunstâncias o exigiam. Quando olhava para mim, mal disfarçava a hostilidade com os seus olhos azuis-claros. Cuidava de mim, mas apenas até onde o exigiam as leis básicas da hospitalidade. Dizia para mim própria que me era suficiente. Vivia de modo selvagem há quase dois anos; tinha-me desabituado do luxo, se a nossa vida em Sevenwaters podia chamar-se assim, porque na nossa família de homens vivia-se de modo bastante simples. Não precisava de vestidos bonitos, pão de milho, ou uma almofada cheia de penas de ganso. Disse-o para mim própria e era verdade.

 

A companhia é que era difícil. Estivera só durante muito tempo, com excepção daquelas preciosas noites em que os meus irmãos puderam retomar a forma humana, quando pudemos falar mente com mente, quando nos pudemos tocar, olhar e armazenar recordações para os longos e solitários tempos de intervalo. Agora estava rodeada de mulheres, mulheres que falavam permanentemente umas com as outras, que estavam sempre presentes, que me interrompiam os pensamentos, me tornavam a tarefa mais difícil, mais lenta e mais dolorosa, porque preciso de trabalhar o dobro, para não me esquecer da minha presença naquele local e a razão dessa presença. E os olhares; os olhares eram de lado, amargos, cheios de medo. Eu era o inimigo; não interessava muito o que Lorde Hugh dissera, porque a grande sala solarenga onde nos encontrávamos todas as manhãs, para fiar, coser e bordar era um lugar de mulheres e eu lia nos rostos dessas mulheres aquilo que pensavam de mim.

 

Eu sou a filha da floresta, dizia eu para mim própria enquanto tirava as longas e ásperas tiras de morugem da minha trouxa e começava a fiar com um fuso e uma roca emprestados. Eu sou afilha de Lorde Colum de Sevenwaters. Tenho um irmão que é um óptimo chefe e outro que é perito em mistérios mais antigos do que tudo o que o teu povo pode imaginar. Tenho um irmão que é um guerreiro corajoso e outro que as criaturas selvagens reconhecem como amigo. Tenho um irmão que... tinha um sorriso que encantava as aves das árvores e que um dia voltará a ter. E à medida que o fio me feria uma vez mais e eu o ligava de novo, com as finas farpas furando-me a pele como pontas de ferro quente, dizia para mim própria: Tenho um irmão que sabe como curar o espírito, que dá tudo de si próprio até não lhe restar mais nada. E vós, que tendes vós, com as vossas suaves mãos e os vossos bonitos bordados? A cada volta deste fio acerado eu choro pelos meus irmãos. Com cada farpa na minha carne, estou a chamá-los de volta a casa.

 

As bretãs pensavam que eu não era boa da cabeça. Após o primeiro choque, ficaram incrédulas ao verem o meu trabalho e ao perceberam que eu o levava a sério, ao trabalhar as fibras daquela planta com os meus dedos. Quando me viram reprimir um grito de dor e forçar-me a manter o rosto calmo, afastaram-se de mim e juntaram-se, olhando de vez em quando, furtivamente, para o canto onde eu estava sentada. Eu ouvia as conversas, se bem que as vozes delas fossem abafadas. Porque a mãe dele estava presente, não questionavam abertamente as razões de Lorde Hugh. Mas contavam velhas histórias, histórias terríveis de como os chefes guerreiros de Erin tinham morto este homem, estropiado aquele, como a fina-flor do seu povo morrera durante a longa guerra entre nós. Olhando para mim por cima do ombro, falavam de homens bons enfeitiçados e traídos por mulheres da minha raça, mulheres de pele pálida, cabelos escuros como a noite e de belas palavras. Tudo aquilo era dito para que eu ouvisse. Podia contar-lhes o nosso lado da história a história do meu pai. Porque Colum era o sétimo filho e quantas vezes o sétimo filho herda as terras do pai? Só quando todos os seus irmãos se perderam na guerra, caindo um a um em defesa daquilo que achavam mais precioso. Mas mantive-me silenciosa.

 

Entre as sobrancelhas levantadas e os lábios franzidos, havia uma que ousava ser diferente. Era a mulher de John. Tinha estado a observar-me e os olhos dela eram os únicos que não me julgavam. No terceiro dia, quando eu estava sentada num banco alto no meu canto, lutando com o fuso e a roca e tentando conter as lágrimas, ela veio sentar-se ao pé de mim, trazendo o seu trabalho com ela. Estava a fazer a bainha de um vestido minúsculo; o corpo e as mangas já mostravam um conjunto de folhas delicadamente bordadas, com uma abelha amarela ou uma flor escarlate aqui e ali. Podia ver o seu amor pela criança por nascer em cada ponto daquele pequeno traje. Estendi as mãos lamentáveis, inchadas, para o tocar e sorri-lhe.

— O teu nome é Jenny, não é? — perguntou ela em voz baixa. — Eu sou Margery, mulher de John.

 

Eu acenei com a cabeça, pegando de novo no fuso. Fizera-se silêncio entre as outras mulheres; agora, retomavam a conversação.

 

— Disseram-me que tinhas o dom da cura — continuou ela, olhando-me de lado. — O ferimento de Red... De Lorde Hugh, não deve ter sido muito fácil de tratar naquelas condições. Ele deve-te muito.

 

Olhei para ela e a minha surpresa deve ter sido óbvia. Ela estava divertida.

 

— Os homens, de vez em quando, falam, minha querida — disse ela. — Ficarias surpreendida com aquilo que ouço. E se bem que John guarde quase tudo para ele próprio, não é cego. Há muito que é amigo de Red... De Lorde Hugh, muito antes de eu ter vindo viver para Harrowfield. Ele adivinha o que Hugh não diz em voz alta. A tua chegada pôs esta casa em rebuliço e não vai acalmar tão depressa.

 

Pensei naquilo. Tínhamos visto os homens na refeição da noite e os três que eu conhecia tinham-me cumprimentado com cortesia. Ben sorrira e puxara-me a longa trança, quase como Cormack poderia ter feito. John saudara-me pelo meu novo nome e sentara-se ao meu lado, ignorando o franzir de sobrancelhas de Lady Anne. Perguntei-me se a guarda iria continuar, de uma forma ou de outra, até durante o dia. De Red, sentado à cabeceira da mesa como era próprio, pouco vira, mas sentira-lhe os olhos em mim à medida que a refeição ia decorrendo e eu aguentava os sons, os cheiros e a proximidade de tantos estranhos, ansiando pela chegada da noite.

 

John não falou muito, mas reparei que impedia os servos de me porem carne assada no prato e se assegurava de que eu comia algo e quando alguns dos jovens começaram a tornar-se ruidosos devido à cerveja e a lançarem comentários obscenos na minha direcção, silenciou-os com algumas palavras cuidadosamente escolhidas. Como amigo de Red, tinha autoridade. Era, soube-o em seu devido tempo, uma espécie de primo afastado da família e sempre vivera em Harrowfield. Eu sentia-me feliz com a sua protecção e mais ainda nos dias que se seguiram, já que não havia mudança na atitude da família para comigo e havia sempre alguém a observar-me. Quando me sentava com as damas, Margery estava sempre presente, sempre amável, sempre pronta a sair do círculo encantado e a sentar-se ao pé de mim, feliz por conversarmos a duas, de olhos cheios de preocupação ao ver o meu progresso doloroso com o fuso e a roca, nunca deixando sair uma palavra de julgamento. Eu tinha a certeza de que as suas intenções eram boas, mas também me perguntava se alguém lhe teria pedido para me vigiar. A guarda nocturna continuou. Um deles vigiava desde a minha ida para o quarto até à meia-noite, enquanto o outro vigiava da meia-noite até de madrugada. Cada um deles, suponho, dormia de três em três noites. Observava-os sem que eles me vissem e reparei que aquela tarefa cabia apenas a Ben, John e Red. Perguntei-me se naquela casa tão grande e obediente haveria duas pessoas em quem Red realmente confiaria.

 

Também reparei que nunca se afastavam muito, fosse a que horas fosse do dia. Não podia estar permanentemente a fiar e a tecer, se bem que o desejasse fazer, porque as minhas mãos, meio saradas devido à minha negligência, estavam agora a ficar outra vez ásperas e inchadas e eu era forçada a parar, por algum tempo, todas as tardes, a minha tarefa, antes de continuar o meu lento labor sozinha, à luz da vela, depois da refeição da noite. Tentei começar a trabalhar no jardim, mas os progressos eram lentos, porque as minhas mãos teriam de calejar de novo antes de poder manejar uma faca ou um sacho. Mas tive algum sucesso; o solo era escuro e rico e as ervas daninhas não eram muito difíceis de arrancar. Quando não conseguia mais, saía, com a atarracada Alys a trotar atrás de mim e ia explorar até o mais longe que podia, enquanto tentava ser o mais discreta possível. Era incrível como um daqueles três aparecia, tantas vezes, nas vizinhanças; Ben, treinando um poldro no campo, mesmo por onde eu escolhera passar; John, dirigindo o armazenamento de vegetais para o Inverno, no celeiro, mesmo quando eu ia nessa direcção. O próprio Lorde Hugh, sentado num velho banco no pomar de macieiras numa manhã cedo, com um tinteiro ao lado, escrevendo num livro ou numa folha de papel equilibrada sobre os joelhos. Alys rosnou para ele.

 

— Ela nunca gostou muito de mim — comentou ele, aparentemente pouco surpreendido por me ver. — Saíste cedo. Não quero que vás para longe.

 

Subitamente, senti-me aborrecida. Ele tinha sempre a certeza de que tinha razão, estava tão habituado a que todos fizessem o que ele dizia. Pensei que não podia ser sempre boa para ele, fazer sempre as coisas como ele queria. Por que não havia eu de sair sozinha? Tinha medo que eu fugisse para sempre e levasse a minha informação comigo?

 

Ele leu-me um pouco desta mensagem muda no rosto e pousou o livro e a pena cuidadosamente. Vi linhas de uma escrita cuidadosa e aqui e ali uma imagem bem desenhada, ou um diagrama.

 

— Há riscos. Quero que fiques perto da casa. Não poderemos garantir a tua segurança se te aventurares para longe.

 

Gostaria de poder dizer-lhe: Tu tiraste-me da floresta. Pelo menos, deixa-me caminhar sob as tuas árvores, sentir o teu rio correr sobre os meus pés descalços, deitar-me nos teus campos e ver as nuvens passar por cima. Pelo menos, deixa-me estar sozinha um pouco. Porque na tua casa não consigo sentir o ar, ou o fogo. Não consigo cheirar a terra ou ouvir a água. Eu não fujo; não posso. Porque sem a tua protecção, não completarei a minha tarefa.

Continuar: parte 2 de 2