A Petrobras e a gestão do território no Recôncavo Baiano
Prefácio
Chama-se Recôncavo a região que circunda a Bahia de Todos
os Santos, formando o grande anfiteatro no qual, há mais de
quatrocentos anos, se vem desenrolando um dos mais antigos
capítulos da colonização do Brasil, que ali teve o seu começo e
que exatamente ali tem, hoje, uma das perspectivas mais
promissoras do seu futuro.
COSTA PINTO
Cristóvão Brito traz com este livro sobre a Petrobras e a Gestão do Território no Recôncavo Baiano uma relevante contribuição para a Geografia da Bahia em várias direções. Entretanto, antes de discorrer sobre elas, quero ressaltar, na figura do autor, a importância de uma formação universitária sólida, buscada com tenacidade e expressando uma escolha consciente. Cristóvão é Bacharel e Mestre em Geografia pela Universidade Federal da Bahia. Sua dissertação de mestrado, que tive a satisfação de orientar, agrega conhecimentos inovadores sobre a recente expansão urbana de Salvador, tendo como título A produção da escassez de terrenos em Salvador-BA e suas conseqüências para sua expansão futura. Na banca, recebeu elogios de examinadores exigentes como Fernando Cardoso Pedrão e Pedro de Almeida Vasconcelos que destacaram a abordagem original e a relevância acadêmica.
Em 1996, torna-se professor universitário, mediante concurso público, da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), em Salvador. Alguns anos depois, parte com sua família para o Doutorado na Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, sob a competente orientação da colega Leila Christina Dias. Recentemente, ingressou na Universidade Federal da Bahia, também mediante concur-so, como Professor Adjunto do Departamento de Geografia/Instituto de Geociências.
Este livro é, a rigor, o resultado de sua tese de doutorado defendida com brilhantismo em 2004. Sobre a contribuição do autor, há, como já foi mencionado, vários pontos a destacar. Logo de início, percebe-se uma sólida fundamentação teórica e conceitual que vai direcionar a metodologia, a análise e a interpretação das grandes questões do tema escolhido. Cristóvão soube selecionar e utilizar bem a contribuição de diferentes autores, dentre os quais destaco a cientista política Hannah Arendt, em boa hora trazida para a análise da arena política dos territórios em nosso meio. Cristóvão integrou com originalidade muitas abordagens ao formular as questões centrais de sua pesquisa em torno da dinâmica temporal e territorial do Recôncavo baiano com o advento de uma grande corporação, a Petrobras. A rigor, portanto, é uma contribuição para a Geografia Política, na escala de um território regional, com a perspectiva da construção de um território corporativo ou de uma região-empresa.
Assim, a detalhada análise da evolução e dinâmica da territorialidade corporativa, em sua inserção em um tradicional contexto regional, é o segundo ponto a ressaltar. Com efeito, a introdução e a expansão da Petrobras no Recôncavo da Bahia foram trabalhadas de forma pertinente, profundamente enraizada nas questões territoriais e em seus desdobramentos.
Mas há um terceiro e último ponto, para não me alongar demais, a destacar na obra de Cristóvão: é o estudo geográfico do Recôncavo pré- Petrobras. Isto se deve ao fato de que faltava na bibliografia geográfica um tratamento aprofundado da questão do Recôncavo dos usineiros e do Recôncavo fumageiro e Cristóvão o faz muito bem sob o ângulo de uma Geografia Regional Histórica, fundamental para a compreensão do presente. O tema Recôncavo, aliás, ficou um tanto marginalizado na Bahia com o surgimento, a partir da década de 70 do século passado, das questões metropolitanas e da própria cidade do Salvador, em fase de grande expansão. Mas, ele tende a voltar agora, em boa hora, com o crescimento da compreensão da importância estratégica da complexa integração macrorregional em torno da capital baiana e com a dinâmica dos movimentos reivindicatórios, liderados por municípios organizados em associações, que acabaram resultando, por exemplo, na criação da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, com sede em Cruz das Almas e atividades acadêmicas em várias cidades da região.
Espero que novos trabalhos de Cristóvão e de outros autores avancem na discussão sobre a dinâmica dos territórios corporativos, por exemplo, de forma comparativa entre o norte fluminense e o Recôncavo da Bahia, ambos sob o impacto da Petrobras, e sobre a atual Geografia do açúcar e do fumo na Bahia.
São temas candentes que são motivados pela leitura de uma contribuição já tão importante como a de Cristóvão para a Geografia da Bahia.
Finalmente, assinalo que estudos desta natureza contribuem para imaginar "perspectivas mais promissoras", segundo Costa Pinto, para o futuro do Recôncavo que só podem ocorrer se forem priorizados os processos de construção de um projeto regional e de uma nova gestão social do território, tudo isto trabalhado de forma ampla, participativa e integrada, envolvendo o Estado, em suas diferentes escalas, as Empresas e a Sociedade Civil, com base em critérios de eficiência e equidade sócio-territorial.
Sylvio Bandeira de Mello e Silva
Universidade Católica do Salvador e Universidade Federal da Bahia