A História e Suas Epidemias

Stefan Cunha Ujvari · Capítulo 7 de 7 · parte 3/3

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A História e Suas Epidemias

Capítulo 5

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Dois grupos de pesquisadores am ericanos e europeus apresentaram seus trabalhos na virada do últim o m ilênio, dem onstrando que o vírus ancestral da Aids surgiu por volta de 1930. No com eço do século XX, j á circulava pela natureza o vírus que m udaria a história do final desse século. O surgim ento da Aids bem antes da década de 1980 j á era sabido pela descoberta de sorologia positiva para HIV em sangue de pacientes estocado nos anos de 1950 e 1960; esses trabalhos com provam a existência do vírus bem antes dessa data.

No início do século XXI, o hom em acredita que o principal vírus da Aids responsável pela epidem ia atual tenha, de fato, surgido por volta de 1930. Ao longo do século XX, o m aterial genético desse vírus sofreu um a série de m utações que deram origem aos diversos tipos e subtipos encontrados hoj e. A próxim a pergunta seria: quando esse vírus da Aids se separou do vírus do m acaco, o SIVcpz, tornando possível o surgim ento da doença no hom em ? A resposta a essa pergunta foi surpreendente e obtida pela m esm a técnica de pesquisa de um ancestral vi- ral apresentado por um grupo de pesquisadores europeus no com eço do século

XXI. Pelo cálculo do tem po de m utações pregressas, o HIV e o SIVcpz se encontraram num ancestral com um no final do século XVII, próxim o ao ano de 1675. Ou sej a, desde o final daquele século o vírus da Aids teria se separado do SIVcpz, que convive no m acaco, passando a ter a oportunidade de infectar o hom em .

A ciência m oderna não pode, ainda, dem onstrar quando o vírus da Aids infectou seres hum anos; som ente sugere que ele j á estava presente na natureza há m uito m ais tem po do que se acreditava. Com o se com provou pelo sangue estocado, a doença ocorre no hom em desde a década de 1950; casos de Aids devem ter surgido m uito antes dessa época, talvez desde a data da separação do vírus da Aids do SIVcpz. Se a doença apareceu m uito antes, deve ter ficado restrita a áreas isoladas, com freqüência pequena, e possivelm ente por isso não foi diagnosticada.

Um a vez no hom em , o vírus necessita de condições favoráveis para a sua dissem inação, e estas surgiram nas décadas de 1950 e 1960. Nesse período, a colonização da África chegava ao fim , precipitando guerras de independência e conflitos civis, com proliferação da m iséria e m igrações hum anas dentro do continente. A população cresceu, seus centros urbanos se desenvolveram e proliferaram . Foi quando tiveram início intensas cam panhas de vacinação, m as foram vacinações em m assa com agulhas reutilizadas e potencialm ente contam inadas. Com o o período de incubação da doença é longo, os prim eiros casos diagnosticados só apareceram no final dos anos 1970. O aum ento do tráfego hum ano internacional na África contribuiu para que o últim o capítulo da epidem ia se tornasse m undial.

 

OUTRA VEZO RATO

 

Desde o início do século XX, o hantavírus causa doença no continente asiático. As prim eiras epidem ias atingiram a Rússia e m ilitares j aponeses em guerra na Manchúria. Esse vírus é um dos responsáveis pela febre hem orrágica, j á descrita nas infecções decorrentes do vírus Marburg. A doença com eça com sintom as com uns de febre, dores de cabeça, calafrios e dores pelo corpo, progredindo para sangram entos; por isso, é denom inada febre hem orrágica. O anim al portador do vírus é o rato. O hom em adquire a infecção quando entra em contato com excrem entos de ratos infectados. Esse contato se dá pela inalação do vírus suspenso no ar; portanto, estar em locais com urina e fezes de rato ressecadas, com suspensão de partículas virais no ar, j á é suficiente para desenvolver a doença.

O hantavírus sem pre ficou restrito à Asia, onde ocasiona a internação anual de 150 m il a duzentos m il pacientes, m ais da m etade deles na China, levando à m orte até 10% dos doentes. O que torna a infecção pelo hantavírus peculiar naquela região é o acom etim ento renal, que causa a paralisação da função dos rins. Até a década de 1990, nunca havia aparecido na Am érica. O único contato dos am ericanos com esse agente infeccioso até então se dera na Guerra da Coréia, na qual m ais de três m il soldados adoeceram entre 1951 e 1954; porém , estranham ente, essa história sofreria m udanças em 1993. Naquele ano, ocorreram os prim eiros casos de febre hem orrágica nos Estados Unidos, todos na região sudoeste do país. Com o isolam ento do hantavírus nas pessoas acom etidas, o m eio científico provava o surgim ento desse agente na Am érica, m as a m aneira com o tal fato ocorrera necessitaria de m aior investigação para saber se fora trazido da Ásia ou se j á existia na região. Desde o início da epidem ia, dado o perfil da doença, ficou claro que se tratava de outro tipo do hantavírus. Enquanto na Ásia predom inava a lesão dos rins, com prej uízo de sua função, nos Estados Unidos a doença atingia os pulm ões, levando à insuficiência respiratória, além de m atar 40% dos doentes, percentual m uito superior ao registrado no continente asiático: m enos de 10%. Com o desenvolvim ento científico e o m apeam ento genético do hantavírus, provou-se que, apesar de ser o m esm o vírus, os casos am ericanos eram devidos a um tipo diferente de hantavírus, portanto recém -descoberto. O hantavírus tornou-se um exem plo claro de com o um vírus pode perm anecer na natureza, no seu nicho ecológico, por m uitos séculos, sem contato com o hom em até o dia em que são criadas condições favoráveis para a sua proliferação nos ratos — e a possibilidade de infectar o hom em .

O novo tipo de hantavírus m anteve-se endêm ico na região sudoeste dos Estados Unidos, confirm ando-se 277 casos nos prim eiros sete anos de sua descoberta. Registraram -se então ocorrências no Brasil, Paraguai, Argentina e Chile. Mais de vinte tipos diferentes de hantavírus foram isolados e identificados nos países da Am érica. Cada tipo de hantavírus é específico de um a espécie de rato; portanto, os casos de hantavírus nos países am ericanos não se dissem inaram entre essas nações, m as sem pre estiveram presentes em cada um a delas. As epidem ias eclodiram na m esm a época.

Em 1997, representantes de 13 países am ericanos se encontraram na cidade de Lim a, no Peru, para organizar um a estratégia de controle do hantavírus. O obj etivo inicial era m apear os locais potenciais da doença, pesquisando os ratos neles existentes. Os resultados m ostraram que 12% dos ratos analisados no Paraguai estavam infectados pelo vírus. No Brasil, que registrara 38 casos até setem bro de 1999 (a m aioria no Estado de São Paulo), o Instituto Adolfo Lutz realizou testes sangüíneos num a am ostra da população das cidades de Ribeirão Preto, Guariba e Jardinópolis. De acordo com os resultados, 1,23% dos exam inados j á haviam tido contato com o hantavírus; assim , tornava-se necessário am pliar os estudos de cam po para encontrar prováveis focos de ratos infectados. A despeito do surgim ento coincidente do hantavírus em diversos países da Am érica e do aum ento do núm ero de casos, faltava esclarecer os fatores que fizeram com que seu aparecim ento se desse som ente no final do século XX.

Se o rato transm ite a doença à espécie hum ana, é lógico pensar que um crescim ento da população desses anim ais tornaria m aior a chance de contam inação do hom em . E m ais, esses roedores podem transm itir o hantavírus entre si; portanto, seu aum ento populacional poderia igualm ente elevar a proporção de ratos portadores do hantavírus. A associação do crescim ento do núm ero de ratos com a elevação do núm ero de casos de doenças transm issíveis por essa espécie j á fora provada na Argentina com a doença causada pelo vírus junin, sem elhante à febre hem orrágica decorrente do hantavírus, com taxa de m ortalidade de 33% e tam bém transm itida pelo rato. Foi descoberta na cidade argentina de Junin em 1995, e desde então a área em que aparece na província de Buenos Aires estendeu-se de dez m il para 150.000km 2. Em parte, isso se deu pela expansão das plantações de m ilho, que favoreceram a proliferação dos ratos. As alterações clim áticas na Argentina nos anos de 1988 e 1989, com invernos am enos, tem peraturas elevadas e chuvas, propiciaram o crescim ento do núm ero desses roedores, o que precipitou a grande epidem ia de 1990. Os Estados Unidos iniciaram estudos na tentativa de encontrar os fatores am bientais que colaboraram para o crescim ento populacional dos ratos e que desencadearam o aparecim ento do hantavírus em 1993. Surpreendentem ente, os trabalhos apontam para alterações clim áticas. A epidem ia vivida naquele ano restringiu-se ao quadrilátero form ado pelos Estados de Utah, Novo México, Colorado e Arizona. Um aum ento das chuvas nessas áreas secas poderia facilitar o crescim ento da vegetação e a proliferação de ratos. Coincidentem ente, tais regiões estavam vivendo as conseqüências do El Nino de 1991—1992, e essa associação foi dem onstrada em trabalhos no final da década de 1990. O El Nino foi descrito pela prim eira vez em 1860, no Peru, onde recebeu seu nom e atual. Aparece num intervalo entre dois e sete anos, com a dim inuição dos ventos que deixam a costa da Am érica Latina em direção ao oceano Pacífico e o distanciam ento das águas frias das profundezas do Pacífico da superfície do m ar, ocasionando assim o aquecim ento dessa superfície. Tal aquecim ento faz com que a evaporação e as chuvas se desviem para as proxim idades da Am érica, provocando inundações nesse continente e secas e incêndios na Austrália. Durante o El Nino de 1991—1992, ocorreu um a precipitação m aior das chuvas no nordeste do Arizona: a m édia anual, que era de 4,88cm em 1991, passou a ser de 17,22cm no ano seguinte. Entre j aneiro e m arço de 1993, um a tem peratura acim a do norm al am enizou o frio que geralm ente caracteriza essa estação. A conseqüência da elevação da tem peratura associada ao aum ento das chuvas foi evidenciada quando se dem onstrou o crescim ento do núm ero de ratos na região: de um rato por hectare em 1991 para cinco nos prim eiros oito m eses de 1992; e vinte a trinta desses anim ais por hectare na prim avera de 1993, época do surgim ento dos prim eiros casos da doença na Am érica, quando 30% dos ratos apresentaram o hantavírus. As chuvas intensas no Paraguai em 1995 e 1996 tam bém propiciaram a eclosão da epidem ia no país. No século XX, foram observados m ais de vinte ocorrências do El Nino, m as as últim as três (1981-1982, 1991-1992 e 1997-1998) foram as m ais intensas e rigorosas. Há m uito interesse científico em saber se as alterações da tem peratura global afetaram a intensidade desses últim os fenôm enos e, portanto, se podem vir a exercer influências nas doenças infecciosas futuram ente. Desde o com eço da industrialização, nos prim eiros anos do século XIX, tem aum entado a queim a de com bustíveis fósseis, carvão e petróleo, com liberação m aior de gás carbônico na atm osfera; além disso, o desflorestam ento provoca m enor retirada do gás carbônico atm osférico pela vegetação. A partir de 1800, a concentração desse gás aum entou 25% — esse é o principal gás responsável pelo

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cham ado efeito estufa. As radiações solares ficam aprisionadas na

atm osfera pelos gases do efeito estufa, ocasionando um a elevação da tem peratura do planeta, que j á subiu 1,1°C desde 1800, com aum ento de 0,6°C som ente no século XX; estim a-se que chegarem os ao ano 2100 com um novo acréscim o de m ais 1°C a 3,5°C. O im pacto que essa elevação de tem peratura causará no surgim ento de novas epidem ias é desconhecido, apenas o tem po m ostrará. Por enquanto, persiste a polêm ica sobre a causa do aum ento da tem peratura: se é um a decorrência do efeito estufa ou um a variação norm al que ocorre em intervalos de tem po.

 

RETORNOS

Desde a descoberta das infecções transm issíveis por m osquitos no início do século XX, um intenso com bate a esses insetos foi travado com sucesso. No final desse século, entretanto, evidenciou-se o retorno das infecções causadas pelos m osquitos dos gêneros Anopheles, Culex e Aedes, transm issores da dengue, m alária e febre am arela.

A partir de 1970, essas doenças voltaram a afligir diversas regiões do globo. A m alária foi controlada no Sri Lanka, verificando-se apenas 48 casos em 1962 e 1963, m as esse sucesso caiu por terra em 1969 com o côm puto de m eio m ilhão de ocorrências. A doença tornou-se novam ente endêm ica até os dias atuais. Na Índia, que apresentava esparsas epidem ias da m alária na década de 1970, a doença voltou a ser problem a de saúde pública em 1976, ano em que se registraram sete m ilhões de casos.

Vários outros exem plos podem ser citados em diferentes regiões dos trópicos e estendidos para a dengue. No fim do século XX, a m alária apresentava-se com o a principal doença nas regiões ricas em m osquitos, os trópicos; houve duzentos m ilhões de casos por ano e dois m ilhões de m ortes. Seguiu-se a dengue, com cinqüenta a cem m ilhões de casos por ano e m ais de vinte m il óbitos anuais, e esses núm eros podem ser alterados em razão do surgim ento e alastram ento de sua form a m ais grave nos últim os anos, a dengue hem orrágica. Os brasileiros j á estão acostum ados com os noticiários sobre a doença, que atinge praticam ente todo o litoral do País.

Vários fatores contribuíram para isso, entre os quais o aum ento da tem peratura do planeta. Em tem peraturas elevadas, ocorre um a série de processos nos m osquitos e nos m icroorganism os, e esse fato propicia o crescim ento do núm ero de casos de infecções. Alterações clim áticas, com elevação da tem peratura, favorecem os seguintes eventos: am adurecim ento m ais rápido das larvas de m uitos m osquitos transm issores; aceleração da digestão do sangue (sugado) no estôm ago das fêm eas dos m osquitos, ocasionando m ais picadas; aceleração da proliferação do vírus da dengue e do agente da m alária no organism o desses insetos; e, finalm ente, as chuvas facilitam a proliferação dos m osquitos transm issores.

Com as chuvas e o calor do El Nino de 1997—1998, ocorreram epidem ias de dengue na Ásia e de m alária no Quênia, país que tinha relatado seu últim o caso da doença em 1952; o El Nino de 1982—1983 j á havia desencadeado epidem ias de m alária na Bolívia, Equador e Peru e o aum ento dos casos na Colôm bia. Novam ente, esse evento clim ático precipitou as epidem ias de m alária no Paraguai e na Argentina em 1991 e 1992 e tornou cinco vezes m aior a incidência da doença em Punj ab, no Paquistão. Apesar das provas da influência clim ática no surgim ento das epidem ias, som ente futuras elevações da tem peratura do globo evidenciarão ou não seu real papel. Enquanto isso, o principal fator do retorno dessas infecções é a falta de m edidas governam entais para o controle dos m osquitos. Isso se dá por diversos m otivos, que vão da negligência até a carência de recursos financeiros — situação que se agrava pela progressão da m iséria de determ inadas regiões.

O exem plo da dengue ilustra as conseqüências da falta de m anutenção das m edidas de com bate a m osquitos. Após anos de intenso trabalho, iniciado por Osvaldo Cruz, o m osquito transm issor da dengue foi efetivam ente elim inado no Brasil nos anos de 1950 e 1960, m as a doença perm aneceu presente na Ásia e, m ais grave, apareceu nessa região a dengue hem orrágica, que causa um a taxa da m ortalidade m uito m aior. Com o sucesso alcançado, relaxou-se o controle do m osquito, principalm ente num a época que favorecia sua dissem inação em decorrência da urbanização intensa e desorganizada. A população m undial levou dezenas de séculos para ultrapassar um bilhão de habitantes, m as no século XX cresceu exponencialm ente para seis bilhões. Esse aum ento ocasionou a urbanização em grande escala e de form a desordenada, sem infra-estrutura adequada. Nos quintais das m oradias que surgiam , lixos, recipientes e entulhos diversos acum ulavam água da chuva, favorecendo a proliferação dos m osquitos. Conclusão: na década de 1980, quase todas as cidades da costa brasileira voltaram a ser povoadas pelo m osquito Aedes aegypti, que, com o passar dos anos, invadiu tam bém localidades do interior. Novam ente, os brasileiros m antinham grande quantidade de reservatórios para as larvas do m osquito em seus quintais; faltava apenas a chegada do vírus para que ocorresse um a epidem ia.

Em 1981, provavelm ente transportado em em barcações provenientes da Ásia, o vírus da dengue chegou a Cuba; em 1982, foi a vez do Brasil enfrentar sua prim eira epidem ia — a doença atingiu Roraim a, onde se registraram 11 m il casos. Ano após ano, o vírus infectou os m osquitos brasileiros, causando epidem ias anuais no verão, época em que esses insetos proliferam em decorrência das chuvas e do clim a quente. O núm ero de casos aum entou na década de 1990, ultrapassando os cem m il por ano em 1995 e, a partir de 1997, j á eram com putadas anualm ente m ais de duzentas m il ocorrências de dengue. Em 2002, um novo recorde: m ais de setecentos m il casos. As m anchetes dos j ornais do com eço do século XX alertavam para as epidem ias anuais de febre am arela causadas pelo Aedes aegypti, enquanto no com eço do século XXI se repetiu a história, dessa vez com epidem ias anuais de dengue causadas pelo m esm o Aedes aegypti, que retornou. O com bate ao m osquito no com eço do século XX foi m ais fácil, um a vez que à época só havia lixo orgânico nas cidades, e estas eram habitadas por apenas 20% da população brasileira. Hoj e o cenário é bem diferente: o núm ero de habitantes é m uito m aior que no tem po de Osvaldo Cruz e 80% das pessoas m oram em cidades nas quais o lixo é não-orgânico, o que cria condições para a proliferação do m osquito. Vencerem os essa nova batalha contra a dengue? Após o últim o caso de febre am arela urbana, registrado em 1942, o vírus que lhe dá origem persistiu nas m atas da floresta am azônica, e assim essa doença perm anece no território brasileiro; com o sua transm issão tam bém se dá pelo Aedes aegypti, a ocorrência de novos casos nas cidades não seria difícil. No com eço do novo m ilênio, houve casos esporádicos de febre am arela em centros urbanos m ineiros. Conseguirem os evitar o retorno da febre am arela às cidades?

 

SEM FRONTEIRAS

 

Com toda a evolução tecnológica e científica do século XX, as taxas de m ortalidade pelas doenças infecciosas despencaram , m as apenas nos países ricos. O m aior exem plo da persistência de óbitos por infecções é o continente africano. Após sofrer capturas de sua população pela escravidão durante m ais de três séculos, a África foi tom ada pelo im perialism o do final do século XIX. As fronteiras de seus países foram dem arcadas pelas nações industrializadas, desrespeitando as afinidades culturais e sociais de seus povos, o que gerou, além das guerras de independência, as guerras civis do século XX. A África m ergulhou na m iséria, sendo privada de recursos financeiros para o tratam ento e, principalm ente, controle de epidem ias.

Apesar de estarm os no com eço do novo m ilênio, as estatísticas rem ontam ao século XIX nos países pobres. Nessas nações, a cada três segundos, um a criança m orre, principalm ente por infecção. Em algum as delas, um a em cada cinco crianças falece antes de com pletar cinco anos.Todos os dias, cerca de três m il pessoas m orrem de m alária; a m aioria, crianças. A tuberculose perm anece latente no organism o hum ano sem se m anifestar. O advento da Aids fez aum entar o núm ero de habitantes que apresentam dim inuição das defesas im unológicas e ressurgir a tuberculose; pior: form as resistentes às m edicações disponíveis espalharam -se pelo m undo. Todo ano, m ais de um m ilhão de pessoas são vitim adas por tuberculose e oito m ilhões adquirem a doença. A m iséria e a fom e enfraquecem o organism o da população, o que favorece a aquisição de doenças infecciosas que eram problem áticas apenas no século XIX — com o a diarréia, que m ata dois m ilhões de crianças por ano. Mais de 90% da m ortalidade infantil ocorre por tuberculose, Aids, m alária, diarréia, pneum onia e saram po. O m ais triste é saber que a m udança dessas estatísticas não depende da descoberta de novas drogas terapêuticas, m as sim de m edidas de controle que j á se conhecem há m ais de um século e estão ao nosso alcance. Mas a falta de recursos financeiros nos países pobres im possibilita sua aplicação. Para a m elhoria do sistem a de saúde pública devem ser tom adas providências de acordo com o contexto histórico atual, levando em consideração o fenôm eno da "globalização". Se nos séculos anteriores a preocupação era com as m edidas de higiene de um a rua, um bairro, um a cidade ou um país, hoj e a organização dessas m edidas se dá em âm bito global. Não é suficiente a im plantação de um excepcional esquem a de controle nas nações industrializadas, se o apoio financeiro aos países m iseráveis é negligenciado. As epidem ias, com o aum ento do tráfego aéreo e m arítim o, não respeitam fronteiras. As nações pobres são e serão exportadoras de epidem ias que, direta ou indiretam ente, atingirão os que se consideram protegidos. Exem plos com o a Aids e a encefalite do oeste do rio Nilo ilustram a saída de epidem ias da África para regiões ricas do m undo. A m alária e a tuberculose, incluindo sua form a resistente, constantem ente am eaçam chegar a tais lugares, provenientes de áreas m iseráveis. O vasto nicho ecológico, com florestas, m osquitos e fauna de anim ais selvagens, faz desses países, sem m edidas de controle de saúde pública, um a fonte potencial para o surgim ento de vírus m utantes ou de novos vírus am eaçadores. Persiste a incógnita quanto ao local de origem do Ebola, um a am eaça constante. As ruas dos séculos anteriores passaram a ser nossos países; os bairros, os continentes; e nossa cidade agora é o planeta. E necessário que se direcione atenção rigorosa ao tratam ento e controle dos agentes infecciosos, com investim entos m aiores das nações ricas em benefício não apenas das pobres, m as da Terra. Muito além disso, as interferências que os países pobres sofreram de outras nações, agora ricas, ao longo de quase cinco séculos, favoreceram a sua progressão para a m iséria atual, o que j á j ustifica um auxílio m oral e hum anitário. A estim ativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) para a im plantação do controle da Aids, tuberculose e m alária no m undo, em m eados da década de 1990, era de que se gastariam US$15 bilhões. Um a quantia exorbitante na visão dos países ricos. Mas esse valor se m ostrava irrisório quando com parado a duas cifras estim adas em 1995: os US$864 bilhões aplicados na indústria de

arm am entos m ilitares{57} e o faturam ento de US$750 a US$900 bilhões

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alcançado pelo crim e organizado. A ciência e a tecnologia desenvolveram -

se exponencialm ente no século XX, e a hum anidade? O futuro das epidem ias por agentes infecciosos conhecidos e por aqueles que ainda estão por surgir dependerá da resposta que darem os a essa pergunta, infelizm ente, no futuro.

 

UMA ARMA INVISÍVEL

 

O uso de bactérias e vírus com o m eio de ocasionar o m orticínio dos inim igos num a situação de com bate — a guerra bacteriológica — não é um a característica do nosso século. Mesm o antes de se saber que as infecções eram causadas por agentes m icroscópicos, o hom em j á tentava dissem inar epidem ias letais entre aqueles com quem guerreava. Foi o exem plo descrito no Capítulo 3 sobre a epidem ia da peste bubônica de 1347, no pólo com ercial genovês da cidade de Kaffa, na região da Crim éia, onde os com erciantes italianos travaram um a batalha contra os tártaros da região. Durante o cerco dessa cidade, iniciou-se um a epidem ia de peste nos acam pam entos dos tártaros. Assim , os genoveses, além de defenderem suas m uralhas da invasão do inim igo, tiveram que rem over os cadáveres dos com batentes tártaros m ortos pela peste bubônica que eram arrem essados em catapultas, na tentativa de causar um a epidem ia e enfraquecer o inim igo.

No século XVIII, sabendo do poder de dissem inação da varíola e da alta m ortalidade que provoca quando epidêm ica, Sir Jeffrey Am herst, com andante das forças britânicas responsáveis pela conquista dos territórios indígenas na Am érica do Norte, sugeriu um m eio de introdução da doença entre a população nativa para causar um a m ortalidade tam anha que enfraquecesse suas defesas e facilitasse a conquista. Esse intento, cham ado Plano Am herst, pôde ser executado quando um a epidem ia de varíola se abateu sobre o Forte Pitt. Em j unho de 1763, o subordinado de Am herst, o Capitão Ecuy er, foi encarregado de reunir cobertores e lenços usados pelos doentes de varíola para oferecer aos índios da região. Os nativos com eçaram a adoecer, e a varíola alastrou-se para as áreas ao longo do rio Ohio. Outros casos ocorreram entre indígenas de diferentes regiões, incluindo os do Brasil, com o referido no episódio sobre os goitacás, no Capitulo 3. A guerra bacteriológica ganhou um novo enfoque com a era bacteriológica da segunda m etade do século XIX — Pasteur e Koch m ostravam então ao m undo que as bactérias eram responsáveis pelas doenças infecciosas e que as epidem ias podiam ser transm itidas por contato próxim o com doentes, água e alim entos. No início do século XX, enquanto o m eio científico buscava a descoberta de agentes infecciosos que ocasionavam epidem ias, j á florescia a sem ente da idéia de se cultivar e arm azenar alguns desses agentes com a finalidade de dissem iná-los entre os inim igos. Um novo capítulo sobre as doenças infecciosas poderia assim vir a ser escrito no século XX: a guerra bacteriológica.

 

COMEÇANDO

Em 1916, durante a Prim eira Grande Guerra, tropas aliadas aprisionaram alem ães no território da Rom ênia; a princípio, tratava-se de um dos diversos conflitos e prisões que a Europa ainda veria nos próxim os dois anos de guerra, m as esse guardava um a surpresa para os aliados, que obrigaria, no futuro, a um a m edida conj unta das m aiores potências. Alguns frascos de culturas bacterianas, usados apenas nos laboratórios especializados, foram apreendidos dos alem ães capturados. Após a notificação das autoridades superiores, as análises com eçaram ; o resultado confirm ou a presença das bactérias Pseudomonas e do anthrax.

Investigações descobriram o proj eto da Alem anha, que em pregava a arm a bacteriológica para enfraquecer os aliados. Seus laboratórios produziam em larga escala as bactérias, que eram arm azenadas e enviadas para países neutros que m antinham com ércio com os aliados. O obj etivo era contam inar anim ais e alim entos dessas nações para que, quando fossem exportados para os aliados, os enfraquecessem . A Rom ênia exportava carneiros para a antiga União Soviética (URSS); se conseguissem contam iná-los, prom overiam a entrada das bactérias nos rebanhos russos. O proj eto alem ão incluiu a contam inação de cavalos que seguiriam para a França, de m ulas no Oriente Médio e de anim ais dom ésticos argentinos que se destinavam aos aliados.

A guerra bacteriológica ainda engatinhava no século XX. Sua eficácia era baixa, precisava-se de m elhor tecnologia para a produção das culturas e arm azenagem dos agentes, de m ais conhecim ento sobre o funcionam ento das infecções e de técnicas m ais aperfeiçoadas para a introdução dos agentes infecciosos entre os inim igos. Apesar de se restringir à contam inação de anim ais, o proj eto alem ão foi suficiente para alarm ar as potências m undiais quanto ao risco do avanço científico nesse terreno. Assim , poucos anos após o fim da guerra, era assinado por algum as nações, em 1925, o Protocolo de Genebra, que proibia o em prego de substâncias quím icas e biológicas com finalidades bélicas. Foi a prim eira tentativa de evitar a progressão desse ram o de pesquisa, o que depois se m ostrou im possível por se tratar de um m eio para disputas pelo poder entre seres hum anos.

 

NODISTANTE ORIENTE

 

O confronto entre chineses e j aponeses pela região da Manchúria poderia ter passado com o um a disputa territorial qualquer, a não ser por algum as construções realizadas pelos j aponeses em sua ocupação, de 1931 ao fim da Segunda Guerra. Logo após a tom ada do território, eles deram início ao proj eto de guerra bacteriológica, que só seria descoberto naquele conflito m undial. No ano de 1932, os oficiais Shiro Ishii e Kitano Misaj i iniciaram o com ando da fam osa Unidade 731 — o centro de pesquisa bacteriológica, construído nas proxim idades da cidade de Pingfan e disfarçado com o um centro de purificação de águas.

Esse com plexo de 6km 2 era form ado por m ais de 150 construções que abrigavam os laboratórios de pesquisa em guerra bacteriológica e onde se prom ovia o crescim ento de bactérias, que eram processadas e arm azenadas para utilização em testes aplicados em civis chineses aprisionados no período do conflito. Cerca de três m il cientistas e técnicos circulavam pelos laboratórios, realizando procedim entos que só poderiam ser relatados com veracidade por aqueles que os presenciaram . Os prisioneiros chineses eram subm etidos a experim entos que visavam ao estudo de lesões por queim aduras, pelo frio, por elevadas pressões e por perfurantes. Muitos dos que sobreviviam eram assassinados após a conclusão das experiências. Mas a Unidade 731 dava prioridade aos testes da guerra bacteriológica. O bacilo da peste bubônica era cultivado e arm azenado nos laboratórios da Unidade 731. As pulgas dos ratos criadas no centro de pesquisa eram colocadas em contato com aquele agente; assim , construíam -se m inúsculas "bom bas da peste" para serem postas em ação. Os experim entos prosseguiram com a decolagem de aviões repletos dessas pulgas contam inadas que seriam dispersas em cidades chinesas, docum entando-se então o surgim ento e a propagação de epidem ias. Em outubro de 1940, aviões j aponeses sobrevoaram as cidades de Chuhsien e Ningpo; a população j am ais notou a grande quantidade de pulgas contam inadas espalhadas no ar que aterrissavam suavem ente nas proxim idades das casas e causavam epidem ias com m ais de cem m ortes. A doença com eçou a se m anifestar entre os chineses com o surgim ento de bubões, pouco depois, houve casos da form a pulm onar. Passados três m eses, outros aviões repetiram a execução nas regiões de Suiy uan, Ninghsia e Shansi. O bacilo da peste m ostrava-se um a boa estratégia de guerra bacteriológica quando solto nos céus das cidades. Posteriorm ente, novas técnicas aperfeiçoariam esse m étodo. Estim ativas da OMS feitas na década de 1970 concluíram que cinqüenta quilos de bacilos dispersos nos céus atingiriam um a extensão de 10km . Tal quantidade lançada sobre um a cidade de cinco m ilhões de habitantes seria inalada, ocasionando predom inantem ente a form a pulm onar da doença em 150 m il habitantes, com 36 m il m ortes. A peste bubônica é hoj e um a candidata à guerra bacteriológica — só não podem os saber, pelo sigilo das operações, quantas e quais nações a colocam em prática.

Os j aponeses tam bém realizaram experim entos com bactérias causadoras de diarréia, pela facilidade de contam inar reservatórios de fornecim ento de água. O bacilo da cólera e a bactéria Salmonella eram reproduzidos nos laboratórios da Unidade 731 e concentrados em frascos destinados a testes em civis e m ilitares chineses. Poços, tanques e lagoas foram contam inados por esses agentes. Chineses que ingeriam a água contam inada com eçavam a apresentar diarréias intensas, que levavam à desidratação com queda da pressão arterial, confusão e, em vários casos, ao óbito. A falta de experiência com a m anipulação das bactérias nesse novo tipo de guerra ocasionou diarréia e m orte de 1.700 j aponeses quando contam inaram a água da província de Zhej iang, em 1942. A guerra bacteriológica seria aprim orada nas décadas seguintes. Com o fim da Segunda Guerra, as forças arm adas am ericanas desm antelaram o proj eto j aponês. Em troca de im unidade para crim es de guerra, vários cientistas e oficiais confessaram os experim entos realizados na Manchúria. Os testes incluíam bactérias causadoras de m eningite e o anthrax. Planos secretos program avam enviar cam icases em balões e aviões repletos de bactérias à costa oeste dos Estados Unidos, principalm ente à Califórnia. O m ais assustador foi a constatação do saldo final dos experim entos com andados por Shiro Ishii na Manchúria: cerca de dez m il chineses, entre civis e m ilitares, m ortos. Term inada a guerra bacteriológica, ocorreram ainda epidem ias de peste bubônica nas proxim idades dos laboratórios abandonados da Unidade 731, conseqüência da perm anência do bacilo na natureza.

 

OSPROJETOS

 

Em 1942, durante a Segunda Guerra, tem endo o desenvolvim ento de arm as biológicas pelos países do Eixo, os aliados iniciaram suas pesquisas no cam po da guerra bacteriológica. A Inglaterra, que estava entre essas nações, abandonou rapidam ente o proj eto, enquanto os Estados Unidos perm aneceram por m ais 27 anos. Os dois países fizeram estudos com a bactéria do anthrax. O bacilo do anthrax, quando presente na natureza em condições desfavoráveis à sua reprodução, em solo seco, sem um idade e sem nutrientes, tem a capacidade de adquirir um a form a arredondada denom inada esporo. O esporo perm anece na natureza sem se reproduzir e com resistência à agressão das variações clim áticas, com o se estivesse "hibernando" enquanto aguarda condições favoráveis. Portanto, funciona com o um a espécie de "sem ente" que se guarda por m uito tem po e que, colocada na terra e regada, brotará com o planta. O esporo do bacilo do anthrax com porta-se da m esm a m aneira. Quando encontra um a lesão na pele ou no aparelho digestivo do gado que o ingere, penetra na sua corrente sangüínea e ali, sim , m antém -se em um a tem peratura agradável, com nutrientes e água. O esporo transform a-se novam ente no bacilo que, por sua vez, com eça a se reproduzir, form ando m ilhões de bacilos e causando a doença característica do gado, geralm ente letal. O hom em a adquire ao entrar em contato com os esporos por lesão na pele, conhecida com o form a cutânea com feridas; ou por sua ingestão, a form a intestinal; ou quando inala um a quantidade grande dos esporos, que então se transform am no bacilo nos pulm ões, ocasionando a grave form a pulm onar. Pelo fato de esses m icro-organism os não estarem concentrados em grande quantidade na natureza, a form a pulm onar é m uito rara, exceto se utilizada com o arm a bacteriológica. A m anipulação do anthrax para usá-lo com o arm a é sim ples. O bacilo é reproduzido em culturas no laboratório e, em seguida, colocado em condições desfavoráveis, o que ocasiona sua transform ação em esporos. Estes são então desidratados e acrescenta-se bentonita ou sílica, que im pedem a sua aglom eração tornando-os m ais soltos. Dessa form a, obtém -se um a quantidade grande de esporos que, um a vez elim inados no ar, atingem um grau de dispersão adequado para serem inalados pelas vítim as da guerra bacteriológica. Um a vez inalados, atingem o tecido pulm onar, transform ando-se em bacilos que proliferam e causam um a lesão decorrente da liberação de toxinas. Se a infecção não for tratada com rapidez, ocasiona a m orte. A dispersão de cinqüenta quilos de esporos sobre um a cidade de cinco m ilhões de habitantes pode resultar em 250 m il doentes, com cem m il óbitos. Se a cidade de Washington recebesse cem quilos do esporo, ocorreriam entre 130 m il e três m ilhões de m ortes. Os Estados Unidos e a Inglaterra escolheram um a das arm as biológicas m ais poderosas para fazer seus estudos em 1942.

Em bora a Inglaterra tenha suspendido suas atividades logo no início do proj eto, esse breve tem po foi suficiente para causar um dano terrível à natureza, colocando sob quarentena um a ilha inteira por m ais de quarenta anos. A ilha Gruinard, localizada nas proxim idades da Escócia, foi escolhida pelos oficiais ingleses para os prim eiros testes. Rebanhos de carneiros soltos ali tornaram -se vítim as de um m orticínio pelas m ãos do hom em . Várias bom bas com anthrax foram detonadas, e em poucos dias a região ficou coberta das carcaças dos anim ais. Esses prim eiros testes produziram um resultado excelente para os cientistas ingleses, m as a ilha perm aneceu com os esporos resistentes e foi posta em quarentena até o ano de 1986. Procedeu-se então à descontam inação, com 280 toneladas de form aldeído e duas m il toneladas de água do m ar. Os Estados Unidos iniciaram seus experim entos na guerra bacteriológica no Forte Detrick, em Mary land, no ano de 1942. Esse com plexo continuou a funcionar até o final da década de 1960. Nos seus laboratórios, prom ovia-se a reprodução do bacilo do anthrax e arm azenavam -se estoques de esporos. Diante das acusações recíprocas das principais potências, Estados Unidos e União Soviética, no auge da Guerra Fria, em 1969, o Presidente Nixon encerrou o program a am ericano da guerra bacteriológica, com a desativação do com plexo e a destruição do arsenal biológico. O receio m undial das experiências perigosas fez com que os tratados contrários a esse tipo de guerra fossem ratificados. Em 1972, m ais de cem nações assinaram um novo tratado proibindo o uso de arm as quím icas e biológicas.

 

UM ACIDENTE

 

A União Soviética deu início às suas pesquisas na década de 1950, na ilha Vozrozhdeniy e, no m ar de Aral, onde desenvolvia o proj eto Aralsk 7 para produção de arm am ento biológico. Com o esse país foi um dos signatários do tratado de 1972, esperava-se que tal com plexo j á estivesse desativado. No final da década de 1970, todas as nações estavam tranqüilas em relação ao fim das pesquisas de arm as bacteriológicas, tendo em vista sua proibição. Mas, com o m uitos tratados são feitos para ser quebrados e com o a pesquisa de arm as biológicas é altam ente secreta, não seria de estranhar que em algum lugar do globo esporos do anthrax ainda estivessem em produção. Em abril de 1979, na cidade russa de Sverdlovsk, com eçaram a surgir casos de pessoas infectadas pelo bacilo do anthrax. Por seis sem anas, os hospitais da cidade receberam m ais de noventa casos de infecção por esse agente, com 64 m ortes. Foi a m aior epidem ia do século XX. As autoridades soviéticas inform aram que fora causada por ingestão de carne contam inada, m as o governo Jim m y Carter, dos Estados Unidos, suspeitou da ocorrência de acidente relacionado com a m anipulação do bacilo, o que incrim inava a União Soviética de violar a convenção de 1972. Os doentes viviam e trabalhavam num raio de 4km de um a base m ilitar. Som ente em 1992 o governo de Boris Yeltsin adm itiu que se m anipulava no laboratório dessa base m ilitar o bacilo do anthrax e que um a falha no sistem a de filtração perm itira a liberação de esporos nas redondezas, o que ocasionou a epidem ia. Os proj etos de arm a biológica continuavam .

Apesar de todas as m edidas para conter o desenvolvim ento da guerra biológica, os Estados Unidos acreditam que 17 nações m antêm seus proj etos em atividade. Com a queda da União Soviética, no inicio da década de 1990, m uitos cientistas ficaram desem pregados e foram absorvidos por m ercados de outros países, principalm ente asiáticos. Tendo em vista o sigilo das atividades, não se pode saber com certeza quais deles realm ente estão produzindo arm as biológicas; apenas as epidem ias futuras revelarão suas origens.

A facilidade de uso de arm am ento biológico é dem onstrada nos ataques realizados por grupos restritos. Em setem bro de 1984, m ais de setecentas pessoas foram atendidas com diarréia após com erem saladas em um restaurante do Oregon, nos Estados Unidos; as investigações dem onstraram a presença da bactéria Salmonella e, no ano seguinte, m em bros da seita Raj neeshee adm itiram ter contam inado as saladas. Em 1995, os noticiários m ostraram ao m undo o atentado no m etrô de Tóquio, no Japão, com a utilização do gás sarin, com andado pelo líder do grupo terrorista Aum Shinriky o. O que só depois se revelou é que os terroristas j á haviam ensaiado ações desse tipo com os esporos do anthrax. Os fatos ocorridos após o atentado ao World Trade Center, em 11 de setem bro de 2001, refletem a perm anência de atividades envolvendo arm as biológicas por nações e grupos terroristas. A internação, no início de outubro, do editor de fotografia de um j ornal da Flórida com infecção pelo anthrax m arcaria o com eço de um a série de dez casos naquele m ês. Todos os noticiários inform aram o envio de cartas contam inadas pelo esporo do anthrax, bem com o o pânico gerado na população. O futuro dirá quais países e grupos terroristas ainda m anipulam esse agente. Por enquanto, o que se vê são especulações e acusações políticas, m as nada com provado.

UMA INDESEJÁVEL VISITA

 

Na década de 1960, ocorreu um a m obilização m undial para a vacinação contra a varíola, com o obj etivo de erradicá-la do planeta. Com o o vírus da doença acom ete apenas o hom em , não há reservatório em nenhum anim al. Portanto, se não existisse nenhum doente para transm iti-lo, o vírus seria extinto. A OMS atingiu seu obj etivo em 1977, ano em que se notificou o últim o caso de varíola. A doença, que causava taxa de m ortalidade de 30% em suas epidem ias, foi erradicada. Mas o m esm o não se deu com o vírus. Doentes de varíola não m ais existiam ; quanto ao vírus, usado em pesquisas, era m antido presente em laboratórios sob baixas tem peraturas.

Em 1980, a OMS estabeleceu duas orientações sobre a questão: a destruição do vírus em todos os laboratórios m undiais ou o seu envio para dois laboratórios de referência que centralizaram os únicos reservatórios desse agente — um em Atlanta, nos Estados Unidos, e o outro em Moscou. Assim , apenas esses dois locais arm azenam o vírus da varíola desde aquele ano. A data para destruí-lo é adiada de tem pos em tem pos.

Com a queda da União Soviética no início da década de 1990, um dos diretores do program a soviético de guerra bacteriológica em igrou para os Estados Unidos. Suas inform ações secretas trazidas para o Ocidente levantaram a suspeita am ericana de que a União Soviética desenvolvia atividades com esse vírus. Desconfia-se que tenha sido reproduzido em laboratório para ser estocado com o arm a biológica. Mísseis intercontinentais poderiam ser carregados com o vírus para causar epidem ias no Ocidente. A em igração de cientistas da antiga União Soviética pode significar que vírus tenham sido levados para laboratórios de outros países e que a venda clandestina de arm am entos m ilitares a outras nações tenha incluído estoques virais. Hoj e se especula sobre a possibilidade de o vírus da varíola estar sendo reproduzido com o arm am ento biológico, e os Estados Unidos j á reativaram a produção de vacinas contra a doença, tendo em vista possiveis ataques.

A ocorrência de um a nova epidem ia de varíola teria conseqüências desastrosas por encontrar um a população não m ais vacinada; a vacinação foi suspensa por se tratar de doença extinta. Diferentem ente do anthrax, a varíola é contagiosa, com transm issão por contato próxim o com o doente. Num a epidem ia, o núm ero de casos novos surgiria em progressão geom étrica, com m ilhões de ocorrências em poucas sem anas. E m ais: a produção de vacina não é sim ples, requer m eses para que se dê em larga escala. Não haveria tem po para conter o avanço de um a nova epidem ia.

O vírus da varíola é forte candidato à arm a biológica, e suspeita-se de que estej a estocado com essa finalidade. A m eu ver, todo avanço científico que tivem os resultou em benefícios enorm es para o controle, prevenção e tratam ento de doenças infecciosas, apesar de aplicado em poucas populações; o que faz com que países pobres vivam epidem ias e registrem taxas de m ortalidade de séculos passados. Contudo, o desenvolvim ento da ciência apresenta o outro lado da m oeda. As m udanças sociais, políticas e econôm icas que proporcionou alteraram o perfil de algum as doenças infecciosas, o que m ostra que a convivência do hom em com os m icro-organism os é dinâm ica e que as alterações em cada um interferem nas do outro. O conhecim ento m aior dos agentes infecciosos propiciou sua utilização com o arm am ento biológico. Som ente livros futuros poderão docum entar o cam inho das epidem ias, dizendo se os m édicos têm , infelizm ente, que aprender a tratar um a doença não m ais ensinada nas faculdades, a varíola.

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Stefan Cunha Ujvari

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