A Queda de Artur
Apêndice:
POESIA EM INGLÊS ANTIGO
A im portância do uso dos “versos aliterantes” em inglês antigo no único poem a “arturiano” de m eu pai parece dem andar algum a indicação, nas páginas deste livro, sobre sua natureza essencial, de preferência nas próprias palavras dele. Na verdade é bem conhecido seu relato sobre essa antiga form a de versificação, pois aparece em suas “Observações Prelim inares” na nova edição (1940), feita por C. L. Wrenn, da tradução do Beowulf de J. R. Clark Hall; essas “Observações Prelim inares” foram reeditadas em J. R. R. Tolkien: The Monsters and the Critics and Other Essays [J. R. R. Tolkien: Os Monstros e os Críticos e Outros Ensaios], 1983. Tam bém citei um trecho delas em The Legend of Sigurd and Gudrún [A Lenda de Sigurd e Gudrún], 2009.
Em 14 de j aneiro de 1938 a BBC transm itiu um a breve palestra gravada por m eu pai, intitulada “Anglo-Saxon Verse” [“Poesia Anglo-Saxã”]. Muita reflexão e m uito trabalho lhe foram dedicados, conform e atesta a grande quantidade de rascunhos prelim inares, porém aqui só é preciso dizer que sobre o m esm o tem a houve tam bém um a conferência, posterior e m uito m ais longa, dirigida a um a plateia que de fato estava presente. Estava claram ente relacionada com a palestra radiofônica, m as era bem distinta. Neste livro creio que poderá ser interessante reproduzir alguns trechos, com um m ínim o de edição, extraídos dessa conferência, m uito diferente em escopo e m odo, m as pertencente ao m esm o período das Observações Preliminares.
Com o exem plo m eu pai tom ou os últim os versos do poem a inglês antigo The Battle of Brunanburh [A Batalha de Brunanburh] e fez um a tradução aliterante. Posteriorm ente o texto da palestra foi m uito em endado e vários trechos foram m arcados para elim inação, talvez por questões de tem po. A data que consta do prim eira verso, “1006 neste outono”, isto é, 1943 com o ano de com posição, foi alterada prim eiro para “1008” e depois para “1011 no outono passado”; provavelm ente isso significa que ela foi repetida em outros lugares naqueles anos.
Jam ais m aior núm ero
de hom ens antes de hoj e tom bou
pelas acres arm as nesta ilha nossa, abatidos em batalha, relatados nos livros e antigos autores, desde a entrada pelo leste
de saxões e ingleses chegados do m ar. Pra assaltar a Grã-Bretanha trouxe-os a m aré;
na bigorna da guerra deram golpes nos galeses
esses grandes que glória conseguiram outrora,
conquistando nesta terra duradoura m orada.
Ne wearð wæl máre
on þýs églande æ´fre gýta
folces gefy lled beforan þ y ssum sweordes wecgum, þæs þe ús secgað béc, ealde úþwitan, syððan éastan hider Engle and Seaxe úp becómon ofer brád brimu, Brytene sóhton, wlance wígsmiþas Wéalas ofercómon, eorlas árhwate eard begéaton.
No greater host
of folk hath fallen before this day in this island ever by the edge of swords in battle slaughtered, as books tell us and ancient authors, since from the east hither
Saxon and English from the sea landed, over the broad billows Britain assailing, the Welsh sm iting on war’s anvil, glory seeking great m en of old, in this land winning a lasting hom e.
Assim cantava um poeta da corte há 1.000 anos – 1.006 neste outono, para ser preciso: com em orando a grande Batalha de Brunanburh em 937 d.C. Foi um a batalha tão grandiosa que por m uito tem po foi lem brada com o magnum bellum. O vencedor foi Æthelstan, neto de Ælfred, um dos m aiores m onarcas da época. Seus inim igos eram um a aliança de reis e chefes nórdicos, escoceses e galeses. Esses versos são a conclusão de um breve poem a (de 73 versos) que está em butido na cham ada “Crônica Anglo-Saxã”. Portanto, provêm do século X, o século dos grandes reis Æthelwulfing (ou sej a, descendentes de Æthelwulf e seu filho Ælfred), quando os ingleses se recuperaram do tum ulto do século IX. É do século X que recebem os a m aior parte dos docum entos, em prosa e verso, que sobreviveram à destruição dos tem pos posteriores. O m undo m ais antigo, antes das invasões nórdicas, estava em ruínas. Tudo o que nos restou daqueles tem pos pregressos, a prim eira época de florescim ento da poesia inglesa, está preservado em cópias do século X – tudo a não ser alguns fragm entos bem pouco num erosos.
É nos registros do século V que aparece pela prim eira vez a palavra “anglo-saxão”. De fato, foi o rei Æthelstan quem , entre outros títulos, com o Bretwalda e Caesar, prim eiro se intitulou Ongulsaxna cyning, isto é, “Rei dos Anglo-Saxões”. Mas ele não falava “anglo-saxão”, pois j am ais houve esse idiom a. A língua do rei era então, assim com o hoj e, Englisc: inglês. Se vocês j á ouviram dizer que Chaucer foi o “pai da poesia inglesa”, esqueçam . A poesia inglesa não tem pai registrado, m esm o com o arte escrita, e o princípio está além da nossa visão, nas névoas da antiguidade setentrional.
Falar da língua anglo-saxã, portanto, é errado e enganoso. Pode-se falar de um “período anglo-saxão” da história, antes de 1066. Mas não é um rótulo m uito útil. Nunca houve nada parecido com um único período “anglo-saxão” uniform e. O século V, e a chegada dos ingleses à Grã-Bretanha, à qual o poeta de Brunanburh se referia no século X, era tão distante dele no tem po, e tão diferente dos seus dias em espécie, quanto as Guerras das Rosas são de nós.
Mas aí está: “o período anglo-saxão” abarca seis séculos. Durante essa longa era um a grande literatura vernácula (para falar apenas disso) – quero dizer um a “literatura” no sentido pleno, livros escritos por hom ens cultos e eruditos – surgiu, foi arruinada e, até certo ponto, voltou a reviver. O que resta hoj e é apenas um fragm ento roto de enorm e riqueza. Mas, até onde se pode observar pelo que foi preservado, há um a característica com um a toda a poesia do período, antiga e tardia. É a antiga m étrica e técnica de versificação inglesa. Ela é bem diferente da m étrica e dos m étodos m odernos, tanto quanto às regras com o quanto aos obj etivos. É frequentem ente cham ada de poesia “aliterante” – e num instante direi um a palavra a esse respeito. As m edidas “aliterantes” foram usadas em todo o período anglo-saxão para poesia em inglês; e na poesia inglesa em pregavam -se apenas versos “aliterantes”. Porém , eles não deixaram de
existir em 1066a! Continuaram sendo usados durante pelo m enos quatrocentos anos m ais, no norte e no oeste. No tipo de versos destinados a livros (e portanto para pessoas instruídas, clérigos ou leigos), essa técnica “aliterante” era elaborada e altam ente refinada. Era utilizada porque era adm irada e apreciada pelas pessoas cultas, e não sim plesm ente porque os pobres “saxões” não conheciam nada diferente, pois na verdade conheciam . Os ingleses daqueles dias interessavam -se por poesia e frequentem ente eram m etricistas m uito hábeis; e, ao escrever em latim , sabiam usar m uitas m étricas clássicas ou com por com o que cham am os de “rim a”.
Ora, essa m étrica “aliterante” tem grandes virtudes próprias. Quero dizer que é digna de estudo pelos poetas atuais, com o técnica. Mas tam bém é interessante por ser um a arte nativa independente dos m odelos clássicos (ou sej a, com o m étrica, não estou falando de conteúdo; os antigos poetas ingleses daqueles dias frequentem ente usavam versos aliterantes para conteúdos que tinham retirado de livros gregos e latinos). Já era antiga nos dias de Alfred. De fato, descende de um a época anterior à chegada dos ingleses à Grã-Bretanha e é quase idêntica à m étrica em pregada nos m ais antigos poem as nórdicos (noruegueses e islandeses). Um grande conj unto de versos orais, tratando dos dias antigos nas terras do norte, era conhecido pelos m enestréis da Inglaterra, apesar de ter sobrevivido pouca coisa além de um longo catálogo em versos [Widsith] dos tem as das canções heroicas e legendárias: um a lista de reis e heróis hoj e esquecidos ou quase esquecidos.
Levaria um a ou duas horas para explicar corretam ente a m étrica inglesa antiga e m ostrar com o funciona, que tipos de coisas consegue ou não consegue fazer. Em essência, consiste em tom ar m eia dúzia de padrões frasais m ais usuais e m ais com pactos da língua com um que tenham dois elem entos ou acentos principais – por exem plo (versos da tradução do trecho da Batalha de Brunanburh):
A glóry séeking
B by the édge of swórds
C from the séa lánded
E gréat men of óld
[acrescentado depois: D bríght árchàngels]
Dois deles, geralm ente diferentes, são equilibrados entre si para com por um verso pleno. São interligados ou aderidos por algo que, com um m as erradam ente, cham am os de “aliteração”. Não é “aliteração” porque não depende de letras nem de grafia, m as de sons: é na verdade um a espécie de breve rim a, rim a inicial.
A sílaba principal – a m ais intensa (m ais acentuada), de tom m ais alto e m ais significativa – de cada m etade deve com eçar pela m esm a consoante, ou concordar por com eçar em vogal (isto é, sem consoante).
Assim in battle slaughtered as books tell us ou glory seeking great m en of old ou ancient authors since from the east hither
No últim o exem plo há duas rim as iniciais ou “escoras” no prim eiro
hem istíquiob. Isso acontece com frequência, m as não é obrigatório. No segundo hem istíquio, duas não são perm itidas. A primeira sílaba im portante, e som ente ela, deve “sustentar a rim a”. Isso tem consequências im portantes. Significa que as frases sem pre têm de ser dispostas de m odo que a palavra m ais im portante venha em prim eiro lugar no segundo hem istíquio. Assim , ocorre sem pre um decréscim o de força, intensidade sonora e significado no final de um verso inglês antigo, e então, no início, a m ola volta a ser tensionada.
Muito frequentem ente o com eço de um novo verso repete o final do anterior, ou produz algum a variação dele:
as books tell us // ancient authors from the sea landed // over the broad billows
Assim , toda a poesia em inglês antigo é rica em paralelism os e variantes verbais.
Mas é claro que na poesia em inglês antigo havia m uita coisa além dos m eros padrões sonoros. Havia vocabulário e dicção. Eram “poéticos”. Já nos m ais antigos exem plares sobreviventes de poem as ingleses escritos encontram os um rico vocabulário de palavras poéticas – e então, assim com o agora, elas eram em larga m edida arcaísmos, palavras e form as antigas que haviam saído do uso diário em alguns sentidos, ou com pletam ente, m as tinham sido preservadas pela tradição poética.
Kennings. Expressões poéticas “enigm áticas”, às vezes cham adas de kennings (palavra islandesa que significa “descrições”), são um a característica destacada da dicção dos versos em inglês antigo, especialm ente em poem as m ais elaborados, e constituem um a de suas principais arm as poéticas. Assim , o poeta poderia dizer bán-hús “casa dos ossos” querendo dizer “corpo”; m as tam bém pretendia que pensássem os (contudo, quase com a rapidez de um raio) num a casa em construção, com arm ação e vigas de m adeira, e entre elas o barro com pactado e m oldado ao estilo antigo, e depois enxergássem os o paralelism o disso com o esqueleto e a carne. Poderia dizer beado-léoma “cham a da batalha” querendo dizer “espada” – um a lâm ina reluzente sacada ao sol com súbito lam pej o; e sim ilarm ente merehengest “corcel do m ar” por “navio”; ganotes bæð “o lugar do banho do ganso-patola” por “m ar”. O poeta do inglês antigo gostava de im agens, porém as valorizava tanto m ais quanto m ais fossem súbitas, duras e com pactas. Não desenrolava analogias. Era preciso ficar atento e alerta para captar tudo o que ele via e queria dizer.
No poem a da Crônica da Batalha de Brunnanburh, o poeta fala de wlance wígsmiþas que derrotam os galeses – literalm ente “esplêndidos ferreiros da guerra”. Se quiserm os, poderem os dizer que “ferreiro da guerra” é “sim plesm ente um kenning em verso” para “guerreiro”: assim é na m era lógica e sintaxe. Mas essa expressão foi criada e usada para significar “guerreiro” e ao m esm o tem po proporcionar um a im agem sonora e um a im agem ocular da batalha. Nós a entendem os m al porque nenhum de nós viu ou ouviu um a batalha com arm as de aço ou ferro em punhadas por m ãos, e hoj e em dia há pouca gente que j á viu um ferreiro à m oda antiga m artelando o ferro num a bigorna. O estrépito dessa batalha podia ser ouvido a grande distância: era com o um grande núm ero de hom ens m artelando barras de m etal e golpeando barris com aros de ferro, ou – m uito parecido, para quem j á ouviu (e naquela época todos j á tinham ouvido), um ferreiro m oldando um arado ou forj ando elos de corrente; m as não um só ferreiro, e sim centenas, todos com petindo entre si. E tam bém , visto m ais de perto, o erguer e cair das espadas e dos m achados lem brava ferreiros balançando m artelos.
Não tenho m ais tem po para explicar os m étodos de versificação do inglês antigo. Mas vocês verão que têm algum interesse. E a tentativa de traduzi-los não é um m au exercício para treinar a plena apreciação das palavras – algo em que hoj e em dia quase todos são perigosam ente relaxados, apesar de na verdade ser im possível. Agora nossa linguagem tornou-se rápida (nas sílabas) e pode ser m uito flexível e ágil, m as quanto ao som é bem tênue e, quanto ao sentido, frequentem ente difusa e vaga. A linguagem de nossos antepassados, especialm ente em verso, era lenta, não m uito ágil, porém m uito sonora e intensam ente com pacta e concentrada – ou podia ser, em se tratando de um bom poeta.
Anexos a esta conferência há quatro trechos das obras “aliterantes” de m eu pai. O prim eiro é Winter Comes to Nargothrond [O Inverno Chega a Nargothrond] em sua terceira versão, quase exatam ente com o em The Lays of Beleriand [As Baladas de Beleriand] (1985), p. 129. O segundo é um trecho da Lay of the Children of Húrin [Balada dos Filhos de Húrin] aliterante, ibid., versos 1554-70, com m uitas diferenças m enores (um a versão bastante desenvolvida está publicada em The Lays of Beleriand, pp. 129-30).
Muito notavelm ente, o terceiro e o quarto extratos são retirados de The Fall of Arthur [A Queda de Artur]. O prim eiro deles, tal com o foi escrito à tinta, consiste em III.1-10 (No sul, passando [...]), divergindo apenas em detalhes da pontuação; m ais tarde m eu pai acrescentou a lápis os quatro versos seguintes, até Dark slowly fell [A treva se estende] (que m arcou com “D”), e escreveu à m argem do extrato Estilo Descritivo.
O segundo extrato de A Queda de Artur se estende de I.183 até 211 e concorda exatam ente com o texto dado neste livro, exceto pelo fato de o verso I.200 and tarnished shields of truant lieges [e escudos riscados de cábulas vassalos] ser om itido, e de haver um a leitura diferente no verso 207, upon mortal earth [sobre a terra m ortal] por under moon and sun [sob o am plo céu]. Um a característica notável deste texto é que ao lado de cada verso m eu pai escreveu as letras relevantes, referindo-se aos padrões de elem entos fortes e fracos (“altas” e
“baixas”) de cada hem istíquio (ver ACIMA ).
Arthur speaks:
B C Now for Lancelot I long sorely B B and we m iss now m ost the m ighty swords
C A of Ban’s kindred. Best m eseem eth E A swift word to send, service craving B C to their lord of old. To this leagued treason B A we m ust power oppose, proud returning B A with m atchless m ight Mordred to hum ble. A A Gawain answered grave and slowly : A C Best m eseem eth that Ban’s kindred
+A C abide in Benwick and this black treason
A B favour nor further. Yet I fear the worse: B C thou wilt find thy friends as foes m eet thee. B C If Lancelot hath loy al purpose
+A B let him prove repentance, his pride foregoing,
C C uncalled com ing when his king needeth.
+A A But fainer with fewer faithful-hearted
C B would I dare danger, than with doubtful swords B C our m uster swell. Why m ore need we? B B Though thou legions levy through the lands of Earth, A C fay or m ortal, from the Forest’s m argin
+A A to the Isle of Avalon, arm ies countless,
A A never and nowhere knights m ore puissant, A C nobler chivalry of renown fairer, A B m ightier m anhood upon m ortal earth B C shall be gathered again till graves open.
+A B Here free, unfaded, is the flower of tim e +A B that m en shall rem em ber through the m ist of y ears
B C as a golden sum m er in the grey winter.
Vej a-se que não há hem istíquios D, e apenas um E, neste extrato. O sím bolo +A é usado aqui para indicar um a baixa prefixada ou “anacruse” antes da prim eira alta em hem istíquios A. Nos versos 202 Though thou legions levy [Se j untares tropas] e 211 as a golden sum m er [qual verão dourado], am bos m arcados com B, as palavras levy e summer constituem “altas quebradas”, nas quais, em vez de um a sílaba longa acentuada, há um a breve acentuada seguida por um a átona.
Este extrato traz um a designação do estilo do trecho, que m al pode ser lida, m as poderia ser interpretada com o “Dram ático e retórico”.
*
a O ano da invasão normanda da Grã-Bretanha. (N. do T.)
b Meio verso. (N. do T.)
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J. R. R. Tolkien
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