A Queda de Artur

J. R. R. Tolkien · Capítulo 2 de 8

Páginas do PDF

A Queda de Artur

Prefácio

 

Todos sabem que um a força im portante na poesia de m eu pai era seu am or perm anente pelos antigos versos aliterantes “setentrionais”, que se estendiam do m undo da Terra-m édia (especialm ente na longa m as inacabada Balada dos Filhos de Húrin) ao diálogo dram ático The Homecoming of Beorhtnoth [O

Retorno de Beorhtnoth] (que surgiu do poem a em inglês antigoa A Batalha de Maldon) e aos seus poem as “nórdicos antigos” A Nova Balada dos Völsungs e A Nova Balada de Gudrún (aos quais se referiu em um a carta de 1967 com o “coisa que fiz m uitos anos atrás quando estava tentando aprender a arte de escrever poesia aliterante”). Em Sir Gawain and the Green Knight [Sir Gawain e o Cavaleiro Verde] dem onstrou sua habilidade ao reproduzir o poem a aliterante do século XIV na m esm a m étrica em inglês m oderno. A essas obras, acrescenta-se agora seu poem a inacabado e inédito A Queda de Artur.

Consegui descobrir um a única referência a esse poem a feita por m eu pai, que está em um a carta de 1955, onde ele disse: “Escrevo poesia aliterante com prazer, apesar de ter publicado pouca coisa além dos fragm entos em O Senhor dos Anéis, com exceção de The Homecoming of Beorhtnoth [...] Ainda espero term inar um longo poem a sobre A Queda de Artur na m esm a m edida” (The Letters of J. R. R.Tolkien, no 165). Entre seus papéis não há nenhum a indicação de quando foi iniciado ou quando foi abandonado; m as felizm ente ele conservou um a carta que lhe foi escrita por R. W. Cham bers em 9 de dezem bro de 1934. Cham bers (professor de inglês no University College, Londres), que tinha dezoito anos a m ais do que ele, era um velho am igo e vigoroso apoiador de m eu pai, e nessa carta relatou que havia lido Artur em um a viagem de trem para Cam bridge, e na volta “tirou vantagem de um a cabine vazia para declam á-lo com o ele m erece”. Falou do poem a em tom altam ente elogioso: “É de fato m uito grandioso [...] realm ente heroico, sem falar do seu valor em m ostrar com o a m étrica do Beowulf pode ser usada no inglês m oderno.” E term inou a carta com : “Você realm ente precisa term iná-lo.”

Mas isso m eu pai não fez; e m ais um dos seus longos poem as narrativos foi abandonado. Parece praticam ente certo que havia parado de trabalhar na Balada dos Filhos de Húrin antes de deixar a Universidade de Leeds rum o a Oxford, em 1925, e registrou que com eçara a Balada de Leithian (a lenda de Beren e Lúthien), não em versos aliterantes e sim em dísticos rim ados, no verão daquele ano (The Lays of Beleriand [As Baladas de Beleriand], p. 3). Além disso, enquanto estava em Leeds, com eçou um poem a aliterante sobre A Fuga dos Noldoli de Valinor, e outro ainda m ais curto que era claram ente o com eço de um a Balada de Eärendel (The Lays of Beleriand, §II, Poems Early Abandoned).

Sugeri em A Lenda de Sigurd e Gudrún (I) “com o m era conj etura, j á que não há nenhum a evidência para confirm á-lo, que m eu pai tenha se voltado para os poem as nórdicos com o um a nova em preitada poética [e um a volta à poesia aliterante] após ter abandonado a Balada de Leithian [...] perto do final de 1931”. Se foi assim , ele deve ter com eçado a trabalhar em A Queda de Artur, ainda longe de estar term inada no final de 1934, depois que os poem as nórdicos foram concluídos.

Ao buscar um a explicação para o fato de ele ter abandonado esses poem as am biciosos quando cada um deles j á estava bem avançado, devem os exam inar as circunstâncias de sua vida após ser eleito professor de anglo-saxão em Oxford, em 1925: as dem andas de seu cargo e de sua bolsa de estudos, as preocupações, ansiedades e despesas da fam ília. Com o aconteceu em grande parte de sua vida, ele nunca tinha tem po suficiente; e talvez, conform e tendo a crer, o sopro da inspiração constantem ente interrom pida acabasse por m urchar; porém , em ergia de novo quando aparecia um a brecha entre seus deveres e obrigações – e seus outros interesses, m as agora com um ím peto narrativo alterado.

Sem dúvida houve, em cada caso, razões específicas, que agora não podem ser identificadas com nenhum a certeza; m as no caso de A Queda de Artur sugeri

(O POEMA NÃO ESCRITO) que foi levado a encalhar pelas grandes alterações de m aré por que passavam na época os conceitos de m eu pai, derivadas de seu trabalho em The Lost Road [A Estrada Perdida] e da publicação de O Hobbit: o surgim ento de Núm enor, o m ito do Mundo Tornado Redondo e da Rota Plana, e a aproxim ação de O Senhor dos Anéis.

É de supor tam bém que a própria natureza deste últim o poem a, prim oroso, tornava-o particularm ente vulnerável a interrupções ou perturbações. A espantosa quantidade de m aterial de rascunho rem anescente de A Queda de Artur revela as dificuldades inerentes a esse uso da form a m étrica que m eu pai apreciava tão profundam ente e seu em penho rigoroso e perfeccionista em encontrar, num a narrativa intrincada e sutil, um a expressão adequada dentro dos padrões de ritm o e aliteração da form a poética do inglês antigo. Para m udar a m etáfora, A Queda de Artur era um a obra de arte a ser construída devagar: não podia suportar o surgim ento de novos horizontes im aginativos.

Independentem ente do que se possa pensar dessas especulações, A Queda de Artur necessariam ente acarretou para o editor problem as de apresentação. Pode ser que alguns, ao se voltar para este livro, se contentassem com pouco m ais que o texto do poem a conform e aqui publicado, e talvez um breve relato das etapas de sua evolução, tal com o atestadas pelos abundantes m anuscritos de rascunho. Por outro lado, talvez houvesse outros que, levados ao poem a atraídos por seu autor, m as com poucos conhecim entos da “lenda arturiana”, desej assem e esperassem encontrar algum a indicação da situação desta “versão” com relação à tradição m edieval da qual surgiu.

Com o eu disse, m eu pai não deixou nenhum a indicação, nem m esm o das m ais breves, com o fez para os poem as “nórdicos” publicados com o A Lenda de Sigurd e Gudrún, de suas ideias ou intenções subj acentes ao tratam ento m uito original que deu à “Lenda de Lancelot e Guinevere”. Mas neste caso claram ente não há razão para penetrar no labirinto num a tentativa editorial de escrever um relato abrangente da lenda “arturiana”, o que provavelm ente apareceria com o um m uro de im pedim ento erigido com o se fosse um prelim inar necessário à leitura de A Queda de Artur.

Portanto, dispensei toda “Introdução” propriam ente dita, m as depois do texto do poem a incluí diversos com entários de natureza decididam ente opcional. As breves notas que seguem o poem a restringem -se em grande m edida a explicações m uito concisas de nom es e palavras, e a referências aos com entários.

Para os que desej am essas explorações, cada um desses com entários diz respeito a um aspecto bem distinto de A Queda de Artur e de seu interesse especial. O prim eiro, “O poem a na tradição arturiana”, de intenção sim ples, evitando interpretações especulativas e de alcance lim itado, em bora um tanto extenso, fala sobre a derivação do poem a de m eu pai de determ inadas tradições narrativas e de suas divergências com relação a elas. Com esse obj etivo, baseei-m e principalm ente em duas obras em inglês, o poem a m edieval conhecido com o A Morte Arthure aliterante e os contos relevantes de Sir Thom as Malory, com algum as referências às suas fontes. Com o não desej ava fornecer um resum o seco, citei textualm ente diversos trechos dessas obras, exem plificando aquelas tradições de m aneira e m odo profundam ente diferentes desta “Queda de Artur aliterante” de outra época.

Depois de m uito deliberar, achei m elhor, por causar bem m enos confusão, escrever esse relato com o se a form a m ais recente do poem a (conform e publicado neste livro) fosse a única coisa que pudéssem os saber a seu respeito, e portanto a estranha evolução dessa form a revelada pela análise dos textos em rascunho tivesse sido perdida. Não j ulguei necessário entrar nas origens som brias da lenda arturiana e nos prim eiros séculos de sua história, e aqui direi apenas que é essencial à com preensão de A Queda de Artur reconhecer que as raízes da lenda são derivadas do século V, após o final definitivo do dom ínio rom ano na Grã-Bretanha com a retirada das legiões em 410, e das lem branças de batalhas travadas pelos britânicos na resistência contra as ruinosas incursões e agressões dos invasores bárbaros, os anglos e os saxões, estendendo-se desde as regiões orientais de sua terra. Deve-se ter em m ente que em todo este livro a palavra britânico(s) refere-se específica e exclusivam ente aos habitantes celtas e seu idiom a.

Seguindo-se a “O poem a na tradição arturiana” há um a discussão sobre “O poem a não escrito e sua relação com O Silmarillion”, acerca dos diversos escritos que dão algum indício das ideias de m eu pai sobre a continuação do poem a; e depois um artigo sobre “A evolução do poem a”, essencialm ente um a tentativa de m ostrar da m aneira m ais clara possível, apesar da história textual extrem am ente com plexa, as principais m udanças estruturais a que m e referi, ao lado de vários exem plos de seu m odo de com posição.

 

Nota. Em todo este livro, as referências ao texto do poem a são dadas na form a de núm ero do canto (algarism os rom anos) + núm ero do verso, p. ex. II.7.

 

a Ou anglo-saxão. (N. do T.)