A Queda de Artur
A evolução do poema
A EVOLUÇÃO
DO POEMA
A EVOLUÇÃO DO POEMA
É um a notável característica dos poem as “nórdicos” de m eu pai, A Balada dos Völsungs e A Balada de Gudrún, que do trabalho que precede o texto acabado só sobreviveram algum as poucas páginas, e além dessas “não há vestígio algum de rascunhos anteriores” (A Lenda de Sigurd e Gudrún, p. 40). Obviam ente tal m aterial existia e foi perdido em algum a etapa. É bem diferente o caso de A Queda de Artur, de que existem cerca de 120 páginas de rascunho (conservadas em desordem , o que não é de surpreender) que precedem o texto “final” que está neste livro. O desenrolar a partir dos ensaios m ais rem otos (que m uitas vezes só são parcialm ente legíveis) pode ser seguido, em grande m edida, através de m anuscritos sucessivos que sofreram abundantes em endas. Em alguns trechos do poem a, elem entos que se confundem representam a evolução paralela de diferentes versões e o deslocam ento de blocos de texto para aparecerem em contextos diversos.
O tem po e a reflexão que m eu pai em pregou nesta obra são espantosos. Seria possível, é claro, fornecer um aparato textual com pleto e detalhado, incluindo um relato de cada em enda que surgiu nos m anuscritos sucessivos à m edida que ele buscava constantem ente um m elhor ritm o, ou um a m elhor palavra ou frase dentro das restrições da aliteração. Mas essa seria um a tarefa descom unal, e desproporcional, a m eu ver.
Por outro lado, om itir qualquer com entário textual seria ocultar elem entos notáveis e essenciais da criação do poem a. Isso é especialm ente verdadeiro no caso do Canto III, que era o cerne do poem a, o m ais trabalhado e o m ais alterado durante o processo, e forneci um relato bastante com pleto (m ais com pleto do que talvez fosse desej ável, de m odo geral, e inevitavelm ente difícil de acom panhar em todos os pontos) dessa história tal com o a entendo; m as ao longo de todo o m eu com entário textual sobre o poem a frequentem ente om iti alterações m enores feitas por razões de m étrica ou estilo.
No que se segue usei a palavra “rascunho” para m e referir a qualquer página (ou a todas elas) de versos que precede o texto m ais recente de A Queda de Artur, isto é, o m anuscrito do qual foi extraído o texto deste livro. Esse texto m ais recente dá de fato a im pressão de ter sido escrito com o um todo, e colocado à parte, e poderia portanto ser considerado “final”, porém subsequentem ente sofreu grande núm ero de correções e alterações, especialm ente nos dois prim eiros cantos. Na verdade, por via de regra, nenhum m anuscrito de m eu pai podia ser considerado “final” até que largasse m ão dele em segurança. Mas neste caso um núm ero preponderante de alterações foi feito rapidam ente a lápis; e a respeito de m udanças sem elhantes feitas em m anuscritos dos poem as “nórdicos” de m eu pai escrevi (A Lenda de Sigurd e Gudrún, p. 40): “Tenho a im pressão de que m eu pai releu o texto m uitos anos depois […] e rapidam ente em endou os pontos que cham aram sua atenção enquanto lia.” O m esm o pode ser verdade sobre A Queda de Artur, m as é claro que isso não pode ser determ inado com certeza. O fato de essas alterações serem notavelm ente m ais num erosas nos Cantos I e II pode indicar um interesse renovado pelo poem a em algum a data posterior, m as que acabou dando em nada.
No entanto, esse m anuscrito deve ser considerado, e referências a ele deverão ser feitas constantem ente. Eu o indico com as letras LT de Latest Text [Texto Mais Recente].
Um aspecto realm ente extraordinário da redação do poem a revela-se nas páginas do rascunho: a saber, que o Canto I, o relato da cam panha do Rei Artur no Leste, longe de ser o prim eiro escrito, foi de fato introduzido quando o trabalho do poem a estava bem avançado.
Há dois rascunhos m anuscritos do Canto II (a narrativa das notícias trazidas pelo capitão do navio frísio naufragado, e a da visita de Mordred a Guinevere em Cam elot), e tam bém um a página isolada que traz a abertura do poem a. Os três com eçam pelos versos:
Voam ares atros sobre águas profundas, do sul sopram a solta espum a […]
O prim eiro, que cham arei de IIa, tem este título:
A Queda de Artur
I
Com o [Mordred >] Radbod trouxe notícias e Mordred reuniu
seu exército para deter o desem barque do rei
O texto é essencialm ente o m esm o que o do Canto II em LT conform e publicado, porém com m uitas diferenças, m as não vai além do equivalente ao verso II.109, neste texto “os corm orões da costa e dos crus pântanos”.
O segundo texto em rascunho, o seguinte, cham ado IIb, tem na prim eira página o m esm o título que IIa, m as contém todo o texto do canto, m ais um a vez com m uitas diferenças, m as não estruturais.
A página isolada IIc do canto, referida acim a, segue o texto IIb, e seu título é assim :
A Queda de Artur
II
Com o o navio frísio trouxe notícias, e Mordred reuniu um
exército e chegou a Cam elot em busca da rainha.
Mas o núm ero II deste título foi um a extensão posterior de I.
É notável que quando o Canto I foi acrescentado não se adicionou nenhum elem ento nem referência narrativa ao que se tornara o Canto II; m as isso, suponho, foi porque o plano original de m eu pai era abrir o poem a com Mordred e Guinevere, e ele então não considerava necessária nenhum a narrativa prévia. Agora, portanto, basta ler o Canto II com esse conhecim ento para avaliar o pouco que havia sido contado sobre a ausência de Artur da Grã-Bretanha: nada está dito da história pregressa a não ser as palavras que Radbod, capitão do navio frísio, disse a Mordred antes de m orrer (equivalentes no rascunho m anuscrito IIb aos versos II.70-77 da versão m ais recente):
Cradoc, o m aldito, traiu teu conselho, aos ouvidos de Artur tudo está revelado de teus feitos e propósito. Negra é sua ira. Apressa-se ao lar, e convoca sua tropa das regiões rom anas, cavalgando com o tem pestade.
Cradoc the accurséd hath thy counsel bewrayed, [betrayed] in Arthur’s ears all is rumoured
of thy deeds and purpose. Dark is his anger. He hastens home, and his host summons from the Roman marches, riding like a tempest.
O aviso de Mordred a Guinevere, II.144-7, estava presente em IIb nesta form a, com referência a Benwick:
Nunca m ais Artur há de entrar neste reino, nem Lancelot do Lago, relem brando o am or, de Benwick à Bretanha por sobre am plas águas voltar ao teu encontro!
Never again shall Arthur enter this kingdom, nor Lancelot du Lake love remembering from Benwick to Britain over broad waters return to thy tryst!
Outra referência – notável – a Lancelot aparece em IIb (repetida de IIa), onde Mordred convoca para seu lado “cavaleiros e chefes [...] certos na hipocrisia, adversários de Artur, am igos de Lancelot”: em LT (Texto Mais Recente) Lancelot foi alterado para perfídia (II.105).
*
Canto III
Por diversas razões é m ais claro, ou, digam os, m enos obscuro, com eçar este relato com o Canto III, “De Sir Lancelot, que habitava em Benwick”.
Os rascunhos m anuscritos consistem em sua grande m aioria em versos, m as entre eles há três sinopses da história de Lancelot e Guinevere com o m eu pai pensava contá-la, ou m elhor, presum i-la, em seu poem a. Foram num eradas (subsequentem ente) I, II e III. As três foram escritas m uito às pressas, m as raram ente de m odo ilegível. Expandi as contrações e fiz algum as em endas bem secundárias.
A Sinopse I com eça com um trecho em louvor de Lancelot que foi seguido bem de perto em III.19-28. Depois prossegue:
Só Gawain era quase seu igual, porém de hum or m ais severo, am ando o rei sobre os hom ens e sobre as m ulheres, dissim ulando por cortesia sua desconfiança da Rainha. Mas a Rainha am ava Lancelot, som ente elogios dele ela escutava. Assim o ciúm e despertou em corações m enores, porém m ais no de Mordred, a quem a beleza dela inflam ava. Lancelot rej ubilava-se com a beleza da Rainha e a servia sem pre, m as por m uito tem po foi leal a seu senhor, m as a rede se fechou em torno dele e a Rainha não o liberava, m as com risos ou com lágrim as lhe desviava a intenção até ele decair da lealdade. Gawain não desconfiava, m as Mordred vigiava. Por fim Mordred contou a Gawain e seus irm ãos Agravain e Gareth e disse que, com o eram parentes do rei, deveriam alertá-lo. Agravain, com ciúm e da condição de Lancelot e do favor deste diante de seu irm ão, contou ao rei. A corte partiu-se em contenda. [Acrescentado: Agravain m orto por Lancelot.] Mordred contou a Guinevere e Lancelot que a traição foi decisão de Gawain, por invej a, e Lancelot acreditou na m entira – apesar de Gawain na verdade ser o único de todos os cavaleiros que não sentia invej a e pensava apenas no rei e não em si. O rei condenou a Rainha a [palavra ilegível riscada e substituída por e Lancelot à m orte] e os hom ens acusaram Lancelot de covardia visto que fugira. Mas quando a Rainha estava sendo levada à estaca Lancelot apareceu à frente de sua fam ília e a resgatou e a levou em bora. Gareth [? e outros] da fam ília da Gawain foram m ortos. Mas o hum or de Lancelot se deteriorou e ele retornou à Rainha – m as Artur não queria vê-lo de novo e ele voltou a Benwick.
Nem ele nem sua fam ília lutaram de novo por Artur, nem m esm o quando ouviram dos ataques à Grã-Bretanha, nem da surtida de Artur para o leste. Isso irritou seus seguidores e lam entaram seu hum or – penitência arrependida e seu orgulho hum ilhado depois de se perder por am or e agora am or desprezado por lealdade.
Veio então notícia da traição de Mordred – e Artur arm ando-se contra seu próprio reino. Lancelot viu com m ais clareza a perfídia em que estava enredado. Meio pensou em reunir sua hoste em auxílio de Artur. Então o orgulho o reteve e o pensam ento de Gawain que ele inj ustiçara e seu frio desdém . Pensou que iria apesar de tudo se o rei cham asse. Onde estava Guinevere – ele não tinha o poder de ir à Grã-Bretanha sem se unir a Artur. Ela era bela e falsa com o diziam os hom ens (e Mordred)? Levianam ente ela o deixara e parecia não ter pena de sua angústia nem com preender sua penitência. Se ela lhe m andasse contar do perigo, ele iria. Mas não chegou m ensagem de Artur, que era guiado por Gawain. Nenhum a m ensagem chegou de Guinevere, que esperava para ver o que ocorreria. Lancelot não partiu, m as perm aneceu em Benwick. O sol brilhou após a tem pestade e seu coração ficou leve. Mandou tocar m úsica e m andou que os hom ens se alegrassem , pois a vida ainda tem esperança, m as não sabia que as m arés da sorte haviam m udado e que ele perdera a cheia.
A Sinopse II com eça com um a repetição bem próxim a da abertura da Sinopse I, até “sua vontade foi dobrada e ele decaiu da lealdade”. Depois continua:
Gawain desconfiava, m as Mordred vigiava. Assim vieram a contenda e o rom pim ento da Távola Redonda que m uitos cantaram . [Palavra ilegível] prim eira nuvem surgiu sobre a glória de Artur. Mordred, m ovendo-se no escuro, avisa tanto Lancelot quanto o rei. A grande ira do rei, que Gawain tenta refrear, m as no m om ento Mordred tem o ouvido do rei. Ele j ura que tanto Lancelot com o Guinevere hão de sofrer m orte por traição – na verdade de acordo com a j usta lei. Mas Lancelot prevenido tom ou Guinevere e fugiu em segurança (isto com o Mordred pretendia) proclam ando culpa. No ataque ao castelo m uitos são m ortos incluindo Agravain e Gareth, parentes de Gawain. Só nesse ponto Gawain concorda em participar. Ele desafia Lancelot, para que não sej am m ortos m ais nobres cavaleiros. Mas o hum or de Lancelot m udou: arrepende-se da ruína que provocou, e a Rainha está assustada e relutante em arriscar o perigo do fracasso de Lancelot. Prim eiro golpe ao am or de Lancelot. Portanto, Lancelot trata e entrega Guinevere sob a condição de que ela sej a perdoada e recebida com honras plenas. Mas o rei não quer perdoar Lancelot – nem Gawain insiste nisso – e o desterra, e ele parte com sua fam ília para Benwick.
Ao lado do núm ero III da terceira sinopse m eu pai anotou “seguida no poem a”. Ela com eça por um a versão m uito reduzida das aberturas das duas sinopses anteriores, e há grande núm ero de repetições da Sinopse I no trecho final, m as citarei esse texto em sua totalidade.
Lancelot era considerado o m ais valente dos cavaleiros de Artur, e o m ais belo de todos os hom ens – m oreno e esplêndido ao lado do ouro de Gawain. Só Gawain era quase seu igual, porém m ais severo de hum or, e ele am ava apenas o rei acim a dos hom ens e acim a das m ulheres, m as desconfiava da Rainha m esm o antes que a som bra se abatesse. Mas a Rainha am ava Lancelot, e Lancelot rej ubilava-se com a beleza da Rainha e a servia sem pre de bom grado, e a am ava acim a das m ulheres e acim a dos hom ens. Só a honra e o renom e ele am ava quase em igual m edida. Portanto, por m uito tem po foi leal a seu senhor. Mas a rede se fechou em torno dele, e a Rainha apertava as m alhas cada vez m ais – pois raram ente liberava o que possuía ou deixava de agarrar o que desej ava. Bela com o fada, m as de m ente cruel, cam inhando no m undo para pesar dos hom ens. Assim com sorrisos e lágrim as curvou a vontade de Lancelot.
Assim vieram a contenda que m uitos cantaram e a prim eira nuvem sobre a glória de Artur, quando espadas foram desem bainhadas na casa do rei e os irm ãos da Távola Redonda m ataram uns aos outros. [Riscado: Mordred m aquinou isso, por invej a de Lancelot, desej ando a Rainha, traiu Lancelot.] Com cruel j ustiça a Rainha foi condenada à fogueira, m as Lancelot a resgatou e [a] levou para longe. Nesse dia tom baram m uitos cavaleiros pelas m ãos da fam ília de Ban, e entre eles o irm ão de Gawain. Mas seu hum or se deteriorou e a Rainha detestava o exílio. Ele se arrependeu dos assassinatos e devolveu a Rainha – obtendo pleno perdão para ela; m as não para si. Partiu para Benwick com sua fam ília e não foi m ais à guerra com Artur.
Mas veio notícia da traição de Mordred e de Artur arm ando-se contra seu próprio reino. Meio resolveu reunir sua hoste e apressar-se rum o ao rei. O orgulho o reteve, e o pensam ento do frio desdém de Gawain, que ele inj ustiçara. O rei o convocaria se precisasse. Pensando em Guinevere, a angústia o tom ou. Estaria ela em perigo – m as não tinha o poder de ir à Grã-Bretanha sem se unir a Artur. Ela era tão claram ente falsa quanto alguns espalhavam ? Levianam ente ela o deixara com pouca pena. Se ela o m andasse vir, ele iria a todo perigo contra Mordred ou Artur. Mas nenhum a m ensagem chegou de Artur, que se apoiava em Gawain. Nenhum a m ensagem chegou de Guinevere, que esperava para ver o que ocorreria, para da ruína arrebatar o m elhor. Portanto, Lancelot perm aneceu na torre de Ban com espírito dividido. A tem pestade am ainou. O sol brilhou e seu coração anim ou-se. Disse consigo que a vida ainda trazia esperança, as m arés m udam , m as não sabia que as m arés do tem po haviam passado da cheia e que ele perdera sua oportunidade.
*
A evolução do Canto III pode em grande m edida ser seguida nas folhas de rascunho, porém há incertezas que fui incapaz de resolver. Alguns trabalhos prim ários sobrevivem , entre eles páginas tão ilegíveis que só podem ser interpretadas m ediante conhecim ento dos textos subsequentes; m as é notável que, m esm o enquanto com punha nessa velocidade, m eu pai era capaz de fazê-lo respeitando os padrões aliterantes e m étricos.
Depois delas há um a série de m anuscritos que prosseguem ao m odo com um de m eu pai, cada um assum indo as m udanças feitas no anterior e depois em endado por sua vez. O prim eiro, que cham arei de A, é evidentem ente sua prim eira redação do canto, em bora longe de ser com pleta. Está em form a irregular, porém legível, ainda com m uitas incertezas e substituições à m edida que escrevia. O texto com eça (III.19 ss.):
Sir Lancelot, lorde de Benwick, foi outrora de Artur o m ais distinto cavaleiro [...]
Sir Lancelot lord of Benwick of old was noblest knight of Arthur [...]
Além disso, o texto A pode ser dispensado, pois logo (creio) foi ultrapassado por outro m anuscrito, e características notáveis de A reaparecem neste texto
substancial e com plexo, Ba.
Este m anuscrito com eça com duas páginas, obviam ente escritas na m esm a época, nenhum a com título, e idênticas em quase todos os pontos, com exceção do trecho de abertura do canto. Em um a delas, que cham arei B 1, a abertura é assim :
Na bendita Benwick outrora Ban foi rei, cuj os pais antes, sobre águas incultas, viaj aram nas terras santas, deixando seus lares, vagando ao m undo oriental, levando a cristandade, fundando reinos, erguendo m uralhas contra os povos bravios. Torres fortes e altas voltadas para o norte Ban construiu; vagas trovej avam abaixo delas nas som bras que assom avam de penhascos cavernosos. Coroadas com luz do sol, am uralhadas de esplendor, cercadas pelo vento,
elas vigiavam as águas: não tem iam a guerra.
In Benwick the blessed once Ban was king, whose fathers aforetime over fallow waters in the holy lands their homes leaving to the western world wandering journeyed, Christendom bearing, kingdoms founding, walls uprearing against the wild peoples. Towers strong and tall turned to northward had Ban builded; breakers thundered loud below them in the looming shadows of cavernous cliffs. Crowned with sunlight, walled with splendour, wind-encompassed, they watched the waters: war they feared not.
Na outra página m anuscrita, B 2, a abertura é igual, palavra por palavra, a LT (Texto Mais Recente) III.1-10:
No sul, passando do sono à fúria, m onta torm enta, cam inha para o norte sobre am plas águas, com alto trovão e cheia de chuva agita-se e avança. Os m orros e m ontes de espum antes topos rem exem -se em tum ulto nos m ares revoltos. Nas praias de Benwick ribom bam as ondas, Trituram gigantescos, crepitantes rochedos com ira de ogros. O ar é sal, com espum a e respingos dispersos em vapor.
In the South from sleep to swift fury a storm was stirred, striding northward
over leagues of water loud with thunder and roaring rain it rushed onward; their hoary heads hills and mountains tossed in tumult on the towering seas. On Benwick’s beaches breakers pounding ground gigantic grumbling boulders with ogre anger. The air was salt with spume and spindrift splashed to vapour.
Depois dessas diferentes aberturas do canto, am bos os m anuscritos continuam com “Lancelot ali, sobre léguas de m ar” com o no texto final, m as diferem onde este tem (III.14-18):
A treva cai devagar. Profunda sua angústia. Traiu seu senhor ao am or cedendo, e renegando o am or o senhor não recuperou; refugam -lhe a fé, ao que a fé traiu, por m ilhas de m ar separado do am or.
Dark slowly fell. Deep his anguish. He his lord betrayed to love yielding, and love forsaking lord regained not;
faith was refused him who had faith broken,b by leagues of sea from love sundered.
Em seu lugar tanto B 1 quanto B 2 têm :
A treva cai devagar. Profunda sua angústia, arrependido do arrependim ento e com orgulho hum ilhado, deixando aquela lealdade ao cham ado do am or agora perdera o am or buscando lealdade.
Dark slowly fell. Deep his anguish,
repenting repentance and his pride humbled, that loyalty leaving at love’s calling he had love now lost loyalty seeking.
Um trecho num a página separada está m arcado para substituição neste ponto em B 2, após as palavras “Profunda sua angústia”:
deixara a lealdade ao cham ado do am or; seu senhor não m ais confiava em sua lealdade, seu am or estava perdido além de léguas de m ar.
he had left loyalty at love’s calling; his loyalty no longer his lord trusted, his love was forsaken beyond leagues of sea.
Após as páginas iniciais de B 1 e B 2, o texto prossegue sem duplicações por algum a distância, e portanto pode ser cham ado sim plesm ente de B. Há diversos casos em que LT (Texto Mais Recente) difere de B, com o segue (m uitos desses casos tam bém se encontram em A). As referências de versos em cada caso são às leituras do Canto III em LT conform e publicado neste livro.
(III.46-53) por m uito tem po é leal ao seu senhor Artur,
lutando nobrem ente. Mas é forte a rede que o m antém cativo. A Rainha a segura, e as m alhas de seda cada vez m ais firm em ente puxa em seu redor. Adora-o, pois [...]
he long was loyal to his lord Arthur, nobly striving. But the net was strong that caught him captive. The Queen held it, and the silken toils slowly tighter drew about him. Dear she loved him [...]
A versão final (“na Távola Redonda [...]”) é dada com o alternativa em outra página do m anuscrito B; e um a alternativa adicional é sugerida para III.53, “ocultos nas trevas. Adora-o, pois”:
considera-os m ais caros ocultos na treva, guardados e contados com o tesouro da Rainha, trancados no calabouço. Adora-o, pois
dearer deemed them darkly hoarded kept and counted as the Queen’s treasure locked in dungeon. Dear she loved him
(III.57-9) O destino a im pele. Poucas coisas larga
que seu desej o agarra. Com o m atutino sol [...]
Fate sent her forth. Few things she loosed her desire seized on. As the sun at morning [...]
Para o significado, com pare a Sinopse III, “raram ente liberava o que possuía”
(pA EVOLUÇÃO DO POEMA).
(III.62) arde com o aço. Alta vontade ela curva.
steel well-tempered. Strong will she bent.
Aqui a leitura original, no m anuscrito A, era “Strength was broken” [“Alta vontade se rom pe”]. Junto a “Strong will she bent” [“Alta vontade ela curva”] em B as leituras m arginais são “Strong her purpose” [“Forte seu propósito”] e “Swords she broke” [“Espadas ela rom peu”]. LT, com o foi escrito, tinha “Strong oaths she broke” [“Altas j uras ela rom peu”], alterado a lápis para “Strong oaths they broke” [“Altas j uras rom peram eles”].
(Após III.67, m ais tarde m arcado para rem oção.)
Muitos m enestréis cantando com pesar contaram desse tem po, de confiança partida,
am igos divididos e fé obscurecida.
Many a minstrel mournful singing of that time hath told, of trust broken, friends divided and faith darkened.
(III.74-8)
Ali a gente de Ban tornou verm elha de sangue a casa de Artur, altiva e dourada. A Rainha foi presa. Com j ustiça cruel, a form osa e m ágica condenam à fogueira; à m orte a condenam . Mas seu destino não se cum priu.
Eis que Lancelot, raio aceso, radiante, m ortífero, trovão que cavalga
There Ban’s kindred with blood reddened the house of Arthur high and golden. The Queen was taken. With cruel justice fair as fay-woman they to fire doomed her; to death they doomed her. But her doom came not. Lo! Lancelot, lightning kindled, radiant, deadly, riding thunder
(III.82-3) Onde LT tem
Gaheris e Gareth, de Gawain os irm ãos, pelo fogo desfeitos com o o fado quis
Gaheris and Gareth Gawain´s brethren by the fire fell they as fate willed it
B tem um único verso, m ais tarde riscado:
ali Gareth m orre, caro a Gawain.
there Gareth died, dear to Gawain.
(III.88-90) Lam enta dem asiado tarde,
arrependido da ruína da Távola Redonda, a com panhia e liberdade de seus belos irm ãos, enlutado por Gareth, parente de Gawain – m atou-o desarm ado, por m á sorte, pagando pelo am or com o m enos pretendia.
He mourned too late
in ruth for the ruin of the Round Table, the fellowship and freedom of his fair brethren, for Gareth grieving, Gawain’s s kinsman – unarmed he slew him, by ill fortune, love requiting as he least purposed.
Os três últim os versos desse trecho foram riscados ao m esm o tem po que a referência anterior a Gareth (e no texto A precedente foram postos entre parênteses para exclusão). Com o resultado dessas supressões, Gaheris e Gareth não foram m encionados em LT conform e escrito, m as os versos III.82-3 foram acrescentados a lápis.
(III.90-2) Arrepende-se da altivez, m aldiz a proeza,
ainda ansiando pelo am or de seu senhor Artur; ainda curaria a honra [...]
His pride he repented, his prowess cursing, for the love yet longing of his lord Arthur; he would heal yet honour [...].
(Após III.101)
e ela vê m uitos cuj o hum or se obscureceu
[> endureceu],
que a Lancelot com am or guardam [> cuidam ], m as à rainha sem rei, cativa resgatada, fosse bela com o fada, não m ostram am izade.
and many saw she whose mood darkened,
[> hardened]
who Lancelot with love guarded, [> tended] but to kingless queen, captive rescued, were she fair as fay, friendship showed not.
(III.102) Em vez de “Com brasas na voz”, B tem “With soft speeches” [“Com suaves falas”], m as “with searing words” [“com brasas na voz”] era a leitura de A.
(III.104-8) Os esforços que crê am ainados por algum tem po
ela ainda m antém na m ão, por m uito que
[titubeasse o coração dele.
Outros tem pos viriam . Porém a espera incom oda e ela o atinge com força. Estranha ela lhe parece, alterada em sua natureza. Então, em visão súbita, na angústia de um m om ento, com o que nua
[vendo no espelho
a alm a dela, conhecendo sua própria, ele, encantado com o pedra, se detém em silêncio.
The toils she weened for a time slackened still in hand she held though his heart wavered. Other times would come. Yet it irked waiting and she stung him keenly. Strange he deemed her from her self altered. Then sudden in vision
for a moment’s anguish as in mirror naked her soul seeing and his self knowing he stricken as stone stood there silent.
(Após III.119)
Poucos têm pena do orgulho tom bado do píncaro, e Gawain duvida de sua boa intenção. Proíbem -no de voltar, a não ser que busque
[j ulgam ento,
hum ildem ente de pé diante da j ustiça severa.
Pride few pitied from its peak fallen, and Gawain doubted his good purpose. His return forbade they, unless trial sought he, standing meekly before stern justice.
(III.124-7) O pesar Artur conhece
no segredo do coração, recuperando a corte, esposa infiel e sem o m ais valioso, perdendo o m ais nobre cavaleiro na necessidade.
Grief knew Arthur
in his heart’s secret that his halls regained wife unfaithful and more worthy missed, his noblest knight in his need losing.
Logo depois disso o texto B m ais um a vez se divide em dois, e no ponto (III.143) em que LT prossegue para
Brotada no ocidente, a notícia se espalha de Artur aprestando-se contra a terra sua própria
From western havens word was rumoured of Arthur arming against his own kingdom
esses novos textos gêm eos retornam , surpreendentem ente, aos trechos iniciais do
canto em B 1 e B 2 (A EVOLUÇÃO DO POEMA), com as posições invertidas, isto é, no m anuscrito onde o canto com eça com “Na bendita Benwick outrora Ban foi rei” aqui aparece o trecho que com eça por “No sul, passando do sono à fúria”, enquanto no outro m anuscrito acontece o inverso. Em am bas as versões o trecho em questão é seguido dos versos que falam de Lancelot contem plando o m ar de um a j anela (cf. III.11-14 e 187-9):
Lancelot dali, sobre léguas de m ar, Em vista revolta de elevada j anela, contem pla e pondera, m editando a sós com o coração em dúvida. A treva cai devagar.
Thence now Lancelot over leagues of sea in heaving welter from a high window looked and wondered alone musing doubtful-hearted. Dark slowly fell.
(onde o outro m anuscrito tem “A treva se estende”).
Meu pai parece ter decidido, por fim , que de todos esses arranj os o m ais satisfatório era m anter “No sul, passando do sono à fúria” com o abertura do canto, e que não havia lugar para o trecho que com eça “bendita Benwick”. Ver
tam bém sobre isso a A EVOLUÇÃO DO POEMA.
Daqui o texto B continua com “Brotada no ocidente, a notícia se espalha” (III.143) em duas form as sucessivas, rotuladas “Versão A” e “Versão B”. Indico aqui as diferenças entre a Versão A (antes da em enda) e LT. O m ais claro é m ostrar o texto da Versão A desde o com eço; isso corresponde a III.143-173, m as o trecho III.148-157 está ausente.
De portos ocidentais vem notícia urgente [riscado: de senhores de Logres aliados em traição], de Artur arm ando-se contra seu próprio reino;
com o poderosa frota tripulada com vingança ele reuniu depressa, que a súbita fúria da tem pestade avançando detém e im pede, rechaçada pelos m ares rebeldes. Agora m eio espera e m eio não desej a, receber convocação veloz e urgente, cham ado de fidelidade leal a seu rei, de Lancelot ao senhor Artur. Sem pre a Guinever com o à feliz luz do sol seu pensam ento vaga, m uitas vezes retornando. Há guerra na Bretanha, feitos bravios ocorrem – será ela falsa, porém outra vez de confiança renovada,
ou o perigo a prem e? Muito ele a am a. Há m uito o deixou, com o se o am or term inasse, em ira e ruína, sem dem onstrar arrependim ento, sem sentir piedade, altiva e desdenhosa. Muito ele a am a. Se o perigo am eaçasse, se ela lhe enviasse cham ado, zarparia à noite contra inim igo ou tem pestade pelos m ares furiosos a terras abandonadas com o a senhora lhe m andasse.
From western havens word had hastened [struck out: of lords in Logres leagued in treason], of Arthur arming against his own kingdom; how a mighty navy manned with vengeance he swift assembled, that the sudden fury of striding storm stayed and hindered, beaten backward by rebellious seas. Now half he hoped and half wished not to receive summons swift and urgent
to his king allegiance leal [loy al] recalling of Lancelot to his lord Arthur. To Guinever again as to glad sunlight thrust often back his thought wandered. There was war in Britain, wild deeds were wrought – was she false yet further to her faith renewed or did danger press her? Dear he loved her. Long she had left him, as were love ended, in wrath and ruin, no ruth showing, no pity feeling, proud and scornful. Dear he loved her. If danger threatened, if she sent him summons he would sail at night against foe or tempest through furious seas to lands forlorn as his lady bade him.
A partir desse ponto a Versão A é igual a LT, de III.174 até o fim do canto, com algum as variações m enores:
(III.174-6) Mas nada do m onarca, nenhum a convocação,
nem pedido da dam a. Só j ornada do vento sobre am plas águas, úm idas, sem voz.
But there came neither from his king command nor word from lady; only wind hurried over wide waters wild and voiceless.
(III.179) antes que seu sangue averm elhe a beira da tarde
ere his blood reddens the brim of evening
(III.187)
E Lancelot ali, sobre léguas de vento And Lancelot over leagues of wind
(Após III.194)
ondas de crista branca lavam retornando waves white-crested washed receding
(III.204) altas, de asas brancas, m as nos m orros e vales
high whitewingéd, but on hills and dales
As seguintes são variações entre a Versão B e LT. O trecho III.148-157 estava ausente, assim com o na Versão A, m as o texto correspondente a III.157 ss. é diferente da Versão B e de LT.
da tem pestade avançando detém e im pede, rechaçada pelos m ares rebeldes m antido no porto. Com coração partido agora m eio espera e m eio não desej a, receber convocação veloz e urgente, cham ado de fidelidade leal a seu rei, de Lancelot ao senhor Artur. Porém o orgulho o im pele a ouvir apenas pedido e resposta dita hum ildem ente. Mas não vem reivindicação nem súplica, pedido nem ordem . O orgulho está ferido. Em sua m ente vê hom ens que o contem plam , e o olhar de Gawain com brilho frio, perdoando grave o pesar que lhe causou. Portanto não sopra trom pa nem convoca a tropa, apesar de ter o coração pesado com m eio propósito, e os que m ais o am am lam entam seu hum or. Espera e não parte. Bravio ruge o m ar. As torres trem em , sacudidas pela tem pestade. Sem pre a Guinever com o à feliz luz do sol,
com o de fundo calabouço e à sua escura prisão m uitas vezes lançado, vaga seu pensam ento. Feitos bravios ocorrem ; há guerra na Bretanha – será ela falsa, porém outra vez de confiança renovada,
ou o perigo a prem e?
of striding storm stayed and hindered; beaten backward by rebellious seas it was held in harbour. With heart in twain now half he hoped, and half wished not, to receive summons swift and urgent to king his allegiance leal recalling of Lancelot to his lord Arthur. Yet pride pricked him prayer only to hear and answer humbly spoken. But there came neither claim nor entreaty, prayer nor order. Pride was wounded. In his mind saw he men that eyed him, and Gawain’s glance gleaming coldly, forgiving gravely grief that he wrought him. So horn he blew not nor his host gathered though his heart was heavy with half-purpose, and his mood they mourned who most loved him. He waited and went not. Wild roared the sea. The towers trembled tempest-shaken. To Guinever again as to glad sunlight as from deep dungeon and its dark prison thrust often down his thought wandered. Wild deeds were wrought; there was war in Britain –
was she false yet further to her faith renewed
or did danger press her?
Esse trecho continua então com o na Versão A, conform e citado acim a, e prossegue até o final do canto sem diferenças significativas de A.
*
Outro m anuscrito com pleto do Canto III, que pode ser cham ado de C, tam bém sem título nem núm ero de canto, encontra-se na coleção de papéis rascunhados, tão bem escrito e legível com o o texto “final” (isto é, LT), do qual possivelm ente deveria ter feito parte. Em relação ao m anuscrito, ou m anuscritos, B, ele de fato quase atinge a form a de LT do m odo com o este foi escrito (antes que tam bém este, m ais tarde, recebesse outras correções a lápis): quase todos os trechos
detalhados nas A EVOLUÇÃO DO POEMA foram alterados para a form a final. Sua existência dem onstra a disposição de m eu pai para construir seu poem a cam ada por cam ada, copiando repetidam ente o m esm o trecho, ou trechos m uito sem elhantes, o que perm ite que o desenrolar da obra sej a acom panhado em traços am plos ou em detalhe m inucioso.
Aqui só é necessário registrar expressam ente um trecho desse texto adicional
C. Trata-se de III.124-7, cuj o texto B está dado na A EVOLUÇÃO DO POEMA. Originalm ente C tinha ali:
O pesar Artur conheceu
no seio do coração; que seus salões reconquistados esposa infiel e m ais
Grief knew Arthur
in his heart’s secret; that his halls regained wife unfaithful and more
Meu pai riscou esses versos ao escrevê-los e os substituiu por
no seio do coração; pareceu-lhe a casa, apesar de a m ais linda m ulher em sua beleza bravia ser outra vez rainha nas cortes douradas, m enor agora em contentam ento, e sua luz dim inuída.
in his heart’s secret; and his house him seemed, though fairest woman in her fell beauty in the golden courts was queen again, now less in gladness, and its light minished,
Daí foi alcançada a form a final:
pareceu-lhe a casa
m inguada em alegria, estragado o contentam ento,
Por últim o, ao lado do trecho inicial do canto em C (“No sul, passando do sono à fúria [...]”), m eu pai escreveu a lápis: “Ou se este for o Fit I Na bendita Benwick & c.” Fit é um a palavra do inglês antigo que significa parte ou porção de um poem a; m eu pai a usava às vezes, em bora em relação a A Queda de Artur ele tam bém usasse “canto”. Aqui ele só pode estar querendo dizer que im aginava que o “canto de Lancelot” poderia ser o prim eiro do poem a, e nesse caso Na bendita Benwick seriam as palavras iniciais. Isso talvez explique as duas páginas
paralelas do m anuscrito B (A EVOLUÇÃO DO POEMA), cada um a delas contendo um ou outro dos trechos de abertura.
*
Existe m ais um a com plicação curiosa na história do Canto III. Trata-se de um m anuscrito, ou um a série de páginas m anuscritas em m eio à grande pilha de papéis de rascunho, onde os eventos anteriores à contenda e ao rom pim ento da com panhia da Távola Redonda seriam contados num a conversa entre Lionel e Ector, parentes de Lancelot, relem brando j untos a dolorosa história.
Essa versão com eça com o trecho “Na bendita Benwick outrora Ban foi rei
[...]” na form a j á encontrada com o trecho inicial do m anuscrito B 1 (A
EVOLUÇÃO DO POEMA), m as com um terceiro verso diferente: onde o outro texto tem “viaj aram nas terras santas, deixando seus lares, / vagando ao m undo oriental”, o texto presente tem “do antigo Oriente, buscando ilhas / no m undo ocidental, viaj aram vagando”.
Essa versão, escrita de form a bem legível, à tinta com alguns rascunhos prelim inares a lápis, traz o núm ero de Canto II a lápis. Aqui apresento o texto integral, seguindo desde o últim o verso do trecho de abertura, “elas vigiavam as águas: não tem iam a guerra”.
Ali então Lancelot, senhor de Benwick, suporta horas escuras e profunda angústia. Lam entam seu hum or os que m ais o am am , am igos e parentes que com partilham sua sina deixando Logres e seu senhor Artur. Lionel e Ector, sentados a sós, tio e sobrinho, relem bram os dias ruins. O poderoso Ector, filho m ais m oço de Ban, falando do irm ão, de sua fam a e loucura, enche-se de piedade.
“Em tem pos idos dentre nossos bons irm ãos
ele dem onstrou não ter igual. Louvor e glória e a adoração dos hom ens pelo poder e pela honra ele sem pre m ereceu, até o m al crescer e dividir a fé. Bela dem ais a rainha, nobre dem ais o cavaleiro, e forte dem ais a rede que o fez cativo. Não, ai dele!, com o rainha, nem com o senhora lígia, porém m ais cara que a vida
ele a am ou por m uito tem po, m as m anteve-se leal a nosso senhor Artur. Mas o am or venceu. Em vão ele lutou nos fortes grilhões dela, m as não obteve liberdade; e o am or inflexível, com lágrim as ou riso ao fiel com o aço devagar encurvou a am arga doçura.”
Lionel responde – senhor de coração altivo,
inflexível na guerra, porém frio na sabedoria, percebia os corações hum anos e a razão de suas m entes:
“Sim , pouco a am o, a senhora im placável,
form osa e tem ível qual m ágica fada que cam inha no m undo pra torm ento dos hom ens!
O destino a enviou. Porém considero m ais vil os olhos da invej a que vigiam sem pre, a astúcia de Mordred que se m ove em treva com conselho envenenado e deform ado propósito.
Lancelot ele não am ava pelo seu am plo renom e,
e pelo favor da rainha am aldiçoou sua sina; Gawain ele odiava, ao que detestava a m alícia, elevado e nobre, de dura têm pera; pois o rei o am ava, ouvindo prim eiro seu conselho
dentre os vassalos; e ele guardava seu senhor com o cão zeloso guarda o am o gentil.
Muitas vezes os observei. Sussurrava palavras
m aliciosas a Gawain, acusava Guinevere e difam ava Lancelot com m entiras m ais negras que as ações. Terrível foi a ira e o pesar de Gawain. Alegrou-se Mordred; pois aos ouvidos de Artur m ás notícias, dano ao que ouve, ferida ao que fala, levou-lhas rudem ente, aquele que m ais o am ava.
Assim ganhou Gawain o ódio de Guinever; e Lancelot se atém à m entira dela de que o desej o e a invej a o m udaram odiosam ente
em pérfida víbora – esse único cavaleiro
que, quase igual a ele, não conhecia invej a, que disfarçava com cortesia um a fria desconfiança
da beleza da rainha. Maldita falsidade! Era serpente em verdade, arrastando-se em segredo
e picando silenciosa a quem ainda não vê!”
Ector responde: “Toda a nossa gente
deve portar a culpa dessa loucura cega, exceto apenas Lionel. Pouco escutam os tuas palavras de sabedoria, e dem ais o am am os por direitos ou razões, defendendo o erro e fazendo da contenda da rainha a nossa causa por am or a Lancelot. Nosso am or perdura apesar de term os rom pido da Távola Redonda a liberdade e a com panhia, na luta feroz. Depressa sacam os espadas contra irm ãos j urados antes de tom arem a rainha. Com j ustiça cruel condenaram -na à m orte. Mas sua m orte não sobreveio.
Eis que Lancelot com o cham a de relâm pago, radiante, m ortal, trovão a galope, em assalto súbito, com ím peto incauto, derrubou e pisoteou seus am igos de outrora. [Libertou a rainha e a levou para longe]
There now Lancelot, lord of Benwick, dark hours endured and deep anguish. His mood they mourned who most loved him, friends and kinsmen that his fortune shared leaving Logres and their lord Arthur. Lionel and Ector alone sitting, uncle and nephew, the evil days to mind recalled. Mighty Ector, Ban’s younger son, of his brother speaking, of his fame and folly, was filled with ruth.
‘In former time of our fair brethren
he was proven peerless. Praise and glory
and men’s worship for might and honour he ever earned him, until evil grew and faith divided. Too fair the queen, the knight too noble, and the net too strong that caught him captive. Not as queen, alas! nor as liege lady, but than life more dear he long loved her, yet loyal held him to our lord Arthur. But love conquered. He strove in vain in her strong fetters, but release won not; and love unyielding with tears or laughter the true as steel bent slowly down to bitter sweetness.’ Lionel answered – lord proud-hearted, in war unwavering, yet in wisdom cool men’s hearts he marked and their minds’ purpose:
‘Yea, little I love her, lady ruthless, fair as fay-woman and fell-minded, in the world walking for the woe of men!
Fate sent her forth. Yet I fouler deemc the eyes of envy that are ever watchful, the malice of Mordred moving darkly with counsel poisoned to crooked purpose. Lancelot he loved not for his large renown, and for the queen’s favour cursed his fortune; Gawain he hated, who guile despised, high and noble, hard in temper; for the king loved him, to his counsel first of his lieges listening; and he his lord guarded as jealous hound doth gentle master.
I watched them oft. Words he whispered
with guile to Gawain, Guinevere accused and Lancelot with lies slandered darker than the deeds were. Dire was the anger
and grief of Gawain. Glad was Mordred; for to Arthur’s ears evil tidings, harm to hearer, hurt to speaker,
hed bluntly brought who best loved him. Thus Gawain earned Guinever’s hatred; and Lancelot to her lie holdeth that lust and envy loathly changed him to evil adder – that only knight who almost his equal envy knew not, who in courtesy cloaked a cold mistrust
of the queen’s beauty. Curséd falsehood!e There was snake in sooth, secret crawling, and stealthy stinging, whom still he sees not!’
Ector answered: ‘All our kindred
must bear the blame of that blind folly, but Lionel only. We little hearkened to thy words of wisdom, and too well loved him for rights or reasons, wrong defending, and the queen’s quarrel our cause making for love of Lancelot. Our love endureth, though in twain we rent the Round Table’s freedom and fellowship, fiercely striving. Swift swords we drew against sworn brethren, ere the queen was taken. With cruel justice to death they doomed her. But her death came not.
Lo! Lancelot as lightning’s flame radiant, deadly, riding thunder,
in sudden assault sweeping heedless his friends of old felled and trampled. [The queen he freed and carried her afar]
O últim o verso foi riscado, e abaixo dele m eu pai escreveu a lápis as palavras “eu estava com ele”, presum ivelm ente pronunciadas por Sir Ector.
Aqui term ina esse texto, que pode ser cham ado de “versão de Lionel e Ector”, indicado com o LE. Sinto-m e seguro em dizer que nada m ais foi escrito sobre essa história contada em form a de discurso relatado. Ver-se-á que desde o verso “Depressa sacam os espadas contra irm ãos j urados”, a sete versos do fim , esse texto se desloca na direção daquele de LT no Canto III.71-80; e os últim os cinco versos são, de fato, quase idênticos ao texto do m anuscrito m ais antigo A e de seu
sucessor B (O POEMA NA TRADIÇÃO ARTURIANA), que tem :
condenaram -na à m orte. Mas sua sina não sobreveio. Eis que Lancelot, relâm pago inflam ado, radiante, m ortal, trovão a galope, em assalto súbito, com ím peto incauto, derrubou e pisoteou seus am igos de outrora.
to death they doomed her. But her doom came not. Lo! Lancelot, lightning kindled, radiant, deadly, riding thunder, in sudden assault sweeping heedless his friends of old felled and trampled.
Se fosse essa a única evidência disponível, poderíam os dizer que, se m eu pai não tinha B diante de si, pelo m enos ao chegar até esse ponto da “versão de Lionel e Ector”, ele decerto havia guardado o trecho de B na m em ória; e, se for verdadeira esta últim a alternativa, poderíam os especular que nesse ponto ele percebeu que Lionel e Ector estavam se tornando m eros porta-vozes da história
retrospectiva tal com o ele j á a havia contado. Mas, com o verem os em breve (A
EVOLUÇÃO DO POEMA ss.), a questão é m ais com plexa.
Antes de nos voltarm os a isso, porém , essa nova versão é especialm ente interessante porque apenas aqui e na Sinopse I m eu pai descreveu com algum
detalhe as m aquinações de Mordred. Na segunda sinopse (A EVOLUÇÃO DO
POEMA) está dito apenas que “Mordred, m ovendo-se no escuro, avisa tanto Lancelot quanto o rei”. Na terceira sinopse, que, conform e observou m eu pai, foi
seguida no poem a, nada se diz a esse respeito, exceto em um a frase rej eitada (A
EVOLUÇÃO DO POEMA) m encionando que Mordred traiu Lancelot; m as está dito tam bém que após sua volta à França, ao ponderar sobre o m odo com o agiria, pensou no “frio desdém de Gawain que ele inj ustiçara”. É claro que nenhum a dessas sinopses era um a declaração cuidadosa da narrativa proposta: na verdade eram lem bretes, “m om entos” significativos que ele desej ava m anter na lem brança, e por isso registrou por escrito.
Na Sinopse I, no entanto (A EVOLUÇÃO DO POEMA), ficam os sabendo que Mordred contou a Gawain e seus irm ãos; que Agravain contou ao rei; e que Lancelot m atou Agravain. Aí o elem ento essencial da história é que Mordred, m entindo para Lancelot e Guinevere, disse que a traição “foi por propósito de Gawain, por invej a”; e Lancelot acreditou em Mordred. Aqui aparece pela prim eira vez o que foi repetido na terceira sinopse, o “frio desdém ” de Gawain por Lancelot, por quem tinha sido inj ustiçado.
Na versão “Lionel e Ector” do Canto, Mordred acusou Guinevere e Lancelot para Gawain, e em “ira e pesar” Gawain contou ao rei, m erecendo assim o ódio de Guinevere, e a m entira desta de que Gawain fora transform ado em serpente pelo desej o e pela invej a – no que Lancelot acreditou, e m uito o inj ustiçou.
Cabe aqui apresentar outro texto, este m uito curto. A prim eira de duas páginas foi escrita a lápis m acio e parece ter sido anotada às pressas com o com posição nova, quase sem pontuação; m as é surpreendentem ente legível, em bora não em todos os pontos.
Lancelot era considerado por grandes e pequenos o m ais livre, m ais destem ido dos bons irm ãos da Távola Redonda antes que o tem po ruinoso e a astúcia de Mordred produzissem m aldades
Lancelot was holden by low and high freest most fearless of the fair brethren of the Round Table ere ruinous time
and Mordred’s malice mischief compassed
Nesse ponto o texto é interrom pido por anotações adventícias, e não fica claro se o que se segue deve ser tratado com o continuação.
desperta a invej a a alegria tolda-se pois a ninguém a rainha quer ouvir louvado exceto Lancelot apenas pouco lhes agrada – m enor em lealdade [ilegível] quando a astúcia de Mordred se volta ao m al. palavras são ditas da fragilidade da m ulher e da fraqueza do hom em , e m uitos escutam . Dizem ao rei com o sua corte foi desonrada – [? e ou por] o próprio Mordred com sorriso no rosto Porém à rainha ele diz que seu conselho foi traído pelo bom Gawain por sua grande pureza seu am or e lealdade a seu lígio Artur. Assim nasce o ódio de Gawain e Lancelot Assim nasce o ódio de Gawain e Guinever Assim nasce a fúria de Artur e Lancelot Ele deixa a com panhia da Távola Redonda volta por sobre o m ar a seus assentos de outrora à Jubilosa Guarda nos m orros escarpados na bendita Benoic onde Ban governou
jealousy awakened joy was darkened for none would the queen hear named in praise save Lancelot alone it liked them ill – the lesser in loyalty [illegible] when Mordred’s malice moved to evil. words were spoken of woman’s frailty
and man’s weakness, and many harkened. The king men told how his court was dishonoured – [? and or by] Mordred himself with mouth smiling Yet the queen he told that her counsel was betrayed by Gawain the good for his great purity his love and loyalty to his liege Arthur. Thus came the hate of Gawain and Lancelot Thus came the hate of Gawain and Guinever Thus came the wrath of Arthur and Lancelot He left the company of the Round Table sailed back over sea to his seats of old to Joyous Gard in the jagged hills in Benoic the blessed where Ban had ruled
Aqui a história da contenda, que surgiu do am or de Lancelot e Guinevere, parece ser a de que Mordred contou a Guinevere que Gawain contara ao rei.
Os dois últim os versos (ao pé da página) são notáveis pelos nom es. Esse é o único lugar dos papéis de A Queda de Artur onde aparece o nom e Jubilosa
Guarda (ver O POEMA NA TRADIÇÃO ARTURIANA, O POEMA NA
TRADIÇÃO ARTURIANA, O POEMA NA TRADIÇÃO ARTURIANA), aqui “nos m orros escarpados [em ] Benoic” – em outros trechos sem pre Benwick: m as
Benoic é a form a na Mort Artu francesa (O POEMA NA TRADIÇÃO
ARTURIANA).
A segunda das duas páginas foi escrita à tinta em garranchos m uito difíceis de decifrar. Com eça pelo verso “Assim nasce o ódio de Gawain e Lancelot” e repete os seis versos seguintes (com Benwick por Benoic). Depois segue-se
[? Assim ] o verm e perfura toda a riqueza e raiz da Árvore em flor em seu tem po de [palavra ilegível] assim Lancelot não parte m ais com seu lígio ao com bate nas regiões distantes contra os ferozes saxões. [verso ilegível]
Um a m ensagem por sobre a água do pesar na Bretanha
chega a Lancelot em sua terra longínqua de Artur que se arm a contra o próprio reino. espera e não parte. Mensagem de [? sua] senhora não chega [? cham ando-o], do rei nenhum a convocação para navegar sobre a água salgada lhe foi enviada ao bom Gawain pelos [? am igos] de Guinevere [palavras ilegíveis]
[? So] the worm had pierced all the wealth and root of the Tree of blossom in its time of [illegible word] so went Lancelot no more with his liege to battle on the far marches against the fierce Saxons. [illegible line]
A word over the water of woe in Britain came to Lancelot in his land afar of Arthur arming against his own kingdom. he waited and went not. Word from [? his] lady came not [? him calling], from the king no summons to sail over salt water was sent to him for Gawain the good of Guinevere’s [? friends] [illegible words]
Essas últim as palavras poderiam ser lidas com o “duvidou com o infiel”. Parece-m e que esse texto foi um a m inuta m uito inicial desse elem ento da
história. A propósito, os versos deste texto (A EVOLUÇÃO DO POEMA)
desperta a invej a a alegria tolda-se pois a ninguém a rainha quer ouvir louvado exceto Lancelot apenas pouco lhes agrada – m enor em lealdade
jealousy awakened joy was darkened
for none would the queen hear named in praise save Lancelot alone it liked them ill – the lesser in loyalty
lem bram as palavras da Sinopse I, A EVOLUÇÃO DO POEMA: “Mas a Rainha am ava Lancelot, som ente elogios dele ela escutava. Assim o ciúm e despertou em corações m enores [...].”
Existe tam bém outra página isolada que parece, quase com certeza, estar associada às páginas do texto precedente: foi encontrada j unto com eles e trata do m esm o assunto, com um verso m uito sem elhante. O texto com eça no m eio de um a frase, m as a página precedente desapareceu; e ele foi escrito apressadam ente, à tinta.
de Artur que se arm a contra o próprio reino. Muitas vezes se pergunta se chegará m ensagem , se Artur lhe pedirá auxílio na guerra.
Pois a astúcia de Mordred lhe é esclarecida
e vê m uitas coisas que antes desconhecia. Muitas vezes então desej a e se pergunta se chegará
[m ensagem
a convocá-lo para navegar sobre a água salgada pedindo seu auxílio na necessidade de Artur. Ou talvez ouça logo da Bretanha e a rainha o cham e para consolá-la.
Mas não vem m ensagem e ele m aldiz o dia
e rem ói negro pensam ento no peito à tardinha. Que o rei sej a conquistado – e a rainha feita viúva. [Em ] Mordred há de lem brar o poderio de Benwick outro de m aior valor há de tom ar essa coroa.
Grave é seu aspecto.
Ector diz a Lionel
of Arthur arming against his own kingdom. Oft he wondered whether word would come, would Arthur ask him for aid in war.
Now Mordred’s malice was made clear to him
and many things he saw he had missed before. Oft then we wished and wondered that word might come to summon him to sail over salt water asking for his aid in Arthur’s need. Or haply from Britain he would hear ere long and the queen would call him to comfort her.
But no word came and he cursed the day
and a black thought brooded in his breast at eve. Let the king be conquered – and the queen widowed. [In] Mordred shall remember the might of Benwick another more worthy shall that crown seize.
Grim were his looks.
Ector said to Lionel
Não creio que estas últim as palavras dem onstrem que este texto estej a associado ao artifício, abandonado, de colocar a história retrospectiva de Lancelot e Guinevere nas bocas de Sir Lionel e Sir Ector. Creio que deve ser associado, isso sim , a um a nota isolada em que m eu pai afirm a para si m esm o que algum a parte da história anterior deveria ser “com binada com a m editação de Lancelot – no surgir da torm enta”, e deveria ser am pliada ainda m ais “quando Ector e Lionel
discutem a inatividade dele e se irritam com isso” (ver A EVOLUÇÃO DO
POEMA). No verso “Em Mordred há de lem brar” [In Mordred shall remember] a palavra “Em ” [In] parece clara, m as é obviam ente um erro, talvez por “Então” [Then]. Presum o que “essa coroa” se refira à coroa da Grã-Bretanha. A especulação de Lancelot sobre um a possível resolução desej ável dos pesares da Grã-Bretanha é espantosa, e não encontra eco em nenhum lugar dos papéis de rascunho. Por outro lado, sua perplexidade m ental, tal com o retratada na Sinopse
I (pO POEMA NÃO ESCRITO), e de form a sem elhante na Sinopse III (A
EVOLUÇÃO DO POEMA), poderia ser vista com o solo fértil de onde um “negro pensam ento” tão negro poderia ser “rem oído no peito”.
Retornando à questão do texto de Lionel e Ector (LE) e sua convergência com
a versão B (A EVOLUÇÃO DO POEMA), o fato é que existe outro m anuscrito que é m anifestam ente m ais antigo que LE, e que m eu pai m anifestam ente estava seguindo quando escreveu LE, m as do qual Lionel e Ector estão ausentes.
Nesse m anuscrito o trecho inicial Na bendita Benwick está em form a m ais prim itiva do que em qualquer um a de suas outras num erosas ocorrências. No
verso 3 ele tem “do antigo Oriente, buscando ilhas”, assim com o LE (A
EVOLUÇÃO DO POEMA); m as adicionalm ente tem as seguintes leituras onde
LE tem as m ais prim itivas (ver A EVOLUÇÃO DO POEMA): no verso 6 “contra o erm o” por “contra os povos bravios”; no verso 7 “Torre” por “Torres” (e assim “abaixo dela” no verso 9 por “abaixo delas”, “ela vigiava” e “não tem ia” por “elas” no verso 12); e “penhascos escavados” por “penhascos cavernosos” no verso 10. Estas e m uitas outras correções foram escritas nas m argens desse texto, m as eu o apresento com o era antes de serem feitas as correções.
Após o trecho inicial esse texto adicional continua assim , para ser com parado
com o de LE nas A EVOLUÇÃO DO POEMA ss.
Ali então Lancelot, o senhor de Benwick, passou dias am argos ardendo saudoso. Em tem pos idos dentre os bons irm ãos ele dem onstrou não ter igual; louvor e glória e a adoração dos hom ens pelo poder e pela honra ele sem pre m ereceu, até o m al crescer e dividir a fé. Bela dem ais a Rainha, nobre dem ais o cavaleiro, e forte dem ais a rede que o fez cativo. Não com o Rainha som ente nem com o senhora a am ou, porém m ais cara que a vida por m uito tem po a am ou, m as m anteve-se leal a seu senhor Artur. O am or foi m ais forte. Cegado por sua beleza curvou-se por fim , traindo a confiança, o fielo com o aço.
Assim foi lançada a sem ente de dor infinda.
A invej a tem olhos sem pre alertas:
Mordred foi o m ais incitado pela astúcia: não am ava Lancelot por seu am plo renom e, e pelo favor da rainha am aldiçoou sua sina; Gawain ele odiava, grande e firm e, forte, inflexível, de grave têm pera, de quem a rainha desconfiava m as a quem o rei adorava
tão cioso com o um cão que o gentil am o vigia sem se cansar. Palavras então falou m aliciosas a Gawain: acusava Guinevere e difam ava Lancelot com m entiras m ais negras que as ações. Terrível foi a ira do bom Gawain – o pesar abateu seu coração. Assim aos ouvidos de Artur m ás notícias, palavras am argas levou aquele que m ais o am ava. Assim ganhou Gawain o ódio de Guinevere e perdeu para sem pre o am or de Lancelot; e Mordred observa conduzido ao riso. Foi rom pida da Távola Redonda a liberdade e a com panhia com ferozes contendas. Depressa os irm ãos j urados sacaram espadas, irm ão m atou irm ão, sangue derram ado em fúria, antes de a rainha ser capturada. Com j ustiça cruel condenaram -na à m orte. Mas o dia não sobreveio. Pois Lancelot com o a cham a do relâm pago, furioso, m ortal, no trovão e galope, em assalto súbito, com ím peto incauto, derrubou e dividiu seus am igos de outrora. Libertou a rainha e a levou para longe;
então a raiva o deixou, e sua fúria abateu-se, seu hum or titubeou. Lam entou dem asiado tarde, arrependido da ruína da Távola Redonda, a com panhia e liberdade de seus belos irm ãos, ansiando ainda pelo am or de seu senhor Artur, lam entando seu orgulho e até m esm o sua proeza.
O perdão lhe foi negado. Buscou a paz;
iria curar a honra com sua própria dor, e a situação da rainha com a m ercê de seu rei reestabelecer. Estranho ela pareceu a ele; porém pouco lhe agradava o exílio solitário e pelo am or perder o esplendor da vida. Assim separaram -se na dor. Ela recebeu o perdão, para ser rainha de novo na corte de Cam elot, por m uito que Gawain desaprovasse. A graça de Artur
Lancelot não obteve: banido da terra, rem ovido da cavalaria da Távola Redonda, decaído da altura, ao seu lar longínquo partiu com o não queria. Artur conheceu a dor no segredo do coração, por seus salões recuperarem
um a Rainha de beleza extrem a a tão grande custo, perdendo o m ais nobre cavaleiro em sua necessidade.
Não foi a sós por sobre as ruidosas águas
que Lancelot partiu. Os senhores de sua fam ília eram m uitos e poderosos. Em seus m astros revoavam
os estandartes de Blam ore e de Bors, o forte, de Lionel e Lavain e do leal Ector, filho m enor de Ban. Estes navegaram rum o a Benwick
abandonando a Bretanha. Não m ais na batalha em auxílio de Artur portaram suas arm as,
m as nas torres de Ban, altas e im pávidas, habitaram alertas, recusando a guerra, guardando com am or seu senhor Lancelot.
There now Lancelot, the lord of Benwick, bitter days abode burned with longing. In former time of the fair brethren he was proven peerless; praise and glory and men’s worship for might and honour he had ever earned him, until evil grew and faith divided. Too fair the Queen, the knight too noble, and the net too strong that caught him captive. Not as Queen only nor as lady he loved her, but than life more dear
he loved her long, yet loyal held him to his lord Arthur. Love was stronger. By her beauty blinded he bent at last, trust betraying, who was true as steel. Thus the seed was sown of sorrow unending.
Eyes hath envy that are ever watchful:
most was Mordred by malice goaded: he loved not Lancelot for his large renown, and for the queen’s favour cursed his fortune; Gawain he hated, great and steadfast, strong, unbending, stern in temper, who the queen mistrusted but the king worshipped
as jealous as a hound gentle master watches unwearied. Words he spake then with guile to Gawain: Guinevere accused and Lancelot with lies slandered
darker than the deeds were. Dire was the anger
of Gawain the good – grief smote his heart. Thus to Arthur’s ears evil tidings, bitter words he brought who best loved him. Thus Gawain earned Guinevere’s hatred and Lancelot’s love he lost for ever; and Mordred watched moved to laughter. In twain was rent the Round Table’s freedom and fellowship with fierce quarrels. Swift swords were drawn by sworn brethren brother brother slew, blood spilled in wrath, ere the queen was captive. With cruel justice to death they doomed her. But the day came not.
For Lancelot like lightning’s flame raging, deadly, riding the thunder in sudden assault sweeping heedless his friends of old felled and sundered. The queen he freed, and carried her afar; then rage left him, and his wrath sickened, his mood faltered. He mourned too late in ruth for the ruin of the Round Table, the fellowship and freedom of his fair brethren,
longing yet for the love of his lord Arthur, repenting his pride and his prowess even.
Pardon was denied him. Peace he sought for;
honour yet would heal with his own sorrow, and the queen’s estate with her king’s mercy establish anew. Strange she deemed him; yet she liked little lonely exile as for love to lose her life’s splendour.
Thus in pain they parted. Pardon she was granted, in the courts of Camelot to be queen once more, though Gawain grudged it. Grace with Arthur Lancelot found not: from the land banished, from the Round Table reft of knighthood, from his height fallen to his homes afar he went as he would not. Woe knew Arthur in his heart’s secret that his halls regained Queen surpassing fair at cost so heavy, his noblest knight in his need losing.
Not alone from the land over loud waters
went Lancelot. Lords of his kindred many were and mighty. At their masts floated the banners of Blamore and of Bors the strong, of Lionel and Lavain and loyal Ector Ban’s younger son. These to Benwick sailed Britain forsaking. In battle no more to Arthur’s aid their arms bore they, but in the towers of Ban, tall and dauntless, watchful dwelt they, war refusing, Lancelot their lord with love guarding.
Aqui m eu pai deixou um espaço, antes de continuar, ao que parece, na m esm a ocasião (e com num eração de versos contínua com o texto precedente) e sobre um assunto diverso. Mais tarde, com letra m enor e m ais caprichada, inseriu na m argem após as palavras “guardando com am or”:
em seus dias de treva. Profunda sua angústia, arrependendo-se do arrependim ento e com o orgulho
[hum ilhado,
o que deixara a lealdade a serviço do am or
e agora perdera o am or ansiando pela lealdade.
in his days of darkness. Deep his anguish, repenting repentance and his pride humbled, who loyalty had left in love’s service and love had now lost loyalty craving.
Não é óbvio onde esse texto deveria ser colocado em relação aos dem ais m anuscritos do Canto III, m as por diversas indicações creio ser m uito provável
que ele estej a m ais próxim o do m ais antigo deles, A (O POEMA NÃO
ESCRITO), e portanto que possa ser cham ado por m era conveniência de A*; m as, sej a com o for, deve ser considerado um tratam ento distinto, em vista do relato feito sobre com o a contenda se passou, que se encontra apenas no
m anuscrito do poem a aqui e na “versão de Lionel e Ector” derivada dele (ver A
EVOLUÇÃO DO POEMA). É m uito claro que m eu pai tinha A* na sua frente enquanto escrevia LE, e ao escrever o transform ou num a conversa entre Lionel e Ector. Se estou correto ao considerar A* derivado de um a época próxim a do início da com posição do “canto de Lancelot” por m eu pai, um a consequência presum ível seria que a ideia de contar a história de Lancelot e Guinevere com o discussão entre dois Cavaleiros da Távola Redonda, parentes de Lancelot, tam bém foi antiga na evolução do poem a e logo abandonada.
*
Canto I
Eu disse que o relato, nesse m anuscrito A*, da contenda que rom peu a Távola Redonda, é seguido após um espaço por versos sobre um assunto diferente, com num eração contínua dos versos. Aqui m ostro os versos do m anuscrito nesse ponto:
Não m ais em com bate 85
em auxílio de Artur portaram suas arm as, m as nas torres de Ban, altas e im pávidas, habitaram vigilantes, recusando a guerra, guardando com am or seu senhor Lancelot.
In battle no more 85
to Arthur’s aid their arms bore they, but in the towers of Ban, tall and dauntless watchful dwelt they, war refusing, Lancelot their lord with love guarding.
Artur viaj a ao oriental com bate 90 e batalha trava em terras selvagens [...]
Arthur eastward in arms journeyed, 90 and war he waged on the wild marches ...
Aqui está o prim eiro surgim ento, nos papéis de rascunho, do que se transform aria nos versos de abertura do poem a, os prim eiros versos do Canto I, a cam panha de Artur contra os invasores pagãos do leste. Parece m uito im provável que m eu pai sem pre tenha pretendido dar à “cam panha oriental” do Rei Artur um lugar im portante em seu poem a. Só há um a referência a ela nas sinopses. Está na
Sinopse I (A EVOLUÇÃO DO POEMA): “Nem ele [Lancelot] nem sua fam ília lutaram de novo por Artur, nem m esm o quando ouviram dos ataques à Grã-Bretanha, nem da surtida de Artur para o leste.” Há tam bém algum as anotações a lápis num papelzinho separado, sugerindo ordenações estruturais dos cantos. Um a delas diz:
I Artur rum o ao Leste
II Lancelot e o surgim ento da torm enta [seguido por uma referência
ilegível a Guinevere]
III Mordred
A outra diz:
II Fazer a viagem de Artur para o leste im ediatam ente após a Fuga
de Guinevere
III Incluir em parte da história pregressa com Lancelot m editando –
no surgim ento da torm enta. [? Mais] quando Ector e Lionel discutem sua inatividade e se irritam com ela
IV Rom eril e Morte de Gawain
Essas sequências, que não concordam um a com a outra nem com a estrutura do poem a no texto m ais recente, provavelm ente expressam as reflexões de m eu pai quando a cam panha oriental de Artur surgira com o elem ento principal da narrativa. Na observação sobre o Canto III no segundo grupo de anotações, vem o-lo refletindo sobre o m odo de enquadrar a história, em retrospecto de Lancelot e Guinevere e da grande contenda. A nota II do segundo grupo é difícil de interpretar.
Tenho de adm itir que, enquanto pode ser deduzida a sequência da com posição quanto aos m anuscritos dos cantos individuais, achei im possível detectar com certeza a sequência em que esses m ovim entos estruturais ocorreram . Mas, a partir do m aterial rascunhado que sobrevive, suficientem ente abundante, parece pelo m enos m uito provável que foi aqui, no m anuscrito A*, de repente, com o que “sem prenúncio”, que o grande ataque do Rei Artur contra os bárbaros irrom peu em A Queda de Artur.
A relação entre esse m anuscrito, o m ais antigo que subsiste do Canto I, “Com o Artur & Gawain foram à guerra e cavalgaram rum o ao leste”, que é a parte posterior de A*, m as que distinguirei com o AE por “Arthur Eastward” [“Artur Rum o ao Leste”], e o texto final, é extraordinária. Aqui apresento os prim eiros 28 versos de AE, colocando na m argem os núm eros de verso (m ais ou m enos) correspondentes de LT (o texto m ais recente).
Artur viaj a ao oriental com bate (I.1-4) e batalha trava em terras selvagens nas vagas navega, atravessa até os saxões, contra o reino de Rom a arrum a a defesa. Castelos e tem plos de gentios reis (I.41-2) sua potência ataca, com vitória m archando à lúgubre m argem da nebulosa Floresta das Trevas.
(Após I.43, riscado)
Arthur eastward in arms journeyed (I.1-4) and war he waged on the wild marches
over seas sailing to Saxon lands, from the Roman realm ruin defending. Halls and temples of the heathen kings ( I.41-2) his might assailed marching in conquest to misty Mirkwood’s margin dreary. (After I.43, struck out)
Os oito versos seguintes foram inseridos no texto, à época da com posição, com um a instrução para colocá-los após o verso 7:
Pra voltar atrás do tem po a m aré, (I.5-9) seu coração tencionava dom ar hom ens pagãos, que com frotas inúm eras nunca m ais assediem as praias com pridas, as priscas águas nem tenham butim da Bretanha, sua ilha, atacando e devastando. Clam am os corvos, (I.76-8) fazem eco as águias que no ar volteiam , os lobos ululam circulando a m ata.
Thus the tides of time to turn backward, (I.5-9) heathen men to tame his heart purposed, that with harrying fleets they should hunt no more on the shining shores and shallow waters of Southern Britain seeking booty, raiding and ravaging. Ravens croaking (I.76-8) the eagles answered in the air wheeling, wolves were howling on the wood’s border.
Sente falta de Lancelot, Lionel e Ector, (I.44-5) Bors e Blam ore ao com bate não vêm . Mas os tem pos o im pelem , e a sina traiçoeira, e a m alícia de Mordred m ove seus conselhos.
Nem engano nem engodo Gawain suspeita, (I.35) com prazendo-se na guerra, buscando honra antes dos dianteiros cavalga feroz, [riscado: baluarte de seu rei.] Frio sopra o vento. (I.79) Com asas surgem do oeste as novas (I.143-5) da guerra que desperta, e dor na Grã-Bretanha. Atorm entado vem Cradoc buscando o rei, cavalgando sem descanso; rasgadas suas vestes, de pressa e fom e seu cavalo tropeça.
Lancelot he missed; Lionel and Ector, (I.44-5) Bors and Blamore to battle came not. But the times drave him and treacherous fate, and Mordred’s malice moved his counsels. Gawain guessed not guile or treason, (I.35) in war rejoicing; worship seeking before the foremost fiercely rode he [struck out: his king’s bulwark.] Cold blew the wind. (I.79) From the west came word winged and urgent (I.143-5) of war awaking and woe in Britain. Careworn came Cradoc the king seeking, riding restless; rent were his garments, with haste and hunger his horse foundered.
Se com parássem os esses dois textos sem nenhum outro conhecim ento, poderíam os supor que o autor estivesse escolhendo versos do texto m ais longo em qualquer ordem que lhe aprouvesse! Mas na verdade acontece o contrário. Não vej o outra solução para o enigm a a não ser a de que esses versos da prim eira parte de AE devem ter perm anecido vivos e precisam ente lem brados na m ente de m eu pai (ou talvez ele tivesse o texto todo guardado na m em ória), e, quando, m ais tarde, ele chegou a escrever um poem a m uito m ais com pleto sobre a cam panha de Artur, eles ressurgiram , em bora em contextos totalm ente diferentes. Assim , os corvos que crocitavam e as águias que rodopiavam , e os lobos que uivavam na beira da floresta, após as incursões dos ladrões e destruidores saxões, ressurgem em terras solitárias m uito distantes das costas da Grã-Bretanha. E “os lobos ululam circulando a m ata” no prim eiro verso do quarto canto de A Queda de Artur.
Mas, além do ponto alcançado acim a, AE m uda e, por cinquenta versos, torna-se um precursor m uito próxim o do Canto I do texto LT, iniciando:
Dizendo a Artur notícias ruins: (I.151-200) Dem ais te dem oras rem oto da tua terra! Em penhas-te em prélio com povo bravio no leste sem casas [...]
To Arthur spake he evil tidings: (I.151-200) Too long my lord from your land ye tarry! While war ye wage on the wild people in the houseless East .........
apenas com leves divergências aqui e ali. Depois, desde “e escudos riscados de cábulas cavaleiros / em polar-nos a tropa” (I.200-1), AE om ite I.202-15, assim :
em polar-nos a tropa. De que m ais necessitais? Gawain não é leal? Am eaças m aiores longínquas j á não fugiram que j untos enfrentam os? (I.216)
our numbers swell. What need ye more? Is not Gawain true? Hath not greater menace aforetime fled that we faced together? (I.216)
e continua até o fim com o na form a final, com “ira” por “vingança” com o últim a palavra do canto.
Meu pai riscou com traços únicos de lápis todo o texto AE, que term ina aqui. Em toda a m assa de papéis de rascunho de A Queda de Artur não há nenhum outro elem ento relacionado com o Canto I, exceto um a página isolada, escrita m uito nitidam ente, com eçando com as palavras “os [teus] am igos dem onstram ser inim igos” (I.194). É obviam ente a única página subsistente de um texto do Canto I que ou precedeu de im ediato LT, ou estava a m ais um passo de distância deste. Pouco difere do texto de LT, a não ser pelos versos após “à Ilha de Avalon, hostes sem conta”, ou sej a, I.205-210, que neste texto estão assim :
nunca e nenhures cavalaria m ais nobre, hom ens m ais poderosos, nem iguais a nós em proeza, j am ais reunirias. Eis a flor da terra, que os livres a relem brem ao longo do tem po qual verão dourado antes do feroz inverno.
knights more noble of renown fairer, men more mighty, nor our match in prowess, wouldst thou ever assemble. Here is earth’s blossom that men shall remember through the mists of time as a golden summer ere the grey winter.
Convém registrar aqui várias correções substanciais, feitas a tinta, com capricho, no m ais recente texto do Canto I.
(I.9) Dois versos seguindo as palavras nem tenham butim da Bretanha, sua ilha foram riscados:
atacando e devastando. Seu hum or inquieto im pacienta-se com o cativo na j aula.
raiding and ravaging. His restless mood chafed as captive in cage enchained.
(I.25) “Muito vale tua m ão” foi um a correção de “Velozes são tuas naus”.
(I.43) Após “por reinos infindos” o verso “à lúgubre m argem da nebulosa
Floresta das Trevas” foi riscado; ver O POEMA NA TRADIÇÃO ARTURIANA,
A EVOLUÇÃO DO POEMA.
(I.56) Após “Qual investida derradeira de cidade cercada” os seguintes versos foram riscados:
quando de repente o assédio é rechaçado e hom ens audazes quase revertem sua sina pela bravura vã e esplêndida contra a esperança e o azar e um a hoste de inim igos, engaj a-os Gawain.
when sudden the siege is swept backward and daring men their doom almost reverse by valour vain and splendid against hope and hazard and a host of foes, so Gawain led them.
(I.110-3) Conform e o m anuscrito foi redigido, estes versos diziam antes da correção:
A tarde chega
com a lua nas névoas; brisas tristes na trilha dos ventos choram nos ram os onde restos de borrasca [...]
There evening came
with misty moon; mournful breezes in the wake of the winds wailed in the branches, where strands of storm ....
*
Canto II
Mostrei anteriorm ente (ver A EVOLUÇÃO DO POEMA) que no conceito original de m eu pai A Queda de Artur deveria com eçar com a chegada do navio frísio e a visita de Mordred a Guinevere em Cam elot: os textos m ais prim itivos dão ao canto inicial o núm ero I e descrevem o conteúdo nestas palavras: “Com o o navio frísio trouxe notícias e Mordred reúne seu exército para deter o desem barque do rei.”
O m anuscrito m ais antigo do canto, que cham ei de IIa (A EVOLUÇÃO DO
POEMA), estende-se até o verso II.109 do texto final. No prim eiro rascunho, que pelo visto foi logo substituído nesse aspecto, Mordred iria de fato visitar Guinevere antes que qualquer coisa fosse dita das notícias trazidas pelo capitão do navio naufragado. Mordred olhou pela j anela “em sua torre ocidental” (II.20) vendo “o m ar m uito abaixo sugando e rem exendo-se”; depois, segue-se de im ediato:
À dourada Guenaver, de m em bros reluzentes que enchem de loucura as m entes dos hom ens, volta-se seu pensam ento, atorm entado de sede. Tom a um a escada íngrem e a descer aos felizes aposentos dela. [...]
To Guenaver the golden, with gleaming limbs that minds of men with madness filled, his thought was turned, thirst-tormented. He stepped on a stair steep-winding down to her blissful bower ...
Mas isso foi reescrito (parece que im ediatam ente):
Seu pensam ento se volta, atorm entado de sede, à dourada Gwenaver, cuj os m em bros reluzentes enchem de loucura as m entes dos hom ens, tão belos e cruéis, frágeis e pétreos, fiéis e infiéis. Pode conquistar torres e derrubar tronos e m esm o assim não saciar a sede.
Nos felizes aposentos dela [...]
His thought was turned, thirst-tormented, to Gwenaver the golden, whose gleaming limbs the minds of men with madness filled, so fair and fell, frail and stony, true and faithless. Towers might he conquer and thrones overthrow and thirst slake not. In her blissful bower ...
Agora o trecho reescrito estava próxim o à form a de LT (ver II.25-32), e a “escada íngrem e” (I.42) j á não leva para baixo e sim para cim a, às am eias do castelo.
Registro a seguir outras diferenças com relação a LT do texto m ais antigo do
Canto II (IIa) e do segundo texto IIb (A EVOLUÇÃO DO POEMA), deixando de lado as num erosas alterações (m uitas vezes feitas por m otivos m étricos) que consistem na substituição de um a palavra ou em m udanças na ordem das palavras. Pode-se observar que m uitas das leituras de IIb se m antiveram em LT, e foram rej eitadas e substituídas depois que esse texto estava redigido. A leitura de LT está indicada por referência aos versos conform e publicados neste livro.
(II.47-65) Aqui o texto IIa tem :
Serviçais o procuram , correndo com pés leves, caçando depressa pelo salão e pelos côm odos. Diante do quarto da rainha, fechado e vigiado, detêm -se duvidosos às portas de carvalho. Então seu escudeiro Ivor as ávidas palavras faz soar alto: “Meu senhor!”, cham ou, “Notícias te aguardam – o tem po passa! Vem depressa! O m ar nos concede um prazo curto dem ais.” Sacode ferozm ente
as portas de forte m adeiram e. Sonolento e carrancudo,
Mordred responde, e os hom ens estrem ecem diante dele, encarando-os severo com o pedra: “Notícias poderosas, para m atares o sono assaltando com ralé m eu castelo real!” Ivor lhe responde: “Em tua m issão o capitão frísio voando com asas fugiu de França, m as seu navio fadado rom peu-se na praia. Ainda respira, m as a vida se esvai e seus lábios divagam . Todos os dem ais estão m ortos.”
Servants sought him, soft-foot running, through hall and lodge hunting swiftly. Before the queen’s chamber, closed and guarded, doubtful they halted at doors of oak. Then Ivor his squire the eager words let loudly ring: ‘My lord!’ he called, ‘Tidings await thee – time is passing! Come swiftly forth! The sea spares us a shrift too short.’ He shook fiercely doors strong-timbered. Drowsed and glowering Mordred answered, and men trembled as he stood there stony staring grimly: ‘Mighty tidings, that ye murder sleep ransacking with rabble my royal castle!’ Ivor him answered: ‘Thine errand running the Frisian captain on flying wings hath fled from France but his fated ship is broken on the beach. He is breathing still,
but life is waning and his lips wander. All else are dead.’
Em IIb e em LT a resposta de Ivor a Mordred foi m antida de IIa; II.60-64 foram um a em enda neste últim o.
(II.70-3) Estes versos foram um acréscim o a lápis em LT; IIa e IIb têm aqui:
O m esquinho Cradoc traiu teu conselho, a Artur tudo está relatado.
Cradoc the accursed hath thy counsel bewrayed, in Arthur’s ears all is rumoured ...
(II.80-4) IIa e IIb têm aqui:
em Whitesand as águas se enchem de barcos, apinhadas qual conclave de clam orosas gaivotas. Decorando as m uralhas [...]
Whitesand with boats, wherries and barges, is crowded as with conclave of clamorous gulls. Shining on bulwarks ....
(II.90-1) IIa tem aqui (IIb com o em LT):
fiel ao ódio e desprezando a fé, m antendo o j uram ento ao senhor traidor m orreu, foi seu rum o.
faithful to hatred and faith scorning his troth keeping to traitor lord died as his doom was.
(II.101-5) IIa tem aqui, repetido em IIb com “hipocrisia” por “inconstância”:
ao longe por Logres a senhores e condes que confia m antenham fielm ente seu j uram ento, certos na inconstância, adversários de Artur, am igos de Lancelot, fáceis de com prar ...
through the land of Logres to lords and earls whom he trusted that their tryst they would truly hold faithful in fickleness, foes of Arthur, lovers of Lancelot, lightly purchased ...
Este trecho se m anteve no m anuscrito LT, em que o texto que o substituiu foi escrito na m argem . (II.108-9) Tanto IIa quanto IIb têm aqui, onde IIa term ina:
de Alm ain e Angel e das ilhas do norte, os corm orões da costa e dos crus pântanos.
of Almain and Angel and isles of the North cormorants of the coast and the cold marshes.
Em todas as indicações seguintes o texto dado é o de IIb (antes de qualquer em enda) com referência ao verso correspondente de LT na m argem .
(II.110-20) Ele acode a Cam elot, buscando a rainha;
avidam ente a encara com olhos brilhantes; os dela, cinzentos e alegres, seu olhar desafiam , im põem -se sem pena, m as é pálida a face;
He came to Camelot the queen seeking; greedily he gazed on her with glittering eyes; her grey eyes gaily his glance challenged, proud and pitiless, yet pale her cheek;
Em LT m eu pai repetiu esse trecho, m as riscou-o e o substituiu num a página separada pelo texto m ais longo que com eça com “De seus pés os passos às pressas ela escuta” no verso 111. No verso 119 a palavra chill [gelados] foi um a substituição, com ponto de interrogação, de still [quietos].
(II.128-33) de cavaleiros valentes. As noites são enfadonhas.
Mas m enos que am ada ou m enor que rainha j am ais hás de levar a vida cá em baixo. Um rei, querendo-te ...
to no noise of knighthood. Nights are weary. Yet less than beloved or lower than queen life here below shalt thou lead never. A king courts thee ...
Um a alteração a lápis substituiu isto em IIb:
de cavaleiros valentes. Falei, não terás vida sem am or, nem m enos que rainha, nem que a sorte oscile – se o certo escolheres.
to no noise of knighthood. Yet never shalt thou live unbeloved, nor less than queen, though chances change – if thou choose aright.
O texto final de LT foi escrito na m argem do m anuscrito.
(II.144-7) Para o texto de IIb aqui, ver A EVOLUÇÃO DO POEMA.
(II.157-65) saciando m inha sede;
pois é repugnante a vida assom brada pelo desej o; com coroa dourada serei rei depois.” Então a altiva Guinever, de m ente consternada, entre o m edo e a repulsa, que em dias passados, exibindo beleza, m ais costum ava
ser buscada que tom ada, fala cautelosa: “Avidam ente, senhor, cortej as e insistes! Peço a ti, dá-m e tem po [...]
my thirst slaking;
for life is loathsome by longing haunted; I will be king after and crowned with gold.’ Then Guinever the proud, aghast in mind, between fear and loathing, who in former day wielding beauty was wont rather to be sought than seized, dissembling spake: ‘Eagerly my lord do ye urge your suit! Delay allow me ...
(II.176-7) Esses versos estão ausentes em IIb.
(II.213) pra voltar em seu intuito a nova m aré do tem po.
and time’s new tide turn to her purpose.
*
Cantos IV e V
No Canto IV a história textual pode ser seguida facilm ente. O prim eiro m anuscrito, que seria constantem ente ininteligível sem os textos posteriores com o guias, é m enos um texto do poem a do que um registro de m eu pai “pensando com a caneta”. Pode ser que ele estivesse em certa m edida dando form a escrita a versos que j á preparara e m em orizara, m as está claro que tam bém estava com pondo ab initio, fazendo experiências enquanto prosseguia, m uitas vezes registrando diversas variantes de um a frase aliterante.
Este m anuscrito j á estava notavelm ente próxim o do texto da versão m ais recente. Segue-se a ele um texto escrito às pressas, porém legível, um pouco em endado com o de hábito, levando ao texto (LT) com o foi publicado. Um trecho do canto em LT foi rej eitado, e foi escrita outra versão m ais longa (IV.137-154), tam bém à tinta e com capricho, num a folha separada: o texto rej eitado dizia o seguinte:
Vem a plena pressa, do lado de Artur, um forte navio que fulge na m anhã, alto e alvo; de ouro é seu casco; na vela se vê um levante sol, na bandeira bordada flutua à brisa um grifo que brilha com o fogo dourado. Chegou Gawain, que guarda seu rei, apressando-se à frente. Agora tudo está à vista: são cascos faiscantes, de quilhas centena e velas que revoam e paveses que balançam . Dez m il arm am entos m ontam ali ...
At Arthur’s side eager hastened a mighty ship in the morn gleaming high, white-timbered, with hull gilded; on its sail was sewn a sun rising, on its broidered banner in the breeze floated a griffon glowing as with golden fire. Thus Gawain came his king guarding to the van hasting. Now to view came all: a hundred ships with hulls shining, and shrouds swelling and shields swinging. Ten thousand told targes hung there ...
As poucas alterações a lápis no texto podem ser m encionadas:
o verso 24 “com o farpas de vidro que fulgem e reluzem ” substituiu “com o lágrim as de vidro que rebrilham e tilintam ”;
os versos 98-99 foram um a adição m arginal;
os versos 209-10 “talos que caem / ao longo da colheita, ou eleva-se a névoa” substituíram “estorninhos que voam / ao longo da colheita, ou funde-se a névoa”.
Por últim o, o título do canto com o o apresentei, “Com o Artur retornou de m anhã e pela m ão de Sir Gawain conquistou a passagem do m ar”, foi um a substituição do título original escrito à tinta, “Do pôr do sol em Rom eril” – que se tornou o título do Canto V.
Do quinto canto não subsiste nenhum m aterial rascunhado em versos.
*
a Uma anotação aparece na margem de A (apenas) junto às palavras fair as
fay-woman [formosa e mágica], verso III.75, onde m eu pai escreveu fair and faultless [bela e sem falta] (a últim a palavra está perfeitam ente clara).
b Em LT (Texto Mais Recente) este verso dizia to faith returning he was faith
denied [à fé retornando negaram-lhe a fé], corrigido a lápis para faith was refused him who had faith broken [refugam-lhe a fé, ao que a fé traiu].
c Esses dois versos “que caminha no mundo [...] Porém considero mais vil”
substituíram “with beauty perilous, yet blame I more (the eyes of envy [...]) [de beleza perigosa, porém m ais culpo (os olhos da invej a) [...]]
d Gawain; e outra vez três versos depois.
e Aqui a leitura primitiva era “of the queen’s favour. Curséd fortune!” [“dos
favores da rainha. Maldita sina!”].