A Magia de Holy Wood

Terry Pratchett · Capítulo 1 de 5 · parte 3/6

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A Magia de Holy Wood

Agradecimentos

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

— Com o assim ? — Algum as noites atrás, eu assisti ao seu, seu clique — Ele sentiu um leve orgulho por ter se lem brado do term o — lá na cidade, e de repente quis estar aqui m ais do que qualquer outra coisa. Eu nunca quis algum a coisa de verdade na m inha vida antes! A expressão de Silverfish se abriu num sorriso aliviado.

— Ah, é isso. Isso é apenas a m agia de Holy Wood. Não m agia de m agos — acrescentou rapidam ente —, que não passa de superstição sem pé nem cabeça. Não. E um a m agia para pessoas com uns. Sua m ente está efervescendo com todas as possibilidades. Eu sei com o é. A m inha tam bém estava.

— Sim — concordou Victor, ainda m eio em dúvida. — Mas com o é que funciona? O rosto de Silverfish se ilum inou.

— Você quer saber? Você quer saber com o as coisas funcionam ? — Sim , eu...

— Sabe, a m aioria das pessoas é tão decepcionante. Você lhes m ostra algo realm ente m aravilhoso, com o a caixa de im agens, e elas só dizem "oh". Nunca perguntam com o funciona. Senhor Bird! A últim a palavra foi gritada. Depois de algum tem po, um a porta se abriu do outro lado do barracão, e um hom em apareceu.

Ele tinha um a caixa de im agens presa com um a tira no pescoço. Havia ferram entas variadas penduradas no seu cinto. Suas m ãos eram m anchadas de substâncias quím icas, e ele não tinha sobrancelhas, o que Victor veio a saber m ais tarde que era um sinal de que a pessoa andou m exendo com octocelulose. Tam bém estava com o boné virado para trás.

— Este é Gaffer Bird — apresentou Silverfish, sorrindo. — Nosso operador— chefe. Gaffer, este e Victor. Ele vai atuar para nós. (Gaffer significa eletricista-chefe no mundo da televisão e do cinema. (N. T.))

— Ah — disse Gaffer, olhando para Victor da m esm a form a com o um açougueiro olharia para um a carcaça. — Vai m esm o? — E ele quer saber com o as coisas funcionam ! Gaffer olhou para Victor com m ais um a expressão pessim ista.

— Barbante — com eçou, desanim ado. — Tudo funciona com barbante. Você ficaria im pressionado ao ver com o as coisas cairiam aos pedaços por aqui se não fôssem os eu e m eu rolo de barbante.

Houve um a agitação repentina na caixa pendurada em seu pescoço. Ele bateu nela com a palm a da m ão.

— Podem parar com isso, vocês — disse. Ele balançou a cabeça para Victor. — Eles ficam rebeldes quando a rotina e interrom pida.

— O que tem na caixa? — perguntou Victor. Gaffer piscou para Silverfish.

— Aposto que você gostaria de saber.

Victor se lem brou das coisas enj auladas que vira no outro barracão.

— O som parece o de dem ônios com uns — observou, cauteloso.

Gaffer fez um a expressão de aprovação, com o a que poderia ser feita para um cachorro que tivesse acabado de fazer um truque difícil.

— É, isso m esm o — reconheceu.

— Mas com o faz para eles não escaparem ? — perguntou Victor. Gaffer lançou-lhe um olhar m alicioso.

— É um a coisa im pressionante, o barbante.

Dibbler Cava-A-Própria-Cova era um a daquelas raras pessoas com a habilidade para pensar em linha reta.

A m aioria das pessoas pensa em curvas e zigue-zagues. Por exem plo, com eçam com um pensam ento com o "Com o será que posso ficar m uito rico?" Depois prosseguem por um a direção incerta que inclui pensam entos com o "O que será que tem pro j antar?" e "Quem será que eu conheço que pode m e em presar cinco dólares?" Ao passo que Cova era um a daquelas pessoas que têm a capacidade de identificar o pensam ento no outro extrem o do processo — neste caso "Sou m uito rico agora" —, traçar um a linha entre os dois e depois pensar em com o percorrê-la, de form a lenta e paciente, até chegar ao outro extrem o.

Não que desse certo. Sem pre havia, ele descobriu, algum a falha, pequena, porém vital, no processo. Geralm ente envolvia um a estranha relutância por parte das pessoas em com prar o que ele tinha que vender.

Mas as econom ias da sua vida estavam agora guardadas num saco de couro dentro do seu colete. Ele j á havia ficado em Holy Wood por um dia. Tinha visto a sua organização periclitante, se e que chegava a tanto, com o olhar de um eterno vendedor. Parecia não haver lugar para ele ali, m as isso não era problem a. Sem pre havia espaço em cim a.

Um dia, pedindo inform ações e observando com atenção, foi parar na Interessante e Instrutiva Kinem atographia. Agora perm anecia do outro lado da rua, observando com cautela.

Ele observou a fila. Observou o hom em do portão. E tom ou um a decisão. Cam inhou ao lado da fila. Ele tinha cérebro. Sabia que tinha cérebro. Só precisava de m úsculos. Em algum lugar aqui deve haver...

— Tarde, senhor Dibbler.

Aquela cabeça achatada, aqueles braços com pridos, aquele lábio inferior ondulado, aquela voz coaxante que anunciava um Q.I. do tam anho de um a noz. O resultado era...

— Sou eu, Detritus. Quem diria, você aqui, hein? ele abriu um sorriso para Dibbler que parecia um a rachadura surgindo no apoio vital de um a ponte.

— Olá, Detritus. Tá trabalhando nos film es? — perguntou Dibbler.

— Não exatam ente trabalhando — respondeu Detritus, envergonhado. Dibbler olhou calm am ente para o troll, cuj os punhos calej ados geralm ente davam a últim a palavra em qualquer briga de rua.

— Eu acho isso repugnante — disse. Pegou seu saco de dinheiro e separou cinco dólares. — Você gostaria de trabalhar para m im , Detritus? Com um ar respeitoso, Detritus passou a m ão na sobrancelha arqueada.

— Está certo, seu Dibbler.

— Venha por aqui.

Dibbler cam inhou de volta ao início da fila. O hom em ao lado da porta estendeu o braço para barrar sua passagem .

— Aonde pensa que vai, colega? — Tenho um horário m arcado com o senhor Silverfish — inform ou Dibbler.

— E ele sabe disso? — perguntou o guarda com um tom de voz que sugeria que ele pessoalm ente não acreditaria naquilo m esm o se visse por escrito, num docum ento oficial.

— Não, ainda não.

— Bom , m eu am igo, nesse caso você só vai conseguir... —Detritus? — Sim , seu Dibbler? — Bata neste hom em .

— Está certo, seu Dibbler.

O braço de Detritus girou num arco de 180 graus. O guarda saiu do chão e atravessou a porta, indo parar entre seus escom bros, a vários m etros dali. Houve um a com em oração na fila.

Dibbler lançou um olhar de aprovação para o troll. Detritus não estava usando nada alem de um a tanga esfarrapada que cobria o que quer que os trolls achassem necessário esconder.

— Muito bem , Detritus.

— Está certo, seu Dibbler.

— Mas precisam os providenciar um traj e para você. Agora, por favor, vigie o portão. Não deixe ninguém entrar.

— Está certo, seu Dibbler.

Dois m inutos depois, um cachorrinho cinzento passou correndo entre as pernas curtas e arqueadas do troll e saltou sobre os restos do portão, m as Detritus não fez nada a respeito porque todo m undo sabe que cachorros não são ninguém .

— Senhor Silverfish? — disse Dibbler.

Silverfish, que atravessava o estúdio trazendo um a caixa com um novo estoque de film es, hesitou diante da visão da figura esquelética que vinha em sua direção com o um a doninha perdida. A expressão de Dibbler era a de algo longo, liso e branco que vinha nadando do m ar aberto para as águas rasas onde ficam as crianças.

— Sim ? — respondeu Silverfish. — Quem é você? Com o é que conseguiu...

— Dibbler é o m eu nom e. Mas gostaria que m e cham asse de Cova. Ele apertou a m ão de Silverfish, que não ofereceu resistência, e depois colocou a outra m ão no om bro do hom em e deu um passo à frente, apertando com força a prim eira m ão. O efeito era um a afabilidade aguda, e queria dizer que, se Silverfish recuasse, deslocaria o próprio cotovelo.

— E só gostaria que soubesse — prosseguiu Dibbler — que estam os todos incrivelm ente im pressionados com o que vocês, rapazes, estão fazendo aqui. Silverfish notou que sua m ão estava sendo ardorosam ente am igável com o outro e sorriu de m odo incerto.

— Ah, é? — arriscou.

— Tudo isto... — Dibbler soltou o om bro de Silverfish apenas pelo tem po suficiente para indicar, num gesto expansivo, o caos energético que os cercava. — Fantástico! Maravilhoso! E aquela sua últim a coisa, com o é que cham a m esm o...? — Dhiabruras na Loj a — disse Silverfish. — Aquele em que o ladrão rouba as salsichas e o vendedor vai atrás dele? — Sim — confirm ou Dibbler, com um sorriso am arelo congelando por apenas um ou dois segundos até voltar a ser sincero de verdade. — Sim . Esse m esm o. Im pressionante! Realm ente genial! Um a m etáfora que se sustenta de form a belíssim a! — Esse nos custou quase 20 dólares, sabe — disse Silverfish, com orgulho m odesto. — Mais 40 centavos para as salsichas, é claro.

— Im pressionante! E deve ter sido visto por centenas de pessoas, não? — Milhares.

Agora não seria possível fazer nenhum a analogia ao sorriso de Dibbler. Se ele conseguisse ser um pouco m ais largo, o topo da sua cabeça teria caído.

— Milhares? — repetiu. — Sério? Tantas assim ? E é claro que elas lhe pagam ... E... quanto...?

— Ah, no m om ento apenas fazem os um a coleta de contribuições — disse Silverfish. — Apenas para cobrir os custos enquanto estam os na fase experim ental, entende? — Ele olhou para baixo. _ Por favor — acrescentou —, poderia soltar a m inha m ão agora? Dibbler seguiu a direção do seu olhar.

— É claro! — disse, e soltou. A m ão de Silverfish continuou subindo e descendo sozinha por algum tem po, por efeito de puro espasm o m uscular. Dibbler ficou em silêncio por um m om ento, com a expressão de um hom em em com unhão profunda com algum deus interno. Em seguida, disse: — Sabe, Thom as... Posso cham á-lo de Thom as? Quando vi aquela obra-prim a, pensei, "Dibbler, por trás de tudo isso existe um artista criativo..." — ... com o sabia que m eu nom e era...

— “... um artista criativo", pensei, "que deveria ser livre para seguir sua inspiração em vez de ser sobrecarregado com todos os com plicados detalhes adm inistrativos." estou certo? — Bem ... é verdade que toda essa papelada é um pouquinho...

— Exatam ente o que pensei. E eu disse: "Dibbler, você deveria ir lá agora m esm o e oferecer a ele os seus serviços. Sabe com o e. Adm inistrar. Tirar o peso dos om bros dele. Deixar que ele avance no que faz m elhor". Estou certo? Tom ? — Eu, eu, eu, sim , claro, e verdade que o m eu forte está realm ente m ais em ...

— Está bem ! está bem ! Tom , eu aceito! Os olhos de Silverfish estavam vidrados.

— e...

Dibbler deu um soquinho am igável no om bro dele.

— É só m e m ostrar a papelada. Depois você pode ir lá pra fora e fazer o que quer que sej a que você faz tão bem .

— É... Sim — disse Silverfish.

Dibbler o segurou pelos dois braços e lhe transm itiu m il watts de honestidade.

— Este é um m om ento de orgulho para m im — disse, com a voz rouca. —

Não consigo lhe dizer o quanto isso significa para m im . Posso afirm ar de todo o coração que este é o dia m ais feliz da m inha vida. Quero que saiba disso., Tom m y. Sinceram ente.

O silêncio respeitoso foi quebrado por um a contida risada de deboche. Dibbler olhou vagarosam ente ao redor. Não havia ninguém atrás deles, a não ser um pequeno vira-lata cinzento sentado à som bra de um a pilha de tábuas. O cão notou a expressão dele e colocou a cabeça para o lado.

— Au? — Ele disse.

Dibbler Cava-A-Própria-Cova olhou ao redor por um m om ento, procurando algum a coisa para atirar nele, m as percebeu que assim sairia do personagem e voltou ao aprisionado Silverfish.

— Sabe — disse com sinceridade —, foi realm ente um a sorte para m im ter conhecido você.

O alm oço num a taverna custou o dólar e m ais alguns centavos para Victor. Foi um a tigela de sopa. Todas as coisas custavam m uito caro, dissera o taberneiro, porque tudo tinha que ser trazido de longe. Não havia nenhum a fazenda perto de Holy Wood. Afinal, quem iria querer plantar coisas se podia fazer film es? Então ele se apresentou a Gaffer para o teste de tela.

O teste consistia em ficar parado durante um m inuto enquanto o operador de m anivela o observava feito um a coruj a através de um a caixa de im agens. Depois que o m inuto passou, Gaffer disse: — Certo. Você é um talento nato, garoto.

— Mas eu não fiz nada — contestou Victor. — Você só m e pediu para não m e m exer.

— É. Isso m esm o. É disso que precisam os. Pessoas que saibam ficar paradas sem nada da atuação extravagante do teatro.

— Mas você ainda não m e disse o que os dem ônios fazem dentro da caixa — disse Victor.

— Eles fazem isto — com eçou Gaffer, abrindo alguns fechos. Um a fileira de olhinhos m alévolos encarou Victor. — Estes seis dem ônios aqui — disse, apontando com cuidado para evitar as garras — olham através do pequeno buraco na frente da caixa e pintam um quadro do que veem . Tem que haver seis deles, certo? Dois para pintar, e quatro para soprar e secar a pintura. Por causa do próxim o quadro, que vem em seguida, entende? Isso porque transparente gira um grau para baixo e dá espaço para a próxim a pintura. — Ele girou a m anivela. Ela fez cliqueclique, e os diabretes com eçaram a falar num a linguagem confusa.

— Por que eles fizeram isso? — Ah, isso e porque a m anivela tam bém faz girar esta rodinha com chicotes. E a única m aneira de fazer com que eles trabalhem rápido o suficiente. Ele e um danadinho preguiçoso, o típico diabrete. E tudo por feedback, de qualquer m odo. Quanto m ais rápido você gira a m anivela, m ais rápido o film e passa, m ais rápido eles têm que pintar. Você tem que acertar bem a velocidade. Muito im portante esse trabalho de operador de m anivela.

— Mas não é tudo m uito, bem , cruel?

Gaffer pareceu surpreso.

— Oh, não. Na verdade, não. Eu tenho descanso a cada m eia hora. Norm as do Grêm io dos Operadores de Manivela. — Ele andou um pouco ao lado da bancada, onde havia outra caixa com o painel de trás aberto. Dessa vez era um a gaiola cheia de lagartos com ar preguiçoso, que olharam surpresos e tristes para Victor. — Não ficam os m uito felizes com essa, m as e o m elhor que podem os fazer. A salam andra com um , sabe, fica deitada no deserto o dia todo, absorvendo luz e, quando fica assustada, expele a luz de volta. Mecanism o de autodefesa e o nom e disso. Então, enquanto o film e passa e este dispositivo aqui abre e fecha, a luz delas sai através do film e e destas lentes aqui e vai para a tela. Basicam ente m uito sim ples.

— Com o você faz para elas se assustarem ? — perguntou Victor.

— Está vendo esta m anivela? —Oh.

Victor cutucou a caixa de im agens, pensativo.

— Bom , está bem . Então você faz um m onte de im agenzinhas. E as gira bem rápido. Deveríam os ver um borrão, m as não vem os.

— Ah — disse Gaffer, apertando a lateral do nariz. — Segredo do Grêm io de Operadores de Manivela, isso sim . Passado de iniciado para iniciado — acrescentou num tom sério.

— Achei que as pessoas só fizessem film es há alguns m eses. Gaffer ainda teve a decência de fazer um a cara de cínico.

— Bem , sim , no m om ento estam os passando m ais de colega para colega — adm itiu. — Mas nos dê alguns anos e logo estarem os passando de iniciado para iniciado... não m exe nisso! Victor fez um m ovim ento repentino, com sentim ento de culpa, tirando a m ão de um a pilha de latas sobre a bancada.

— Tem film e de verdade aí dentro — alertou Gaffer, em purrando-os com cuidado para o lado. — Tem que ter m uito cuidado com isso. Ele num pode ficar quente dem ais porque é feito de octocelulose e tam bém num gosta de batidas bruscas.

— O que acontece com ele nesse caso? — perguntou Victor, olhando fixam ente para as latas.

— Vai saber... Ninguém viveu por tem po suficiente para contar.

— Gaffer olhou para a expressão de Victor e abriu um sorriso largo.

— Não se preocupe com isso. Você vai ficar na frente da caixa de im agens anim adas.

— Só que eu não sei atuar.

— Você sabe fazer o que lhe pedem ? — O quê? Bom . Sim . Acho que sim .

— É tudo o que precisa, rapaz. E tudo o que precisa. Isso e grandes m úsculos.

eles saíram à luz do sol escaldante e seguiram para o barracão de Silverfish. Que estava ocupado.

Dibbler Cava-A-Própria-Cova estava conhecendo o cinem a.

— O que eu im aginei — com eçou Dibbler — E que, bem , olha.

Algum a coisa assim .

Ele ergueu um cartaz. Estava escrito, com um a letra trem ida: Depois desta apresenthação, Por que Não Vhisitar A Casa das Costhelas de Harga, Para o Melhor da Hawt Cuisy ne — O que é hawt cuisy ne? — perguntou Victor.

— É estrangeiro — respondeu Dibbler. Ele olhou, aborrecido, para Victor. Ter alguém com o ele debaixo do m esm o teto não fazia parte dos planos. Esperava o m om ento de poder ficar sozinho com Silverfish. — Significa com ida — acrescentou. Silverfish ficou olhando para o cartaz.

— O que é que tem ? — perguntou.

— Por que você — disse Dibbler, falando com m uito cuidado — não ergue este cartaz ao final da perform ance? — Por que faríam os isso? — Porque alguém com o Sham Harga pode te pagar m ui... algum dinheiro para isso.

Eles ficaram olhando para o cartaz.

— Eu com i na Casa das Costelas de Harga — observou Victor.

— Eu não diria que é a m elhor. A m elhor, não. Muito longe de ser a m elhor. — Ele parou para pensar um pouco. — O m ais distante de ser a m elhor que se possa im aginar, na verdade.

— Isso não im porta — disse Dibbler rispidam ente. — Isso não é im portante.

— Mas — com eçou Silverfish —, se ficássem os dizendo para todos os lados que a Casa das Costelas de Harga é a m elhor da cidade, o que todos os outros restaurantes iriam pensar? Dibbler se debruçou sobre a m esa.

— Eles pensariam "Por que não pensam os nisso antes?". Ele se recostou. Silverfish lhe lançou um olhar radiante de incom preensão.

— Segure o cartaz na m inha frente só m ais um a vez, por favor — pediu.

— Eles vão fazer exatam ente a m esm a coisa! — Exclam ou Dibbler.

— É m esm o — concordou Victor. — Eles vão querer que a gente m ostre cartazes com coisas com o "Harga Não é o Melhor Restaurante da Cidade. O Nosso é que é".

— Algo do tipo, algo do tipo — disse Dibbler, im paciente, lançando um olhar penetrante para ele. — Talvez a gente tenha que pensar m elhor nas palavras, m as algo do tipo.

A Magia de Holy Wood — Mas, m as — Silverfish lutava para se adiantar na conversa — Harga não vai gostar disso, vai? Se ele nos pagar para dizer que o seu estabelecim ento é o m elhor, e receberm os dinheiro de outras pessoas para dizer que o estabelecim ento delas é o m elhor, ele fatalm ente vai...

— Nos dar m ais dinheiro — interrom peu Dibbler — para dizer a m esm a coisa de antes, só que em letras m aiores.

Eles olharam fixam ente para ele.

— Você acha m esm o que isso vai funcionar? — perguntou Silverfish.

— Sim — disse Dibbler num tom categórico. — Vocês ouvem os feirantes todas as m anhãs. Eles não gritam "Laranj as quase fresquinhas, só um pouco am assadas, preço razoável", gritam ? Não, eles gritam "Com pra a laranj a, aproveita que tá bunita". Bom senso com ercial. Ele se debruçou sobre a m esa novam ente. — Me parece que você precisa de algo assim por aqui.

— Parece que sim — concordou Silverfish, hesitante.

— E, com o dinheiro — disse Dibbler, sua voz parecendo um pé-de-cabra fincado nas rachaduras da realidade —, você realm ente poderia continuar aperfeiçoando sua arte.

Silverfish se anim ou um pouco.

— É verdade. Por exem plo, um a form a de colocar som no...

Dibbler não estava ouvindo. Apontou para um a pilha de tábuas encostadas na parede.

— O que é aquilo? — Ah. Aquilo foi ideia m inha. Acham os que seria... er... bom senso com ercial — saboreou as palavras com o se fossem algum novo doce raro — inform ar às pessoas sobre as outras im agens anim adas que estam os fazendo.

Dibbler pegou um a das tábuas e a segurou à distância de um braço, com olhar crítico. Estava escrito: Na Próxima Semana Apresentharemos Pelias e Melisande, Uma Thragedia Rhomântica em Dois RolosObrigado — Ah — disse, desinteressado.

— Não está bom ? — perguntou Silverfish, agora totalm ente abatido. — Quer dizer, aí está tudo o que é preciso saber, não? — Me perm ite? — perguntou Dibbler, pegando um pedaço de giz da m esa de Silverfish. Ele rabiscou concentradam ente nas costas do cartaz durante algum tem po e depois o virou.

Agora estava escrito: Os Debuxes e os Homens Dhisseram Que Não era Para Aconthecer, Mas eles Não Quiseram Ouvir! Pelias e Melisande, Uma esthória de Um Amor Proibido! Uma Saga Ardhente de Paixão que Superou Thempo e espaço! Você ficará athordoado! Com 1.000 elefhantes!Victor e Silverfish leram com atenção, com o quem lê um cardápio de restaurante escrito num a língua estrangeira. Aquela era um a língua estrangeira e, para piorar as coisas, era tam bém a língua deles.

— Bem — com eçou Silverfish. — O que posso dizer... Não sei se teve algo proibido. E... foi apenas m uito histórico. Achei que aj udaria, entende, as crianças e coisas assim . A aprender história. Eles nunca chegaram a ficar j untos, sabe, e isso foi trágico. Tudo m uito... é... triste. — Ficou olhando para o cartaz.

— Em bora eu deva dizer que você conseguiu algo im pressionante aí. E... — Ele pareceu incom odar-se com algo. — Na verdade, não m e lem bro de nenhum elefante — observou, com o se a culpa fosse dele. — Estive lá a tarde toda em que o fizem os, e não m e lem bro de m il elefantes em nenhum m om ento. Tenho certeza de que teria notado.

Dibbler m anteve o olhar fixo. Ele não sabia de onde vinham , m as, agora que tinha se envolvido com a situação, tinha ideias m uito claras sobre o que deveria ser colocado nos film es. Mil elefantes era um bom com eço.

— Nenhum elefante? — perguntou.

— Acho que não.

— Bom , tem algum a garota dançando? — Hum ... não.

— Algum a perseguição violenta e pessoas penduradas pelas pontas dos dedos à beira de um precipício? O rosto de Silverfish se ilum inou um pouco.

— Acho que tem um a sacada em algum m om ento. Acho que Melisande se debruça sobre ela.

— Sim , m as o público vai prender a respiração com m edo de que ela caia? — Espero que estej am prestando atenção na fala de Pelias — disse Silverfish, im paciente. — Tivem os que usar cinco cartazes. Com letras m iúdas. Dibbler suspirou.

— Acho que eu sei o que as pessoas querem , e elas não querem ficar lendo um m onte de coisa escrita em letras m iúdas. Elas querem espetáculo! — Gente caindo da sacada? — perguntou Victor, sarcástico.

— Querem dançarinas! Querem em oção! Querem elefantes! Querem pessoas caindo do telhado! Querem sonhos! O m undo está cheio de pessoas pequenas com grandes sonhos! — O quê? Você quer dizer anões, gnom os e coisas assim ? —perguntou Victor.

— Não! — Diga-m e, senhor Dibbler — com eçou Silverfish —, qual é exatam ente a sua profissão? — Eu vendo m ercadorias.

— Principalm ente salsichas — disse Victor voluntariam ente.

— E m ercadorias — Dibbler acrescentou rapidam ente. — Só vendo salsichas quando o negócio de m ercadorias fica m eio devagar.

— E a venda de salsichas o leva a acreditar que pode produzir im agens anim adas m elhores que as m inhas? — questionou Silverfish. — Qualquer um pode vender salsichas! Não é m esm o, Victor? — Bom ... — com eçou Victor, relutante. — Ninguém a não ser senhor Dibbler conseguiria vender as salsichas do Dibbler.

— Aí está, então — disse Silverfish.

— A questão é — continuou Victor — que o senhor Dibbler consegue até vender salsichas para pessoas que j á com praram dele antes.

— Isso m esm o! — concordou Dibbler, abrindo um sorriso para Victor.

— E um hom em que consegue vender as salsichas do senhor Dibbler duas vezes consegue vender qualquer coisa.

A m anhã seguinte estava clara e radiante, com o todos os dias em Holy Wood, e eles com eçaram As Aventhuras Intheressantes e Curiosas de Cohen o Bárbaro. Dibbler havia trabalhado a noite toda na história, segundo ele. O título, Porém , era ideia de Silverfish. Apesar de Dibbler ter lhe garantido que Cohen o Bárbaro consistia basicam ente num tem a histórico e certam ente educativo, Silverfish se recusou a aceitar O Vhale de Sangue! Victor recebeu o que parecia ser um a bolsa de couro, m as descobriu ser o seu figurino. Ele se trocou atrás de duas pedras.

Tam bém recebeu um a espada grande e cega.

— Agora — disse Dibbler, que estava sentado num a cadeira de lona — o que você tem que fazer e lutar com os trolls, sair correndo e desam arrar a garota da estaca, lutar com os outros trolls e depois correr para trás daquela outra pedra ali. A m inha ideia e essa. O que você acha, Tom m y ? — Bom , eu... — com eçou Silverfish.

— Ótim o. Ok. Sim , Victor? — Você falou em trolls. Que trolls? As duas pedras se desdobraram .

— Não se preocupe com nada, m eu senhor — disse o troll m ais próxim o.

— Eu e o véio Galena ali j á ensaiam o tudo.

— Troll! — Exclam ou Victor, afastando-se.

— Isso m esm o — disse Galena. Ele exibiu um a clava com um prego na ponta.

— Mas, m as... — com eçou Victor.

— Sim ? — perguntou o outro troll.

O que Victor gostaria de ter dito era: "Mas vocês são trolls, pedras am bulantes e ferozes que vivem nas m ontanhas e atacam os viaj antes com clavas enorm es, m uito parecidas com as que seguram agora, e eu pensei, quando disseram trolls, que estavam se referindo a hom ens com uns vestindo, ah, sei lá, sacos pintados de cinza ou algo do tipo".

— Que bom — disse sem firm eza. — E...

— E não dê ouvidos a essas histórias de que a gente com e gente — disse Galena. Isso é calúnia, isso sim . Quer dizer, a gente é feito de pedra, pra que a gente ia querer com er gente...

— Ingulir — corrigiu o outro troll. — Você quer dizer ingulir.

— É. Pra que a gente ia querer ingulir gente? A gente sem pre cospe o bagaço. E, m esm o assim , a gente j á parou com essas coisa agora — acrescentou rapidam ente. — E a gente nem fazia. — Ele cutucou Victor com o cotovelo de um j eito am igável, quase quebrando um a de suas costelas. — É legal aqui — disse num tom conspirador.

— A gente ganha três dólares por dia, m ais um dólar extra para o protetor solar, por estar trabalhando durante o dia.

— Caso contrário, a gente vira pedra e fica assim até escurecer, o que é um problem a — observou o seu com panheiro.

— E, atrasa a film agem , e as pessoas ficam acendendo palito de fósforo na gente.

— Além disso, nosso contrato diz que recebem os m ais cinco centavos por usar a nossa própria clava — disse o outro troll.

— Será que podem os com eçar?... — com eçou Silverfish.

— Por que só tem dois trolls? — reclam ou Dibbler. — Que heroísm o existe em lutar com apenas dois trolls? Eu pedi 20, não pedi? — Dois está bom para m im ! — gritou Victor.

— Ouça, senhor Dibbler — com eçou Silverfish —, sei que está tentando aj udar, m as a econom ia básica...

Silverfish e Dibbler com eçaram a discutir. Gaffer, o operador de m anivela, suspirou e tirou a parte de trás da caixa de im agens anim adas para dar com ida e água para os dem ônios, que estavam reclam ando.

Victor se apoiou na espada.

_ Vocês fazem m uito esse tipo de coisa, é? — perguntou aos trolls. _ É — respondeu Galena. — O tem po todo. Tipo, em O Rei na Bharriga, eu faço o papel de um troll que saiu correndo e bateu nas pessoas. E em A Florestha Negra, eu faço o papel de um troll que saiu correndo e bateu nas pessoas. E, em Montanha Mistheriosa, eu faço o papel de um troll que saiu correndo e pulou pra cim a e pra baixo em cim a das pessoas. Não vale a pena ficar estereotipado.

— E você, faz a m esm a coisa? — Victor perguntou ao outro troll.

— Ah, o Morraine é um ator que representa tipos, não é, Morraine? — disse Galena. — O m elhor no ram o.

— Que tipos ele representa? — Pedras.

Victor ficou olhando fixam ente para eles.

— Por causa das feições escarpadas dele — continuou Galena. — Não apenas pedras. Você tem que ver ele fazendo um m onólito antigo. Você ficaria pasm ado. Vai, Morry, m ostra pra ele a sua inscrição.

— Nãão... — disse Morraine, sorrindo encabulado.

— Estou pensando em m udar o m eu nom e para trabalhar nas im agens anim adas — prosseguiu Galena. — Algo com um pouco de classe. Pensei em Sílex.

— Ele lançou um olhar de preocupação para Victor, com o se ele fosse um especialista na variedade de expressões possíveis para um rosto que parecia ter saído de um bloco de granito depois de um chute com um a bota de bico de aço. — O que e que cê acha? — É... Muito legal.

— Mais dinâm ico, eu achei — disse o futuro Sílex. Victor se ouviu dizer: — Ou Rocha. Rocha é um nom e legal.

O troll ficou olhando para ele, m exendo os lábios sem em itir som , experim entando o pseudônim o.

— Nossa. Nunca pensei nisso. Rocha. Gostei. Acho que eu devia receber m ais de três dólar por dia com um nom e que nem Rocha.

— Podem os com eçar? — perguntou Dibbler num tom severo.

— Talvez sej a possível ter m ais trolls se este film e for um sucesso. Mas não será um sucesso se extrapolarm os o orçam ento, o que significa que tem os que term iná-lo antes do alm oço. Agora, Morry e Galena...

— Rocha — corrigiu Rocha.

— Sério? Bom , de qualquer m odo, vocês dois saiam correndo e ataquem Victor, ok? Certo... vire...

O operador de m anivela virou a m anivela da caixa de im agens. Houve um barulho fraco de cliques e um coro de pequenos gem idos dos dem ônios. Victor ficou olhando com um a postura alerta.

— Isso significa que você pode com eçar — disse Silverfish, paciente. — Os trolls saem correndo de trás das pedras e você se defende com valentia.

— Mas eu não sei com o lutar contra trolls! — reclam ou Victor.

— Vou te dizer um a coisa — observou o recém -batizado Rocha. — Você finge que se defende, e a gente m eio que dá um j eito de não acertar você. A luz baixou.

— Quer dizer que é tudo fingim ento? Os trolls trocaram um olhar breve, m as que conseguiu expressar: "Im pressionante, não é?, que criaturas com o esta aparentem ente governem o m undo?" — É — disse Rocha. — É isso aí. Nada é real.

— Não tem os perm issão para m atá-lo — reiterou Morraine de m odo tranquilizador.

— Isso m esm o. A gente não ia m atar você— concordou Rocha.

— Eles para de pagar o nosso dinheiro se a gente faz coisas do tipo — Explicou Morraine, com tristeza.

Do lado de fora da falha na realidade, eles se aglom eravam e espiavam o que acontecia lá dentro com coisas que se assem elhavam a olhos, analisando a luz e o calor. Havia um a m ultidão deles agora.

Já houve um a passagem de entrada um dia. Dizer que se lem bravam disso seria errado porque não possuíam nada tão sofisticado quanto a m em ória. Eles m al tinham algo tão sofisticado quanto um a cabeça. Mas tinham , sim , instintos e em oções.

Precisavam de um a passagem para dentro.

eles a encontraram .

Funcionou m uito bem na sexta vez. O problem a principal era o entusiasm o dos trolls para bater um no outro, no chão, no ar e, com m uita frequência, em si m esm os. No final, Victor apenas se concentrou em tentar acertar as clavas quando elas passavam zunindo por ele.

Dibbler parecia m uito feliz com isso. Gaffer não estava.

— Eles se m exiam m uito de um lado para o outro. Ficaram fora de enquadram ento m etade do tem po.

— Era um a batalha — disse Silverfish.

— É, m as eu não consigo m exer a caixa de im agens de um lado para o outro — disse o operador de m anivela. — Os diabretes caem .

— Você não poderia prendê-los com um a correia ou algo do tipo? — perguntou Dibbler.

Gaffer cocou o queixo.

— Acho que eu poderia pregar os pés deles no chão.

— De todo m odo, por enquanto não será necessário — disse Silverfish. — Farem os as cenas em que você salva a garota. Onde está a garota? Eu a instruí claram ente para estar aqui. Por que ela não está aqui? Por que ninguém nunca faz o que eu m ando? O operador de m anivela tirou o toco de cigarro da boca.

— Ela está film ando A Avhentureira Loura lá do outro lado da colina — inform ou.

— Mas esse tinha que ter sido term inado ontem ! — gritou Silverfish.

— O film e explodiu — explicou o operador.

— Droga! Bem , acho que podem os fazer a próxim a luta. Ela não precisa estar presente — disse Silverfish, irritado. — Certo, pessoal. Farem os a parte em que Victor luta contra o terrível Balgrog.

— O que é um Balgrog? — perguntou Victor.

Um a m ão am igável, Porém pesada, bateu em seu om bro.

— É um m onstro m alvado tradicional. Basicam ente é o Morry pintado de verde com asas grudadas — disse Rocha. — Eu só tenho que ir lá aj udar ele com a pintura.

Rocha saiu arrastando os pés.

Ninguém parecia precisar de Victor no m om ento.

Ele enfiou a espada ridícula na areia, andou sem destino e encontrou um pouco de som bra debaixo de algum as oliveiras secas. Havia algum as rochas ali. Bateu nelas de leve. Não pareciam ser alguém .

O chão form ava um pequeno vale fresco que quase chegava a ser agradável para os padrões secos da colina de Holy Wood.

Havia até um a corrente de ar proveniente de algum lugar. Quando se recostou nas pedras, sentiu um a brisa fresca saindo delas. "Deve estar cheio de cavernas aqui em baixo", pensou.

... longe dali, na Universidade Invisível, num a pequena corrente de ar, num corredor cheio de pilares, um aparelhinho em que ninguém prestava m uita atenção havia anos com eçou afazer um barulho...

Então isso era Holy Wood. Ela não parecia ser assim na tela grande. As im agens anim adas envolviam m uito m ais espera e, se estava ouvindo bem , um a confusão com horários. As coisas aconteciam antes das coisas que lhes sucediam . Os m onstros eram apenas Morry pintado de verde com asas grudadas. Nada era de verdade.

O engraçado era o fato de isso ser em polgante.

— Já estou quase farta disto — disse um a voz ao seu lado.

Ele olhou para cim a. Um a garota vinha pelo outro cam inho. Seu rosto estava verm elho de esforço sob um a m aquiagem pálida, seus cabelos caíam sobre o rosto em cachinhos ridículos, e ela usava um vestido que, em bora claram ente feito para o seu tam anho, tinha sido criado para alguém dez anos m ais j ovem e fanático por fitas com rendas.

Era m uito bonita, em bora esse fato não fosse notado de im ediato.

— E sabe o que dizem quando você reclam a? — Ela perguntou. Não se dirigia a Victor, na verdade. Ele era apenas um oportuno par de ouvidos.

— Não consigo im aginar — respondeu Victor, por educação.

— Dizem "Tem m uita gente por aí só esperando um a chance para entrar para o ram o das im agens anim adas". Isso é o que eles dizem . Ela se encostou-se a um a árvore retorcida e se abanou com um chapéu de palha.

— Está quente dem ais — reclam ou. — Agora eu tenho que fazer um film e ridículo de um rolo para Silverfish, que não tem a m ínim a ideia do que está fazendo. E algum garoto, provavelm ente com m au hálito, feno no cabelo e um a testa em que daria para colocar um a m esa.

— E trolls — com pletou Victor num tom suave.

— Oh, deuses. Morry e Galena, não! — Sim . Só que Galena agora quer ser cham ado de Rocha.

— Achei que ia ser Sílex.

— Ele gostou de Rocha.

De trás das rochas, veio o berro queixoso de Silverfish, perguntando aonde havia ido todo m undo j ustam ente quando precisava deles. A garota revirou os olhos.

— Oh, deuses. Por causa disso estou perdendo o alm oço? — Não se esqueça de que pode com er na m inha testa — disse Victor, levantando-se.

Ele teve a satisfação de sentir na nuca o olhar pensativo dela enquanto pegava sua espada e fazia com ela alguns m ovim entos experim entais, com m uito m ais força que o necessário.

— Você é o garoto da rua, não é? —perguntou.

— Isso m esm o. E você é a garota que ia entrar em cena dali a cinco m inutos.

Ela o olhou com curiosidade.

— Com o você conseguiu um em prego tão rápido? A m aioria das pessoas tem que esperar sem anas para ter um a chance.

— As chances estão onde você as encontra, eu sem pre digo.

— Mas com o...

Victor j á havia saído de perto com um ar de indiferença e satisfação. Ela o seguiu de cara fechada e fazendo um beicinho petulante.

— Ah — disse Silverfish num tom sarcástico, erguendo o rosto. — O que eu posso dizer? Todo m undo está onde deveria. Muito bem . Vam os com eçar da parte em que ele a encontra am arrada a um a estaca. O que você tem que fazer — disse para Victor — é desam arrá-la, depois arrastá-la para longe e lutar com Balgrog. E você— apontou para a garota — você... você... você apenas o segue e tenta parecer o m ais salva que puder, certo? — Sou boa nisso — ela disse, conform ada.

— Não, não, não — interrom peu Dibbler, pondo a cabeça entre as m ãos.

— De novo não! — Não é isso o que você queria? Lutas e salvam entos? — Tem que ser m ais do que isso! — disse Dibbler.

— O quê, por exem plo? — perguntou Silverfish.

— Ah, não sei. Zástrás. Bang. O velho ratatatá.

— Barulhos esquisitos? Nós não tem os som .

— Todo m undo faz film es sobre gente correndo, lutando e caindo. Devia ter algo m ais. Tenho visto as coisas que você faz por aqui, e todas parecem iguais para m im .

— Bom , todas as salsichas parecem iguais para m im — gritou Silverfish.

— Elas têm que ser! É isso o que as pessoas esperam ! — Eu tam bém estou dando a elas o que esperam . As pessoas gostam de ver m ais daquilo que esperam ver. Lutas e perseguições, esse tipo de coisa...

— Licença, senhor Silverfish — interrom peu o operador de m anivela por cim a da falação dos dem ônios.

— Sim ? — gritou Dibbler.

— Licença, senhor Dibbler, m as eu tenho que dar com ida pra eles daqui a 15 m inutos.

Dibbler suspirou.

Pensando em retrospectiva, Victor estava sem pre um pouco incerto sobre esses m inutos que vinham a seguir. As coisas são assim . Os m om entos que m udam a nossa vida são aqueles que acontecem de repente, com o o m om ento em que m orrem os.

Mais um a batalha estilizada tinha acontecido, isso ele sabia, com Morry e o que teria sido um chicote terrível caso o troll não o tivesse enrascado entre as pernas. E, depois que o tem ível Balgrog foi derrotado e saiu de cena fazendo caretas horríveis, tentando segurar as asas com um a m ão, ele se virou e cortou as cordas que prendiam a garota à estaca. Então ele deveria tê-la arrastado rapidam ente para a direita quando...

... com eçou um zum bido.

Não havia palavras, m as algo que era a alm a das palavras entrava direto pelos seus ouvidos e descia pela espinha sem se dar ao trabalho de fazer um a parada no cérebro.

Ele olhou nos olhos da garota e se perguntou se ela tam bém estaria ouvindo. Muito longe dali havia palavras. Havia Silverfish dizendo: — Andem logo, vam os com isso, por que está olhando para ela desse j eito? E o operador de m anivela dizendo: — Eles fica m uito m al-hum orado quando perde um a refeição.

E Dibbler dizendo, com um a voz que sibilava feito um a faca cortando o ar: — Não para de girar essa m anivela! Sua visão ficou nebulosa nos cantos e havia form as nas nuvens que se transform avam e desapareciam antes que ele tivesse a chance de exam iná-las. Tão sem ação quanto um a m osca num a torrente de âm bar, tão no controle do seu destino quanto um a bolha de sabão num furacão, ele se inclinou e a beij ou. Havia m ais palavras alem do zum bido nos seus ouvidos.

— Por que ele está fazendo isso? Eu m andei ele fazer isso? Ninguém m andou ele fazer isso! — ...E depois eu tenho que lim par eles e, vou te contar, não é nada...

— Gire a m anivela! Gire a m anivela! — gritou Dibbler.

— Por que ele está olhando com essa cara? — Uau! — Se você parar de girar essa m anivela, nunca m ais vai trabalhar nesta cidade! — Escuta aqui, m eu senhor, acontece que eu faço parte do Grêm io dos Operadores de Manivela...

— Não para! Não para! Victor voltou a si. O zum bido parou e foi substituído pelo estrondo distante das britadeiras. O m undo real estava de volta, quente e voraz, e o sol fixo no céu parecia um a m edalha concedida por ser um belo dia.

A garota respirou fundo.

— Eu, nossa, eu sinto m uito m esm o — balbuciou Victor, recuando. — Eu realm ente não sei o que aconteceu...

Dibbler não parava de pular.

— É isso, é isso! — gritava. — Quando é que vai estar tudo pronto? — Bom , é com o eu disse, tenho que alim entar os diabretes, lim par eles...

— Está bem , está bem . Isso vai m e dar tem po para desenhar alguns cartazes — disse Dibbler.

— Eu j á tenho alguns — observou Silverfish num tom desinteressado.

— Tenho certeza de que sim , tenho certeza de que sim — disse Dibbler, anim ado. — Tenho certeza de que sim . E com certeza neles estão escritas coisas com o "Pode ser que você goste de ver um a Im agem Anim ada Bem Interessante"! — Qual é o problem a nisso? — perguntou Silverfish. — é m uito m elhor que um a m aldita salsicha quente! — Eu j á te disse, quando você vende salsicha, não fica por aí esperando que as pessoas queiram salsicha. Você vai lá e faz as pessoas ficarem com fom e. E você coloca m ostarda nela. Foi isso o que o seu garoto aqui fez. Ele pôs a m ão no om bro de Silverfish e acenou com a outra de m odo expansivo.

— Você não está vendo? — perguntou. Ele hesitou. Ideias estranhas invadiam sua m ente m ais rápido do que ele conseguia processar. Sentiu um a tontura diante da em polgação e das possibilidades. — Espadha da Paixão. E assim que vai se cham ar. Não vai ser um nom e inventado por algum velho doido que nem deve estar m ais vivo. Espadha da Paixão. Sim . Um a Saga Conturbada de... de Desej o e Puro, Puro, Puro aquele negócio no Calor Prim itivo de um Continente Atorm entado! Rom ance! Glam our! Em três Ardentes Rolos de Film e! Em ocione-se com a Luta Fatal com Monstros Vorazes! Grite quando m il elefantes...

— É apenas um rolo — m urm urou Silverfish, irritado.

— Film e um pouco m ais hoj e à tarde! — gritou Dibbler, revirando os olhos.

— Você só precisa de m ais lutas e m ais m onstros! — E certam ente não tem elefante nenhum — disse Silverfish num tom ríspido.

Rocha ergueu o braço áspero.

— Sim ? — perguntou Silverfish.

— Se você tiver um pouco de tinta cinza e m aterial pra fazer as orelhas, tenho certeza de que eu e o Morry poderíam os...

— Ninguém j am ais fez um film e de três rolos — disse Gaffer, pensativo. — Poderia ser m uito com plicado. Quer dizer, teria quase dez m inutos de duração. — Ele parecia refletir sobre algo. — Acho que se eu fizesse um carretel m aior... Silverfish sabia que estava encurralado.

— Olha aqui — com eçou.

Victor olhou fixam ente para a garota. Todos os outros os ignoravam .

— È... Acho que não fom os apresentados form alm ente.

— Parece que você não deixou que isso o atrapalhasse.

— Eu norm alm ente não faria algo do tipo. Eu devo ter... passado m al. Ou algo assim .

— Ah, ótim o. Está dizendo isso para que eu m e sinta m elhor? — Vam os sentar à som bra? Está m uito quente aqui fora.

— Seus olhos ficaram m eio... incandescentes.

— Sério? — Ficaram m uito esquisitos.

— Eu m e senti m uito esquisito.

— Eu sei. É este lugar. Ele m exe com a gente. Sabia — Ela disse, sentando-se na areia — que existe um m onte de regras para os diabinhos? Eles não podem se cansar dem ais, que tipo de alim ento recebem , essas coisas. Mas ninguém se preocupa com a gente. Até os trolls recebem tratam ento m elhor.

— Deve ser por causa do j eito com o eles andam por aí, com seus 2,15 m de altura e 400 kg — observou Victor.

— Meu nom e é Theda Withel, m as m eus am igos m e cham am de Ginger.

— Meu nom e e Victor Tugelbend. E... m eus am igos m e cham am de Victor.

— Este é o seu prim eiro clique, não é ? — Com o você sabe? — Você parecia gostar do que estava fazendo.

— Bom , é m elhor do que trabalhar, não e? — Espere até estar nisto por tanto tem po quanto eu — Ela disse num tom am argo.

— Há quanto tem po você faz isto? — Praticam ente desde o com eço. Cinco sem anas.

— Nossa. Tudo aconteceu tão rápido.

— É a m elhor coisa que j á aconteceu — disse Ginger sem entusiasm o.

— Acho que sim ... E... nós tem os perm issão para ir com er? — perguntou Victor.

— Não. Eles vão com eçar a gritar por nós a qualquer m om ento. Victor concordou. Tinha, de m odo geral, levado sua vida bastante satisfeito fazendo o que queria de m aneira firm e, porém despreocupada, e não achava que deveria ser diferente nem m esm o em Holy Wood.

— Então eles vão ter que gritar bem alto. Eu quero com er algum a coisa e beber algo gelado. Talvez tenha tom ado sol dem ais.

Ginger pareceu incerta.

— Bom , tem o arm azém , m as...

— Ótim o. Você pode m e m ostrar onde fica.

— Eles dem item as pessoas com o se não fosse nada...

— O que, antes do terceiro rolo de film e? — Eles dizem "Tem m uita gente que está m orrendo de vontade de entrar para o ram o das im agens anim adas", sabe...

— Ótim o. Isso significa que terão a tarde toda para encontrar duas que sej am iguais a nós. — Ele passou por Morry, que tam bém tentava se m anter à som bra de um a rocha. — Se alguém precisar da gente, estam os alm oçando.

— O que, bem agora? — perguntou o troll.

— Sim — disse Victor com firm eza, e saiu andando a passos largos.

Atrás dele, viu Dibbler e Silverfish concentrados num a discussão acalorada, com eventuais interrupções do operador de m anivela, que falava no tom vagaroso de quem sabe que irá receber seis dólares pelo dia de trabalho independentem ente de qualquer coisa.

— ... vam os fazer dele um épico. As pessoas vão falar sobre isso durante séculos.

— Sim , vão dizer que fom os à falência! — Olha, eu sei onde podem os conseguir um as estam pas coloridas feitas com gravuras em m adeira a um custo praticam ente...

— ... Eu tava pensando, talvez se eu usar uns barbantes e am arrar a caixa de im agens anim adas a um as rodas, pra ela poder ser m ovim entada...

— As pessoas vão dizer "Aquele Silverfish, esse sim era um artista das im agens anim adas, com coragem para dar às pessoas o que elas querem ". E o que vão dizer. "Um hom em que revolucionou a coisa dos m eios de..." — ... talvez, se eu fizesse um a espécie de arranj o com um a vara e um suporte giratório, a. gente pudesse deixar a caixa de im agens bem perto do...

— O quê? Você acha que vão dizer isso? — Confie em m im , Tom m y.

— Bem ... Está bem . Está bem . Mas nada de elefantes. Quero deixar isso absolutam ente claro. Nada de elefantes.

— Parece esquisito para m im — disse o arquirreitor. — Parece um bando de elefantes de cerâm ica. Achei que você tivesse dito que era um a m áquina. A Magia de Holy Wood — E m ais... m ais um aparelho — corrigiu o tesoureiro, incerto. Ele lhe deu um cutucão. Vários dos elefantes de cerâm ica oscilaram .

— Riktor o Consertador, o construiu, acho. Foi antes da m inha época.

A peça parecia um vaso grande e decorado, quase da altura de um hom em da altura de um vaso grande. Ao redor da borda, havia oito elefantes de cerâm ica pendurados em pequenas correntes de bronze. Um deles balançou para frente e para trás com o toque do tesoureiro.

O arquirreitor olhou dentro da peça.

— E cheio de alavancas e foles — observou, com repugnância. O tesoureiro se virou para a zeladora da Universidade.

— Bem , então, senhora Whitlow, o que aconteceu exatam ente? A senhora Whitlow, enorm e, rosada e com um a cinta de cim a a baixo, deu um tapinha na sua peruca ruiva e cutucou a pequena criada que pairava ao seu lado feito um barco rebocador.

Continuar: parte 4 de 6