A Magia de Holy Wood
— O que Significa?
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— Bom , isso é um alívio — disse o troll. Ele deu um a tapinha na cabeça deles, enterrando seus pés um pouco m ais na areia.
— Muito obrigado. Muito agradecido. Tenham um a boa noite — acrescentou, arrependido.
Ele observou o casal sair andando de m ãos dadas e caiu no choro. No galpão dos operadores de m anivela, Dibbler C.A.P.C. observava de pé e pensativo, enquanto Gaffer colava pedaços das cenas do dia. O operador de m anivela se sentia m uito satisfeito. O senhor Dibbler nunca havia dem onstrado interesse nas verdadeiras técnicas de tratam ento do film e até então. Isso pode explicar por que ele estava um pouco m ais acessível do que de costum e em relação aos segredos do Grêm io que foram passados lateralm ente de um a geração para a m esm a geração.
— Por que todas as im agenzinhas são iguais? — perguntou Dibbler enquanto o operador de m anivelas enrolava o film e no carretel. — Pra m im parece desperdício de dinheiro.
— Na verdade, elas não são iguais. Cada um a é um pouquinho diferente da outra, está vendo? Assim as pessoas vêem um m onte de im agenzinhas levem ente diferentes m uito rápido, e os olhos delas acham que estão vendo algo em m ovim ento.
Dibbler tirou o charuto da boca.
— Quer dizer que é tudo um truque? — perguntou, surpreso.
— É, isso m esm o. — O operador de m anivela deu um risinho preso e estendeu o braço para o pote de cola.
Dibbler observava, fascinado.
— Eu achei que fosse tudo um tipo especial de m agia —com entou, m eio decepcionado. —Agora você m e diz que não passa de um a grande brincadeira de tirar m oedas da orelha? — Mais ou m enos. Vej a, as pessoas na verdade não vêem nenhum a das im agens. Elas vêem um m onte delas de um a vez, percebe o que eu quero dizer? — Ei, eu fiquei perdido com esse m onte de "ver" aí.
— Cada im agem contribui para o efeito geral. As pessoas não vêem , desculpa, cada um a das im agens, elas só vêem o efeito causado por um m onte delas passando m uito rápido.
— É m esm o? Isso e m uito interessante. Muito interessante m esm o. — Ele bateu a cinza do charuto em cim a dos diabretes. Um deles pegou-a e com eu.
— Então o que aconteceria — com eçou, devagar — se, digam os, apenas um a im agem no clique inteiro fosse diferente.
— Engraçado você perguntar isso. Isso aconteceu outro dia, quando estávam os rem endando Alem do Vale dos Trolls. Um dos aprendizes havia colado apenas um a im agem de A Corridha do Ouro e todos nós ficam os a m anhã inteira pensando em ouro sem saber por quê. Foi com o se ela tivesse entrado direto na nossa cabeça sem que os nossos olhos vissem . E claro que eu levei a m inha parte para o rapaz assim que localizam os a falha, m as nunca teríam os descoberto se eu não tivesse olhado para o clique devagar, por acaso.
Ele pegou o pincel de cola m ais um a vez, alinhou duas tiras de film e e as prendeu. Depois de certo tem po, sentiu que havia ficado tudo m uito silencioso atrás dele.
— Está tudo bem , senhor Dibbler? — Hum ? Oh. — Dibbler estava m ergulhado em pensam entos. — Apenas um a im agem teve todo esse efeito? — Ah, sim . O senhor está bem , seu Dibbler? — Nunca estive m elhor, rapaz. Nunca estive m elhor - ele esfregou as m ãos.
— Vam os ter um a conversinha, você e eu, de hom em pra hom em — acrescentou. — Porque, sabe... — Ele pôs a m ão no om bro de Gaffer, num gesto am igável. — ... Estou com a sensação de que hoj e pode ser o seu dia de sorte. E, num a outra passagem estreita, Gaspode estava sentado, m urm urando consigo m esm o.
— Hã. Parado, ele disse. Me dando ordens. Só pra nam orada dele não ter que ter um cachorro horroroso e fedido no quarto dela. Então aqui estou eu, o m elhor am igo do hom em , sentado na chuva. Se estivesse chovendo, em todo caso. Talvez não estej a chovendo, m as, se estivesse chovendo, eu estaria encharcado a essa altura. Seria bem feito pra ele se eu m e levantasse e fosse em bora. Eu poderia fazer isso tam bém . Na hora que eu quisesse. Não tenho que ficar sentado aqui. Espero que ninguém pense que estou sentado aqui porque m e m andaram sentar aqui. Tô pra ver um hum ano que vá m e dar ordens. Tô sentado aqui porque quero. É. Depois ganiu um pouco e foi se arrastando pelas som bras, onde havia m enos chance de ser visto.
No quarto acim a, Victor estava de pé e virado para a parede. Isso era hum ilhante. Já tinha sido ruim o suficiente esbarrar com a senhora Cosm opilite com um sorriso enorm e na escada. Ela deu um sorriso escancarado para ele e m exeu o cotovelo num gesto com plicado que, ele tinha certeza, doces senhoras de idade não deveriam conhecer.
Ele ouviu tinidos e ruídos de tecidos roçando atrás de si enquanto Ginger se preparava para ir para a cam a.
— Ela é realm ente m uito legal. Ontem m e contou que j á teve quatro m aridos — disse Ginger.
— O que ela fez com os ossos? — Tenho certeza de que não entendi o que você quis dizer — disse Ginger, torcendo o nariz. — Tudo bem , pode virar agora. Estou na cam a. Victor relaxou e virou. Ginger tinha puxado as cobertas até o pescoço e estava segurando a ponta com a tensão de um a tropa m ilitar sitiada, m andando os soldados para as trincheiras.
— Você tem que m e prom eter que, aconteça o que acontecer, você não vai tentar se aproveitar da situação.
Victor suspirou.
— Prom eto.
— É que eu tenho um a carreira a zelar, só isso.
— Sim , eu entendo.
Victor se sentou ao lado do abaj ur e tirou o livro do bolso — Não estou querendo ser ingrata nem nada do tipo — continuou Ginger. Victor folheou rapidam ente as páginas am areladas, procurando a parte em que havia parado. Enorm es quantidades de pessoas haviam passado a vida ao redor da colina de Holy Wood, aparentem ente, apenas para m anter um a fogueira acesa e entoar um canto três vezes por dia. Por quê? — O que você está lendo? — perguntou Ginger, depois de certo tem po.
— É um livro velho que eu achei — respondeu Victor, em poucas palavras. — É sobre Holy Wood.
—Oh.
— Eu dorm iria um pouco se fosse você — Ele disse, curvando-se para conseguir entender a letra horrível à luz do abaj ur.
Ele a ouviu bocej ar.
— Eu term inei de te contar o sonho? — Acho que não — respondeu Victor, com o que ele esperava ser um a voz educadam ente dissuasiva.
— Com eça sem pre com um a m ontanha...
— Olha, você não deveria ficar conversando...
—... E tem estrelas em volta dela, sabe, no céu, m as um a delas cai e não é um a estrela, não, é um a m ulher segurando um a tocha acim a da cabeça... Victor voltou lentam ente para a folha de rosto do livro.
— Sim ? — disse, atento.
— E ela fica tentando m e dizer algum a coisa. Algum a coisa que eu não consigo entender, sobre andar sobre algum a coisa, e depois tem um m onte de luzes e um rugido, com o se fosse de um leão ou tigre ou algo do tipo, sabe? E aí eu acordo.
Sem perceber, Victor passou o dedo sobre o contorno da m ontanha sob as estrelas.
— Provavelm ente é só um sonho — Ele disse. — Provavelm ente não significa nada.
É claro que a colina de Holy Wood não era pontuda. Mas talvez j á tivesse sido, na época em que havia um a cidade onde agora havia um a baía. Nossa. Algum a coisa deve ter odiado este lugar de verdade.
— Você não se lem bra de m ais nada do sonho por acaso? — perguntou, com um a casualidade disfarçada.
Não houve resposta. Ele se aproxim ou lentam ente da cam a. Ela estava dorm indo.
Victor voltou para a cadeira, que prom etia se tornar irritantem ente desconfortável dentro de m eia hora, e apagou o abaj ur.
Algum a coisa na colina. Esse era o perigo.
O perigo m ais im ediato era que ele tam bém ia cair no sono. Ficou sentado no escuro, preocupado. Com o é que se acordava um a sonâm bula? Lem brava-se vagam ente de ter ouvido dizer que era um a coisa m uito perigosa. Havia histórias de pessoas que sonhavam que eram executadas e aí, quando alguém as tocava no om bro para acordá-las, a cabeça delas caía. Com o chegaram a saber o que um a pessoa m orta sonhava não foi revelado. Talvez o fantasm a tenha voltado depois e ficado na cabeceira da cam a, reclam ando. A cadeira fez um rangido alarm ante quando ele m udou de posição. Talvez, se esticasse um a perna deste j eito, ele pudesse apoiá-la na beira da cam a, de m odo que, m esm o se caísse no sono, ela não conseguiria passar sem acordá-lo. Engraçado, realm ente. Durante sem anas ele passara os dias carregando-a no colo, defendendo-a com coragem do que quer que Morry estivesse fantasiado no dia, beij ando-a e geralm ente cavalgando na direção do pôr do sol para viver feliz, e possivelm ente até em êxtase, para sem pre. Era provável que não houvesse ninguém que assistisse a um dos cliques e acreditasse que ele passaria a noite sentado no quarto dela num a cadeira feita de lascas de m adeira. Até o próprio Victor achava difícil acreditar, e lá estava ele. Esse tipo de coisa não acontecia nos cliques. Os cliques eram só sobre Paixões num Mundo enlouquecido. Se aquilo fosse um clique, ele certam ente não estaria sentado no escuro num a cadeira dura. Ele estaria... bem , ele não estaria sentado num a cadeira dura, isso era certo. O tesoureiro trancou a porta do escritório. Era preciso fazer isso. O arquirreitor achava que bater na porta era algo que só acontecia com os outros. Pelo m enos o hom em horrível parecia ter perdido o interesse no resógrafo, ou sej a lá com o Rektor o cham ava. O tesoureiro tivera um dia terrível, tentando resolver os assuntos da Universidade sabendo que o docum ento estava escondido naquela sala.
Ele o tirou de debaixo do tapete, virou a lum inária para cim a e com eçou a ler. Ele seria o prim eiro a adm itir que não era nada bom em coisas m ecânicas. Desistiu rapidam ente da parte sobre pinos, pêndulos de octiron e ar com prim ido em foles.
Recom eçou o parágrafo que dizia: "então, se perturbações no tecido da realidade fizerem as ondulações se espalharem a partir do epicentro, o pêndulo vai balançar, com prim ir o ar nos foles apropriados e fazer com que o elefante decorativo m ais próxim o do epicentro lance um a bolinha de chum bo para dentro de um copo. E assim a direção da perturbação..." ... whum m ... whum m ...
Ele conseguia ouvi-lo m esm o lá de cim a. Tinham acabado de colocar m ais sacos de areia ao seu redor. Ninguém ousava tocá-lo agora. O tesoureiro tentou se concentrar na leitura.
"... pode ser estim ada pelo núm ero e força..." ...whum m ... whum m WHUMMWHUMM.
O tesoureiro percebeu que estava prendendo a respiração.
"... das balas expelidas, as quais estim o, em perturbações sérias..." Plib.
“... podem m uito bem exceder duas balas..." Plib. ... Expelidas a alguns centím etros..." Plib.
"... durante o..." Plib.
"... curso..." Plib.
... de... Plib.
... um ... Plib.
... m ês. Plib.
Gaspode despertou e rapidam ente se colocou no que esperava parecer um a posição de alerta.
Alguém estava gritando, m as de form a educada, com o se quisesse aj uda, m as apenas se não fosse incom odar m uito.
Ele subiu os degraus correndo. A porta estava entreaberta. Ele a em purrou com a cabeça.
Victor estava deitado de costas, am arrado num a cadeira. Gaspode se sentou e o observou atentam ente, para ver se ele faria algum a coisa interessante.
— Estam os bem aí? — perguntou após algum tem po.
— Não fique sentado aí, idiota! Desfaça esses nós — ordenou Victor.
— Idiota eu posso ser, m as am arrado eu não tô — respondeu Gaspode, sem se abalar. —Ela foi m ais rápida que você, foi? — Eu devo ter cochilado por um m om ento.
— Por tem po suficiente para que ela se levantasse, rasgasse um lençol e am arrasse você nessa cadeira.
— É, está bem , está bem . Você não pode roer o lençol ou algo assim ? — Com estes dentes? Mas eu poderia cham ar alguém — disse Gaspode, e sorriu m ostrando os dentes.
— É... não sei se seria um a ideia m uito...
— Não se preocupe. Já volto — prom eteu Gaspode, e saiu andando em silêncio.
— Pode ser um pouco difícil de explicar... — gritou Victor, m as o cachorro j á tinha descido as escadas e avançava entre o labirinto de cenários e becos, rum o aos fundos da Século do Morcego-de-Frutas.
Ele foi até a cerca alta e ouviu o tinido leve de um a corrente.
— Laddie? — sussurrou com a voz rouca, ele ouviu um latido cheio de alegria.
— Bom garoto Laddie! — É. — Ele suspirou. Será que ele j á tinha sido assim ? Se tinha, ainda bem que não sabia.
— Mim bom garoto! — Claro, claro. Laddie, fica quieto — Gaspode m urm urou e esprem eu o corpo artrítico por debaixo da cerca. Laddie lam beu seu rosto enquanto se levantava.
— Estou velho dem ais pra esse tipo de coisa — resm ungou e exam inou o canil. — Um enforcador. Um m aldito enforcador. Para de puxar, seu idiota m aluco. Pra trás. Pra trás. Isso.
Gaspode enfiou um a pata dentro do laço e o passou devagar por cim a da cabeça de Laddie.
— Pronto. Se todos nós soubéssem os fazer isso, governaríam os o m undo. Agora para de brincadeira. Precisam os de você.
Laddie m udou de repente para a posição de atenção com a língua de fora. Se os cães soubessem bater continência, ele teria batido. Gaspode se arrastou por baixo da cerca novam ente e esperou. Ele pôde ouvir os passos de Laddie do outro lado, m as o cachorro grande parecia se afastar da cerca.
— Não! — sussurrou Gaspode. — Me siga! Houve um barulho de patas correndo, um zunido, e Laddie saltou por cim a da cerca alta sem tocá-la e fez um a aterrissagem com as quatro patas na frente dele. Gaspode desgrudou a língua do fundo da garganta.
— Bom garoto — m urm urou. — Bom garoto.
Victor se sentou, esfregando a cabeça.
— Eu sofri um belo corte quando a cadeira caiu para trás.
Laddie ficou sentado com um olhar cheio de expectativa, com os restos do lençol na boca.
— O que ele está esperando? — perguntou Victor.
— Você tem que dizer que ele é um bom garoto — suspirou Gaspode.
— Ele não está esperando um pedaço de carne, um doce ou coisa do tipo? Gaspode balançou a cabeça.
— É só dizer pra ele que é um bom garoto. É m elhor que m oeda forte, pros cachorros.
—Ah, é? Então: bom garoto, Laddie.
Laddie saltou de um lado para o outro, excitado. Gaspode disse palavrões em voz baixa.
— Desculpe por isso. Patético, não? — Bom garoto, encontre a Ginger — pediu Victor.
— Olha, eu posso fazer isso — com eçou Gaspode, desesperado, quando Laddie com eçou a farej ar o chão. — Nós todos sabem os pra onde ela está indo. Você não tem que...
Laddie saiu disparado pela porta, m as com graça. Parou depois do últim o degrau da escada e deu um latido ansioso de "sigam -m e".
— Patético — disse Gaspode, sentindo-se infeliz.
As estrelas sem pre pareciam brilhar com m ais intensidade sobre Holy Wood. É claro que o ar era m ais lim po que em Ankh e não havia m uita fum aça, m as m esm o assim ... pareciam m aiores tam bém , e m ais próxim as, com o se o céu fosse um a lente im ensa.
Laddie voava pelas dunas, parando de vez em quando para que Victor o alcançasse. Gaspode vinha atrás por algum outro cam inho, rolando de um lado para o outro e arfando. A trilha levava ao vale, que estava vazio. A porta se abrira cerca de 30 centím etros. A areia arrastada ao redor indicava que não se sabia se algo havia ou não saído, m as Ginger havia entrado. Victor ficou olhando para a porta.
Laddie se sentou ao lado dela, com um olhar esperançoso voltado para Victor.
— Ele está esperando — disse Gaspode.
— O quê? — perguntou Victor, num tom apreensivo. Gaspode suspirou.
— O que você acha? — perguntou.
— Ah. Sim . Isso é que é um bom garoto, Laddie. Laddie latiu e tentou virar um a cam balhota.
— O que vam os fazer agora? — perguntou Victor. — Acho que vam os entrar, não? — Pode ser — concordou Gaspode.
— É ... Ou poderíam os esperar até ela sair. O fato é que eu nunca fiquei m uito à vontade com a escuridão. Sabe, o escuro da noite, tudo bem , m as breu total...
— Aposto que Cohen, o Bárbaro não tem m edo de escuro — com entou Gaspode.
— Bem , sim ...
— E o Som bra Negra do Deserto tam bém não tem m edo do escuro.
— Ok, m as...
— E Howondalândia Sm ith, o caçador de Balgrog, praticam ente com e o escuro na hora do chá.
— É, m as eu não sou essas pessoas! — reclam ou Victor.
— Vai dizer isso pra todas as pessoas que entregaram seus centavos para ver você sendo eles — disse Gaspode. Ele cocou um a pulga insone. — Nossa, seria hilário se tivesse um operador de m anivela aqui, não? — com eçou, anim ado.
— Que longa m etragem de com édia seria. O Senhor Herói que Não Vai pro escuro poderia ser o nom e. Seria m elhor do que Coxas de Peru. Seria m ais interessante do que Um a Noite na Arena. Acho que as pessoas iam fazer fila pr...
— Está bem , está bem . Vou entrar um pouco talvez. — Ele olhou desesperadam ente para as árvores ressecadas ao redor do vale. — E vou fazer um a tocha — acrescentou.
— Está bem , está bem . Vou entrar um pouco talvez. — Ele olhou desesperadam ente para as árvores ressecadas ao redor do vale. — E vou fazer um a tocha — acrescentou.
* * *
Ele esperava aranhas, um idade e possíveis cobras ou coisa pior... Em vez disso, havia apenas um corredor seco, m ais ou m enos quadrado, com um leve declive. O ar tinha um cheiro de sal, indicando que, em algum lugar, o túnel se ligava ao m ar.
Victor deu alguns passos e parou.
— Espere. Se a tocha apagar, podem os ficar terrivelm ente perdidos.
— Não, não podem os — discordou Gaspode. — Olfato, entende? — Uau, que esperteza.— Victor seguiu um pouco m ais. As paredes estavam cobertas por grandes versões dos ideogram as quadrados que apareciam no livro. — Sabe — com eçou, parando para passar os dedos num dos ideogram as —, na verdade, isso não parece um a linguagem escrita. É m ais com o um ...
— Continua andando e para de inventar desculpas — disse Gaspode, atrás dele.
Victor chutou algum a coisa que saiu rolando no escuro.
— O que era isso? — perguntou com a voz trêm ula. Gaspode saiu fungando no escuro e voltou.
— Não se preocupe com aquilo.
—Hã? — É só um crânio.
— De quem ? — Ele num disse.
— Fica quieto! Algum a coisa fez um ruído debaixo da sandália de Victor.
— E isso... — com eçou Gaspode.
— Não quero saber! — Era um a concha do m ar na verdade.
Victor observou atentam ente o bloco de escuridão em m ovim ento na frente deles. A tocha im provisada trem eluzia na corrente de ar e, aguçando bem os ouvidos, ele conseguia ouvir um som rítm ico. Ou era um a fera rugindo à distância, ou o som do m ar em m ovim ento em algum túnel subterrâneo. Ele optou pela segunda hipótese.
— Algum a coisa tem cham ado ela. Nos sonhos. Alguém que quer ser solto. Tenho m edo de que ela se m achuque.
— Não vale a pena se preocupar com ela. Mexer com garotas que são escravas de Criaturas do Vazio nunca dá certo, vai por m im . Você nunca saberia do lado de quem ia acordar.
— Gaspode! — Você vai ver que estou certo.
A tocha se apagou.
Victor a balançou desesperadam ente e a soprou num a últim a tentativa de reacendê-la. Algum as fagulhas cintilaram e apagaram . Sim plesm ente não havia sobrado tocha suficiente.
A escuridão se espalhou novam ente. Victor nunca estivera num a escuridão com o aquela. Não im portava por quanto tem po você olhasse para ela, a vista não se acostum aria aos poucos. Não havia nada com que se acostum ar. Era a escuridão e a m ãe da escuridão, escuridão absoluta, a escuridão sob a terra, um a escuridão tão densa a ponto de ser quase tangível, com o Veludo frio.
— Tá escuro pra caram ba — disse Gaspode, sem ninguém ter perguntado nada.
"Eu com ecei a fazer o que cham am de suar frio", pensou Victor. "então é assim que a gente se sente. Eu sem pre quis saber." ele se m ovim entou devagar e de lado até tocar a parede.
— É m elhor voltarm os — sugeriu, no que esperava ser um tom de voz trivial. — Pode haver qualquer coisa na nossa frente. Desfiladeiros, qualquer coisa assim . Poderíam os pegar m ais tochas, m ais pessoas e voltar. Houve um baque surdo m ais à frente, na passagem .
Whoom ph.
Ele foi seguido por um a luz tão forte que proj etava a im agem dos globos oculares de Victor no fundo de seu crânio. Ela dim inuiu após alguns segundos, m as ainda estava dolorosam ente brilhante. Laddie choram ingou.
— Aí está — disse Gaspode com a voz rouca. — Agora você tem luz, então está tudo bem .
— É, m as o que está produzindo ela? — Eu é que vou saber? Victor avançou m ais um pouco, com a sua som bra dançando atrás dele. Depois de uns 100 m etros, a passagem se abriu no que talvez tenha sido um dia um a caverna natural. A luz vinha de um a abóbada alta de um dos lados, m as era forte o suficiente para revelar cada detalhe, era m aior até que o Grande Salão da Universidade, e devia ter sido ainda m ais im pressionante um dia. A luz refletia nos ornam entos barrocos dourados e nas estalactites que enfeitavam o teto. Um a escada grande o suficiente para passar um a tropa subia de um buraco am plo e som brio no chão. Um a batida e um estrondo que se repetiam e um cheiro de sal indicavam que o m ar havia encontrado um a entrada em algum lugar lá em baixo. O ar era frio e úm ido.
— Um a espécie de tem plo? — m urm urou Victor.
Gaspode farej ou um a cortina verm elho-escura pendurada de um lado da entrada. Com o toque dele, ela desabou num m onte de lodo.
— Eca. O lugar inteiro está m ofado! — Algo cheio de pernas passou correndo pelo chão e caiu no poço da escada.
Victor esticou o braço com cuidado e cutucou um a corda grossa e verm elha, am arrada em duas colunas revestidas de ouro. Ela se desintegrou. A escada rachada seguia até a distante abóbada ilum inada. Eles subiram , esbarrando nos m ontes de algas m arinhas caindo aos pedaços e lascas de m adeira levadas por algum a m aré alta.
A abóbada se abria para outra caverna am pla, que parecia um anfiteatro. Fileiras de cadeiras se estendiam na direção de um a... um a parede? Ela cintilava com o m ercúrio. Se desse para encher um a piscina alongada do tam anho de um a casa com m ercúrio e depois virá-la de lado sem derram ar nada, ficaria parecida com aquilo.
Só que não tão m alévola. Era plana e estava vazia, m as de repente Victor sentiu que estava sendo observado, com o se estivesse debaixo de um a lente. Laddie choram ingou.
Então Victor percebeu o que o deixava inquieto.
Aquilo não era um a parede. Um a parede estaria presa a algo. Aquilo não estava preso a nada. Apenas pairava no ar, se ondulando e se agitando, com o um a im agem num espelho, m as sem o espelho.
A luz vinha de algum lugar do outro lado. Victor conseguia ver agora um a ponta m inúscula dando voltas na som bra, no outro extrem o da câm ara. Ele desceu o corredor inclinado entre as fileiras de cadeiras de pedra e os cachorros foram se arrastando ao lado dele, com as orelhas caídas e o rabo entre as pernas. Eles andaram com dificuldade sobre algo que um dia deve ter sido um carpete e que se rasgava, m olhado, se desintegrando sob seus pés. Depois que tinham percorrido alguns m etros, Gaspode disse: — Não sei se você notou, m as algum as das...
— Eu sei — disse Victor, Sério.
— ... cadeiras, elas ainda estão...
— Eu sei.
—... ocupadas.
— Eu sei.
Todas essas pessoas — Essas coisas que tinham sido pessoas — sentadas em fileiras. Era com o se estivessem assistindo a um clique. Ele estava quase chegando lá agora. Notou um brilho fraco acim a dele, um retângulo com com prim ento e altura, m as sem espessura.
Logo adiante, quase em baixo da tela prateada, havia um pequeno lance de escadas, que o levou a um poço circular cheio de entulhos até a m etade. Depois de andar por cim a deles, pôde ver a parte de trás da tela, onde estava a luz. Era Ginger. Ela perm anecia parada com a m ão acim a da cabeça. A tocha que segurava queim ava com o fósforo.
Olhava para cim a, para um corpo sobre um a placa de pedra. Era um gigante. Ou, pelo m enos, algo que parecia um gigante. Poderia ser um a arm adura com um a espada em cim a, m eio enterrada na poeira e na areia.
— É aquela coisa do livro! — sussurrou. — Deuses, o que ela pensa que está fazendo? — Acho que ela não está pensando nada — observou Gaspode.
Ginger se virou um pouco, e Victor viu seu rosto. Ela sorria. Atrás da placa de pedra, ele conseguiu distinguir um a espécie de disco grande e corroído. Pelo m enos estava pendurado no teto por m eio de correntes apropriadas, e não desafiando a gravidade de m aneira desconcertante.
— Certo, vou pôr um fim nisso agora m esm o. Ginger! Sua voz foi lançada de volta contra ele, vinda das paredes distantes. Pôde ouvi-la rebatendo em cavernas e corredores: "er, er, er” Houve um baque de rocha caindo bem longe, atrás dele.
— Fique quieto! — disse Gaspode. — Você vai fazer o lugar inteiro desabar em cim a da gente! — Ginger! — sussurrou Victor. — Sou eu! — Ela se virou e olhou para ele, ou através dele, ou para dentro dele. — Victor — Ele insistiu, com um a voz doce.
— Vá em bora. Para longe. Vá em bora agora ou um grande m al acontecerá.
— Um grande m al acontecerá — resm ungou Gaspode. — Isso sim é um presságio.
— Você não sabe o que está fazendo. Você m e pediu para detê-la! Volte. Volte com igo agora.
Ele tentou subir...
... E algo afundou sob seu pé. Houve um som distante de m urm úrio, um a vibração m etálica, e depois um a nota m usical aquosa cresceu ao seu redor, ecoando pela caverna. Ele m exeu os pés rapidam ente, m as foi para um a outra parte da borda, que afundou assim com o a outra, produzindo um a nota diferente. Agora havia tam bém um som de algo raspando. Victor percebeu que estava em um pequeno poço subm erso que, para seu horror, subia aos poucos, acom panhado pelas notas m etálicas estridentes, o chiado e o zum bido de m ecanism os antigos. Ele estendeu as m ãos e bateu num a alavanca corroída, que produziu um acorde diferente e depois parou de repente. Laddie uivava. Victor viu Ginger soltar a tocha e tapar os ouvidos com as m ãos.
Um bloco de concreto foi tom bando lentam ente para fora da parede e se espatifou nas cadeiras. Fragm entos de rocha saíram rolando, e um estrondo, em contraponto com o clangor, indicava que o ruído reordenava a form a de toda a caverna.
E depois parou, com um gargarej o longo e abafado e um suspiro final. Um a serie de sacudidas e rangidos indicou que, qualquer que tenha sido o m ecanism o pré-histórico ativado por Victor, ele deu tudo de si antes de desabar. O silêncio retornou.
Victor saiu devagar e com cuidado do poço da orquestra, que agora estava alguns m etros acim a do chão, e correu até Ginger. Ela estava de j oelhos, soluçando.
— Venha. Vam os sair daqui.
— Onde estou? O que está acontecendo? — Eu não saberia nem por onde com eçar a explicar.
A tocha estava quase apagando no chão. Não era m ais um fogo actínico, era apenas um pedaço de m adeira cham uscado e quase apagado. Victor a apanhou e a balançou no ar até que aparecesse um a cham a am arela e sem brilho.
— Gaspode — cham ou de repente.
— Quê? — Vocês dois, cachorros, vão na frente.
— Oh, m uito obrigado.
Ginger se agarrou a ele enquanto atravessavam o corredor com dificuldade. Apesar do terror que com eçava a sentir, Victor teve que adm itir que a sensação era m uito agradável. Ele olhou ao redor, para os eventuais ocupantes dos assentos, e sentiu um arrepio.
— É com o se tivessem m orrido assistindo a um clique.
— É. Um a com édia — disse Gaspode, correndo na frente dele.
— Por que você diz isso? — Estão todos sorrindo.
— Gaspode! — Bom , você tem que ver pelo lado positivo, não? — zom bou o cachorro.
— Não pode ficar sofrendo só porque está num túm ulo subterrâneo com um a am ante de gatos louca e um a tocha que vai apagar a qualquer m om ento...
— Não para! Não para! Eles m eio caíram , m eio desceram os degraus correndo, derraparam de m odo desagradável nas algas no final da descida e seguiram na direção da pequena arcada que levava à m aravilhosa perspectiva de ar natural e da luz do dia. A tocha estava com eçando a queim ar a m ão de Victor. Ele a largou. Pelo m enos na passagem eles não tinham tido nenhum problem a. Se ficassem perto de um a das paredes e não fizessem nenhum a burrice, não tinha com o não chegar à porta. E a essa altura j á deveria estar am anhecendo, o que significava que logo veriam a luz. Victor se esticou. Aquilo era realm ente m uito heroico. Não teve nenhum m onstro para com bater, m as provavelm ente até os m onstros teriam apodrecido havia m uitos séculos. É claro que havia sido assustador, m as na verdade fora apenas... bem ... arqueológico. Agora que tinha ficado tudo para trás, não parecia tão ruim afinal...
Laddie, que corria na frente deles, deu um latido brusco.
— O que ele está dizendo? — perguntou Victor.
— Ele está dizendo — traduziu Gaspode — que o túnel está bloqueado.
— Oh, não! — Foi provavelm ente o seu recital de órgão que causou isso.
— Bloqueado m esm o? Bloqueado m esm o. Victor rastej ou sobre o m onte de entulho. Várias placas grandes do teto tinham desabado, levando j unto toneladas de pedras quebradas. Ele em purrou e puxou um ou dois pedaços, m as isso produziu ainda m ais desabam entos.
— Será que tem outra saída? Talvez vocês, cachorros, poderiam ...
— Esqueça, colega — interrom peu Gaspode. — Sej a com o for, o único outro cam inho deve ser seguindo aqueles degraus. Eles se ligam ao m ar, certo? Tudo o que você precisa fazer é nadar até lá e torcer pra que seus pulm ões aguentem .
Laddie latiu.
— Você, não. Eu não estava falando com você. Nunca se ofereça pra nada.
Victor continuou sua escavação entre as rochas.
— Não sei — Ele disse depois de algum tem po —, m as está parecendo que dá para ver um pouco de luz aqui. O que você acha? Ele ouviu Gaspode andar sobre as pedras.
— Pode ser, pode ser — disse o cachorro, relutante. — Parece que algum as das pedras ficaram entaladas e deixaram um espaço.
— Grande o suficiente para alguém pequeno passar de quatro? — perguntou Victor num tom encoraj ador.
— Sabia que você ia dizer isso — retrucou Gaspode.
Victor ouviu o som de patas raspando pedras soltas. Finalm ente um a voz abafada disse: — Abre um pouco... bem apertado aqui... caram ba... Houve um silêncio.
— Gaspode? — perguntou Victor, apreensivo.
— Tá tudo bem . Passei. E dá pra ver a porta.
— Ótim o! Victor sentiu o ar se m over e ouviu um barulho de algo raspando. Ele estendeu o braço com cuidado, e sua m ão encontrou um corpo trem endam ente peludo.
— Laddie está tentando ir atrás de você! — Ele é grande dem ais. Vai ficar preso! Houve um grunhido canino, chutes frenéticos que deram um banho de cascalhos em Victor e um latido curto de triunfo.
— Claro, ele é um pouquinho m ais m agro que eu — observou Gaspode, depois de algum tem po.
—Agora, vocês dois, corram para trazer aj uda. E... Nós vam os esperar aqui. Ele os ouviu desaparecer na distância. O latido distante de Laddie indicava que haviam alcançado o ar externo.
Victor se sentou.
— Agora nós só precisam os esperar.
— Nós estam os na colina, não estam os? — Era a voz de Ginger na escuridão.
—Sim .
— Com o chegam os aqui? — Eu segui você.
— Eu disse para você m e deter.
— É, m as depois m e am arrou.
— Eu não fiz nada disso!
— Você m e am arrou — repetiu Victor. — E depois você veio até aqui, abriu a porta, fez um a espécie de tocha e entrou lá naquele... naquele lugar. Tenho pavor de pensar no que teria feito se eu não tivesse acordado você. Houve um a pausa.
— Eu realm ente fiz tudo isso? — perguntou Ginger, incerta.
— Realm ente fez.
— Mas não m e lem bro de nada disso!
— Eu acredito em você. Mesm o assim , você fez.
— Que... que lugar era aquele afinal? Victor se m exeu no escuro, tentando encontrar um a posição confortável.
— Não sei — confessou. — No com eço achei que fosse um tem plo. E parecia que era usado pelas pessoas para assistirem a im agens anim adas.
— Mas parecia ter centenas de anos!
— Milhares, im agino.
— Mas, olha, isso não pode estar certo — disse Ginger, no tom de voz baixo de quem está tentando ser racional enquanto a loucura derruba a porta com um m achado. — Os alquim istas só tiveram a ideia alguns m eses atrás.
— É. É algo para se pensar. — Ele estendeu o braço e a encontrou. O corpo dela estava rígido e se retraiu ao toque dele. — Estam os bem seguros aqui — Ele acrescentou. — O Gaspode logo vai trazer aj uda. Não se preocupe com isso. Ele tentou não pensar no m ar batendo com força na escada e nas coisas de m uitas pernas que corriam pelo chão som brio. Tentou tirar da cabeça a ideia de polvos deslizando em silêncio sobre os assentos em frente àquela tela viva e m utável. Tentou esquecer os clientes que ficaram sentados no escuro enquanto, acim a deles, séculos se passavam . Talvez estivessem esperando passar a m oça com os grãos estourados e as salsichas quentes.
"Toda a vida é com o assistir a um clique", pensou. "Só que é com o se você sem pre chegasse dez m inutos depois que a longa história com eçou, e ninguém quisesse contar o que aconteceu, de m odo que você tem que descobrir tudo sozinho, a partir dos indícios. E você nunca, nunca tem a chance de ficar na sua poltrona para a sessão seguinte." Um a luz de vela trem ulava no corredor da Universidade.
O tesoureiro não se achava um hom em coraj oso. O m áxim o que se orgulhava de ter enfrentado era um a coluna de núm eros, e ser bom com núm eros o havia feito progredir na hierarquia da Universidade Invisível m ais do que a m agia j am ais fizera. Mas ele não poderia deixar isso passar.
... whum m ... whum m ... whum m whum m whum m — WHUMM WHUMM.
Ele se agachou atrás de um a pilastra e contou 11 balas de chum bo. Pequenos j atos de areia saíam dos sacos. Eram expelidas a intervalos de dois m inutos agora.
Ele correu até a pilha de sacos de areia e os puxou com força. A realidade não era a m esm a em todo lugar. Bem , é claro que todo m ago sabia disso. A realidade não era m uito densa em nenhum lugar do Disco. Em alguns lugares, era realm ente m uito tênue. Por isso a m agia funcionava. O que Riktor pensava que podia m edir eram as m udanças na realidade, lugares em que o real estava rapidam ente se tornando irreal. E todo m ago sabia o que poderia acontecer se as coisas se tornassem irreais o suficiente para form ar um buraco.
“Mas", ele pensou enquanto rasgava os sacos, "seriam necessárias quantidades im ensas de m agia. Seria m uito difícil não localizarm os essa quantidade de m agia. Ela cham aria tanta atenção quanto... bem , quanto m uita m agia j unta." Devo ter levado pelo m enos uns 50 segundos até agora.", ele observou o vaso na casam ata.
Oh. – ele esperava que estivesse errado.
Todas as balas tinham sido lançadas na m esm a direção. Meia dúzia de sacos de areia estavam cheios de buracos. E Núm eros Riktor achava que duas balas em um m ês indicavam um acúm ulo perigoso de irrealidade... O tesoureiro traçou m entalm ente um a linha que saía do vaso, atravessava os sacos de areia danificados, e ia até o final do corredor.
... whum m ... whum m ...
Ele levou um susto, e depois percebeu que não havia m otivo para se preocupar. Todas as balas eram atiradas pela cabeça do elefante ornam ental na sua frente. Ele relaxou.
... whum m ... whum m ...
O vaso balançou violentam ente quando um m ecanism o m isterioso se sacudiu dentro dele. O tesoureiro pôs a cabeça m ais perto dele. Sim , definitivam ente havia um som sibilante, com o de ar sendo com prim ido...
Onze balas de chum bo bateram nos sacos de areia em alta velocidade. O vaso deu um tranco para trás, de acordo com o fam oso princípio da reação. Em vez de atingir um saco de areia, atingiu o tesoureiro. Ming—ng—ng.
Ele pestanej ou e deu um passo para trás. E caiu.
Com o as perturbações da realidade de Holy Wood j á conseguiam estender seus tentáculos fracos, porém oportunistas, até Ankh-Morpork, dois passarinhos azuis voaram ao redor da sua cabeça por um m om ento e fizeram "piu-piu-piu" antes de desaparecer.
Gaspode se deitou na areia, ofegante. Laddie dançou em volta dele, latindo com insistência.
— Nós escapam os dessa — conseguiu dizer, e depois se levantou e se sacudiu.
Laddie latia e parecia incrivelm ente fotogênico.
— Está bem , está bem — suspirou Gaspode. — E se a gente procurar algum café-da-m anhã, talvez tirar o atraso do sono e depois a gente... Laddie latiu de novo. Gaspode suspirou.
— Ah, está bem . Vam os fazer do seu j eito. Mas fique sabendo que ninguém vai agradecer você.
O cachorro saiu arfando pelas areias. Gaspode seguiu num ritm o m ais lento e ficou bastante surpreso quando Laddie voltou atrás, levantou-o com delicadeza pelo cangote e saiu saltitando novam ente.
— Cê só tá fazendo isso com igo porque eu sou pequeno — reclam ou Gaspode, balançando de um lado para o outro. — Não, por aí, não! Os hum anos não serão nada bonzinhos a esta hora da m anhã. Precisam os de trolls. Eles ainda estão bem dispostos e m anj am m uito de coisa subterrânea. Vire a próxim a à direita. Precisam os ir ao Calcário Azul e... oh, droga. Ele se deu conta, de repente, de que a situação exigiria que ele falasse. E em público.
Você consegue passar séculos escondendo das pessoas suas habilidades vocais e, de repente, pronto, está em apuros e é obrigado a falar. Caso contrário, o j ovem Victor e a Mulher Gato ficariam esfarelando lá em baixo para sem pre. O Jovem Laddie ia largá-lo na frente de alguém e ficar na expectativa e teria que explicar. E depois passaria o resto da vida com o um a espécie de aberração. Laddie subiu a rua e passou pelos portais esfum açados do Calcário Azul, que estava lotado. Ele seguiu costurando um labirinto de pernas de tronco de árvore até chegar ao bar, latiu com força e largou Gaspode no chão. Ele ficou na expectativa.
O m urm urinho de conversas parou.
— Esse aí e o Laddie? — perguntou um troll. — O que ele quer? Gaspode cam baleou até o troll m ais próxim o e puxou com educação um a tira de sua cota de m alha de ferro enferruj ada.
— Licença — Ele disse.
— Ele cachorro inteligente pra caram ba — com entou um outro troll, chutando Gaspode para o lado sem prestar atenção nele.
— Eu ver ele em clique ontem . Ele sabe fingir de m orto e contar até cinco.
— Dois núm eros a m ais que você então. — Isso provocou m uitas risadas. (Para o padrão dos trolls, isso era Oscar Wilde no seu auge.)
— Não, cala a boca. Eu acho — com eçou o prim eiro troll — que ele tentando dizer algum a coisa pra gente.
— ... licença...
— É só olhar pro j eito que ele tá pulando e latindo.
— Isso m esm o. Eu vi ele num clique, m ostrando pras pessoas onde encontrar crianças perdidas em cavernas.
— ... licença...
Um troll franziu a testa.
— Pra com er elas, cê quer dizer? — Não, pra trazer elas pro lado de fora.
— O quê, prum churrasco, esse tipo de coisa? — ...
licença...
Mais um pé acertou Gaspode na lateral de sua cabeça pontuda.
— Pode ser que ele achou m ais algum a. Olha o j eito que ele corre, indo pra porta e voltando. Esse é cachorro esperto.
— A gente podia ir ver — sugeriu o prim eiro troll.
— Boa ideia. Parece que faz séculos que fiz m eu lanche.
— Olha, você proibido de com er gente em Holy Wood. A gente fica com m á fam a! A Liga Antidifam ação de Silício tam bém ia cair pra cim a de você feito um a tonelada de coisas retangulares de construção.
— É, m as podia ser um a recom pensa ou algo assim .
—... LICENÇA...
— Isso m esm o! Tam bém m elhora da im agem dos trolls para relações públicas se a gente encontrar crianças perdidas.
— É, m esm o se não encontrar, a gente pode com er os cachorros, certo?