A Revolução Portuguesa: O 5 de Outubro (Lisboa 1910)
Os estudantes militares offerecem o seu concurso á Revolução
Os estudantes militares offerecem o
seu concurso á Revolução
A explosão da rua de Santo Antonio á Estrella fez desapparecer a loja Obreiros do Futuro, porque quasi todos os elementos que a compunham deram entrada nos calabouços policiaes. Mas assim que a justiça libertou esses carbonarios, a aggremiação secreta reviveu mais forte do que nunca e ao lado da Associação Carbonaria Portugueza surgiu uma outra associação retintamente anarchista, tendendo é certo para o mesmo fim revolucionario, mas divergindo um pouco nos meios de acção e na preparação e iniciação dos seus adeptos.
A carbonaria anarchista deu um contingente precioso para a revolução de 4 e 5 de outubro. E justo é dizel-o: trabalhava quasi ás claras. Alguns dos seus adeptos falavam de bombas e de dynamite como quem se referia a objectos de uso corrente, a artigos de primeira necessidade. A policia, entretanto, não ouvia nenhuma d'essas conversas e roçava pelo perigo com uma inconsciencia extraordinaria. Uma noite, á meza de determinado café de Lisboa que a tradicção popular apontava como rendez vous infallivel de exaltados, um anarchista conhecido propoz-se zombar da espionagem da Bastilha. Sacou do bolso do casaco um rolo côr de chocolate, mostrou-o aos convivas com o ar mais natural d'este mundo e disse em voz alta, de modo a ser ouvido por um bufo que abancára proximo:
—Sabem o que isto é? É massa para um foguinho de sala.
Um dos assistentes duvidou e elle, então, exclamou a sorrir:
—Ah! sim, pois agora vou dizer a verdade... Isto é dynamite!...
Os convivas entreolharam-se receiosos, o bufo espertou as orelhas e durante alguns segundos fez-se o silencio das grandes occasiões. O anarchista voltou á carga:
—Querem experimentar?...
O panico augmentou. Os assistentes, como movidos por uma unica mola, recuaram os bancos d'um metro... O bufo procurou abrigo n'uma outra meza. O silencio e a anciedade eram de esmagar o mais animoso. Percebia-se claramente que toda a freguezia do café queria pôr-se a salvo, mas que toda ella tambem não queria passar por medrosa. O bufo, esse, pingava suor por todos os póros.
O anarchista, sempre risonho e zombeteiro, pegou cautelosamente no rolo de chocolate, raspou-o com a unha e destacando uma particula insignificante collocou-a na pedra da meza. Depois accendeu um phosphoro e approximou a chamma d'essa minuscula substancia ameaçadora. Houve uma ligeira crepitação, a chamma lambeu por completo o ingrediente e em seu logar ficou apenas um pó amarellado que o anarchista sacudiu com um guardanapo. Nada mais... nem ruido, nem fumo, nem cheiro que se percebesse sequer ao de leve.
A assistencia readquiriu a tranquilidade, o bufo permitiu se um sorriso de troça pelo medo que antes experimentára e toda a gente se convenceu de que o anarchista mystificára o publico do café, impingindo-lhe qualquer coisa inoffensiva por um dos mais terriveis explosivos da actualidade. Toda a gente, sem exceptuar o bufo... E, no emtanto, presados leitores, o rolo côr de chocolate era mais do que sufficiente, quando applicado em circumstancias especiaes, para fazer voar, feito em migalhas, um quarteirão da rua do Ouro!
Mas... prosigamos na narrativa da propaganda exercida pela Associação Carbonaria Portugueza. O comité Alta Venda, uma vez bem minado o bairro de Alcantara, passa a Belem e delega no pharmaceutico Abrantes o encargo de reunir proselytos em infantaria 1, lanceiros 2 e cavallaria 4. As iniciações são ás dezenas entre soldados, cabos e sargentos. Os officiaes, mais difficeis de conquistar, representam-se na Carbonaria em reduzido numero. Os de cavallaria, então, possuem tal fama de thalassas que, durante um largo periodo, ninguem se atreve a palpital-os. Em lanceiros 2 a organisação revolucionaria conta apenas com um; em cavallaria 4 com dois e um d'elles em commissão fóra do regimento. O resto permanece fiel á monarchia e ao monarcha.
Após Belem, funda-se uma barraca exclusivamente destinada aos alumnos militares—cadetes e aspirantes. É uma força disciplinada, consciente, conhecendo bem o manejo das armas e que tem o merecimento especial de ser o processo mais facil e seguro de alliciar futuros officiaes. Muitos dos officiaes novos que mais tarde apparecem implicados na revolta de 4 e 5 de outubro procedem d'essa barraca para onde haviam entrado quando alumnos da Escola do Exercito. As entrevistas d'esses carbonarios com os chefes do movimento realisam-se em regra no jardim do Campo de Sant'Anna ou no jardim do Matadouro. Os alumnos da Escola do Exercito entendem-se directamente com o ajudante de instructor, tenente de cavallaria José Ricardo Cabral, e devem constituir, no momento opportuno, um batalhão de élite armado com as Mausers-Vergueiro existentes na Escola em numero de quatrocentas. Os da Polytechnica entendem-se com um cadete que, por seu turno, se relaciona intimamente com o tenente David Ferreira. Este official distingue os conjurados pela maneira especial como elles lhe fazem a continencia.
A barricada na Rotunda
A barricada na Rotunda
Um episodio curioso: o maior numero de iniciações de estudantes militares é feito n'uma casa da rua Paschoal de Mello, residencia d'um guarda fiscal, dedicadissimo á ideia. N'esse predio a policia captura tres paisanos filiados na Carbonaria e o irmão do dono da casa; mas não fareja convenientemente essa pepinière de revolucionarios e os briosos estudantes que ali se reunem para conspirar conseguem escapar ao rigor da Bastilha.
O plano de acção esboçado para essa legião ardente e generosa é simples, mas arriscado. Ás tantas da noite marcada para o inicio do movimento, um automovel deve levar á Escola do Exercito as munições de que os estudantes necessitam; a chegada do vehiculo corresponderá para os revolucionarios ao signal da insubordinação. Os audaciosos rapazes teem que arrombar a casa das armas e conter quietos e calados os officiaes de serviço e alguns estudantes reaccionarios; teem que proceder com cautela para não despertar antes de tempo a atenção da guarda municipal aquartelada em Cabeço de Bola; os estudantes da Polytechnica e do Instituto Industrial aguardarão nas immediações da Escola do Exercito o momento de se juntarem aos seus collegas...
Na tarde de 15 de julho de 1910—em que se suppõe azado o ensejo de fazer rebentar a bomba—um grande nucleo de estudantes militares organisa uma reunião no Jardim Botanico. Um d'elles, delegado pelos restantes, recebe a incumbencia de ir falar ao almirante Candido dos Reis e declarar-lhe que estão todos promptos a iniciar o movimento, sahindo á rua ainda que isolados. Á primeira vista, talvez esta declaração pareça uma fanfarronada. Mas não é. Os estudantes revolucionarios teem parentes, paes, irmãos, etc., em todos os corpos da guarnição de Lisboa e não julgam crivel que a dedicação a um principio absurdo conduza ao sacrificio dos entes mais queridos... O delegado dos estudantes ao falar a Candido dos Reis nota que o almirante o escuta com as lagrimas nos olhos. Candido dos Reis ouve a declaração peremptoria e energica do delegado e depois exclama commovido:
—E assim se perde este povo! O que o senhor me diz agora, já m'o repetiram hoje dezenas de creaturas!...
É que o almirante não supporta em 15 de julho de 1910 o adiamento da revolta, como de resto o já não tinha supportado em 28 de janeiro de 1908. Convencido em absoluto de que a Revolução conta suficientes elementos para triumphar, não comprehende como, possuindo-se esses elementos, alguem hesite em lançar fogo ao rastilho da bomba...
Para a barraca organisada com estudantes militares, o revolucionario de elite que é Pinto de Lima contribue com uma grande parcella do seu esforço individual. Esse rapaz modesto, em cujo olhar scintilla a fé viva do propagandista incançavel, apparece-nos pela primeira vez collocado no plano que justamente lhe compete, por effeito de uma phrase elogiosa de João Chagas. O eminente publicista acaba de nos resumir por uma fórma brilhante, clara e suggestiva, o prologo do movimento de 4 e 5 de outubro, quando o seu olhar, fixando-se em Pinto de Lima, que ao nosso lado o escuta, toma uma expressão inilludivel. «É preciso salientar o papel que elle assumiu na revolução», diz-nos João Chagas, «trabalhou como poucos e a Republica deve-lhe muito».
Estas palavras na bocca d'um homem que, como João Chagas, as não prodigalisa sem sinceridade, são o melhor diploma a qualificar a actividade e a energia do valente rapaz. De resto, Pinto de Lima não exerceu apenas a sua acção junto dos estudantes militares. Conquistou para a boa causa dezenas de soldados, cabos e sargentos, entrou nos quarteis a arranjar proselytos e ainda na madrugada de 5 de outubro, quando entre as forças acampadas no Rocio lavrava a mais perigosa incerteza, elle por lá andou animando, encorajando e preparando o terreno para um desenlace victorioso.
Com o regresso de Machado Santos do ultramar, o aspecto e a fórma da propaganda da Carbonaria mudam por completo. Machado Santos substitue o engenheiro Antonio Maria da Silva nos trabalhos de Alcantara, disciplinando fortemente esses elementos, imprimindo-lhes toda a força da sua fé e da sua coragem. O numero de adhesões cresce de maneira assombrosa. Machado Santos faz prodigios; não descança, não trepida, não hesita. Chega a expôr-se... Auxiliam-no Augusto Rodrigues e Franklin Lamas. Após esse grandioso trabalho de Alcantara, examinados os relatorios, o comité Alta Venda conclue que esse bairro constitue um baluarte inexpugnavel. É tempo de lançar as vistas para outros pontos. Cabe a honra á infantaria 16. Machado Santos toma a seu cargo a tarefa, auxiliado por Antonio Meyrelles e o soldado José, hoje sargento por distincção, e faz comicios, verdadeiros comicios aos soldados, na Serra de Monsanto, a que assistem dezenas de homens de artilharia 1 e d'aquelle regimento. Em artilharia 1 é auxiliado por Armando Porphirio Rodrigues, enfermeiro do hospital inglez, onde o engenheiro Antonio Maria da Silva inicia o 2.º tenente José Carlos da Maia e varios outros. Em engenharia, a propaganda é feita pelo alfaiate Antonio dos Santos e pelo Oliveira dos bonnets. Em infantaria 5 é o cabo Benevides; na guarda-fiscal o soldado Domingues e, em todos os regimentos, a Carbonaria conta dentro em pouco com elementos de superior valia. O numero é assombroso e a qualidade é fina, excepcionalmente corajosa e dedicada.
Fóra de Lisboa a propaganda da Carbonaria tambem é intensissima. Malva do Valle, Carlos Amaro, Carlos Olavo, Pires de Carvalho, Manuel Alegre, Mario Malheiros e outros formam a Junta Carbonaria da Região Central que abrange Aveiro, Coimbra e Vizeu. Por esse tempo tambem já existem nucleos poderosos em Vianna do Castello, Braga e Villa Real de Traz-os-Montes, distinguindo-se n'este ultimo os revolucionarios Adelino Samardan e Antonio Granjo. Ao sul forma-se o nucleo de Evora, mercê dos esforços de Estevão Pimentel que não tarda a trocar o conforto da sua casa abastada pelas sensações e perigos do proselytismo; auxiliam-no n'esse trabalho insano de todas as horas o dr. Feliciano Caeiro e o sargento Andrade, um bravo do Cuamato. Em Beja, distingue-se na propaganda revolucionaria o dr. Pereira Coelho; no Algarve, em Faro, o tenente Stockler, o tenente Cerqueira e o dr. Gil. Mas, soccorramo-nos mais uma vez das informações do engenheiro Antonio Maria da Silva:
José Nunes
viajante Alvaro Mendes que «Ainda no Norte é o caixeiro José Nunes Auctor de diversas bombas explosivas estabelece 20 choças carbonarias, entre as quaes se destaca a do Entroncamento, por causa dos elementos da Escola Pratica de cavallaria que inicia. Em Santarem é o capitão de artilharia 3, Figueiredo, o agronomo Veiga e o dr. Queiroz, secretario geral do governo civil. É Malva do Valle quem impulsiona fortemente a Carbonaria Central. Em Estremoz é tambem Estevão Pimentel que inicia varios sargentos de cavallaria 3 que foram denunciados por um camarada, sendo transferidos. Em Lisboa organisa-se o comité dos correios e telegraphos, sendo meu auxiliar Amandio Junqueiro. Distingue-se o carbonario Lameiras, telegraphista, auxiliado por Balduino da Matta, Jacintho Henriques, Moysés Teixeira, Lorena Queiroz e Gualberto Pires. Merece tambem especial menção a barraca Garibaldi, onde trabalham Antonio Francisco dos Santos e o publicista Ribeiro de Carvalho, iniciando um numero consideravel de empregados dos electricos.»
Surge a difficultar a marcha do proselytismo o famoso caso de Cascaes. É esse caso que põe inesperadamente o juiz de instrucção criminal na pista dos trabalhos da Associação Carbonaria Portugueza; é elle egualmente que contribue para que na imprensa appareçam pela primeira vez vagas indicações sobre a constituição organica das associações secretas. Vem a proposito pormenorisal-o.