A Nuvem

Luís Couceiro · Capítulo 14 de 15

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A Nuvem

Scena Segunda

 

MARGARIDA E FERNANDO

 

Fernando

(Entrando pelo fundo)

Ora até que emfim, linda Margarida!?

Por onde tem andado tão perdida?

Margarida

(Interrompendo n'um estremecimento subito de surpresa e quasi

de indignação)

Ah!...

Fernando

(Avançando e continuando)

Por onde se tem tornado preza

E errante a sua graça e gentileza?!

Margarida

(Dissimulando a tristeza)

Em parte alguma, creia...

Fernando

Não parece...

E olhe que o promettido não se esquece. Mas que tem? Que tem? Vejo que chorou?!

Margarida

Chorar? Eu?! Eu?!

(Á parte, limpando os olhos)

Oh! sim! não se enganou!

(alto) Chorar? Eu?! Não!{52}

Fernando

Mas, seus olhos vermelhos,

São de tal flagrantissimos espelhos!

Margarida

(Dissimulando)

Nada isso diz, embora lhe pareça;

Effeitos só de dôres de cabeça

Que ha dias me apoquentam...

Fernando

E que, espero,

Melhorem ante o meu voto sincero,

E não impeçam minha estada aqui,

Já que de novo me honra, e me sorri

O convite, tornando-se occupado

O logar que me disse ter vagado.

Margarida

(N'um rapido estremecimento)

O que?! Fui eu que o disse?! Eu é que o disse?!

Fernando

(Com estranheza)

Duvída? Mas que grande exquisitice

Representa essa duvida!...

Margarida

Porque?!...

Fernando

(Tirando do bolso um cartão)

Em face do bilhete onde se lê

O seu pedido, e ainda mesmo, quando

Claramente dizendo e bem frizando

(Approximando-se de uma porta latteral)

Certas palavras, junto d'esta porta;

A não ser que, que seja letra morta

O que me affirmou!{53}

Margarida

(Com repulsão)

Não! Não me recorda?!

Fernando

Veremos, n'esse caso, se, se aborda

A phrase muito nitida ao ouvido,

Para que ella jámais tenha esquecido.

 

Foi aqui, veja, foi n'este logar

Que, apontando-me altiva e sem pezar,

(Olhando para o interior d'um quarto)

Certa vaga que ali dentro existia,

Perguntou o que lá se achava e via.

 

Respondi... o que ainda vejo:

Um leito.

(Malicioso)

E por signal que estava bem desfeito,

Em contraste com toda a compostura

Que ora se nota. Então, é n'esta altura

Que assim exclama:

«Está ao seu dispôr».

Margarida

Lembra-me com effeito! (Á parte)

Mas que horror!

(Alto e approximando-se de Fernando)

É verdade! E a verdade diz, Fernando!

Mas foi um dito mau, dito execrando!

Dito que não devia proclamar

(Com desespero)

E que fez mal, só mal, em m'o lembrar.

Fernando

(Surprehendido)

Porém, nada percebo, e muito menos

Com taes palavras, cujo modo e acenos

São expostos em termo áspero e rude.

Margarida

(Apontando o leito)

Aquella vaga, occupa-a hoje a Virtude.{54}

Fernando

(Estupefacto)

Como assim?! Isso é dito com ironia?!...

Margarida

Fallo com consciencia e ufania

De a possuir!

Fernando

Verdade?! Isso é verdade?!...

Margarida

Digo-lh'o com a mor sinceridade.

O leito que em orgias se desfez,

Hoje... sómente cobre a honradez!

Fernando

(Approximando-se da meza, sentando-se e com ironia) Bravo!... Sim senhor! Muito bem! Comtudo, Espero que me explique por miudo

O que em vida de gran desfaçatez

Se entende por virtude ou honradez.

Margarida

(Approximando-se tambem da meza e sentando-se) Será um sacrifício, mas, emfim,

Cumprirei seu desejo.

Fernando

(Rindo)

E quanto a mim,

Agradeço a irrisoria explicação,

Que ouvirei com a maxima attenção.

 

Vamos. Comece. O que é honra e virtude?...

Margarida

(Com amargura)

Sabel-o no passado, eu nunca pude,

Mas no presente, d'ella tenho a fé!

Virtude e honra, meu caro, eu lhe digo... É...{55}

(Com certo desprezo)

É... o que o senhor nunca comprehendeu!...

Fernando

(Cada vez mais surprehendido)

Que nunca comprehendi? Que disse?! Eu?! Eu?!

Margarida

Sim, meu caro senhor! Que nunca, nunca Comprehendeu; pois quem lança p'ra espelunca Do vicio a mulher que disse amar,

A virtude não sabe interpretar.

Fernando

Allude então...

Margarida

(Atalhando)

Á minha triste historia

Muito bem reflectida na memoria!

Fernando

Mas isso... já lá vae ha tanto, ha tanto...

Margarida

Ah! Lembra-se? Pois bem! E embora o pranto Volte a offuscar-me as faces de vergonha, Rememoro o que em epocha risonha

D'uma vida serviu para o transporte

Da reles existencia e fraca sorte.

 

Creança, inda bem nova, inexp'riente,

Senti n'alma o que sente toda a gente.

Despertando p'ra quadra d'um amor:

E a pouco extasiada n'esse alvôr,

Deixei que me prendessem sympathias

Que vibravam n'um canto de harmonia:

Tudo então me sorria e tudo amava!

A graciosa manhã que despontava

No melodico trio de avesinhas,

O sol que vivifica as floresinhas,

O declinar da tarde, as noites bellas, Da lua o brilho, a graça das estrellas,{56} O conchego, a familia, o trabalho,

A paz, tranquilidade e o agasalho,

A invocação, a biblia e a reza;

Eu amava, emfim, toda a natureza,

Pelo proprio amor da juventude,

A vibrar como cordas de alaúde

N'um peito que se alava para o bem!

Mas de subito, meu Deus! esse alguem

Que me elevara aos paramos do amor;

Quem me ajudara a crel-o no primôr

Da verdade, e guiava o norte meu,

Que devia subir até ao ceu...

Corta, derruba, as azas d'este alar,

E obriga-me a cahir, faz-me tombar

No grande turbilhão da tempestade,

Na hecatombe e na mór fatalidade!

E tudo, tudo então quanto eu amava,

Breve se convertia e se trocava

Pela renegação, pela baixeza,

Deixando já d'amar a Natureza,

Para me filiar em quê? Em quê?

Nas hostes dos que nunca teem fé!

 

E tombei! E cahi! (chorando).

Sim, sim, tombei!

Á custa de quê? Deus meu! Nem eu sei?!

(A Fernando)

Sei! Sei, senhor! Á custa do abandono

Que me precipitou n'aquelle somno,

Cuja lethargia obra o desvario

N'um corpo molestado e doentio,

Em proveito de todo o esquecimento

Do que de bem havia em sentimento!

Pois se eu amava tanto, e d'esse amor

Em si depositei e puz, senhor,

A esperança ditosa de meus dias,

Sem que se me opposessem phantasias; Se tudo lhe entreguei: alma, honra e vida, Para que tornar tão desvanecida

A fraqueza da minha confiança?...

Fernando

(Pretendendo desculpar-se)

Porque eu... porque eu tambem era creança...

(Levanta-se){57}

Margarida

Não! Não! Diga que foi a sêde e fome

De usufruir, e após, pensar que o nome

Humilhava, e jámais lhe serviria

P'ra linda sugestão que me incutia;

Diga: foi o que muita gente faz,

Captivando, prendendo em fórma audaz

O debil ser, a fragil creatura,

Que ora subjugada ante a noite escura

Do vosso infame e vil, e vil narcotico,

Obedece depois ao espasmodico

Furôr de saciar as intenções

Com que se roubam fracos corações.

Não é isto?

Fernando

(Perturbado)

Mas...

Margarida

(Levantando-se)

Mas... senhor Fernando

Queira explicar-me agora quando, quando Foi por si concebida a qualidade

Virtuosa, por entre a sociedade?!

Fernando

(Succumbido)

Actualmente á face da razão...

Que decerto ditou a reacção

Do mal, d'esse mal que m'inclue nos réus Do mundo!

(Pausa e estendendo a mão a Margarida)

Margarida... adeus!...

Margarida

(Apertando a mão de Fernando)

Adeus...

(Fernando sae){58}