A Nuvem

Luís Couceiro · Capítulo 2 de 15

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A Nuvem

Scena Segunda

 

Margarida (só)

(Entrando por uma porta lateral e esfregando os

olhos)

Safa! Que dormir tão pesado o meu!

Nem que fosse uma noite d'hymeneu,

A prolongar um somno de fadiga!

E então, que curiosa lucta e briga

Com os sonhos, os mais extravagantes... A vêr-me rodeada só d'amantes,

Que disputavam a honra e primazia

Da posse luxuriante d'uma Lia! Safa! Que pezadello interminavel...

 

(Pausa, depois da qual, repara na carta)

Olá! Temos missiva? D'um amavel

D. Juan, talvez?

(Vendo a letra)

Mas não, porque esta letra

Pertence ao cavalheiro que penetra

No aposento. É do meu nobre senhor!

Não ha duvida! Ou antes, e melhor:{8} É d'um obediente e humilde escravo!

(Lendo a carta e cynicamente admirada)

An?! O quê?! Que diz elle?! Bravo! Bravo! Muito bem! Apoiado! É admiravel!

(Largando gargalhada sarcastica)

Eis uma acção esplendida, louvavel!

(Sentando-se)

Coitado! Que desgraça! Pobresito,

Que diz voltar em tudo bem contricto

Aos braços da mulher! (rindo) sim, sim, coitado Do triste e pobre errante, transviado

Do bem!... Mas que pateta! Mas que tolo! Vae-te menino, vae-te, que o consôlo

Não me falta, acredita; pódes crêr!

E lança-te nos braços da mulher,

Pois que duvida? Ora essa? Porque não?

 

(Com sarcasmo)

Mas que parvo, irrisorio e toleirão,

Não veem!? Que ridiculo ignorante,

Que nem ao menos sabe ser amante!

E deixa carta, sem ter a coragem

De dizer que se acolhe na frondagem

Da virtude!

(Reconsiderando)

Virtude! Mas que é isso?!

Um nome que se torna ôco e omisso

Entre nós. A virtude é ter dinheiro

Que bem nos sustente o orgico viveiro,

Porque amantes, se atiram para o lixo,

Vindo outros que sustentem o capricho!

(Indo para sentar-se e reparando na carteira) Ah! espera! deixou uma carteira!

E tem notas! Lembrança bem certeira,

Porque... emfim... é só isto o essencial

P'ra presidir á nossa bachanal...

(Depois de fechar a carteira e como que tomando uma rapida

resolução, senta-se a escrever uma carta, tocando a campainha).