A Nuvem

Luís Couceiro · Capítulo 13 de 15

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A Nuvem

Epilogo

Fim do segundo acto

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{49}

 

EPILOGO

 

A mesma scena do prologo. Margarida, ao subir o panno, encontra-

se sentada junto d'uma pequena meza, com a cabeça apoiada

nas mãos e completamente succumbida.

SCENA PRIMEIRA

 

Margarida (só)

Eu a chorar! e lagrimas ardentes

Deslisando nas faces reviventes

De vergonha! Deus na alma! e ao coração Amor! Ao meu espir'to a reflexão!

Na consciencia a revolta e o remorso

Em que já me debato e me contorso!

 

O que é? que póde ser? A reacção

Convulsionando o corpo, e a razão

Subjugando-me, por demais vencida!

O que é? (Pausa)

É a verdade, Margarida!

 

Verdade?! E quem responde? Quem me falla? É Deus! Mas Deus compara, Deus eguala Esta mulher aos dons da Natureza?

Sim. Porque se nasceu para a baixeza,

Redime-se p'ra o bem! Ah! mas eu minto E pequei, pois agora mesmo eu sinto

Que para o mal o mundo me não doou.

Nem Deus para a baixeza me creou!

Deus, amando, só cria para amar,

E eu amei... oh! amei, mas a sonhar,{50} Apenas a sonhar, sim, porque alguem

Sepultou do meu sonho todo o bem!

Eu nasci para amar, e amei; amei

Quanto pude ante a bôa e pura lei

Do amor, mas, mas depois, quem tanto amava, Disse-me um dia que isso não passava

De um mytho, e foi-se andando na procura D'aquillo que á pobreza salva a agrura;

Foi-se andando na busca de riqueza,

Porque eu era pobre, e isso se despreza! E é então, é então que o meu amor

Se arrebata nas garras do impudor;

É então, que me afundo nas camadas

Que alimentam as tristes depravadas!

Sim! Eu amei! E amei tanto, amei tanto,

Que por causa de amor tão puro e santo. Busquei embriagar-me n'esta orgia,

Para que o grande Deus a ninguem cria!

 

(Pausa)

Eu a chorar!... e lagrimas ardentes

Deslisando nas faces reviventes

De vergonha! Porque? E que fiz eu?

Fiz tudo e nada! Fiz crime e labeu;

Tudo, tudo p'lo mal d'uma existencia,

E nada, nada pela inconsciencia.

E porque alguem, alguem me aniquilou,

Fiz tudo, e nada. Fiz... fiz o que sou!

 

(Pausa)

Eu a chorar! e lagrimas ardentes,

Velando os olhos bem reminiscentes

Do que vi!...

 

E que vi eu?... A mulher,

A mulher como ella é e deve ser.

Vi-a altiva e com toda a magestade

Destruindo o insulto á sombra da verdade!

Vi-a repudiando com nobreza

Os feitos da maldade e da torpeza!

Vi-a... vi-a tomando nos seus braços

O fructo que proveio de devassos!

Vi-a, evocando graças divinaes

N'uma orchestra de sons tão maternaes

P'rá criança que a minha embriaguez

Ousou depositar, lançar-lhe aos pés!{51} E como tudo ainda fosse pouco,

Em paga d'um agir mau, vil e louco,

Eu vi-a, meu Deus! eu vi-a, meu Deus!

Pedir que me enviasses lá dos céus

O perdão!

 

Mas que fiz eu?!... Tudo... e nada...

Fiz... o que faz mulher desnaturada!

(Tomba a cabeça sobre as mãos em posição dolorosa)