A Revolução Portuguesa: O 5 de Outubro (Lisboa 1910)
As bombas de João Borges eram pagas pela «Joven Portugal»
As bombas de João Borges eram
pagas pela «Joven Portugal»
Em primeiro logar, rememoremos os factos... Foi, como já dissémos, na tarde d'um domingo morto que a policia commandada pelo juiz de instrucção pôz em alvoroço a rua dos Correeiros, investindo contra o deposito de explosivos que João Borges ali estabelecera. O juiz tinha ido ao cemiterio acompanhar um enterro. Em meio da cerimonia funebre, appareceu-lhe um guarda da judiciaria, enviado pelo chefe Ferreira, e disse-lhe qualquer coisa ao ouvido. O juiz surpreendido, chamou o Cyro, que andava proximo, e, largando o enterro, veiu até á travessa da Palha com o ar preoccupado de quem trazia um mysterio na consciencia.
No local do crime, procedeu com o mais completo alheiamento da gravidade das circumstancias. Subiu a escada do predio suspeito e teria ido até ao quarto de João Borges sem dar por coisa alguma, quando o Cyro lhe indicou o criminoso, que tambem caminhava em direcção ao aposento, placido, sorridente, com aquelle ar de desimportado que tão nitidamente o caracterisa. O juiz mandou-o prender e, assim que se encontrou dentro do deposito, olhou em volta e teve um gesto de receio. As bombas accumulavam-se em grande quantidade—eram ás duzias. Mas o João Borges, que lhe seguia ironico os movimentos, apressou-se a socegal-o:
—Não tenha medo... estão descarregadas.
O mais modesto dos policias teria desconfiado n'esta altura que o deposito dos explosivos tentava liquidal-o, deixando que elle proprio provocasse a acção destruidora d'um d'esses engenhos. Mas o juiz não pensou em tal. Para provar que era homem sem medo, sorriu-se como o João Borges e, pegando n'uma bomba, revirou-a cuidadosamente nos dedos. Depois ainda fez umas considerações de caracter philosophico sobre a propaganda libertaria que o Cyro, valha a verdade, não percebeu, e sahiu da rua dos Correeiros para se internar no seu gabinete da Bastilha, a reflectir maduramente na descoberta, que, segundo confessou logo no dia seguinte, lhe fôra indicada pelo presidente do conselho, pelo chefe do governo.
A noticia da diligencia espalhou-se ao começo da noite por uma fórma extraordinaria. A seguir á prisão de João Borges, a policia fez outras capturas, quasi todas no mesmo local da primeira, e a Bastilha principiou a trabalhar, avida e tenazmente, na descoberta dos cumplices do proprietario de tanto cylindro metallico destruidor. Para os que estavam no segredo do caso, a prisão de João Borges era uma consequencia natural da sua insouciance. Desimportado como sempre fôra, admirava até que ha mais tempo a policia o não tivesse incommodado e chamado a capitulo. Mas, para a maioria, a diligencia policial envolvia um ponto de interrogação que a carta n'outro logar reproduzida assignala por maneira inilludivel.
As forças revolucionarias na Rotunda
As forças revolucionarias na Rotunda
No domingo á noite, nos centros de cavaco, o caso foi discutidissimo. E como o juiz, n'uma nota para a imprensa, affirmasse que João Borges lhe confessara ter fabricado explosivos para os utilisar logo que ao governo Teixeira de Sousa succedesse um governo reaccionario, estabeleceu-se immediatamente uma corrente de opinião que um dos commentadores eventuaes do caso resumia d'este modo:
—A scena passou-se assim... O Teixeira de Sousa, por intermedio do Alpoim e este por intermedio de um dos seus antigos companheiros de lucta no 28 de janeiro, conseguiu que o João Borges, de boa fé, arranjasse as bombas. Logo que soube que ellas estavam prestes a servir, denunciou o fabricante ao juiz de instrução e com a declaração attribuida ao João Borges de que as bombas só rebentariam sob as patas de um ministerio reaccionario, faz o seu jogo no paço e consegue facilmente convencer o rei D. Manuel de que, emquanto elle estiver no poder, nada tem a receiar por parte dos elementos mais avançados;
Outra versão dava o João Borges identificado com a policia para armar uma pavorosa e d'essa, por influencia de diversos libertarios, se fez echo a maioria dos jornaes. Mas em todas ellas surgia sempre esta pergunta maliciosa que, no simples enunciado, lançava immenso veneno nas intenções do revolucionario preso:
—Quem lhe deu o dinheiro para o fabrico das bombas? Aquillo custa caro... O João Borges não tem cheta...
Por outro lado, a maneira serena e até chocarreira como o preso encarava a sua prisão, a attitude quasi de desafio que elle, ironico e desdenhoso, lançava á policia, quando esta, atormentada e preoccupada, o arrancava á esquadra do Caminho Novo para os interrogatorios no juizo de instrucção, tudo isso chocava a opinião seria e pacata, predispunha-a pessimamente contra a victima da Bastilha. Se João Borges, ao atravessar as ruas de Lisboa n'essa peregrinação estopante, longe de se sorrir para os amigos e conhecidos, bem disposto, com o ar de quem não teme as garras da auctoridade, evidenciasse uma gravidade de compostura equivalente á gravidade da sua situação, então, sim, então é que a opinião seria e pacata o olharia como um martyr da Ideia e o lastimaria por não haver chegado ao fim da sua obra demolidora.
Ninguem ou quasi ninguem se recordava de que João Borges evidenciara desde a sua apparição nos centros revolucionarios essa insouciance do perigo a que já nos referimos; ninguem ou quasi ninguem fazia reviver na memoria esse traço nitido da sua individualidade e que João Borges, para explicar ao primeiro curioso que o defrontasse o funccionamento de uma bomba, raras vezes olhava primeiro em volta a verificar se algum bufo o espreitava. E como não era natural que a pessoa ou pessoas que o tinham auxiliado monetariamente no fabrico das bombas viessem n'essa altura proclamar em publico e raso a verdadeira proveniencia do dinheiro que a opinião seria e pacata via constantemente ao lado do tal ponto de interrogação, as entrelinhas sobre João Borges, as phrases reservadas a respeito do seu procedimento esvoaçavam de grupo em grupo, creando-lhe uma atmosphera antipathica.
Ia longe o tempo em que a descoberta d'um deposito de bombas correspondia ao silencio receioso da grande maioria e revestia um tal caracter de coisa sensacional que poucos, muito poucos mesmo, se atreviam a referir-se-lhe sem palavras de condemnação. Mas se esse tempo já ia distante, o certo é que só uma infima parcella de revoltados encarava desassombradamente a prisão de João Borges. O resto encolhia-se n'uma prudente apreciação, vaga e indefinida... não fosse a historia futura revelar que o dinheiro utilisado na compra dos materiaes indispensaveis á confecção dos engenhos sahira do cofre da Bastilha, da burra do sr. Antonio Centeno ou da caixa do Quelhas...
Dois ou tres jornaes acabaram por dissipar taes receios e desconfianças. Dois ou tres artigos, um d'elles escripto por José Barbosa—um dos membros do Directorio do Partido Republicano— rehabilitaram na grande massa o fabrico dos explosivos e salientaram a coragem dos fabricantes. E era justo que isso se fizesse. Não se comprehendia que, uma vez lançados no caminho da actividade revolucionaria todos os homens que se dicidiam em dado momento a auxiliar a implantação da Republica, os que promoviam essa implantação na cupula d'uma chefia organisadora os abandonassem á ferocidade da Bastilha e os não soccorressem com o incentivo de um elogio, que, até certo ponto, lhes podia dulcificar as agruras do carcere. Se n'outras epocas de preparação da Revolta, os acontecimentos se não desenrolaram com a mesma logica e os dirigentes d'essa preparação procuraram, antes de se solidarisarem com graves responsabilidades, afastar do seu campo de acção o menor indicio de convivencia com libertarios, no caso de João Borges—justo é consignal-o—a honestidade de consciencia sacrificou quaesquer pensamentos de cobardia e os bombistas tiveram a seu lado alguns dos homens que lhes haviam solicitado a necessaria collaboração. E um d'esses homens, assim que teve ensejo de transpôr triumphante os humbraes da Bastilha, a sua primeira démarche consistiu exactamente em libertar as victimas do juiz de instrucção, os revolucionarios que elle enclausurara por effeito do fabrico de explosivos. Tinha essa divida a saldar e saldou-a primeiro que a qualquer outra.
para o fabrico das bombas?... A Machado Santos Joven Portugal Machado Santos Afinal, quem forneceu dinheiro ao João Borges
(fracção da Carbonaria) por intermedio de Manuel Bravo. As bombas, importadas do estrangeiro, durante a organisação do 28, tinham provado mal—eram verdadeiras bombas de fancaria—e necessitava-se, para o novo movimento, de explosivos que cumprissem. Recorrera-se então á industria nacional, em que se occupavam não só aquelle revolucionario como outro de grande relevo em toda a agitação politica comprehendida no periodo de 1907 a 1910—o operario José Nunes. Falemos d'elle com alguma minucia, porque o merece.
Obrigado em 1908 a exilar-se em Africa para não cahir nas garras da policia, por lá andou algum tempo, luctando desesperadamente contra o clima, mas sem perder a confiança cega que possuia n'um proximo advento da Republica. Assim, logo que poude regressar a Lisboa e foi readmittido na Imprensa Nacional, continuou a trabalhar dedicadamente no fabrico de explosivos, aperfeiçoando-se n'uma arte que, para elle, já não tinha segredos.
Um dia o actor Vieira Marques procurou-o e convidou-o a fazer parte d'um grupo que se destinava a auxiliar praticamente a Junta Liberal na sua campanha de exterminio das ordens religiosas. Esse grupo, porém, não tinha a menor ligação com a Junta, que ignorava, em absoluto, a sua existencia. A Junta fazia a propaganda pela palavra e pela escripta; o grupo em questão propunha-se fazel-a pelo facto. José Nunes, que aliás não pertencia a nenhuma das divisões da Carbonaria, acceitou o convite e assim nasceram os Mineiros (seis individuos) dirigidos pelo photographo Virgilio de Sá.
As attenções do grupo fixaram-se principalmente em dois dos focos occupados pela reacção: o convento do Quelhas e a capella da travessa das Mercês. Tornava-se urgente destruil-os a ambos. José Nunes recebeu a incumbencia de preparar os apparelhos indispensaveis a essa destruição. O engenheiro dos Mineiros fabricou uma bomba enorme que mais tarde esteve exposta no Museu da Revolução—bomba que, sendo destinada ao Quelhas, devia, apoz a explosão, espalhar no ambiente grande quantidade de gazes deleterios. O actor Vieira Marques, tres noites consecutivas, aventurou-se a entrar na cerca do famoso convento, afim de escolher o local mais apropriado á collocação do engenho destruidor —visto que os Mineiros queriam poupar á tragica sentença as numerosas creanças ali internadas.
Para o ataque á capella da travessa das Mercês, José Nunes tambem principiou a confeccionar outro apparelho de identico poder combativo. E foi elle proprio que uma noite de novena entrou no templo, onde os frades da Aldeia da Ponte haviam estabelecido o seu quartel-general, e reconheceu o terreno. Mas nenhum dos dois projectos foi por deante, porque n'esta altura do periodo revolucionario, o engenheiro dos Mineiros recebeu convite do grupo Vedeta (filiado na Carbonaria) para lhe fabricar uma certa porção de bombas. O grupo Vedeta era dirigido por Carlos Kopke e Roque de Miranda. José Nunes devotou-se com enthusiasmo á satisfação da encommenda e a Revolução triumphante surprehendeu-o em meio do seu perigoso trabalho.