A Nuvem

Luís Couceiro · Capítulo 8 de 15

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A Nuvem

Scena Primeira

 

Arminda (só)

... E vinte!...

O indispensavel enxoval

P'ra essa creança, que é filha do mal!

Apenas o preciso p'ra o conchego

Do ente, que, desvario tolo e cego,

Arrumou para o mundo, e que o destino

Trouxe ao lar do infortunio! Meu Divino

Deus! A vossa vontade seja feita!

E a mulher, que a desdita sempre espreita, Curva-se ante o poder d'essa grandeza,

Que a ella me ligou e me traz preza!

 

(Com dôr)

Um pequeno enxoval, mas sufficiente

Para poder cuidar d'esse innocente

Que a vil libertinagem engeitou!

Que a infamia, por onde só errou{14} A vida impura, incasta e illegitima,

Trouxe aos portaes da sua triste victima!

(Affastando-se da meza)

E que havia a fazer?... Repudiar

O fructo da loucura?... Regeitar

A offerenda, que, quem sabe? foi Deus

A salva-la do mar, dos escarceus

Da ignominia?! Quem sabe? foi alguem A doa-la aos carinhos d'outra mãe!

Que havia de fazer? Tornar-me ré

Da deshonra, e com simples pontapé

Exclamar:--Vae, vae para a sociedade

Em que se mancha e perde a honestidade! Vae tambem corromper-te em sacrificio

D'essa libertinagem, e do vicio!

Não! Não! Ninguem me dá esse direito,

Que apenas crearia mais um leito

Na impudica mansarda da baixeza!

Não! ninguem me auctorisa essa fraqueza. Ninguem, mesmo ninguem, tal me concede, Nem jámais a minha alma diz e pede

Que lance p'ra mizeria e para o crime

Uma outra alma que d'elle se redime!...

 

(Entrando no biombo, e junto ao berço, com resolução) Fica, pobre creança! Assim o quero

Fica, porque eu respeito e mui venero

O que o destino dá.

(Com pausa e sentimento)

Elle predisse,

Em leis, que essa cruel libertinice

D'um marido não tinha o grave jús

De arrumar-te, impiedosa, para o púz

Virulento d'infame corrupção!

(Curvando-se sobre o berço)

Fica sim! Tens aqui um coração

Repleto de carinho e sentimento!

Fica no lar, que, como deserta ilha,

Escolhos cerca! Fica, és minha filha!...

E tudo, pelo meu Deus, eu perdôo.

Fica creança, fica... Eu te abençôo!

(Sentando-se junto do berço)

E aqui 'stou sendo mãe, mãe adoptiva,

Do gérmen d'essa orgia productiva!

(Pausa){15}

Não quiz Deus dar-me um filho que pedia, E que n'este deserto tanto urgia,

Para que n'um momento, n'um instante.

Tenha d'acalentar o que é da amante!

Não quiz Deus conceder-me tal mercê!...

 

(Pausa)

Marido... foge ao lar por onde a fé

Do amor pode ser a unica sincera...

E lá vae, lá vae elle como a féra

Viciada, em procura do covil,

Onde recebe o goso d'essas mil

Desgraçadas sem alma, sem consciencia! Lá vae elle, deixando esta innocencia

Do altar que a pura Egreja solidou,

Em troca do que nunca, nunca amou;

Porque amar, nunca e nunca sabe, quem Se ausenta de tão santo amor de mãe!

Lá vae, lá anda n'essa podridão

Que rouba o sentimento e a razão!

Que destroe, injuría e enxovalha,

Que infecta, que corrompe, prende e emalha A noção do respeito p'lo dever!

Lá anda n'esse impudico prazer,

Cujas garras tão vis, cynicamente

Arrebatam do puro e casto ambiente

Todo esse bem, que n'elle se creara;

Cujas garras, de força bruta, avára.

Arrebatam do lar santificado

O descanço e o bem que lhes é dado!

Lá anda, lá vegeta no monturo

Mais ignobil, mais baixo, mais impuro,

Que a desgraça creou, sustenta e nutre; Filando com intuitos só de abutre,

E attributos de farça e d'ironia,

As prezas de tão grande vilania!

Vilania,--que em seu lubrico espasmo,

Chasqueia da virtude, com sarcasmo,

Ri da fé, desvirtua a honestidade,

Deprava o sentimento e a dignidade.

Insulta, zomba e rasga sem respeito

O véu do precioso preconceito!

Suja, quebra, dissolve e inutilisa,

Macúla, estraga e já esterilisa

A pureza e o brilho do que é são!

Abala, derrue, prosta em confusão,{16} Det'riora, desfaz, calca e elimina

A graça do bom lar, graça Divina!...

 

(Pausa, deixando tombar a cabeça sobre as mãos e exclamando

dolorosamente)

E foi... foi assim que essa vilania

Me roubou o socego e a alegria!

Foi assim, assim, que ella aqui entrou,

E que de mim se riu e só zombou!

(Encosta-se sentidamente ao berço)