A Magia de Holy Wood
Agradecimentos
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
— O seu Dibbler quer falar — com eçou, esticando o braço por cim a do balcão, levantando o anão pela cam isa incrustada de com ida e deixando-o pendurado diante de Cova.
— Alguém viu Victor Tugelbend? — perguntou Cova. — Ou aquela m enina, a Ginger? Fruntkin abriu a boca para xingar e pensou m elhor.
— O garoto esteve aqui um a hora atrás — disse com a voz esganiçada. — Ginger trabalha aqui de m anhã. Não sei aonde ela vai depois.
— Aonde o Victor foi? — perguntou Cova. Ele tirou do bolso um saco que tilintava. Os olhos de Fruntkin giraram na direção do saco com o se fossem rolam entos de aço, é ele, um ím ã poderoso.
— Num sei, senhor Cova. Ele foi em bora de novo quando viu que ela não estava aqui.
— Certo. Bom , se você encontrá-lo novam ente, diga que estou procurando por ele e que vou fazer dele um astro, certo?
— Astro. Certo.
Cova pôs a m ão na sua sacola de dinheiro e tirou um a nota de dez dólares.
— E eu quero pedir j antar para m ais tarde — acrescentou.
— Jantar. Certo — concordou Fruntkin com a voz trêm ula.
— Bife com pitus, acho. E um a opção de verduras douradas da estação... E depois m orangos com crem e.
Fruntkin encarou-o com os olhos arregalados. — E... — com eçou. Detritus deu um peteleco no anão que o fez balançar para a frente e para trás.
— E eu vô querer... é... um basalto bem tem perado com um acom panham ento de conglom erados de arenito recém -arrancados. Certo? — É...
Sim .
— Põe ele no chão, Detritus. Ele não quer ficar pendurado — ordenou Cova. — E devagar. — Ele olhou para os rostos fascinados ao redor.
— Lem brem -se, estou procurando Victor Tugelbend e vou fazer dele um astro. Se alguém encontrá-lo, tem que dizer isso. Ah, e o m eu bife é m al passado, Fruntkin.
Ele andou com passos largos até a porta. Depois que foi em bora, a falação voltou a fluir com o um a m aré.
— Fazer dele um astro? Pra que ele vai servir? — Eu não sabia que dava para fazer um astro... achava que eles ficassem assim , sabe, presos no céu...
— Acho que ele quis dizer fazer dele um astro. Sabe, ele, ele m esm o. Transform ar ele num astro.
— Com o é que se pode transform ar alguém em astro? — Sei lá. Acho que você com prim e bem a pessoa, e ela explode em form a de um a m assa de hidrogênio em cham as...
— Nossa m ãe! — É! Aquele troll é m alvado m esm o.
Victor olhou bem para o cachorro.
Não era possível que tivesse falado com ele. Devia ter sido a sua im aginação. Mas ele havia dito o seu sobrenom e, não havia? — Qual será o seu nom e? — disse Victor, afagando sua cabeça.
— Gaspode — respondeu Gaspode.
A m ão de Victor congelou no m eio do afago.
— Doicentavo — pediu o cachorro, vacilante. — Único cachorro que toca gaita no m undo. Doicentavo.
"É o sol", pensou Victor. "Eu não tenho usado chapéu. Daqui a um m inuto vou acordar e sentir os lençóis fresquinhos." — Bom , você não tocou m uito bem . Não consegui reconhecer a m elodia — reclam ou, esticando os lábios num sorriso horrível.
— Cê num tem que reconhecer a m aldita m elodia — protestou Gaspode, sentando-se com todo o seu peso e concentrando-se em cocar a orelha com a pata traseira. — Eu sou um cachorro. Cê tinha que ficar m uito im pressionado com o fato deu conseguir tirar um m aldito guincho deste troço.
"Com o eu devo dizer?", pensou Victor. "Digo sim plesm ente: desculpe, m as parece que você está fal... Não, m elhor não." — E... — com eçou. "ei, você e bastante tagarela para um ... não." — Pulgas — com entou Gaspode, m udando de pata e de orelha. — Tão m e perturbando.
— Ai, não.
— É esses trolls todos. Não suporto eles. Têm um cheiro m uito esquisito. Malditas pedras am bulantes. Cê tenta m order eles e, quando vê, tá cuspindo um dente. Não é norm al.
"Por falar em norm al, não posso deixar de notar que..." — Maldito deserto, este lugar — continuou Gaspode.
"Você é um cachorro falante." — Im agino que você tá se perguntando — disse Gaspode, voltando o seu olhar penetrante para Victor m ais um a vez — com o é que eu posso tá falando.
— Nem pensei nisso.
— Nem eu. Até um as duas sem anas atrás. Na m inha vida toda nunca disse um a m aldita palavra. Trabalhava prum suj eito lá na cidade. Truques e tal. Equilibrava a bola no focinho. Andava com as patas de trás. Pulava no m eio do laço. Carregava o chapéu na boca no m eio das pessoas. Sabe com o e. Show business. Aí um a m ulher passa a m ão na m inha cabeça e diz: "Ai, que gracinha de cachorrinho, parece que entende tudo o que a gente fala". E eu penso: "Ho, ho, nem m e preocupo m ais em m e esforçar pra isso, m oça". Foi aí que percebi que eu entendo as palavras, e elas saem pela m inha própria boca. Aí eu peguei o chapéu e o peguei com as m inhas patas bem rapidinho, enquanto eles ainda tavam olhando adm irados.
— Por quê? Gaspode revirou os olhos.
— Que vida cê acha que vai ter um autêntico cachorro falante? Não devia ter aberto a droga da boca.
— Mas você está falando com igo.
Gaspode lançou um olhar dissim ulado, olhando de rabo de olho.
— É, m as tenta contar pra todo m undo pra ver. De todo m odo, cê é legal. Cê tem aquele j eito. Eu percebo a um quilôm etro.
— Que diabos você está querendo dizer? — Cê acha que não consegue se reconhecer, certo? — disse o cachorro. — Cê j á teve aquela sensação de que algum a outra coisa tá pensando por você?
— Nossa.
— Te deixa com um j eito m eio cism ado — prosseguiu Gaspode. Ele pegou o chapéu com a boca. — Doicentavo — disse, num tom vago. — Quer dizer, não que eu conheça algum j eito de gastar isso, m as... doicentavo. — Ele deu um a encolhida de om bros canina.
— O que você quer dizer com j eito cism ado?
— Cês todos têm esse j eito. Do tipo "m uitos são cham ados e poucos são escolhidos".
— Que j eito? — Com o se tivesse sido cham ado pra vir aqui e não sabe por quê. — Gaspode tentou cocar a orelha novam ente. — Vi cê fazendo Cohen, o Bárbaro.
— E... o que você achou? — perguntou Victor.
— Eu acho que, desde que o velho Cohen nunca fique sabendo, você está seguro.
— Eu disse: há quanto tem po ele esteve aqui? — gritou Dibbler. Num palco m inúsculo, Ruby cantava algum a coisa com um a voz m elosa que lem brava um navio num a neblina espessa e com problem as sérios.
— GrooOOoivwonnogghrhhooOOo. (LEGENDA: "Maizuma vez tô apaxonada (lit., sentindo a sensação agradável de ser atingida com uma pedra na cabeça por Chondrodite, o deus troll do amor)". Nota: Chondrodite não deve ser confundido com Gigalite, o deus troll que dá sabedoria aos trolls acertando-os com uma pedra na cabeça, ou Silícaro, o deus troll que dá sorte aos trollsacertando-os com uma pedra na cabeça, ou com o herói folclórico Monólito, que foi o primeiro a deturpar o significado do segredo das pedras dos deuses.)
— Ele acabou de sair! — berrou Rocha. — Estou tentando ouvir esta m úsica, está bem ?
— ... OowoowgrhhffrghooOOo... (LEGENDA: "Por que e que eu tô azul agora?")
Cava-A-Própria-Cova cutucou Detritus, que havia se sentado para tirar o peso dos nós dos dedos e assistia à apresentação de boca aberta. A vida do velho troll havia sido, até o m om ento, bastante sim ples e direta. As pessoas pagavam , e ele batia em outras pessoas.
Agora ela estava com eçando a ficar com plicada. Ruby havia piscado para ele.
Em oções estranhas e desconhecidas se agitavam no coração surrado de Detritus.
— ... groooOOOooohoofooOOoo.. (LEGENDA: "Que atitude devo tomar nesta hora?")
— Vam os — gritou Cova.
Detritus ficou de pé com dificuldade deu o últim o olhar dem orado na direção do palco.
— ... ooOOgooOOm oo. (LEGENDA: "... não posso evitar.) OOhhbooo. (Alô, garotão".)
Ruby soprou um beij o para ele. Detritus ficou da cor da granada recém -extraída.
Gaspode liderou o cam inho para fora do beco e pela região afastada e escura de arbustos atrofiados e areia de praia que havia por trás da cidade.
— Definitivam ente tem algo de errado com este lugar — m urm urou.
— É diferente — disse Victor. — Com o assim , errado? Gaspode deu a im pressão de que ia cuspir.
— Olha, vej a eu, por exem plo — com eçou, ignorando a interrupção. — Um cachorro. Nunca sonhei com nada na vida a não ser correr atrás das coisas. E sexo, é claro. De repente, com ecei a ter esses sonhos. Em cores. Fiquei apavorado. Nunca tinha visto cores antes, certo? Os cachorros vêem em preto-e-branco, com o cê deve saber, j á que é um grande leitor. O verm elho é um m aldito choque, vou te contar. Cê acha que o seu j antar e só aquele osso branco com tons de cinza, de repente, cê descobre que há anos tem com ido essa coisa m edonha verm elha e roxa.
— Que tipo de sonho? — perguntou Victor.
— É em baraçoso pra caram ba. Tipo, num deles tem um a ponte que foi levada pelas águas, e eu tenho que correr e dar um alerta latindo, sabe? e tem outro em que um a casa está pegando fogo, e eu arrasto um as crianças para fora. E tem um em que um as crianças estão perdidas num as cavernas, e eu acho elas e guio as pessoas que tão procurando elas até onde elas tão... E eu odeio crianças.
Parece que ultim am ente não consigo descansar a cabeça sem resgatar ou salvar pessoas, ou despistar assaltantes e coisas assim . Poxa, eu tenho sete anos, calo nas patas, descam ação na pele, pulgas a dar com pau. Não preciso ser herói toda vez que vou dorm ir.
— Nossa. A vida não é interessante quando você a enxerga pelos olhos de outra pessoa...? Gaspode virou o olhar coraj oso na direção do céu.
— Ê. Aonde estam os indo? — perguntou Victor.
— Nós vam os falar com um pessoal de Holy Wood. Porque tem algum a coisa esquisita acontecendo.
— No alto da colina? Não sabia que havia pessoas na colina.
— Não são pessoas.
Um a pequena fogueira de gravetos queim ava no declive da Colina de Holy Wood. Victor a acendera porque... bem ... porque era reconfortante. Porque era o tipo de coisa que os hum anos faziam .
Ele sentiu necessidade de lem brar que era hum ano e que provavelm ente não estava louco.
Não que ele estivesse falando com um cachorro. As pessoas costum am falar com cachorros. A m esm a coisa se aplicava a gatos. E talvez até a coelhos. A conversa com ratos e patos é que deveria ser considerada estranha.
— Você acha que nós queríam os falar? — perguntou o coelho num tom brusco. — Num m inuto sou apenas m ais um coelho, e contente com isso; no m inuto seguinte, shazaam , estou pensando. Isso é um a grande desvantagem pra quem quer ser feliz com o coelho, pra dizer a verdade. A gente quer gram a e sexo, e não pensam entos do tipo "O que é que realm ente im porta quando chega a hora da verdade?" — É, m as pelo m enos cês com e gram a — com entou Gaspode. — A gram a não responde quando cês fala. A últim a coisa que cê precisa quando tá com fom e e de um m aldito enigm a ético no prato.
— Vocês acham que eshtão com problem as? — disse o gato, aparentem ente lendo a m ente dele. — Eu eshtou lim itado a com er peixe. Quando você põe a pata em cim a do j antar e ele grita "Socorro!", você eshtá em m aus lençóis.
Houve um silêncio. Eles olharam para Victor. Inclusive o rato. E o pato. O pato parecia especialm ente hostil. Provavelm ente tinha ouvido falar em m olho de laranj a.
— É. Vej a a gente — com eçou o rato. — Estou sendo perseguido por isto — Ele apontou para o gato, crescendo diante dele — por toda a cozinha. Arranha, arranha, gritos, pânico. Aí a m inha cabeça faz um ruído borbulhante, e eu vej o um a frigideira. Entenderam ? Um segundo atrás, eu nem sabia o que era fritar. Agora eu seguro o cabo, o gato aparece no canto da parede, bang. Aí ele sai cam baleando e perguntando: "O que foi que m e atingiu?". E eu digo: "eu". Foi quando nós dois percebem os. Estam os falando.
— Consheitualisando — corrigiu o gato. Era um gato preto, com patas brancas, orelhas que pareciam alvos de espingarda e a expressão assustada de quem j á perdeu seis vidas.
— Conta pra ele, garoto — disse o rato.
— Conta o que cê fez depois — insistiu Gaspode.
— Viem os pra cá — disse o gato.
— De Ankh-Morpork? — perguntou Victor.
— É.
— São quase 50 quilôm etros! — É, e vai por m im — continuou o gato —, é duro pedir carona quando você e um gato.
— Tá vendo ? — disse Gaspode. — Tá acontecendo o tem po todo. Todo tipo de coisa tá vindo pra Holy Wood. Eles não sabem por que vieram , só que é im portante estar aqui. E não agem assim em nenhum outro lugar do m undo. Tenho observado. Algo esquisito tá acontecendo.
O pato grasnou. Havia palavras ali, em algum lugar, m as tão m utiladas pela incom patibilidade do bico e da laringe que Victor não conseguiu entender nada. Os anim ais prestaram atenção nele por solidariedade.
— Com o é, Pato? — perguntou o coelho.
— O pato tá dizendo — traduziu Gaspode — que é com o um a coisa m igratória. O m esm o sentim ento da m igração.
— É? eu não tive que vir de longe — inform ou o coelho. — A gente m orava nas dunas m esm o. — Ele suspirou. — Durante três anos felizes e quatro dias terríveis — acrescentou.
Um pensam ento ocorreu a Victor.
— Então você sabe sobre o velho da praia? — Ah, ele. Sim . Ele. Ele sem pre vinha aqui pra cim a.
— Que tipo de pessoa era ele? — Olha, m eu filho, até quatro dias atrás, eu tinha um vocabulário que consistia em dois verbos e um substantivo. O que você acha que eu pensava dele? Tudo o que eu sei e que ele não incom odava a gente. A gente provavelm ente achava que ele fosse um a pedra com pernas ou algo do tipo. Victor pensou no livro em seu bolso. Entoar cantos e acender fogueiras. Que tipo de pessoa fazia isso? — Não sei o que está acontecendo — disse. — Eu gostaria de descobrir. Olha, vocês não têm nom es? eu m e sinto sem j eito ao conversar com as pessoas sem saber os nom es.
— Só eu — respondeu Gaspode. — Por ser cachorro. Meu nom e é um a hom enagem ao fam oso Gaspode, sabe.
— Um m enino, um a vez, m e cham ou de Chana — disse o gato, um pouco incerto.
— Achei que vocês tivessem nom es na sua própria língua. Sabe, tipo "Patas Poderosas" ou... ou "Caçador Veloz". Ou algo assim . Ele sorriu, querendo encoraj á-los.
Os outros ficaram olhando com expressão de vácuo.
— Ele lê livros — explicou Gaspode. — Vej a bem , o negócio é o seguinte — acrescentou, coçando-se com força —, os anim ais geralm ente não se preocupam com nom es. Nós sabem os quem som os.
— Eu gosto de "Caçador Veloz" — disse o rato.
— Acho que é um nom e m ais apropriado para um gato — observou Victor, com eçando a suar. — Os ratos têm nom ezinhos sim páticos, com o... com o Guincho.
— Guincho? — repetiu o rato friam ente.
O coelho abriu um sorriso.
— É... E eu sem pre achei que os coelhos eram cham ados de Flofy. Ou Seu Tam pinha — Victor não conseguia parar de falar.
O coelho parou de sorrir e contraiu as orelhas.
— Olha aqui, m eu am igo... — com eçou.
— Quer saber — interrom peu Gaspode, entusiasm ado, num a tentativa de reanim ar a conversa — ouvi dizer que tem um a lenda que diz que as duas prim eiras pessoas do m undo deram nom es a todos os anim ais. Faz a gente parar pra pensar, não? Victor pegou o livro para esconder o seu constrangim ento. Entoar cantos e acender fogueiras. Três vezes ao dia.
— Esse velho... — com eçou. — O que ele tem de tão im portante? — perguntou o coelho.
— Ele só costum ava subir a colina e fazer uns barulhos algum as vezes por dia. Dava pra acertar o... o — hesitou. — Era sem pre nos m esm os horários. Muitas vezes por dia.
— Três vezes. Três apresentações. Com o um a espécie de teatro? — questionou Victor, passando o dedo pela página.
— Não sabem os contar até três — observou o coelho num tom azedo. — É assim : um ... m uitos. Muitas vezes. — Ele olhou para Victor. — Seu Tam pinha — disse num tom agressivo.
— E pessoas de outros lugares traziam peixes para ele — continuou Victor. — Não tem m ais ninguém que m ore perto daqui. Deviam vir de lugares a quilôm etros de distância. As pessoas navegavam por quilôm etros só para trazer peixes para ele. Era com o se ele não quisesse com er peixe desta baía aqui. E ela está pululando deles. Quando eu fui nadar, vi lagostas que vocês não iam acreditar.
— Que nom e você deu a elas? — perguntou Seu Tam pinha, que era do tipo de coelho que guardava rancor. — Dona esbelta? — E, eu quero esclarecer isto agora m esm o — chiou o rato. — Lá de onde eu venho, eu era o rato principal. Conseguia derrotar qualquer outro rato da casa. Quero um nom e apropriado, garoto. Quem m e cham ar de Bolinha de Queij o — olhou para Victor — tá pedindo pra ficar com a cabeça em form a de frigideira, estou sendo claro? O pato grasnou longam ente.
— Pera aí — interrom peu Gaspode. — O negócio e o seguinte, o pato disse que tudo isso faz parte da m esm a coisa. Hum anos, trolls e tudo o que tem vindo aqui. Anim ais falando de repente. O pato acha que essas coisas são causadas por algo daqui.
— Com o é que o pato sabe disso? — perguntou Victor.
— Olha, m eu am igo — disse o coelho —, quando você conseguir voar para atravessar todo o oceano até encontrar o m esm o m aldito continente, aí vai poder falar m al dos patos.
— Ah! Você está se referindo aos sentidos m isteriosos dos anim ais? eles o encararam longam ente.
— De qualquer m odo, isso tem que parar — continuou Gaspode. — Toda essa cogitação e falação vai bem pra vocês hum anos. Cês tão acostum ados com isso. A questão é que alguém tem que descobrir o que está causando toda esta... Eles continuaram olhando para ele.
— Bem — disse num tom vago —, talvez o livro possa aj udar? As prim eiras partes estão num a espécie de linguagem antiga. Eu não posso... — Ele parou. Os m agos não eram bem -vindos em Holy Wood. Provavelm ente não seria um a boa ideia m encionar a Universidade ou a sua pequena participação nela. — Quer dizer — continuou, escolhendo as palavras com cuidado —, acho que conheço alguém em Ankh-Morpork que possa ser capaz de ler essa linguagem . É um anim al tam bém . Um sím io.
— Com o ele se sai no quesito sentidos m isteriosos? — perguntou Gaspode.
— Ele é o m elhor em sentidos m isteriosos.
— Nesse caso... — disse o coelho.
— Pera aí — interrom peu Gaspode. — Alguém está vindo.
Um a tocha em m ovim ento era visível na subida da colina.
O pato decolou desaj eitadam ente e saiu deslizando no ar. Os outros desapareceram nas som bras. Apenas o cachorro não saiu do lugar.
— Você não vai se afastar? — sussurrou Victor. Gaspode ergueu um a sobrancelha.
— Au, au? A tocha ziguezagueava de m odo irregular entre os arbustos, feito um vagalum e. Às vezes parava por um m om ento e depois saía vagando em algum a direção totalm ente nova. Era m uito brilhante.
— O que é? — perguntou Victor.
Gaspode fungou.
— Hum ano. Fêm ea. Usando perfum e barato. — Seu focinho se contraiu de novo. — Cham a-se Brinquedo da Paixão — fungou m ais um a vez. — Roupas recém -lavadas e passadas sem gom a. Sapatos velhos. Muita m aquiagem de estúdio. Esteve no restaurante do Borgle e com eu... — o focinho se contraiu — cuzido. Prato não m uito grande.
— Acho que você consegue dizer qual é a altura dela, não? — Ela cheira a 1,57, 1,59 — arriscou Gaspode.
— Ah, pára com isso! — Ande um quilôm etro sobre estas patas e, aí sim , m e cham e de m entiroso.
Victor chutou areia sobre a sua pequena fogueira e foi descendo a colina. A luz parou de se m over quando se aproxim ou. Por um instante, ele viu de relance um vulto fem inino apertando um xale em volta de si e segurando a tocha com um a das m ãos acim a da cabeça. Em seguida, a luz desapareceu tão rapidam ente que deixou pós-im agens azuis e roxas dançando no cam po de visão dele. Atrás delas, um pequeno vulto form ou um a som bra m ais escura sobre a penum bra.
ela disse: — O que você está fazendo na m inha... o que eu estou... por que você está na... onde... — E depois, com o se finalm ente tivesse com preendido a situação, m udou de m archa e, num tom de voz m uito m ais fam iliar, perguntou: — O que você está fazendo aqui? — Ginger? —Sim ? Victor parou. O que se deveria dizer em circunstâncias com o esta? — E...É legal aqui em cim a à noite, você não acha? ela olhou fixam ente para Gaspode.
— Esse não e aquele cachorro horroroso que tem aparecido lá no estúdio? Não suporto cachorros pequenos.
— Late, late — disse Gaspode. Ginger olhou fixam ente para ele. Victor quase pôde ler o pensam ento dela: "ele disse late, late". E ele é um cachorro, e é isso o que os cachorros fazem , certo? — Eu gosto de gatos — disse ela, num tom vago. Um a voz em volum e baixo disse: — É? É? Cê se lava com a própria saliva, é? — O que foi isso? Victor se afastou, balançando as m ãos num gesto frenético.
— Não olhe para m im ! eu não disse isso! — Ah, é? Im agino que tenha sido o cachorro então?
— Quem , eu? — disse Gaspode.
Ginger ficou paralisada. Seus olhos viraram para o lado e para baixo, onde Gaspode cocava a orelha sem se preocupar com nada.
— Au, au? — Esse cachorro falou... — com eçou Ginger, apontando o dedo trêm ulo para ele.
— Eu sei. Isso significa que ele gosta de você. — Ele olhou atrás dela. Outra luz estava subindo a colina.
— Você trouxe alguém com você? — Ele perguntou.
— Eu? — Ginger se virou.
Agora a luz estava acom panhada pelo estalo de gravetos secos, e Dibbler saiu da escuridão com Detritus logo atrás, com o um a som bra especialm ente assustadora.
— Ahá! — disse. — Os pom binhos ficaram surpresos, hein? Victor olhou para ele de boca aberta.
— Os o quê? — ele disse.
— Os o quê? — disse Ginger.
— Procurei por vocês por toda a parte — continuou Dibbler.
— Alguém disse que tinha visto vocês subirem aqui. Muito rom ântico. Poderia fazer algo com isso. Fica bem nos cartazes. Certo.
— Pôs os braços ao redor deles. — Vam os.
— Pra quê? — perguntou Victor.
— Vam os film ar am anhã cedo.
— Mas o senhor Silverfish disse que eu não ia m ais trabalhar nesta cidade... — com eçou Victor.
Dibbler abriu a boca e hesitou por apenas um instante.
— Ah. Sim . Mas eu vou dar m ais um a chance a vocês — disse, falando bem devagar pela prim eira vez. — Sim . Um a chance. Sabe, vocês são j ovens. Obstinados. Já fui j ovem tam bém . "Dibbler", eu pensei, "m esm o se isso significar que está cavando a própria cova, dê um a chance a eles." Salários m ais baixos, é claro. Um dólar por dia, que tal? Victor viu a expressão de esperança repentina no rosto de Ginger. Ele abriu a boca.
— Quinze dólares — disse um a voz. Não era a dele. Ele fechou a boca.
— O quê? — Espantou-se Dibbler. Victor abriu a boca.
— Quinze dólares. Renegociável depois de um a sem ana. Quinze dólares ou nada.
Victor fechou a boca, revirando os olhos.
Dibbler balançou o dedo sob o nariz dele e depois hesitou.
— Gostei! — disse finalm ente. — Grande negociador! Ok. Três dólares.
— Quinze.
— Cinco é a m inha últim a oferta, garoto. Há m ilhares de pessoas por aí que aceitariam correndo, certo? — Cite duas, senhor Dibbler.
Dibbler olhou para Detritus, perdido num devaneio relacionado a Ruby, e depois olhou fixam ente para Ginger.
— Ok. Dez. Porque eu gosto de você. Mas estou cavando a m inha própria cova.
— Fechado.
Cova estendeu a m ão. Victor ficou olhando para a própria m ão com o se a estivesse vendo pela prim eira vez, e depois apertou a m ão dele.
— E agora vam os voltar lá pra baixo. Tem m uita coisa pra organizar. Ele saiu andando entre as árvores. Victor e Ginger seguiram atrás, de m aneira subm issa e em estado de choque.
— Você está louco? — Ginger sussurrou. — Recusando ofertas desse j eito! Poderíam os ter perdido a nossa chance! — Eu não disse nada! Achei que tivesse sido você! — disse Victor.
— Foi você! — insistiu Ginger. Seus olhares se encontraram . Eles olharam para baixo.
— Late, late — disse Gaspode, o Cão Prodígio. Dibbler virou para trás.
— Que barulho foi esse? — perguntou.
— Ah, é... é só um cachorro que encontram os — respondeu Victor rapidam ente. — Ele se cham a Gaspode. Com o o fam oso Gaspode, sabe? — Ele faz truques — disse Ginger, num tom m alicioso.
— Um cão perform ático? — Dibbler se inclinou e passou a m ão na cabeça em form a de bala de Gaspode.
— Rosna, rosna.
— Você ficaria im pressionado com as coisas que ele sabe fazer — observou Victor.
— Im pressionado — ecoou Ginger.
— Mas é feio pra diabo — disse Dibbler. Ele lançou um olhar dem orado e lento para Gaspode, o que era o equivalente a desafiar um a centopéia para um a com petição de chute no traseiro. Gaspode era capaz de encarar até um espelho sem m edo.
Dibbler parecia rum inar um a ideia na cabeça.
— Vej a bem ... Leve-o com você am anhã de m anhã. As pessoas gostam de dar um a boa risada — disse Dibbler.
— Ah, dá pra rir com ele m esm o — concordou Victor. — Gargalhar. Quando eles seguiram andando, Victor ouviu um a voz calm a atrás dele dizer: — Você m e paga por essa. Está m e devendo um dólar, de qualquer m aneira.
— Por quê? — Com issão do em presário — Explicou Gaspode o Cão Prodígio.
Sobre Holy Wood, apareciam as estrelas. Eram enorm es bolas de hidrogênio aquecidas a m ilhões de graus — tão quentes que não conseguiam pegar fogo. Muitas inchariam consideravelm ente antes de m orrer e depois encolheriam até se tornar anãs m inúsculas e rancorosas, lem bradas apenas por astrônom os sentim entais. Enquanto isso, brilhavam graças a m etam orfoses que estavam alem do alcance dos alquim istas e transform avam m eros elem entos sem graça em pura luz. Sobre Ankh-Morpork apenas chovia.
Os m agos m ais experientes se am ontoaram ao redor do vaso dos elefantes. Ele havia sido devolvido ao corredor por ordem expressa de Ridcully.
— Eu m e lem bro de Riktor — com entou o Decano. — Hom em m uito m agro. Mente um pouco tacanha. Mas esperto.
— He, he. Eu m e lem bro do seu contador de ratos — disse Windle Poons em sua cadeira de rodas antiga. — Costum ava contar ratos.
— O vaso em si e bastante... — com eçou o tesoureiro, m as m udou de assunto — Com o assim , contar ratos? eles eram colocados no aparelho por um a correia ou algo do tipo? — Ah, não. Era só dar corda, sabe, e ele ficava lá, fazendo um zum bido e contando todos os ratos do predio. Mm , e um as rodinhas com núm eros iam subindo.
— Por quê? — Mm ? Acho que ele só queria contar os ratos.
O tesoureiro deu de om bros.
— Este vaso — com eçou, exam inando de perto — E na verdade um vaso Ming bastante antigo.
ele aguardou, com expectativa.
— Por que se cham a Ming? — perguntou o arquirreitor, aproveitando a deixa.
O tesoureiro deu um tapinha no vaso. Ele fez "m ing".
— E eles cospem balas de chum bo nas pessoas, e? — perguntou Ridcully.
— Não, m estre. Ele apenas utilizava isso para colocar o... m ecanism o dentro. Qualquer que sej a ele. O que quer que estej a fazendo.
... whum m ...
— Espere! ele oscilou — observou o Decano.
... whum m ... whum m ...
Os m agos se encararam num pânico súbito...
— O que está acontecendo? O que está acontecendo? — perguntou Windle Poons. — Por que ninguém , m m , m e diz o que está acontecendo? ... whum m ... whum m ...
— Corram ! — exclam ou o Decano.
— Pra que lado? — perguntou o Tesoureiro com a voz trêm ula.
... whum m WHUMM...
— Eu sou um hom em idoso e exij o que alguém m e diga o que está... Silêncio.
— Abaixem —se! — gritou o arquirreitor.
Plib.
Um a lasca de pedra foi arrancada do pilar atrás dele. Ele ergueu a cabeça.
— Caram ba, foi por pura sorte que es...
Plib.
A segunda bolinha de chum bo arrancou a ponta do seu chapéu. Os m agos ficaram trem endo sobre as pedras do pavim ento durante alguns m inutos. Depois de algum tem po, ouviram a voz abafada do decano: — Vocês acham que j á acabou? O arquirreitor ergueu a cabeça. Seu rosto, sem pre verm elho, agora estava incandescente.
— Tesoureiro? — Isso é o que eu cham o de disparo! Victor se virou.
— Wzstf— ele disse.
— São seis da m anhã, levante-se e brilhe, seu Dibbler disse — disse Detritus, agarrando as roupas de cam a com um a m ão e arrastando-as para o chão.
— Seis horas? (Mas ainda é m adrugada). — gem eu Victor.
— Vai ser um longo dia, o seu Dibbler disse — continuou o troll. — O senhor Dibbler disse que você tem que estar no set às seis e m eia. Isso vai acontecer.
Victor vestiu a calça.
— Im agino que eu consiga tom ar café — disse, num tom sarcástico.
— O seu Dibbler está providenciando com ida, o seu Dibbler disse. Havia um barulho de respiração ofegante debaixo da cam a. Gaspode surgiu de um tapete velho e deu a prim eira cocada do dia.
_ O qu... — Ele com eçou, m as viu o troll. — Late, late — Ele se corrigiu.
— Oh. Um cachorrinho. Eu gosto de cachorrinhos — disse Detritus.
— Au, au.
— Passa — acrescentou o troll. Mas ele não conseguiu colocar a quantidade certa de m aldade perm itida na voz. Visões de Ruby com o seu boá de plum as e três acres de veludo verm elho passavam ondulando pela sua m ente. Gaspode cocou a orelha com força.
— Au — disse com calm a. — Em tom de pouca am eaça — acrescentou, depois que Detritus tinha ido em bora.
O declive da colina j á estava cheio de gente quando Victor chegou. Algum as tendas haviam sido m ontadas. Alguém segurava um cam elo. Várias gaiolas de dem ônios faziam algazarra à som bra de um espinheiro.
No m eio de tudo isso, Dibbler e Silverfish discutiam . Dibbler estava com o braço sobre o om bro de Silverfish.
— Um a grande traição, e isso — disse um a voz na altura dos j oelhos de Victor. — Quer dizer que algum pobre coitado vai pro brej o.
— Vai ser um a evolução para você, Tom ! — Dibbler dizia. — Sabe, quantas pessoas em Holy Wood podem se denom inar Vice-Presidente encarregado de Assuntos executivos? — Sim , m as a em presa e m inha! — protestou Silverfish.
— Certo! Certo! e isso o que o nom e Vice-Presidente encarregado de Assuntos executivos significa.
— Sério? — Eu j á m enti pra você algum a vez? Silverfish franziu a testa.
— Bem , ontem você disse...
— Quero dizer m etaforicam ente — Em endou Dibbler rapidam ente.
— Ah. Bem . Metaforicam ente? Acho que não...
—Aí está, então. Bom , onde está aquele artista? — Dibbler deu um giro, dando a im pressão de que Silverfish tinha sido desligado. Um hom em subiu correndo com um a pasta debaixo do braço.
— Sim , senhor, senhor Dibbler! Cova tirou um pedaço de papel do bolso.
— Eu quero o cartaz pronto hoj e à noite, entendeu? Tom a. Este e o nom e do clique.
— Sobras do Dheserto — leu o artista. Ele franziu a sobrancelha. Ele tinha estudado m ais do que Holy Wood exigia. — E sobre com ida? — perguntou. Mas Dibbler não estava ouvindo. Ele partia para cim a de Victor.
— Victor! Meu querido! — Ele foi afetado — observou Gaspode calm am ente. — Foi afetado m ais do que qualquer um , eu acho.
— O que o afetou? Com o e que você sabe? — Victor sussurrou.
— Em parte por causa dos sinais sutis que você não parece conseguir reconhecer, em parte porque ele tem agido com o um grande idiota.
— Que ótim o ver você! — Entusiasm ou—se Dibbler, com um brilho louco no olhar. — Ele pôs o braço sobre o om bro de Victor e m eio andou, m eio o arrastou em direção às tendas. — Este vai ser um film e excelente! — Ah, ótim o — disse Victor, vacilante.
— Você faz o papel de um chefe de bandoleiros, só que e um cara legal tam bém , gentil com as m ulheres e assim por diante. Você invade um a aldeia e leva um a escrava, m as quando olha nos olhos dela, sabe, você se apaixona, aí tem um a invasão com centenas de hom ens m ontados em elefantes, que atacam ...
— Cam elos — corrigiu um j ovem m agrelo atrás de Dibbler. — São cam elos.
— Eu pedi elefantes! — Mas recebeu cam elos.
_ Cam elos, elefantes — continuou Dibbler com desprezo. _ estam os falando de coisas exóticas, certo? e... _ e só tem os um — interrom peu o j ovem .
— Um o quê? — Cam elo. Só conseguim os encontrar um cam elo.
— Mas estou com dezenas de hom ens com lençóis na cabeça esperando pelos cam elos! — gritou Dibbler, balançando as m ãos para cim a. — Muitos cam elos, certo? — Só tem os um cam elo porque só tem um cam elo em Holy Wood, e isso porque um cara de Klatch veio de lá até aqui m ontado nele.
— Você devia ter m andado vir m ais! — gritou Dibbler.
— O senhor Silverfish disse que não era pra fazer isso.
Dibbler rosnou.
— Talvez, se ele se m exer bastante, possa parecer que tem m ais de um cam elo — disse o j ovem com otim ism o.
— Por que você não m anda um dos hom ens passar com o cam elo na frente da caixa de im agens, pede pro operador de m a—nivela parar os dem ônios e depois volta com o cam elo pra colocar um hom em diferente em cim a dele? Aí faz a caixa funcionar novam ente e passa com ele de novo — sugeriu Victor. — Será que funciona? Dibbler olhou para ele com a boca aberta.
— O que foi que eu disse? — com eçou, olhando para o céu. —O rapaz e um gênio! Desse j eito conseguim os 100 cam elos pelo preço de um , certo? — Mas isso significa que os bandidos do deserto andam em fila única — observou o j ovem . — Não e bem um ataque em m assa, sabe? — Claro, claro — concordou Dibbler, sem dar im portância.
— Faz sentido. E só a gente colocar um cartaz em que o líder diz...
— Ele pensou por um segundo. — Ele diz: "Sigam -m e num a única fileira, bwanas, para enganar o odioso inim igo", certo? e balançou a cabeça para Victor.
— Já conhece o m eu sobrinho Soll? — perguntou. — Rapaz esperto. Quase foi pra escola e tudo o m ais. Trouxe ele pra cá ontem . É Vice-Presidente encarregado de Fazer Film es.
Soll e Victor se cum prim entaram com um aceno de cabeça.
— Acho que "bwanas" não é a palavra certa, tio — disse Soll.
— É klatchiano, não e? — Bom , tecnicam ente, sim . Mas acho que e a parte errada de Klatch e, talvez, "efêndi" ou algo assim ...
— Desde que sej a estrangeiro — disse Dibbler, sugerindo que a questão estava resolvida. Ele deu outro tapinha nas costas de Victor. — Ok, garoto, põe o figurino. — Deu um a risadinha. — Cem cam elos! Que cabeça! — Com licença, senhor Dibbler — interrom peu o artista do cartaz, que ficara andando de um lado para o outro, inquieto —, não entendi esta parte aqui... Dibbler arrancou o papel da m ão dele.
— Que parte? — perguntou bruscam ente.
— A que você descreve a senhorita Dos Pecados...
— É óbvio. Querem os evocar aqui o rom ance fascinante e exótico, ainda que distante, de um a Klatch salpicada de pirâm ides, certo? então naturalm ente tem os que usar o sím bolo de um continente m isterioso e im penetrável, entende? eu tenho que explicar tudo para todo m undo todas as vezes? — E que eu achei... — com eçou o artista.
— Faça o que e pra fazer! O artista olhou para o papel na sua m ão.
— “Ela possui o rosto" — leu — "de um a Finge".
— Certo.
Certo! — Creio que talvez sej a esfinge...
— Está ouvindo esse hom em ? — disse Dibbler, falando com o céu m ais um a vez. Ele encarou o artista. — Ela não se parece com um a Finge que j á deixou de ser Finge, certo? e um a Finge, e não ex-Finge. Agora anda com isso. Eu quero esses cartazes por toda a cidade am anhã cedo.
O artista olhou para Victor com um a expressão agoniada que o quase m ago com eçava a reconhecer. Todo m undo que perm anecia perto de Dibbler ficava assim após algum tem po.
— O senhor está certo, senhor Dibbler.
— Certo. — Dibbler voltou a falar com Victor. — Por que ainda não se trocou? — perguntou.
Victor entrou rapidam ente na tenda. Um a pequena velhinha11 com o form ato de um a broa de m ilho o aj udou a vestir um figurino aparentem ente feito de lençóis tingidos de preto por alguém que não sabia m uito bem o que estava fazendo — ainda que, dadas as atuais condições de hospedagem em Holy Wood, eram apenas lençóis retirados de um a cam a qualquer. (Dona Marietta Cosmopilite, antiga costureira de Ankh-Morpork até que seus sonhos a levaram a Holy Wood, onde descobriu que sua habilidade com a agulha era altamente apreciada. Um dia uma cerzideira de meias comuns; agora tricota cotas de malha de ferro falsas para trolls e é capaz de fazer uma calça de odalisca num abrir e fechar de olhos.)
Depois ela lhe passou um a espada curva.
— Por que ela está torta? — Ele perguntou.
— Acho que é assim m esm o, querido — Ela respondeu, m eio em dúvida.
— Achei que as espadas tivessem que ser retas — argum entou Victor. Ele conseguiu ouvir Dibbler, do lado de fora, perguntando para os céus por que todo m undo era tão burro.
— Talvez elas sej am retas no com eço e entortem com o uso — arriscou a senhora, dando um tapinha na m ão dele. — Muitas coisas ficam assim . Ela abriu um sorriso radiante para ele.
— Se estiver tudo bem com você, querido, é m elhor eu ir aj udar a m ocinha e ver se algum anãozinho está espiando ela.
A velha saiu da tenda com dificuldade. Da tenda ao lado veio um barulho de m etal rachando e o som da voz alta de Ginger reclam ando.
Victor fez alguns m ovim entos experim entais com a espada.
Gaspode o observava com a cabeça inclinada para o lado.
— O que você é, afinal? — perguntou finalm ente.
— Um líder de um bando de ladrões do deserto, ao que parece. Rom ântico e elegante.
— Elegante onde? — Apenas elegante de m odo geral, acho. Gaspode, o que você estava querendo dizer quando disse que algo havia afetado Dibbler? O cachorro roeu um a pata.
— Olhe para os olhos dele. Estão piores que os seus.
— Os m eus? O que há de errado com os m eus? Detritus, o troll, colocou a cabeça para dentro da tenda.
— O seu Dibbler tá dizendo que quer você agora.
— Olhos? — continuou Victor. — Algum a coisa com os m eus olhos? — Au, au.
— O seu Dibbler tá dizendo... — com eçou Detritus.
— Está bem , está bem ! estou indo! Victor saiu da sua tenda ao m esm o tem po em que Ginger saiu da dela. Ele fechou os olhos.
— Nossa, m e desculpe — balbuciou. — Vou voltar e esperar você se vestir...
— Eu estou vestida.
— O seu Dibbler tá dizendo... — recom eçou Detritus, atrás deles.
— Vam os — disse Ginger, segurando o seu braço. — Não devem os deixar todo m undo esperando.
— Mas você está... o seu... — Victor baixou o olhar, o que não aj udava m uito. — Você tem um um bigo no diam ante — arriscou.
— Eu j á resolvi aceitar isso — disse Ginger, flexionando os om bros um esforço para fazer as coisas ficarem no lugar. — Essas duas tam pas de frigideira e que estão m e dando problem a. Fazem você entender com o aquelas pobres m eninas nos haréns devem sofrer.
— E você não se im porta que as pessoas a vej am desse j eito? perguntou Victor, im pressionado.
— Por que deveria? estam os nas im agens anim adas. Não e nada real. Mesm o assim , você ficaria im pressionado com o que as m eninas têm que fazer por m uito m enos de dez dólares por dia.
— Nove — corrigiu Gaspode, que ainda arrastava atrás dos calcanhares de Victor.
— Certo! Juntem -se, pessoal! — gritou Dibbler num m egafone.
— Filhos do Deserto ali, por favor. As escravas... onde estão as escravas? Certo. Operador de m anivela?...
— Nunca vi tanta gente num clique — sussurrou Ginger. — Deve custar m ais de 100 dólares! Victor observou os Filhos do Deserto. Parecia que Dibbler havia aparecido no restaurante do Borgle e contratado as 20 pessoas m ais próxim as da porta, sem levar em consideração se seriam apropriadas ou não, e dado a cada um a delas o que im aginava ser o enfeite de cabeça dos bandidos do deserto. Havia Filhos do Deserto trolls — Rocha o reconheceu e acenou discretam ente. — Filhos do Deserto, anões e, arrastando-se até o fim da fila, um filho pequeno e peludo com um enfeite de cabeça que ia até as patas que se cocava furiosam ente.
— ... agarre ela, fique extasiado com sua beleza e depois atire ela por cim a da sua m açaneta — a voz de Dibbler penetrou a sua consciência. Victor repassou desesperadam ente na cabeça as instruções ouvidas pela m etade.
— Minha o quê? — E a parte da frente da sua sela — sussurrou Ginger.
— Ah.
— Aí você sai cavalgando noite adentro, com todos os Filhos atrás de você, cantando m úsicas estim ulantes de bandidos do deserto...
— Ninguém vai ouvir — observou Soll, tentando aj udar. — Mas, se eles abrirem e fecharem a boca, vai aj udar a criar um a... sabe... am biência.
— Mas não é de noite — disse Ginger. — É a m ais clara luz do dia. Dibbler olhou fixam ente para ela.
A boca dele se abriu um a ou duas vezes.
— Soll! — gritou.
— Não podem os film ar à noite, tio — apressou-se em esclarecer o sobrinho. — Os dem ônios não conseguiriam enxergar. Não vej o por que não colocar um cartaz escrito "Noite" no com eço da cena, para que...
— Mas isso não é a m agia das im agens anim adas! — vociferou Dibbler. — Isso é fazer besteira!
— Com licença — interrom peu Victor. — Desculpe, m as certam ente isso não im porta, porque com certeza os dem ônios podem pintar um céu preto com estrelas...
Houve um m om ento de silêncio. Depois Dibbler olhou para Gaffer.
— Podem ? — perguntou.
— Nah — disse o operador de m anivelas. — Já é um sacrifício fazer com que pintem o que estão vendo, im agine o que não estão vendo. Dibbler esfregou o nariz.
— Pode ser que eu estej a disposto a negociar — disse.
O operador de m anivela deu de om bros.
— O senhor não está entendendo, senhor Dibbler. Pra que eles iam querer dinheiro? Iam apenas com ê-lo. Se a gente com eça a dizer para eles pintarem o que não está lá, a gente com eça a ter todo tipo de...
— Talvez a lua cheia estej a brilhando m uito — arriscou Ginger.
— E um a boa m aneira de ver a coisa — concordou Dibbler. — Farem os um cartaz em que Victor diz a Ginger algo com o: "Com o a lua está brilhante esta noite, bwana".
— Algo assim — concordou Soll, diplom ático.
Era m eio-dia. Holy Wood reluzia sob o sol com o um a j uj uba sabor cham panhe m astigada. Os operadores de m anivela giravam suas m anivelas, os figurantes corriam de um lado para o outro com entusiasm o, Dibbler se enfurecia com todo m undo, e a história da cinem atografia se fez com um a cena em que três anões, quatro hom ens, dois trolls e um cão m ontavam o m esm o cam elo e gritavam aterrorizados para que ele parasse.
Victor foi apresentado ao cam elo, que piscou seus longos cílios para ele e parecia estar m astigando um a sopa. Estava de j oelhos, e era possível perceber que tivera um a longa m anhã e não estava disposto a engolir sapo. Até aquele m om ento, j á tinha dado coice em três pessoas.
— Com o ele se cham a? — perguntou, com cuidado.
— Nós o cham am os de Filho de um a Cadela Perverso — respondeu o recém -nom eado Vice-Presidente encarregado dos Cam elos.
— Isso não parece um nom e.
— E um ótim o nom e para este cam elo — insistiu o treinador com veem ência.
— Não há nada de errado em ser um filho de um a cadela — disse um a voz atrás dele. — Eu sou um filho de um a cadela. Meu pai era um filho de um a cadela, seu desgraçado de pij am a suj o.
O treinador deu um sorriso nervoso para Victor e se virou. Não havia ninguém atrás dele. Ele olhou para baixo.
— Au, au — disse Gaspode, e balançou o que era quase um rabo.
— Você acabou de ouvir alguém dizer algum a coisa? — Não — respondeu Victor. Ele se inclinou para perto de um a das orelhas do cam elo e sussurrou, caso fosse um cam elo especial de Holy Wood: — Olha, eu sou am igo, está bem ? Filho de um a Cadela Perverso balançou um a orelha da grossura de um carpete. — Com o e que se m onta nele? — perguntou.
— Quando você quiser ir para a frente, você xinga ele e bate nele com um a vara e, quando quiser parar, xinga ele e bate pra valer com a vara.
— E quando quiser que ele vire? — Bom , aí você j á está indo pro Manual Avançado. A m elhor coisa a fazer é descer e o fazer virar puxando com a m ão.
— Quando vocês estiverem prontos! — berrou Dibbler pelo m egafone. — Agora você m onta, vai até a tenda, pula para fora do cam elo, luta com eunucos enorm es, invade a tenda, sai arrastando a garota, sobe de volta no cam elo e vai em bora. Entendeu? Acha que dá pra fazer? — Que eunucos enorm es? — perguntou Victor, enquanto o cam elo ficava de pé.
Um dos eunucos enorm es levantou a m ão tim idam ente.
— Sou eu. Morry.
— Ah. Oi, Morry.
Os cam elos são inteligentes dem ais para adm itir que são inteligentes.
— Oi, Vic.
— E eu, Rocha — disse o segundo eunuco enorm e.
— Oi, Rocha.
— Oi, Vic.
— Aos seus lugares, pessoal! — gritou Dibbler. — Nós vam os... O que foi, Rocha? — Er... É que eu tava pensando, seu Dibbler... Qual é a m inha m otivação para esta cena? — Motivação? — É. Er... Tenho que saber, sabe.
— Que tal: eu dem ito você se não fizer a cena direito? Rocha sorriu.
— Certo, seu Dibbler.
— OK — prosseguiu Dibbler. — Todo m undo pronto... roda! Filho de um a Cadela Perverso se virou de m odo desaj eitado, sacudindo as pernas em ângulos esquisitos de cam elos, e depois com eçou um trote com plicado.
A m anivela girou...
O ar brilhou. E Victor acordou. Era com o sair lentam ente de um a nuvem cor de rosa ou de um sonho grandioso que, por m ais que você tente se lem brar, desaparece de sua m ente à m edida que a luz do dia se aproxim a, deixando um a terrível sensação de perda. Nada — você sabe de m odo instintivo —, nada que você viva durante o resto do dia chegará perto de ser tão bom quanto aquele sonho.
Ele piscou os olhos. As im agens se apagaram aos poucos. Ele sentiu um a dor nos m úsculos, com o se tivesse se esforçado m uito para fazer algo.
— O que aconteceu? — m urm urou. Ele olhou para baixo.
— Uau — Exclam ou. Um a extensão de traseiro sem inu ocupava um espaço que há pouco tem po era ocupado pelo pescoço do cam elo. Era um a m elhoria.
— Nossa — disse Ginger com indiferença. — Estou em cim a de um cam elo? — Sei lá. Não era isso o que queria fazer? Ela deslizou até a areia e tentou arrum ar o figurino.
Naquele m om ento, os dois perceberam que estavam sendo observados. Lá estava Dibbler. Lá estava o sobrinho de Dibbler. Lá estava o operador de m anivela. Lá estavam os figurantes. Lá estavam os vários vice-presidentes e outras pessoas que aparentem ente passam a existir por m eio da m era presença da criação de cenas anim adas. (Algumas delas carregam pranchetas.) Lá estava Gaspode, o Cão Prodígio.
E todos eles, exceto o cachorro, que dava um a risadinha, estavam de boca aberta.
A m ão do operador de m anivela ainda girava a m anivela. Ele olhou para a m ão, com o se sua presença fosse um a novidade, e parou.
Dibbler pareceu sair da espécie de transe em que estava.
— Whuuhuu — disse. — Caram ba.
— Magia — suspirou Soll. — Magia de verdade. Dibbler cutucou o operador de m anivelas.
— Você pegou tudo isso? — Isso o quê? — disseram Ginger e Victor ao m esm o tem po.
Então Victor notou Morry sentado na areia. Um a lasca consideravelm ente grande de seu braço havia se desprendido. Rocha estava colocando um a espécie de reboco no local. O troll notou a expressão de Victor e deu um sorriso m urcho para ele.
— Tá achando que é Cohen o Bárbaro, é?
— É — concordou Rocha. — Não tinha necessidade de cham ar ele do que você cham ou. E, se você sair fazendo acrobacias com a espada de novo, vam os pedir m ais um dólar por dia, por Risco de Arrancarem Pedaço. A espada de Victor tinha alguns talhos na lâm ina. Ele poderia j urar pela sua vida que não conseguia im aginar com o foram parar ali.