A Nuvem

Luís Couceiro · Capítulo 11 de 15

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A Nuvem

Scena Primeira

 

HENRIQUE E MARGARIDA

 

Henrique

Ora aqui tem os novos aposentos

Que servirão de galla aos meus intentos.

Repare? Veja o luxo d'esta salla,

Que a nada, mesmo a nada mais se eguala. Hein! Hein! Que lhe parece?!

Margarida

(Admirada)

Realmente,

É soberbo! ideal! Mas, francamente,

Acho bello de mais: bello de mais

P'ra quem se entrega a gosos tão vestaes!...

Henrique

Engano, Margarida, puro engano;

Tudo isto é impostura e só profano!

Apenas a mudança de scenario,

Com quanto lhe pareça um relicario

O que está vendo, creia. Tão sómente{32} D'aspecto a mutação, mas apparente

E falso, no que indica, pois de facto,

Quanto vê, é traidor e bem ingrato;

Senão vejâmos: Ha n'este conjuncto O mais completo, o mais perfeito assumpto, Para que se analyse e fundamente

Toda, toda a ironia d'este ambiente;

E descrever, eu vou, essa ironia,

Sem lhe oppôr a mais leve phantasia.

Queira ouvir:

Margarida

Ouvirei...

Henrique

Repare então:

O que se nota n'esta perfeição,

Unicamente serve p'ra esconder

A cynica existencia da mulher!

Margarida

(Interrompendo)

Minha rival? Talvez!?

Henrique

Nem mais, diz bem!

Sua rival, que arrojo mostra e tem

Para se apresentar envaidecida

No luxo de que a salla é guarnecida.

Conhece-a?...

Margarida

Talvez não... eu nunca a vi...

Henrique

Pois para isso a conduzo eu hoje aqui:

Mas antes, extasie-se no espavento

D'estas decorações, cujo elemento

Só pretende encobrir o que lá fóra

Se chama a todo o instante e a toda a hora Miseria, corrupção e tudo o mais

Que tanto affronta e insulta bons mortaes! Admire-se perante as bambinellas{33} Que, pendentes das portas e janellas,

Servem para vedar todo este centro

A bachanaes, passadas aqui dentro! Reveja-se em vestaes tapeçarias

Soffucando o ruido das orgias;

Nos estofos que abafam enthusiasmos,

Os gritos de volupia, os espasmos

D'uma lubricidade illimitada...

Margarida

(Interrompendo)

Mas diga? Não será exagerada

A affirmativa?

Henrique

Como assim? Duvida?

Margarida

(Admirada)

É que, em verdade, nunca em minha vida Soube como se possa conjugar

Toda a revolução do lupanar

Com esta ordem e acceio que estou vendo; E com effeito, Henrique, não entendo,

Não percebo a harmonia que se avista,

Sómente discordante e antagonista

Ao meio onde se espalha a corrupção.

Henrique

É o que lhe parece...

Margarida

Qual? Não; não

Posso acreditar, não, no que me diz,

Pois que a nossa existencia jámais quiz

Acceitar os cuidados d'este apuro.

Henrique

(Interrompendo)

E comtudo, affirmo, é um lar prejuro...

Margarida

(Em duvida)

Será, mas... mas para isso não se admitte{34} A apparencia do arranjo, que transmitte

Não sei que, de completa opposição Á anarchia da nossa profissão;

E eu sinto que d'instante para instante

O esp'rito se consulta, inquietante,

Na atmosphera que aqui dentro respiro... Diga? Diga? Onde estou eu?!...

Henrique

N'um retiro

Cuja devassidão bem se proclama,

Repito, muito embora tenha a fama

D'honesto, muito embora elle se incense

D'um perfume que nunca lhe pertence.

Duvida ainda?

Margarida

Sim! eu... eu duvido!

Porque não póde ter aqui vivido

A mulher que appelida de devassa;

E affirmarei, senhor, que a nossa raça

Foge a toda e qualquer preoccupação,

Que não seja gosar devassidão!

 

(Olhando para tudo)

Tudo isto que a meus olhos se depara,

É coisa que se torna muito rara

A nossos olhos! Coisa vaga, inutil,

Sem valôr, pueril, impropria, futil,

Para quem como nós, p'ra quem como eu, Se ceva nos instinctos que me deu

A sorte, e se refaz insaciada

Na sêde d'uma vida depravada!

Henrique

(Approximando-se de uma chaise-longue, e fazendo signal a

Margarida para se sentar)

Está bem Margarida, venha cá;

Sentemo-nos, que mui não tardará

Que momento opportuno e bom ensejo

Apresente mil provas de sobejo, Destrahindo, negando e desmentindo

Tão errada impressão que está sentindo.{35}

Margarida

(Sentando-se)

Impressão tal, senhor, que, na verdade,

Se apossa de mim com necessidade

De profundar o fim deste recanto,

Receosa de crêr que seja o manto

Da deshonra que o cobre. Pois! Pois quê! Aonde e em que parte é que ella se vê

Vegetando assim? Diga-me: em que parte Ella pode adorar a belleza e arte

Do conjuncto tão bem disposto aqui?

Não, Henrique! A deshonra folga e ri

No turbilhão d'immenso desalinho,

Não lhe sobrando tempo p'ra o carinho

E trato da vivenda que se habita;

A deshonra sómente tem escripta

Na mansarda a legivel taboleta

Que annuncia onde pára, onde vegeta.

E as nossas mãos, que apenas tem o dom De sentir, do dinheiro, o timbre e o som,

Não sabem como tudo isto se faz

Dentro da ordem e d'esta santa paz.

As nossas mãos têm o unico mister

De procurar os gosos e o prazer

Do ouro, que só se emprega na razão

Do luxo, necessario á attracção

Da vista indagadora das orgias,

E indispensavel para a concorrencia

Da prostituidora residencia!...

As nossas mãos sómente se utilisam

Nos postiços que tanto symbolisam

O antro por onde sempre rezidi,

E já n'elle então, uma vez ali,

Quando na ausencia, quando no despojo Das seducções, só tudo logo é nojo

No labyrintho d'horas viciosas,

Na balburdia de noites amorosas!

Uma vez ali, tudo vem dizer

Do estado social d'uma mulher!

 

E quer, senhor, fazer-me convencer,

Que possa n'esta casa só viver

Alguem que a minha classe represente?

Henrique

Quero sim; quero, e muito facilmente...{36}

Margarida

Porém, como? No luxo do aposento

Não, porque n'elle ha todo o sentimento

Que eu ignoro. Na graça e harmonia

Muito menos, por quanto a apostasia

De virtudes se não traduz assim,

E nem ella se adquire com tal fim!

Henrique

Porque o sabe?

Margarida

No exemplo d'esta vida,

Que uma outra aniquilou e fez perdida!

Nas provas da existencia que atravesso,

Demonstrando que tudo isto é avesso

Á desorganisada habitação

De quem só s'expõe á prostituição!

 

(Levantando-se e puxando Henrique pelo braço) Ouça: se, como diz e me affiança,

Estamos sob um tecto d'aliança

Deshonesta; se, como bem proclama

A devassidão n'este lar se inflama

Por impudica e má camaradagem...

(Apontando para um Christo que está na parede e para a imagem

da Virgem, n'um quadro)

Que faz, senhor, além, aquella imagem?

E inda est'outra aqui? tanto a destoar

Do cortejo que envolve o lupanar?

Henrique

São os taes attributos da mentira,

Ante os quaes se revê e mui se admira!

Margarida

Mentira?! Mas onde, onde apparece ella? E como e de que fórma se revella,

Se, por muito que faça, inda a não vi...{37}