A Magia de Holy Wood

Terry Pratchett · Capítulo 3 de 5 · parte 2/4

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A Magia de Holy Wood

— O que Significa?

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

O ar parecia cintilar. Ele viu M'Bu olhando fixam ente para ele. E deu de om bros.

— Vam os — disse.

M'Bu fez um a concha com as m ãos na frente da boca. Ele passara a noite toda pensando na ordem da m archa.

— Seção Azul pertencente Tio N'Gru, avante! — gritou. — Seção Am arela pertencente Tia Googool, avante! Seção Verde pertencente Prim o de segundo grau! Kck! Avante...

Um a hora m ais tarde, a savana em frente ao m onte baixo estava deserta, com exceção de um bilhão de m oscas e um besouro rola-bosta que não acreditava na própria sorte.

Algum a coisa fez "plop" na poeira verm elha, fazendo se abrir um a pequena cratera. E m ais um a, e m ais outra.

Um raio dividiu o tronco de um baobá próxim o.

As chuvas com eçaram .

As costas de Victor com eçavam a doer. Carregar m ocinhas para lugares seguros parecia um a boa ideia no papel, m as apresentava grandes em pecilhos depois dos prim eiros 100 m .

— Você tem algum a ideia de onde ela m ora? E é em algum lugar perto daqui? — Não faço ideia — respondeu Gaspode.

— Um a vez, ela disse algo sobre ser em cim a de um a loj a de roupas.

— Então fica no beco ao lado do restaurante do Borgle —disse Gaspode. Gaspode e Laddie m ostraram o cam inho através dos becos e por um a frágil escada externa. Talvez tivessem farej ado o quarto de Ginger. Victor não questionaria os sentidos m isteriosos de anim ais.

Ele subiu as escadas dos fundos fazendo o m enor barulho possível. Estava vagam ente consciente de que o lugar em que as pessoas ficavam era geralm ente assolado pela Proprietária Com um ou Altam ente Desconfiada, e sentia que j á tinha problem as suficientes.

Ele usou os pés de Ginger para em purrar a porta.

O quarto era pequeno, de pé direito baixo e m obiliado com os infelizes m óveis desbotados encontrados em quartos alugados por todo o m ultiverso. Pelo m enos a princípio era assim .

Agora era decorado com Ginger.

Ela havia guardado todos os cartazes. Até m esm o os dos prim eiros cliques, em que aparecia apenas em letras m iúdas com o Um a Garota. Estavam pregados à parede com tachinhas. O rosto de Ginger — E o dele próprio — olhava fixam ente para ele de todos os ângulos.

Havia um espelho grande num a extrem idade do quarto apertado e duas velas queim adas até a m etade, na frente dele.

Victor colocou a garota com cuidado na cam a estreita e depois olhou ao redor. Seu sexto, sétim o e oitavo sentidos gritavam para ele. Estava num local cheio de m agia.

— É com o um a espécie de tem plo — disse. — Um tem plo para... Ela m esm a.

— Me dá arrepios — com entou Gaspode.

Victor ficou olhando. Talvez tenha conseguido evitar com sucesso o recebim ento do chapéu pontudo e do grande caj ado, m as adquirira instintos de m ago. Ele teve um a visão súbita de um a cidade sob o m ar, com polvos enrolando — se furtivam ente em portais subm ersos e lagostas olhando para as ruas.

— O destino não gosta quando as pessoas ocupam m ais espaço do que deveriam . Todo m undo sabe disso.

"Eu serei a pessoa m ais fam osa do m undo", pensou Victor. "Foi o que ela disse." ele balançou a cabeça.

— Não — disse, em voz alta. — Ela só gosta de cartazes. É apenas um a sim ples vaidade.

Aquilo não soou convincente nem m esm o para ele. O quarto estava pululando de... do quê? Ele nunca sentira nada com o aquilo antes. Algum a espécie de poder, com certeza. Algum a coisa que m exia com seus sentidos de form a provocadora. Não exatam ente m agia. Pelo m enos não do tipo com a qual estava acostum ado. Algo que parecia sim ilar sem ser a m esm a coisa, com o o açúcar com parado ao sal. Da m esm a form a e da m esm a cor, m as...

A am bição não era m ágica. Poderosa, sim , m as não m ágica... certam ente? A m agia não era difícil. Esse era o grande segredo sobre o qual todo o extravagante edifício da m agia havia sido m ontado para esconder. Qualquer um com um pouco de inteligência e perseverança poderia fazer m agia, m otivo pelo qual os m agos a encobriam com rituais e toda essa coisa do chapéu pontudo. O truque consistia em fazer m agia e sair im pune.

Porque era com o se a raça hum ana fosse um m ilharal e a m agia aj udasse seus praticantes a ficar um pouco m ais altos para que se sobressaíssem . Isso atraía a atenção dos deuses e — Victor hesitou — de outras Coisas de outro m undo. As pessoas que usavam a m agia sem saber o que faziam geralm ente acabavam num a situação com plicada.

Às vezes, num quarto com o esse.

Ele se lem brou de Ginger lá na praia. "eu quero ser a pessoa m ais fam osa do m undo." Pensando bem , talvez aquilo fosse algo novo. Am bição não por ouro, poder, terra ou todas as coisas conhecidas do m undo hum ano. Apenas am bição de ser você m esm o da m aior form a possível. Não am bição por algo, m as am bição de ser algo.

Ele balançou a cabeça. Estava apenas num quarto qualquer, num predio qualquer, num a cidade qualquer, que era m ais ou m enos tão real quanto... quanto... quanto... bem ... quanto um clique. Não parecia o lugar para ter pensam entos daquele tipo.

Im portante era lem brar que Holy Wood não era um lugar real de j eito nenhum .

Ele ficou olhando para os cartazes m ais um a vez. "Você só consegue um a chance", ela disse. "Você vive talvez por 70 anos e, se tiver sorte, consegue um a chance. Pense em todos os esquiadores natos que nascem em desertos. Pense em todos os ferreiros geniais que nasceram centenas de anos antes de alguém inventar o cavalo. Todos os talentos que nunca são usados. Todas as chances desperdiçadas." "Que sorte a m inha", ele pensou, de um j eito som brio, "estar vivo nesta época." Ginger se virou em seu sono. Pelo m enos sua respiração parecia m ais regular.

— Vam os — disse Gaspode. — Não é certo ficar sozinho no buduá de um a dam a.

— Não estou sozinho. Ela está com igo.

— Essa é a questão — insistiu Gaspode.

— Au, au — acrescentou Laddie, por lealdade.

— Sabe de um a coisa — com eçou Victor, seguindo os cachorros na escada —, estou com eçando a sentir que tem algum a coisa errada aqui. Algum a coisa está acontecendo, e eu não sei o que é. Por que ela estava tentando entrar na colina? — Provavelm ente em pacto com Poderes terríveis — sugeriu Gaspode.

— A cidade, a colina, o livro e tudo o m ais — disse Victor, ignorando aquilo. — Tudo isso faria sentido se ao m enos eu soubesse o que liga essas coisas um as às outras.

Ele saiu e se deparou com o fim da tarde, com as luzes e os ruídos de Holy Wood.

— Am anhã nós vam os até lá, à luz do dia, e resolvem os isso de um a vez por todas.

— Não vam os, não — interferiu Gaspode. — E o m otivo é que am anhã irem os a Ankh-Morpork, lem bra? — Nós? Ginger e eu vam os. Não sabia sobre você.

— Laddie vai tam bém — disse Gaspode. — Eu...

— Bom garoto Laddie! — É, é. Eu ouvi os treinadores falando. Então tenho que ir pra garantir que não aconteça nada de errado com ele, esse tipo de coisa.

Victor bocej ou.

— Bom , eu vou para a cam a. Provavelm ente vam os ter que com eçar cedo.

Gaspode olhou para um lado e para o outro do beco com um olhar inocente. Em algum lugar, um a porta se abriu, e eles ouviram o som de um a risada bêbada.

— Eu tava pensando em dar um a volta antes de dorm ir — disse.

— Mostrar pro Laddie...

— Laddie bom garoto! — ... os pontos turísticos e tal.

Victor fez um a expressão de dúvida.

— Não fique com ele até m uito tarde. As pessoas vão ficar preocupadas.

— É, tá bom — concordou Gaspode. — Boa noite.

Ele se sentou e ficou olhando. Victor saiu andando.

— Sei — disse baixinho. — Vai ver se tem alguém se preocupando com igo. — Ele ergueu a cabeça para olhar para Laddie, que se curvou para prestar atenção com obediência. — Certo, j ovem filhote com panheiro. Desta vez você foi educado. Lição Um : Com o Pegar Bebidas de Graça nos Bares. Sorte sua — acrescentou —que você m e encontrou.

Duas silhuetas caninas cam baleavam de m odo incerto pelas ruas de m adrugada.

— Som os pobres cordeirinhos — uivou Gaspode — que ficaram perdidos...

—Au! Au! Au! — Som os pobres ovelhinhas que... que... — Gaspode desabou e cocou um a orelha, ou pelo m enos o local onde ele pensava que ela estaria. Sua pata balançava de m odo incerto no ar. Laddie olhou para ele com olhar solidário. A noite tinha sido incrivelm ente bem —sucedida. Gaspode sem pre conseguia suas bebidas de graça sim plesm ente sentando e olhando de m odo intenso para as pessoas até que elas ficassem desconfortáveis e derram assem um pouco de cervej a para ele, num pires, na esperança de que beberia e iria em bora. Era dem orado e tedioso, m as, com o técnica, servia m uito bem . Enquanto Laddie... Laddie fazia truques. Laddie sabia beber de garrafas. Laddie sabia latir o núm ero de dedos que as pessoas m ostravam . Gaspode tam bém sabia, é claro, m as nunca havia lhe passado pela cabeça que tal atividade pudesse ser recom pensada. Laddie conseguia avistar m oças que saíam para passar a noite com um pretendente esperançoso, colocar a cabeça no colo delas e lançar um olhar tão com ovente que o pretendente com prava um pires de cervej a e um pacote de biscoitos em form a de peixinho só para im pressionar a futura am ada. Gaspode nunca tinha sido capaz de fazer aquilo porque era m uito baixo para os colos e, de todo o m odo, m esm o se tentasse, só conseguiria gritos de aversão. Ele se sentou em baixo da m esa, num estado de desaprovação perplexa no com eço, e depois num estado de desaprovação perplexa alcoolizada, porque Laddie era a generosidade em cachorro quando se tratava de dividir pires de cervej a. Agora, depois que os dois tinham sido botados para fora, Gaspode decidiu que era hora de um serm ão sobre o verdadeiro cachorrism o.

—Você não deve ficar se hum olhando. Um iliando. Hum ilhando para os hum ano — disse. — Isso deixa todo m undo m al. Nós nuca vam os j ogar fora as correntes da dependência da hum anidade se cães com o você ficarem felizes toda vez que virem gente. Fiquei pessoalm ente enoj ado quando você fez aquela serie Deitar de costas e fingir de m orto, vou te contar.

—Au! — Você não passa de m ais um cachorro do im perialism o hum ano — disse Gaspode num tom severo.

Laddie pôs as patas sobre o focinho.

Gaspode tentou se levantar, tropeçou nas próprias patas e se sentou com todo o seu peso. Depois de algum tem po, duas lágrim as enorm es correram pelo seu pelo.

— É claro que eu nunca tive um a oportunidade, sabe. — Ele conseguiu ficar novam ente sobre as quatro patas. — Sabe, olha o com eço que eu tive na vida. Jogado num rio drento dum saco.Num saco de verdade. O pequeno cachorrinho gracioso abre os olhos, olha para o m undo com adm iração, esse tipo de coisa, ele está dentro de um saco. — As lágrim as pingaram do seu focinho.

— Durante duas sem anas eu achei que o tij olo fosse a m inha m ãe.

— Au — disse Laddie, com solidariedade e sem com preender.

— Minha sorte foi que m e j ogaram no rio Ankh — continuou Gaspode. — Em qualquer outro rio, eu teria m e afogado e ido pro céu dos cachorrinhos. Ouvi dizer que um cachorrão preto fantasm agórico chega pra você quando você m orre e diz: "Sua hora j egou. Zegou. Chegou".

Gaspode ficou olhando para o nada.

— Mas não dá pra afundar no Ankh — continuou, pensativo. — é um rio m uito duro, o Ankh.

—Au.

— Isso não deveria acontecer nem com um cachorro. Metaforicam ente.

—Au.

Gaspode observou o rosto de Laddie com os olhos em baçados. Era um rosto vivo, alerta e irrevogavelm ente burro.

— Você não entendeu um a m aldita palavra do que eu disse, não e? — m urm urou.

—Au!— respondeu Laddie, im plorando.

— Suj eitinho sortudo — suspirou Gaspode.

Havia um a agitação na outra ponta do beco. Ele ouviu um a voz dizer: — Lá está ele! Aqui, Laddie! Aqui, garoto! — As palavras estavam cheias de alívio.

— É o Hom em — resm ungou Gaspode. — Você não precisa ir.

— Bom garoto Laddie! Laddie bom garoto!— latiu Laddie, trotando em frente com obediência, talvez um pouco oscilante.

— Procuram os você por toda parte! — m urm urou um dos treinadores, erguendo um graveto.

— Não bata nele! — disse o outro treinador. — Você vai estragar tudo. — Ele olhou para o beco, e seu olhar encontrou o de Gaspode.

— Aquele é o saco de pulgas que tem ficado por perto. Me dá arrepios.

— Atira algum a coisa nele — sugeriu o outro hom em .

O treinador se abaixou e pegou um a pedra. Quando se levantou novam ente, o beco, estava vazio. Bêbado ou sóbrio, Gaspode tinha reflexos perfeitos em determ inadas circunstâncias.

— Está vendo? — disse o treinador, olhando de m odo fixo para as som bras. — E com o se fosse um tipo de adivinho.

— É só um vira-lata — observou o seu com panheiro. — Não se preocupe com ele. Vam os, pegue a coleira deste aqui e vam os levá-lo de volta antes que o senhor Dibbler descubra.

Laddie os seguiu de m odo obediente de volta às instalações da Século do Morcego-de-Frutas e perm itiu que o acorrentassem no seu canil. Era possível que não gostasse da ideia, m as era difícil ter algum a certeza em m eio à rede de deveres, obrigações e som bras em ocionais vagas que form avam o que, por falta de palavra m elhor, tinha que ser cham ado de sua m ente.

Ele deu um ou dois puxões experim entais na corrente e depois se deitou, à espera de acontecim entos.

Após algum tem po, um a vozinha rouca do outro lado da cerca disse: — Eu poderia lhe m andar um osso com um alicate dentro, só que você o com eria.

Laddie se reanim ou.

— Bom garoto Laddie! Bom garoto Gaspode! — Ssh! Ssh! Pelo m enos eles têm que deixar você falar com um advogado — continuou Gaspode. — Acorrentar alguém é contra os direitos hum anos.

—Au! — De todo m odo, eu dei o troco. Segui o horroroso até a casa dele e m ij ei na porta da frente.

—Au! Gaspode suspirou e saiu andando com seu gingado. Às vezes, no fundo do seu coração, ele se perguntava se, afinal de contas, não seria legal pertencer a alguém . Não apenas ter um dono ou ser acorrentado por ele, vaus pertencer de verdade e ficar contente ao vê-lo, carregar seus chinelos na boca, se consum ir de desgosto quando m orresse etc.

Laddie gostava daquele tipo de coisa, se e que era possível cham ar aquilo de "gostar". Era m ais algo que estava no seu sangue. Gaspode se perguntou, com m elancolia, se aquilo era o verdadeiro cachorrism o e uivou do fundo da garganta. Se ele tinha realm ente algum a coisa a ver com aquilo tudo, certam ente não era. Porque o verdadeiro cachorrism o não tinha a ver com chinelos, passeios e se consum ir pelas pessoas, disso Gaspode tinha certeza. O cachorrism o tinha a ver com ser durão, independente e egoísta.

É isso aí.

Gaspode ouvira dizer que todos os caninos poderiam acasalar entre si, até com os lobos de verdade. Então isso devia significar que, lá no fundo, todo cachorro era um lobo. Era até possível que um lobo virasse um cachorro, m as não era possível elim inar o lobo que existia no cachorro. Quando a doença do coxim duro atacava, as pulgas ficavam de m au hum or e todas rechonchudas, e essa ideia era reconfortante.

Gaspode se perguntou com o e que se saía por aí acasalando com lobas, e o que acontecia quando se parava.

Bem , isso não im portava. O que im portava era que os cães de verdade não saíam por aí enlouquecendo de prazer só porque um hum ano disse algum a coisa para eles.

É isso aí.

Ele rosnou para um m onte de lixo e o desafiou a discordar. Um a parte do m onte se m oveu, e um rosto felino com um peixe m orto na boca apareceu diante dele. Estava a ponto de dar um latido desanim ado para ele, apenas para m anter a tradição, quando o gato cuspiu o peixe para fora e falou com ele.

— Olá, Gashpode. Gaspode relaxou.

— Oh. Olá, gato. Não quis ofender. Não sabia que era você.

— Odeio peixshe, m ash pelo m enosh elesh não reshpondem com grossheria.

Um a outra parte do lixo se m exeu, e Guincho, o rato, em ergiu.

— O que cês dois tão fazendo aqui em baixo? — perguntou Gaspode. — Achei que cês tivessem dito que era m ais seguro na colina.

— Não m aish — disse o gato. — Eshtá ficando asshom brado.

Gaspode franziu a testa.

— Você é um gato — disse, num tom de desaprovação. — Você está lado a lado com a ideia de assom bração.

— É, m ash isso não se estende a ter faíscas douradas estalando no pêlo e o chão trem endo o tem po todo. E vozes eshtranhas que parechem vir da própria cabeçsha — disse gato. — Está ficando sinishtro lá em cim a.

— Então nós todos descem os — disse Guincho. — Seu Tam pinha e o pato estão escondidos lá nas dunas...

Outro gato caiu da cerca ao lado deles. Era grande e ruivo, e não tinha sido abençoado com a inteligência de Holy Wood. Ele ficou assustado ao ver o rato com um a aparência tranquila na presença de um gato.

Guincho cutucou o gato na pata.

— Manda ele em bora daqui. Gato encarou o recém -chegado.

— Som e — disse. — Anda, cai fora. Deuses, ishto é tão hum ilhante.

— Não apenas pra você — observou Gaspode, quando o novo gato saiu correndo, balançando a cabeça. — Se alguns dos cachorros desta cidade m e virem batendo papo com um gato, m inha reputação nas ruas vai cair m uito.

— Nósh eshtávam os penshando — disse o gato, com o olhar nervoso na direção de Guincho, de vez em quando — que talvez deveríam os ceder e ver... ver... ver...

— Ele está tentando dizer que talvez haj a um lugar para nós nas im agens anim adas — com pletou Guincho. — O que você acha? — Com o um a dupla? — perguntou Gaspode. Eles responderam que sim com a cabeça.

— Sem chance. Quem vai pagar algum dinheiro para ver gatos e ratos perseguindo um ao outro? Até se for cachorro, eles só se interessam se servir para satisfazer os hum anos o tem po todo, então com certeza não vão assistir a perseguições de gato e rato. Vai por m im . Eu entendo de im agens anim adas.

— Então j á está m ais que na hora de seus hum anos resolverem isso pra que a gente possa voltar pra casa — irritou-se o rato. — O garoto não está fazendo nada. Ele não serve pra nada.

— Ele está apaixonado — disse Gaspode. — É m uito com plicado.

— É, eu shei com o é — concordou o gato, num tom solidário.

— As pessoas j ogam botas velhas e outras coisas em você.

— Botas velhas? — Espantou-se o rato.

— Issho é o que sem pre aconteceu com igo quando m e apaixonei explicou o gato, saudoso.

— É diferente com os hum anos — disse Gaspode, incerto. — As pessoas não j ogam tantas botas e baldes de água em você. É m ais assim ... E... flores, discussões e coisas assim .

Os anim ais se entreolharam com ares de m au hum or.

— Eu j á vi aqueles dois — disse Guincho. — Ela acha que ele é um idiota.

— Isso tudo faz parte — acrescentou Gaspode. — Eles cham am de rom ance.

O gato deu de om bros.

— É só m e dar um a bota. Você sabe onde está pisando com a bota. O espírito radiante de Holy Wood se derram ou pelo m undo, deixando de ser um a gota para se tornar um a enchente. Ele borbulhava nas veias das pessoas e até dos anim ais. Quando os operadores de m anivela giravam suas m anivelas, lá estava ele. Quando os carpinteiros m artelavam seus pregos, m artelavam por Holy Wood. Holy Wood estava no cozido do Borgle, na areia, no ar. Estava crescendo. E ia florescer...

Dibbler Cava-A-Própria-Cova, ou C.A.P.C., com o gostava de ser cham ado, sentou-se na cam a e ficou olhando para a escuridão.

Na sua cabeça, um a cidade pegava fogo.

Ele tateou com pressa ao lado da cam a para encontrar os fósforos, conseguiu acender a vela e finalm ente localizou a caneta. Não havia papel. Ele fora bem específico quando disse a todo m undo que tinha que haver papel ao lado da sua cam a para o caso de acordar com um a ideia. As m elhores ideias apareciam quando estava dorm indo.

Pelo m enos havia um a caneta e tinta...

As im agens vinham com o um a chuva de granizo passando diante de seus olhos. Pegue-as agora ou deixe-as escapar para sem pre...

Ele apanhou a caneta e com eçou a escrever às pressas nos lençóis. Um Hom em e Um a Mulher Radiantes de Paixão Num a Cidade Assolada pela Guerra Civil! A caneta rangia e estalava ao percorrer seu cam inho sobre o tecido branco e áspero.

Isso! Isso! era isso m esm o! Ele m ostraria a eles, com suas tolas pirâm ides de gesso e palácios de m oedinhas. Este seria um que eles teriam que respeitar! Quando a história de Holy Wood fosse escrita, este seria aquele para o qual apontariam e diriam : "essa foi a Im agem Anim ada para Acabar com todas as Im agens Anim adas!" Trolls! Batalhas! Rom ance! Pessoas com bigodes finos! Mercenários! e a luta de um a m ulher para proteger o... — Dibbler hesitou — algum a coisa que ela am a, pensarem os nisso depois, num m undo enlouquecido! A caneta dava trancos, se agitava e seguia adiante.

Irm ão contra irm ão! Mulheres usando vestidos com anáguas dando tapas na cara das pessoas! Um a dinastia poderosa em decadência! Um a grande cidade ardendo! Não de paixão, ele fez um a nota na m argem , m as em cham as.

Possivelm ente até m esm o... Ele m ordeu o lábio.

Sim . Esperava por isso! Sim ! Mil elefantes! (Mais tarde, Soll Dibbler diria: — Olha, tio, a guerra civil de Ankh-Morpork é um a grande ideia. Sem problem as. Acontecim ento histórico conhecido, sem problem as. É que nenhum dos historiadores m encionou ter visto algum elefante.

— Foi um a guerra grande — disse Dibbler num tom defensivo. — Sem pre se deixa passar algum a coisa.

— Mil elefantes, acho que não.

— Quem é o diretor deste estúdio? — É só que...

— Ouça. Talvez não houvesse m il elefantes, m as nós terem os m il elefantes. Porque m il elefantes é m ais real, ok?) O lençol aos poucos foi ficando cheio dos rabiscos agitados de Dibbler. Ele chegou à ponta e continuou sobre a m adeira da cam a.

Pelos deuses, aquilo era a ideia de verdade! Nada de pequenas batalhas trabalhosas. Seriam necessários quase todos os operadores de m anivela de Holy Wood! Ele se recostou, ofegante com o esgotam ento causado pela em polgação. Podia ver agora. Estava m elhor do que a encom enda.

Só faltava o título. Algo que soasse bem . Algo que as pessoas lem brassem . Algo — Ele cocou o queixo com a caneta — que m ostrasse que as questões das pessoas com uns ficaram desprezadas nas grandes tem pestades da história. Tem pestades, era isso. Boa im agem , um a tem pestade. Tem o trovão. Relâm pago. Chuva. Vento.

Vento. Era isso! Ele engatinhou até a outra ponta do lençol e, com m uito cuidado, escreveu: E O SOPRO CARREGOU.

Victor se agitava e virava na cam a estreita, tentando dorm ir. As im agens m archavam por sua m ente sem i-adorm ecida. Havia corridas de carruagens, navios piratas e outras coisas que ele não conseguia identificar e, no m eio de tudo isso, essa coisa escalando um a torre. Algo enorm e e terrível com um sorriso desafiador para o m undo. E algum a coisa gritando...

Ele se sentou, encharcado de suor.

Depois de alguns m inutos, j ogou as pernas para fora da cam a e foi até a j anela.

Acim a das luzes da cidade, a colina de Holy Wood recebia a prim eira luz tênue da m anhã. Mais um belo dia estava por vir.

Os sonhos de Holy Wood se lançavam pelas ruas em grandes ondas douradas invisíveis.

E Algo veio com eles.

Algo que nunca, nunca sonhava. Algo que nunca adorm ecia.

Ginger saiu da cam a e tam bém olhou na direção da colina, em bora se pudesse duvidar de que a tivesse visto. Movendo-se com o um a pessoa sem visão num quarto que lhe e fam iliar, cam inhou até a porta, desceu a escada e saiu no final da noite.

Um cachorro pequeno, um gato e um rato observavam nas som bras quando ela passou pelo beco em silêncio e seguiu em direção à colina.

— Vocês viram os olhos dela? — perguntou Gaspode.

— Incandescentes — disse o gato. — Irck! — Ela está indo para a colina — observou Gaspode. — Não gosto disso.

— E daí? — com eçou Guincho. — Ela está sem pre por perto. Sobe lá toda noite e fica andando distraída com um a atitude dram ática.

— O quê? — Toda noite. Nós acham os que fosse essa coisa de rom ance.

— Mas dá pra ver, pelo j eito com o ela se m ove, que algum a coisa não tá certa — disse Gaspode, desesperado. — Isso num é andar, é oscilar. Com o se estivesse sendo puxada por um a voz interior ou algo do tipo.

— Pra m im não parece isso — discordou Guincho. — Andar com as duas pernas é que é oscilar, no m eu m anual.

— Ê só olhar pro rosto dela que a gente vê que tem algum a coisa errada! — É claro que tem algum a coisa errada. Ela é hum ana — disse Guincho. Gaspode considerou as opções. Não havia m uitas. A m ais óbvia era encontrar Victor e fazê-lo ir até lá. Ele rej eitou essa. Soava m uito com o o tipo de coisa tola e alegre que Laddie faria. Sugeria que o m elhor que um cão poderia fazer quando enfrentava um dilem a era encontrar um hum ano para resolvê-lo. Ele correu e agarrou firm e entre as m andíbulas a bainha rastej ante da cam isola da sonâm bula. Ela continuou andando, derrubando-o no chão. O gato riu de m odo sarcástico dem ais para o gosto de Gaspode.

— Hora de acordar, m oça — rosnou, soltando a cam isola. Ginger seguiu a passos firm es.

— Está vendo? — com eçou o gato. — Dê um polegar opositor a eles, e eles acham que são eshpeciais.

— Eu vou segui-la — disse Gaspode. — Um a garota sozinha à noite pode se m achucar.

— Os cachorros são assim — o gato explicou para Guincho. — Shem pre sacudindo o rabo para as pessoas. A próxim a vai ser um a coleira de diam ante e um prato com o nom e dele, eshtou te falando.

— Se você tá querendo perder um m onte de pelo num a m ordida só, você veio pro lugar certo, bichano — rosnou Gaspode, deixando os dentes podres à m ostra m ais um a vez.

— Não tenho que tolerar esse tipo de coisa — disse o gato, erguendo o focinho com arrogância. — Vam os, Guincho. Vam os logo para um m onte de lixo que não tenha tanta im undície.

Gaspode fez um a careta para as costas deles.

— Bichano! — gritou.

Depois correu atrás de Ginger, sentindo ódio de si m esm o. "Se eu fosse um lobo, o que, em term os técnicos, eu sou", pensou, "certam ente haveria um arrancarrabo ou algo sem elhante. Qualquer garota vagando sozinha por aí estaria em sérios apuros. Eu poderia atacar, eu. poderia atacar na hora que quisesse, estou apenas escolhendo não fazê-lo. Um a coisa eu não vou fazer. Não vou ficar assim , de olho nela. Sei que Victor m e disse pra ficar de olho nela m as eu não fico por aí fazendo o que os hum anos m andam . Gostaria de encontrar um hum ano que possa dar ordens a m im . Corto a garganta dele, assim . Há. E, se algum a coisa acontecesse com ela, ele ficaria andando por aí com a cabeça na lua durante dias e provavelm ente esqueceria de m e dar com ida. Não que cães com o eu precisem de hum anos para conseguir com ida. Eu poderia derrubar um a rena só de saltar nas costas dela e m order a j ugular, m as e conveniente pra caram ba receber tudo num prato." Ela estava andando bem rápido. A língua de Gaspode ficou pendurada para fora enquanto ele se esforçava para acom panhar o seu passo. A cabeça dele doía. Ele arriscou algum as olhadelas de lado para ver se algum outro cachorro estava vendo. "Se estivesse", pensou, "poderia fingir que estava correndo atrás dela." Que era o que ele estava fazendo de fato. O problem a era que ele nunca teve m uito fôlego, nem nos seus m elhores m om entos, e ficava difícil m anter o ritm o. Ela deveria ter a decência de ir um pouco m ais devagar.

Ginger com eçou a subir as ladeiras m ais baixas da colina. Gaspode pensou em latir alto e, se alguém cham asse atenção para isso m ais tarde, ele poderia dizer que tinha sido para assustá-la. O problem a era que tinha fôlego suficiente apenas para ofegar de form a am eaçadora. Ginger chegou a um patam ar e desceu até um pequeno vale entre as árvores.

Gaspode foi cam baleando atrás dela, se endireitou, abriu a boca para choram ingar um aviso e quase engoliu a língua.

A porta tinha se aberto m ais alguns centím etros. Mais areia rolou para o m onte sob o olhar de Gaspode.

E ele ouviu vozes. Não pareciam dizer palavras, m as a essência das palavras, significados sem disfarces. Elas zum biam por sua cabeça pontuda feito m osquitos, im plorando, induzindo e...

... Ele era o cachorro m ais fam oso do m undo. Os nós de seus pelos se desfizeram , das partes puídas brotaram cachos brilhantes, sua pelagem cresceu no corpo repentinam ente dócil e se afastou de 200 A Magia de Holy Wood seus dentes. Pratos surgiram na sua frente, não carregados dos órgãos m isteriosos e m ulticoloridos que norm alm ente esperavam que ele com esse, m as com um bife verm elho-escuro. Havia água doce... não... havia cervej a num a tigela com o nom e dele. Odores torturantes no ar sugeriam que diversas dam as cadelas ficariam felizes em conhecê-lo depois que bebesse e j antasse. Milhares de pessoas achavam que ele era m aravilhoso. Ele tinha um a coleira com o seu nom e e... Não, aquilo não estava certo. Um a coleira, não. Depois disso viria um brinquedinho que soltava um guincho quando apertado se não im pusesse lim ites quanto à coleira.

A im agem desm oronou na confusão e agora...

... a m atilha saltava entre as árvores escuras e cobertas de neve, ficando para trás dele, bocas verm elhas abertas, longas pernas correndo pela estrada. Os hum anos que fugiam de trenó não tinham chances. Um deles foi atirado de lado quando um a das lâm inas bateu num galho e ficou gritando na estrada quando Gaspode e os lobos encontraram ...

"Não, não está certo", ele pensou com tristeza. Na verdade, você não com e hum anos. "eles enchem a sua paciência — isso e certo e os deuses sabem —, m as você não pode com ê-los" Um a confusão de instintos am eaçou dar um curto-circuito em sua m ente esquizofrênica canina.

As vozes desistiram de seu ataque com desgosto e voltaram sua atenção para Ginger, que tentava de form a sistem ática rem over m ais areia. Um a das pulgas de Gaspode lhe deu um a m ordida dolorida. Ela provavelm ente sonhava ser a m aior pulga do m undo. A pata subiu autom aticam ente para cocar, e o encanto desapareceu.

ele piscou.

— Que inferno — gem eu. "É isso o que está acontecendo com os hum anos! O que está fazendo ela sonhar?" Os pelos das costas de Gaspode se eriçaram .

Não era necessário nenhum instinto anim al especial ali. Os instintos perfeitam ente com uns do dia-a-dia foram suficientes para horrorizá-lo. Havia algo terrível do outro lado da porta.

E ela tentava deixar sair.

Ele tinha que acordá-la.

Morder não era um a boa ideia. Seus dentes não andavam m uito bons ultim am ente. Ele duvidava m uito de que latir seria m elhor. Isso deixava um a alternativa...

A areia se m oveu de m odo sinistro sob suas patas. Talvez ela estivesse sonhando em ser rocha. As árvores esqueléticas em torno do vale estavam ocupadas com fantasias de se tornar sequoias. Até o ar que se espiralava ao redor da cabeça pontuda de Gaspode se m ovia lentam ente, em bora ninguém possa adivinhar o que o ar sonha.

Gaspode correu até Ginger e pressionou o focinho contra a sua perna. O universo contem um a certa quantidade de form as horríveis de acordar alguém , com o o ruído da m ultidão derrubando a porta da frente, a sirene dos carros de bom beiros ou a percepção de que hoj e e segunda-feira que, na sexta-feira à noite, se encontrava confortavelm ente longe. O focinho úm ido de um cachorro não e, estritam ente falando, a pior form a de todas essas, m as tem seu pavor peculiar, que especialistas nas coisas desagradáveis e donos de cachorros de toda parte conhecem e tem em . E com o sentir um pequeno pedaço de fígado descongelado encostando-se a você de m odo carinhoso.

Ginger piscou. O brilho incandescente desapareceu de seus olhos. Ela olhou para baixo, e sua expressão de horror se transform ou em perplexidade, m as, quando viu Gaspode olhando de soslaio para ela, retornou a um horror m ais m undano.

— Olá — disse Gaspode, insinuando-se. Ela se afastou, erguendo as m ãos num gesto de proteção. A areia escorreu entre seus dedos. Seus olhos trem ularam sobre seu próprio corpo com espanto e depois voltaram a Gaspode.

— Deuses, isso é horrível. O que está acontecendo? Por que estou aqui!. — Suas m ãos voaram para a sua boca. — Oh, não — sussurrou —, de novo, não! Ela olhou intensam ente para o cão por um m om ento, olhou com raiva para a porta, depois se virou, ergueu a cam isola e voltou correndo para a cidade em m eio à neblina da m anhã.

Gaspode se arrastou atrás dela, consciente da raiva que pairava no ar, tentando desesperadam ente aum entar o m áxim o possível a distância entre ele e a porta.

"Tem algum a coisa terrível lá dentro", pensou. "Provavelm ente dedos em form a de tentáculo que arrancam a sua cara. Tipo, quando cê encontra portas m isteriosas em colinas antigas, faz sentido que o que sair dali num fique feliz em te ver. Criaturas m alignas que o Hom em num deveria conhecer, e aqui está um cachorro que tam bém num quer saber delas. Por que ela num pôde..." ele seguiu m urm urando em direção à cidade.

Atrás dele, a porta se deslocou um a m ínim a fração de centím etro. Holy Wood despertou m uito antes de Victor, e as m arteladas nas instalações do Século do Morcego-de-Frutas ecoavam pelo céu. Cargas de m adeira eram enfileiradas para passar pela arcada. Ele foi atropelado e em purrado de lado por um fluxo apressado de gesseiros e carpinteiros. Do lado de dentro, m ultidões de operários passavam correndo pelos vultos de Silverfish e Dibbler C.A.P.C. discutindo.

Victor se aproxim ou deles no exato m om ento em que Silverfish dizia, em tom de perplexidade: — A cidade inteira? — Você pode deixar de fora um a coisa ou outra dos arredores — respondeu Dibbler. — Mas eu quero toda a área central. O palácio, a Universidade, os Grêm ios, tudo o que faz dela um a cidade de verdade, entende? Tem que dar certo! Seu rosto estava verm elho. Atrás dele, revelava-se Detritus, o troll, paciente, segurando com sua m ão enorm e o que parecia ser um a cam a acim a da sua cabeça, com o um garçom com um a bandej a. Dibbler tinha os lençóis em suas m ãos. Então Victor percebeu que a cam a inteira, e não apenas o lençol, estava repleta de textos escritos.

— Mas o custo... — protestou Silverfish.

— Conseguirem os o dinheiro de algum m odo — disse Dibbler calm am ente.

Silverfish não ficaria m ais horrorizado se Dibbler estivesse usando um vestido. Ele tentou chegar a um acordo.

— Bem , se você estiver determ inado, Cova...

—Certo! —... suponho, pensando m elhor, que talvez pudéssem os am ortizar o custo de vários cliques, talvez até alugá-la depois...

— Do que está falando? — perguntou Dibbler. — Nós vam os construí-la para e O Sopro Carregou.

— Sim , sim , claro — tranquilizou—o Silverfish. — E depois nós podem os...

— Depois? Não vai ter nenhum depois! Você não leu o roteiro? Detritus, m ostra o roteiro pra ele! Detritus largou a cam a com obediência entre os dois.

— E a sua cam a, Cova.

— Roteiro, cam a, qual a diferença? Olha... aqui... bem acim a do entalhe... Houve um a pausa enquanto Silverfish lia. Era um a pausa bem longa. Silverfish não estava acostum ado a ler coisas que não viessem em colunas e com o total em baixo.

Finalm ente disse: —Você... vai... botar fogo nela? — E histórico. Não se pode discutir com a história — argum entou Dibbler, tentando convencê-lo. — A cidade foi incendiada na guerra civil, todo m undo sabe disso.

Silverfish se endireitou.

— A cidade pode ter sido — com eçou com firm eza —, m as eu não tive que conseguir dinheiro para que isso acontecesse! Isso e um a extravagância irresponsável! — Eu vou pagar de algum a form a — disse Dibbler com calm a.

— Só tenho um a palavra: im possível! — Isso são duas palavras.

— Não tem com o eu trabalhar em algo desse tipo — disse Silverfish, ignorando a interrupção. — Tentei ver o seu ponto de vista, não tentei? Mas você pegou as im agens anim adas e está tentando transform á-las em ... Em ... Em sonhos. Eu nunca quis que elas fossem assim ! Me inclua fora disso! — Ok — Dibbler ergueu a cabeça para olhar para o troll. — O senhor Silverfish j á está de saída — disse. Detritus confirm ou com a cabeça e, em seguida, ergueu Silverfish devagar e com firm eza pela gola.

Silverfish ficou pálido.

— Você não pode se livrar de m im desse j eito.

— Quer apostar? — Não haverá um alquim ista em Holy Wood que trabalhará para você! Pegarem os o operador de m anivela para nós! Você está acabado! — Ouça um a coisa! Depois deste clique, toda a cidade de Holy Wood virá m e procurar para conseguir um em prego! Detritus, j ogue esse im prestável para fora! — Certo, seu Dibbler — m urm urou o troll, agarrando a gola de Silverfish.

— Você ainda vai ouvir, seu... seu m egalom aníaco m anipulador e desonesto! Dibbler tirou o charuto da boca.

— Pra você e senhor Megalom aníaco. Ele pôs o charuto de volta e deu um aceno significativo para o troll, que, com delicadeza, m as com firm eza, segurou Silverfish pela perna tam bém .

— Encoste um dedo em m im e você nunca m ais vai trabalhar nesta cidade! — gritou Silverfish.

— Eu j á tenho em prego m esm o, seu Silverfish — disse Detritus, com calm a, carregando Silverfish em direção ao portão. — Sou Vice-Presidente de Atirar Para Fora Pessoas De Quem O Seu Dibbler Não Vai Com a Cara.

— Então vai ter que arranj ar um assistente! — rosnou Silverfish.

— Tenho um sobrinho procurando em prego. Tenha um bom dia.

— Certo — disse Dibbler, esfregando as m ãos com força. — Soll! Soll apareceu de trás de um cavalete cheio de proj etos enrolados e tirou um lápis da boca.

— Sim , tio? — Quanto tem po vai dem orar? — Uns quatro dias, tio.

— E tem po dem ais. Contrate m ais gente. Quero que fique pronto am anhã, certo? — Mas, tio...

— Ou então está dem itido — com pletou Dibbler. Soll pareceu am edrontado.

— Sou seu sobrinho, tio — protestou. — Não se pode dem itir sobrinhos. Dibbler olhou ao redor e pareceu notar Victor pela prim eira vez.

— Ah, Victor. Você é bom com as palavras. Eu posso dem itir um sobrinho? — Er... Acho que não. Acho que você pode deserdá-lo ou algo do tipo — arriscou Victor, pouco convincente. — Mas...

— Certo! Certo! Bom rapaz. Sabia que era algum tipo de palavra assim . Posso deserdar você. Ouviu isso, Soll? — Sim , tio — disse Soll, abatido. — Vou ver se consigo encontrar m ais carpinteiros então, está bem ? — Certo. — Soll lançou um olhar de espanto am edrontado para Victor ao passar com pressa. Dibbler com eçou a fazer um discurso enfadonho para um grupo de operadores de m anivela. As instruções j orravam do hom em com o as águas de um a fonte.

— Acho que ninguém vai a Ankh-Morpok hoj e de m anhã então — disse um a voz na altura dos j oelhos de Victor.

— Ele com certeza está... E... m uito am bicioso hoj e — com entou Victor. — Totalm ente diferente do que costum a ser.

Gaspode cocou um a orelha.

— Tinha um a coisa que eu precisava falar. O que era m esm o? Ah, sim . Lem brei. Sua nam orada é agente de poderes dem oníacos. Aquela noite em que vim os ela na colina, ela provavelm ente tava indo com ungar com o m al. O que cê acha disso, hein? Ele sorriu. Ficou bastante orgulhoso do m odo com o introduzira o assunto.

— Que bom — respondeu Victor, distraído. Dibbler com certeza estava agindo de form a m ais estranha que o norm al. Mais estranho que o norm al inclusive para Holy Wood...

— É — continuou Gaspode, levem ente irritado com aquela recepção. — Pulando por aí à noite com Inteligências ocultas e sinistras do Outro Lado, eu não deveria m e surpreender.

— Ótim o — concordou Victor. Não era com um queim ar coisas em Holy Wood. Elas eram guardadas e depois pintadas do outro lado. Sem querer, com eçou a ficar interessado.

— ... um elenco de m ilhares — Dibbler ia dizendo. — Não im porta onde vocês vão achar gente, vam os contratar todo m undo em Holy Wood se for necessário, certo? E eu quero...

— Aj udando eles nas suas tentativas m aléficas de dom inar o m undo todo, se é que sou capaz de j ulgar algum a coisa — disse Gaspode.

Continuar: parte 3 de 4