A Nuvem

Luís Couceiro · Capítulo 4 de 15

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A Nuvem

Scena Quarta

 

Margarida (só)

Ora pois... sou livre por minutos

Dos élos deshonestos e corruptos!

Mas não tão livre, não tão livre ainda,

Que Henrique não levasse á D. Arminda

O fructo do transvio de seu marido.

Coitado! Mas que triste arrependido!

(Rindo)

E talvez concebesse que o seu filho,

De futuro, me sirva d'impecilho.

Ná, ná! Quem se desliga a compromissos, Não o faz com intuitos só postiços.

Pois que!? Foge da vida deshonesta,

E deixa aqui o pomo de tal festa?!

Ná! que o leve; que o leve para o lar,

Onde a contricção vae representar.

E depois, almas vis, más e preversas,

Pódem ás vezes ser nobres e adversas

Ao crime.

(Entrando rapidamente na alcova e voltando á scena com uma

creança de seis mezes)

 

Vaes gosar creação casta,

Que te infiltra dignissima Madrasta: Vaes sahir d'este reles ambiente,

Onde se perde muita e muita gente!

(N'um momento de subita reflexão e levando a mão á testa) An?! Que digo? Que disse eu inda agora?! Não seria um lampejo, ou uma aurora

De verdade, que acaso illuminou{10} A minha alma, e p'la mente me passou...

(Com resolução)

Sim, minha filha, quero que vás. Vae;

Vae acolher-te á sombra de teu pae;

Vae abrigar-te n'essas consciencias

Que salvam e redimem existencias!