A Queda de Artur

J. R. R. Tolkien · Capítulo 6 de 8

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A Queda de Artur

O poema não escrito e sua relação com O Silmarillion

O POEMA NÃO ESCRITO

 

E SUA RELAÇÃO COM

O SILMARILLION

O POEMA NÃO ESCRITO

E SUA RELAÇÃO COM

O SILMARILLION

 

O abandono de A Queda de Artur é ressalvado pela existência de notas m anuscritas de valor variável que indicam os pensam entos e as intenções de m eu pai sobre a continuação e conclusão do poem a, e acerca de algum as delas deve-se dizer que seu conteúdo é ao m esm o tem po extrem am ente interessante e extrem am ente torturante. Tam bém há fragm entos de versos adicionais, porém quase todos estão escritos tão apressadam ente que em certos lugares não perm item interpretação segura. Entre esses papéis há um esboço da narrativa que se seguiria à últim a parte do texto acabado, em que Artur, ponderando a natureza e o resultado de um ataque aos penhascos, abre a Gawain seu pensam ento de que seria m elhor adiarem um novo conflito, e “fiando-se no vento e na fraca m aré” navegarem para o oeste seguindo a costa “a outro porto”

(V.61-3).

Aqui apresento esse esboço: claram ente contem porâneo do trecho final do poem a, ele não ocupa m ais que m eia página, escrita de m odo um pouco além , m as não excessivam ente, do m ais im penetrável de m eu pai. Expandi as contrações e acrescentei correções triviais para m aior clareza.

 

Conselho. Artur não desej a arriscar seus cavaleiros. Cham a Gawain e propõe virar para o oeste e correr com o vento e a m aré descendo o canal a oeste até outro desem barque – antes que Mordred possa seguir com toda força, à Cornualha de costa inclem ente por gente

clem ente ou à bela Ly onesse.a

 

Mas Gawain diz que planej am os atacar Mordred im ediatam ente. Lá está ele. Mais cedo ou m ais tarde precisam os atacá-lo. Cada dia lhe

acrescenta força e deixa o Leste aberto aos [? pagãos].b

 

Contem plam até o sol se pôr. Gawain contem pla com ira inquieta. [Escrito na margem: Artur insiste em partir.] À m edida que o sol desce, a m aré vira outra vez. Gawain salta num barco leve com seus

m ais caros am igos, e, m andando que o sigam todos os que ousarem , im pelem sua em barcação com rem os e a aportam nas praias brancas. Gawain salta sobre a borda e sob um a chuva de flechas vadeia para terra e sobe pelo curso do rio, tentando conquistar passagem ao topo dos penhascos. Mordred instiga seus hom ens. Naquele dia Gawain sentiu falta de Gaheris e de Gareth e de

Agravain de m ão severa, seus irm ãos.c

 

Mas abateu m uitos hom ens, .... no nível dos que estavam em solo m ais alto. Alcança o topo m as há poucos com ele, apesar de m uitos estarem seguindo. Ali abre cam inho até Mordred. Com batem e Gawain [?? vacila]. O sol está se pondo à sua esquerda [escrito acima: ilum ina seu escudo]. Um raio verm elho atinge seu escudo e ilum ina o grifo [no escudo]. Galuth [espada de Gawain] rom pe o elm o de Mordred e ele recua entre seus hom ens, m as agarra [um arco] de Ivor e virando-se alvej a Gawain no peito. Gawain cai, cham ando por Artur. Gery n, escudeiro de Gawain, m ata Ivor, e a gente de Gawain ataca tão ferozm ente que conquistam o topo do penhasco e se postam ao redor de seu corpo até a hoste de Artur subir [?? pressionando]. Artur chega quando Gawain m orre, e o sol se põe além de Ly onesse.

 

Aqui term ina esse esboço. Outro, evidentem ente um tanto m ais antigo, proj eta a narrativa por todo o restante do poem a desde o com eço do quarto canto; m as a partir do lam ento de Artur ele se reduz (se tiver sido escrito ao m esm o tem po que o esboço, o que não é certo) a anotações apressadas dos dois lados de um a m esm a folha, e não há outras indicações dos pensam entos de m eu pai sobre o restante do poem a.

 

Um sol brilhante ilum ina a Grã-Bretanha. Os hom ens de Mordred estão dando busca por Guinevere na floresta, e não conseguem encontrá-la. Enquanto isso, enviando hom ens à terra de Leodogrance (Cam iliard em Gales), ele vai para o leste e reúne sua hoste j untando-se com os saxões e os frísios. O vento soprou bom do sul e o m ar se estendia verde sob os penhascos brancos. Mordred fez erguer faróis nos topos dos penhascos e nos m orros, de m odo que sua hoste pudesse se reunir em qualquer ponto aonde Artur chegasse.

Veem -se os navios de Artur que se aproxim am . Um a dam a branca

com um a criança nos braços é o em blem a de Artur. Diante do navio de Artur navega um grande navio branco com estandarte de um grifo dourado. O sol está bordado em suas velas. Esse é Gawain. Mordred ainda hesita e não quer que acendam o fogo do farol. Pois pensava em seu coração que, se Lancelot e a fam ília de Ban estivessem na arm ada, ele se separaria e faria a paz. Pois se odiava Lancelot tanto m ais o tem ia agora. Mas o lírio branco em fundo negro de Lancelot não foi visto, pois Lancelot aguardava o cham ado da Rainha. Então por fim o farol se inflam ou e a hoste de Mordred defendeu a costa. Assim Artur chegou a Rom eril.

Os navios saxões diante de Rom eril foram expulsos ou afundados e

incendiados, m as Artur não pôde aportar e foi retido. Assim Gawain

avançou seu navio Wingelot (?)d e outros de seus vassalos, e aterraram na praia branca, que logo se tinge de verm elho. A batalha é feroz. Gawain salta sobre a borda e vadeia para terra. Veem -se seus cabelos am arelos que se elevam sobre os inim igos escuros. Ele m ata o Rei da Gotlândia e abre cam inho a golpes de espada até o estandarte de Mordred. Duelo de Gawain e Mordred. Mordred rechaçado, m as agarra um arco de um hom em de confiança e se vira e alvej a Gawain. [Escrito na margem: Mordred salvo por Ivor.]

Gawain tom ba e m orre à m argem do oceano, clam ando por Artur.

Enquanto isso a fúria dos hom ens de Gawain lim pa a costa e Artur chega e dá o beij o de adeus a Gawain.

Lam ento de Artur.

 

Incluo aqui, por um m otivo que logo ficará evidente, tanto o lam ento de Artur da Morte Arthure aliterante quanto sua form a em A Queda de Artur.

 

Então olha o bom rei, e se perturba no coração, Gem e terrivelm ente com lágrim as de choro; Aj oelha-se diante do corpo e o tom a nos braços, Ergue o visor e logo o beij a, Olha suas pálpebras, que estavam bem fechadas, Os lábios com o chum bo, e o rosto em palidecido. Então o rei coroado exclam a em alta voz:

“Caro prim o por parentesco, fico na tristeza, Pois agora m inha honra se foi e m inha guerra term inou. Aqui está a esperança de m inha prosperidade, m inha fortuna de

arm as,

Meu coração e m inha coragem estavam todos sobre ele, Meu conselho, m eu conforto, que protegia m eu coração! Rei de todos os cavaleiros que viviam sob Cristo, Eras digno de ser rei, m esm o que eu portasse a coroa. Meu bem e m inha honra de todo este rico m undo Foram ganhos através de sir Gaway ne, e por seu j uízo apenas!

Ai de m im !” disse sir Arthure, “agora aum enta m eu pesar! Estou totalm ente arruinado em m inhas próprias terras! Ah! horror, severa m orte, dem oras dem ais! Por que te conténs? afogas m eu coração!”

 

Than gliftis the gud kynge, and glopyns in herte, Gronys ful grisely with gretande teris; Knelis downe to the cors, and kaught it in armes, Kastys upe his umbrere, and kyssis hym sone, Lookes one his eye-liddis, that lowkkide ware faire, His lipis like to the lede, and his lire falowede. Than the corownde kyng cryes fulle lowde: ‘Dere kosyn o kynde, in kare am I levede, For nowe my wirchipe es wente and my were endide. Here es the hope of my hele, my happynge of armes, My herte and my hardynes hale on hym lengede, My concelle, my comforthe, that kepide myne herte! Of alle knyghtes the kynge that undir Criste lifede, Thou was worthy to be kynge, thofe I the corown bare. My wele and my wirchipe of all this werlde riche

Was wonnen thourghe sir Gawayne, and thourghe his witt one! Allas!’ saide sir Arthure, ‘nowe ekys my sorowe! I am uttirly undon in my awen landes! A! dowttouse derfe dede, thou duellis to longe! Why drawes thou so one dreghe? thow drownnes myn herte!’

 

O lam ento do Rei Artur por Sir Gawain nos papéis de A Queda de Artur está ao m esm o tem po no m ais prim itivo estágio de com posição e, infelizm ente, na m ais inescrutável caligrafia de m eu pai. Após m uito estudo, esta é a m elhor reprodução que fui capaz de apresentar.

 

Então o escuro caiu cinza no coração do bom rei e largam ente gem e entre lágrim as que escorrem e olha os olhos que pela últim a vez fecharam e os lábios lívidos com o [? lírio m urcho] e chum bo. Então, a [? coroa] arrancando, exclam a bem alto “Parente querido, pesaroso fiquei, m inha glória se esgueira e a graça [escrito acima: boa] acabou-se. O que espero, m eu am paro, m inha espada e elm o aqui j azem , m eu coração, a resolução e m eu [...] de força m eu conselho e conforto

de todos os cavaleiros o [?? m ais nobre].

de todos os [? reis] o [...] Cristo viveu

Para ser rei [...] usei a coroa.

Estou [...] [? totalm ente arruinado] em m inhas próprias terras. Ah, m orte, dem oras dem ais, ó severa, m eu coração assassinas antes que eu m orra.

 

Then gloom fell grey on the good king’s heart and he groans amid gliding tears looking upon his eyes now closed for ever and his lips like lead and [? lily faded].

Then his [? crown] he cast down crying aloud ‘Dear kinsman in care am I left now my glory is gone and my grace [written above: good] ended. Here lies my hope and my help and my helm and my sword my heart and my hardihood and my ..... of strength my counsel and comfort

of all knights the [?? noblest].

of all [?kings] the .............Christ lived

To be king .............. I the crown bore.

I am ...... [?utterly ruined] in mine own lands. Ah, dread death thou dwellest too long, thou drownest my heart ere I die.

 

Na Morte Arthure aliterante o rei é censurado por seus cavaleiros por ter dem onstrado pesar indecorosam ente:

 

“Cessai”, dizem esses hom ens audazes, “vós vos confundis; Este é pesar sem cura, pois j am ais m elhorará. Por certo não é honroso torcerdes as m ãos; Chorar com o m ulher não é tido com o sábio. Sede cavalheiresco de aspecto, com o convém a um rei, E deixai de tal clam or, por am or de Cristo no céu!”

 

‘Blyne’, sais thies bolde men, ‘thow blondirs thi selfen; This es botles bale, for bettir bees it never. It es no wirchipe iwysse to wryng thyn hondes; To wepe als a woman, it es no witt holden. Be knyghtly of contenaunce, als a kyng scholde, And leve siche clamoure for Cristes lufe of heven!’

 

Aqui m eu pai escreveu apressadam ente algum as palavras com o cabeçalho de “Sir Iwain o conforta com as palavras de Beowulf”:

chorar com o m ulher não é tido com o sábio

m elhor vingança que lam ento

 

O trecho de Beowulf que m eu pai tinha em m ente é com certeza, penso eu, o da fala de Beowulf a Hrothgar, Rei dos Danos, nos versos 1384-9 do poem a:

 

Não vos aflij ais, ó sábio! É m elhor para todo hom em vingar o am igo do que m uito lam entar. A cada um de nós chegará o fim da vida no m undo; aquele que puder que conquiste glória antes da m orte. Nada

m elhor

o bravo cavaleiro pode legar quando j az m orto.

 

Ne sorge, snotor guma! Selre bið æghwæm, þæt his freond wrece, þonne he fela murne. Ure æghwylc sceal ende gebidan worold lifes, wyrce se þe mote domes ær deaþe; þæt bið drihtguman unlifgendum æfter selest.

 

Na Morte Arthure aliterante segue-se um j uram ento feito pelo Rei Artur:

 

“Aqui faço m inha j ura”, disse então o rei, “Ao Messias e a Maria, a branda rainha dos céus, Que não hei de caçar na m argem nem soltar os cães Contra corça ou rena que corra sobre a terra; Nem deixar correr galgo, nem voar m ilhafre, Nem ver abatida ave que voa com asas; Falcão m acho ou fêm ea não m anej arei no punho, Com gerifalte não m e alegrarei no m undo; Não reinarei em m inha realeza nem m anterei a Távola Redonda Até que tua m orte, m eu caro, sej a devidam ente vingada;

Mas j aze e te aquieta, enquanto durar m inha vida, Até que o Senhor e a m orte severa tiverem feito o que lhes

aprouver!”

 

‘Here I make myn avowe,’ quod the kynge than, ‘To Messie and to Marie, the mylde qwenne of heven, I sall never ryvaye ne racches uncowpyll At roo ne rayne-dere, that rynnes appone erthe; Never grewhownde late glyde, ne gossehawke latt flye, Ne never fowle see fellide, that flieghes with wenge; Fawkon ne formaylle appon fiste handill, Ne yitt with gerefawcon rejoyse me in erthe; Ne regnne in my royaltez, ne halde my Rownde Table, Till thi dede, my dere, be dewly revengede; Bot eveer droupe and dare, qwylls my lyfe lastez, Till Drighten and derfe dede hafe don qwate them likes!’

 

A ideia inicial de m eu pai para reproduzir o j uram ento do rei, de se abster de todas as form as de seu principal prazer, era assim :

 

Juram ento de Artur

Não irei à caça com cão nem falcão

Nem banquete, tocar de harpa nem qualquer coroa usarei [? nem sentar-m e na] Távola Redonda até vingar Gawain.

 

Arthur’s vow

I will never hunt with hounds nor with hawk

Nor feast nor hear harp nor bear crown

[? nor sit at] the Round Table till I have avenged Gawain.

 

Não é necessária discussão para perceber que, se m eu pai não tinha diante de si, aberta, a Morte Arthure aliterante, pelo m enos tinha lido o trecho m uito recentem ente, quando esboçou um a versão inicial do lam ento de Artur por Gawain e de seu j uram ento de abnegação.

Já observei (O POEMA NA TRADIÇÃO ARTURIANA) que o conceito de um a grande batalha naval ao largo de Rom eril em A Queda de Artur derivou-se do poem a aliterante. A partir dos esboços m ostrados acim a podem -se acrescentar outros traços dessa natureza. Da Morte Arthure provêm a m aré

vazante que im pede Artur de ir a terra (O POEMA NA TRADIÇÃO

ARTURIANA, O POEMA NÃO ESCRITO) e Gawain em barcando com poucos

com panheiros e vadeando rum o à praia (O POEMA NA TRADIÇÃO

ARTURIANA, O POEMA NÃO ESCRITO). Gawain m atando o Rei da Gotlândia

no com bate em terra vem da m esm a fonte (pO POEMA NA TRADIÇÃO

ARTURIANA, O POEMA NÃO ESCRITO) – m as no poem a acabado esse trecho é posto m ais cedo, no decorrer da batalha naval (IV.202-3). Entre outros detalhes há o nom e da espada de Gawain, Galuth (IV.197-200), e o grifo dourado

no estandarte de seu navio (IV.144) e em seu escudo (O POEMA NA

TRADIÇÃO ARTURIANA, O POEMA NÃO ESCRITO).

Resta agora voltar ao segundo dos dois esboços e às notas provocantes que se seguem ao lam ento de Artur por Gawain, que são tudo o que existe para dar algum a ideia de com o m eu pai via a conclusão de A Queda de Artur por volta da época em que a abandonou.

Abaixo do rascunho do lam ento e j uram ento de Artur está escrito:

 

Mordred é rechaçado e recua para o leste. Artur rum a ao oeste. Lancelot [...] [?? o corpo de Gawain]. Na margem está escrito, presumivelmente referindo-se a Mordred: por falta de apoio todo o leste é dom inado por ele. Ao pé da página está rabiscado a lápis: Com eçar o Canto V com o corpo de Gawain sendo levado a Cam elot.

 

Em outra página estão as anotações seguintes, escritas com extrem a pressa: em m inha transcrição diversas palavras são bem pouco m ais que conj eturas.

 

Sol forte. Arm as de Artur m ovem -se prim eiro. Rum or do ataque de

Mordred. Um a pequena nuvem no leste. Mordred chega inesperadam ente, saindo de um a m ata, à Planície de Cam lan. Iwain e Errak. Marrac e Meneduc. Idris e Ailm er.

Mordred tem saxões frísios irlandeses pictos e pagãos com arm as

perigosas (ver O POEMA NA TRADIÇÃO ARTURIANA). Artur carregado de volta. Mordred sai por últim o. Artur e Mordred m atam um ao outro. A nuvem [? adensa-se] em treva. Tudo fica escuro.

 

Artur recua para o oeste. Rum or do avanço de Mordred. Mordred

em erge da m ata.

Batalha de Cam lan. Artur e Mordred m atam um ao outro. A nuvem [? adensa-se]. Artur m orrendo na escuridão. Salteadores dão busca no cam po.

 

[Excalibur >] Caliburn e o lago. O navio escuro vem rio acim a. Artur

colocado nele.

 

Lancelot não tem notícias. Num dia cinzento de [?? chuva] ele zarpa

com Lionel e chega a Rom eril onde os corvos ainda estão sobre Rom eril. Enquanto ele cavalga pelas estradas vazias a Rainha desce vinda de Gales e se encontra com ele. Mas ele só pergunta onde está Artur. Ela não sabe.

Ele lhe dá as costas e cavalga sem pre rum o ao oeste. O erm itão à

beira-m ar lhe conta sobre a partida de Artur. Lancelot obtém um barco e navega para o oeste e j am ais retorna. – Trecho de Eärendel.

 

Guinevere observando ao longe vê seu estandarte de prata desaparecer sob a lua. Assim ela fracassou por com pleto. Ela fugiu para Gales dos hom ens do leste, m as por m uito que o pesar fosse sua sina não está dito que se enlutou m ais pelos outros que por si própria. Mas assim term inou a glória de Artur e a valentia do m undo antigo, e houve longa treva sobre a terra da Grã-Bretanha.

 

Outras anotações, escritas apressadam ente a lápis, dizem algo m ais sobre Lancelot e Guinevere.

 

Lancelot chegou tarde dem ais ouvindo sobre Cam lan, e encontra Guinevere, m as seu senhor am ando todo o seu am or foi para ele. Seu am or por Guinevere não tinha m ais poder. Em [?? dor] separaram -se frios e sem pesar. [?? Ela está só.]

Lancelot separa-se de Guinevere e zarpa rum o a Benwick m as vira para oeste e segue atrás de Artur. E j am ais retorna do m ar. Se o encontrou em Avalon e retornará, ninguém sabe.

 

Guinevere tornou-se cinzenta na cinzenta som bra perdendo todas as coisas, a que todas as coisas dom inava. [...] ouro [...] e foi deitada no pó

tão sem proveito para os hom ens com o foi provado outrora.

 

Guinevere grew grey in the grey shadow

all things losing who at all things grasped.

..... gold .... and was laid in dust

as profitless to men as it proved of old.

 

Com esses papéis encontram -se, num a folha separada, dezessete versos datilografados de poesia aliterante, e por esse fato e pela m enção de Avalon no verso 15 fica óbvio que este é o “trecho de Eärendel” referido no segundo esboço acim a.

 

A lua sobe acim a das neblinas do m ar,

e, trem eluzindo no frio, a nítida luz das estrelas que hesitava pálida no Leste que aguardava

m orreu e apagou-se; a espum a sobre a costa

luzia fantasm agórica na praia cinzenta,

e o rugido do m ar ergueu-se em treva

até os que vigiavam na m uralha.

Ó noite de m aravilha,

quando, luzindo com o a lua, com vestes de pérola, com velas de veludo, e estrelas argênteas

bordadas em branco no seu estandarte azul

com gem as reluzentes, foi aquele galeão lançado nos m ares de som bra sob som bras da noite!

Eärendel parte em ávida dem anda

a m ágicas ilhas além das m ilhas do m ar,

além das Colinas de Avalon e os salões da lua, os portais do dragão e as escuras m ontanhas

da Baía do Reino Encantado nas m argens do m undo.

 

The moon mounted the mists of the sea,

and quivering in the cold the keen starlight

that wavered wan in the waiting East

failed and faded; the foam upon the shore

was glimmering ghostly on the grey shingle,

and the roaring of the sea rose in darkness

to the watchers on the wall.

O! wondrous night

when shining like the moon, with shrouds of pearl, with sails of samite, and the silver stars

on her blue banner embroidered white

in glittering gems, that galleon was thrust

on the shadowy seas under shades of night!

Eärendel goeth on eager quest

to magic islands beyond the miles of the sea,

past the hills of Avalon and the halls of the moon, the dragon’s portals and the dark mountains

of the Bay of Faery on the borders of the world.

 

Mais tarde os sete prim eiros versos foram apressadam ente alterados por m eu pai assim , principalm ente para m elhorar a m étrica.

 

A lua caíra em cavernas de névoa,

e, trem eluzindo fria, a nítida luz das estrelas

hesitava pálida no Leste que aguardava

m orreu e apagou-se; a espum a sobre a costa

luzia fantasm agórica sobre a praia cinzenta,

e o m ar rugindo, erguendo-se e caindo

sob m uralhas de pedra.

 

The moon was fallen into misty caves,

and quivering cold the keen starlight

wavered wanly in the waiting East

failed and faded; the foam upon the shore

was glimmering ghostly upon grey shingle,

and the roaring sea rising and falling

under walls of stone.

 

Em outra página há um texto a lápis com versos na etapa prim ária de com posição, com supressões e substituições, de dificuldade excepcional, porém do m aior interesse com relação ao “trecho de Eärendel” que acabei de m ostrar.

 

O túm ulo de Gawain j az sob a gram a j unto ao m ar que ressoa, onde o sol se põe. Que túm ulo tem Guinever A som bra cinzenta seu ouro no [?chão] [(riscado:) brilha com o] seu ouro em silêncio brilha invisível. Nem Bretanha nem Benwick tem m orro tum ular de Lancelot e de sua dam a. Nenhum [(riscado:) túm ulo tem Artur] Nenhum m orro tum ular tem Artur em terra m ortal sob lua ou sol que em ....... ........ além das m ilhas do m ar e das ilhas m ágicas além dos salões da noite nas m argens do Céu [(riscado:) os] portais do dragão e as escuras m ontanhas da Baía de Avalon nas m argens do m undo. sobre a borda da Terra em Avalon [dorm indo >] esperando.

Enquanto o m undo […]a

até que o m undo [??desperte]

 

The grave of Gawain under grass lieth by the sounding sea, where the sun westers. What grave hath Guinever The grey shadow

her gold in [?ground] [(struck out:) gleams like] her gold in silence unseen gleameth. Britain nor Benwick did barrow keep of Lancelot and his lady.

No [(struck out:) grave hath Arthur] No mound hath Arthur in mortal land under moon or sun who in …… ……..

beyond the miles of the sea and the magic islands

beyond the halls of night upon Heaven’ s borders

[(struck out:) the] dragon’s portals and the dark mountains

of the Bay of Avalon on the borders of the world.

up[on] Earth’s border in Avalon [sleeping >] biding. While the world w....eth

till the world [??awaketh]

 

No penúltim o verso o verbo não é waiteth [espera] e parece não ser watcheth

[vigia]. Abaixo dos versos está escrito: The tomb [O túm ulo]

 

*

 

A partida de Artur

 

Entre as anotações parcas e enigm áticas que m ostrei nas O POEMA NÃO

ESCRITO há tão pouca coisa que se refere à partida de Artur após ser

m ortalm ente ferido na batalha de Cam lan que é necessário consultar outros escritos na tentativa de interpretá-los.

Sobre a partida de Artur tem os apenas estas frases (O POEMA NÃO ESCRITO): Artur morrendo na escuridão. Salteadores dão busca no campo. Caliburn e o lago. O navio escuro vem rio acima. Artur colocado nele. E subsequentem ente lem os que Lancelot navegou rum o ao oeste seguindo Artur, m as nunca volta, e Se o encontrou em Avalon e retornará ninguém sabe.

Na O POEMA NA TRADIÇÃO ARTURIANA citei o relato de Malory sobre a partida de Artur. Ali ele seguia bem de perto a Morte Arthur em estrofes, e não a

Mort Artu francesa (ver O POEMA NA TRADIÇÃO ARTURIANA). O ponto m ais curioso, em relação às anotações de m eu pai, diz respeito ao lugar e à natureza da partida de Artur. Em Le Morte Arthur está dito sobre o rei e os cavaleiros Bedivere e Lucan que “a noite toda j azeram na capela à beira do m ar”, e Malory tem “não longe do m ar”. Em Le Morte Arthur Artur ordena que Bedivere lance Excalibur “na maré de sal”, e quando Bedivere finalm ente obedece ao com ando “no mar ele a lançou”: aqui Malory usou a palavra “água”

(O POEMA NA TRADIÇÃO ARTURIANA), m as Bedivere relata ao rei que viu wawes [ondas]. Na Mort Artu, porém , a água é especificam ente um lago, assim com o na nota de m eu pai: Caliburn e o lago. Em Malory a em barcação em que Artur partiu era “um pequeno barco”, em Le Morte Arthur era “um rico navio com m astro e rem o”.

Assim , em sua intenção j am ais realizada, m eu pai abandonara a conclusão da

Morte Arthur aliterante, onde se conta sobre a m orte de Artur (O POEMA NA

TRADIÇÃO ARTURIANA) que após a batalha de Cam lan ele foi carregado a Glastonbury, conform e desej ava, e entrou na “Ilha de Aveloy ne”, onde m orreu. Agora ele seguia a história essencialm ente derivada da Mort Artu. Mas é difícil interpretar o “lago” de suas anotações; assim tam bém o navio que “vem rio acim a”.

Não parece que as antigas evidências a respeito da batalha de Cam lan possam lançar algum a luz sobre o conceito de m eu pai nesse ponto. O registro m ais antigo encontra-se num a crônica do século X conhecida por Annales Cambriae, os Anais de Gales, que tem um assentam ento no ano de 537 Gueith Camlann (a Batalha de Cam lan), “em que tom baram Artur e Medraut”. Geoffrey de Monm outh disse que a batalha ocorreu na Cornualha, no rio Cambula, m as não deu nenhum a outra indicação. Na verdade não se sabe onde ficava a Cam lan dos Annales Cambriae, nem m esm o se era na Cornualha; m as acabou sendo

identificada com o rio córnico Cam ele.

O rio que levou Artur na anotação de m eu pai deve derivar, em últim a análise, do Cambula de Geoffrey de Monm outh. Mas as aparentes incongruências nessas notas são m ais bem explicadas, creio, supondo-se que representem suas ideias em estado disform e: vislum bres de cenas que ainda não eram coerentes e unificadas: a capela j unto ao m ar, Excalibur lançada no m ar – ou lago, o rio que traz o navio m isterioso em que Artur parte.

Sej a com o for, é m uito claro que ele nada queria ter a ver com o final da história do próprio Artur na Mort Artu, na Morte Arthur em estrofes e em Malory

(ver O POEMA NA TRADIÇÃO ARTURIANA): o sepultam ento de seu corpo na erm ida aonde fora levado na noite seguinte à sua partida no navio – nas palavras do erm itão a Bedivere em Le Morte Arthur,

 

Por volta da m eia-noite aqui estiveram dam as, No m undo não sei quem eram ,

Este corpo trouxeram num esquife

E o sepultaram com graves feridas.

 

Abowte mydnyght were ladyes here,

In world ne wyste I what they were,

This body they brought uppon a bere

And beryed it wyth woundys sore.

 

Mas as próprias palavras de Malory sobre o sepultam ento de Artur na capela da erm ida perto de Glastonbury são curiosas.

 

“Senhor”, disse Sir Bedy vere, “que hom em está aqui enterrado que

orais tão firm e em sua intenção?”

“Bom filho”, disse o erm itão, “em verdade não sei senão por conj etura.

Mas nesta m esm a noite, à m eia-noite, vieram aqui várias dam as e trouxeram aqui um corpo m orto e m e pediram que o enterrasse. E aqui ofereceram cem velas, e m e deram m il besantes.”

“Ai de m im !”, disse sir Bedy vere, “esse era m eu senhor Rei Artur, que

aqui j az enterrado nesta capela.” [...]

 

Assim nada m ais encontro escrito de Artur em livros que sej am

autorizados, nem m ais com toda a certeza ouvi falar de sua m orte, m as assim foi levado em bora em um navio onde havia três rainhas [...]

Agora nada m ais consegui encontrar da m orte do Rei Artur, senão que

essas dam as o levaram ao seu túm ulo [...] Porém o erm itão não sabia com certeza que era em verdade o corpo do Rei Artur; pois esta história Sir Bedwere, cavaleiro da Távola Redonda, m andou escrever.

 

Parece evidente que Malory estava m uito cético com a estranha história que encontrou em suas fontes.

Mas a respeito do destino de Artur no barco, ou navio, suas últim as palavras a

Bedivere no conto de Malory, j á m encionadas na O POEMA NA TRADIÇÃO

ARTURIANA, precisam ser relem bradas: “Pois devo ir ao vale de Avy ly on para m e curar de m eu ferim ento atroz. E se nunca m ais ouvires de m im reza por m inha alm a!” Malory estava fazendo eco às palavras de Artur em Le Morte Arthur, aqui em resposta à exclam ação de Bedivere “senhor, aonde estás rum ando?”:

 

Irei por um breve m om ento

Ao vale de Aveloune,

Um instante para m e curar de m inha ferida.

 

I wylle wende a lytelle stownde [while]

In to the vale of Aveloune,

A whyle to hele me of my wounde.

 

Essa referência ao vale de Avalon está ausente da Mort Artu. Em A Queda de Artur é claro que o rei estava indo a Avalon. Mas onde ficava Avalon?

No poem a de m eu pai enfaticam ente não era Glastonbury em Som erset. Nas

notas m encionadas à O POEMA NÃO ESCRITO Sir Lancelot, retornado de Benwick à Grã-Bretanha, cavalga rum o ao oeste; e “o ermitão à beira-mar lhe conta sobre a partida de Artur”. Então “Lancelot obtém um barco e navega para o oeste e j am ais retorna”. Parece-m e praticam ente certo que esse erm itão fosse

o guardião da capela “não longe do m ar” ou “à beira-m ar” (O POEMA NÃO

ESCRITO) aonde Sir Lucan e Sir Bedivere levaram o rei ferido, apesar de ele não ser m encionado em Le Morte Arthur nem em Malory. Por esse m odo de ver, ele enxergou, e disse a Sir Lancelot que enxergou, o navio levando Artur para ser sepultado até longe da costa, para alto-m ar, e certam ente não na direção de um a erm ida perto de Glastonbury.

 

A associação do túm ulo de Artur com Glastonbury pode, portanto, ser brevem ente descrita. O m ais antigo registro escrito encontra-se em um a obra do antiquário galês Giraldus Cam brensis, ou Gerald de Gales, escrita por volta do final do século XII. Após observar que se contavam histórias fantásticas do corpo de Artur, com o, por exem plo, que fora levado por espíritos a um a região longínqua e não estava suj eito à m orte, disse que “em nossos dias” o corpo de Artur fora de fato encontrado, pelos m onges da abadia de Glastonbury, enterrado fundo no solo em um carvalho oco no cem itério. Um a cruz de chum bo estava afixada à face inferior de um a pedra sob o caixão, de m odo tal que a inscrição da cruz estivesse oculta. A inscrição, que o próprio Giraldus vira, declarava que ali estava sepultado o renom ado Rei Artur j unto com Wennevaria in insula Avallonia [na ilha Avallonia]. (Ele tam bém registra o detalhe curioso de que ao lado dos ossos de Artur (que eram de tam anho enorm e) e de Guinevere havia um a trança perfeitam ente conservada dos cabelos dourados desta, m as que quando ela foi tocada por um dos m onges desfez-se instantaneam ente em pó.) A data desse evento está registrada com o 1191.

No m esm o trecho Giraldus disse que o que então se cham ava Glastonia era antigam ente cham ado de Insula Avallonia. Esse nom e, explicou, surgiu porque o lugar era virtualm ente um a ilha, inteiram ente cercada de pântanos, daí ser cham ado Britannice (na língua britânica [isto é, céltica]) Inis Avallon, que segundo ele significava insula pomifera “ilha das m açãs”, sendo aval a palavra britânica para “m açã”, pois m acieiras ali abundavam outrora. Acrescenta tam bém que Morganis, que era um a nobre dam a, parenta do Rei Artur e senhora daquela região, levou-o após a batalha de Kem elen (Cam lan) até a ilha que agora se cham a Glastonia para curar seus ferim entos.

 

*

 

Não é necessário seguir m ais adiante a “conexão de Glastonbury ” até as com plexas questões do que estava por trás dessa curiosíssim a “descoberta” do túm ulo do Rei Artur, e se havia associações entre Glastonbury e as lendas arturianas antes de 1191. Porém , ficará claro com o ocorreu que o autor da Morte

Arthure aliterante pudesse dizer (O POEMA NA TRADIÇÃO ARTURIANA) que Artur foi levado a Glasschenberye, e no entanto entrou na Ilha de Aveloyne, e com o o rei pôde dizer a Bedivere, na Morte Arthur em estrofes e em Malory, ao

j azer no navio, que iria ao vale de Avalon para curar sua ferida (O POEMA NÃO

ESCRITO).

Mas em A Queda de Artur m eu pai não se ocupou de Glastonbury em sua reform ulação da lenda. Para ele, além de qualquer dúvida, Avalon era um a ilha no ocidente rem oto; m as a respeito de sua natureza, nas notas que estão anexas ao poem a, nada ficam os sabendo. Há um a única e m istificante referência a Avalon no próprio poem a (I.204). Está em um a fala de Gawain em que ele lem bra ao Rei Artur seu incom ensurável poder em arm as de cavalaria, “da florestal beira à Ilha de Avalon”: o que deve significar que Avalon se tornara parte do dom ínio de Artur nos m ares ocidentais, a não ser que se trate apenas de um a am pla sugestão retórica da extensão de seu poder no leste e no oeste.

Sobre a partida de Artur, Geoffrey de Monm outh em sua Historia regum,

conform e j á observam os (O POEMA NA TRADIÇÃO ARTURIANA), nada m ais disse além de que para a cura de seus ferim entos ele foi levado à Ilha de Avalon (in insulam Avallonis). Mas em outra obra sua, m ais tardia, a Vita Merlini, um poem a em hexâm etros latinos, fez um relato de Avalon e da chegada do Rei Artur até ali, com o que nas palavras do bardo galês Taliesin. Nesse poem a a ilha se cham a (usando a m esm a etim ologia de Giraldus, aval “m açã”) Insula pomorum que fortuna vocatur, “a Ilha das Maçãs, que é cham ada de Ilha Afortunada”: pois nessa terra abençoada todas as coisas surgem por si sós: não é necessário que os cam poneses lavrem os cam pos, em que o trigo e as uvas aparecem sem cuidados. “Para lá após a batalha de Cam lan (post bellum Camblani) levam os Artur ferido, e lá fom os recebidos com honra por Morgen, que deitou o rei num leito dourado em seu próprio aposento e por m uito tem po fitou o ferim ento, dizendo por fim que ele poderia recuperar a saúde se ficássem os com ele por longo tem po e nos subm etêssem os à sua cura. Portanto, regozij ando-nos, entregam os-lhe o rei e ao retornarm os dem os as velas aos ventos que seguiam .”

 

O prim eiro relato em literatura da partida de Artur no navio encontra-se no

Brut de Laȝam on, sobre o qual ver O POEMA NA TRADIÇÃO ARTURIANA. De acordo com Laȝam on o local da grande batalha foi Cam elford, e os exércitos se encontraram “sobre o Tam bre”, o rio Tam ar, que fica bem longe de Cam elford. Aqui cito as linhas de Laȝam on sobre as palavras do Rei Artur,

j azendo em terra m ortalm ente ferido, e a vinda do barco que o levou em boraf. Ver-se-á que a m étrica é herdeira da form a ancestral vista em Beowulf (e de fato em A Queda de Artur), porém com versos m ais longos, com hem istíquios interligados por rim a ou assonância em vez de aliteração; porém , o vocabulário é quase totalm ente “anglo-saxão”.

 

“E irei a Avalon, à m ais bela de todas as donzelas,

à rainha Arganteg, elfa belíssim a, e ela há de restaurar m inhas feridas, restaurar-m e todo com poções de cura. E depois voltarei outra vez ao m eu reino e habitarei com os britânicos em grande alegria.” A essas m esm as palavras veio do m ar um barco curto viaj ando, im pelido pelas ondas, e dentro dele duas m ulheres m aravilhosam ente ataviadas, e logo tom aram Artur, e o levaram depressa, e o deitaram com cuidado, e partiram . [...]

Os britânicos ainda acreditam que ele vive

e habita em Avalon com a m ais bela de todas as elfas, e os britânicos ainda esperam sem pre que Artur retorne.

 

‘And ich wulle varen to Avalun to vairest alre maidene, to Argante þere quene, alven swiðe sceone, and heo scal mine wunden makien alle isunde, al hal me makien mid haleweiȝe drenchen. And seoðe ich cumen wulle to mine kinerichen and wunien mid Brutten mid muchelere wunne.’ Æfne þan worden þer com of se wenden þat wes an sceort bat liðen sceoven mid uðen, and twa wimmen þer inne wunderliche idihte, and heo nommen Arður anan, and aneouste hine vereden, and softe hine adun leiden and forð gunnen hine liðen. . . . .

Bruttes ileveð ȝete þat he bon on live, and wunnien in Avalun mid fairest alre alven, and lokieð evere Bruttes ȝete whan Arður cumen liðe.

 

Esse trecho é peculiar a Laȝam on: não há nada que lhe corresponda no Brut de Wace.

 

*

 

No caso de A Queda de Artur há m ais um aspecto de “Avalon” a ser considerado: a intrincada questão da relação entre a “ilha das m açãs” ou “Ilha Afortunada”, da Avalon aonde foi levado o Rei Artur, brevem ente descrita por Geoffrey de

Monm outh na Vita Merlini (O POEMA NÃO ESCRITO), e a Avalon do m undo im aginado por m eu pai.

Passou-se m uito tem po antes que em ergisse o nom e da ilha cham ada de Tol Eressëa, a Ilha Solitária, nas águas m ais rem otas de Belegaer, o Grande Mar do Oeste; e este não é o lugar para entrar em um relato da visão estranham ente cam biante de m eu pai sobre a Ilha Solitária nos prim eiros anos de O Silmarillion. Por outro lado, é im portante tentar desvendar o que ele pensava sobre o assunto durante o tem po em que trabalhava em A Queda de Artur.

A única data precisa que pode nos aj udar é 9 de dezem bro de 1934, quando R. W. Cham bers escreveu para parabenizá-lo por Artur, então em progresso

(PREFÁCIO); m as isso, é claro, não fornece indicação de quanto ele estava perto de abandonar o poem a naquela época.

Muito tem po depois, em um a carta de 16 de j ulho de 1964, ele contou que ele e C. S. Lewis haviam com binado, em algum dia agora desconhecido, que cada um escreveria um a história: a de Lewis seria um conto de viagem espacial e a de m eu pai um conto de viagem no tem po. Out of the Silent Planet [Além do Planeta Silencioso] de Lewis foi term inado por volta do outono de 1937, e The Lost Road de m eu pai, de fato m uito longe de estar term inado, foi enviado com outras obras num fatídico pacote à Allen and Unwin, em novem bro daquele ano. Em setem bro O Hobbit tinha sido publicado; em 19 de dezem bro de 1937 ele disse em um a carta: “Escrevi o prim eiro capítulo de um a nova história sobre hobbits.”

Muitos anos m ais tarde ele descreveu, naquela carta de 1964, suas intenções para The Lost Road.

Com ecei um livro abortivo de viagem no tem po cuj o final seria a presença de m eu herói no afundam ento da Atlântida. Ela iria cham ar-se Númenor, a Terra do Oeste. O fio seria a ocorrência, um a vez após a outra, em fam ílias hum anas (com o Durin entre os anões), de um pai e um filho cham ados por nom es que poderiam ser interpretados com o Am igo da Alegria e Am igo dos Elfos [...] Com eçou com um a afinidade pai-filho entre Edwin e Elwin no presente, e supõe-se que rem ontaria no tem po lendário através de um Eädwine e um Ælfwine de cerca de 918 d.C., e Audoin e Alboin da lenda lom barda, e assim às tradições do Mar do Norte a respeito da chegada do trigo e dos heróis da cultura, ancestrais de linhagens reais, em barcos (e sua partida em navios fúnebres). [...] Em m inha história chegaríam os por fim a Am andil e Elendil, líderes do partido leal de Núm enor, quando esta caiu sob o dom ínio de Sauron.

 

Sobrevive (publicado em The Lost Road and Other Writings [A Estrada Perdida e Outros Escritos], 1987, p. 12) o esboço original de sua “ideia” para a lenda conclusiva que m eu pai escreveu em grande velocidade. “Esse texto notável”, escrevi a respeito naquele livro, “docum enta o início da lenda de Núm enor, e a extensão de O Silmarillion em um a Segunda Era do m undo. Lá foi registrada pela prim eira vez a ideia do Mundo Feito Redondo e do Cam inho Plano [...].” Existem tam bém duas versões (ibid. pp. XVIII ss.), de épocas próxim as, sendo a segunda um a revisão da prim eira, de um a breve narrativa que foi a precursora do Akallabêth (publicado com O Silmarillion). No m anuscrito do segundo texto (apenas) m eu pai m ais tarde escreveu a lápis um título: The Last Tale: The Fall of Númenor [O Último Conto: A Queda de Númenor].

Meu estudo desses textos m ostrou que A Queda de Númenor e trechos de The Lost Road “estavam intim am ente ligados; surgiram ao m esm o tem po e do m esm o im pulso, e m eu pai trabalhou neles j untos” (ibid. p. XV). Portanto, cheguei à conclusão de que “‘Núm enór’ (com o conceito distinto e form alizado, independentem ente da ‘assom bração da Atlântida’, com o m eu pai a cham ava, que houvesse por trás) surgiu no próprio contexto de suas discussões com C. S. Lewis em (com o parece provável) 1936”.

No prim eiro dos dois textos de A Queda de Númenor ocorre este trecho:

 

[quando] [...] Morgoth foi novam ente lançado na Escuridão Exterior, os Deuses fizeram um conselho. Os Elfos foram convocados a

Valinor [...] e m uitos obedeceram , m as não todos.

 

Mas na segunda versão isso foi alterado assim :

 

Mas, quando Morgoth foi lançado para fora, os Deuses fizeram um conselho. Os Elfos foram convocados a retornar para o Oeste, e aqueles que obedeceram voltaram a habitar em Eressëa, a Ilha Solitária, renom eada Avallon, pois fica m uito próxim a de Valinor.

 

Essa é um a das prim eiras ocorrências do nom e Avallon para Eressëa. Na narrativa fragm entária da história num enoriana em The Lost Road, que foi a única coisa que m eu pai j am ais escreveu sobre ela, Elendil conta a seu filho Herendil:

 

E eles [os Valar] voltaram a cham ar os Exilados dos Prim ogênitos e os perdoaram ; e aqueles que retornaram habitam desde então em felicidade em Eressëa, a Ilha Solitária, que é Avallon, pois fica à vista de Valinor e à luz do Reino Abençoado.

 

Supostam ente pertence a essa época um verbete de The Etymologies [As Etimologias] (texto de trabalho desse período, extrem am ente difícil, publicado em The Lost Road and Other Writings) sob o radical lono- (p. 370):

 

lóna: ilha, terra rem ota difícil de alcançar. Cf. Avalóna = Tol Eressëa = a ilha exterior. [Provavelm ente acrescentado em seguida: A-val-lon.]

 

Outro verbete que se relaciona com esse nom e, sob o radical awa-, diz (em parte):

 

longe, em bora; para fora. Q[ueny a] ava fora, além . Avakúma Nada Exterior além do Mundo. [A isso foi acrescentado: Avalóna, cf. lóna.]

 

Essas etim ologias não concordam com a explicação do nom e (“m uito próxim a a Valinor”) na segunda versão de A Queda de Númenor.

 

Nessa época, quando m eu pai estava ponderando os sucessivos contos que iriam constituir The Lost Road, m as dos quais só fragm entos chegariam a ser contados, ele fez m uito rapidam ente um a anotação sobre a possibilidade de um a história “do hom em que tom ou a Rota Plana”. Esse hom em seria Æ lfwine, o inglês do século X sobre o qual m eu pai m uito havia escrito nos prim eiros anos: o m arinheiro que chegou à Ilha Solitária e ali aprendeu com os elfos as histórias contadas em The Book of Lost Tales [O livro dos contos perdidos]. Reproduzo aqui a anotação de m eu pai:

 

Mas essa seria a m elhor de todas as introduções dos Contos Perdidos: Com o Æ lfwine navegou na Rota Plana. Navegaram , navegaram , navegaram sobre o m ar; e ele se tornou m uito lum inoso e m uito calm o – sem nuvens, sem vento. A água parecia rala e branca lá em baixo. Olhando para baixo Æ lfwine subitam ente viu terras e m ontanhas [ou um a m ontanha] na água reluzindo ao sol. A dificuldade que tiveram para respirar. Seus com panheiros m ergulham sobre a borda um por um . Æ lfwine cai desm aiado quando sente um a fragrância m aravilhosa com o de terra e flores. Ao despertar, descobre que o navio está sendo rebocado por pessoas que cam inham na água. Contam que m uito poucos hom ens ali, em m il anos, conseguem respirar o ar de Eressëa (que é Avallon), m as para além , ninguém. Assim ele chega a Eressëa e lhe contam os Contos Perdidos.

 

É interessante com parar isso com a conclusão de O Silmarillion na versão intitulada Quenta Silmarillion, a form a da obra antes de m eu pai a deixar de lado durante os anos de O Senhor dos Anéis (The Lost Road and Other Writings, pp. 333-5). Lá o nom e Avallon para Tol Eressëa havia surgido, m as ainda não o conceito da Rota Plana.

 

Aqui term ina O Silmarillion: que foi retirado em breves palavras daquelas canções e histórias que ainda são cantadas e contadas pelos elfos que se desvanecem e (de m odo m ais claro e com pleto) pelos elfos desaparecidos que agora habitam na Ilha Solitária, Tol Eressëa, aonde poucos m arinheiros dos Hom ens j am ais chegaram , exceto um a ou duas vezes em era rem ota, quando algum hom em da raça de Eärendel passou além das terras da visão m ortal e viu o bruxuleio das lâm padas nos cais de Avallon, e sentiu de longe o arom a das flores

im ortais nas cam pinas de Dorwinion. Um deles foi Eriol, que os hom ens cham avam Æ lfwine, e som ente ele retornou e trouxe notícias de Cortirion [cidade dos elfos em Eressëa] às Terras de Cá.

 

Não é necessário prosseguir o assunto de Avallon entrando nas com plexidades da evolução posterior, que são plenam ente relatadas em Sauron Defeated [Sauron Derrotado] (1992). Neste resum o tentei apenas sugerir o que esse nom e significava para m eu pai no contexto de O Silmarillion na época em que trabalhava em A Queda de Artur, e provavelm ente se aproxim ava de abandoná-la.

Parece-m e que se deve presum ir um período de tem po considerável para que em ergisse um a perturbação tão enorm e do m ito existente, criada pela irrupção de Núm enor e seu afundam ento, pela rem odelação elem entar da Terra e pelo m istério da “Rota Plana”, conduzindo a um “passado” desaparecido negado aos m ortais. Penso então que é pelo m enos m uito provável que essa evolução em O Silmarillion, j untam ente com o novo em preendim ento de The Lost Road e as graves dúvidas e dificuldades que m eu pai encontrou, tenha sido suficiente para explicar seu afastam ento de A Queda de Artur.

Na verdade isso indicaria um a data surpreendentem ente tardia para o seu abandono, m as há de fato um indício m uito curioso e enigm ático que parece sustentar essa suposição. Trata-se de um a única página de anotações m uito rudim entares, um a lista de sucessivos “elem entos” da narrativa, todos encontrados em outros lugares. A parte final da lista está assim :

 

Batalha de Cam lan

Artur m ata Mordred

& é ferido

 

Ago 1937

Carregado para Avalon

Lancelot chega tarde dem ais

[? reúne-se] à Rainha

Vai para o Oeste num navio e nunca m ais se ouve falar dele

 

Em algum m om ento depois de essa lista estar feita, m eu pai acrescentou a chave que separa “Carregado para Avalon” do que precede, e ao lado da chave (isto é, na m esm a linha que “Carregado para Avalon”) escreveu “Ago 1937”.

A form a m ais natural, talvez, de interpretar isso é que nesse ponto m eu pai alcançara (em verso, se não em form a acabada) “Artur m ata Mordred e é ferido”, m as nada além disso. É claro que o problem a dessa suposição é que ele nem m esm o alcançara a Batalha de Cam lan: o poem a cessa com o fim dos com bates em Rom eril, e a prova m anuscrita não dá indicação de que a form a em versos tivesse ido além desse ponto. Não consigo explicar isso. Mas pelo m enos parece haver indícios, aqui, de que m eu pai ainda estava ativam ente ocupado com A Queda de Artur em agosto de 1937, em bora isso pareça espantosam ente tarde.

Mas, se fosse esse o caso, lançar-se-ia assim algum a luz sobre a razão pela qual m eu pai escreveu, m ais ou m enos nessa época, que Tol Eressëa, nom e que j á rem ontava a uns vinte anos, foi m udado para Avallon – por nenhum a razão m uito evidente? Parece im possível aceitar que não houvesse nenhum a ligação com a Avallon arturiana; m as é preciso dizer que a sem elhança com a partida de Artur se tornou ainda m enos evidente.

Em um a carta de setem bro de 1954, após a publicação de A Sociedade do Anel, m eu pai escreveu um a afirm ação lindam ente breve e lúcida acerca de Eressëa:

 

[...] Antes da Queda estendiam -se além do m ar e das costas ocidentais da Terra-m édia um paraíso terreno élfico, Eressëa, e Valinor, a terra dos Valar (os Poderes, os Senhores do Oeste), lugares que podiam ser atingidos fisicam ente por veleiros com uns, em bora os Mares fossem perigosos. Mas após a rebelião dos num enorianos, os Reis dos Hom ens, que m oravam em um a terra m ais ocidental de todas as terras m ortais e finalm ente, no ápice de sua soberba, tentaram ocupar Eressëa e Valinor à força, Núm enor foi destruída, e Eressëa e Valinor foram rem ovidas da Terra fisicam ente atingível: o cam inho para o oeste estava aberto, m as não levava a nenhum lugar senão de volta – para os m ortais.

 

Parece-m e que o m áxim o que se pode dizer é que a Ilha Afortunada, a Avalon da fada Morgana, e a Avallon que era Tol Eressëa, estão associadas apenas por terem am bas o caráter de um “paraíso terreno” m uito longe no oceano ocidental.

Ainda assim , há boas razões, na verdade evidência obrigatória, para crer que m eu pai tenha feito essa conexão expressa, porém o m otivo subj acente pode ser difícil de interpretar.

Entre as anotações de m eu pai para a continuação de A Queda de Artur, aquela que fala que Lancelot tom a um barco e navega para o oeste, m as nunca retorna, é de especial interesse no presente contexto por causa das palavras que se

seguem e concluem a anotação: “Trecho de Eärendel” (O POEMA NÃO

ESCRITO). Essas linhas de versos aliterantes, encontradas j unto com as notas

para a continuação de A Queda de Artur, foram m ostradas às O POEMA NÃO

ESCRITO.

Neste breve poem a “[o] galeão [foi] lançado nos mares de sombra”, e Eärendel “parte [...] a mágicas ilhas [...] além das colinas de Avalon [...] os portais do dragão e as escuras montanhas / da Baía do Reino Encantado nas margens do mundo”. Nesses versos m eu pai estava expressam ente introduzindo elem entos da geografia m itológica da Prim eira Era do Mundo, com o foi originalm ente descrita em The Book of Lost Tales, m as que sobreviveram am plam ente em textos m uito m ais tardios de O Silmarillion.

No conto “A Ocultação de Valinor” em The Book of Lost Tales Part I diz-se que à época da fortificação de Valinor as Ilhas Mágicas foram dispostas em grande anel no oceano, com o defesa da Baía de Faëry [Reino Encantado]. À época da versão de O Silmarillion intitulada Quenta, escrita, pelo m enos em grande parte, em 1930, foi dito o seguinte (The Shaping of Middle-earth [A Form ação da Terra-m édia], 1986, p. 98):

 

Naqueles dias, que as canções cham am de A Ocultação de Valinor, as Ilhas Mágicas foram dispostas, cheias de encantam ento, e enfileiradas através dos confins dos Mares Som brios, antes de se chegar à Ilha Solitária navegando para o oeste, para ali apanhar os m arinheiros em arm adilha e envolvê-los em sono eterno.

 

É de notar que a expressão “a Baía do Reino Encantado nas m argens do m undo” [“the Bay of Faery on the borders of the world”] na últim a linha do “trecho de Eärendel” se encontra com frequência nos prim eiros escritos. Constitui a quarta linha da segunda versão do poem a aliterante The Children of Húrin [Os Filhos de Húrin], em ou antes de 1925 (The Lays of Beleriand, 1985, p. 95):

 

Vós, Deuses que cingistes vossos reinos vigiados

com pináculos im óveis, m ontanhas sem trilhas, erguendo-se íngrem es sobre costas veladas da Baía do Reino Encantado nas m argens do Mundo!

 

Ye Gods who girt your guarded realms with moveless pinnacles, mountains pathless, o’er shrouded shores sheer uprising of the Bay of Faëry on the borders of the World!

 

No Quenta todos esses nom es aparecem j untos na história de Eärendel (The Shaping of Middle-earth, p. 150). Em sua viagem a Valinor, levando o Silm aril, Eärendel e Elwing no navio Wingelot

 

chegaram às Ilhas Mágicas e escaparam à sua m agia; e chegaram aos Mares Som brios e passaram por suas som bras; e contem plaram a Ilha Solitária e não se dem oraram ali; e lançaram âncora na Baía de Faërie nas bordas do m undo.

 

São especialm ente im pressionantes as palavras “os portais do dragão” no penúltim o verso do “trecho de Eärendel”. No conto “A Ocultação de Valinor” está dito (The Book of Lost Tales Part I, pp. 215-6) que os Deuses “ousaram um m uito grande feito, a m ais potente de todas as suas obras”:

 

“Dirigiram -se à Muralha das Coisas, e ali fizeram a Porta da Noite [...] Ali ela se ergue ainda, totalm ente negra e enorm e j unto às m uralhas de azul profundo. Seus pilares são do m ais forte basalto e seu lintel tam bém , m as grandes dragões de pedra negra estão esculpidos sobre eles, e um a fum aça som bria se derram a lentam ente das suas m andíbulas. Tem portões inquebráveis, e ninguém sabe com o foram feitos ou colocados, pois aos Eldar não foi perm itido estar naquela terrível construção, e ela é o últim o segredo dos Deuses.”

 

(As expressões “porta com cabeças de dragão”, e “portas da Noite com cabeças de dragão” encontram -se em poem as antigos: The Book of Lost Tales Part II, pp. 272, 274.)

Nessa form a m ais prim itiva do m ito astronôm ico “o galeão do Sol” passa através da Porta da Noite, “sai para a treva ilim itada, e passando por trás do m undo volta a encontrar o Leste”, retornando pelos Portões da Manhã. Mas esse conceito foi logo ultrapassado por um a nova form a do m ito em que o Sol não entra na Treva Exterior pela Porta da Noite, m as passa abaixo da Terra. A Porta da Noite perm aneceu, m as com propósito e época de construção diferentes. Na curta obra cham ada Ambarkanta, A Form a do Mundo, de 1930 ou pouco depois, o novo significado da Porta da Noite é expresso nestes trechos (The Shaping of Middle-earth, pp. 235, 237):

 

Em toda a volta do Mundo estão as Iluram bar, ou Muralhas do Mundo.

São com o gelo e vidro e aço, sendo frias, transparentes e duras além de toda im aginação dos Filhos da Terra. Não podem ser vistas, nem é possível ultrapassá-las, a não ser pela Porta da Noite.

No interior dessas Muralhas a Terra está envolta: acim a, abaixo e por

todos os lados está Vaiy a, o Oceano Envolvente.

 

No m eio de Valinor está Ando Lómen, a Porta da Noite Intem poral que

trespassa as Muralhas e se abre para o Nada. Pois o Mundo está posto no m eio de Kúm a, o Nada, a Noite sem form a nem tem po. Mas ninguém pode ultrapassar o abism o e o cinturão de Vaiy a e chegar àquela Porta, exceto os grandes Valar. E eles fizeram essa Porta quando Melko [Morgoth] foi derrotado e lançado fora para as Trevas Exteriores; e ela é vigiada por Eärendel.

 

É claro que expus aqui todos esses trechos, escolhidos dentre um im enso corpo de escritos, não por seu significado intrínseco e sim para reforçar a notável natureza da evocação por m eu pai, deliberada e substancial, de um m ito cardeal do seu próprio “m undo”, a grande viagem de Eärendel a Valinor, em relação ao Sir Lancelot da lenda arturiana – a quem de fato ele atribuía então um a grande

viagem através do oceano ocidentalh.

Verem os que nesses versos do “trecho de Eärendel” (O POEMA NÃO

ESCRITO) o único nom e que não é derivado das narrativas de O Silmarillion é As Colinas de Avalon. Com parando a descrição da viagem de Eärendel e Elwing na

citação do Quenta dada na O POEMA NÃO ESCRITO, onde após a passagem dos Mares Som brios e das Ilhas Mágicas eles “contem plaram a Ilha Solitária e não se dem oraram ali”, parece ao m enos m uito provável que aí “Avalon” tenha o significado de “Tol Eressëa”, assim com o nos textos da década de 1930 citados

nas O POEMA NÃO ESCRITO. Se assim for, então quando m eu pai escreveu num contexto “Silm arillion” que Tol Eressëa foi renom eada Avallon, tam bém escreveu Avalon por Tol Eressëa em um contexto arturiano.

Pode-se pensar que os “versos de Eärendel” não m ostrem m ais do que um am plo paralelo entre duas grandes viagens rum o ao oeste. Mas o segundo poem a, na prim eira fase de com posição e extraordinariam ente difícil de ler (e com duas

ilegibilidades bastante infelizes), encontrado entre esses papéisi e exibido nas O

POEMA NÃO ESCRITO, apresenta associações m uito m ais extraordinárias.

 

Esses versos abrem com a reflexão de que, enquanto a sepultura de Gawain fica “j unto ao m ar que ressoa, onde o sol se põe”, não existem colinas tum ulares de Lancelot nem de Guinevere, e “nenhum m orro tum ular tem Artur em terra m ortal” – e os versos seguintes dizem respeito a Artur: m as são m uito sem elhantes, ou quase idênticos, às linhas finais dos “versos de Eärendel”. Não é im ediatam ente óbvio qual desses dois “poem as”, que por conveniência cham o aqui de Eärendel Quest [Dem anda de Eärendel] e Arthur’s Grave [Sepultura de Artur], precedeu o outro. Poderia parecer que a form a m uito m ais bem acabada, datilografada, da Demanda de Eärendel sugere que esse é o m ais recente; m as o fato de os nom es intim am ente associados à lenda de Eärendel acom panharem a figura de Eärendel nesse poem a, ao passo que na Sepultura de Artur esses nom es estão associados ao Rei Artur, parece-m e um argum ento m ais forte para supor que a Sepultura de Artur sej a posterior à Demanda de Eärendel.

Está dito no final da Sepultura de Artur que Artur “perm anece” (alterado, pois antes era “dorm e”) em Avalon, enquanto a Baía de Faëry se torna a Baía de Avalon. À prim eira vista, a presença de Artur “em Avalon” sugere que o nom e é usado ali no sentido arturiano fam iliar da ilha aonde Artur foi levado para ser curado pela fada Morgana; m as seu surgim ento no contexto de nom es de O Silmarillion tam bém parece indicar que era Tol Eressëa.

É sem elhante à m udança do nom e da Baía de Casadelfos (ou de Faërie, ou de Eldam ar) para Baía de Avalon. O nom e Avalon, agora usado para designar Tol Eressëa, estende-se aqui da ilha para as costas da vasta baía onde Tol Eressëa

estava ancoradaj .

Parece que a Avalon arturiana, a Ilha Afortunada, Insula Pomorum, dom ínio da fada Morgana, tinha sido então, em algum sentido m isterioso, identificada com Tol Eressëa, a Ilha Solitária. Mas o nom e Avallon entrou, com o nom e de Tol Eressëa, na época em que a Queda de Núm enor e a Mudança do Mundo

entraram tam bém (ver O POEMA NA TRADIÇÃO ARTURIANA), com o conceito da Rota Plana, partindo do Mundo Redondo, que ainda conduzia a Tol Eressëa e Valinor, um a rota que era negada aos m ortais e ainda assim foi m isteriosam ente encontrada por Æ lfwine da Inglaterra.

 

Sou com pletam ente incapaz de dizer com o m eu pai via essa conj unção. Pode ser que por ausência de um a datação m ais precisa eu tenha sido levado a com binar em um todo contem porâneo ideias que não eram coerentes, m as em ergiram e foram deixadas de lado naquele tem po de grande revolução criativa. Mas repetirei aqui o que disse em The Lost Road and Other Writings, p. 98, sobre as intenções de m eu pai para seu livro de “viagem no tem po”:

 

Com a introdução nessa época das ideias cardeais da Queda de Núm enor, do Mundo Tornado Redondo e da Rota Plana no conceito da “Terra-m édia”, e o pensam ento sobre um a história de “viagem no tem po” em que a figura m uito significativa do anglo-saxão Ælfwine seria “estendida” ao futuro, ao século XX, e tam bém a um passado de m uitas cam adas, m eu pai vislum brava um a interconexão m aciça e explícita de suas próprias lendas com as de m uitos outros lugares e tem pos, todas tratando das histórias e dos sonhos de povos que habitavam j unto às costas do grande Mar Ocidental.

 

*

 

Em conclusão, resta considerar as notas de m eu pai para a continuação da

história de Lancelot e Guinevere (O POEMA NÃO ESCRITO).

Sobre Lancelot, após seu retorno dem asiado tardio da França, ficam os sabendo que cavalgou rum o ao oeste a partir de Rom eril “pelas estradas vazias” e encontrou Guinevere que “desce vinda de Gales”. A narrativa j á se preparava para desviar definitivam ente da que encontram os na Morte Arthur em estrofes,

que foi seguida de perto por Malory, de cuj o relato fiz um breve esboço nas O

POEMA NA TRADIÇÃO ARTURIANA. As notas de m eu pai, em bora sej am extrem am ente reduzidas, dem onstram sem dúvida que os anos posteriores dessa Guinevere nada terão a ver com um convento nem com “j ej um , orações e atos de caridade” com sem blante triste, e certam ente ela não se dirigirá a Lancelot com palavras com o estas:

 

“Mas im ploro-te, por todas as coisas,

Que nunca em tua vida depois disto

Me procures para assistência,

Nem m e envies m ensagem , m as perm aneças feliz: Peço a Deus eterno

Que m e conceda graça para em endar m inha transgressão.”

 

‘But I beseche the, in alle thynge,

That newyr in thy lyffe after thysse

Ne come to me for no sokerynge,

Nor send me sond, but dwelle in blysse:

I pray to Gode euyr lastynge

To graunt me grace to mend my mysse.’

 

Muito m enos esse Lancelot responderá com palavras com o estas de Malory :

 

“Agora, m inha doce senhora”, disse sir Launcelot, “quereis que eu m e

volte outra vez para m eu país, e ali despose um a dam a? Não, senhora, sabei que j am ais farei isso, pois j am ais vos serei tão falso do que prom eti. Mas o m esm o destino que vós tom astes assum irei eu tam bém , pela vontade de Jesus, e m e disponho a sem pre orar especialm ente por vós.”

 

Foi bem diferente o encontro deles quando ela desceu de Gales, com o m eu pai resolveu contar. Foi de fato previsto nos versos do terceiro Canto:

 

Estranho ela o vê,

não m ais o m esm o, por m al súbito. (III.95-6)

 

Estranha pareceu a ele,

não m ais a m esm a. Junto ao m ar ele para

com o pedra esculpida, desespero cinzento.

A despedida foi dor. (III.106-9) Na Morte Arthur em estrofes houve grande pesar no últim o encontro e na despedida no convento:

 

Mas nenhum hom em terreno pode contar

O pesar que lá com eçou a existir

 

But none erthely man covde telle

The sorow that there by-gan to bene

 

e no conto de Malory “houve lam ento com o se tivessem sido ferroados com

lanças” (O POEMA NA TRADIÇÃO ARTURIANA); m as houve determ inação e

resignação. No últim o encontro entre eles, nas notas sobre A Queda de Artur (O

POEMA NÃO ESCRITO), houve desolação e vazio. Na prim eira das notas que tratam disso, Lancelot só pergunta a Guinevere: Onde está Artur? Apesar de o hum or, é claro, ser totalm ente diferente, aparece algo da acrim ônia contida da pergunta de Morwen, quando m orria, a Húrin sobre Túrin: “Se souberes, conta-m e! Como ela o encontrou?” Húrin nada disse, e Guinevere nada tinha a contar. Lancelot “deu-lhe as costas”.

Em outra nota acerca do seu últim o encontro está dito que a Lancelot não restava am or senão por Artur: Guinevere perdera todo o poder sobre ele. São repetidas as palavras do terceiro Canto: “A despedida foi dor”, m as agora está acrescentado “frios e sem pesar”. Esse Lancelot não passará seus últim os anos em j ej um e penitência nem term inará a vida com endo e bebendo tão pouco que

“secou e feneceu” (O POEMA NA TRADIÇÃO ARTURIANA). Dirigiu-se para beira-m ar e ficou sabendo pelo erm itão que ali vivia que Artur partira para o oeste, por sobre o oceano. Zarpou seguindo Artur e m ais nada j am ais se ouviu dele. “Se encontrou Artur em Avalon e voltará, ninguém sabe.”

Mas o que aguardava Sir Lancelot é declarado pelo poeta nos versos finais do terceiro Canto. Em bora cheio de um a m ente m ais leve e de nova esperança em Benwick, depois de passada a grande tem pestade, “não reconhece o m inuto”:

 

Voltou atrás da fortuna a m aré, sua rápida corrente o carrega consigo. Tem o fim à sua frente e definha seu dia, no correr da m aré não voltará j am ais

a tratar com criaturas existindo ainda o m undo.

 

Pode-se im aginar que m eu pai via sua história da partida de Sir Lancelot com o um a reencenação, de certa form a, do conto de Tuor, pai de Eärendel (Tuor era filho de Huor, irm ão de Húrin; desposou Idril Celebrindal, filha de Turgon, Rei de Gondolin). No Quenta de 1930 conta-se sobre ele o seguinte:

 

Nesses dias Tuor sentiu a velhice arrastar-se sobre ele, e não conseguia reprim ir o anseio pelo m ar que o possuía; por isso construiu a grande nau Eärámë, Asa de Águia, e com Idril zarpou rum o ao pôr do sol e ao Oeste, e não apareceu m ais em nenhum a história.

 

Depois disso Eärendel construiu Wingelot e partiu num a grande viagem com dupla finalidade: encontrar Idril e Tuor, que j am ais haviam voltado, e “pensava encontrar talvez a últim a costa e levar antes de m orrer um a m ensagem aos Deuses e Elfos do Oeste”. Mas Eärendel não encontrou Tuor e Idril nem alcançou as costas de Valinor nessa prim eira viagem ao ocidente.

 

A últim a vez que a vem os, Guinevere observa de longe as velas do navio de Lancelot que parte: “vê seu estandarte de prata desaparecer sob a lua”. Há m enção de sua fuga para Gales para escapar dos “hom ens do leste”. Pelas poucas frases escritas a lápis por m eu pai, parece que sua vida daí por diante nada continha além de pesarosa solidão e autocom paixão; “m as por m uito que o pesar fosse sua sina não está dito que se enlutou m ais pelos outros que por si

própria”. Dois versos que ele escreveu (O POEMA NÃO ESCRITO) têm ar de epitáfio.

 

Guinevere tornou-se cinzenta na cinzenta som bra perdendo todas as coisas, a que todas as coisas dom inava.

 

Guinevere grew grey in the grey shadow

all things losing who at all things grasped.

 

a Em outras páginas meu pai rabiscou versos e hemistíquios aliterantes que

provêm desse resum o, e essa últim a frase seria pouco m ais que adivinhação se não fosse confirm ada por estes versos em outra página:

 

Vindo à Cornualha

cuj a costa tem cólera m as é preclara a gente

ou em Ly onesse achar que se chega bem -vindo.

 

To Cornwall coming

of coast unkind but kind people

or in Lyonesse find loyal welcome.

 

Ly onesse é o nom e da terra perdida a oeste do ponto m ais ocidental da

Cornualha (“Land’s End”). No antigo conto de m eu pai, Ælfwine of England

[ Ælfwine da Inglaterra] (ver O POEMA NÃO ESCRITO), encontra-se o seguinte (The Book of Lost Tales II [O Livro dos Contos Perdidos II]], p. 313):

Apesar de Déor [pai de Ælfwine] ser de sangue inglês, conta-se que tom ou

por esposa um a donzela do Oeste, de Lionesse com o alguns a cham aram desde então, ou Evadrien “Costa do Ferro” com o os elfos dizem ainda. Déor a encontrou na terra perdida além de Belerion de onde os elfos às vezes zarpam .

 

b Fragmentos de versos em outras páginas, começando por “Gawain

respondeu com grave espanto”, m ostram os prim eiros m ovim entos de m eu pai rum o à versificação deste trecho do esboço, em que lem bra Artur de sua firm a resolução e propósito assentado.

 

c Em outra página encontram-se estes versos, escritos com maior cuidado:

 

após ele seguiam

vassalados de Lothian. Mas de Lot os filhos,

Gaheris e Gareth de Gawain irm ãos

deu nesse dia falta, e da dura m ão

de Sir Agravain: na am pla terra j azem ,

que por Lancelot e por lástim a

foram m ortos para seu m áxim o pesar

in his wake followed

lieges of Lothian. But Lot’s children

Gaheris and Gareth Gawaien’s brethren

that day missed he, and dour-handed

Sir Agravain: under earth lay they

by Lancelot in luckless hour

slain to his long sorrow

 

d O ponto de interrogação após “Wingelot” não é editorial. Sobre esse nome

ver O POEMA NÃO ESCRITO.

 

e Este rio, não muito longo, nasce perto de Camelford (a oeste de Launceston)

e corre para o m ar perto de Padstow (a noroeste de Bodm in).

 

f Cito esse texto do manuscrito Cotton Caligula A ix na edição de Sir Francis

Madden em três volum es de 1847, que por m ais de um século foi a única edição do Brut de Laȝam on. Meu pai adquiriu um belíssim o exem plar dessa obra rara e custosa em 1927.

 

g O nome Argante provavelm ente teria sido um a corruptela de Morgen na Vita

Merlini de Geoffrey de Monm outh (ver O POEMA NÃO ESCRITO).

 

h Nessa conexão pode ser lembrado que (embora com uma interrogação) o

navio de Gawain era cham ado Wingelot, Flor da Espum a, o nom e do navio

de Eärendel (O POEMA NÃO ESCRITO).

 

i Um esboço muito primitivo das linhas iniciais encontra-se, de fato, em uma

das páginas de notas para a continuação de A Queda de Artur.

 

j Na história original a Ilha Solitária estava ancorada no meio do oceano, e não

se podia ver terra “a m uitas léguas de navegação dos seus penhascos”: esse era o m otivo do nom e.