A Queda de Artur

J. R. R. Tolkien · Capítulo 5 de 8

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A Queda de Artur

O poema na tradição arturiana

O POEMA

NA TRADIÇÃO ARTURIANA

O POEMA NA

TRADIÇÃO ARTURIANA

 

Mais de sete séculos haviam se passado desde que as legiões rom anas partiram da Grã-Bretanha quando, em m eados do século XII, provavelm ente por volta de 1136, surgiu um a obra intitulada Historia Regum Britanniae, de autoria de Geoffrey de Monm outh (que, aliás, tem um a aparição m om entânea na obra de m eu pai The Notion Club Papers, publicada em Sauron Defeated, pp. 192, 216). Dessa História dos Reis Britânicos foi dito (por Sir Edm und Cham bers, em 1927) que “nenhum a obra da im aginação, exceto a Eneida, fez m ais para dar form a à lenda de um povo”. O uso da palavra “im aginação” foi proposital. Diz-se que o livro de Geoffrey de Monm outh foi a fonte da tradição “histórica” (oposta à “rom anceada”) do Rei Artur, m as a palavra é m uito enganosa a não ser que se com preenda no sentido de que a obra de Geoffrey, em bora repleta de m aravilhas e extravagâncias em butidas em um a estrutura totalm ente não histórica, era em “m odo histórico” (crônica narrativa de eventos em latim , sobriam ente relatada), m as essa não era, de m aneira nenhum a, a sua substância: portanto, “pseudo-histórica” é o term o que se aplica a ela.

Nessa obra a história dos britânicos foi acom panhada durante m ais de m il e novecentos anos, e a vida do Rei Artur constitui apenas um quarto de sua extensão. “Um a das m ais descaradas e bem -sucedidas fraudes do m undo”, foi com o a cham ou o em inente estudioso R. S. Loom is (The Development of Arthurian Romance, 1963). Porém , na m esm a obra ele escreveu tam bém :

 

Quanto m ais estudam os a História dos reis da Grã-Bretanha e os

m étodos de sua com posição, m ais nos espanta a im pudência do autor, e m ais nos im pressiona a sua esperteza, a sua arte. Escrito em estilo polido m as não ornam entado, dem onstrando bastante harm onia com as autoridades eruditas e as tradições aceitas, livre das m ais ousadas extravagâncias dos conteurs, baseado evidentem ente num m anuscrito m uito antigo, não é de espantar que o magnum opus de Geoffrey tenha desarm ado o ceticism o e tenha sido bem recebido pelo m undo erudito.

 

Seu sucesso e sua am pla aceitação foram um fenôm eno literário da m ais extraordinária natureza. Não sei com o m eu pai avaliava a obra. Sem dúvida ele teria aceitado o j ulgam ento de seu am igo R. W. Cham bers, que escreveu tratar-se de “um dos livros m ais influentes j am ais escritos neste país”. É bem provável que concordasse com C. S. Lewis quando este condenou explicitam ente a parte arturiana da obra em um ensaio de publicação póstum a, The Genesis of a Medieval Book [A Gênese de um Livro Medieval] (Studies in Medieval and Renaissance Literature, 1966):

 

É claro que Geoffrey é im portante para os historiadores da Lenda

Arturiana; m as, visto que o interesse principal desses historiadores poucas vezes foi a literatura, nem sem pre eles se lem braram de nos contar que ele era um autor de talento m edíocre e m au gosto. Nas partes arturianas da obra, a porção do leão recai sobre o insuportável palavrório das profecias de Merlin e as conquistas de Artur no estrangeiro. Estas últim as, é claro, são a coisa m enos histórica e, ao m esm o tem po, m enos m itológica sobre Artur. Se existiu um Artur de verdade, ele não conquistou Rom a. Se a história tem raízes no paganism o celta, essa cam panha não é um a dessas raízes. É ficção. E que ficção! Podem os sustar nossa descrença diante de um gigante ou um a feiticeira ocasionais. Eles têm am igos em nosso subconsciente e em nossas m em órias m ais rem otas; a im aginação facilm ente consegue supor que o m undo real tenha um lugar para eles. Mas vastas operações m ilitares rabiscadas sobre todo o m apa da Europa e excluídas de toda a história que conhecem os são coisa diversa. Não conseguim os sustar nossa descrença. Nem querem os. Os anais da agressão sem sentido e m onotonam ente bem -sucedida são de leitura bastante enfadonha m esm o quando verdadeiros; quando são flagrante e estupidam ente falsos, ficam insuportáveis.

 

Mas desde as prim eiras linhas de A Queda de Artur vê-se que m eu pai estava se afastando radicalm ente da história da últim a cam panha estrangeira de Artur, conform e contada por Geoffrey de Monm outh e seus sucessores. Mostro aqui um relato m uito condensado de sua narrativa, sem nenhum a discussão das fontes literárias e tradicionais em que se baseou, visto que m eu obj etivo é prim ordialm ente o de observar com o A Queda de Artur se situa em relação à tradição heroica, de “crônicas”, iniciada por ele.

Na sua história, Artur, coroado rei da Grã-Bretanha aos quinze anos, após a m orte de seu pai, Uther Pendragon, iniciou im ediatam ente um a cam panha para subj ugar os odiados e odientos saxões, e após diversas batalhas a últim a se travou em Bath, em Som erset. Artur levava seu escudo Pridwen, que trazia pintada a im agem da Virgem Maria, sua espada Caliburn, que fora forj ada na ilha de Avalon, e na cabeça tinha um elm o dourado com um a cim eira esculpida em form a de dragão. Nessa batalha Artur penetrou nas fileiras saxãs e m atou de um só golpe todos os hom ens que atingiu com Caliburn, até que não m enos de quatrocentos e setenta saxões j azessem m ortos apenas por sua m ão.

Depois que os saxões fugiram para se esconder em florestas, cavernas e m ontanhas, Artur voltou-se para o aniquilam ento dos invasores pictos e escoceses; e, “quando restaurara toda a terra da Grã-Bretanha à sua antiga dignidade”, casou-se com Guinevere, “nascida de nobre fam ília rom ana”, a m ais bela de todas as m ulheres britânicas. No ano seguinte conquistou a Irlanda e a Islândia, e os reis da Gotlândia e das ilhas Orkney aceitaram seu dom ínio sem que fosse desferido nenhum golpe. Depois de m ais doze anos, a Noruega e a Dinam arca foram selvagem ente passadas a fogo e espada pelos britânicos, e subj ugadas ao reinado do Rei Artur; e todas as regiões da Gália lhe estavam suj eitas.

Do m odo com o Geoffrey de Monm outh o representou, era agora um m onarca m uito poderoso, invicto na batalha, um nom e de respeito por toda a Europa, com cavaleiros e casa que eram m odelo e padrão da cavalaria e da vida na corte; e na volta da Gália instalou na cidade de Caerleon-upon-Usk em Glam organ um a alta corte e um festival de extraordinária m agnificência, sem a ausência de nenhum m onarca de renom e das terras e ilhas do Ocidente. Mas antes que term inasse surgiram enviados de Rom a trazendo um a carta para Artur, do Im perador Lucius Hiberius. Nessa carta Lucius exigia que o próprio Artur fosse a Rom a para se subm eter a j ulgam ento e punição pelos m ales que com etera ao reter o tributo devido pela Grã-Bretanha, e pela tom ada das terras tributárias do Im pério; e, se ele não fosse, Rom a m over-se-ia contra ele.

Artur respondeu que iria, sim , a Rom a, m as com o fim de exigir dos rom anos a penalidade que dem andavam dele. Então Lucius m andou que os reis do Ocidente preparassem seus exércitos e o acom panhassem à conquista da Grã-Bretanha; e o núm ero de hom ens nessa poderosa força arm ada era de precisam ente quatrocentos m il e cento e sessenta. Contra eles o Rei Artur levantou grande hoste e pôs a defesa da Grã-Bretanha, em sua ausência, nas m ãos do sobrinho Mordred e da Rainha Guinevere.

Condensando ainda m ais a narrativa de Geoffrey de Monm outh, e deixando as palavras de C. S. Lewis servirem de sum ário, o fim da “Guerra Rom ana” foi um a grande vitória para os britânicos e a m orte do Im perador Lucius; e Artur j á estava nos Alpes a cam inho de Rom a quando teve notícia de que Mordred usurpara a coroa e vivia em adultério com Guinevere. Aqui Geoffrey de Monm outh se cala de repente: nada diria desse assunto, escreveu. Cum priu sua prom essa; e após o desem barque do Rei Artur em Richborough, na costa de Kent, passou rapidam ente por batalhas contra Mordred, em que Mordred e Gawain foram assassinados e Artur m ortalm ente ferido. De Guinevere nada disse exceto que fugiu desesperada para Caerleon e lá se tornou freira; e de Artur som ente que foi levado à Ilha de Avalon para lhe tratarem os ferim entos. De Sir Lancelot não há nenhum a m enção na Historia Regum Britanniae.

Essa foi a história da tradição de “crônica” ou da tradição “pseudo-histórica” do Rei Artur, derivada de Geoffrey de Monm outh: no Roman de Brut do poeta norm ando Wace, que surgiu por volta da m orte de Geoffrey (1155), e na

geração seguinte o longuíssim o poem a cham ado Bruta, com posto por volta do início do século XIII pelo inglês Laȝam on, sacerdote da paróquia de Ernley e (Arley Regis) à m argem do Severn em Worcestershire, seguindo Wace, porém independentem ente.

 

*

 

A Morte Arthure aliterante

Foi essa tam bém a história num a obra de certa im portância, com o verem os adiante, na narrativa de A Queda de Artur. Trata-se de um notável poem a da “renascença aliterante” do século XIV, com um ente cham ada de Morte Arthure aliterante. Em Sir Gawain and the Green Knight, Pearl and Sir Orfeo [Sir Gawain e o Cavaleiro Verde, Pérola e Sir Orfeo] citei as palavras de m eu pai a respeito da

 

antiga m étrica inglesa que descende da antiguidade, esse tipo de verso

que agora se cham a “aliterante”. Visava efeitos bem diferentes dos obtidos pelas m étricas rim adas, com contagem de sílabas, derivadas da França e da Itália; parecia severa, rígida e grosseira aos que não estavam acostum ados com ela. E, m uito distante do caráter (pelo ponto de vista londrino) dialetal da língua, essa poesia “aliterante” incluía em sua dicção diversas palavras poéticas especiais, j am ais usadas em fala ou prosa

com um , que eram “obscuras” aos que fossem exteriores à tradição.

Em poucas palavras, esse poeta [o autor de Sir Gawain and the Green

Knight] aderia ao que agora se conhece por Renascença Aliterante do século XIV, a tentativa de usar a antiga m étrica e o estilo nativos, que há m uito se haviam tornado rústicos para textos elevados e sérios; e pagou a pena por seu fracasso, pois a poesia aliterante acabou não renascendo. As m arés do tem po, do gosto, do idiom a, sem m encionar o poder político, o com ércio e a riqueza, eram contrárias a ela.

 

A Morte Arthure aliterante é um longo poem a de m ais de 4.000 versos, de data incerta, m as geralm ente atribuído ao final do século XIV, e conhecido apenas por

um m anuscrito feito por Robert Thornton, na biblioteca da Catedral de Lincolnb. As fontes do poeta desconhecido foram obj eto de m uita discussão, m as para nossos propósitos basta dizer que quanto à sua estrutura narrativa o poem a deriva da tradição da Historia Regum Britanniae. Com eça pelo grande banquete oferecido pelo Rei Artur ao qual com pareceram os enviados de “Sir Lucius Iberius, Im perador de Rom a”, e dedica-se em grande parte à descrição da guerra de Artur contra os rom anos e seus aliados. É de fato um poem a “heroico”, um a chanson de geste, um poem a de guerra (porém não exclusivam ente), de cam pos de batalha e em bates ferozes, dos horrores da espada vistos com nua clareza – cenas da Guerra dos Cem Anos. Um breve trecho pode servir de ilustração. Enquanto Geoffrey de Monm outh conta que Lucius foi m orto por um cavaleiro desconhecido, neste poem a ele m orre pelas m ãos de Artur, e a proeza do Rei é assim descrita:

 

Então o im perador golpeia Artur avidam ente, Com um golpe na viseira, e com avidez o atinge! A espada nua no nariz o fere gravem ente, O sangue do rei audaz escorre sobre o peito, Ensanguentados todo o largo escudo e as m alhas brilhantes! Nosso rei audaz vira o cavalo com a brilhante rédea, Com a forte espada desfere-lhe um golpe, Através da couraça e do peito com a brilhante arm a, Em viés, descendo pelo esterno, retalha de im ediato! Assim term ina o im perador pelas m ãos de Artur...

The emperour thane egerly at Arthure he strykez, Awkwarde on the umbrere, and egerly hym hittez! The nakyde swerd at the nese noyes hym sare, The blode of [the] bolde kynge over the breste rynnys, Beblede al the brode schelde and the bryghte mayles! Oure bolde kynge bowes the blonke by the bryghte brydylle, With his burlyche brande a buffette hym reches, Thourghe the brene and the breste with his bryghte wapyne, O-slante doune fro the slote he slyttes at ones! Thus endys the emperour of Arthure hondes ...

 

Após a m orte do Im perador na últim a grande batalha da guerra contra os rom anos, a Morte Arthure aliterante se estende por m uitas centenas de versos em relatos de outras cam panhas de agressão lideradas por Artur, não encontrados em Geoffrey de Monm outh, até encontrarm os o Rei ao norte de Rom a, no vale de Viterbo “entre as vinhas”, e “j am ais houve hom ens m ais alegres nesta terra”.

Nesse lugar m uito agradável, enviados de Rom a foram ter com Artur para im plorar paz, entre eles o “m ais nobre cardeal que à corte pertencia”, trazendo um a proposta de que o Papa o coroaria em Rom a com o soberano e senhor. Então o Rei Artur está glorificado no esplendor do sucesso. E, dizendo agora Rom a lhes pertence e que lá será coroado no Natal, m eteu-se na cam a, exausto por falta de sono.

 

Porém após a m eia-noite m udou todo o seu hum or; Nas horas da m anhã teve sonhos m uito estranhos! E quando esse sonho terrível estava term inando O rei j az im óvel de m edo, com o se fosse m orrer; Manda buscar filósofos e conta do seu pavor.

 

But be ane aftyre mydnyghte alle his mode changede; He mett in the morne-while fulle mervaylous dremes! And when his dredefulle drem was drefene to the ende, The kynge dares for dowte, dye as he scholde;

Sendes aftyre phylosophers, and his affraye telles.

 

Eu disse que a Morte Arthure aliterante é um poem a heroico que celebra Artur, acim a de tudo um poem a de batalhas; m as, quando ele j á vai bem adiantado, torna-se patente que foi com o sonho de Artur entre os vinhedos do vale de Viterbo que se com pletou o desígnio m aior do autor. Esse sonho, conform e o descreveu a seus “filósofos” ao acordar apavorado, era um a visão elaborada e ornam entada da Roda da Fortuna, onde estão assentados oito dos “Nove Ilustres” ou “Nove Heróis”, os grandes m onarcas e conquistadores da história: sobre isso faço aqui um relato m uito abreviado.

Sonhou que estava sozinho, perdido num a floresta cheia de lobos e j avalis selvagens, e de leões que lam biam o sangue de seus fiéis cavaleiros; fugindo, porém , encontrou-se num prado das m ontanhas, “o m ais alegre da terra-m édia que os hom ens possam contem plar”, e viu descendo das nuvens um a deusa com vestes m agníficas, a corporificação da Fortuna, trazendo nas m ãos um a roda de ouro e prata que ela girava nas m ãos brancas. Artur viu que no topo da Roda da Fortuna havia “um a cadeira de prata branca com o giz”, de onde haviam caído seis reis que agora se agarravam ao círculo externo da roda, com as coroas quebradas, cada um por sua vez lam entando ter caído de tais alturas de grandeza e poder; e dois reis escalavam para reivindicar o assento elevado no cum e da roda. Então a senhora Fortuna ergueu Artur até esse assento, dizendo-lhe que por m eio dela ele ganhara todas as suas honrarias de guerra, que o escolhera para se sentar na alta cadeira, e tratando-o com o “soberano na terra”. Mas de repente, “ao m eio-dia”, m udou seu com portam ento com relação a ele e disse: “Viveste o bastante em delícia e dom ínio”, e “em torno de ti gira a roda, e m e gira para baixo”, de form a que todo o seu corpo foi esm agado; e ele despertou.

O filósofo que interpretou seu sonho disse-lhe com palavras ásperas que estava no ponto m áxim o da sorte e agora deveria cair.

 

Derram aste m uito sangue, e destruíste hom ens, Sem culpa, por arrogância, nas terras de m uitos reis; Confessa tua vergonha, e prepara-te para o fim ! Tiveste um a visão, senhor rei, cuida-te se quiseres, Pois cairás violentam ente daqui a cinco invernos!

 

Thow has schedde myche blode, and schalkes distroyede,

Sakeles, in cirquytrie, in sere kynges landis; Schryfe the of thy schame, and schape for thyne ende! Thow has a schewynge, sir kynge, take kepe yif the lyke, For thow sall fersely falle within five wynters!

 

E, tendo explicado em detalhes o significado do que vira em sonho o Rei Artur, o sábio declarou que os anim ais selvagens da floresta eram hom ens m alvados que entraram em suas terras para atorm entar seu povo, e alertou-o de que em dez dias ouviria notícias de que um m al ocorrera na Grã-Bretanha depois da sua partida. Exortou o rei a se arrepender dos feitos inj ustos, a “em endar seu hum or” (ou sej a, a m udar seu intento) e a hum ildem ente suplicar m isericórdia antes que o infortúnio o acom etesse.

Então Artur se ergueu e, depois de se vestir (sete versos são dedicados a um a descrição detalhada de seus traj es m agníficos), partiu para cam inhar a sós; e ao nascer do sol encontrou um hom em traj ado com roupas hum ildes (às quais se dedica o m esm o núm ero de versos) que o identificavam com o peregrino a cam inho de Rom a. Dirigindo-se a ele, Artur soube que era Sir Cradoc, conhecido por ele com o “cavaleiro de sua câm ara, guardião de Caerleon”. Na história de Geoffrey de Monm outh não está dito com o Artur ficou sabendo da traição de Mordred, m as no poem a esse era o propósito expresso da viagem de Sir Cradoc (e foi Sir Cradoc quem trouxe a notícia em A Queda de Artur, I.145). Contou que Mordred se coroara Rei da Grã-Bretanha, tom ara castelos, preparara um a grande frota ao largo de Southam pton, trouxera dinam arqueses e saxões, pictos e sarracenos para governarem o reino, e, pior de todos os seus feitos, casara-se com Guinevere e gerara um filho.

A partir desse ponto a narrativa de Morte Arthure aliterante prossegue por cerca de oitocentos versos. Voltarei a este ponto e à sua relação com A Queda de

Artur (ver ABAIXO ss.).

 

*

 

É um a característica notável da história arturiana inglesa que o quinto livro de Sir Thom as Malory (na num eração de Caxton), The Tale of the Noble King Arthur that was Emperor Himself [O Conto do Nobre Rei Artur Que Foi Ele Próprio Im perador], baseou-se m uito de perto na Morte Arthure aliterante (e em nenhum a outra fonte): ele tinha o m anuscrito à sua frente ao redigir sua j udiciosa versão em prosa (porém , tinha acesso a um m anuscrito m ais autêntico nos detalhes do que o de Lincoln escrito por Robert Thornton).

O professor Eugène Vinaver, em sua grande edição (The Works of Sir Thomas Malory [As Obras de Sir Thom as Malory ], três volum es, 1947), dem onstrou que esse conto foi de fato o prim eiro escrito por Malory e argum entou que, “ao contrário da opinião geralm ente aceita, ele se fam iliarizou de início com a lenda arturiana a partir não de ‘livros franceses’, m as de um poem a inglês, a Morte Arthure aliterante” (Vinaver, I, xli).

Com bem m ais de m il versos da Morte Arthure aliterante ainda pela frente, Malory a abandonou abruptam ente, no ponto em que Artur, acam pado perto de Viterbo, recebeu os enviados rom anos que chegaram em busca da paz, com a oferta de coroação pelo Papa. A partir daí, Malory chegou rapidam ente ao fim de seu conto. Artur foi devidam ente coroado Im perador e logo depois retornou à Grã-Bretanha. Aportou em Sandwich, na costa de Kent, e “quando a rainha Gueny vere ouviu falar de sua chegada encontrou-o em Londres”. No com eço do conto Malory om itiu todas as referências ao fato de Artur ter nom eado seu sobrinho Mordred com o regente durante sua ausência; e agora, no final, deixou de lado toda a história da traição de Mordred, do adultério de Guinevere e da queda de Artur. E com isso, é claro, foi-se o sonho da Roda da Fortuna. Ao escrever esse conto, Malory não estava interessado em representar a história do Rei Artur com o tragédia de um herói presunçoso.

Verem os que no prim eiro canto de A Queda de Artur m eu pai preservava a ideia narrativa essencial da tradição de “crônica” ou tradição “pseudo-histórica”, a grande expedição do Rei Artur rum o ao leste, por m ar. Mas seu poem a entra im ediatam ente in medias res, sem nenhum a am bientação introdutória ou m otivo im ediato:

 

Artur partiu ao oriental com bate e trava batalha em terras selvagens,

 

pois

 

A sina tecida m aliciosa o im pele.

 

Está ausente o grande banquete realizado em Caerleon para festej ar as vitórias de Artur, rem ontando a Geoffrey de Monm outh, e j unto com ele a chegada dos enviados rom anos com a carta am eaçadora do Im perador, que forneceu o m otivo para a últim a cam panha do Rei dos Britânicos. Em A Queda de Artur não há vestígio desse conceito. Longe de ser o apogeu das realizações de sua vida com o o conquistador que derrotou os exércitos rom anos e fez com que os em issários rom anos im plorassem pela paz, “do reino de Rom a a derrota quer evitar” (I.4).

As m etas e a extensão da cam panha são de fato um tanto obscuras. De início fica claro que a intenção de Artur era atacar os piratas saxões em seus próprios covis, e parece razoável, portanto, supor que “o reino de Rom a” que ele defenderia contra eles seria certam ente o reino da Grã-Bretanha rom ana; porém , parece-m e que um horizonte m ais am plo é sugerido pela referência à Floresta das Trevas (I.68, 132). Não sei dizer se m eu pai pretendia um significado m ais preciso ao usar esse nom e, antigo e lendário, para denotar um a escura floresta lim ítrofe que separava povos, m as j á que a hoste de Artur m archou “das fozes do Reno / por reinos infindos” (I.43) e se m ovim entou “avante, ao levante” (I.62), e j á que a Floresta das Trevas “em desabitados outeiros altíssim a está / vasta, invicta” (I.70-1), parece que estavam então bem a leste das regiões de assentam ento dos saxões; e isso é solidam ente confirm ado pelas palavras de Sir Cradoc (I.153-4): “Em penhas-te em prélios com povos bravios / no leste desolado...”

Tam bém é notável que nos cem versos do prim eiro Canto do poem a, desde o com eço da expedição de Artur, no verso 39, até a chegada de Sir Cradoc com m ás novas, existe (exceto por “Adversários à frente, as flam as os seguem ”, I.61) apenas um a referência à destruição de m oradas pagãs pela hoste invasora (I.41-3):

 

Castelos e tem plos de gentios reis sua potência ataca, com vitória m archando das fozes do Reno por reinos infindos.

 

Meu pai parece disposto, isso sim , a expressar um m undo hibernal e hostil de tem pestades e gelo, onde “clam am os corvos nas encostas de rocha”, desabitado exceto por “inim igos fantasm áticos com desum anas vozes” e lobos uivando, um m undo am eaçador em que (I.134-6)

 

Agarra-os o pavor,

m iram e m edem esse m undo de som bras insólito, desconhecido, e silenciam .

Adem ais, essa sensação de vasto perigo im inente acom panha as afirm ativas do poeta de que o propósito declarado de Artur é assunto da m ais grave consequência, um a grande j ogada heroica contra o destino:

 

Pra voltar atrás do tem po a m aré a esperança o carrega, os hereges derrotar (I.5-6)

 

– com eco nos versos I.176-9, após receber a notícia da traição de Mordred:

 

Do alto do ânim o foi íngrem e a queda, predizendo no coração o desastre de sua casa, o m undo costum eiro desm onta-se e acaba, voltou-se contrária do tem po a m aré.

 

Assim , tam bém , Gawain conduzindo a hoste “qual investida derradeira de cidade cercada” é

 

socorro e alcácer na queda do m undo. (I.55)

 

E m ais tarde (II.147-9) Mordred sabe que

 

O tem po j á m uda;

regredindo o ocidente, com poder vem um vento do leste que se nobilita. Desfalece o m undo.

 

Certam ente é a queda de Rom a e da cristandade rom ana que eles veem se aproxim ando na “m aré do tem po”.

Mas, sej a qual for a interpretação que se dê a esses aspectos de A Queda de Artur, fica claro que a grande expedição de Artur ao Continente, m esm o sendo tão sem raiz histórica quanto o ataque ao poder rom ano em Geoffrey de Monm outh e seus sucessores, está m ais intim am ente situada nas circunstâncias históricas das quais surgiu a lenda arturiana: a luta dos britânicos no século V contra os invasores germ ânicos. Em A Queda de Artur a m arca do inim igo é ser pagão. Esse é o destino do capitão de m ar frísio que levou a Mordred a notícia do retorno de Artur à Grã-Bretanha (II.89-93):

 

Radbod, o Rubro, pirata destem ido, fiel ao ódio, de ânim o pagão, m orreu, foi seu rum o. A aurora é escura. Ao m ar o rem etem , sem tem er por seu espírito que anda pelas águas, um a alm a sem lar.

 

Ele se foi à “trilha do inferno” (II.67). Assim , os bárbaros pagãos são despachados à perdição inevitável na m étrica que os bárbaros trouxeram às terras conquistadas. Selvagens os ventos dos rivais na Bretanha!, diz Sir Cradoc quando está contando a Artur (I.160) sobre os navios-dragão pagãos que acom etem as costas sem vigilância; e cinco séculos m ais tarde Torhthelm , em The Homecoming of Beorhtnoth, repete suas palavras referentes aos norm andos:

 

Assim tom bou o últim o da linhagem de condes, há longo tem po descendentes de senhores saxões, que navegaram os m ares, com o nos contam as canções, desde Angel no leste, com espadas ávidas golpeando os galeses na bigorna da guerra. Aqui ganharam reinos e reinados reais, E nos dias de antanho conquistaram esta ilha. E agora do Norte retorna a necessidade: selvagem o vento da guerra na Bretanha!

 

So the last is fallen of the line of earls, from Saxon lords long-descended, who sailed the seas, as songs tell us, from Angel in the east, with eager swords upon war’s anvil the Welsh smiting. Realms here they won and royal kingdoms, and in olden days this isle conquered. And now from the North need comes again:

wild blows the wind of war to Britain!

 

Um traço característico do prim eiro Canto de A Queda de Artur diz respeito a Mordred, que bem no início da narrativa é retratado com o alguém que em seu “m al” apoia o Rei Artur na resolução de levar a guerra até as terras dos povos bárbaros, pois por trás de suas palavras havia um a intenção oculta (I.27-9):

 

E a Bretanha ditosa, o teu am plo reino, eu a levo ilesa, té que logo retornes. Fiel tu m e achas.

 

Ao passo que Geoffrey de Monm outh não dedicou m ais de um a única sentença ao assunto (“Entregou a tarefa de defender a Grã-Bretanha a seu sobrinho Mordred e à sua Rainha Guinevere”), na Morte Arthure aliterante o rei é notavelm ente prolixo ao expor o ônus – e Mordred pede (sem êxito) para ser liberado dele e ter perm issão de acom panhar Artur à guerra. Não há indício do que está por vir. Em A Queda de Artur está dito que Sir Gawain não tinha suspeita de “engano nem engodo” no “ousado conselho” de Mordred, pois (I.36-8)

 

anseia por guerra,

pois no ócio seu olho inda vê o m al que a Távola Redonda outrora rom peu.

 

Com essas palavras m eu pai introduziu na narrativa um elem ento que a distancia totalm ente das obras da tradição de “crônica”. Alguns versos depois (I.44-5) está dito que Lancelot e outros cavaleiros não estavam com Artur em sua cam panha, e adiante, no m esm o prim eiro Canto, após ter ouvido da boca de Sir Cradoc a notícia da traição de Mordred, o Rei Artur consulta Sir Gawain (I.180 ss.) e lhe diz da grande falta que sente de Sir Lancelot e “das fortes espadas da fam ília de Ban”, e que acredita ser m ais sábio m andar um a m ensagem à gente de Lancelot, pedindo seu auxílio. Sir Gawain discorda severam ente.

Nada disso é com preensível da form a com o foi escrito, e é bem provável que m eu pai supusesse algum a fam iliaridade, por parte do leitor, com a história de Lancelot e Guinevere. As causas do estranham ento entre Artur e Lancelot aparecem , de fato, no terceiro Canto do poem a, porém de m odo m uito oblíquo.

Estaria m uito fora da m inha intenção iniciar aqui um relato das “linhagens” ou “correntes” da lenda arturiana m edieval, por um lado a tradição “pseudo-histórica” ou de “crônica”, e por outro a vasta evolução “rom ântica” da “Matéria da Bretanha” na prosa e poesia francesas. Estou preocupado apenas em indicar as características do tratam ento dado por m eu pai à lenda de Lancelot e Guinevere.

Já observei que na Historia Regum Britanniae de Geoffrey de Monm outh não há m enção algum a a Sir Lancelot. Na Morte Arthure aliterante ele aparece diversas vezes, m as em quase todos os casos é m encionado apenas com o um dos

principais cavaleiros da Távola Redondac. Sobre sua aparição em Tale of the

Noble King Arthur that was Emperor Himself de Malory (ver O POEMA NA

TRADIÇÃO ARTURIANA acim a), o prof. Vinaver observou:

 

O relato de Malory dá a im pressão de que Lancelot nada m ais é que

um guerreiro, e de que todas as suas grandes qualidades da m ente e do coração devem ser postas para sem pre a serviço de seu rei. Nenhum leitor [do Conto de Malory ] deduziria daí que Lancelot foi desde o início um herói da corte, que fez suas prim eiras aparições no rom ance m edieval com o defensor da courtoisie, e que foi com o protagonista do Conte de la

Charette d de Chrétien de Troy es que conquistou sua fama mundial.

Por ter sido conhecido apenas com o cavaleiro cortês, Lancelot foi

m uito pouco atraente para os prim eiros autores ingleses: nele encontraram pouca coisa que apoiasse e ilustrasse seu tratam ento épico do rom ance arturiano. O autor da Morte Arthure [aliterante], sem dúvida por esse m esm o m otivo, relegara Lancelot a relativa insignificância. A atitude de Malory foi de início m ais ou m enos a m esm a: sua m ente, com o a de seus antecessores ingleses, ocupava-se com problem as do heroísm o hum ano, não com os sutis tem as do com portam ento cortês. E, visando restaurar a fam a de Lancelot, ele o transform ou em um genuíno herói épico, m ais sem elhante ao Gawain da Morte Arthure do que ao “cavaleiro da carroça” de Chrétien. Não sabem os a quanto da tradição francesa ele tinha acesso direto quando escreveu seu Tale of Arthur and Lucius [Conto de Artur e Lucius]. É certo que naquela época era prim ordialm ente um escrito épico, relutante e talvez até m esm o incapaz de seguir a cavalaria errante rom antizada e com preender seu fascínio. A grande aventura dos livros franceses ainda não com eçara.

De Lancelot em A Queda de Artur, apresentado de m odo tão alusivo, pode-se dizer de im ediato que ele não é um vulto fantástico oriundo da “cavalaria errante rom antizada”; e a fonte da história que apresentava não é duvidosa. No rom ance em prosa francês intitulado Mort Artu, o tem a do am or adúltero de Sir Lancelot e da Rainha Guinevere foi com binado com o da traição de Mordred e da queda do Rei Artur. A Mort Artu foi a fonte de um poem a inglês do século XIV cham ado Le Morte Arthur, com um ente referido com o a Morte Arthur em estrofes (para distingui-la da Morte Arthure aliterante), um longo poem a de quase 4.000 versos com posto em estrofes de oito versos. Sir Thom as Malory fez uso tanto da Mort Artu quanto do poem a inglês, consultando-os e com parando-os m inuciosam ente para obter a estrutura narrativa na qual baseou seu últim o livro, The Morte Arthur

[A Morte Arthur] propriam ente ditae.

 

*

 

A Morte Arthur em estrofes e o Conto da Morte de Artur de Malory

Recontarei aqui brevem ente a narrativa de Malory, m as antes citarei algum as estrofes do poem a inglês, desde o início da tragédia final, para dar um a ideia de seu m odo e form a.

 

Chegou um tem po, a bem dizer,

Em que os cavaleiros foram ao aposento e disseram , Tanto Gaheriet quanto Sir Gawain,

E Mordreite, que pouco sabia de desgraça;

“Ai”, disse então Sir Agraway ne,

“Com o havem os de nos tornar hom ens falsos, E por quanto tem po havem os de esconder e dissim ular A traição de Launcelote du Lake!

 

Bem sabem os, sem dúvida,

Que o rei Artur é nosso tio,

E Launcelote se deita com a rainha;

Ele é traidor contra o rei,

E isso toda a corte j unta sabe,

E o ouvem e veem todos os dias:

Devem os contá-lo ao rei,

Se ele quiser seguir o m eu conselho.”

 

“Bem sabem os”, disse sir Gaway ne,

“Que som os parentes do rei,

E Launcelot é de tão pouca força

Que tais palavras m elhor não seriam ditas;

Bem sabes tu, irm ão Agraway ne,

Que isso só nos haveria de trazer dano;

Mas seria m elhor esconder e dissim ular

Que assim com eçar guerra e desgraça.”

 

A tyme befelle, sothe to sayne,

The knyghtis stode in chambyr and spake,

Both Gaheriet, and syr Gawayne,

And Mordreite, that mykelle couthe of wrake;

‘Allas,’ than sayde syr Agrawayne,

‘How fals men schalle we us make,

And how longe shalle we hele and layne

The treson of Launcelote du Lake!

 

Wele we wote, wythouten wene,

The kynge Arthur oure eme sholde be,

And Launcelote lyes by the quene;

Ageyne the kynge trator is he,

And that wote alle the curte bydene,

And iche day it here and see:

To the kynge we shulde it mene,

Yif ye wille do by the counselle of me.’

 

‘Wele wote we,’ sayd sir Gawayne,

‘That we are of the kyngis kynne,

And Launcelot is so mykylle of mayne,

That suche wordys were better blynne;

Welle wote thou, brothyr Agrawayne,

Thereof shulde we bot harmys wynne;

Yit were it better to hele and layne,

Than werre and wrake thus to begynne.

 

A prim eira cena, assunto destas estrofes, é assim apresentada por Malory :

 

ocorreu no m ês de m aio fúria grande e desastrosa, que não se acalm ou até estar destruída e m orta a flor da cavalaria do m undo. E foi tudo devido a dois perniciosos cavaleiros que se cham avam sir Aggravay ne e sir Mordred, irm ãos de sir Gaway ne. Por isso sir Aggravay ne e sir Mordred sem pre tiveram ódio particular da rainha, a senhora Gweny ver, e de sir Launcelot; e dia e noite sem pre vigiavam sir Launcelot.

 

Ocorreu que Gawain e seus irm ãos, Agravain, Gareth e Gaheris (filhos de Morgause, irm ã de Artur, e do rei Lot de Lothian), e tam bém Mordred (que na tradição seguida por Malory era filho de Artur e Morgause por incesto

involuntáriof) encontraram -se no aposento do Rei Artur. Agravain declarou que era sabido por todos “que sir Launcelot se deita dia e noite com a rainha”, e que pretendia inform ar o rei sobre Lancelot. A isso Gawain, devotado a Lancelot, m ais ilustre dos cavaleiros da Távola Redonda, opôs-se veem entem ente, prevendo a probabilidade de contenda desastrosa, e assim tam bém pensavam seus irm ãos Gareth e Gaheris; e, depois de palavras contundentes, saíram do aposento quando entrava o Rei Artur, exigindo saber o que estava acontecendo. E, quando Agravain lhe contou, ele ficou m uito perturbado, pois apesar de suspeitar da verdade não desej ava levar o caso adiante contra um hom em da estatura de Lancelot. Disse, portanto, que nada faria sem a prova que só seria obtida se Lancelot fosse apanhado em flagrante.

Com esse fim Agravain propôs arm ar um a cilada. No dia seguinte o rei deveria sair a cavalo num a caçada e m andar à rainha um a m ensagem dizendo que não retornaria naquela noite. Então Agravain, Mordred e m ais doze cavaleiros iriam ao aposento dela e trariam Lancelot para fora, vivo ou m orto. Mas isso não aconteceu. Quando Lancelot estava com a rainha, os quatorze cavaleiros chegaram à porta, e com palavras iradas Agravain e Mordred o cham aram para fora, dizendo-o traidor; m as Lancelot estava totalm ente desarm ado e sem arm adura, e tanto ele quanto a rainha m uito se afligiram . Então Lancelot destrancou a porta do aposento e só a abriu a ponto de um hom em poder passar; e, quando Sir Colgrevance entrou e o atacou com a espada, Lancelot o abateu de um só golpe. Então vestiu a arm adura do m orto e, saindo entre os dem ais cavaleiros, sem ferir a si m esm o m atou todos eles, incluindo dois filhos de Gawain e seu irm ão Agravain, com exceção de Mordred, que foi ferido e fugiu.

 

Quando o rei ficou sabendo de tudo isso pela boca de Mordred, supôs que a com panhia da Távola Redonda estivesse rom pida para sem pre, pois m uitos cavaleiros se colocariam ao lado de Lancelot; m as Guinevere teria de “sofrer a lei”, e m andou levar a rainha até a fogueira e queim á-la. Gawain insistiu ardorosam ente com Artur para que fosse m enos precipitado em seu j ulgam ento, alegando que Lancelot poderia ter ido até a rainha em total inocência, m as o rei foi inflexível. Disse que, se pusesse as m ãos em Lancelot, este teria m orte igualm ente vergonhosa, e indagou por que isso haveria de perturbar Sir Gawain, visto que m atara seu irm ão e seus filhos. Sir Gawain retrucou que os prevenira do risco que corriam , e que haviam causado sua própria m orte. Mas o rei não se com oveu e m andou que Gawain e os irm ãos Gareth e Gaheris envergassem as arm aduras e trouxessem a rainha até a fogueira. Gawain recusou a ordem do Rei Artur. Então que Sir Gareth e Sir Gaheris estej am presentes, disse o rei. Os dois não foram capazes de recusar, m as disseram que iriam à execução m uito a contragosto e que não usariam arm adura. Então Gawain chorou am argam ente e disse: “Ai de m im , que tenho de suportar ver este dia desgraçado!”

Ora, Lancelot e grande núm ero de cavaleiros arm ados, que o apoiavam em sua intenção de salvar a rainha caso fosse condenada, esperavam num bosque a pequena distância, e, quando lhes contaram que a rainha estava prestes a m orrer, correram até o local da execução, e travou-se feroz batalha. Lancelot, golpeando à direita e à esquerda todos os que se opunham a ele, abateu dois hom ens “desarm ados e desprevenidos”, e “não os viu”; m as eram Gareth e Gaheris, irm ãos de Gawain, o qual era extraordinariam ente devotado a Gareth, assim com o Gareth a Lancelot.

Lancelot foi ter com Guinevere, onde ela estava, e erguendo-a sobre a m ontaria cavalgou com ela até o castelo da Jubilosa Guarda, e lá ficaram . O Rei Artur m ergulhou em extrem a tristeza diante desses fatos. Ordenou que ninguém contasse a Gawain:

 

“pois estou certo”, disse o rei, “de que quando ouvir dizer que sir Gareth está m orto ficará quase louco”. “Mercê de Jesus”, disse o rei, “por que ele m atou sir Gahery s e sir Gareth? Pois ouso dizer, quanto a sir Gareth, que am ava sir Launcelot dentre todos os hom ens da terra.”

 

A m orte de seus irm ãos, disse o rei, causará a guerra m ais m ortífera que j á houve. Pois é claro que Gawain logo ficou sabendo do ocorrido; e em pouco tem po transform ou-se de am igo devotado de Lancelot em seu inim igo im placável. Nas palavras da Morte Arthu em estrofes, exclam ou:

 

Entre m im e Launcelote du Lake

Não há hom em na terra, a bem dizer,

Que im ponha trégua e faça paz

Antes que um de nós tenha m atado o outro.

 

Betwixte me and Launcelote du Lake

Nys man in erthe, for sothe to sayne,

Shall trewes sette and pees make

Er outher of vs haue other slayne.

 

Ou, com o disse ao rei no conto de Malory, “Pois prom eto diante de Deus, pela m orte de m eu irm ão Sir Gareth, buscarei Sir Launcelot através dos reinos de sete reis, m as ou o m atarei, ou ele m e m atará”.

Ao que retrucou o Rei Artur: “Senhor, não tereis de buscá-lo tão longe, pois, com o digo, sir Launcelot aguardará a m im e a todos nós dentro do castelo da Jubilosa Guarda.”

Então o rei, com Sir Gawain à testa de grande hoste, sitiou a Jubilosa Guarda. Muito tem po se passou até Sir Lancelot sair do castelo com seus cavaleiros, m as por fim surgiu no alto das m uralhas e falou com Artur e Gawain lá em baixo, respondendo aos seus ataques verbais com palavras de conciliação, buscando evitar conflito de arm as com eles, e m uito especialm ente com o rei. Falou dos inúm eros perigos de que os salvara, afirm ou ter m atado Sir Gareth e Sir Gaheris com pletam ente sem querer, asseverou a inocência de Guinevere e afirm ou que estava sendo j usto ao resgatá-la de ser queim ada. Mas tudo isso foi inútil, e grande batalha se travou na Jubilosa Guarda. Lancelot levou a tal ponto a recusa de responder às tentativas que Artur fazia de golpeá-lo, Artur que estava “sem pre perto de sir Launcelot para abatê-lo”, que o ergueu quando fora desm ontado por Sir Bors de Ganis e o pôs de volta no cavalo.

Após dois dias de luta feroz, em que Gawain foi ferido, as hostes se separaram , estando a de Sir Lancelot em situação superior; e nessa hora chegou ao Rei Artur um enviado de Rom a trazendo um edito do Papa, determ inando que recebesse a rainha de volta e fizesse um acordo com Sir Lancelot sob pena de interdição de toda a Inglaterra.

Lancelot fez o que pôde para viabilizar a exigência papal. Levou Guinevere de volta para o rei; m as contra o ódio frio e im placável de Gawain nada podia fazer. O fim foi o banim ento, e ele partiu da corte com am argura, dizendo, no relato de Malory :

 

Mais nobre dos reinos cristãos, que am ei acim a de todos os outros reinos! E em ti obtive grande parte de m inha honra, e agora, que devo partir destarte, verdadeiram ente m e arrependo de ter vindo a este reino, para assim ser banido vergonhosa e im erecidam ente, e sem causa! Mas a sorte é tão variável, e a roda tão m utável, que não há perm anência constante.

 

Mas Gawain disse:

 

Bem sabes que logo haverem os de te perseguir, e rom per sobre tua cabeça o m ais forte castelo que tiveres!

 

Na Morte Arthur em estrofes Lancelot pede para ficar livre de perseguição em suas próprias terras de França, m as:

 

Sir Gaway ne então disse: “não,

Por aquele que fez o sol e a lua,

Esconde-te o m elhor que puderes,

Pois m uito em breve virem os atrás de ti.”

 

Syr Gawayne than sayd, ‘naye,

By hym that made sonne and mone,

Dight the as welle as euyr thou may,

For we shalle after come fulle sone.’

 

Então Lancelot despediu-se de Guinevere e a beij ou, dizendo “m uito abertam ente”:

 

“Que alguém deste lugar ouse agora dizer que a rainha não é fiel a m eu

senhor Artur, quem quiser que fale se ousar falar.” E com isso levou a rainha ao rei. Então sir Launcelot se despediu e partiu [...]

E assim tom ou o cam inho da Jubilosa Guarda, e a partir de então a

cham ou de “Dolorosa Guarda”. E sir Launcelot partiu da corte para sem pre.

 

Então reuniu m uitos cavaleiros à sua volta e em barcaram rum o à França.

Sir Lancelot era filho do Rei Ban, que governava na França um a cidade e um reino cham ados, tanto na Morte Arthur em estrofes com o em Malory, de Benwick; na Mort Artu é Benoic. Alguns dos Cavaleiros da Távola Redonda eram parentes próxim os de Lancelot, entre eles Sir Ector de Maris (seu irm ão), Sir Lionel, Sir Bors de Ganis e Sir Blam ore de Ganis (esses cavaleiros são citados por nom e em A Queda de Artur, I.44-5, e de novo em III.131-2). Assim , o destino desses exilados foi Benwick; m as que eu saiba não se descobriu onde se acreditava que fosse esse lugar. Malory diz nesse ponto de seu relato que “navegaram para Benwy ke: alguns o cham am de Bay an e alguns o cham am de Beawm e, onde há o vinho de Beawm e”. Mas não se encontra essa identificação em nenhum outro lugar; e, visto que Benwick é claram ente um porto, não pode ser Beaune, que fica a m uitas centenas de m ilhas do Atlântico; e, se Bayan for Bay onne, esse local fica m uito ao sul.

Mas, onde quer que se localizasse Benwick, não dem orou para que o Rei Artur e Sir Gawain, espírito líder da dem anda, levassem a cabo a am eaça. O rei “fez Sir Mordred senhor principal de toda a Inglaterra, e tam bém pôs a rainha sob seu governo”, e com grande hoste atravessaram o m ar e com eçaram a queim ar e devastar as terras de Sir Lancelot. Ainda pretendendo a paz, apesar da opinião entre seus cavaleiros de que “vossa cortesia nos arruinará a todos”, Lancelot m andou m ensagem ao Rei Artur, m as novam ente recebeu a resposta de que o rei “faria acordo com Sir Launcelot, m as Sir Gaway ne não o perm ite”. Então, diante do portão da cidade sitiada de Benwick, Gawain surgiu e bradou um desafio aos defensores. Sir Bors e depois Sir Lionel avançaram cavalgando sobre ele, m as am bos foram gravem ente derrotados e feridos, e assim continuou, até que por fim , relutante, Lancelot aceitou o desafio.

Em todos os relatos dessa guerra, atribui-se a Sir Gawain um a “graça” bastante singular, um a faculdade pela qual sua força aum entava m uito por volta do m eio-dia e depois declinava. Quando Lancelot percebeu que era assim , esquivou-se para lá e para cá, evitando os ataques de Gawain por m uito tem po, até que a força m ilagrosa dele com eçasse a fraquej ar, e nesse ponto Lancelot lançou-se contra ele e lhe infligiu um grande ferim ento. (Aliás, a Mort Artu conta que, durante o tem po da recuperação de Gawain, Artur abandonou o cerco a Benwick e conduziu a cam panha rom ana em que foi m orto o Im perador Lucius; Malory, é claro, ignorou esse episódio, pois j á relatara a história em seu conto de

Artur e do Im perador Lucius, NOTAS SOBRE O TEXTO.) Mas, quando Gawain recuperou a capacidade de lutar, tudo se repetiu pela segunda vez com o m esm o resultado, pois Lancelot o golpeou no lugar do ferim ento anterior. Ainda assim o ódio de Gawain não se aplacou, m as, quando ele se preparava para um a terceira tentativa, chegou um a notícia da Inglaterra que fez Artur suspender o cerco de Benwick e retornar. Essa notícia era a de que Mordred afirm ava ter recebido cartas contando que Artur fora m orto em batalha por Lancelot; que havia “feito um parlam ento” e se fizera coroar rei em Canterbury ; e que declarara que se casaria com Guinevere, citando o dia e preparando o banquete nupcial.

Guinevere escondeu seu intento de Mordred, m as fugiu para Londres e se refugiou na Torre; apesar de atacá-la, ele não foi capaz de tom á-la, e ali a rainha ficou. Mas agora Artur estava se aproxim ando de Dover com um a grande arm ada, e Mordred o aguardava.

 

*

 

Assim aconteceu que, enquanto a cam panha m arítim a de Artur perm aneceu, a história anterior m udou com pletam ente. Foi o am or de Lancelot e Guinevere que, em longa cadeia causal, fez com que o rei partisse da Inglaterra (não “Grã-Bretanha”): da intrusão de Agravain e Mordred até a m orte na fogueira im posta a Guinevere, da qual Lancelot a salvou, m as ao preço de abater Gareth e Gaheris, fazendo o am or de Gawain por Lancelot transform ar-se em ódio insano, ao banim ento de Lancelot e finalm ente à expedição de vingança contra ele em suas terras de França. A congruência entre as diferentes tradições, exem plificadas pela Morte Arthure aliterante e pela Morte Arthur em estrofes, só é alcançada quando Artur, no além -m ar, recebe a notícia da usurpação do reino por Mordred.

Verem os que em m uitos aspectos o terceiro Canto de A Queda de Artur diverge bastante, sobretudo por om issão, do Tale of the Death of Arthur [Conto da Morte de Artur] de Malory (e tam bém da Morte Arthur em estrofes). Não há sugestão de que o assassínio dos irm ãos de Gawain por Lancelot tenha sido o m om ento crucial do desenrolar da tragédia; e certam ente é verdade que está ausente algo vital à história nas versões antigas, o ódio im placável que Gawain sentia por Lancelot, seu velho e devoto am igo. No Canto III Gawain só aparece (versos 29 ss.) em retrato, propositalm ente e para sua vantagem j ustaposto ao de Lancelot, que o precede, e um a outra vez num a referência (III.177 ss.) à sua glória enquanto Lancelot em Benwick, “sobre léguas de m ar, / contem pla e pondera m editando a sós / com dúvida atroz”. Mas ele não tem papel na narrativa antes da batalha naval por ocasião do retorno de Artur. É verdade que no Canto I Gawain, falando “grave e pausadam ente”, opõe-se ao desej o de Artur de recorrer a Lancelot e sua gente com o auxílio contra Mordred (I.190 ss.); m as parece que a dissensão de Gawain surgiu da dúvida quanto à lealdade da “fam ília de Ban”, e o tom pausado de suas palavras está m uito longe da im placável ira do Gawain dos livros antigos.

Em A Queda de Artur a narrativa dos eventos que se seguem ao resgate de Guinevere da fogueira reduz-se às palavras “levou-a para longe; / e tom ados pelo m edo não se anim aram a segui-los” (III.83-4); e toda a história do cerco da Jubilosa Guarda por Artur e Gawain, os ferozes com bates, a intensidade da lealdade cavalheiresca de Lancelot ao rei, a intervenção do Papa – tudo isso desapareceu.

Assim , na visão retrospectiva do Canto III, os conceitos do rom pim ento da com panhia da Távola Redonda e da com plexidade dos am ores e das lealdades de Lancelot são representados de form a m uito m ais sim ples. Com a ausência de Gawain elim ina-se um a dim ensão. A distância que se abriu entre o Rei Artur e Sir Lancelot define-se m ais nitidam ente e revela-se im possível de resolver. Isso é claram ente afirm ado m ais de um a vez:

 

Traiu seu am o, aliado à paixão, rej eita a paixão, rechaça-o ainda o am o; refugam -lhe a fé, ao que a fé traiu, por m ilhas de m ar do am or separado.

(III.15-18, repetido sem o terceiro verso em III.140-2.)

 

O resgate de Guinevere da fogueira continua sendo crucial em A Queda de Artur, m as não por causa do assassínio de Gareth e Gaheris, e sim por causa da im prudente violência da irrupção de Lancelot em cena, seguida por um a subsidência à m aneira de Túrin, após grande fúria, e que levou a um a extensa penitência do espírito e a um a tentativa de desfazer a devastação que causara, um doloroso reconhecim ento de culpa.

 

Engole o orgulho, renegando a audácia que m ata os am igos e m ina a confiança. (III.90-1)

 

Acim a de tudo, “Altas j uras rom peram eles” (III.62): ele precisava devolver Guinevere ao rei, buscando que este a perdoasse e ele m esm o fosse novam ente aceito.

Nem na Morte Arthur em estrofes nem no conto de Malory há referência aos pensam entos ou às vontades de Guinevere a esse respeito. Seu tratam ento é bem diferente em A Queda de Artur, onde seus desej os são analisados e onde ela descobre nesse novo Lancelot um estranho inoportuno cuj a perturbação m ental ela não consegue com preender: “Estranho ela o vê, / não m ais o m esm o, por m al súbito” (III.95-6). As m esm as palavras são usadas sobre Lancelot: “Estranha pareceu a ele, / não m ais a m esm a.” Mas a perda de Lancelot foi m uito m aior que a de Guinevere; pois “Com sanha desprezou-o, sem contrição nenhum a, / sem pena, com soberba e desprezo, e no entanto / é querida e caríssim a” (III.166-8). “À corte de Cam elot a acolhe por rainha / grande, com glória” (III.113-14); enquanto Lancelot com o requerente foi totalm ente rej eitado pelo Rei Artur e banido às suas obscuras reflexões em outra terra. Mas o rei, de coração contristado, sabia que perdera o m elhor de todos os seus cavaleiros e m uitos outros com ele; e, enquanto fazia esse lam ento a Gawain no m om ento em que a notícia da traição de Mordred lhes chegou (I.180 ss.), Lancelot em Benwick, ouvindo rum ores da guerra que se aproxim ava, revirava na m ente pensam entos conflitantes sobre Artur e Guinevere (III.143 ss.).

 

Na ausência de Gawain, a invasão de Benwick, que ele inspirara com o vingança contra Lancelot, tam bém desapareceu em A Queda de Artur. Não voltam os a ver Artur até o Canto IV, quando Mordred, nos penhascos à beira-m ar, ouve o grito “Um a vela, um a vela sobre as vagas reluz!” (IV.117). Mas, antes de a “história de Lancelot” entrar no Canto III em form a de retrospectiva, tem os o Canto II, totalm ente original, em que se conta com o o capitão m oribundo de um navio destroçado na costa, um pirata pagão cham ado Radbod, a pago de Mordred, relatou-lhe que Sir Cradoc (conform e se conta no Canto I) escapara da Grã-Bretanha e seguira a trilha do Rei Artur para alertá-lo dos desígnios de Mordred contra ele; Artur j á se apressava a voltar para a Grã-Bretanha. Com seu últim o alento Radbod fez a Mordred um relato tenso dos febris preparativos de guerreiros e navios (II.76-89).

Porém , o aspecto m ais notável do Canto II de A Queda de Artur é o surgim ento de Mordred com o figura com pletam ente im aginada na calam idade que se avizinha.

No Canto I só se disse dele que seu vigoroso apoio à cam panha de Artur ocultava um propósito secreto e m aligno que agora se revelava. Guinevere não foi m encionada. Sobre a associação dele com a rainha, Geoffrey de Monm outh

só disse (ACIMA ) que após sua vitória sobre os rom anos o Rei Artur recebeu a notícia de que ela vivia em adultério com Mordred. Na Morte Arthure aliterante

(O POEMA NA TRADIÇÃO ARTURIANA) Sir Cradoc disse ao rei que “o pior de todos os feitos de Mordred é que se casou com Guinevere e gerou um filho”.

Na versão de Malory (O POEMA NA TRADIÇÃO ARTURIANA) a notícia que Artur recebeu em Benwick é que Mordred declarou que se casaria com Guinevere. O texto com pleto de Malory reza:

 

E assim preparou-se para a festa, e um dia prefixado em que haveriam de se casar; com que m uito se afligiu a rainha Gweny ver. Mas não ousava revelar seu coração, e falava belas falas e concordava com a vontade de Sir Mordred. E logo pediu a Sir Mordred para ir a Londres com prar toda sorte de coisas que fazem parte das núpcias. E por causa de suas belas falas Sir Mordred confiou nela e lhe deu licença; e assim , quando chegou a Londres, tom ou a Torre de Londres e repentinam ente, com toda a pressa possível, recheou-a com toda espécie de m antim ento, e guarneceu-a bem de hom ens, e assim a m anteve.

 

No Canto I de A Queda de Artur Sir Cradoc nada diz sobre Guinevere; m as no Canto II, antes de Radbod, capitão do navio, contar suas notícias, vem os Mordred espiando de um a j anela alta, indiferente à tem pestade em que o navio naufragou (II.18-31), pois sua m ente estava totalm ente absorta em seu desej o por Guinevere; e, quando ouviu o que Radbod tinha para contar e enviou “m uitos m ensageiros / [que] ao norte e ao leste as novas j á levam ”, partiu para Cam elot. Guinevere ouviu os passos rápidos daquele hom em profundam ente sinistro subindo as escadas até seus aposentos. Nesse encontro fatídico Mordred lhe ofereceu um a escolha que não era escolha, entre “prisioneira ou m onarca, [...] capturada ou esposa” (II.154-5). Guinevere pediu tem po, m as bem pouco ele lhe concederia: “és noiva ou prisioneira? / Faze o anúncio depressa!”. Ela se decidiu pela fuga im ediata – m as não para a Torre de Londres. Esgueirou-se traj ando um m anto escuro; e a próxim a coisa que vem os são as luzes de Cam elot se desvanecendo atrás dela, que foge rum o ao oeste com alguns com panheiros, rum o ao castelo do Rei Leodogrance, seu pai.

O Canto II term ina com seus pensam entos acerca de Lancelot: iria retornar? O Canto IV com eça com um a m anhã lum inosa nas fronteiras de Gales, quando os cavaleiros que Mordred m andou caçá-la perdem todos os seus vestígios.

 

Caçam eles a rainha com ódio frio té que falhe sua fé nas várzeas sem casas, dem oram -se fam intos nos m orros terríveis nos resguardos de Gales.

 

Segue-se então a notícia de com o fracassaram , transm itida a Mordred por seu escudeiro Ivor, j unto com alguns conselhos intem pestivos que enfureceram seu senhor, parado em seu acam pam ento nos penhascos da costa acim a de Rom eril (Rom ney em Kent), contem plando o m ar vazio: tem endo que Guinevere tivesse enviado um m ensageiro a Lancelot, “e lem bra-lhe o am or, / suplicando socorro em seu fracasso” (IV.96). Por fim , veem -se as velas da arm ada de Artur.

 

Aqui podem os olhar para trás e ver com o, até esse ponto, m eu pai tratou e transform ou a tradição narrativa que m ais tarde veio a ser conhecida, na Inglaterra, com o nom e do últim o conto de Malory, A Morte de Artur.

Preservou a tradição “de crônica” da cam panha de Artur no leste, além do m ar, m as com natureza e propósito totalm ente alterados. Artur defende “Rom a”, não a ataca.

Manteve a traição e usurpação de Mordred e seu desej o por Guinevere, m as em um retrato m uito elaborado.

Introduziu (em retrospecto) a lenda “rom ântica” de Lancelot e Guinevere (inteiram ente desconhecida da tradição “de crônica”), m as sim plificou bastante os com plexos m otivos, derivados da Mort Artu francesa, e encontrados na Morte Arthur em estrofes inglesa e no últim o conto de Malory, elim inando o papel de Gawain. Manteve a sentença de queim a na fogueira proferida contra Guinevere e seu resgate por Lancelot; m as o banim ento deste surgiu agora com o punição de suas relações com a rainha, e não do ódio que Gawain lhe tinha pelo assassínio de Gareth. Lancelot é banido para Benwick, m as Guinevere retorna ao favor de Artur.

O ataque a Benwick por Artur e Gawain foi inteiram ente elim inado, e a notícia da traição de Mordred encontrou Artur não em Benwick, e sim no leste distante.

 

*

 

O Conto da Morte de Artur de Malory (ii)

 

Agora esboçarei a narrativa que conclui o últim o conto de Malory, retom ando-o

do ponto em que o deixei (ACIMA), com os navios de Artur se aproxim ando de Dover e Mordred à sua espera. Malory nesse ponto baseou-se em grande m edida no poem a inglês, a Morte Arthur em estrofes, para os detalhes da narrativa.

A hoste de Artur com bateu abrindo cam inho a partir das praias, e com grande derram am ento de sangue desbaratou a gente de Mordred. Mas Sir Gawain foi encontrado num barco “m ais que m eio m orto”; e, falando ao Rei Artur, declarou que causara a própria m orte por orgulho e obstinação, pois acabara de ser atingido no lugar do antigo ferim ento que lhe fora feito por Lancelot em Benwick; e foi através dele que Artur sofreu aquele penoso infortúnio:

 

pois se esse nobre cavaleiro Sir Launcelot estivesse convosco, com o estava e queria estar, essa guerra infeliz j am ais teria sido iniciada [...] E agora sentireis falta de sir Launcelot. Mas ai de m im que não quis m e acertar com ele!

 

E antes de m orrer pediu papel e pena para escrever um a carta a Lancelot, instando para que ele retornasse às pressas para aj udar o Rei Artur contra Mordred.

Gawain foi sepultado na capela do Castelo de Dover. Mas Mordred recuou para Barham Down em Kent, a poucas m ilhas de Canterbury, e ali Artur o enfrentou: a batalha term inou com a fuga de Mordred para Canterbury. Artur retirou-se então para oeste, até a Planície de Salisbury, e os dois exércitos se prepararam para m ais um em bate. Mas Sir Gawain apareceu em sonho para Artur, dizendo que fora enviado por Deus para alertá-lo de que só continuasse a com bater depois de se passar um m ês, época em que Sir Lancelot chegaria da França com todos os seus cavaleiros. Um tratado nesse sentido foi negociado com Mordred, m as ele foi rom pido por um m edo equivocado de traição; e seguiu-se a terceira e m ais feroz batalha, que durou o dia todo até o cair da noite e term inou com o Rei Artur, Sir Bedivere e Sir Lucan de um lado, e Mordred do outro, de pé em m eio a um grande núm ero de m ortos. Mas o rei avistou Mordred “apoiado na espada em m eio a um a grande pilha de hom ens m ortos”; um avançou contra o outro, e Artur trespassou Mordred com a lança. Então Mordred soube que recebera seu ferim ento de m orte, m as com a derradeira força “golpeou seu pai, o Rei Artur, com a espada segura em am bas as m ãos, do lado da cabeça, de m odo que a espada perfurou o elm o”, e com isso Mordred “desabou totalm ente m orto sobre a terra”.

Então Sir Bedivere e Sir Lucan, por sua vez gravem ente feridos, carregaram o rei até “um a pequena capela não longe do m ar”. Ouvindo um grande clam or no cam po de batalha, pois salteadores haviam chegado para pilhar os m ortos, os dois cavaleiros acharam m elhor carregar o rei até m ais longe, m as enquanto o faziam Sir Lucan caiu m orto por causa dos ferim entos. Então Artur m andou que Bedivere tom asse sua espada Excalibur para lançá-la “naquela beira da água”, e ao voltar lhe contasse o que vira. Duas vezes Bedivere foi até a água, e a cada vez fingiu fazer o que lhe fora pedido; m as a cada vez o Rei Artur lhe disse, irado, que estava m entindo. Pela terceira vez Bedivere foi “para a beira da água” e ao voltar contou a verdade, dizendo que j ogara a espada o m ais longe que conseguira, ao que um braço se erguera da água, agarrara e brandira a espada, e depois a puxara para baixo, desaparecendo.

Então, a m ando do rei, Bedivere o carregou nas costas até a beira da água, onde “perto da m argem aguardava um pequeno barco com m uitas belas dam as, e entre elas havia um a rainha”, que era a irm ã de Artur, Fada Morgana. Então Bedivere deitou Artur na barca, e Morgana disse (seguindo as palavras da Morte Arthur em estrofes): “Ah, m eu querido irm ão! Por que ficaste tanto tem po longe de m im ? Ai de ti, essa ferida em tua cabeça apanhou m uito frio!” Mas quando a barca partiu Bedivere gritou para o rei, perguntando o que haveria de ser dele; e ele respondeu:

 

Tranquiliza-te e faze o m elhor que puderes, pois em m im não há confiança em que confiar. Pois devo ir ao vale de Avy ly on para m e curar

de m eu ferim ento atroz. E, se nunca m ais ouvires de m im , reza por m inha alm a!

 

No dia seguinte, em suas andanças, Bedivere topou com “um a capela e um a erm ida” onde havia um túm ulo recém -escavado, a respeito do qual o erm itão lhe disse que “diversas dam as” haviam chegado à m eia-noite e trazido o corpo para

que o sepultasse (sobre este assunto ver O POEMA NA TRADIÇÃO

ARTURIANA). Então Bedivere ficou na erm ida, que era “ao lado de Glassy ngby ry ” (Glastonbury em Som erset), e viveu com o erm itão “em orações e j ej uns e grande abstinência”. Mas, quando Guinevere ficou sabendo de tudo o que se passara, “fugiu em segredo” e foi dar em Am y sby ry (Am esbury em Wiltshire), e ali se tornou freira:

 

e j am ais nenhum a criatura pôde alegrá-la, m as ela vivia sem pre em j ej um , orações e atos de caridade, de m odo que toda sorte de gente se adm irava de ela estar tão virtuosam ente m udada.

 

Quando Lancelot em Benwick ficou sabendo do que sucedera na Inglaterra, e recebeu a carta da Gawain, preparou depressa um exército e atravessou o m ar até Dover. Lá descobriu que era tarde dem ais. Com grande dor visitou o túm ulo de Gawain na capela do Castelo de Dover, e depois cavalgou rum o a oeste até chegar ao convento onde Guinevere se tornara freira. Quando o viu, ela desm aiou, m as ao recuperar-se disse às freiras reunidas, na presença de Lancelot:

 

Através deste hom em e de m im foi causada toda esta guerra, e a m orte dos m ais nobres cavaleiros do m undo; pois pelo nosso am or, que am am os j untos, foi abatido m eu m ais nobre senhor. Portanto, sir Launcelot, sabe que estou em penhada neste com prom isso para curar m inha alm a.

 

Nas palavras que trocaram , que não podem ser resum idas nem esboçadas, ela perm aneceu inflexível, repelindo-o ao dizer “peço que m e beij es, e nunca m ais”. E assim se separaram , “m as nunca houve hom em de coração tão duro que não tivesse chorado ao ver o pesar de am bos, pois houve lam ento com o se tivessem sido ferroados com lanças”.

Depois que Lancelot deixou Am esbury, chegou à erm ida onde Bedivere vivia e lá ficou levando o m esm o tipo de vida. Outros cavaleiros da Távola Redonda foram j untar-se a eles; e após seis anos Lancelot tornou-se sacerdote. Certa noite teve um a visão em que lhe disseram que fosse a Am esbury, onde encontraria Guinevere m orta, e que ela deveria ser sepultada ao lado do Rei Artur. Com seus com panheiros Lancelot foi a pé “de Glasty nbury e a Alm y sbury e, o que dá pouco m ais de trinta m ilhas”, m as levaram dois dias, pois estavam fracos e debilitados por suas vidas de penitência e j ej um . Quando chegaram a Am esbury, ficaram sabendo que Guinevere m orrera havia apenas m eia hora; e contaram -lhes que ela dissera de Lancelot que

 

“ele vem para cá o m ais rápido que pode para buscar m eu corpo, e ao lado de m eu senhor, o Rei Artur, vai m e sepultar”. Então a rainha disse para que todos ouvissem : “Im ploro a Deus Todo-Poderoso que eu não tenha o poder de ver sir Launcelot com m eus olhos terrenos!”

 

Assim Guinevere foi levada de volta à capela perto de Glastonbury, e lá foi sepultada.

Depois disso Lancelot com ia e bebia tão pouco que “secou e feneceu”, e depois de pouco tem po m orreu. Em quinze dias de j ornada seu corpo foi levado, com o desej ara, ao castelo da Jubilosa Guarda, e sepultaram -no no coro da capela.

 

*

 

A Morte Arthure aliterante (ii)

 

Desde o m om ento em que as velas da arm ada de Artur foram avistadas da costa, m eu pai se afastou da tradição incorporada, no idiom a inglês, na Morte Arthur em estrofes e no Conto da Morte de Artur de Malory, e se voltou para a Morte Arthure aliterante, cuj a narrativa abandonei no ponto em que Artur ouviu de Sir

Cradoc sobre a traição de Mordred e seu casam ento com Guinevere (O POEMA

NA TRADIÇÃO ARTURIANA).

Na Morte Arthur em estrofes e em Malory não houve confronto no m ar por ocasião do retorno de Artur, m as no poem a aliterante parte da m á notícia de Sir

Cradoc era o fato de que Mordred m ontara um a frota contra ele (O POEMA NA

TRADIÇÃO ARTURIANA):

 

Em Southam pton à beira-m ar há sete vintenas de navios,

carregados e repletos de gente feroz vinda de terras distantes.

 

Att Southamptone on the see es seuene skore [s]chippes, frawghte fulle of ferse folke, owt of ferre landes.

 

O autor transm ite em alguns versos a velocidade do retorno de Artur, que

 

Se volta para a Toscana, dem ora-se bem pouco, Não para na Lom bardia, exceto quando a luz se extingue; Viaj a sobre as m ontanhas cheias de cam inhos adm iráveis [...]

 

Turnys thorowe Tuskayne, taries bot littill, Lyghte noghte in Lumbarddye bot when the lyghte failede; Merkes ouer the mowntaynes full mervaylous wayes ...

 

“e dentro de quinze dias sua frota está m ontada” (em A Queda de Artur, II.76-88, Radbod dá a Mordred um a vívida descrição dos preparativos de Artur).

Mas agora, na Morte Arthure aliterante, o poeta dedica cerca de cem versos à evocação de um a violenta batalha naval que se seguiu, à qual não há nada com parável na literatura m edieval inglesa. Há um a furiosa saraivada de palavras, transm itindo (poderíam os dizer que tanto por suas form as e conj unções quanto por seu significado) o rugido da batalha, o fender das m adeiras, os navios colidindo entre si, as trom betas soando, as flechas voando, os m astros caindo...

Foi desse poem a que m eu pai derivou sua descrição de um a grande batalha naval ao largo da costa de Kent por ocasião do retorno de Artur. Em obras anteriores da tradição “de crônica” houve com bates ferozes quando a frota de Artur chegou, m as era um a batalha entre invasores do m ar e a hoste de Mordred

que defendia os penhascos. No Brut de Laȝam on (ver O POEMA NA

TRADIÇÃO ARTURIANA, O POEMA NÃO ESCRITO) isso fica bem claro, e vê-se que m eu pai tinha esse trecho em m ente quando escreveu sobre a batalha naval pelas palavras do Brut, que contam que Artur “ordenou que seus m aruj os o levassem a Rom erel”, de onde tom ou o nom e Rom eril (Rom ney em Kent, j á

m encionado, ACIMA).

Na batalha naval em A Queda de Artur há ecos, sem dúvida, da Morte Arthure aliterante em versos com o (IV.180-2)

Atingem os costados. Estouram os m adeiram es. Ranger de ganchões, m achados que estrugem ; faíscam , abrem -se elm os e lanças [...]

 

m as não há vestígio, m uito naturalm ente, do tom triunfal e exultante do antigo poem a, em que “nossos” senhores são vistos rindo em voz alta dos estrangeiros da frota de Mordred que saltam para o m ar aterrorizados (“quando hom ens de terras estrangeiras pulam em água, / Todos os nossos senhores riem alto ao m esm o tem po”).

 

Aqui convém dar um relato, m ais condensado em algum as partes que em outras, da conclusão da Morte Arthure aliterante.

A batalha naval foi vencida, m as “Ainda o traidor está em terra com cavaleiros experim entados”, esperando que os invasores tentem forçar um desem barque para enfrentá-los; e o rei foi im pedido de fazer isso, pois àquela hora a m aré havia baixado, deixando grandes lagoas lodosas. Mas Gawain tom ou um a galé [um grande barco aberto] e foi a terra com um pequeno grupo de hom ens, afundando até a cintura em suas vestes douradas (“até o cinto afundou em todas as suas roupas douradas”) e depois correndo por cim a da areia, onde se lançaram contra a hoste de Mordred disposta diante deles. Gawain abateu o Rei da Gotlândia e depois, exclam ando “Maldito és tu, crim inoso, e teus falsos feitos!”, arrem eteu contra Mordred “entre todos os seus hom ens, com os Montagues e outros grandes senhores”; porém , ele e seu grupo foram cercados e desesperadam ente superados (“Estam os assediados por sarracenos de todos os lados!”).

Então Gawain entregou-se à im prudência ensandecida, com o o poeta declara repetidam ente: “toda a sua razão falhou”, “com o alguém im prudente e doido”; “caiu em frenesi por ferocidade de coração”; “doido com o besta selvagem ”. Por fim , foi derrotado num em bate corpo a corpo com Mordred, e tom bou m orto com um golpe que lhe perfurou o elm o. Mordred foi questionado pelo Rei Frederic da Frísia, que vira os feitos de Gawain:

 

Que hom em foi este, o das arm as brilhantes, Com esse grifo de ouro, que tom bou sobre o rosto?

 

Qwat gome was he this with the gaye armes

With this gryffoune of golde, that es one growffe fallyn?

 

E Mordred declarou seu nom e e m uito o louvou:

 

Se o tivésseis conhecido, senhor rei, “na terra onde viveu, Sua habilidade, sua cavalaria, suas obras am áveis, Seus feitos, sua resistência, suas façanhas de arm as, Choraríeis suas façanhas pelos dias de vossa vida!”

Porém esse traidor que depressa derram ou lágrim as

Depressa se volta e nada m ais fala, Afasta-se chorando e m aldiz os tem pos Em que seus fados se realizaram para produzir tal tristeza.

 

Had thow knawen hym, sir kynge, ‘in kythe thare he lengede, His konynge, his knyghthode, his kyndly werkes, His doyng, his doughtyness, his dedis of armes, Thow wolde hafe dole for his dede the dayes of thy lyfe!’

Yit that traytour alls tite teris lete he falle,

Turnes hym furthe tite, and talkes no more, Went wepand awaye, and weries the stowndys, That ever his werdes ware wroght, siche wandrethe to wyrke.

 

“Arrependendo-se de todos os seus feitos repugnantes”, ele partiu rum o ao oeste, para a Cornualha, e arm ou suas tendas à m argem do rio cham ado Tam bire (Tam ar). Dali m andou um m ensageiro a Guinevere em York, contando-lhe tudo o que ocorrera e pedindo-lhe que fugisse “com seus filhos” para a Irlanda; m as ela, deixando York no m ais profundo abatim ento, foi a Caerleon e lá tom ou o véu:

 

Pede lá o hábito em honra de Cristo, E tudo pela falsidade, e fraude, e tem or de teu senhor!

 

Askes thare the habite in the honoure of Criste, and all for falsede, and frawde, and fere of hire loverde [lord]!

Mas Artur, vendo a loucura de Gawain, apressou-se em desem barcar do navio com m uitos cavaleiros, e buscando no cam po de batalha encontrou seu corpo “com suas arm as brilhantes, agarrando a gram a e caído sobre o rosto”. Com extrem o pesar, pronunciou um apaixonado lam ento por Gawain (acerca disso

ver O POEMA NÃO ESCRITO), cuj o corpo foi levado a um m osteiro em Winchester. O rei foi aconselhado a perm anecer algum tem po em Winchester para recom por as forças antes de perseguir Mordred, m as Artur não concordou, expressando seu ódio a Mordred com palavras violentas e j urando “perseguir sem pre os pagãos que destruíram m inha gente”. Partiu im ediatam ente de Winchester e rum ou para o oeste, para a Cornualha, onde topou com Mordred acam pado num a floresta. Desafiado a com bater, o enorm e exército de Mordred, vastam ente m ais num eroso que o do rei, em ergiu da floresta.

Segue-se então a batalha de Cam lan (m as não tem nom e no poem a), um a luta feroz , até a m orte dos “audazes bretões” [ou sej a, britânicos] contra inim igos com o “pictos e pagãos com arm as perigosas” e “gigantes de Argy le e reis irlandeses”, contada em cerca de duzentos versos, com m uitos em bates indivi-duais; são dados os nom es de m uitos cavaleiros que tom baram , entre eles Marrac, Meneduc e Errac (cuj os nom es aparecem em A Queda de Artur, I.48-9)

– e Lancelot (sobre sua presença e m orte em Cam lan ver O POEMA NA

TRADIÇÃO ARTURIANA). A batalha term ina com a luta até a m orte de Mordred e Artur, com um a descrição gráfica de cada hediondo golpe de espada. Apesar de ter recebido seu ferim ento de m orte, Artur, em punhando a espada Caliburn, cortou a m ão da espada de Mordred e o trespassou quando j azia na gram a. Mas o rei ainda vivia.

 

Então param a seu pedido, todos j untos, E se dirigem a Glasschenbery e [Glastonbury ] pelo cam inho m ais curto;

Chegam à ilha de Aveloy ne, e Artur apeia, Vai a um solar, pois não podia prosseguir.

 

Thane they holde at his heste hally at ones And graythes to Glasschenberye the gate at the gayneste; Entres the Ile of Aveloyne, and Arthure he lyghttes, Merkes to a manere there, for myghte he no forthire.

Um cirurgião de Salerno exam inou suas feridas, e Artur viu que j am ais seria curado. No leito de m orte ordenou que os filhos de Mordred fossem m ortos e afundados em água (“Que nenhum a erva m aligna cresça nem floresça nesta terra”), e suas últim as palavras foram sobre Guinevere:

 

Perdoo todo o pesar, pelo am or de Cristo no céu! Se Way nor [Guinevere] fez o bem , que o bem lhe suceda!

 

I foregyffe all greffe, for Cristez lufe of hevene! Yife Waynor hafe wele wroghte, wele hir betydde!

 

O Rei Artur foi sepultado em Glastonbury, e com seu funeral term ina a Morte Arthure aliterante.

 

Assim term ina o rei Arthure, com o os autores afirm am , Que foi do sangue de Ector, filho do rei de Troia, E de Py ram ous, príncipe louvado na terra; Dali trouxeram os bretões [britânicos] todos os seus audazes ancestrais

À am pla [Grã-]Bretanha, com o o Bruy tte conta.

 

Thus endis kyng Arthure, as auctors alegges, That was of Ectores blude, the kynge sone of Troye, And of Pyramous, the prynce, praysede in erthe; Fro thethen broghte the Bretons alle his bolde eldyrs Into Bretayne the brode, as the Bruytte tellys.

 

No final vitorioso da batalha naval, com Artur em seu navio ao largo de Rom eril, contem plando sua própria terra e m editando a m elhor condita, m eu pai parou de trabalhar em A Queda de Artur: em m inha opinião o m ais doloroso dos seus m uitos abandonos.

 

*

 

a O nome Brut deste e de outros poem as deriva de um a antiga ficção, m uito

burilada por Geoffrey de Monm outh, de que um certo Brutus, neto (ou bisneto) de Eneias de Troia, foi o prim eiro hom em a pôr os pés na desej ável ilha de Albion (até então habitada apenas por “alguns gigantes”), cham ando-a de “Bretanha”, com base em seu próprio nom e, e cham ando seus com panheiros de “bretões”. Assim está na abertura de Sir Gawain and the Green Knight, na tradução de m eu pai:

 

and far over the French flood Felix Brutus

on m any a broad bank and brae Britain established

full fair...

 

E longe sobre o m ar francês Felix Brutus

Sobre m uitas am plas m argens e escarpas estabeleceu a Bretanha

Mui bela...

 

b Meu pai usou um exemplar da edição Early English Text Society, conforme

revisada por Edm und Brock, 1871, que adquiriu em setem bro de 1919 e que usei para as citações neste livro.

 

c Muito estranhamente, ele é o matador do Imperador Lucius, embora menos

de 200 versos adiante Lucius sej a m orto de novo pelo Rei Artur (versos

citados acim a).

 

d A referência é ao Lancelot de Chrétien de Troy es, poeta francês de fins do

século XII, um a obra conhecida tam bém com o Le Chevalier de la Charette [O Cavaleiro da Carroça]. O nom e deriva de um incidente da narrativa em que Lancelot, am ante secreto e apaixonado da Rainha Guinevere, sai para salvá-la do cativeiro nas terras do príncipe Meleagant. Tendo perdido o cavalo, ele aceita a oferta de um carroceiro anão para ser transportado em sua m issão vital; m as o veículo era um a carreta usada para levar m alfeitores, em exibição pública, ao local da execução. Assim Lancelot m ostrou-se disposto a subm eter-se ao extrem o da desgraça e ignom ínia, aos olhos do m undo cortês, em prol de Guinevere. O fato de ter hesitado m om entaneam ente antes de em barcar na carroça da vergonha o desfavoreceu aos olhos da senhora idolatrada, um a deficiência de sua subserviência absoluta ao código do amour courtois.

e Malory concluiu seu conto com estas palavras: “Aqui termina todo o livro do

rei Artur e de seus nobres cavaleiros da Távola Redonda. [...] E aqui term ina A Morte de Artur.” William Caxton interpretou a últim a frase com o referência a toda a com pilação dos contos arturianos de Malory e concluiu o texto de sua edição de 1485 com as palavras “Assim term ina este nobre e Jubiloso livro intitulado le m orte Darthur”.

 

f Assim consta da Morte Arthur em estrofes:

Esse falso traidor, Sir Mordreid.

Era filho da irm ã do rei,

E tam bém seu próprio filho, com o entendo.

 

That fals traytour, Sir Mordreid,

The kynges sister sone he was.

And eke his owne sone, as I rede.