A Magia de Holy Wood

Terry Pratchett · Capítulo 1 de 5 · parte 2/6

Páginas do PDF

A Magia de Holy Wood

Agradecimentos

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

— O corpo docente. Sim . Mas às vezes... bem ... Será que o senhor poderia fazer o favor, arquirreitor, de ver esses resultados de provas...

Era m eia-noite — não a m esm a m eia-noite de antes, m as um a m eia-noite m uito sem elhante. O velho Tom , o sino sem badalo da torre do sino da Universidade, acabara de bater seus 12 silêncios sonoros.

Nuvens densas e cinzentas esprem iam suas últim as gotas sobre a cidade. Ankh-Morpork se esparram ava sob algum as estrelas um edecidas, tão real quanto um tij olo.

Ponder Stibbons, estudante de m agia, fechou seu livro e esfregou o rosto.

— Está bem — disse. — Me pergunte qualquer coisa. Anda.

Qualquer coisa m esm o.

Victor Tugelband, estudante de m agia, pegou sua cópia surrada de Necrotelicom nicon Analisado para estudantes com experim entos Práticos e virou as páginas aleatoriam ente. Estava deitado na cam a de Ponder. Pelo m enos seus om bros estavam . Seu corpo se estendia pela parede. Essa é um a posição perfeitam ente norm al para um estudante que se sinta à vontade.

— Ok. Certo. Ok? Qual, certo, qual e o nom e do m onstro exterior à dim ensão cuj o grito característico e "Oquêoquêoquêoquêoquê"? — Yob Soddoth — respondeu Ponder de pronto.

— Isso. Com o e que o m onstro Tshup Aklathep, Sapo estelar Infernal com Um Milhão de Girinos, tortura suas vítim as até a m orte? — Ele... não fala... Ele as prende no chão e m ostra fotos de seus filhos até o cérebro delas im plodir.

— Sim . Sem pre m e perguntei com o é que isso acontece — com entou Victor, virando as páginas com o polegar. — Im agino que, depois de dizer "é, ele tem os seus olhos" pela m ilésim a vez, você j á está m eio que pronto para com eter suicídio de qualquer m aneira.

— Você sabe m uito, Victor — disse Ponder com um tom de adm iração. — Fico surpreso por você ainda ser um aluno.

— É... é. É... apenas falta de sorte nas provas, acho.

— Continua — disse Ponder. — Pergunta m ais um a.

Victor abriu o livro novam ente.

Houve um m om ento de silêncio.

então disse: — Onde fica Holy Wood? Ponder fechou os olhos e bateu na testa.

— Espera aí, espera aí... não fala... — Ele abriu os olhos. — Com o assim , onde fica Holy Wood? — acrescentou, incisivo. — Não m e lem bro de nada sobre Holy Wood nenhum a.

Victor olhou para a página com os olhos arregalados. Não havia nada sobre Holy Wood nenhum a ali.

— Eu podia j urar que ouvi... Acho que devo estar distraído — desculpou-se, pouco convincente. — Deve ter sido essa revisão toda.

— É. Chega um a hora em que cansa. Mas vai valer a pena, você será um m ago.

— É — concordou Victor. — Não vej o a hora.

Ponder fechou o livro.

— A chuva parou. Vam os dar um a saída. A gente m erece um a bebida. Victor balançou o dedo.

— Só um a então. Tenho que ficar sóbrio. Tem prova final am anhã. Tenho que m anter a m ente atenta.

— Uhhh! — disse Ponder. É claro que e m uito im portante estar sóbrio quando se presta um exam e. Muitas carreiras valorosas no ram o de lim peza de rua, colheita de frutas e perform ances de violão no m etrô se iniciaram graças à falta de conhecim ento desse sim ples fato.

Mas Victor tinha um m otivo especial para se m anter alerta. Ele poderia com eter um erro e passar.

Seu falecido tio havia lhe deixado um a pequena fortuna para que ele não se tornasse um m ago. O velho não percebeu isso ao redigir o testam ento, m as foi o que acabou fazendo. Ele achou que estivesse aj udando o sobrinho a term inar a faculdade, m as Victor Tugelbend era um j ovem m uito inteligente, de um m odo um tanto distorcido, e havia raciocinado da seguinte m aneira: quais são as vantagens e desvantagens de ser um m ago? Bem , você possui certa dose de prestígio, m as geralm ente acaba em situações de perigo e com certeza sem pre corre o risco de ser m orto por outro m ago. Ele não via futuro em ser um cadáver respeitado.

Por outro lado...

Quais são as vantagens e desvantagens de ser um estudante de m agia? Você tem m uito tem po livre, algum a liberdade de ação em assuntos com o beber m uita cervej a e cantar m úsicas obscenas, ninguém tentava m uito m atá-lo, exceto da m aneira corriqueira e com um no dia-a-dia em Ankh-Morpork e, graças à herança, tam bém era possível levar um estilo de vida confortável. E claro que não se ganhava m uito em term os de prestígio, m as pelo m enos você ficava vivo para saber disso.

Então Victor dedicou um a quantidade de energia considerável antes de tudo, para estudar os term os do testam ento, as regras bizantinas dos exam es da Universidade Invisível e todos os exam es dos últim os 50 anos. A nota m ínim a para a aprovação nos exam es finais era 88.

Ser reprovado seria fácil. Qualquer im becil consegue ser reprovado. Mas o tio de Victor não era nenhum idiota. Um a das condições da herança era que, caso Victor tirasse um a nota m enor que 80, o suprim ento de dinheiro secaria com o um cuspe ralo num forno quente.

Ele havia vencido, de certa form a. Poucos alunos haviam estudado tanto quanto Victor. Diziam por aí que seu conhecim ento em m agia se igualava ao de alguns dos m agos m ais im portantes. Ele passava horas num a cadeira confortável da Biblioteca lendo grim órios. Pesquisava estilos de respostas e técnicas de exam es. Ouvia palestras até ser capaz de citá-las de cor. De m odo geral, era considerado pelo corpo docente o aluno m ais inteligente e certam ente o m ais ocupado das últim as décadas. E, em todas as provas finais, com cuidado e com petência, conseguia a nota 84.

Era fantástico.

O arquirreitor chegou à últim a página. Finalm ente disse: —Ah. Entendi. Está com pena do garoto, não e? — Acho que o senhor não entendeu exatam ente o que quero dizer — observou o tesoureiro.

— É bastante óbvio para m im — discordou o arquirreitor. — O rapaz é sem pre reprovado por um fio de cabelo. — Ele puxou um dos papéis. — De qualquer m odo, aqui diz que ele passou. Tirou 91.

— Sim , arquirreitor. Mas ele recorreu.

— Recorreu? Para não passar? — Achou que os exam inadores não notaram seu erro nos alótropos de octírio da questão seis. Disse que não conseguiria suportar o peso na consciência. Disse ainda que isso o perseguiria pelo resto de sua vida, por ter passado de form a inj usta, se com parado a alunos m elhores e m ais m erecedores que ele. O senhor pode notar que ele tirou apenas 82 e 83 nos dois exam es seguintes.

— Por que isso? — Nós acham os que ele não queria correr riscos, m estre.

O arquirreitor bateu os dedos na m esa.

— Não posso aceitar um a coisa dessas. Não posso aceitar que alguém continue sendo quase um m ago e rindo da gente por, por... por onde m esm o as pessoas riem da gente? — Sinto exatam ente o m esm o — m urm urou o tesoureiro.

— Nós deveríam os j ogá-lo para o alto — disse o arquirreitor com firm eza.

— Para baixo, Mestre — corrigiu o Tesoureiro. — Jogá-lo para o alto seria desprezá-lo, deixá-lo de lado.

— Sim . Isso m esm o. Vam os fazer isso — anim ou-se o Arquirreitor.

— Não, m estre — disse o Tesoureiro, paciente. — Assim ele fica por cim a. Tem os que j ogá-lo para baixo.

— Certo. Encontre um equilíbrio — sugeriu o arquirreitor. O tesoureiro revirou os olhos. — Ou não — acrescentou o arquirreitor. — Então você quer que eu o m ande passear, né? É só m andá-lo vir aqui de m anhã e...

— Não, arquirreitor. Não podem os fazer as coisas assim .

— Não podem os? Achei que estivéssem os no com ando aqui! — Sim , m as é preciso ser extrem am ente cuidadoso ao lidar com o m estre Tugelbend. Ele é especialista em procedim entos legais. O que eu pensei foi em dar a ele esta prova no exam e final de am anhã.

O arquirreitor pegou o docum ento m encionado. Seus lábios se m overam em silêncio enquanto o lia.

— Apenas um a questão.

— Sim . Ou ele passa, ou é reprovado. Quero ver ele acertar 84 por cento disso.

De um m odo que seus instrutores não conseguiam definir m uito bem , m uito por causa do aborrecim ento que isso lhes causava, Victor Tugelbend era a pessoa m ais preguiçosa da história do m undo.

Não de um a form a com um , sim ples. A preguiça com um é sim plesm ente a falta de esforço. Victor tinha superado isso havia m uito tem po, tinha passado direto pelo ócio trivial e chegado ao seu extrem o. Ele se esforçava m ais para evitar o trabalho do que a m aioria das pessoas precisava se esforçar para pegar no pesado. Nunca quis ser um m ago. Nunca quis m uita coisa, exceto talvez ser deixado em paz e não ser acordado até o m eio-dia. Quando era pequeno, as pessoas diziam coisas com o "e você, o que quer ser quando crescer, rapazinho?", e ele respondia "Não sei. O que você tem pra oferecer?" As pessoas não o deixaram continuar em brom ando por m uito tem po. Não bastava ser o que você era, era preciso se esforçar para vir a ser algum a outra coisa. Ele tentou. Durante um bom tem po, tentou querer ser ferreiro, porque parecia ser interessante e rom ântico. Mas tam bém envolvia trabalho árduo e pedaços de m etal obstinados. Depois tentou querer ser um assassino, o que parecia ser elegante e rom ântico. Mas tam bém envolvia trabalho árduo e, de vez em quando, na hora da verdade, ter que m atar alguém . Depois tentou querer ser ator, o que parecia ser dram ático e rom ântico, m as envolvia usar calças de m alha j ustas e em poeiradas, aloj am entos apertados e, para seu espanto, trabalho árduo. No fim , ele se deixou ser enviado para a Universidade porque era m ais fácil do que não ir.

Tinha a tendência de sorrir m uito, de m odo levem ente intrigado. Isso dava às pessoas a im pressão de que ele era um pouco m ais inteligente do que elas. Na verdade, ele geralm ente estava tentando entender o que elas tinham acabado de dizer. E tinha um bigode fino que, sob certa luz, o fazia parecer bondoso e, sob outra, fazia parecer que ele tinha acabado de beber um m ilk-shake de chocolate bem grosso.

Orgulhava-se m uito do bigode. Quando você se torna um m ago, espera-se que pare de fazer a barba e deixe-a crescer, com o um arbusto de toj o. Os m agos m uito antigos davam a im pressão de ser capazes de capturar seu alim ento por m eio dos bigodes, com o as baleias.

Era um a e m eia. Ele vinha a passos lentos, voltando do Tam bor Rem endado, a taverna m ais eloquentem ente desqualificada da cidade. Victor Tugelbend sem pre dava a im pressão de andar devagar, m esm o quando corria.

Estava razoavelm ente sóbrio e, portanto, um pouco surpreso por se encontrar na Praça das Luas Partidas. Seguia para o pequeno beco atrás da Universidade, na direção do m uro com os tij olos rem ovíveis e espaçados de form a conveniente através do qual, havia centenas e centenas de anos, estudantes de m agia silenciosos burlavam ou, m ais precisam ente, passavam por cim a do toque de recolher da Universidade Invisível.

A praça não fazia parte do traj eto.

Ele se virou para voltar vagarosam ente pelo cam inho que tom ara e depois parou. Algo estranho estava acontecendo.

Norm alm ente haveria um contador de histórias ali, ou alguns m úsicos, ou um em preendedor à procura de possíveis com pradores para alguns pontos de referência excedentes de Ankh-Morpork, com o a Torre de Arte ou a Ponte de Latão. Naquele m om ento, havia apenas algum as pessoas m ontando um a tela grande, que parecia um lençol esticado entre postes.

Ele chegou até aquelas pessoas com o quem não queria nada.

— O que vocês estão fazendo? — perguntou num tom am igável.

— Vai haver um a apresentação.

— Ah. Teatro — disse Victor sem m uito interesse.

Vagou de volta para a penum bra úm ida, m as parou quando ouviu um a voz proveniente da escuridão entre dois prédios.

A voz disse: "Socorro", bem discretam ente.

Outra voz disse: "Me entrega logo isso, está bem ?" Victor se aproxim ou devagar e tentou enxergar por entre as som bras.

— Olá? está tudo bem ? Houve um a pausa e depois um a voz grave disse: "Você vai ver o que e bom pra tosse, garoto".

"Ele tem um a faca", pensou Victor. "Está vindo na m inha direção com um a faca. Isso significa que ou eu serei esfaqueado, ou terei que sair correndo, o que é um verdadeiro desperdício de energia." As pessoas que não atentassem para os fatos apresentados poderiam pensar que Victor Tugelbend fosse um rapaz gordo e de saúde frágil. Mas na verdade ele era incontestavelm ente o aluno com m ais inclinações atléticas da Universidade. Ter que arrastar quilos extras por todos os lados representaria um esforço excessivo, então ele cuidava para nunca engordar e se m antinha em boas condições físicas. Afinal fazer as coisas com os m úsculos em ordem representava um esforço m uito m enor do que tentar fazê-las carregando bolsas de flacidez. Ele girou a m ão e desferiu um soco desaj eitado, que não apenas acertou com o ergueu o assaltante do chão.

Depois olhou para a possível vítim a, que ainda se encolhia contra o m uro.

— Espero que não estej a ferido — disse.

— Não se m exa! — Eu não ia m e m exer.

O vulto saiu da penum bra. Tinha um pacote debaixo do braço e as m ãos estendidas diante do rosto num gesto esquisito, com os indicadores e os polegares form ando um ângulo de noventa graus e fixos de m odo que os olhinhos de furão do hom em pareciam olhar através de um a m oldura.

“Ele provavelm ente está espantando o m au-olhado”, pensou Victor. "Parece um m ago, com todos esses sím bolos na roupa."

— Im pressionante! — exclam ou o hom em , esprem endo os olhos por trás dos dedos. — Vire só um pouquinho a cabeça, por gentileza. Ótim o! É um a pena esse nariz, m as im agino que dê para fazer algo quanto a isso. Ele se aproxim ou e tentou colocar o braço sobre os om bros de Victor.

— Sorte sua — com eçou — ter m e encontrado.

— É? — surpreendeu-se Victor, que im aginava j ustam ente o contrário.

— Você é exatam ente o tipo que estou procurando.

— Desculpe — disse Victor. — Achei que você estivesse sendo assaltado.

— Ele estava atrás disso — m ostrou o hom em , batendo no pacote que trazia debaixo do braço, que ressoou com o um gongo. — Mas não teria servido de nada para ele.

— Não vale nada? — perguntou Victor.

— Não tem preço.

— Está certo então.

O hom em desistiu de tentar alcançar os dois om bros de Victor, largos dem ais, e se contentou com apenas um deles.

— Mas m uita gente ficaria decepcionada — continuou. — Olha, você tem um bom porte. Bom perfil. Ouça, rapaz, o que você acharia de entrar no ram o de im agens anim adas? — Eu?... Não. Acho que não.

O hom em o olhou com espanto.

— Você ouviu o que eu disse, não? Im agens anim adas? — Sim .

— Todo m undo quer entrar para o ram o de im agens anim adas!

— Não, obrigado — insistiu Victor, com educação. — Tenho certeza de que é um trabalho vantaj oso, m as o ram o de im agens anim adas não m e parece algo m uito interessante.

— Eu estou falando de im agens anim adas!

— Sim — concordou Victor, num tom suave. — Eu ouvi.

O hom em balançou a cabeça.

— Bom , você salvou o m eu dia. É a prim eira vez em sem anas que encontro alguém que não estej a desesperado para entrar para o ram o de im agens anim adas. Achei que todo m undo quisesse entrar para o ram o de im agens anim adas. Assim que vi você, eu pensei: "Ele deve estar querendo conseguir um a vaga no ram o de im agens anim adas esta noite".

— Obrigado assim m esm o — disse Victor. — Mas não acho que m e daria bem nisso.

— Bom , eu lhe devo um a. — O hom enzinho rem exeu no bolso e retirou um cartão. Victor o pegou. Estava escrito: — Isso é para o caso de você m udar de ideia. Todo m undo em Holy Wood m e conhece.

Victor ficou olhando para o cartão.

— Obrigado — disse com um tom vago. — E... você é m ago? Silverfish olhou para ele, espantado.

— O que fez você pensar isso? — perguntou rispidam ente.

— Você está usando um vestido com sím bolos m ágicos...

— Sím bolos m ágicos? Olhe direito, garoto! Estes certam ente não são sím bolos ingênuos de um conj unto de crenças ridículo e ultrapassado! Esses são os em blem as de um a arte esclarecida, cuj o despertar claro e novo está apenas... er... despertando! Sím bolos m ágicos...! — term inou num tom de desprezo. — E isto é um m anto, não um vestido — acrescentou.

Victor exam inou o conj unto de estrelas, luas crescentes e coisas do tipo. Para ele, os em blem as de um a arte esclarecida, cuj o novo despertar estava apenas despertando, eram idênticos aos sím bolos ingênuos de um conj unto de crenças ridículo e ultrapassado, m as aquele provavelm ente não era o m om ento certo para dizer isso.

— Desculpe. Não estava conseguindo ver direito.

— Eu sou um alquim ista — explicou Silverfish, apenas um pouco m ais sereno.

— Ah, fazer chum bo virar ouro, esse tipo de coisa.

— Chum bo, não, rapaz. Luz. Com chum bo não funciona. Fazer luz virar ouro...

— É m esm o? — perguntou Victor educadam ente, enquanto Silverfish com eçava a m ontar um tripé no m eio da praça.

Um a pequena m ultidão com eçava a se j untar. Era m uito fácil um a pequena m ultidão se j untar em Ankh-Morpork. A cidade tinha os espectadores m ais talentosos do universo. Eles observavam qualquer coisa, especialm ente se houvesse algum a possibilidade de alguém se m achucar de form a divertida.

— Por que você não fica para a apresentação? — perguntou Silverfish, e saiu de perto apressadam ente.

"Um alquim ista. Bom , todo m undo sabe que os alquim istas são m eio loucos", pensou Victor. "Isso é perfeitam ente norm al." Quem iria querer perder tem po m ovim entando as im agens? Grande parte delas estava bem do j eito que estava.

— Salsicha no pão! Com prem enquanto está quente! — alguém gritou perto da sua orelha. Ele se virou.

— Oh, olá, senhor Dibbler.

— Noite, rapaz. Quer m andar um a bela salsicha quente pra dentro? Victor encarou os tubos reluzentes na bandej a pendurada no pescoço de Dibbler. O cheiro era tentador. Sem pre era. Aí você m ordia e descobria m ais um a vez que Dibbler Cava-A-Própria-Cova sabia encontrar um a utilidade para alguns pedaços de carne que o próprio anim al desconhecia possuir. Dibbler havia decidido que, com a quantidade certa de cebolas fritas e m ostarda, as pessoas com iam qualquer coisa.

— Preço especial para estudantes — Dibbler sussurrou num tom de conspiração. — Quinze centavos, e eu tô cavando a m inha própria cova com isso. Ele abriu a tam pa da frigideira de m odo estratégico, deixando subir um a nuvem de vapor.

O arom a picante das cebolas fritas fez seu trabalho perverso. _ Só um a então — concordou Victor, cauteloso. Dibbler j ogou um a salsicha para fora da frigideira e a colocou dentro de um pão com a habilidade de um a rã que pega um a m osca.

— Você não vai ter tem po de se arrepender — disse, brincalhão. Victor m ordiscou um pedaço de cebola. Até ali ainda era confiável.

— O que é toda essa coisa? — perguntou, apontando o polegar em direção à tela oscilante.

— Algum tipo de entretenim ento. Salsicha quente! Tá um a delícia! — Ele baixou o volum e da voz, voltando ao seu sussurro norm al de conspiração. — É m oda nas outras cidades, ouvi dizer — acrescentou. — Um a espécie de im agem em m ovim ento. Eles estavam tentando fazer a coisa toda funcionar direito antes de vir para Ankh-Morpork.

Eles observaram Silverfish e alguns de seus colegas fuçar tecnicam ente na caixa sobre o tripé. Um a luz branca surgiu de repente num orifício circular na frente da caixa e ilum inou a tela. Houve um aplauso receoso por parte da m ultidão.

— Oh — com eçou Victor. — Entendi. É só isso? Mas é só a boa e velha brincadeira das som bras. Só isso. Meu tio fazia isso para m e distrair. Você conhece? Você m eio que m exe a m ão na frente da luz e as som bras form am um a espécie de im agem de silhueta.

—Ah, sim — disse Dibbler, incerto. — Tipo o "Grande Elefante" ou a "Águia Careca". Meu avô fazia essas coisas.

— O que o m eu tio m ais fazia era o "Coelho Deform ado" — lem brou Victor. — Ele não era m uito bom nisso, sabe. Era m uito constrangedor. Todo m undo sentava ao seu redor, tentando desesperadam ente adivinhar o que era a im agem , dizendo coisas com o "Porco-Espinho Assustado" ou "Arm inho Furioso", e ele ia para a cam a chateado porque a gente não tinha conseguido adivinhar que na verdade era "Lorde Henry Skipps e Seus Hom ens Derrotando os Trolls na Batalha de Pseudópolis". Não consigo ver nada de especial em som bras num a tela.

— Pelo que eu ouvi, não é isso — corrigiu Dibbler. — Eu vendi um especial com Salsicha Gigante para um dos hom ens agora há pouco, e ele disse que a coisa toda é basicam ente m ostrar im agens m uito rápido. Colar um m onte de im agens lado a lado e m ostrá-las um a depois da outra. Muito, m uito rápido.

— Mas não rápido dem ais — disse Victor seriam ente. — Não daria para vê-las se estiverem passando rápido dem ais.

— Ele disse que esse era o grande segredo: não vê-las passando. Você tem que ver todas de um a vez ou algo do tipo.

— Elas ficariam todas borradas — argum entou Victor. — Você não perguntou isso para ele? — É... não. Acontece que ele teve que sair correndo bem nessa hora. Disse que estava se sentindo m eio estranho.

Victor olhou com um ar pensativo para o resto de sua salsicha no pão e, ao fazê-lo, sentiu que alguém , por sua vez, olhava fixam ente para ele. Ele olhou para baixo. Havia um cachorro sentado aos seus pés.

Era pequeno, m agro, tinha as patas tortas e era basicam ente cinza com m anchas m arrons, brancas e pretas nas extrem idades. E não parava de olhar para ele.

Aquele era certam ente o olhar m ais penetrante que Victor j á tinha visto. Não era am eaçador nem servil. Era apenas m uito dem orado e persistente, com o se o cachorro estivesse m em orizando detalhes para depois dar um a descrição com pleta às autoridades.

Quando teve certeza de que Victor prestava total atenção nele, transferiu o olhar para a salsicha.

Sentindo-se péssim o por ser tão cruel com um pobre anim al irracional, Victor j ogou a salsicha para baixo. O cachorro a pegou e engoliu com um m ovim ento econôm ico.

Mais pessoas se am ontoavam na praça. Dibbler Cava-A-Própria-Cova se afastara e fazia negócio sem parar com aqueles farristas que chegam m ais tarde, bêbados dem ais para im pedir que o otim ism o triunfe sobre a experiência. Qualquer pessoa que com pre um a refeição depois de um a noite de farra, à um a da m adrugada, provavelm ente iria passar terrivelm ente m al de qualquer j eito, então poderia até tirar algum proveito daquilo.

Victor foi aos poucos sendo cercado por um a grande m ultidão. Ela não era com posta exclusivam ente de hum anos. Reconheceu, a alguns m etros de distância, o grande contorno espaçoso de Detritus um velho troll, conhecido entre os estudantes por conseguir em prego em qualquer lugar onde precisassem pagar alguém para atirar pessoas para fora. O troll notou sua presença e tentou piscar para ele. Isso significava fechar os dois olhos, porque Detritus não era bom em coisas com plicadas. Muitos acreditavam que, se pudessem ensinar Detritus a ler e escrever o suficiente para que pudesse se sentar e fazer um teste, ele dem onstraria ser m enos inteligente que a cadeira.

Silverfish pegou o m egafone.

— Senhoras e senhores — com eçou —, vocês têm o privilegio, nesta noite, de testem unhar um m om ento decisivo na história do Século do... — Ele baixou o m egafone e Victor o ouviu sussurrar, apressado, para um de seus assistentes "em que século estam os? É m esm o?" Depois ergueu novam ente o m egafone e continuou no tom pom poso e otim ista do início: — ... Século do Morcego-de-Frutas! Nada m enos que o nascim ento da Kinem atographia! Im agens que se m ovem sem o auxílio de m agia! Ele esperou os aplausos. Não houve nenhum . A m ultidão apenas olhava para ele. Era preciso m ais do que sim plesm ente term inar suas frases com um ponto de exclam ação para conseguir um a salva de palm as de um a m ultidão de Ankh-Morpork. Levem ente abatido, ele prosseguiu: — Dizem que e preciso Ver para Crer! Porém , senhoras e senhores, vocês não Acreditarão nos Seus Próprios Olhos! O que estão prestes a testem unhar é o Triunfo das Ciências Naturais! A Maravilha de um a era! A Descoberta do Mundo, não, ouso dizer, de Dim ensões capazes de Abalar o Universo!...

— Tem que ser m elhor do que aquela m aldita salsicha, pelo m enos — disse um a voz discreta perto do j oelho de Victor.

— ... Mecanism os Naturais com binados com equipam entos Profissionais para criar Ilusão! Ilusão, Senhoras e Senhores, sem o recurso da Magia!... Victor baixou lentam ente a direção do seu olhar. Não havia nada ali além do cachorrinho, se coçando, com penetrado. Ele ergueu a cabeça devagar e disse: — Au au? — ... Potencial educativo! As Artes! História! Agradeço-lhes, Senhoras e Senhores! Senhoras e Senhores, Vocês Ainda Não Viram Nada! Houve m ais um a pausa esperançosa para os aplausos. Alguém à frente da m ultidão disse: — É verdade. Não vim os m esm o.

— É — concordou a m ulher ao lado dele. — Quando é que você vai parar de falar e com eçar a brincadeira das som bras? — É isso m esm o — gritou um a segunda m ulher. — Faz o "Coelho Deform ado". Meus filhos adoram .

Victor olhou para o outro lado por algum tem po, para desviar a atenção do cachorro, e depois olhou bem para ele.

Ele observava a m ultidão com um ar afável e aparentem ente nem o notava. Victor cutucou o ouvido, explorando-o com o dedo. Deve ter sido um a ilusão causada por um eco ou algo do tipo. Não que o cachorro tivesse feito "au au!", em bora isso por si só j á sej a algo singular. A m aioria dos cachorros do universo nunca faz "au au", eles latem coisas com plicadas, com o "ahhuuuh!" e "uauuhh!". Não, o cachorro realm ente não tinha latido. Ele tinha dito "au au". Victor balançou a cabeça e voltou a olhar para Silverfish, que descia da frente da tela e fazia um sinal para que um de seus assistentes com eçasse a girar a m anivela ao lado da caixa. Houve um rangido que depois se transform ou num clique contínuo. Som bras indefinidas dançaram na tela, e depois... Um a das últim as coisas de que se lem brou foi um a voz ao lado do seu j oelho dizendo: — Poderia ter sido pior, senhor. Eu poderia ter dito "m iau".

Sonhos de Holy Wood.. e agora oito horas haviam se passado.

Ponder Stibbons, com o corpo pendente, olhou com culpa para a carteira vazia ao seu lado. Não era típico de Victor faltar em dia de prova. Ele sem pre dizia que gostava do desafio.

— Preparem -se para virar a folha de prova — disse o fiscal no final do corredor. Sessenta peitos de 60 futuros m agos em potencial ficaram apertados com um a tensão carregada, insuportável. Ponder m exia sua caneta da sorte com ansiedade.

O m ago no estrado virou a am pulheta.

— Podem com eçar.

Alguns dos alunos m ais convencidos viraram a folha estalando os dedos. Ponder os odiou de im ediato.

ele estendeu o braço para pegar seu tinteiro da sorte, errou feio o m ovim ento por causa do nervosism o e o derrubou. Um pequeno lago negro invadiu sua folha de perguntas.

O pânico e a vergonha tom aram conta dele. Esfregou a tinta com a barra do m anto, espalhando-a de m odo uniform e sobre a carteira. Sua rã desidratada da sorte tinha sido carregada pelo fluxo.

Verm elho de constrangim ento, respingando tinta preta, lançou um olhar de súplica para o m ago responsável, e depois um olhar de im ploração para a carteira vazia ao seu lado.

O m ago consentiu com a cabeça. Ponder, agradecido, passou para a fileira ao lado, esperou seu coração desacelerar e, em seguida, com m uito cuidado, virou a folha que estava sobre a carteira.

Dez segundos depois, e sem nenhum a razão lógica, virou a folha de novo, im aginando que houvera algum engano e que o resto das perguntas estaria de algum a form a do outro lado.

Ao seu redor, havia o silêncio intenso de 59 m entes rachando com o esforço incessante.

Ponder virou a folha novam ente.

Talvez fosse algum engano. Não... o selo da Universidade e a assinatura do arquirreitor estavam lá. Poderia ser um a espécie de prova especial. Talvez o estivessem observando para ver o que iria fazer... ele espiou ao redor disfarçadam ente. Os outros alunos pareciam estar se esforçando m uito. Talvez fosse m esm o um engano. Sim . Quanto m ais ele pensava, m ais lógico parecia. O arquirreitor provavelm ente tinha assinado as folhas, e depois, quando os copistas faziam as cópias, um deles copiou a im portantíssim a prim eira pergunta, se distraiu com algum a coisa e ninguém notou que ele não tinha acabado. Então ela foi colocada sobre a carteira de Victor, m as agora ele não estava presente, e Ponder a recebeu. "Isso significa", ele pensou num ataque repentino de fé cega, "que os deuses provavelm ente querem que eu a receba." Afinal, não era sua culpa receber por engano um a folha daquele j eito. Provavelm ente seria um sacrilégio ou algo do tipo desprezar aquela oportunidade.

Tinham que aceitar o que você escrevesse. Ponder não tinha dividido o quarto com a m aior autoridade em regras de exam es do m undo sem aprender um a coisinha ou outra.

Olhou de novo para a pergunta: "Qual é o seu nom e?". Ele respondeu.

Após algum tem po, sublinhou a resposta várias vezes com sua régua da sorte.

Depois de m ais algum tem po, para dem onstrar disposição, escreveu acim a dela: "A resposta à pergunta um é:".

Mais dez m inutos depois, arriscou um "Que é o m eu nom e" na linha de baixo e o sublinhou.

"Pobre Victor, vai lam entar m uito ter perdido esta", pensou. "Onde será que ele está?"

Ainda não havia estrada para Holy Wood. Qualquer um que tentasse chegar lá teria que pegar a rodovia para Quirm e, em algum ponto sem qualquer indicação no m eio da paisagem atrofiada, fazer um brusco desvio de rota e seguir na direção das dunas. Os barrancos eram repletos de lavandas e alecrins selvagens. Não havia nenhum som , a não ser o zum bido das abelhas e o canto distante de um a cotovia, que apenas tornavam o silêncio ainda m ais evidente.

Victor Tugelbend saiu da estrada no ponto em que o barranco havia sido derrubado e aplanado pela passagem de m uitas carroças e, pelo j eito, por um núm ero incrível de pessoas.

Ainda havia m uitos quilôm etros pela frente. Ele seguiu arrastando os pés. Ouvia vagam ente um a voz dizendo coisas com o "Onde estou? Por que estou fazendo isso?" Outra parte dele sabia que realm ente não precisava fazer aquilo. Com o a vítim a do hipnotizador que sabe que não está sendo hipnotizada de verdade e pode sair do transe na hora que quiser m as não está com vontade de fazê-lo naquele exato m om ento, ele deixou seus pés serem conduzidos. Não sabia ao certo por quê. Sabia apenas que havia algo do qual ele tinha que fazer parte. Algo que talvez j am ais fosse acontecer de novo. Um pouco atrás, m as ganhando terreno rapidam ente, estava Dibbler Cava-aprópria-Cova, tentando m ontar um cavalo. Ele não tinha m uita aptidão para cavaleiro, e de vez em quando tom ava um tom bo ou outro. Essa era um a das razões pelas quais ainda não ultrapassara Victor. A outra era que ele havia feito um a parada, antes de sair da cidade, para vender, a um preço prom ocional, sua salsicha no pão para um anão que não acreditou na sorte que teve (m esm o depois de provar as salsichas, ainda não conseguia acreditar na própria sorte). Algum a coisa cham ava Dibbler, e essa coisa tinha um a voz de ouro. Muito atrás de Cova, com as j untas dos dedos arrastando na areia, vinha Detritus, o troll. E difícil saber ao certo em que ele estava pensando. Seria com o tentar saber no que um a pom ba estaria pensando. Ele apenas sabia que o local onde deveria estar não era aquele onde estava.

Finalm ente, ainda m ais atrás, na m esm a estrada, vinha um a carroça de oito cavalos que levava um a carga de m adeira para Holy Wood. Seu condutor não estava pensando m uito em coisa nenhum a, em bora estivesse levem ente intrigado com um incidente que ocorrera bem na hora em que saía de Ankh-Morpork, na escuridão da m adrugada. Um a voz na penum bra ao lado da estrada gritara "Pare em nom e da guarda m unicipal!", e ele parou, m as nada m ais aconteceu. Ele olhou ao redor e não havia ninguém ali.

A carroça passou fazendo um estrondo, revelando, aos olhos do observador im aginativo, o pequeno vulto de Gaspode o Cão Prodígio, tentando se aconchegar entre as toras de m adeira na parte traseira. Ele tam bém estava indo a Holy Wood. E tam bém não sabia por quê.

Mas estava determ inado a descobrir.

Ninguém teria acreditado que nos últim os anos do Século do Morcego-de-Frutas, os acontecim entos do Disco eram observados de m odo im paciente e cheio de interesse por inteligências m aiores que a do Hom em — ou pelo m enos m uito m ais im orais —, que suas questões eram inspecionadas e estudadas da m aneira com o um hom em com um apetite de três dias estudaria o cardápio intitulado Tudo o que Você Puder Com er Por Um Dólar na entrada da Casa das Costelas de Harga... Bem , na verdade... a m aioria dos m agos teria acreditado, se alguém tivesse contado a eles.

E o bibliotecário certam ente teria acreditado.

E a senhora Marietta Cosm opilite, da rua Quirm , núm ero três, Ankh-Morpork, tam bém teria acreditado. Mas ela acreditava que o m undo era redondo, que um a cabeça de alho na sua gaveta de roupas íntim as afastava os vam piros, que fazia bem sair e dar um as risadas de vez em quando, que havia bondade em todo m undo, desde que se soubesse para onde olhar, e que três anõezinhos terríveis a espiavam enquanto ela se despia todas as noites. (Ela estava certa quanto a isso, mas era apenas uma coincidência.)

Holy Wood!... Ainda não era grande coisa. Apenas um a colina perto do m ar e, do outro lado, m uitas dunas. Um a área com um tipo especial de beleza, que só e bela se você puder sair logo dali ir a algum outro lugar que ofereça banhos quentes e bebidas geladas. Na verdade, ficar ali durante qualquer período era um a penitência. No entanto, havia um a cidade ali... é verdade. Cabanas eram construídas em qualquer lugar onde largassem um a carga de m adeira. Eram toscas, com o se os construtores se ressentissem pelo tem po gasto com aquilo, um tem po que poderiam ter usado para algo m uito m ais im portante, algo que realm ente tinham vontade de fazer. Eram caixas quadradas de tábuas. Exceto pela fachada. Para entender Holy Wood — Victor diria anos depois —, era necessário entender suas construções.

Você via um a caixa sobre a areia. Ela possuía um telhado pontudo e m al acabado, m as isso não im portava, porque nunca chovia em Holy Wood. Havia rachaduras nas paredes, tapadas com panos velhos. As j anelas eram buracos — o vidro era frágil dem ais para ser carregado de Ankh-Morpok até lá. E, na frente de tudo, a fachada era com o um enorm e outdoor de m adeira sustentado por um a rede de escoras.

Vista de frente, era um a extravagância arquitetônica barroca com detalhes entrelaçados, esculpidos, pintados e ornados. Em Ankh-Morpork, cham ar m uito a atenção, e deixavam a decoração para o interior. Mas Holy Wood fazia casas do avesso.

Victor andou pelo que parecia um a avenida principal entorpecida. Ele havia acordado cedo no m eio das dunas. Por quê? Havia decidido ir a Holy Wood, m as por quê? Não conseguia se lem brar. Tudo o que conseguia se lem brar era que, no m om ento da decisão, parecera ser o m ais óbvio a fazer. Havia centenas de bons m otivos.

Se ao m enos pudesse se lem brar de um deles...

Não que em sua m ente houvesse algum espaço para lem branças. Ela estava ocupada dem ais se conscientizando de que ele estava com m uita fom e e um a sede intensa. Seus bolsos carregavam um total de sete centavos. Isso não pagaria nem um a tigela de sopa, quanto m ais um a boa refeição.

Precisava de um a boa refeição. Tudo ficaria m uito m ais claro após um a boa refeição.

Ele andou entre a m ultidão. A m aior parte das pessoas parecia de carpinteiros, m as havia outras, carregando galões ou caixas m isteriosas. Todo m undo se m ovia de m odo m uito rápido e decidido, entregue a algum obj etivo im portante. Exceto ele.

Seguiu pela avenida im provisada, olhando pasm ado para as casas, sentindo-se um gafanhoto perdido num form igueiro. E não parecia haver...

— Vê se olha por onde anda! Bateu num m uro. Quando retom ou o equilíbrio, a pessoa em quem havia esbarrado j á tinha sum ido no m eio da m ultidão, ele ficou olhando por um m om ento e depois saiu correndo atrás dela.

— Ei! — gritou. — Desculpe! Por favor? Moça? Ela parou e esperou, im paciente, até que ele a alcançasse.

— Então? — Era 30 centím etros m ais baixa que ele, e tinha form as indefiníveis, j á que a m aior parte de seu corpo estava escondida por um vestido ridiculam ente cheio de babados, ainda que m enos côm ico que a enorm e peruca loira cheia de cachos que usava. Seu rosto estava branco de tanta m aquiagem , com exceção dos olhos, que tinham um forte contorno preto. O efeito geral era o de um abaj ur que não tinha um a boa noite de sono havia m uito tem po.

— Então? — Ela repetiu. — Anda logo! Tenho que entrar em cena daqui a cinco m inutos!

— É... Ela se soltou um pouco.

— Não, não m e diga. Você acabou de chegar. É tudo novo para você. Não sabe o que fazer. Está com fom e. Não tem dinheiro. Acertei?

— Sim ! Com o você sabia?.

— Todo m undo com eça assim . E agora você quer invadir os cliques, certo? — Os cliques? Ela revirou os olhos até desaparecerem os círculos pretos.

— As im agens anim adas! — Ah... "Eu realm ente quero", pensou. "Eu não sabia, m as quero. Sim . Foi por isso que vim para cá. Por que não pensei nisso antes?"

— Sim . Sim , é isso o que eu quero fazer. Eu quero... é... invadir. E com o se faz isso?

— Espera-se um a eternidade. Até ser notado. — A garota o olhou de cim a a baixo com um desprezo explícito.

— Por que não aprende a m exer com carpintaria? Holy Wood sem pre precisa de bons assassinos de florestas.

Então ela deu um a volta e desapareceu, perdida na m ultidão de pessoas atarefadas.

— É... obrigado! — Victor gritou para ela. — Obrigado. — Ele ergueu a voz e acrescentou: — Espero que seus olhos m elhorem ! Victor balançou as m oedas que tinha no bolso.

Bem , carpintaria estava fora de cogitação. Parecia m uito trabalho pesado. Havia tentado um a vez, e a m adeira e ele logo chegaram a um acordo: ele não a tocaria, e ela não racharia. Esperar um a eternidade até parecia interessante, m as era preciso dinheiro para fazê-lo.

Seus dedos se fecharam em torno de um pequeno e inesperado retângulo. Ele o retirou do bolso para ver o que era.

O cartão de Silverfish.

O endereço no cartão, Holy Wood, nº 1, era na verdade um conj unto de barracos delim itado por um a cerca alta. Havia um a fila diante do portão. Era form ada por trolls, anões e hum anos. Pareciam estar por ali havia algum tem po. Na verdade, alguns deles tinham um a postura de desânim o tão natural ao ficarem parados de pé que davam a entender que tinham evoluído a partir dos form adores de fila préhistóricos. Ao lado do portão havia um hom em grande e corpulento, que observava a fila com o olhar arrogante dos detentores de pequenos poderes.

— Com licença... — com eçou Victor.

— O senhor Silverfish não vai contratar m ais ninguém esta m anhã — disse o hom em pelo canto da boca. — Então cai fora.

— Mas ele disse que se algum dia eu viesse para...

— Eu não acabei de dizer cai fora, am igo? — Sim , m as...

A porta que havia na cerca se abriu um pouco. Um rosto pequeno e pálido apareceu.

— Precisam os de um troll e de alguns hum anos. Um dia, o valor de sem pre. — O portão se fechou novam ente.

O hom em se esticou e colocou as m ãos cheias de cicatrizes ao redor da boca.

— Vam os lá, bando de horrorosos! — gritou. — Vocês ouviram o hom em ! — Ele passou os olhos pela fila com a naturalidade de um criador de gado. — Você, você e você — Escolheu, apontando.

— Com licença — insistiu Victor, querendo ser prestativo —, m as acho que aquele hom em ali estava na frente...

Ele foi em purrado para o lado. Os três sortudos entraram . Victor ficou com a im pressão de ter visto o brilho de m oedas trocando de m ãos. Em seguida, o porteiro virou o rosto verm elho de raiva na direção dele.

— Você, vai pro fim da fila. E fica por lá! Victor olhou bem para ele. Olhou para o portão. Olhou para a longa fila de pessoas abatidas.

— Hum , não. Acho que não. Obrigado assim m esm o.

— Então se m anda! Victor deu um sorriso am igável. Andou até o fim da cerca e percorreu toda sua extensão. Em seu outro extrem o, ela entrava num beco estreito. Victor vasculhou os entulhos, com uns em qualquer beco, até encontrar um pedaço de papel. Depois arregaçou as m angas e som ente então exam inou cuidadosam ente a cerca até achar algum as tábuas soltas que, com um pouco de esforço, lhe deram passagem .

Isso o levou a um a área cheia de pilhas de m adeira para construção e m ontes de tecidos. Não havia ninguém por perto.

Com o andar determ inado, consciente de que alguém com as m angas arregaçadas, andando com determ inação e segurando um pedaço de papel facilm ente visível j am ais seria incom odado, seguiu pelo m undo m aravilhoso de m adeira e lona da Interessante e Instrutiva Kinem atographia. Havia prédios pintados na parte de trás de outros prédios. Havia árvores que de frente eram árvores e por atrás, apenas um m onte de escoras. Havia um a agitação de pessoas em atividade, em bora, pelo que Victor pôde ver, ninguém estivesse realm ente produzindo nada.

Ele viu um hom em com um a longa capa e um chapéu pretos e um bigode que parecia um a piaçava am arrar um a garota a um a das árvores. Ninguém parecia querer im pedi-lo, ainda que ela estivesse se debatendo. Algum as pessoas, na verdade, assistiam sem m uito interesse, e havia um hom em atrás de um a caixa grande sobre um tripé girando um a m anivela.

Ela esticava os braços, suplicando, e abria e fechava a boca sem em itir nenhum som .

Um a das pessoas que assistiam se levantou, m exeu em um a pilha de placas ao seu lado e segurou um a delas diante da caixa.

Era preta. Em branco, estava escrito: "Não! Não!" Ele saiu de perto. O vilão retorceu o bigode. O hom em voltou com um a placa. Desta vez, estava escrito: "Ahá! Minha bhela orghulhosa!" Outro observador, que perm anecia sentado, pegou um m egafone.

— Ótim o. Ótim o. Está bem , façam um intervalo de cinco m inutos e depois, todos aqui de volta para a grande cena de luta.

O vilão desam arrou a garota. Eles saíram andando. O hom em parou de girar a m anivela, acendeu um cigarro e abriu a parte de cim a da caixa.

— Todo m undo entendeu o que ele disse? — perguntou.

Houve um couro de gritos im pacientes.

Victor foi até o hom em do m egafone e deu um tapinha em seu om bro.

— Recado urgente para o senhor Silverfish! — Ele está lá nos escritórios — disse o hom em , apontando para trás com o polegar, sem olhar à sua volta.

— Obrigado.

O prim eiro galpão em que ele pôs a cabeça não continha nada alem de fileiras de pequenas j aulas que se estendiam na escuridão. Vultos indefinidos se atiravam contra as grades e guinchavam para ele. Ele bateu a porta correndo. A porta seguinte revelou Silverfish, parado diante de um a m esa coberta de cacos de vidro e m ontes de papel. Ele não se virou.

— Coloque ali, por favor — ordenou distraidam ente.

— Sou eu, senhor Silverfish — disse Victor.

Silverfish se virou e olhou com um a expressão vaga para ele, com o se fosse culpa de Victor que seu nom e não significasse nada. —Sim ? — Vim por causa daquele em prego. Sabe? — Que em prego? O que eu devo saber? Com o é que você conseguiu entrar aqui? — Eu invadi as im agens anim adas — disse Victor. — Mas não é nada que um m artelo e uns pregos não deem j eito. — O pânico tom ou conta da expressão de Silverfish. Victor sacou o cartão e acenou com ele de um a form a que esperava ser tranquilizadora. — Em Ankh-Morpork? Algum as noites atrás? O senhor estava sendo am eaçado...

O m istério foi elucidado.

— Ah, sim — disse Silverfish quase para si m esm o. — E você é o rapaz que deu um a aj uda.

— E o senhor m e disse para procurá-lo se eu quisesse anim ar im agens. Naquela hora eu não queria. Mas agora eu quero. — Ele abriu um sorriso radiante para Silverfish.

Mas pensou: "Ele vai tentar se livrar dessa. Está lam entando a oferta. Vai m e m andar de volta para a fila".

— Bem , claro, m uita gente talentosa quer entrar para o ram o das im agens anim adas. Em breve terem os som . Então, você é carpinteiro? Algum a experiência alquím ica? Já treinou diabretes? Algum a habilidade m anual de qualquer tipo? — Não — adm itiu Victor.

— Sabe cantar? — Um pouco. No banheiro. Mas não m uito bem — Reconheceu Victor.

— Sabe dançar? —Não.

— Espadas? Sabe m anej ar um a espada? — Um pouco — disse Victor. Ele havia usado espadas algum as vezes na academ ia. Nunca chegara a lutar contra um oponente, um a vez que os m agos em geral abom inam exercícios, e o único outro residente da Universidade que chegara a entrar no local havia sido o bibliotecário, e apenas para usar as cordas e os aros. Mas Victor havia praticado um a técnica vigorosa e idiossincrática na frente do espelho, e não havia sido derrotado nenhum a vez.

— Entendi — disse Silverfish, desanim ado. — Não sabe cantar. Não sabe dançar. Sabe m anej ar a espada um pouco.

— Mas salvei sua vida duas vezes.

— Duas? — questionou Silverfish.

— Sim — respondeu Victor. Ele respirou fundo. Aquilo seria arriscado. — Aquela vez e agora.

Houve um a longa pausa. Depois Silverfish disse: — Eu realm ente acho que não há nenhum a necessidade disso.

— Me desculpe, senhor Silverfish — pediu Victor. — Eu realm ente não sou esse tipo de pessoa, m as o senhor fez a oferta, e eu andei até aqui, não tenho dinheiro, estou com fom e e farei qualquer trabalho que o senhor m e der. Qualquer um m esm o. Por favor.

Silverfish olhou para ele, desconfiado.

— Até de ator? — Perdão? — Andar de um lado para o outro e fingir que está fazendo coisas — Explicou Silverfish, tentando aj udar.

— Sim ! — É um a pena, um rapaz inteligente e educado com o você. O que é que você faz? — Estou estudando para ser m ... — Victor com eçou. Ele se lem brou da antipatia de Silverfish pela m agia e se corrigiu —... balconista.

— Malconista? — perguntou Silverfish — Mas não sei se conseguiria ser ator — confessou Victor.

Silverfish ficou surpreso.

— Ah, você vai se sair bem . E m uito difícil ser um m au ator em im agens anim adas. — Ele rem exeu nos bolsos e tirou um a m oeda de um dólar. — Tom a. Vai com prar algum a coisa para com er.

Ele olhou Victor de cim a a baixo.

— Está esperando algum a coisa? — perguntou.

— Bem , espero que o senhor possa m e dizer o que está acontecendo.

Continuar: parte 3 de 6