A Nuvem

Luís Couceiro · Capítulo 1 de 15

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A Nuvem

Prologo

PERSONAGENS

 

Henrique

Fernando

Arminda

Margarida

Maria, creada

Uma creança de 6 mezes

 

PROLOGO

 

Casa de Margarida, em completo desalinho. Uma meza ao centro, á

qual Henrique se encontra sentado, lendo alto a carta que acaba

de escrever.

SCENA PRIMEIRA

 

HENRIQUE, DEPOIS MARGARIDA E MARIA

 

Henrique (só)

«Corre um anno de vida desgarrada

Que sempre tem levado o teu amante,

E outra vida, decerto, attribulada,

Suavisar, se procura, n'este instante.

Vou partir, Margarida, e sê feliz;

Porque emfim, cêdo apenas a um esforço De sentimento são; e ás almas vis

Cabe-lhe sempre o premio do remorso!

Adeus! E vae fazendo o que poderes

Para esquecer este homem transviado

Do trilho, da conducta, e dos deveres!

Adeus! A nada mais sou obrigado!»

(Fechando a carta, pousando-a na meza, e em momento resoluto) Sim! sim! jámais podéra ser possivel

Combater contra a minha reflexão!

E depois, que diabo! não é crivel

Mudar-se o santuario da união

Pelo louco viver do mundanismo;

Não, não é crivel ter a vida assim,{6} E salvar-me, procuro, d'este abysmo,

Quando, demais, alguem soffre por mim!

(Pausa e reflectindo depois)

De facto, Margarida tem encantos,

Tem sim, mas quaes? Aquelles tão sómente Que a tornam fascinada só de quantos

A pretendam gosar satyramente!

Goso estupido, goso só brutal,

Que nos converte em féras, ou ainda

N'um ente desprezivel e anormal!

 

(Pausa, exclamando depois com sentimento) E abandonar-te, eu, minha bôa Arminda,

Levado na corrente d'esse imperio!

(Tirando um retrato do bolso e admirando-o) Oh! rosto tão suave de mulher!

Perfil tão nobre, tão grande, tão sério,

Como não será muito o teu soffrer!

Semblante de bondade, a contrastar

Com falsos attractivos de mundanas!

Aqui, traços de paz bem salutar,

(Em meditação)

N'aquellas... linhas torpes e profanas!

Rosto meigo que outr'ora me prendeu,

A elle regresso, a elle vão meus passos,

E crê que vou guiado pelo ceu,

Buscando, d'amizade, os santos laços.

 

(Beijando o retrato e levantando-se de subito) Ah! É verdade! Tenho d'ella um filho!

Nem me lembrava d'esse poderio!...

Foi a fatalidade do meu trilho,

E complemento do meu desvario...

Comtudo, não importa, porque em suma,

(Conformando-se)

É producto de falsas relações

Que se dissolvem, qual tenue espuma...

Existe uma creança; mas razões

Me forçam a esquece-la já tambem.

(Tirando do bolso uma carteira)

Concedendo dinheiro em abundancia

Para que Margarida, como mãe,

Provenha ao alimento dessa infancia.

(Pousando a carteira na meza e espreitando em silencio a uma

porta lateral){7}

Coitadita da pobre creancinha!...

A dormir!... Tem nos labios um sorriso...

(Atirando-lhe um beijo)

Recebe um beijo, o ultimo, filhinha!...

(Retirando-se a custo)

 

Custa-me... mas então? Se me é preciso! E depois, meu bom Deus, crê, eu vos juro, Que farei tudo quanto fôr humano

Para vellar por ella no futuro!

(Pausa, depois da qual, com coragem)

 

Vamos!

(Parando e com desalento)

É bem profundo o desengano!

(Pegando no chapeu)

De resto, casa, orgia... tudo ahi fica...

E volto, emfim, ao lar santo e bemdicto,

Onde, só de virtude, a vida é rica,

E onde chego humilhado e bem contricto!

(Sae rapidamente).