A Magia de Holy Wood
— O que Significa?
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— Ela aj uda? — perguntou Victor. Dibbler conversava com dois aprendizes de alquim ista. O que era isso? Um film e de 20 rolos? Mas ninguém j am ais havia sonhado passar de cinco! — E, cavoucando sem parar para despertá-los do seu estado de inatividade antigo exalando o cheiro da destruição, esse tipo de coisa. Provavelm ente com o auxílio dos gatos, ouça o que estou...
— Olha, cala a boca só um m inuto, por favor! — pediu Victor, irritado. — Estou tentando ouvir o que eles estão dizendo.
— Bom , desculpa aí. Estava só tentando salvar o m undo — resm ungou Gaspode. — Se criaturas fantasm agóricas de Antes do Alvorecer com eçarem a acenar pra você debaixo da sua cam a, só não venha reclam ar com igo.
— Do que você está falando sem parar? — perguntou Victor.
— Ah, nada. Nada.
Dibbler levantou a cabeça, avistou Victor de pescoço esticado e acenou para ele.
— Você, rapaz! Vem aqui! Tenho um papel pra você? — Tem ? — perguntou Victor, abrindo passagem no m eio das pessoas.
— Foi o que eu disse! — Não, você perguntou se... — Victor com eçou e desistiu.
— E será que posso perguntar onde está a senhorita Ginger? — disse Dibbler. — Atrasada m ais um a vez? — ... provavelm ente dorm indo em ... — rosnou um a voz m al-hum orada e totalm ente ignorada que vinha de baixo, do m ar de pernas. — ... a pessoa deve ficar fora de si, m exendo com o oculto...
— Soll, m anda alguém trazer ela aqui...
— Sim , tio.
— ... o que se pode esperar... hã... pessoas que gostam de gatos são capazes de qualquer coisa, não dá pra confiar nelas...
— E encontre alguém para transcrever a cam a.
— Sim , tio.
—... m as eles ouvem ? Eles, não. Aposto que, se eu tivesse um pêlo brilhante e ficasse correndo e latindo, eles ouviriam ... tá legal... Dibbler abriu a boca para falar, depois franziu a testa e levantou a m ão.
— De onde está vindo este m urm úrio? — ... provavelm ente salvei o m undo todo pra eles. Por direito eu ganharia um a estátua do m eu focinho, m as não, oh, não, não pra você, senhor Gaspode, por você não ser o tipo certo de pessoa, então...
O lam ento parou. A m ultidão se afastou, revelando um cachorrinho cinza, de pernas tortas, que ergueu a cabeça para olhar com indiferença para Dibbler.
— Late? — disse, num tom inocente.
Os eventos sem pre aconteciam com rapidez em Holy Wood, m as o trabalho em E O Sopro Carregou seguia acelerado com o um com eta. Os outros cliques da Morcego-de-Frutas estavam parados. Assim com o a m aioria dos outros da cidade, porque Dibbler contratava atores e operadores de m anivela pelo dobro do que qualquer pessoa ia querer pagar.
E um a espécie de Ankh-Morpork foi erguida entre as dunas. Poderia ter sido m ais barato, reclam ou Soll, poderiam ter arriscado sentir a ira dos m agos, feito algum as film agens escondidas em Ankh-Morpork m esm o e depois passado um punhado de dólares para que alguém j ogasse um fósforo no lugar. Dibbler discordou.
— Acim a de qualquer outra coisa — declarou —, não ficaria bom .
— Mas seria a verdadeira Ankh-Morpork, tio. Tem que ficar exatam ente bom . Com o pode não ficar bom ?
— Ankh-Morpok não parece tão genuína assim , sabe — disse Dibbler, pensativo.
— E claro que é genuína, caram ba! — gritou Soll, com os laços de parentesco se esticando a ponto de quase se rom perem . — Ela está lá de verdade! Ela é ela m esm a! Não tem com o ser m ais genuína! É o m ais genuína que se pode ser.
Dibbler tirou o charuto da boca.
— Não é, não. Você vai ver.
Ginger apareceu por volta da hora do alm oço, tão pálida que Dibbler nem gritou com ela. Ela ficou encarando Gaspode, que tentou não ficar no cam inho. De todo m odo, Dibbler estava preocupado. Estava em seu escritório, explicando O enredo.
Era basicam ente m uito sim ples, m ais ou m enos na linha conhecida de Garoto Conhece Garota, Garota Conhece Outro Garoto, Garoto Perde Garota, exceto que dessa vez havia um a guerra civil no m eio de tudo isso... As origens da Guerra Civil de Ankh-Morpork (20h32, 3 de grunho de 432-10h45, 4 de grunho de 432) sem pre foram tem a de debates acalorados entre historiadores. Existem duas teorias principais: 1. As pessoas com uns, depois de pagarem m uito im posto a um rei burro e desagradável, decidiram dar um basta e resolveram que era hora de abolir o conceito ultrapassado de m onarquia e substituí-lo por, com o acabou acontecendo, um a serie de chefes suprem os déspotas que continuavam cobrando m uitos im postos, m as pelo m enos tinham a decência de não fingir que os deuses haviam lhe dado o direito de fazê-lo, o que fez todo m undo se sentir um pouco m elhor; ou 2. Um dos j ogadores de um a partida de Aleij e o Senhor Cebola num a taverna acusou o outro de esconder na palm a da m ão um núm ero de ases m aior que o de costum e, e facas foram sacadas. Depois alguém acertou alguém com um banco, outra pessoa apunhalou m ais alguém , flechas com eçaram a voar e alguém se pendurou no candelabro. Um m achado arrem essado com descuido atingiu alguém na rua, então a Guarda foi cham ada, alguém pôs fogo na taverna, alguém acertou m uita gente com um a m esa e depois todo m undo perdeu a calm a e com eçou a brigar. Enfim , tudo isso causou um a guerra civil, que é algo que toda civilização m adura tem que ter tido... (Acima de tudo, ela dá ao irmão uma desculpa muito melhor para brigar com o irmão do que a desculpa normal, a saber, o que a esposa dele disse sobre a nossa mãe nofuneral da tia Vera.)
— Da form a com o eu vej o a coisa — com eçou Dibbler —, lá está a m enina bem -nascida, m orando totalm ente sozinha num a casa grande, certo, e o rapaz de quem ela gosta vai em bora para lutar ao lado dos rebeldes, entende? Ela conhece outro hom em e acontece um a quím ica entre eles...
— Eles explodem ? — perguntou Victor.
— Ele quis dizer que se apaixonam — explicou Ginger friam ente.
— E, esse tipo de coisa — Dibbler balançou a cabeça, concordando. — Olhares se cruzam num salão cheio de gente. E ela está totalm ente sozinha no m undo, com exceção dos criados e... vej am os... talvez do seu cão de estim ação...
— Que vai ser o Laddie? — perguntou Ginger.
— Certo. E é claro que ela vai fazer tudo o que puder para preservar a m ina da fam ília. Então ela m eio que fica flertando com os dois — os hom ens, não o cachorro —, e depois um deles m orre na guerra e o outro a abandona, m as tudo bem , porque ela tem um coração forte. — Ele se recostou na cadeira. — O que vocês acham ? — perguntou.
As pessoas sentadas na sala se entreolharam com desconforto. Houve um silêncio nervoso.
— Está ótim o, tio — disse Soll, que não queria m ais problem as naquele dia.
— Muito desafiador em term os técnicos — disse Gaffer. Houve um coro de aceitação aliviada do resto do grupo.
— Não sei — com eçou Victor lentam ente.
Os olhares de todas as outras pessoas se voltaram para ele da m esm a m aneira com o os espectadores na cova dos leões veem o prim eiro crim inoso condenado ser em purrado pelo portão de ferro. Ele prosseguiu: — Tipo, é só isso? Não parece... bem ... m uito com plicado para um clique tão longo. As pessoas se apaixonando enquanto a guerra civil está acontecendo no fundo... não vej o com o se pode fazer um a im agem anim ada tão boa com isso.
Houve m ais um silêncio perturbado. Algum as pessoas que estavam próxim as de Victor foram para outro lado. Dibbler olhava fixam ente para ele. Victor conseguiu ouvir um a vozinha quase inaudível debaixo da sua cadeira.
— ... ah, e claro, tem sem pre um papel pro Laddie... o que ele tem que eu não tenho, é isso o que eu gostaria de...
Dibbler ainda encarava Victor. Então ele disse: — Você está certo. Você está certo. O Victor está certo. Por que ninguém m ais percebeu isso? — Era exatam ente o que eu estava pensando, tio — disse Soll, apressado.
— Precisam os increm entar um pouco.
Dibbler balançava o charuto num gesto vago.
— Podem os pensar em m ais algum a coisa, não tem problem a. Tipo... tipo... que tal um a corrida de carruagens? As pessoas sem pre gostam de corridas de carruagem . Prende a atenção. Será que ele vai cair, será que as rodas vão se soltar? É. Um a corrida de carruagens.
— Eu tenho... er... lido sobre a Guerra Civil — com eçou Soll, cauteloso — E acho que não há nenhum a m enção a...
— A corridas de carruagens, estou certo? — interrom peu Dibbler, no tom escorregadio que contem a navalha da am eaça. Soll desistiu.
— Já que está colocando dessa m aneira, tio, está certo.
— E... — Dibbler fez um a expressão de reflexão —... poderíam os tentar... um tubarão enorm e? — Até Dibbler pareceu levem ente surpreso com a própria sugestão.
Soll olhou para Victor com algum a esperança.
— Tenho quase certeza de que os tubarões não lutaram na Guerra Civil — disse Victor.
— Tem certeza? — Tenho certeza de que as pessoas teriam notado.
— Eles teriam sido pisoteados pelos elefantes — m urm urou Soll.
— É — concordou Dibbler, desiludido. — Foi só um a ideia.
Não sei por que eu disse isso na verdade.
Ele ficou olhando para o nada durante algum tem po, depois sacudiu a cabeça com força.
"Um tubarão", pensou Victor. "Todos os peixinhos dourados dos nossos próprios pensam entos vão nadando contentes, e aí as águas se m ovem e um tubarão enorm e de um pensam ento vem de fora para dentro. Com o se alguém estivesse pensando em nosso lugar." — Você sim plesm ente não sabe se com portar — Victor disse a Gaspode quando estavam sozinhos. — Eu ouvi você resm ungando debaixo da cadeira o tem po todo.
— Posso não saber com o m e com portar, m as pelo m enos não fico todo triste por causa de um a garota que está deixando terríveis Criaturas da Noite entrarem no m undo — disse Gaspode.
— Espero que não — concordou Victor, e depois: — O que você está querendo dizer? — A-há! Agora ele ouve! A sua nam orada...
— Ela não é m inha nam orada! — Suposta nam orada — corrigiu Gaspode — tem saído todas as noites pra tentar abrir aquela porta na colina. Ela tentou de novo ontem à noite, depois que você foi em bora. Eu vi ela. Eu parei ela — acrescentou num tom provocador. — Não que eu espere algum reconhecim ento, claro. Tem algum a coisa horrível lá dentro, e ela está tentando deixar sair. Por isso está sem pre atrasada e cansada de m anhã. Pudera. Passando a noite toda cavando...
— Com o é que você sabe que é um a coisa horrível? — perguntou Victor, vacilante.
— Vam os dizer assim : se algum a coisa é em purrada pra dentro dum a caverna, debaixo de um a colina, atrás de portas enorm es, não é porque as pessoas querem que saia toda noite pra lavar os pratos, é? Claro — acrescentou, por caridade — que eu num tô dizendo que ela sabe que está fazendo isso. Provavelm ente estão controlando a m ente fraca e delicada de am ante de gatos fem inina dela e induzindo que ela aceite um propósito m aquiavélico.
— Você realm ente fala um m onte de besteira às vezes — com entou Victor, m as não pareceu m uito convincente nem para si m esm o.
— Pergunte a ela, então — sugeriu o cachorro, com ares de convencim ento.
— Vou perguntar! — Ótim o! "Mas com o exatam ente?", pensou Victor, enquanto se arrastavam na direção dos raios de sol. "Com licença, m oça, m eu cachorro disse que você... não. Eu digo: Ginger, fiquei sabendo que você tem saído e... não. Ei, Ginger, por que foi que o m eu cachorro viu... não. Talvez devesse puxar um a conversa esperar até que surgisse naturalm ente o tem a de m onstruosidades de Além do Infinito." Mas aquilo teria que esperar, graças à agitação que havia ali. Já haviam discutido a terceira grande parte de e O Sopro Carregou. Victor era, claro, o herói enérgico, porém perigoso. Ginger era a única escolha possível para a personagem principal fem inina, m as o segundo papel m asculino — o chato, Porém dedicado — estava causando problem as.
Victor nunca tinha visto alguém bater o pé no chão de raiva antes. Ele sem pre pensou que fosse um a coisa que só se fazia nos livros. Mas Ginger estava fazendo isso.
— Porque eu iria parecer um a idiota, por isso! — dizia.
Soll, que a essa altura se sentia um para-raios num dia de tem pestade, balançava a m ão de m odo frenético.
— Mas ele e ideal para o papel! O papel pede um a personalidade sólida...
— Sólida? E claro que ele e sólido! e feito de pedra!' — gritou Ginger. — Ele pode ter um a roupa de m alha de ferro e um bigode falso, m as não deixa de ser um troll! Rocha, surgindo com o um vulto m onolítico acim a dos dois, pigarreou ruidosam ente.
— Com licença, espero que a gente não dê um a de elem entarista nessa questão.
Agora era a vez de Ginger balançar as m ãos.
— Eu gosto dos trolls. Isto é, com o trolls. Mas você não pode estar falando Sério quando quer que eu faça um a cena rom ântica com um a... um a... um a face de penhasco.
— Olha aqui — com eçou Rocha, elevando a voz com o se ela fosse o braço de um arrem essador de beisebol. — O que você está dizendo é que... é que tudo bem um troll ser m ostrado dando surra nas pessoas com clavas, e não tudo bem m ostrar trolls tendo sentim entos m ais adm iráveis com o os hum anos m olengas? — Isso não é o que ela está dizendo, de j eito nenhum — interrom peu Soll, desesperado. — Ela não está...
— Se você m e cortar, eu não sangro? — perguntou Rocha.
— Não, não sangra — respondeu Soll —, m as...
— Ah, sim , m as eu sangraria. Se eu tivesse sangue, eu sangraria tudo isso aqui.
— E tem m ais um a coisa — com eçou um anão, cutucando o j oelho de Soll. — No roteiro está escrito que ela tem um a m ina cheia de anões felizes, sorridentes, cantando, certo? —Ah, sim — respondeu Soll, deixando o problem a do troll de lado. — O que tem isso? — E m eio estereotipado, não? Quer dizer, é m eio anões igual a m ineradores. Não sei por que a gente tem que fazer sem pre os m esm os papeis.
— Mas a m aioria dos anões é com posta por m ineradores — argum entou Soll desesperadam ente.
— Bem , pode ser, m as eles não estão satisfeitos com isso —outro anão.
— E não ficam cantando o tem po todo.
— Isso m esm o — concordou um terceiro anão. — É questão de segurança, sabe? Você pode fazer o teto inteiro cair em cim a de você se ficar cantando.
— E não tem nenhum a m ina perto de Ankh-Morpork — disse possivelm ente o prim eiro anão, em bora todos parecessem idênticos para Soll. — Todo m undo sabe disso. E tudo argila. A gente seria m otivo de riso se o nosso pessoal visse a gente trabalhando em m inas em qualquer lugar perto de Ankh-Morpork.
— Eu não diria que tenho um a face de penhasco — m urm urou Rocha, que às vezes levava um pouco de tem po para digerir as coisas. — Escarpado, talvez. Mas não de penhasco.
— O fato é que — continuou um dos anões — não entendem os por que os hum anos conseguem todos os papeis bons e a gente fica com as participações m inúsculas.
Soll deu a risadinha de alguém em apuros que espera que um a piada alegre um pouco a atm osfera.
— Ah, isso é porque vocês...
— O quê? — perguntaram os anões, em uníssono.
— Hum — disse Soll, e rapidam ente m udou de assunto. — Na verdade, a questão, do m eu ponto de vista, é que Ginger fará qualquer coisa para m anter a m ansão, a m ina e...
— Espero que a gente consiga continuar — interrom peu Gaffer —, só que eu tenho que lim par a suj eira dos diabinhos daqui a um a hora.
— Ah, entendi — disse Rocha. — Eu sou absolutam ente qualquer coisa, é? — Não se pode m anter um a m ina — continuou um dos anões. — A m ina é que m antém você. Você tira o tesouro de dentro. Você não coloca ele lá. Isso é fundam ental para todo o negócio das m inas.
— Bom , talvez j á tenham usado essa m ina — sugeriu Soll rapidam ente. — Então ela...
— Bom , nesse caso, você não m antém a m ina — disse outro anão, com um j eito expansivo de quem está prestes a dar um a explicação boa e longa. — Você tem que abandoná-la, colocando apoios e escoras onde for necessário e afundando outra coluna em alinham ento com a fenda principal...
— Deixando espaço para escarpas de im perfeições geológicas e estruturas anticlinais — Em endou outro anão.
— É claro, deixando espaço para escarpas de im perfeições geológicas e estruturas anticlinais, e depois...
— E deslocam entos gerais da crosta.
— Isso m esm o, e depois...
— A m enos que você estej a apenas talhando e preenchendo, e claro.
— Confere, m as...
— Não vej o por que — com eçou Rocha — m eu rosto poderia ser cham ado de...
— Calem A BOCA! — gritou Soll. — Todo m undo, cala a boca! Calem A BOCA! A próxim a pessoa que não calar a boca nunca m ais vai conseguir trabalho nesta cidade! entenderam ? Fui CLARO? Certo. — Ele tossiu e continuou, com a voz m ais norm al: — Muito bem . Quero que fique entendido que este é um film e Rom ântico, Em polgante e Cam peão de Bilheteria. E sobre a luta de um a m ulher para salvar o... — consultou a prancheta e prosseguiu coraj osam ente —... tudo o que ela am a, com o pano de fundo de um Mundo enlouquecido, e eu não quero que ninguém m ais cause problem as.
Um anão arriscou levantar a m ão.
— Licença? — Pois não? — Por que é que todos os film es do senhor Dibbler se passam com o pano de fundo de um m undo enlouquecido? Soll apertou os olhos.
— Porque o senhor Dibbler — resm ungou — é um hom em m uito observador.
Dibbler tinha razão. A cidade nova era a cidade antiga refinada. Os becos estreitos eram m ais estreitos, os prédios altos, m ais altos. As carrancas de goteira eram m ais assustadoras, os telhados, m ais pontudos. A altíssim a Torre da Arte da Universidade Invisível era, aqui, ainda m ais alta e se elevava de form a m ais precária, ainda que ao m esm o tem po tivesse apenas um quarto do tam anho da outra. A Universidade Invisível era m ais barroca e tinha m ais pilastras de apoio. O Palácio do Patrício tinha m ais pilares. Os carpinteiros fervilhavam num a construção que, quando term inasse, faria Ankh-Morpork parecer um a cópia bastante razoável de si m esm a, exceto pelo fato de os prédios da cidade original não serem , de m odo geral, pintados em telas estendidas sobre m adeira e de sua suj eira não ter sido borrifada neles de form a cuidadosa.
Os prédios de Ankh-Morpork tinham que arrum ar sua suj eira sem a aj uda de ninguém .
ela se parecia m uito m ais com Ankh-Morpork do que Ankh-Morpork j am ais se pareceu.
Ginger foi conduzida às tendas para se trocar antes que Victor tivesse a chance de falar com ela. Depois as tom adas de cena com eçaram , e era tarde dem ais.
A Século do Morcego-de-Frutas (e agora estava escrito na placa, em letras um pouco m enores: Mais estrelas do que Há nos Céus) acreditava que um clique deveria ser feito em m enos de dez vezes o tem po necessário para assisti-lo. Mas O Sopro Carregou seria diferente. Havia batalhas. Havia cenas noturnas, com os diabretes pintando furiosam ente à luz das tochas. Os anões trabalhavam felizes num a m ina nunca antes vista, onde falsas pepitas de ouro do tam anho de um a galinha tinham sido fixadas em paredes de gesso. Com o Soll disse que tinham que ver seus lábios m exendo, cantaram um a versão picante da canção "eu vou", que fazia bastante sucesso entre a população de anões de Holy Wood. Era bem possível que Soll soubesse com o tudo se encaixaria. Victor não sabia. Era sem pre m elhor, ele havia aprendido, nunca tentar seguir o enredo de nenhum clique de que estivesse participando e, de todo m odo, Soll não film ava apenas de trás para a frente, m as das beiras para o centro tam bém . Era totalm ente confuso, assim com o a vida real.
Quando finalm ente conseguiu um a chance de falar com Ginger, dois operadores de m anivela e todas as pessoas do elenco que não tinham nada para fazer naquele m om ento estavam olhando para eles.
— Ok, pessoal — disse Soll. — Esta é a cena, perto do final, em que Victor encontra Ginger depois de tudo o que passaram j untos, e no cartaz ele vai dizer... — Ele ficou olhando fixam ente para o retângulo grande e preto que lhe entregaram . — Sim , ele vai dizer: "Francam ente, m inha querida, eu daria qualquer coisa, 23.049.873, de acordo com o enum erador Celestial autom ático de Riktor, por um a daquelas... costelas... de porco... de prim eira... com ... m olho... curry... especial..." A voz de Soll foi ficando m ais lenta até parar. Quando aspirou o ar, foi com o um a baleia vindo à tona.
— Quem escreveu ISTO? Um dos artistas levantou a m ão com cautela.
— O senhor Dibbler m andou — respondeu rapidam ente.
Soll folheou a grande pilha de cartazes que representavam o diálogo de um a boa parte do clique. Ele contraiu os lábios. Acenou com a cabeça para um a das pessoas com prancheta e disse: — Você poderia correr até o escritório e pedir para o m eu tio dar um pulinho aqui se ele tiver um m inuto? Soll tirou um cartaz da pilha e leu: — “Com certeza vou sentir falta da velha m ina, m as, para provar um a com ida caseira de verdade, eu sem pre... vou... à... Casa... de... Harga." Entendi. Ele pegou m ais um a de m odo aleatório.
— Ah, estou vendo aqui que as últim as palavras de um soldado m onarquista ferido são: "O que eu não daria, neste exato m om ento, por um a prom oção especial Com a Até Doer por um dólar na... Casa... das... Costelas... de Harga... Mãe!" — Eu acho m uito com ovente — disse Dibbler atrás dele. — Não vai ter um olho seco na plateia, você vai ver.
— Tio... — com eçou Soll.
Dibbler levantou as m ãos.
— Eu disse que conseguiria o dinheiro de algum a form a, e Sam Harga está até nos aj udando com a com ida para a cena do churrasco.
— Você disse que não iria interferir no roteiro! — Isso não é interferir — disse Dibbler, im passível. — Não vej o com o isso pode ser considerado interferência. Eu só dei um a arrem atada aqui e ali. Acho que, na verdade, é um a m elhora. Além disso, a prom oção Tudo o Que Você Puder engolir Por Um Dólar do Harga tem um a im portância im pressionante hoj e em dia.
— Mas o clique se passa centenas de anos atrás! — gritou Soll.
— Beeem . Acho que alguém pode dizer: "Será que a com ida da Casa das Costelas de Harga ainda será tão boa daqui a centenas de anos?..." — Isso não é um a im agem anim ada. E com ércio grosseiro! — Espero que sim . Estarem os em verdadeiros apuros se não for.
— Olha aqui... — com eçou Soll, num tom am eaçador.
Ginger se virou para Victor.
— Podem os ir a algum lugar para conversar? — Ela disse num tom reservado. — Sem o seu cachorro — acrescentou com sua voz norm al. — Definitivam ente sem o seu cachorro.
— Você quer falar com igo? — perguntou Victor.
— Não tivem os m uita chance, né? — Certo.
Certam ente.
Gaspode. Bom cachorro. — Victor sentiu um a satisfação silenciosa ao ver o breve olhar de puro ódio no rosto de Gaspode. Atrás deles, a eterna discussão de Holy Wood havia evoluído rapidam ente, com Soll e C.A.P.C. Encostando nariz com nariz e brigando dentro de um círculo de funcionários interessados e entretidos.
— Eu não sou obrigado a tolerar isso, sabe! Posso pedir dem issão! — Não, não pode! Você é m eu sobrinho! Não pode se dem itir de ser sobrinho de alguém ...! Victor e Ginger se sentaram nos degraus de um a m ansão de tela e m adeira. Eles tinham privacidade total. Ninguém se incom odaria em olhar para eles com um a briga vigorosa acontecendo a alguns m etros dali.
— E... — com eçou Ginger, entrelaçando os dedos. Victor não pôde deixar de notar que suas unhas estavam gastas.
— E... — Ela disse novam ente. Seu rosto era o retrato da angústia e estava pálido sob a m aquiagem . "Ela não e bonita", Victor se pegou pensando, m as você poderia ter m uita dificuldade para acreditar nisso.
— Eu... não sei com o dizer isso, m as... alguém viu andando você enquanto dorm ia... até a colina? A cabeça dela virou rápido com o um a cobra.
— Você sabe? Com o é que você sabe? Você anda m e espionando? — perguntou com rispidez. Era a velha Ginger novam ente, cheia de fogo, veneno e agressividade paranoica.
— Laddie a encontrou... dorm indo ontem à tarde — com eçou Victor, afastando-se dela.
— Durante o dia? — Sim . Ela pôs as m ãos sobre a boca.
— E pior do que eu pensava — sussurrou. — Está ficando pior! Sabe quando você m e encontrou lá na colina? Um pouco antes de Dibbler nos achar e pensar que estávam os... nam orando — Ela corou. — Bom , eu não sabia nem com o tinha ido parar lá! — E você voltou ontem à noite.
— O cachorro contou pra você, foi? — Ela disse, com ar de idiota.
— Sim . Desculpe.
— Agora é toda noite — lam entou-se Ginger. — Eu sei porque, m esm o quando eu volto para a cam a, tem areia por todo o chão, e as m inhas unhas estão quebradas! Eu vou para lá todas as noites e não sei por quê! — Você está tentando abrir a porta. Tem um a porta grande e antiga onde um a parte da colina foi deslizando e...
— Sim , eu j á vi, m as por quê? — Bom , eu tenho algum as ideias — disse Victor, cauteloso.
— Conte! — Hum . Bem , você j á ouviu falar num a coisa cham ada genius? — Não. — Ela franziu a testa. — É inteligente? — É tipo a alm a de um lugar. Ela pode ser m uito forte. Pode ficar forte por m eio de adoração, am or ou ódio se durar por tem po suficiente. Eu queria saber se o espírito de um lugar pode cham ar as pessoas. E anim ais tam bém . Quer dizer, Holy Wood é um lugar diferente, não é? As pessoas agem de m aneira diferente por aqui. Em qualquer outro lugar, as coisas m ais im portantes são deuses, dinheiro ou gado. Aqui a coisa m ais im portante é ser im portante.
Ela prestava total atenção nele.
— E daí? — disse, num tom encoraj ador. — Até agora não parece tão ruim .
— Vou chegar à parte ruim .
—Oh.
Victor engoliu em seco. Seu cérebro borbulhava com o um caldo de carne. Fatos lem brados de form a incom pleta vinham à tona de form a excitante e afundavam novam ente. Velhos professores severos em salas velhas e agitadas disseram a ele coisas velhas e chatas que eram , no m om ento, tão urgentes quanto um a faca, e ele tentava pescá-las desesperadam ente.
— Eu não tenho... — com eçou, em voz baixa. E pigarreou. — Não tenho certeza se está certo — conseguiu dizer. — Vem de um outro lugar. Isso pode acontecer. Já ouviu falar de ideias que esperam a sua hora? — Sim .
— Bom , essas são as m ansas. Existem outras. Ideias tão cheias de vigor que nem esperam sua hora chegar. Ideias selvagens. Ideias que escapam . E o problem a é que, quando acontece algo assim , você fica com um buraco... Ele olhou para a expressão educada e pasm ada dela. As analogias borbulhavam na superfície com o crótons em papados. Im agine que todos os m undos que j á existiram estej am de algum a form a prensados com o um sanduíche... um baralho... um livro... um papel dobrado... nas condições certas, as coisas podem passar através, em vez de passarem ao lado... m as, se abrirem um portão entre m undos, há perigos terríveis, com o...
Com o...
Com o...
Com o o quê? A resposta veio à tona na sua m em ória com o o pedaço de tentáculo suspeito que e descoberto de repente no exato m om ento em que você decidiu que era seguro com er a paella.
— Pode ser que algum a outra coisa estej a querendo passar pelo m esm o cam inho — arriscou. — No... ãh... lugar nenhum em m eio aos lugares existem criaturas que, no conj unto, eu preferia não descrever para você.
— Já descreveu — disse Ginger com um a voz tensa.
— É.. ãh... Elas geralm ente são bastante ávidas para entrar nos m undos reais e talvez estej am de algum m odo fazendo contato enquanto você dorm e e... — Ele desistiu. Não conseguia m ais suportar a expressão dela. — Eu poderia estar totalm ente errado.
— Você tem que m e im pedir de abrir aquela porta — Ela sussurrou. — Eu poderia ser um Deles.
— Ah, acho que não — disse Victor, num tom im ponente. — Eles geralm ente têm braços dem ais, acho.
— Tentei colocar tachinhas no chão para m e acordar.
— Que coisa horrível. Funcionou? — Não. Na m anhã seguinte, estavam todas no saco de novo. Devo ter recolhido.
Victor franziu os lábios.
— Isso pode ser um bom sinal.
— Por quê? — Se você tivesse sido cham ada por... ãh... coisas desagradáveis, acho que elas não se im portariam se você pisasse nas tachinhas.
—Urgh.
— Você não tem nenhum a suspeita do porquê de tudo isso estar acontecendo, tem ? — perguntou Victor.
— Não! Mas eu sem pre tenho o m esm o sonho. — Ela apertou os olhos. — Ei, com o é que você sabe todas essas coisas? — Eu... um m ago m e contou um a vez.
— Você não é m ago? — Claro que não. Não tem nenhum m ago em Holy Wood. E esse sonho? — Ah, é estranho dem ais para ter algum significado. Mesm o assim , eu sonhava com isso quando ainda era pequena. Com eça com um a m ontanha, só que não é um a m ontanha norm al porque...
Detritus, o troll, foi surgindo aos poucos acim a deles.
— O j ovem senhor Dibbler está dizendo que é hora de recom eçar as tom adas — disse com voz grossa.
— Você pode ir até o m eu quarto hoj e à noite? — sussurrou Ginger. — Por favor? Você pode m e acordar se eu com eçar a andar dorm indo de novo.
— Bem ... é... sim , m as a dona da pensão pode não gostar... — com eçou Victor.
— Ah, a senhora Cosm opilite tem um a m ente m uito aberta.
— Tem ? — Ela só vai achar que estam os fazendo sexo.
— Ah — disse Victor, sem sinceridade. — Está bom , então.
— O j ovem senhor Dibbler não gosta de ficar esperando —insistiu Detritus.
— Ah, cala a boca — disse Ginger. Ela se levantou e tirou a poeira do vestido. Detritus ficou surpreso. As pessoas norm alm ente não o m andavam calar a boca. Algum as linhas-fendas de preocupação apareceram em sua testa. Ele se virou e tentou m ais um aparecim ento gradual, desta vez para Victor.
— O j ovem senhor Dibbler não gosta...
— Ah, sai daqui — disse Victor, irritado, e foi andando atrás dela. Detritus ficou parado sozinho e apertou os olhos num esforço para pensar. É claro que, de vez em quando, as pessoas diziam coisas com o "Sai daqui" e "Cala a boca" para ele, m as sem pre com o trem or da intim idação apavorada na voz, e de m odo m uito natural ele sem pre revidava com um "hur, hur" e batia nelas. Mas ninguém j am ais havia falado com ele com o se sua existência fosse a últim a coisa do m undo com a qual poderiam ser persuadidos a se preocupar. Seus om bros enorm es ficaram caídos. Talvez toda essa coisa de passar o tem po com Ruby estivesse fazendo m al a ele.
Soll estava de pé atrás do artista que escrevia os cartazes. Ele ergueu a cabeça quando Victor e Ginger se aproxim aram .
— Certo. Aos seus lugares, pessoal. Vam os direto para a cena do salão de baile. — Ele parecia satisfeito consigo m esm o.
— As palavras j á foram todas arrum adas? — perguntou Victor.
— Sem problem as — disse Soll, orgulhoso. Ele olhou rápido para o Sol. — Perdem os m uito tem po — acrescentou —, então não vam os perder m ais.
— Quem diria que você seria capaz de fazer C.A.P.C. ceder desse j eito — com entou Victor.
— Ele não tinha absolutam ente nenhum argum ento. Voltou para o escritório para se lam entar, im agino — disse Soll num tom im ponente. — Ok, pessoal, vam os todos voltar...
O artista que fazia as letras o puxou pela m anga.
— Eu estava pensando em perguntar, senhor Soll, o que o senhor queria que eu colocasse na grande cena agora que Victor não m enciona m ais as costelas...
— Não m e aborreça agora, hom em ! — Mas se o senhor pudesse pelo m enos m e dar um a ideia...
Soll soltou a m ão do hom em da sua m anga com firm eza.
— Francam ente eu não ligo a m ínim a — E saiu andando a passos largos até o cenário.
O artista foi deixado sozinho. Ele pegou o pincel. Seus lábios se m overam em silêncio, m oldando-se ao redor das palavras. Depois ele disse: — Hum m .
Ótim o.
Banana N'Vectif, o caçador m ais habilidoso dos grandes prados am arelos de Klatch, prendeu a respiração ao colocar, com a pinça, o últim o pedaço no lugar. A chuva tam borilava no telhado da sua cabana.
Pronto. Era isso.
Ele nunca tinha feito nada assim antes, m as sabia que estava fazendo o certo.
Na sua época, prendia tudo nas suas arm adilhas, de zebras a thargas, e o que ele tinha para m ostrar? Mas ontem , quando foi levar um carregam ento de peles para N'kouf, ouviu um com erciante dizer que, se algum hom em chegasse a construir um a ratoeira m ais eficaz, o m undo correria em peso para sua porta. Ele ficou acordado a noite toda pensando nisso. Então, na prim eira luz do am anhecer, rabiscou alguns proj etos com um graveto na parede da cabana e foi trabalhar. Aproveitara para ver algum as ratoeiras enquanto estava na cidade, e elas definitivam ente estavam longe da perfeição. Não tinham sido construídas por caçadores.
Pegou um galho fino e o em purrou lentam ente para dentro do m ecanism o. Snap.
Perfeito.
Agora tudo o que ele tinha a fazer era levá-la para N'kouf e ver se o m ercador...
A chuva estava m uito forte m esm o. Na verdade, soava m ais com o... Quando Banana acordou, estava deitado entre as ruínas da sua cabana, e elas estavam num a faixa de um quilôm etro de largura de lam a pisoteada. Ele olhou com a vista em baçada para o que restara de sua casa. Olhou para a m ancha m arrom que se estendia de horizonte a horizonte. Olhou para a nuvem escura e desarrum ada, visível apenas num a de suas pontas. Depois olhou para baixo. A ratoeira m ais eficaz se tornara um proj eto bidim ensional bastante interessante, esm agada no m eio de um a enorm e pegada. Ele disse: — Eu não sabia que ela era tão boa.
De acordo com os livros de história, a batalha decisiva que pôs fim à Guerra Civil de Ankh-Morpork foi travada entre dois punhados de hom ens estropiados num pântano num a m anha nebulosa e, em bora um dos lados reivindique a vitória, term inou com um placar sim ples de Hum anos 0, corvos 1.000, que é o que ocorre na m aioria das batalhas.
Um a coisa sobre a qual am bos os Dibblers concordavam era que, se estivessem no com ando, ninguém teria sido capaz de ir até o fim com um a guerra tão sim plória. Era um crim e que alguém encenasse um m om ento crucial da história da cidade sem usar m ilhares de pessoas e cam elos, trincheiras, fortificações, cercos, catapultas, cavalos e estandartes.
— E num a m aldita neblina tam bém — disse Gaffer. — Não querem nem saber de níveis de lum inosidade.
Ele inspecionou o cam po de batalha proposto, protegendo do sol os olhos com a m ão. Haveria 11 operadores de m anivela trabalhando desta vez, de todos os ângulos concebíveis. Um por um , levantaram o polegar.
Gaffer deu um tapa na caixa de im agens à sua frente.
— Prontos, rapazes? Houve um coro de xingam entos.
— Bons rapazes. Acertem esta e podereis ganhar um lagarto extra para vosso chá.
Ele segurou a m anivela com um a das m ãos e pegou um m egafone com a outra.
— Quando quiser, senhor Dibbler! — gritou.
C.A.P.C. acenou com a cabeça e estava prestes a levantar a m ão quando Soll estendeu o braço rapidam ente e a segurou. O sobrinho olhava atentam ente para as fileiras alinhadas de cavaleiros.
— Só um m om ento — disse com firm eza. Depois pôs as m ãos em form a de concha e ergueu a voz para gritar. — Ei, você aí! Décim o quinto cavaleiro da frente para trás. E, você! Poderia esticar o seu estandarte, por favor? Obrigado. Poderia pedir um novo para a senhora Cosm opilite? Obrigado. Soll se voltou para o tio com as sobrancelhas arqueadas.
— Aquilo é... é um desenho heráldico — disse Dibbler rapidam ente.
— Costelas m agras com um a cruz num m anto de alface? — Muito apaixonados por sua com ida, aqueles cavaleiros...
— É gostei da divisa — disse Soll. — "Todo cavaleiro que se preze leva a sua dam a para a Noite Gourm et Na Casa das Costelas de Harga." Se tivéssem os som , qual seria o grito de batalha dele, eu m e pergunto.
— Você tem o m esm o sangue que eu — com eçou Dibbler, balançando a cabeça. — Com o é que pode fazer isso com igo? — Porque tenho o m esm o sangue que você.
Dibbler se anim ou. É claro, quando se via a coisa desse ângulo, não parecia tão ruim .
Isso é Holy Wood. Para que o tem po passe rápido, é só film ar os ponteiros do relógio se m exendo rápido...
Na Universidade Invisível, o resógrafo j á está registrando sete plibs por m inuto.
E, perto do fim da tarde, eles botaram fogo em Ankh-Morpork. A cidade real havia sido incendiada m uitas vezes na sua longa história — por vingança, descuido, ódio ou até m esm o só pelo seguro. A m aioria dos grandes prédios de pedra que realm ente faziam dela um a cidade, em oposição a um m onte de choupanas no m esm o lugar, sobreviveu aos incêndios intacta, e m uitas pessoas (Pelo menos as que moravam em prédios de pedra.) achavam que um bom incêndio a cada 100 anos ou m ais era essencial para a saúde da cidade, um a vez que aj udava no controle de ratos, baratas, pulgas e, é claro, das pessoas que não eram suficientem ente ricas para m orar em casas de pedra. O fam oso incêndio durante a Guerra Civil tinha sido digno de nota sim plesm ente porque fora provocado pelos dois lados ao m esm o tem po, com o obj etivo de im pedir que a cidade caísse nas m ãos do inim igo. Por outro lado, de acordo com os livros de história, ele não foi m uito im pressionante. O nível do Ankh estava particularm ente alto naquele verão, e a m aior parte da cidade estava úm ida dem ais para pegar fogo. Desta vez foi m uito m elhor.
As cham as se expandiam pelo céu. Com o se tratava de Holy Wood, tudo pegou fogo, porque a única diferença entre os prédios de pedra e os prédios de m adeira era o que estava pintado nas telas. A Universidade Invisível bidim ensional pegou fogo. O palácio sem fundos do Patrício pegou fogo. Até o m odelo em escala da Torre de Arte expeliu cham as que pareciam fogos de artifício. Dibbler assistia preocupado.
Depois de algum tem po, Soll, atrás dele, disse: — Esperando algum a coisa, tio? — Hum m ? Ah, não. Espero que Gaffer estej a se concentrando na torre, só isso — disse Dibbler. — Marco sim bólico m uito im portante. --Certam ente — concordou Soll. — Muito im portante. Tão im portante, na verdade, que m andei alguns rapazes até lá no intervalo do alm oço só para verificar se estava tudo ok.
— Mandou? — perguntou Dibbler, sentindo-se acuado.
— Sim . E sabe o que descobriram ? Descobriram que alguém havia pregado fogos de artifício do lado de fora. Montes e m ontes de fogos de artifício com detonadores. Ainda bem que descobriram porque, se as coisas tivessem estourado, teriam arruinado a tom ada e nunca seríam os capaz de fazê-la de novo. E você sabia que eles disseram que parecia que os fogos iam escrever palavras no céu? — acrescentou Soll.
— Que palavras? — Nem passou pela m inha cabeça perguntar a eles. Nem passou pela m inha cabeça.
Ele enfiou as m ãos no bolso e com eçou a assobiar baixinho. Depois de algum tem po, olhou enviesado para o tio.
— “As costelas m ais quentes da cidade" — m urm urou. — Francam ente! Dibbler ficou m al-hum orado.
— Teria provocado um a boa risada pelo m enos.
— Olha, tio, isso não pode continuar. Chega dessas patacoadas com erciais, está bem ? — Ah, está bem .
— Tem certeza? Dibbler confirm ou com a cabeça.
— Eu disse está bem , não disse? — Quero um pouco m ais que isso, tio.
— Eu j uro solenem ente não m e introm eter m ais, de nenhum a form a, no clique — disse Dibbler num tom grave. — Sou seu tio. Sou da fam ília. Assim está bom o suficiente para você? — Certo. Está bem .
Quando o fogo dim inuiu, eles j untaram as brasas com ancinhos para fazer um churrasco na festa do fim das tom adas, sob as estrelas.
O lençol de veludo da noite cobre a gaiola de papagaio que é Holy Wood, e em noites quentes com o esta há m uitas pessoas com assuntos pessoais para resolver.
Um casal de j ovens, passeando de m ãos dadas pelas dunas, ficou assustado a ponto de quase ficar inconsciente quando um troll enorm e pulou na sua frente, saindo de trás de um a rocha, balançando os braços e gritando: "Aaaargh!" — Assustei vocês, foi? — perguntou Detritus, esperançoso. Eles confirm aram balançando a cabeça, pálidos.