A Filha da Floresta
Capítulo Três
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Algumas coisas não têm conserto. Outras têm, mas o trabalho deve ser feito lentamente, peça a peça, um passo de cada vez, o que exige muita paciência.
Era assim com Simon. A visita de Finbar fora um passo à retaguarda e eu tinha que reparar os danos antes de continuar com o processo de cura. Simon fizera uma combinação comigo e parecia ser um homem de palavra. Assim, se bem que estivesse frequentemente num estado de espírito negativo, com pouca vontade de sobreviver no seu corpo mutilado, cerrava os dentes e seguia sempre as minhas ordens. Passaram seis ou sete dias e nós seguíamos em frente com uma lentidão dolorosa. O período nocturno era o pior. Como Simon não tolerava a ajuda do padre Brien, era eu que o atendia em todas as necessidades, se bem que o bom padre me ajudasse subtilmente, fazendo com que estivessem sempre à mão panos e pomadas, roupa branca lavada e providenciando comida e bebida, como por magia, sempre que eu tinha tempo para a partilhar. Porém, sentia-me cansada, com umas dores no corpo como nunca tinha sentido antes. Utilizava o musgo dourado tão frugalmente quanto podia. Com a sua ajuda, Simon dormia durante algum tempo antes de começarem os pesadelos e eu aprendi a adormecer no momento em que ele o fazia, porque era nessas ocasiões que eu tinha algum descanso.
Essas noites tinham um padrão. Simon gritava e eu acordava de repente para o encontrar sentado, as mãos no rosto, tremendo e arfando. Nunca me dizia o que via, mas eu imaginava. Eu acendia uma vela e passava-lhe um pano pelo corpo para lhe limpar o suor, enquanto a cadela se retirava para o pé da porta, ganindo de ansiedade. Percorria as minhas histórias e canções nessas ocasiões tenebrosas e a minha garganta ficava seca e dorida de tanto falar. Simon escutava algumas, enquanto outras passavam por ele como folhas levadas pelo vento. Quando o medo atingia o auge, deixava-me envolvê-lo com os braços e eu cantava-lhe cânticos de embalar, acariciando-lhe o cabelo como se fosse uma criança assustada. Eventualmente acabava por adormecer e a exaustão tomava conta de mim, sentada à beira da enxerga, acabando por adormecer ali, a minha mão na dele. Tais períodos eram breves. Ele era capaz de acordar quatro, cinco vezes numa noite; a tentação para lhe dar uma dose forte de qualquer coisa que nos permitisse a ambos ter uma noite descansada era forte, mas eu sabia que o trajecto para a sua recuperação se baseava na purificação do corpo e em conseguir viver com o medo. Porque as recordações estariam sempre com ele, de uma forma ou de outra.
Simon não deixava que o padre Brien se aproximasse. Tinha que ser eu a fazer tudo, acordar num instante, tratar e confortar, manter as feridas limpas e ligadas, estar ali para qualquer necessidade dele. O que era duro, mas fora o nosso acordo. Porém, à noite, o padre Brien nunca nos deixava sós. Sentava-se na parte exterior da caverna, uma vela ao lado, à espera que a bênção do sono aparecesse. A sua presença silenciosa era reconfortante, porque eu tinha nos demónios nocturnos um formidável desafio.
Havia ocasiões em que eu odiava Simon, apesar de não ser capaz de dizer porquê. Suponho que era porque, depois daquilo, a minha vida nunca mais seria a mesma. Além disso, eu tinha apenas 13 anos e pensava com frequência em como seria bom estar em casa, cavalgando um pónei com Padriac ou plantando bolbos de açafrão para florescerem na Primavera. Tinha saudades de trabalhar no meu pequeno jardim, tão calmo e ordenado, cheio de aromas frescos e saudáveis e ver as coisas a crescer.
Depois de oito ou nove noites daquelas, o padre Brien e eu parecíamos fantasmas, pálidos e esgotados. Então, houve um dia que amanheceu cheio de sol, o ar um pouco mais quente e eu fiz Simon levantar-se e ir lá para fora, para mais longe do que o habitual, de maneira que ficámos acima da linha das árvores, podendo ter um vislumbre das águas do lago aninhadas nas sombras verde-acinzentadas da floresta.
— A nossa casa é lá em baixo — disse-lhe eu perto da margem do lago —, mas está escondida pelas árvores. Deste lado, a floresta vai mesmo até à borda de água. No nosso lado há rochas dentro de água e podemos deitar-nos em cima delas e observar os peixes. E há carreiros por dentro da floresta, todos diferentes.
— Deve ser fácil perderem-se.
— Não — disse eu. — Mas acontece, quando as pessoas não sabem o caminho.
Pensei naquilo pela primeira vez. Como é que nós sabíamos sempre o caminho?
Simon encostou-se ao tronco de um freixo sem folhas, fechando os olhos.
— Tenho uma história para te contar — disse ele surpreendendo-me. — Não tenho a tua habilidade para a contar tão bem, mas é suficientemente simples.
— Está bem — disse eu cuidadosamente, sem saber o que esperar.
— Havia dois irmãos — disse Simon, e a sua voz era monótona e inexpressiva. — Eram muito parecidos fisicamente, na força e na inteligência; mas o primeiro era mais velho alguns anos. É engraçado como a diferença de alguns anos pode fazer diferença. O pai deles morreu; e por causa dessa diferença de anos o mais velho herdou tudo. E o outro? Ficou apenas com uma pequena parcela de terreno que ninguém queria. O mais velho era amado por todos; em poucos anos conseguiu insinuar-se nos corações de todos e ganhar a sua lealdade, mas tudo sem um único olhar na direcção do irmão. E este? Se bem que fosse tão bom, forte e talentoso como o irmão, ninguém parecia reparar nele.
“O mais velho era um líder e os seus homens olhavam para ele e respeitavam-no. Era um homem incapaz de errar e inspirava total lealdade onde quer que fosse, sem esforço. O mais novo? Fazia o que podia; mas nunca era suficientemente bom. — Simon calou-se, como se não quisesse continuar.
— E depois, o que aconteceu? — perguntei.
Simon distendeu a boca naquilo que poderia parecer um sorriso, não fora a frieza dos seus olhos azuis.
— O mais novo teve uma oportunidade para provar que também tinha valor. Fazer algo que todos, mesmo o seu irmão, não poderiam deixar de reconhecer. Depois, pensou ele, serei como ele, tão bom como ele, talvez, até, melhor. Aproveitou a oportunidade e falhou.
— E depois?
— Não sei, bruxinha. Esta história parece que não tem um fim. Como é que tu a acabarias?
Baixou-se lentamente até ao solo, com muito cuidado.
Afastei-me para lhe dar espaço sobre um ramo caído. Linn estava no seu elemento, farejando em volta as folhas outonais, andando de um lado para o outro, voltando para o pé de nós de vez em quando, para se certificar de que ainda ali estávamos e desaparecendo de novo atrás de um outro odor qualquer.
Escolhi as palavras com cuidado.
— Parece uma história de crianças, se bem que nessas os irmãos sejam, geralmente, três e não apenas dois. Creio que o irmão mais novo teria ido por esse mundo afora em busca de fortuna e teria deixado o irmão mais velho para trás. No caminho encontraria três pessoas, ou criaturas... são sempre três.
— Tens resposta para tudo — disse Simon friamente. — Conta-me o resto.
— Bem, podias acabar a história de várias maneiras diferentes — disse eu, animando a perspectiva. — Digamos que o irmão mais novo encontra uma velha. Ele tem fome e só tem um pão de aveia, mas dá-lho. Ela agradece-lhe e ele continua o seu caminho. Talvez a seguir ele encontre um coelho preso numa armadilha e o liberte.
— É mais provável que o esfole e o coma — disse Simon. — Especialmente depois do pão de aveia.
— Mas este coelho olha para ele com uns olhos verdes muito bonitos — disse eu. — Ele tem que o libertar. Por fim, encontra um gigante. Este desafia-o para uma luta de paus. O jovem concorda, sentindo que não tem nada a perder. Lutam durante algum tempo e ele dá alguns bons golpes antes de o gigante o derrubar. Quando vem a si, o gigante agradece-lhe polidamente por uma luta tão leal; de todos os viajantes que passaram por ali, ele foi o primeiro que se atreveu a parar e a fornecer ao gigante um pouco de diversão. Em seguida, o gigante parte com ele como guarda-costas.
— Conveniente — disse Simon. — E depois?
— Aparece um castelo e uma dama — disse eu, apanhando uma mão-cheia de folhas e bagas caídas e, de modo ausente, comecei a entrelaçá-las. — Ele tinha-a visto de longe, talvez cavalgando muito bem-vestida, quando ele e o seu amigo gigante passavam pela estrada e no instante em que a vê apaixona-se e quere-a para si. Mas há um problema. Para a conquistar tem que cumprir uma tarefa.
— Ou talvez três.
Eu acenei com a cabeça.
— É o mais comum. E é aqui que as suas boas acções praticadas antes o vão ajudar. Talvez tenha que limpar um grande estábulo antes do nascer do Sol e a velha apareça e faça tudo num instante com um golpe de magia. A seguir, talvez tenha que descobrir um determinado objecto, uma bola dourada, num certo lugar escuro, no fundo de um túnel subterrâneo. O coelho podia fazer isso. A última seria uma prova de força e é aí que entra o gigante. Assim, o nosso herói conquista a dama e vive feliz com ela para sempre.
— E o irmão dele?
— Esse? Bem, quando o irmão mais novo termina todas as suas aventuras e conquista o coração da dama já esqueceu o irmão mais velho e os ciúmes que tinha dele. Tem a sua própria vida.
— Não gosto desse fim — disse Simon. — Tenta outro.
Pensei durante um bocado.
— E que tal se ele fosse para a guerra e quando voltasse encontrasse o irmão morto e todas as terras passassem para ele?
Simon riu-se e eu não gostei da aspereza da risada.
— Como é que tu achas que ele se sentiria?
— Confuso, creio. Consegue o desejo do seu coração, que é tomar o lugar do irmão. Mas nunca mais se esquece dos anos que perdeu invejando o irmão, em vez de tentar conhecê-lo melhor.
— O irmão dele não estava interessado — disse Simon friamente e eu pensei que quase acertara no alvo. Concentrei-me na grinalda que estava a fazer. Folhas avermelhadas, castanho-escuras, amarelo-douradas. Algumas já estavam demasiado frágeis, os últimos traços do Verão já tinham desaparecido do esqueleto dos seus corpos. As bagas vermelhas, como sangue. Ele observava-me.
— Sorcha — disse ele após um certo tempo e era a primeira vez que dizia o meu nome, em vez de “bruxa”, ou “rapariga”, ou outra coisa pior. — Como é que tu acreditas nessas histórias? Gigantes, fadas, monstros. Isso são fantasias de criança.
— Algumas podem ser verdadeiras, outras não — disse eu, entrelaçando uma grande folha pontiaguda por baixo, através, e em volta dela própria. — É assim tão importante?
Ele levantou-se e eu ouvi a mudança na respiração, quando ele engoliu um gemido de dor; silêncio significava controlo.
— Nada na vida é como as tuas histórias — disse ele. — Aqui, vives no teu pequeno mundo; não fazes ideia do que existe fora daqui. Desejaria... — calou-se.
— Desejarias o quê? — perguntei quando ele não continuou.
— Quase desejaria que nunca o chegasses a descobrir — disse ele de costas voltadas para mim.
— Não achas que já comecei? — Levantei-me com a pequena grinalda na mão. — Vi o que te fizeram. Tenho ouvido os teus pedidos de socorro. E tu próprio já me contaste tantas histórias de crueldade que sou forçada a acreditar nelas. Nunca pensaste em me poupares a isso.
— Tu manténs esse mundo afastado com as tuas histórias.
— Não por completo — disse eu, enquanto começávamos lentamente o caminho de volta. — Nem para ti, nem para mim. As histórias apenas o tornam um pouco mais fácil, é tudo. Mas tu vais ter que falar nesse mundo eventualmente, se te queres curar e voltar para casa.
O padre Brien tinha-lhe dado um forte pau de freixo e ele usava-o para o ajudar a andar; ainda o fazia hesitantemente, dolorosamente, mas já se mexia sem a minha ajuda. Naquele local, o caminho estava coberto de folhas caídas e a rede provocada pelos ramos das árvores deixava passar uma luz fria que as tocava, dourando-as e prateando-as. Linn permanecia estática enquanto escavava e farejava aqui e ali. Um pássaro cantou; um outro respondeu-lhe.
— Conseguirei alguma vez dormir de novo? — perguntou ele de repente, apanhando-me de surpresa. Eu tinha a resposta guardada; eu tinha visto aqueles que haviam sido apanhados pelas Criaturas Encantadas, como a sua loucura nunca os deixara por completo, de noite ou de dia, como o turbilhão das recordações nunca os deixavam em paz.
— É capaz de demorar ainda bastante tempo — disse eu, gentilmente. — Fizeste alguns progressos; mas não te vou mentir. O que fizeram ao teu corpo não se cura com facilidade. Mas tu podes ajudar-te a ti próprio, se escolheres o caminho certo.
O corpo de Simon estava a sarar. Ele era jovem, forte, resistente e estava a ganhar a luta contra aquela noite terrível e os ferimentos que se seguiram. Após um certo tempo, começou a andar sem a ajuda do pau e trocou as primeiras palavras com o padre Brien quase sem dar por isso. Eu festejava cada pequena vitória com alegria. Uma palavra amável, uma tentativa para fazer algo novo, um sorriso espontâneo, tudo era um presente sem preço. O processo de cura tomou forma, tornou-se mais rápido e eu comecei a acreditar que talvez conseguíssemos enviá-lo de volta para o seu povo.
No entanto, era claro que ele ainda não podia passar sem os nossos cuidados. O Outono estava no fim e as noites eram cada vez mais longas e frias. E Simon ainda não podia sacudir os demónios que tinham tomado conta dele durante os tempos de escuridão. Os seus atormentadores visitavam-no vezes sem conta, atormentando-o, e ele lutava contra eles, ou fugia-lhes, ou entregava-se à sua mercê. Uma noite fiquei com um olho negro, quando ele se levantou, meio a dormir e tentou fugir. O padre Brien e eu conseguimos impedi-lo, mas eu apanhei com a força toda do braço dele no meu rosto. Na manhã seguinte, não queria acreditar que tinha feito aquilo. Uma outra vez apanhou-me desprevenida, acordando antes de mim, subitamente e aterrorizado, mas, pela primeira vez, silencioso; e tinha na mão a faca, com a qual se virou contra ele próprio, antes de eu me aperceber. Nunca saberei como me movi com tanta rapidez, mas segurei-lhe o pulso, mantive-me pendurada nele enquanto gritava pelo padre Brien e os dois juntos tentámos acalmá-lo, enquanto ele chorava, delirava e nos pedia que o matássemos. Devagarinho, devagarinho, falei-lhe e cantei-lhe até que se acalmou e quase dormiu, mas só quase. Parara de falar, mas os seus olhos eram bem explícitos e a sua mensagem era bem clara. Sabia muito bem o que o futuro lhe reservava e pedia-me que lhe acabasse com aquela dor. Que direito tinha eu de lho recusar?
Contara-lhe muitas histórias. Mas não lhe podia dizer porque acreditava que devia viver, sarar e continuar. Se ele se ria das lendas de Culhan e dos antigos heróis, das sagas do povo do ocidente, se achava as histórias dos duendes e do povo das árvores estranhas, se bem que eu própria os tivesse visto com os meus próprios olhos, como podia eu esperar que ele acreditasse que o destino de ambos estava ligado, de acordo com o que me dissera a Dama da Floresta? Ele nunca acreditaria que eu a tinha visto, na clareira, com a sua capa e as jóias brilhando-lhe no cabelo. Simon era de um povo completamente diferente, prático, terra-a-terra, que só acreditava naquilo que via com os próprios olhos. Porém, se alguma vez encontrei alguém que precisava que a magia e o mistério das velhas tradições lhe entrassem no espírito, esse alguém era ele. Usei essa magia para o curar, quer ele o soubesse, quer não, mas sem fé nele próprio não poderia ir mais longe. Só quando conseguíssemos convencê-lo de que havia uma razão para viver é que o poderíamos deixar ir, mesmo se o corpo estivesse curado, porque não passaria da primeira noite sem nós.
Tentei falar-lhe nisso, mas ele mandava-me calar quando eu me aproximava da casa dele, da família, ou do que quer que fosse que o fazia viver. Creio que ao princípio ele se sentia estreitamente ligado à sua condição de soldado, o que o manteve silencioso sob a tortura e que era devida à guerra entre os nossos dois povos. Eu era o inimigo; não devia saber nada dele que me pudesse dar qualquer vantagem, ou pôr os seus em risco. No entanto, aquelas noites de tormento, que nós percorremos juntos, quer o quiséssemos, quer não, mudaram-nos a ambos. Para o fim, ele reconhecia-me, de algum modo, como parte do seu mundo, sabendo, ao mesmo tempo, que eu não estava, nem num lado, nem no outro, da sua longa luta. Com as minhas ervas e histórias eu era, para Simon, um ser estrangeiro, mas lentamente ele começou a confiar um pouco em mim, a despeito dele próprio.
O padre Brien fazia planos o melhor que podia. O tempo passava e as noites de terror persistiam. O tempo húmido chegara e eu não podia manter os passeios de Simon; ele andava inquieto, confinado à caverna, mesmo durante o dia e descarregava as frustrações em mim, discutindo tudo. Porque é que havia de comer e beber quando eu dizia, de que é que servia? E, frequentemente, porque é que eu não ia para casa, brincar com as bonecas, em vez de fazer experiências com ele? Porque é que eu havia de lhe remendar as roupas se ele nunca haveria de fazer outra coisa senão estar deitado e atormentado por uma rapariga maluca e um velho louco religioso? Estava a pôr-nos, aos dois, loucos, mas, pelo menos, o padre Brien podia dar-se ao luxo de se retirar para a cabana, para escrever ou meditar. Eu tinha feito uma promessa a Simon e estava presa a ele.
Estava a tentar coser, com os olhos concentrados no meu trabalho, enquanto Simon andava à minha volta.
— Afinal, o que é que estás a fazer? — perguntou ele, olhando de perto para a túnica que eu tinha nas mãos. — O que é isso?
Mostrei-lha.
— Mal darás por ela — disse eu. — Mas ajudará a proteger-te. A sorveira-brava é das plantas mais sagradas que há; uma cruz, feita dos raminhos desta planta, é cosida em todas as roupas dos meus irmãos quando vão para a guerra. O fio vermelho, com o qual eu tinha cosido a minúscula cruz de sorveira-brava, sobressaía como uma gota de sangue contra a lã creme do debrum. Cortei o fio com os dentes, dobrei a túnica e era como outra peça de roupa qualquer.
— Eu não vou para a guerra — disse Simon. — Já não tenho capacidade. E se calhar nunca tive — acrescentou ele em voz baixa, virando-me as costas.
Voltei a colocar, cuidadosamente, as agulhas e o fio na caixa.
— O que é que queres dizer? — perguntei.
— Eu... nada — disse ele, sentando-se na beira da enxerga e olhando para o chão. Fiquei sentada, quieta. Após um momento, ele olhou para cima e o seu rosto estava branco.
— O problema — disse ele com dificuldade — o problema é não saber. Não saber se... fui suficientemente forte.
— Suficientemente forte para quê? — Mas eu adivinhava.
— O problema é que... não me consigo lembrar. Não me consigo lembrar de tudo. — Tremia à medida que recordava, não os terríveis pesadelos, durante o sono, mas em plena luz do dia. — Nem tudo. Tenho quase a certeza que aguentei. Durante muito tempo, sei-o, porque eles estavam furiosos, estavam tão furiosos...
— Está tudo bem, Simon — disse eu, chegando-me para o pé dele rapidamente, ajoelhando-me e segurando-lhe ambas as mãos. — Podes dizer-me.
Apertou-me as mãos dolorosamente, como se eu fosse um salva-vidas.
— Mas no fim, quando eles... quando eles... — fechou os olhos, o rosto contorcido devido à dor recordada. — Depois eu... eu não sei se... Devo ter... — parecia incapaz de completar o raciocínio, como se a procura das palavras certas estivesse para além da sua resistência.
— Achas que lhes podes ter dito algo que não devias, algo secreto?
Acenou com a cabeça miseravelmente.
— Eu disse-te que ele falhou. Traiu a confiança que puseram nele, entregou os seus homens ao inimigo. Como é que podia voltar, depois disso? — Retirou as mãos das minhas. — Quem é que lhe teria amizade após um tal acto? Mais valia ter morrido.
— Não tens a certeza — disse eu cuidadosamente. — Eu acredito em ti... ele...
— O irmão dele — disse Simon. — Lembras-te da história? O irmão dele espera que os seus homens regressem, mas eles não regressam. Ele espera um pouco mais e manda um batedor à procura deles. O caminho é longo, através da água. Ele encontra o local onde tinham acampado. Mas estão todos mortos; membros decepados, olhos sem vida abertos para os corvos se alimentarem deles. Traídos por um dos deles. Depois disso o irmão amaldiçoou-o, nunca mais devia voltar para aqueles por quem tinha falhado. Mas para o irmão mais novo aquilo não era novidade. Nunca fora amado; devia saber que a sua vida nunca mudaria. O seu irmão é o herói de todas as histórias; mas ele está destinado ao insucesso.
— Disparate! — repliquei, e estava tão zangada com ele que o agarrei pelos ombros e lhe dei um bom abanão. — O final da história é teu, de mais ninguém. Podes fazê-lo como quiseres. Há tantos caminhos para o teu herói como ramos numa grande árvore. São maravilhosos, terríveis, simples ou retorcidos. Tocam, quebram, confundem-se e tu podes segui-los da maneira que quiseres. Olha para mim, Simon.
Ele piscou os olhos uma, duas vezes; à luz da vela, os seus olhos eram do azul suave da madrugada. E frios de auto-repugnância.
— Eu acredito em ti — disse eu baixinho. — Tu és um verdadeiro e corajoso homem; e eu sei, cá dentro, que calaste os teus segredos naquela noite. Confio mais em ti do que tu próprio. Podias-me ter magoado várias vezes, assim como ao padre Brien, mas não o fizeste. Há um futuro para ti. Não me atires à cara o meu dom de curar, Simon. Conseguimos chegar aqui; vamos continuar.
Ficou ali sentado, em silêncio, durante muito tempo; tanto, que tive tempo para limpar o lugar, ir buscar água e tratar dos panos e unguentos para as suas feridas. Finalmente, falou.
— Tu fazes com que seja difícil dizer não.
— Tu fizeste uma promessa — disse eu. — Lembras-te? Não podes dizer que não.
— Quanto tempo ainda é que eu vou andar às tuas ordens? — perguntou ele meio a brincar. — Anos?
— Bem — disse eu — desde que sou pequenina que tenho mantido os meus irmãos mais velhos na linha. Vais ter que te habituar. Até que estejas bom, pelo menos.
E retomámos, de novo, a cruel tarefa de lavar, untar e ligar.
À medida que escurecia lá fora, contei-lhe a história de uma rainha guerreira que tinha sempre muitos homens à sua volta, como moscas, mas que ela não guardava durante muito tempo; e Simon, que a ouvira muitas vezes antes, comentou secamente as partes mais indecentes da acção. Por fim o trabalho ficou feito, os panos utilizados retirados e o padre Brien apareceu com sopa e vinho de sabugueiro. Estabeleceu-se uma espécie de paz entre os três, nessa noite, enquanto nos sentávamos à lareira com as nossas refeições frugais; e mais tarde Simon adormeceu como uma criança, o rosto apoiado numa mão.
— Vou ter que vos deixar amanhã, durante o dia — disse o padre Brien. — Preciso de ir à aldeia a oeste, porque vai lá estar um dos meus irmãos à espera de uns papéis meus; e precisamos de provisões. Não te vou perguntar se te desenvencilhas sem mim, porque é o que tens feito até agora. Mas vou fazer os possíveis por estar aqui ao anoitecer. Não te deixo aqui sozinha de noite.
— Ele está a ir bem — disse eu. — Mais uma lua, ou duas e ele é capaz de estar pronto para se ir embora... mas para onde?
— Também vou tratar disso, amanhã — disse o padre Brien. — Os irmãos do oeste ficarão com ele, acho eu. Pode ficar lá durante algum tempo e, quanto estiver bom, conduzi-lo-ão, em segurança, a casa dele, seja ela onde for.
— Como?
— Arranja-se maneira. Mas tu tens razão; ele não pode sair daqui enquanto for um risco para si próprio. Além disso, não pode montar; quando chegar a ocasião de que falaste, talvez possa ser transportado numa carroça. Amanhã à noite saberei mais qualquer coisa.
Fiel à sua palavra, às primeiras horas do dia seguinte já ele ia a caminho, aproveitando uma aberta na chuva persistente. Simon e eu tínhamos dormido melhor, já que ele acordara apenas duas vezes e havia um pouco mais de cor nas suas faces. Ficámos a ver a carroça a afastar-se aos solavancos, sob as árvores.
A manhã estava sossegada. Caía uma chuva fina, intermitente, alternando com a luz do Sol, fraca e baixa, como se o dia não se decidisse, se ser mau, ou bom. Apertei o cabelo na nuca e atirei-me ao trabalho, preparando unguentos de alfazema seca. Fiz medidas de óleo e cera de abelha; Simon observava-me. Mais tarde, partilhámos algumas maçãs verdes e uns pães de aveia bastante duros. As nossas provisões estavam mesmo a precisar de reabastecimento. Imaginei onde poderia encontrar farinha suficiente para poder fazer alguns pães.
Linn ouviu antes de nós. As orelhas espetaram-se-lhe e rosnou. Olhei para ela; não havia qualquer som vindo do exterior. Então, um instante depois, a mensagem silenciosa relampejou na minha mente com uma claridade urgente.
Esconde-o, Sorcha. Já, rapidamente.
Não havia tempo para perguntas. Agarrei em Simon por um braço.
— Vem aí alguém — disse eu. — Vai para a cabana, rápido. Entra e tranca a porta.
— Mas...
— Não discutas. Faz o que te digo. E mantém-te escondido! Vai, Simon!
Ele ficou a olhar para mim por um instante; o meu rosto devia estar branco, porque a mensagem de Finbar tinha o selo da extrema urgência. Linn ladrou uma, duas vezes e correu para o exterior e pelo caminho abaixo, a cauda ondulando como uma bandeira.
— Depressa!
Quase arrastei o relutante Simon através da clareira em direcção à cabana, para onde o empurrei. E agora já o conseguíamos ouvir os dois, o rufar dos cascos, mais do que um homem a aproximar-se pelo caminho acima.
— Mantém-te escondido. Aqui ficas seguro até eles se irem embora.
— Mas e...
— Fecha a porta Depressa!
Esperando que ele tivesse o bom senso de me obedecer, deixei-o e corri de volta para a caverna, os meus pés pisando as duas diferentes pegadas na lama.
Entrei de rompante, o coração aos pulos e mesmo a tempo, porque as vozes já estavam próximas, misturadas com o rufar dos cascos e os latidos e apareceram três homens na clareira: primeiro Finbar, o rosto tenso de ansiedade e dois soldados vestidos de armadura, com as espadas embainhadas o meu irmão Liam, alto e magro; e Cormack, parecendo ambos incrivelmente crescidos.
A cadela estava fora de si e quando Cormack desceu do cavalo os seus latidos atingiram o cúmulo do êxtase. Saltava, plantando-lhe as patas no peito e lambia-lhe o rosto com pequenos sons de alegria. Cormack sorria, coçando-a por trás das orelhas. Mas os rostos dos outros não traziam qualquer sinal de bom humor.
Os olhos de Finbar faziam perguntas à medida que se aproximava da entrada da caverna onde eu o esperava de pé. Onde está ele? Mas não havia tempo de responder.
— Entrem — disse eu hospitaleiramente. — O padre Brien foi à aldeia; a cabana está fechada. Estou surpreendida por vos ver. O pai já regressou?
Sentia-me satisfeita com o discurso, infelizmente as minhas mãos tremiam com os nervos e meti-as nas algibeiras do meu avental.
— Temos novidades, Sorcha — disse Liam, inclinando-se para entrar e tirando a capa molhada ao mesmo tempo. Sobre a armadura ainda trazia a sua túnica de batalha, com o símbolo de Sevenwaters no peito. Dois colares de metal torcido interligados; o mundo exterior e o interior. Este mundo e o Outro Mundo. Porque o lago e a floresta estavam inexplicavelmente entrelaçados. — Tens que voltar para casa connosco imediatamente — continuou ele. — Estão a acontecer mudanças e o pai requer a tua presença. Não ficou nada satisfeito ao saber que estavas aqui há tanto tempo, sejam quais forem as tuas qualidades herbáceas.
— O pai? — perguntei cepticamente. — Admira-me muito que ele mostre algum interesse pelo meu paradeiro. Não tem coisa melhor em que se ocupar?
Cormack estava a falar com a cadela, acalmando-a e levando-a para dentro. O corpo dela tremia e dava pequenos latidos de excitação, como se não se pudesse conter.
— Ele não põe objecções a que passes aqui um certo tempo a aprender com o padre Brien — disse Finbar mordazmente — ou a trocar conhecimentos com ele. Talvez ele esteja a pensar no teu casamento, é um ofício útil para uma mulher. Mas... calou-se e eu notei uma nota de profundo mal-estar na sua voz.
— Mas o quê? — Havia qualquer coisa que nenhum deles me queria dizer.
Liam pegou numa vela de cera de abelha de cima da mesa, rolando-a entre dois dedos. Cormack sentou-se na beira da enxerga e a cadela saltou para o pé dele, farejando a roupa. Observei-a, tinha os olhos na entrada, expectante. Haveria ali alguma coisa que nos pudesse denunciar, um par de botas, uma ligadura ensanguentada? Tinha havido tão-pouco tempo. Olhei para Finbar; algo mais o preocupava, para além do risco de que Simon pudesse ser encontrado.
— O pai regressou — disse Liam pesadamente — e com uma noiva. Vem do norte e ele quer casar-se dentro de dias. Foi uma coisa rápida e inesperada. Quer que todos os filhos estejam lá para a festa do casamento.
— Uma noiva? — Depois do que o padre Brien nos dissera, aquilo parecia-me absolutamente impossível.
— É verdade — disse Cormack. — Quem diria! Ainda por cima é nova, bela e encantadora. Recomeço de vida para o velhote. Devias ver o Diarmid. Segue-a durante todo o dia com olhares de cachorro.
Liam franziu as sobrancelhas.
— Não é assim tão simples — disse ele. — Não sabemos praticamente nada sobre esta mulher, Lady Oonagh é o nome dela, salvo que ele a conheceu quando estávamos aquartelados nas terras de Lorde Eamonn de Marshes e ela era hóspede da casa. Dos seus ele disse muito pouco, creio, ou ele preferiu não o partilhar connosco.
— Não acredito que ele se vai casar outra vez — disse eu, aliviada por eles não terem vindo por causa de Simon e chocada, incrédula. — Ele é tão... Tão...
— Inacessível? — perguntou Finbar. — Para ela, não. Ela é... Diferente; tão resplandecente e perigosa como algumas serpentes exóticas. Saberás, quando a vires, porque tomou ele esta decisão.
— Conor não gosta dela — disse Cormack. Liam levantou-se.
— Temos que regressar, Sorcha — disse ele. — Lamento que o padre Brien não esteja em casa, porque esperava falar com ele em privado sobre este assunto. Sem dúvida que o pai há-de mandar chamá-lo para oficiar a cerimónia. Entretanto, a nossa casa está um pandemónio e tu és precisa. Vai buscar as tuas coisas; podes ir montada comigo.
Ir embora naquele momento? Já? Deixar Simon sozinho, sem sequer lhe dizer adeus, sem lhe dizer o que estava a acontecer? Enviei uma mensagem desesperada a Finbar.
Não me posso ir embora agora, assim, ele ainda não está pronto, pelo menos deixa-me...
— Vai andando, Liam — disse Finbar. — Eu vou ajudar a Sorcha a empacotar as coisas dela e depois levo-a comigo.
— Tens a certeza? — Liam estava com pressa de partir e já vestia a capa. — Não te demores muito, então. Temos muito que fazer. Vamos, Cormack, essa tua cadela maluca também deve estar morta por ir para casa.
Mas não estava. Os dois subiram para as selas e, ao princípio, ela andou em volta do cavalo de Cormack, toda entusiasmada. Mas quando eles começaram a descer a ladeira ela parou, surpreendida, fez uma pausa e voltou para trás, na nossa direcção. Olhou em volta, farejando, hesitando. A chuva começou a cair com força.
— Linn Anda! — Cormack chamava-a, o cavalo parado mesmo à entrada da floresta. — Anda!
Ela virou-se e começou a andar timidamente na direcção dele; parou e olhou novamente para trás.
— Vai, Linn — disse eu, lutando contra as lágrimas por ela, por mim, por Simon. — Vai para casa!
Cormack assobiou e desta vez ela foi ter com ele, mas a ansiedade desaparecera das passadas dela. E desapareceram para lá das árvores.
— Despacha-te — disse Finbar. — Onde estão as tuas coisas? Enquanto eu as empacoto tu falas com ele e depois vamo-nos embora. Não lhe perguntei quando poderia voltar; havia um terrível carácter definitivo naquilo tudo. Silenciosamente, indiquei-lhe a minha trouxa, a capa e os meus potes e vasos; em seguida encaminhei-me, sob a chuva, para a porta da cabana; mas ela estava trancada de interior. Fiel à sua palavra, Simon tinha feito como eu lhe ordenara.
— Simon! — gritei sobre o rugido da chuva a cair. — Sou eu, deixa-me entrar.
Devia haver suficiente urgência na minha voz para lhe abalar a desconfiança, porque a tranca foi retirada e a porta abriu-se rapidamente. Tinha a faca na mão, mas não fez qualquer movimento para me tocar, recuando antes para o canto mais longínquo da cabana, enquanto eu entrava à pressa e fechava a porta com força atrás de mim.
Não havia maneira de dizer aquilo amavelmente.
— Tenho que ir agora, já. Desculpa, não queria que fosse assim. Mas os meus irmãos estão à espera.
Ele olhou para mim sem expressão.
— Eu sei que ainda é muito cedo, mas não tenho escolha. O padre Brien regressa esta noite e olhará por ti tão bem como eu — falava depressa demais, a minha aflição era óbvia. Simon pousou a faca em cima da mesa. A voz dele era a sombra de um som.
— Tu prometeste — disse ele. Não consegui olhar para ele.
— Não tenho escolha — disse eu de novo e desta vez as lágrimas começaram-me a correr pelas faces abaixo e eu limpei-as furiosamente. Aquilo não estava nada a ajudar-nos a ambos. Além disso, conseguia ver muito bem as longas noites futuras dele e não me atrevi a olhar para o vazio que regressava aos olhos dele.
Houve um silêncio, ele não se mexeu e um momento depois ouvi Finbar a chamar-me, lá fora.
— Sorcha! Estás pronta?
A mão de Simon pegou na faca de novo e, rápida como um raio, saltei e agarrei-lhe o pulso.
— Não posso manter a minha promessa — disse eu toda trémula — mas exijo que mantenhas a tua. Aguenta-te durante o dia de hoje; depois, deixa que o padre Brien te ajude. Acaba a história como eu te disse. Deves-me isso, se não mais. Confio em ti, Simon. Não me deixes ficar mal.
Larguei-lhe o pulso e ele levantou a faca, aproximando-a de tal modo do meu rosto que fui forçada a olhar para cima. Os olhos azuis dele fixaram os meus e havia um desvario neles que me disse que o pesadelo estava mesmo ali, à frente dele. O seu rosto estava branco como a cal.
— Não me deixes — sussurrou ele, como uma criança com medo do escuro.
— Não pode ser.
Foi a coisa que mais me custou dizer em toda a minha vida.
— Sorcha! — chamou de novo Finbar.
Houve um rápido movimento da lâmina e Simon segurou num longo caracol dos meus cabelos com os dedos. Com a outra mão entregou-me a faca com o cabo virado para mim.
— Toma — disse ele. E virou-me as costas, à espera. E eu abri a porta e saí para a chuva.
Lady Oonagh. Ainda não a tinha visto e já sentia a sua presença. Senti-a no silêncio de Finbar enquanto cavalgávamos para casa sob um céu trovejante. Soube-o por causa do vento frio que chicoteava os ramos das árvores, numa rendição humilhante à nossa passagem, pela turbulência agitada das águas do lago, pelo grito de uma gaivota, atormentada no seu voo pelas agulhas da chuva gelada. Senti-o na opressão do meu coração, a cada passo do cavalo. Ela estava ali e a sua mão sobre todos nós. Sabia que o perigo tinha chegado. Mas esse conhecimento não me preparou.
Finbar depositou-me no pátio e seguiu para os estábulos para tratar do cavalo, porque os rapazes tinham que fazer sempre essa tarefa. Era bom estar em casa, por fim. Desejei escapar-me de mansinho para os meus aposentos, ou para a cozinha um pouco de água quente, uma lareira e roupas secas era o que mais queria naquele momento, além de algum tempo para mim própria. Mas a porta abriu-se de rompante e lá estava eu no grande salão, a minha capa escorrendo água para o chão e as minhas botas deixando um rasto de lama e, se bem que o meu pai estivesse presente, apenas consegui vê-la, a noiva, Lady Oonagh.
Era esbelta. Cormack tinha razão. O seu cabelo era uma cortina de fogo escuro e a pele branca como o leite. Mas eram os olhos que faziam a diferença. Quando ela olhava para o meu pai, toda doçuras, eram inocentes e amorosos. Mas se se olhasse para as profundezas daquelas amoras, como eu fiz, vacilar-se-ia com o que se via nelas. A sua mensagem para mim era clara: Estou aqui, agora. Não há lugar para ti.
A sua voz tilintava como campainhas.
— É a tua filha, Colum? Oh, tão querida! E como é que te chamas, meu amor?
Olhei para ela, muda, enquanto o vapor começava a sair das minhas roupas.
— Sorcha, não estás em condições de aparecer aqui! — disse o pai concisamente e, de facto, tinha razão. — Envergonhas-me, aparecer diante da tua mãe nesse estado desalinhado. Sai, arranja-te e depois regressa. Deixas-me ficar mal.
Olhei para ele. Mãe?
Lady Oonagh quebrou o silêncio incómodo com uma estrondosa risada.
— Disparate, Colum, estás a ser muito severo com a criança. Estás a ver, embaraçaste-a! Vem cá, minha querida, vamos tirar-te essa capa toda molhada, precisas de te aquecer perto do fogo. Por onde andaste? Colum, não consigo acreditar que a deixes andar por aí sozinha desta maneira... podia apanhar uma constipação mortal. Assim está melhor, queridinha... mas, ai estás a tremer. Mais tarde falaremos, só tu e eu... Trouxe algumas coisas muito bonitas e vai ser uma delícia escolher uma coisa linda para tu usares na festa do casamento. Verde, creio. Temo que o teu guarda-roupa tenha sido tristemente negligenciado.
Percorreu, com um olhar calculista, o meu vestido tecido em casa, a túnica gasta, cheia de nódoas: tintura de bagas de sabugueiro, óleo de rosmaninho. E sangue.
Abri a boca para falar, mas as palavras recusaram-se a sair e em vez disso senti uma grande fadiga. A minha boca abriu-se num grande bocejo e as pernas transformaram-se em geleia.
— Sorcha! — repreendeu-me o pai. — Isto é demais! Não podes...
Mas ela adiantou-se-lhe de novo, toda solícita.
— Minha pobre menina, por onde é que andaste? — O braço dela em volta dos meus ombros parecia uma grilheta de gelo. — Vamos, precisas de repousar... Temos muito tempo para conversar. O teu irmão pode levar-te ao teu quarto, porque mal te tens em pé... Diarmid, querido?
E foi só então que me apercebi que o meu segundo irmão tinha estado ali o tempo todo, nas sombras, por trás da cadeira de lady Oonagh. Ele avançou, ansioso por ser prestável, mostrando as covinhas do rosto enquanto lhe lançava um olhar de esguelha e pegou-me pelo braço para me escoltar dali para fora. Ela olhou de lado para ele, por entre as pestanas.
Diarmid pairou o tempo todo a caminho do meu quarto. Como ela era maravilhosa, quão vibrante e jovem, quão fantástico era uma criatura tão bela ter acedido a casar com o pai que, afinal, estava a envelhecer e já não devia ser tão viril.
— Talvez a riqueza e o poder tenham alguma coisa a ver com isso. — Arrisquei para interromper o fluxo de palavras do meu irmão.
— Ora, ora, Sorcha — ralhou-me Diarmid enquanto subíamos os largos degraus de pedra. — Estarei eu a detectar um pouquinho de ciúmes aqui? Tu não ficaste muito feliz com os esponsais de Liam, lembro-me muito bem. Talvez prefiras ser a única dama da casa, é isso?
Virei-me para ele, zangada.
— Conheces-me assim tão mal? Pelo menos Eilis é... inofensiva. Esta mulher é perigosa; não sei porque está ela aqui, mas destruirá a nossa família, se a deixarmos. Tu foste seduzido por ela, tal como o pai. Não a estás a ver a ela... estás a ver uma espécie de... ideal, um fantasma.
Diarmid riu-se de mim.
— E o que é que tu sabes? És apenas uma criança, irmãzinha. E, além disso, mal a conheces. É uma mulher maravilhosa, irmãzinha. Talvez agora, que ela aqui está, possas aprender a crescer como uma dama.
Olhei para ele, profundamente ferida pelas suas palavras. O nosso padrão de vida já estava a começar a quebrar-se. Provocámo-nos um ao outro vezes sem fim, brincámos e discutimos como todos os irmãos e irmãs. Mas nunca fomos cruéis um para o outro. O facto de ele não perceber ainda era pior. E não podia falar com ele, pois já não me ouvia. Chegámos ao meu quarto e Diarmid foi-se logo embora, ansioso por estar ao pé da sua nova deusa.
Dispensei a serva que estava ali, hesitante e despi-me sozinha. A lareira tinha sido acesa e eu sentei-me, com um cobertor sobre os ombros, a olhar para as chamas. Apesar de exausta, o sono demorou a vir, porque a minha mente estava cheia de imagens e pensamentos. Talvez eu estivesse a ser tola, talvez ela fosse apenas uma mulher gentil bem intencionada, que se apaixonara pelos encantos do nosso pai. Mas havia algo de errado. Pensei no que Cormack dissera. Conor não gosta dela. Eu vira a mensagem nos olhos de Lady Oonagh, nas suas palavras meladas. Havia algo de inquietante na admiração aduladora de Diarmid e na prontidão do meu pai em se deixar dominar pela sua dama. E o modo como os servos andavam inquietos, nervosos, como se tivessem medo de dar um passo em falso.
E Simon? Ainda era dia; teria que esperar, sozinho, pelo regresso do padre Brien. Sem um contador de histórias que lhe preenchesse o dia silencioso, que lhe esborratasse as visões. Sem um amigo para brincar, nem sequer a cadela fiel, inquestionável companhia nos períodos mais negros. Imaginei-o a olhar, enquanto o Sol se movia por cima da sua cabeça e descia por trás das árvores, à espera do som das rodas da carroça. Pelo menos, não estaria só depois de a noite cair.
Finalmente, deitei-me e adormeci. O fogo ardeu até se transformar em cinzas, mas a vela continuou a tremeluzir e quando mais tarde acordei de repente, o quarto estava cheio de sombras. Por alguns momentos vi-me de novo na caverna e saltei, os olhos abertos, pronta para me confrontar com o pesadelo. Mas desta vez não houve gritos; as paredes de pedra estavam pesadamente silenciosas e o unicórnio e o mocho na minha tapeçaria moviam-se ligeiramente ao sabor da corrente de ar. Deitei-me de novo, mas Simon estava-me nos pensamentos, talvez lutando com os seus demónios e eu contei-lhe uma história, silenciosamente deitada na minha cama, até que adormeci de novo.
Só muitas noites depois quebraria este padrão: o acordar repentino, o coração aos pulos, a lenta consciencialização de onde me encontrava e o sentimento de culpa por o ter abandonado. Nunca dormia mais do que um breve período sem acordar e durante o dia o cansaço juntava-se à confusão e à angústia. Porque Liam tivera razão. As coisas estavam a mudar, quer quiséssemos, quer não.
O que eu menos gostava era da mudança em Diarmid, que caíra sob o feitiço de Lady Oonagh. Para ele, ela não tinha defeitos e mantinha-se na sua sombra o dia todo, ou, pelo menos, enquanto ela o deixava. Era impossível manter com ele uma conversa sensata.
— Era como se — disse eu a Finbar —, tivesse sido apanhado pelos duendes.
— Não — disse Finbar — não é isso; mas é quase. Isto é mais como o encantamento que se apodera de um homem quando vê uma bela mulher, a deseja, mas que nunca pode ter sem que ela o queira. Esta mulher é capaz de manter assim um homem durante muito tempo, até que o rosto dele perca a juventude e os passos a elasticidade.
— Já ouvi histórias assim — disse eu. — Elas cospem-nos como um bocado de casca de maçã, assim que eles perdem o sabor.
Cormack e Padriac evitavam problemas, mantendo-se longe dela. Quando eram chamados, um tinha ido montar, ou praticar tiro ao arco, o outro tinha ido para o celeiro, ou algures para os campos. Finbar não se desculpava com as suas ausências. Simplesmente, não estava ali. Lady Oonagh tinha tendência para nos chamar quando muito bem lhe apetecia e, se bem que as suas maneiras fossem sempre infalivelmente cordiais e doces, as desobediências eram sublinhadas com sobrancelhas carregadas. O pai impusera esta regra, como aliás parecia acatar todas as suas ordens. No entanto, com ele, ela comportava-se com mais cuidado do que com o desafortunado e sorridente Diarmid. Fosse o que fosse, Lorde Colum não era um homem fraco e, afinal, ainda não estavam casados.
Faltavam poucos dias para o casamento. Seamus Redbeard e a sua filha também vinham; reparei, por acaso, nas mudanças que Liam fez para colocar Eilis e a sua dama-de-companhia o mais longe possível dos aposentos de Lady Oonagh. Em vez de parecer feliz por ir ver de novo, dentro de pouco tempo, a sua prometida, o meu irmão mais velho andava carrancudo e silencioso. Fez várias tentativas para falar em particular com o pai, mas Oonagh, com o seu riso tilintante, separava-os e o pai declarou, rudemente, que qualquer coisa que ele lhe quisesse dizer, que o fizesse diante da sua dama, porque não havia segredos entre eles.
Eu queria falar com Conor, mas ele andava ocupado. Muitos dos preparativos do casamento passavam por ele e não tinha tempo, ocupado como andava com a supervisão da cozinha, o arejamento das toalhas, os arranjos de última hora dos estábulos e do pátio. Apanhei-o por momentos, na segunda noite, entre o jantar e o deitar, num canto escuro da grande escadaria. Era um local bom, sem muito eco e, contra o costume, não havia ninguém em volta. Olhei para o meu irmão de novo, imaginando-o vestido de druida, todo de branco, o cabelo castanho brilhante entrançado e atado com uma fita colorida, à moda dos sábios. Tinha um olhar sereno, distante, completamente diferente do do seu irmão gémeo, Cormack, que era um homem de acção e que vivia para o presente.
— Vou mandar chamar o padre Brien, Sorcha — disse ele gravemente. — Achas que ele virá?
Acenei com a cabeça que sim.
— Se for só por um dia, para a cerimónia do casamento, ele vem. Quem é que vais mandar?
Ele olhou para mim, lendo a pergunta muda nos meus olhos.
— Suponho que terei que mandar Finbar, se o conseguir encontrar. Tu não podes ir, Sorcha. Ela vigia-te de perto. Tens de ter muito cuidado.
— Então, também o sentes?
Senti-me gelada ao olhar para o rosto pálido do meu irmão.
Ele estava calmo como sempre, mas o seu mal-estar era palpável. Disse que sim com a cabeça.
— Ela vigia cuidadosamente aqueles de nós que são uma ameaça maior. Diarmid e Cormack não contam para ela, pobres inocentes e não vê qualquer ameaça em Padriac, novo como é. Mas tu, Finbar e eu... Temos força suficiente, talvez, para lhe resistir, se permanecermos juntos. Isso deixa-a desconfortável.
— E Liam?
Conor suspirou.
— Ela tentou seduzi-lo também, não tenhas dúvidas. Ela descobriu logo que ele era de outra cepa. Liam combate-a à sua própria maneira. Se ele conseguisse falar com o pai, talvez conseguisse avisá-lo para que se acautelasse. Mas também tem o seu ponto fraco. Não gosto do rumo que as coisas estão a tomar, Sorcha. Gostaria que tivesses tido oportunidade para te manteres afastada disto tudo.
— Também eu — disse eu, pensando no trabalho que tinha abandonado. — Pelo menos, o padre Brien estava a chegar e dar-me-ia notícias.
— Sorcha.
Olhei de novo para Conor. Ele devia estar em luta consigo próprio não muito certo do que me devia dizer, para não me assustar.
— O que é?
— Deves ter muito cuidado — disse ele lentamente. — Eles vão-se casar, não tenho qualquer dúvida. Quer consigamos falar com o pai antes do dia da cerimónia, quer não, o resultado não será diferente. Que poderíamos dizer? Lady Oonagh não dá um passo em falso; os nossos medos baseiam-se em fantasias, dir-nos-ia ele, receosos da mudança, ou por ignorância. Assim que ela se insinua, deixamos de a poder ver como é na realidade. Ela reveste-se de uma aura de fascínio; os fracos e vulneráveis não têm qualquer hipótese de lhe resistir.
— E depois de se casarem?
Os lábios de Conor transformaram-se numa linha.
— Talvez, nessa altura, consigamos ver alguma da verdade. Acredita-me, se te pudesse tirar daqui para fora antes do casamento, fá-lo-ia. Mas o pai ainda é o senhor da casa e tal pedido, antes do dia da cerimónia, pareceria estranho. Tanto eu, como Liam, tomaremos conta de ti o melhor que pudermos; mas tem cuidado. Quanto a Finbar...
— Quem é ela, Conor? Que mulher é ela?
Devido aos novos conhecimentos que tinha sobre o meu irmão, achava que ele era a única pessoa que me podia responder àquela pergunta.
— Não sei. Nem sequer tenho a certeza das razões porque faz isto. Não tens outra hipótese senão esperar, por mais que te custe. Deve haver um padrão nisto tudo, tão vasto, tão complexo, que só o tempo esclarecerá. Mas é demasiado tarde para evitar o casamento. Agora, toca a andar, pequena coruja... estás a precisar de um bom sono. Como é que ele estava?
Eu sabia de quem ele estava a falar, apesar da súbita mudança de conversa.
— Estava a ir bem, até que fui forçada a vir-me embora. Achas que até isso faz parte do plano dela?
— Ela não podia ter conhecimento do caso. É melhor não acrescentares isso às tuas preocupações. Dá-me ideia de que lhe foste bastante útil; talvez agora ele se possa curar a si próprio, com a ajuda do padre Brien. E há outros que o podem ajudar, guiando-o até à sua salvação. Talvez seja altura de o deixar e te dedicares a ti mesma. Vai, vai-te deitar.
No dia seguinte houve um pouco de sol, filtrando-se ligeiramente entre as sempre presentes nuvens e eu recomecei o meu trabalho no meu jardim, determinada a recuperar o tempo perdido. Atei o cabelo com uma fita, vesti um velho avental de serapilheira e armei-me com uma faca e uma foice. A alfazema demasiado crescida e o absinto espalhado levaram um bom corte; as ervas daninhas foram arrancadas e os carreiros limpos. A medida que ia trabalhando, a minha mente começou, lentamente, a sair da confusão de medos e preocupações que a atormentavam e a tarefa que tinha em mãos tornou-se a única coisa importante.
Por fim, o jardim ficou mais ou menos limpo e eu fui buscar os bolbos que pusera a secar na última estação, para repintar. Narcisos amarelos do cesto maior; açafrão, íris e lírios de cinco espécies diferentes. E outros que cresceriam tão bem nos sítios mais recônditos da floresta como nos meus vasos abrigados: orelha-de-porco, campainhas e delgados e pálidos bolbos de balsamina. Se atirarmos uma mão-cheia das suas folhas para uma fogueira à noite, dormiremos de um sono só.