A Queda de Artur

J. R. R. Tolkien · Capítulo 1 de 8

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A Queda de Artur

Nota do tradutor

 

O leitor desavisado de língua portuguesa que leia o poem a A Queda de Artur, de J. R. R. Tolkien, terá de im ediato um a sensação de estranham ento. Poderão existir vários m otivos para isso:

O tem a – a cam panha do Rei Artur contra os rom anos, da qual é cham ado de volta pela notícia de que seu sobrinho (ou filho) Mordred está com etendo um a traição m últipla – pode não ser fácil de com preender para quem não estej a fam iliarizado com a cham ada “Matéria da Bretanha”. Fala-se aqui do reino de Artur, situado na ilha da Grã-Bretanha, j á que a atual Bretanha (propriam ente dita) fica do outro lado do Canal da Mancha, em terras de França. Os cavaleiros da Távola Redonda, e desta a m aioria dos leitores j á terá ouvido falar, têm nom es que tam pouco soam cotidianos: Gawain, Gareth, Gaheris, Bedivere, Lancelot, Bors e outros.

O vocabulário usado nesta tradução, que decorre do m odo peculiar de versificação (explicado abaixo) e tam bém do arcaísm o do tem a, pode apresentar alguns obstáculos. Já nos prim eiros versos, deparam os com palavras com o priscas, butim, alcácer... Nada, porém , que não sej a solúvel recorrendo-se a um (bom ) dicionário. Pode servir de consolação o fato de que os leitores de língua inglesa tropeçarão em problem as análogos: fanes, embayed, forwandered.

Em relação a esse problem a, vale citar as palavras de Christopher Tolkien – que na presente obra é editor do texto paterno – em sua própria tradução do islandês de The Saga of King Heidrek the Wise [A Saga do Rei Heidrek, o Sábio]:

 

Na presente edição (arriscando-m e ao epíteto de “bizarro”) busquei

um a tradução da poesia verso a verso, lim itado pela im itação das m étricas e dos esquem as aliterantes dos originais. [...] inevitavelm ente, as exigências conj untas da aliteração e da precisão im plicaram convocar ao serviço algum as palavras que, podem alguns pensar, j á deveriam ter perm issão para m orrerem em paz, m esm o em se tratando da tradução de poesia heroica.

 

Mais outro fator de estranheza será a própria form a do poem a. Ele foi com posto em versos aliterantes, com uns na tradição germ ânica – anglo-saxã, alem ã, nórdica – m as extrem am ente incom uns em línguas rom ânicas, com o, por exem plo, o português. No entanto, esse m odo de versificação apresenta um paralelism o com os versos rim ados aos quais estam os m ais afeitos. Uns e outros são com o são porque eram originalm ente (na Idade Média) declam ados, não escritos, pelos m enestréis ou bardos, que usavam recursos fonéticos para ligar os versos entre si e proporcionar um sentido de continuidade aos ouvintes. Sim plificando: na poesia em rim as são geralm ente sons vocálicos que se repetem entre um e outro fim de verso, enquanto na aliteração são as consoantes que se repetem dentro de um m esm o verso. Essas consoantes são as que iniciam as sílabas tônicas de três palavras, canonicam ente duas no prim eiro hem istíquio (m eio verso) e um a no segundo. Podem aliterar entre si form as surdas e sonoras da m esm a articulação (p. ex., f com v, ou s com z), e em português convenciona-se que tam bém aliteram r com rr, l com lh, n com nh. Adem ais, qualquer vogal alitera com qualquer outra (e com h, nas línguas germ ânicas). Estes versos podem servir de exem plo dos dois m odos:

 

A rim a m arca bem o fim do verso Pra que não fique o leitor disperso.

 

Aliteram as tônicas repetindo os sons Mas um as às outras fazem eco as vogais.

 

Nesta versão de A Queda de Artur, os nom es de pessoas e lugares foram m antidos com a grafia e o acento tônico do texto original em inglês m oderno. Pessoas: Guìnever(e), Làncelot, Mòrdred, Gàwain. A exceção é Artùr, nom e com um em português e bem conhecido pelas referências ao “Rei Artur”, portanto aliterando em t. Lugares: Càmelot, Bènwick, Àlmain, Àngel, Ròmeril. A exceção é Floresta das Trevas, nom e que foi traduzido por dois m otivos:

 

1. O significado do nom e fica m ais explícito quando vertido. 2. Floresta das Trevas [em inglês Mirkwood] designa no poem a a grande

“selva germ ânica”, ainda existente em tem pos m edievais, m as é tam bém o nom e da m ata que existia na Terra-m édia, o continente im aginado por Tolkien em sua m itologia (nas Terras Erm as, entre os rios Anduin e Corrente). Mirkwood foi traduzido por Floresta das Trevas em O Senhor

dos Anéis e O Hobbit. Mirk é um a palavra arcaica para “escuridão, treva”. Mantém -se dessa form a a coerência interna na obra do autor.

 

Estej a, pois, alertado o caríssim o leitor. Seu equivalente anglófono poderá tam bém encontrar m otivos para estranham ento ao ler The Fall of Arthur. Minha esperança é que as ideias, e principalm ente as em oções, sej am evocadas de m odo sem elhante em um e em outro.

 

RONALD E. KYRMSE