A Revolução Portuguesa: O 5 de Outubro (Lisboa 1910)

Capitulo XXII

Os ministros dispersam-se e buscam

abrigo em diversas casas

Pouco falta para concluirmos estas narrativas. Após o ataque da artilharia de Queluz, as forças revolucionarias installadas na Rotunda ainda despejaram umas granadas sobre o Rocio, não tanto com o proposito de investir a valer com as tropas de infantaria que desde a madrugada de 4 ali haviam acampado, mas principalmente para as provocar, para as obrigar a definir attitudes n'um momento, como esse, de anciosa espectativa. Os commentarios da opinião teem incidido frequentemente sobre o procedimento d'essas forças. Sabia-se que entre ellas se encontravam officiaes dedicados á ideia republicana, como o tenente Valdez e o alferes Gomes da Silva. E esperava-se a cada instante que qualquer d'elles se decidisse a um acto corajoso de auxilio ou de estimulo ás forças da Rotunda.

Na manhã de 4, ainda o capitão Sá Cardoso tentou realisar a approximação dos dois nucleos militares escrevendo um bilhete ao tenente Valdez e dizendo-lhe que esperava infantaria 5 pelo lado oriental da Avenida. Mas aquelle official respondeu que para acceder ao pedido necessitava passar com o diminuto numero de homens do seu commando pela frente das metralhadoras de caçadores 5, d'um esquadrão da municipal e d'uma outra companhia do seu regimento e desistiu de effectuar essa marcha arriscada, aguardando que se produzisse um ataque dos revoltosos para então fazer com elles causa commum.

Durante o dia 4, tanto infantaria 5 como caçadores 5 evolucionaram dentro da area da defeza do quartel general. Ao começo da noite, caçadores estava assim distribuido: na rua Augusta, guarnecendo o primeiro quarteirão, um pelotão do commando do alferes Gomes da Silva, pertencente á companhia do capitão Aguiar; na rua do Arco do Bandeira, a companhia do capitão Penha Coutinho, hoje em serviço na policia civica; na rua do Ouro e na rua do Carmo, a companhia do capitão May; na rua da Betesga, a do capitão Reis com a guarda fiscal; na praça dos Restauradores, o alferes Empis com duas metralhadoras. Era o momento em que os grupos de populares, já reconstituidos convenientemente— passados os primeiros instantes de desanimo—tratavam de incommodar as forças monarchicas ou que suppunham como taes, atirando-lhes bombas, disparando tiros de pistola, etc. E conta a proposito o tenente Valdez:

 

«No principio da noite fomos atacados por bombas de dois lados. Estabeleceu-se uma enorme confusão. Em vista da desmoralisação que reinava entre os soldados, muitos fugiram. Alguns, obedecendo ao plano, metteram-se nas arcadas. Muitos, por panico, fizeram um tal tiroteio e tão disparatado que eu e os mais officiaes escapámos não sei como. Uma bala sibilou-me aos ouvidos e roçou-me pela face. O largo limpou-se e eu reconheci com alegria que facilmente qualquer força entraria no Rocio. Como julgassem as forças extenuadas, ordenaram que alternassemos com a guarda fiscal que então pairava na estação do Rocio. Foi assim que fomos descançar para as trazeiras da mesma estação. Ali encontrámos um empregado a quem contámos as nossas torturas e desejos e como lhe manifestassemos as nossas intenções de fugir para a Rotunda pelo tunel, d'isso nos dissuadiu por motivo da chegada de um comboio que vinha de Queluz, avisando-nos tambem de que ali estavamos mal, por ser possivel virem n'esse comboio revolucionarios que podiam atirar-nos bombas do pavimento superior. Lembrou-nos fugir pelas escadinhas do Duque, mas, interrogado por nós sobre a existencia de quaesquer forças no trajecto, respondeu-nos nada saber. Tambem logo a seguir passava um esquadrão para esses lados.

«Posta de parte essa ideia, resolvemos esperar os acontecimentos, convencidos de que era inevitavel uma colisão entre as nossas forças e as dos revoltosos. Como fosse manifesta a desmoralisação das nossas forças, eramos rendidos das dez para as onze da noite por um outro batalhão do regimento, e eu fui com a minha companhia occupar a travessa de S. Domingos, reparando que alguns soldados tinham desapparecido, tendo aproveitado naturalmente as varias confusões que se deram. Fingi não dar por isso. Na nova posição soube que a artilharia de Queluz tinha collocado uma peça na rua do Ouro, outra na rua Augusta e que estava dispondo outra no local que deixaramos. As informações que recebiamos sobre a marcha dos acontecimentos eram deficientes. Nada de seguro nos diziam. Falava-se que o rei fugira para Mafra. Affirmava-se que os revoltosos tinham sido batidos. Realmente, n'essa altura, o tiroteio da Rotunda parecia diminuido e o facto do ataque da marinha ainda se não ter dado preoccupava-me immenso.

«Nas nossas forças não havia ainda mortos e os feridos eram poucos. O moral das tropas, especialmente das companhias que tinham estado na Avenida, era mercê dos trabalhos feitos, o mais favoravel a qualquer ataque. Na minha nova posição tornava-se facil a communicação com os officiaes, o que até então me era impossivel, visto achar-me distante d'elles. Esperançado, como sempre estive, da realisação do meu ideal, principiei a palpál-os e durante toda a noite, emquanto o canhão ecoava com estrondo no largo de Camões, não os larguei, reparando que quasi todos desejavam ver terminada uma situação de incerteza, não encontrando em nenhum d'aquelles a quem falei essa tão decantada fé monarchica. O primeiro official a quem falei foi ao tenente Americo Cruz, o qual, depois das considerações que lhe fiz sobre a enormidade dos acontecimentos, fuga do rei, tibieza dos chefes e sobretudo do sacrificio que ali estavamos cumprindo por um que, a essas horas, estava são e salvo, me respondeu com igual criterio, accrescentando que tinha já achado o commandante abalado.»

Na Rotunda, Machado Santos passava verdadeiras torturas, porque via diminuir-se-lhe a provisão de munições e não sentia que de fóra o auxiliassem como elle realmente necessitava. Quem entrasse ás dez horas da noite no acampamento perceberia claramente que se tinha attingido a culminancia critica do movimento revolucionario. Havia lá dentro mais gente do que na madrugada de 4. Havia mais disciplina, mais silencio commovedor, mais solemnidade, em summa. De vez em quando a grave quietude do ambiente era interrompida por uma descarga de fusilaria, a explosão d'uma granada ou o crepitar enervante das metralhadoras.

Machado Santos tinha entregue ao tenente Pires Pereira o commando da bateria e das linhas de fogo do lado da Avenida e ficara a vigiar as posições do norte e leste. De repente um dos predios novos d'aquella arteria incendiou-se casualmente e o clarão da enorme fogueira illuminou por algum tempo o acampamento revolucionario, até então immerso na obscuridade.

 

E que fazia, entretanto, o governo monarchico? O ministro da guerra installara-se no Quartel General da 1.ª divisão e d'ahi seguia absorto todas as phases da contenda. O presidente do conselho, depois de ter conferenciado com o general Gorjão e o seu collega da guerra, fôra para casa e antes de entrar no edificio soffrera o ataque de um grupo revolucionario que o deixou mal ferido. Dos outros ministros podemos dizer que vagabundearam por diversas casas amigas até o momento solemne da proclamação da Republica.

Proximo da meia noite, o tiroteio entre os dois nucleos de forças militares, o do Rocio e o da Rotunda, augmentou de intensidade. A artilharia monarchica tentou fazer calar a do Alto da Avenida, mas sem resultado. Adivinhava-se n'essa occasião que a victoria não tardaria a pertencer aos revoltosos. De todos os lados surgiam novos elementos de combate. Os organisadores do movimento, que na primeira hora de desanimo tinham dispersado, principiavam a acercar-se do principal fóco da contenda, procurando assim conservar-se mais em contacto com os seus adeptos. O Hotel Europa foi um dos pontos escolhidos para essa concentração dos vultos em destaque na acção revolucionaria. Para ali foram, ao começo da noite de 4, José Relvas, José Barbosa e outros que até então haviam tentado, na redacção da Lucta, reatar as ligações entre os revoltosos—interrompidas pela debacle do balneario de S. Paulo.

 

«A rua do Carmo, contou-nos mais tarde José Barbosa, era, n'essa noite, um ponto visado pelas tropas fieis ao antigo regimen. Um grupo de doze populares devidamente equipados protegeu-me e a José Relvas mais do que uma vez, sempre que tentámos vir á rua orientarmo-nos sobre a marcha da Revolução. E essa protecção foi tanto mais efficaz quanto é certo que d'uma das vezes as balas silvaram sobre as nossas cabeças. Depois da meia noite, installámo-nos no ponto mais alto do hotel. D'ahi viamos distinctamente as operações dos navios de guerra e apercebiamos todas as phases do tiroteio renhido entre as forças do Alto da Avenida e as do Rocio. Houve um momento em que a batalha assumiu taes proporções, que hesitámos sobre de que lado ia surgir a victoria. A escuridão deixava-nos desnorteados. Chegou Celestino Steffanina e fomos os dois para o meu quarto. Era preciso descançar; mas era impossivel! Da rua do Ouro vinham até nós, de mistura, com o fuzilar da infantaria, gritos de desespero, de agonia, d'uma tortura infinita. A situação, ahi pela 1 e 30 da madrugada, não podia ser mais angustiosa. Celestino Steffanina sahiu do Hotel Europa a colher informações.

«Entretanto, no Rocio, o elemento popular não cessava de atacar as forças ali estacionadas. Cabe referir que entre os meios de que a Revolução dispunha para triumphar, se salientava notavelmente a chamada artilharia civil, isto é, as bombas explosivas. Utilisadas como verdadeiras granadas de mão, posso affirmar, porque é a expressão da verdade, que os revolucionarios não praticaram com ellas nenhum acto inutil, não damnificaram qualquer propriedade, não as empregaram para satisfazer rancores individuaes ou represalias censuraveis. As bombas explosivas serviam para atacar as forças fieis ao antigo regimen e todas as que foram lançadas com exito visaram, naturalmente, a que essas forças não incommodassem sériamente os soldados da Republica.»

 

Ás 2 da madrugada, Paiva Couceiro foi chamado ao quartel general e o chefe do estado maior ordenou-lhe que antes do romper da manhã collocasse algumas das suas peças em posição conveniente para incommodar as forças installadas na Rotunda, propondo para esse effeito o pateo do Thorel. Antes, a força disponivel de cavallaria 4 e um esquadrão da guarda municipal fizeram um reconhecimento de accesso pelas calçadas do Garcia e de San'Anna. Ás 3 horas, Paiva Couceiro, a pedido de dois officiaes da infantaria que guarnecia o norte do Rocio, collocou duas peças na entrada da Avenida, junto das metralhadoras que ali estavam e com as restantes seguiu para o pateo do Thorel, installando-se no jardim do palacete do sr. Manuel de Castro Guimarães.

Emquanto isto se fazia, Pinto de Lima, Innocencio Camacho e Simões Raposo iam a bordo do S. Rafael communicar ao tenente Parreira que Machado Santos instava pelo immediato desembarque dos marinheiros. O tenente Parreira, n'essa occasião, já havia ordenado o desembarque d'um grande nucleo de civis, que sob o commando do capitão Nascimento, da administração militar, devia impôr a rendição ás praças monarchicas que guarneciam o Museu de Artilharia. O S. Rafael suspendera para proteger esse desembarque e tencionava collocar-se em frente do Terreiro do Paço, bombardear o Rocio, enfiando os tiros pela rua do Ouro e rua Augusta e depois effectuar o desembarque d'uma forte companhia de guerra, constituida pelo maximo das forças disponiveis dos trez cruzadores revoltados, sob as ordens dos tenentes Parreira, Sousa Dias, Maia e do medico Vasconcellos e Sá, que se offerecera para commandar um pelotão.

A chegada a bordo de Pinto de Lima, Innocencio Camacho e Simões Raposo fez apressar os preparativos para o desembarque. O tenente Parreira mandou prevenir os grupos populares que estacionavam no Rocio, ruas Augusta e do Ouro, de que ia começar o bombardeamento, e o mesmo emissario, Pinto de Lima, recebeu a incumbencia de communicar na Rotunda a proxima juncção das forças revolucionarias. Pinto de Lima desempenhou-se da primeira parte do encargo, isto é, da prevenção do bombardeamento e ao passar no largo de S. Domingos, em direcção á Rotunda, teve ensejo de falar a um major que commandava, a pequena distancia do quartel general, um troço de tropas monarchicas e disse-lhe o que se ia em breve passar.

—O que? retorquiu afflicto o major... A marinha vae bombardear-nos? Diga isso ali ao coronel.

 

menos surpreza que o outro official: Paiva Couceiro Paiva Couceiro Pinto de Lima assim fez e o coronel mostrou não

—Mas eu já adheri!... Para bordo já foi um official de caçadores!...

E logo a seguir, como quem toma uma resolução energica:

—É preciso mandar outro official ao S. Raphael... O senhor acompanha-o n'essa missão?...

Pinto de Lima acceitou gostosamente o novo encargo e lá foi rua Augusta abaixo acompanhado do emissario do coronel, doido de contentamento, dando vivas á Republica. Era o momento em que já vinham de bordo o alferes Gomes da Silva e o commissario naval Marianno Martins. O que determinara a démarche d'esse official revolucionario junto do tenente Parreira? Descreve-o elle proprio do seguinte modo:

«Cêrca das 6 e 30 da manhã de 5, o tenente coronel Peixoto reuniu os officiaes para lhes participar que infantaria 5 se negava a fazer fogo e que em presença d'esta deliberação desejava ouvir os seus officiaes. Fez-se na corporação um silencio que foi roto quasi simultaneamente pelo capitão Penha Coutinho e por mim, que dissemos que era tambem a opinião dos nossos soldados. Ao ouvir as nossas palavras, respondeu o tenente-coronel Peixoto que n'este caso era melhor retirarmos.

«Ditas estas palavras enfiei pela rua Augusta e ao chegar ao Terreiro do Paço fui immediatamente cercado pelo povo, a quem communiquei o que se passava e dirigi-me a bordo do S. Raphael, aonde participei aos tenentes Parreira e Souza Dias que infantaria 5 e caçadores 5 se tinham negado a fazer fogo, e portanto achava asado e propicio o momento para desembarcar os marinheiros e tomarmos o quartel general. Não sem reparos pela estranheza que esta communicação lhes causava, apesar de ser conhecido de um d'elles como official implicado no movimento, exigiram-me a palavra de honra que as tropas do Rocio não fariam fogo sobre elles, mas era-me absolutamente impossivel acceitar tão grande responsabilidade, porque a resolução de ir a bordo havia sido tomada por mim por entender propicio o momento de obter a submissão do quartel general.

«Respondi-lhes, entretanto, que viesse um d'elles comigo ao quartel general, onde poriamos tudo a limpo. Foi acceite este meu alvitre e parti, acompanhado pelo commissario naval Marianno Martins, para o quartel general, onde vimos ainda arvorada a bandeira branca, tendo já retirado caçadores 5, restando apenas infantaria 5, que, comtudo, já estava cercada pelo povo, a quem o tenente Valdez havia dado entrada pela rua de S. Domingos...»

Approximava-se o momento da rendição. Não tardaria que a bandeira branca do quartel general fosse substituida pela da Revolução triumphante.