A Nuvem

Luís Couceiro · Capítulo 5 de 15

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A Nuvem

Scena Quinta

 

MARGARIDA E MARIA

 

Maria (entrando)

Satisfeito foi já o seu recado...

Margarida

Pois outro tem de ser executado

E deligentemente. Espera um pouco,

Emquanto escrevo á Dona d'esse louco Que hoje me abandonou. E na pequena

Segura já.

(Entregando-lh'a e sentando-se a escrever)

Alguns traços de pena,

E prompto. Nada mais ha a fazer

Na consciencia de tão reles mulher!

(Dictando o que escreve)

«Senhora!

Deposito essa creança,

Filha de seu marido, e esperança

Tenho que irá ser muito mais feliz,

Do que no antro que apenas só se diz

Do vicio, da vergonha!»

(Entregando a carta á creada)

Ora aqui tens...

(Á parte)

E inda dizem que são más estas mães!

(Á creada)

Desejo que sem perda de momento

Ás minhas ordens tragas cumprimento.

Procuras indagar qual a morada

Do fugitivo Henrique, e lá, na escada,

A pequenita deves collocar,

Bem como a carta junta ahi deixar.

Depois, tens que affastar-te de repente,

Percebes?{11}

Maria

Muito bem, e fico sciente.

(Estupefacta)

Porém, senhora! nem sequer um beijo

Na creancinha?!

Margarida (imperiosa)

Basta-me o desejo

Da sua vida. Vae! Assim t'o ordeno,

Muito embora com alma de veneno!

Maria

(Indo a sahir e parando ao fundo)

Mas... mas de que é feito esse coração?!

Margarida (indicando-se)

É coisa que não ha na habitação!

Vae...

Maria (repentina)

Irei. (sáe).