A Revolução Portuguesa: O 5 de Outubro (Lisboa 1910)
Capitulo XIX
O desespero de Candido dos Reis
condul-o ao suicidio
Tem-se dito por vezes, embora com todas as cautelas possiveis, que o elemento popular falhou na Revolução de 4 e 5 de outubro. E cita-se, em abono d'esta asserção: 1.º o facto de não terem comparecido, na madrugada de 5, no local previamente designado, os civis que deviam acompanhar o almirante Candido dos Reis e outros officiaes a bordo dos navios de guerra; 2.º a circumstancia da guarda municipal ter conseguido sahir dos quarteis, pouco depois de iniciado o movimento, quando, pelo plano estabelecido, os grupos de paisanos deviam impedir essa sahida ou, pelo menos, retardal-a e tirar-lhe, por assim dizer, a utilidade do momento.
A asserção não é fundada. O elemento popular não falhou. A Revolução, se tinha de ser feita com o povo e com a tropa—o povo abrindo o caminho á tropa—triumphou exactamente porque as melhores energias populares não trepidaram no instante supremo. Os civis não compareceram, é certo, no ponto marcado pelo almirante Candido dos Reis; mas não compareceram, e isso já é do dominio publico, porque receberam na noite de 3 ordens em contrario. De resto, a sua acção fez-se sentir efficazmente n'outro ponto de Lisboa e o assalto aos navios de guerra não dependia absolutamente da sua presença ao lado do almirante. Para obstar á sahida da guarda municipal, havia escalonados diversos grupos, constituidos cada um d'elles por uma duzia de homens, uns armados e outros não. Esses grupos tinham recebido o encargo mais perigoso na distribuição dos papeis revolucionarios: o de defrontar em primeira mão a furia do inimigo. Eram verdadeira chair á canon e deviam iniciar o combate á hora em que ninguem sabia ainda com precisão quaes os regimentos fieis á monarchia e quaes os que adheriam á Republica.
Governo Provisorio da Republica Portugueza
Governo Provisorio da Republica Portugueza
Esses homens cumpriram o seu dever. Não obstaram completamente á sahida da municipal, porque receberam na hora propria armamento insufficiente e o itinerario do inimigo soffreu modificações, mas conservaram-se firmes no seu posto durante longas horas de espectativa angustiosa, correndo a todo o instante o risco de se lançarem na lucta antes d'um signal de esperança e sem saberem se seriam ou não secundados. E uma vez dispersos, muitos d'elles foram procurar outros sitios de combate, onde se portaram com inexcedivel coragem e bravura. Falando d'alguns d'esses homens que foram seus companheiros na primeira noite da revolta, dizia dias depois do triumpho o dr. Carlos Amaro:
—Deve-se-lhes, principalmente, a força de fé indomavel que foi o segredo da victoria e não ficar sendo a Revolução uma obra exclusiva do heroismo militar.
E com effeito. Os civis estiveram na Rotunda ao lado de Machado Santos, dando-lhe uma parcella de auxilio que o heroico revolucionario certamente não desconhece; estiveram em Alcantara investindo contra as forças organisadas da monarchia; entrincheiraram-se no quartel de marinheiros e arrostaram o ataque da guarnição do paço das Necessidades; foi um grupo de paisanos que denodadamente acompanhou um arrojado official de marinha, o 2.º tenente Tito de Moraes, a tomar conta d'um dos navios de guerra; os civis é que assaltaram o D. Carlos; na madrugada de 5, foram ainda os grupos de populares que incommodaram as forças militares acampadas no Rocio; e por ultimo, os paisanos distinguiram-se no arriscado serviço de communicações durante esse periodo de cruel incerteza em que cada passo dado na area da insurreição correspondia ao sacrificio de tudo, desde o amor da vida ao amor da familia.
Contou-nos José Barbosa, assim que se dissiparam os fumos do combate: na madrugada de 4, apoz a dispersão do quartel general revolucionario, quando elle, desalentado, entrava para o seu escriptorio da rua do Loreto, viu um grupo de homens agitar-se com as armas na mão, em frente da guarda municipal que guarnecia a Caixa Geral dos Depositos. Esse grupo de homens não ignorava, decerto, que o seu acto era requerimento para uma execução summaria. E comtudo, realisava-o ardorosamente, enthusiasticamente, desprendendo-se da existencia com um desapego notavel.
Outro caso: Machado Santos estava na Rotunda sem saber o que occorria nos diversos pontos da cidade. Pensava já em mandar um emissario dedicadissimo á busca de noticias e não occultava o seu aborrecimento, provocado pela falta de informações. De repente, apparecem no acampamento dois rapazes e elucidam os revoltosos sobre a situação. Esses dois rapazes tinham ido a pé do Dafundo ao Alto da Avenida, e ali se conservaram, até á proclamação da Republica.
E outros, muitos outros casos poderiamos citar, evidenciando a energia de que o elemento popular deu provas nos dias 4 e 5 de outubro, expondo-se ás balas com uma coragem que por vezes roçou a mais extraordinaria loucura. Na tropa revoltada houve legitimos heroes; mas os civis não falharam como se apregoa insistentemente. Foram os obreiros humildes do movimento e só lhes resta, como premio de tanto esforço e sacrificio, a orgulhosa consolação de terem sido os primeiros a correr todos os riscos da aventura.
Folheemos agora uma pagina da Revolução, que, por muito discutida, nem por isso deixa de merecer n'estas narrativas um registo especial. Referimo-nos á acção do almirante Candido dos Reis nas primeiras horas do movimento, ao desanimo que o invadiu e á sua morte.
O valente official devia embarcar no Caes do Gaz acompanhado por uns dez militares agaloados e um grupo de civis. Estes não compareceram no local. Dos militares compareceram oito: o capitão de fragata Fontes Pereira de Mello, o tenente de caçadores Helder Ribeiro e os tenentes de marinha Silva Araujo, Carvalho Araujo, Aragão e Mello, Monteiro Guimarães, Sousa Junior e Assis Ferreira. O primeiro a chegar foi o tenente Carvalho Araujo; Candido dos Reis, que, após a reunião da rua da Esperança, fôra ao Centro de S. Carlos e de lá a casa d'umas pessoas de familia residentes n'uma rua da Estephania, encontrou-se á meia noite n'essa casa com o tenente Helder Ribeiro. Depois de breves palavras sobre o movimento projectado, um e outro trataram de carregar as armas, dois revolvers, de que estavam munidos.
Falou-se mais tarde, a proposito da morte do almirante, que o ferimento encontrado na autopsia e a bala alojada dentro do craneo denotavam que Candido dos Reis se servira para o provavel suicidio d'uma pistola automatica. O tenente Helder Ribeiro é de opinião que elle não possuia tal arma. «E—diz o arrojado official—a rasão é simples: quando quiz carregar o meu revolver pedi-lhe algumas cargas do revolver que elle tinha na mão. Cedeu-m'as, mas, como não servissem, trocámos ligeiras impressões sobre a precipitação com que o armamento fôra distribuido aos revolucionarios. Era natural, portanto, que, se elle tivesse na occasião outra arma que não esse revolver vulgar, m'a emprestasse para eu não sahir á rua, como sahi, quasi desarmado».
Pouco depois da meia noite, o almirante Candido dos Reis e o tenente Helder Ribeiro sahiram da casa da rua da Estephania e encaminharam-se para o Aterro. Um vapor de pesca devia conduzir os officiaes revolucionarios a bordo dos navios de guerra. Qual era? Dil-o o 1.º tenente Carvalho Araujo n'uma entrevista que concedeu a um jornal da manhã:
«Esse vapor era o Chire, que eu procurei ao longo da muralha, apenas ali cheguei. N'esta rapida busca encontrei-me quasi de cara com uns individuos, gente caracterisadamente de bordo, e eu, julgando tratar-se de tripulantes do Chire, dirigi-lhes a senha: Mandou-me procurar? Elles, porém, não me responderam o Passe, cidadão! que os devia denunciar como gente nossa... Aquelle mutismo fez-me recolher prudentemente, e assim me conservei até que chegaram os meus collegas, a quem o almirante, em breve, mandou embarcar no Chire.
«N'esse vapor chegaram a entrar alguns d'esses officiaes; lembro-me muito bem: foram o Silva Araujo e o Sousa Junior, que por signal d'ahi a pouco voltaram, com esta estranha noticia: o Chire tinha as caldeiras apagadas... Houve um momento de quasi indignação e,—porque não dizêl-o?—de desanimo... Mas em breve nos refizemos, e, por um excesso de boa vontade, accordámos em que nos tinhamos enganado no nome do vapor—e n'este numero estava Candido dos Reis, que no emtanto se mostrou visivelmente contrariado... Embora! Nem assim se esmoreceu. E, um pouco ao acaso, fomos caminhando para o Dinorah, na esperança de que fosse aquelle o vapor que nos esperava. Recordo-me de que quem entrou ali foram Candido dos Reis, Monteiro Guimarães e eu...
«—Um momento—interrompeu o jornalista entrevistador—Isso realisou-se, é claro, depois do assalto?...
«—Do assalto? Mas se não houve assalto nenhum...
«—Parece-me, no emtanto, que me falou n'um assalto, quando ha pouco fazia a descripção geral d'essa jornada...
«—Sim, falei n'um assalto, mas para negar que tal se desse, em contrario do que parece deprehender-se de varios depoimentos. Nós entrámos no Dinorah sem que ninguem, fosse quem fosse, nos impedisse o passo...
«—E uma vez lá dentro...
«—Mal punhamos pé no navio, um homem da tripulação veiu ter comnosco e, sem mais preambulos, com uma grande tranquillidade, que bem se via não ser a de um iniciado, diz-nos: saberão vv. ss. as que o vapor não está navegavel...» O almirante estacou n'um pasmo e depois disse ao Monteiro que descesse á casa das caldeiras a certificar-se...
«—E era certo?
«—Um pouco. O Monteiro trouxe debaixo a noticia de que na verdade o Dinorah não tinha ainda pressão, mas poderia abalar dentro de meia hora... N'estas circumstancias os officiaes resolveram esperar. E como os outros collegas tinham ficado no caes, o almirante mandou-me que os avisasse de que o vapor era o Dinorah. Desembarquei, indo pela muralha adeante, em procura dos officiaes. Não estavam já no mesmo ponto onde pouco antes os deixara. Tinham achado prudente desviar-se um pouco, porque ali começava a concentrar-se a guarda fiscal, e tinha os seus perigos uma tal visinhança... Estavam junto da cancela da linha ferrea, e, para provar que me não escapou o mais pequeno pormenor d'essa noite, direi que já lá encontrei o Monteiro Guimarães, a quem o almirante mandara com uma ordem identica e que chegou antes de mim, por eu ter perdido alguns minutos procurando os officiaes na muralha. No momento em que transmittia a ordem do almirante ouviram-se no rio os primeiros tiros de peça... Em terra já tinhamos tambem percebido o ruido da fusilaria.
«Quasi ao mesmo tempo ouvia-se, em artilharia 1, nove tiros... Contámol-os, offegantes, e, n'um grande alvoroço, ficámo-nos depois á escuta, esperando o resto.... Mas nada mais se ouviu, o que levou um dos officiaes a exclamar: «Dir-se-ia o signal das forças fieis...» (Correra entre os officiaes que o signal das forças monarchicas eram nove tiros de artilharia...) Mas estava escripto que aquella noite seria para nós de dolorosas surprezas... No mesmo instante appareceu-nos, vindo de fóra, das ruas, um collega que nos deu noticias vagas, mas muito desanimadoras...
«—Quem era esse official?—perguntou-lhe o jornalista.
«—O tenente Aragão e Mello, homem que foi a alma revolucionaria dos navios, no periodo da organisação. Porque, creia isto: no trabalho de preparação dos espiritos houve muita heroicidade, muita valentia que mereciam historia. O perigo não existiu apenas dentro das horas de combate; existiu tambem, e permanentemente, durante a obra de aliciação, que se fez, dentro dos navios e dos quarteis, á custa de sacrificios tremendos. O Aragão, destacadamente, arriscou tudo, expondo-se temerariamente, n'uma quasi loucura! Era vigiado, olhado com desconfiança, e para isso concorria a clara falta de disciplina com que as praças se lhe dirigiam, n'um quasi «tu cá, tu lá» nascido das reuniões... O Aragão foi-se do caes, e, incançavel, expondo-se sempre, andou pelas ruas, entrou nos quarteis, a sondar os acontecimentos; soube depois que voltou lá abaixo, porém em occasião em que já lá não estava nenhum official.
«—Essa ultima affirmação vae contra outras, que dão o tenente Aragão falando da muralha para Candido dos Reis, e dizendo-lhe: «Meu almirante, basta de sacrificios! Infantaria 16 está fuzilando o povo!»
«—O Aragão não pode ter communicado com o almirante. Pelo menos não o fez emquanto lá estivemos. Quem lhe falou foi o Helder que, a nosso pedido, se dirigiu ao Dinorah a levar as ultimas noticias, e as resoluções d'um pequeno conselho de officiaes que reunimos n'essa occasião para apreciar immediatamente os acontecimentos.»
Esse conselho decidira adiar o embarque por mais algum tempo até os officiaes alcançarem noticias exactas sobre o que se estava passando n'outros pontos de Lisboa. As suas resoluções, claro é, ficaram, no emtanto, dependentes do arbitrio do almirante. O tenente Helder, depois de conferenciar sobre o assumpto com Candido dos Reis, voltou para junto dos seus camaradas da marinha e communicou-lhes que o almirante desistia do embarque. É o proprio tenente Helder quem nos refere esse incidente da revolta:
«—Carlos Candido dos Reis desanimara e no meio d'esse desanimo ouvi-o proferir estas palavras:
«—Está tudo perdido... Não podemos effectuar o desembarque da marinha, porque os dois vapores não vão junto dos navios de guerra; infantaria 16 conserva-se fiel á monarchia; artilharia 1 não adheriu; dos outros regimentos não ha signal de cooperarem na revolta. Falhou a tentativa... O melhor agora é todos nós voltarmos cada um para sua casa, mas de modo que a policia não nos surprehenda.
«E voltando-se para mim e outros officiaes:
«—Os senhores podem desembarcar já. Eu ainda me demoro no vapor alguns minutos...
«Insistimos com elle para que saltasse immediatamente em terra, mas o almirante teimou em conservar-se a bordo do rebocador, e só sahiu de lá quando dispersámos no Aterro...»
Momentos depois, Candido dos Reis, sempre inquieto e desanimado, estava á porta da casa de banhos em S. Paulo. Sahindo do Dinorah, com a obcessão,—chamemos-lhe assim—de que o movimento abortára, fôra até ali, não esperançado em obter noticias que o reconfortassem, mas para ouvir os outros revolucionarios e combinar com elles o partido a tomar em taes circumstancias. Talvez se extranhe que o valoroso almirante houvesse succumbido logo após a primeira contrariedade—elle, tão energico, tão cheio de fé, tão dedicado á propaganda republicana, em summa, tão devotado á organisação revolucionaria. Mas, Candido dos Reis soffrera com o 28 de janeiro uma desillusão profunda e ao perceber que falhara o assalto aos navios de guerra —esse assalto que elle julgava indispensavel ao bom exito da revolta—não se conteve e exclamou, fóra de si, n'um arranco de patriotica indignação:
—Já não ha portuguezes!...
Em S. Paulo, Alfredo Leal encontrou-o á porta do balneario, ao lado de Soares Guedes, com os braços cruzados e em attitude pensativa. D'ahi a pouco, appareceu no local o dr. Affonso Costa, que extranhou vêl-o ali, á hora em que o programma revolucionario o mandava ir a caminho dos navios de guerra. Candido dos Reis respondeu-lhe contristado:
É verdade, estou aqui porque perdi a esperança no movimento e não sei o que devo fazer. O meu logar era no caes, ao pé da Companhia do Gaz, onde devia encontrar-me com os officiaes. Mas em vez de preparativos da revolta eu apenas observei as evoluções da policia e da municipal, e tenho o presentimento de que está tudo perdido.
Todos trataram de o serenar a tal respeito, e o dr. Affonso Costa aconselhou-o a metter-se no automovel com Alfredo Leal, a fim de verificarem o que se passava nos principaes pontos revolucionarios. Foram e nada notaram de animador. Logo adeante de S. Paulo encontraram dois policias fardados, que pareceram desconfiar do automovel. Proximo do quartel de marinheiros apenas havia grupos de seis ou sete populares. No caminho da Estephania e de Arroyos esbarraram com piquetes de policia e guarda municipal que investigaram o auto com olhares prescrutadores. N'essa altura, Candido dos Reis voltou a mostrar-se desanimado, expressando-se, pouco mais ou menos, n'estes termos:
agitação revolucionaria, só se vê a General Antonio do Carvalhal General Antonio do Carvalhal —Extranho isto. Em vez de
policia e tropas de prevenção. Comandante da 1.ª Divisão Militar
Presinto que vamos ser assaltados
e que terei de dar um tiro nos
miolos. Você, Leal, não acha ridiculo que eu vá acabar n'uma esquadra de policia? Isso de forma alguma. Sahi para me bater, e ou hei de morrer na revolução ou hei de liquidar a vida pelas minhas proprias mãos.
Alfredo Leal tratou novamente de tranquilisal-o, mas Candido dos Reis insistiu na ideia do suicidio:
—Para uma esquadra, nunca... antes a morte!...
Como era arriscado andar na rua áquella hora, Alfredo Leal aconselhou o almirante a recolher a casa e esperar ahi noticias do movimento. O almirante concordou e n'esse sentido dirigiu-se o automovel para a rua D. Estephania, dizendo Candido dos Reis ao seu companheiro:
—Bem. Eu vou para casa de minha irmã, n'esta mesma rua, n.º 153. Você vae saber o que ha de novo, e, se a revolução estiver em bom caminho, mande-me prevenir.
Quando o automovel ia a parar á porta do n.º 155, a attenção do almirante foi despertada por um facto extranho. A porta da rua estava aberta e um vulto desapparecia, n'esse momento, no limiar. Tanto Candido dos Reis como Alfredo Leal viram distinctamente esse vulto e ficaram hesitantes durante algum tempo, conjecturando sobre o que seria. Por fim, Candido dos Reis, tranquilisando-se, a si proprio, resolveu entrar em casa. Alfredo Leal ainda esperou que o almirante fechasse a porta atraz de si e depois metteu-se de novo no automovel, scismando apprehensivo no vulto que pouco antes vira. Seria um espião da policia?... Alfredo Leal ficou com a impressão de que se tratava realmente d'uma creatura assoldadada para vigiar o almirante. O que succedeu depois, conta-o elle d'este modo:
«Como achasse imprudente voltar no automovel á casa de banhos, resolvi dirigir-me a casa de meu irmão, em Santos, e ali ordenei ao chauffeur que seguisse para o local onde se combinára estacionar. Mal ouvi a fuzilaria, parti, a pé, para uma casa da travessa da Palha em que se reuniam alguns revolucionarios. No caminho, tive a felicidade de encontrar o automovel do irmão de Innocencio Camacho, que ia para o mesmo destino, e tomei logar ao lado d'elle. Apenas chegado, contei a João Chagas e outros o que se tinha passado, e como n'essa altura já o tiroteio fôsse violento em toda a cidade, consultei os outros sobre a maneira de prevenir Candido dos Reis. Assentou-se em mandar um popular de confiança, porque, sendo eu conhecido da policia, podia esta deter-me no caminho e impedir que o recado chegasse ao seu destino. Com effeito fui procurar um republicano de confiança e encarreguei-o de levar o recado a Candido dos Reis. Deviam ser, n'essa altura, 3 horas ou 3 e meia da manhã.
«Pode calcular-se a anciedade com que ficámos esperando o regresso do emissario. Mais de duas horas passaram e o homem não chegava. Por fim, já muito inquieto, resolvi descer á rua e tive a felicidade de esbarrar com o emissario, que regressava todo afflicto. Não tive tempo de lhe perguntar o motivo da sua enorme demora. O homem desfechou-me bruscamente a noticia da morte de Candido dos Reis, descrevendo assim como se desempenhára da sua missão:
«—Quando cheguei á rua de D. Estephania, disseram-me ali que o almirante tinha sahido ás 5 horas da manhã. Tratei então de saber onde era a sua residencia, por calcular que elle tivesse seguido para lá. Passado pouco tempo avistava-me effectivamente com a familia, a quem fui encontrar no mais completo desolamento. Já lá tinha chegado a noticia de que Candido dos Reis apparecera morto e de que o seu cadaver fôra removido para a Morgue».
O que se tinha passado durante esse periodo de tempo que medeiou entre a entrada do almirante no n.º 153 da rua de D. Estephania e a apparição do seu cadaver na Azinhaga das Freiras, em Arroyos? O cadaver de Candido dos Reis, quando uns populares o ergueram do solo, estava estendido ao comprido e com os pés na direcção da estrada de Sacavem. Tinha o braço direito afastado do corpo e proximo do antebraço uma pistola automatica. No fato: uma bolsa de cabedal com 500 réis em prata, quatro nikeis de 100 réis e uma moeda de cinco réis nova em folha, e uma carteira com uma nota de 5$000 réis e varios papeis...
A primeira pessoa que topou na Azinhaga das Freiras com o cadaver do almirante foi o trabalhador João Augusto da Silva. Empregava-se ao tempo na reconstrucção d'um muro proximo e passou no local ás 6 e um quarto da manhã. A essa hora, a azinhaga estava deserta. Foi á arrecadação do material, distante uns quarenta metros, pegou n'uma pá e voltou para o amassadouro da cal, que era mesmo á esquerda. Candido dos Reis já estava estendido no chão e agonizava. O trabalhador João Augusto da Silva chamou então outros operarios, um servente requisitou a comparencia de dois policias da esquadra de Arroyos e, depois de se verificar que o almirante succumbira ao ferimento recebido na cabeça, transportaram o cadaver para a Morgue. Os dois policias tomaram conta da pistola automatica, da carteira e da bolsa a que atraz nos referimos.
Coisa curiosa: esse trabalhador, quando interrogado por um reporter sobre os pormenores que acabamos de registar, affirmou peremptoriamente: 1.º que ás 6 horas e um quarto da manhã a Azinhaga das Freiras estava deserta; 2.º que não ouvira nenhuma detonação durante o espaço de tempo que medeiou entre a sua passagem á primeira vez no local e o encontro do cadaver. Em contrario d'esta affirmação depôz a esposa d'um enfermeiro residente na rua de Arroyos, que disse o seguinte:
—No dia 4 de outubro, cheguei á janella ás 6 da manhã, esperando a leiteira. Vi que no passeio, em baixo, passeiava d'um lado para o outro, n'uma extensão de dez metros, um individuo vestido todo de negro, que, de quando em quando, me fitava, o que me obrigou a retirar para o interior da casa. Passados dez minutos, quando novamente á janella, vi esse individuo sentado n'um marco de pedra. Voltei dentro a buscar vasilha para o leite, e quando assomei á porta senti um estalido secco, a que não liguei importancia, tanto mais que só vi fugir alvoroçadas algumas gallinhas. Instantes depois, percebi certo borborinho. Cheguei novamente á janella, e o sr. Leitão, fiscal do hospital d'Arroyos, disse-me:
«—Está ali um homem morto. Parece-me que é tio d'uma empregada. Vou chamal-a.
«No emtanto, emquanto o fiscal se dirigia ao interior do hospital, desci á rua, e, ao vêr o corpo estendido no chão, exclamei:
«—É o homem que ainda ha pouco ali passeava defronte...»
Mas ou seja o que contou o trabalhador João Augusto da Silva, que o almirante surgiu na Azinhaga das Freiras ás 6 e 30 da manhã e, mal ali surgiu, cahiu moribundo, ou como contou a esposa do enfermeiro, isto é, que Candido dos Reis passeara algum tempo na azinhaga antes de morrer, a verdade é que parece nitidamente averiguado que n'esse momento de tragico desespero, no local do doloroso acontecimento, só estava o almirante. Mais ninguem. E sendo assim, é forçoso arredar da narrativa do caso a hypothese d'um crime. Fica, apenas, de pé, a do suicidio. E será admissivel essa hypothese? É. O almirante, depois de ter entrado na casa da rua D. Estephania, onde imprudentemente o deixou Alfredo Leal, recolheu ao quarto de dormir, mas não enfiou logo na cama. Esteve um pedaço a reflectir na situação, a ponderar no insuccesso do movimento—que elle suppunha absolutamente perdido. Depois deitou-se. Mas a idéa de que tudo liquidára n'uma desastrada aventura não o deixava pregar olho. Ás quatro da manhã, ouvindo o estrondear do canhão, ergueu-se e vestiu-se. E é natural que, n'esse instante, tendo recebido a impressão de que n'um determinado ponto de Lisboa os revolucionarios combatiam corajosamente contra o inimigo monarchico, ao seu espirito acudiu tambem a idéa de que os bravos assim lançados em declarada rebellião já o tinham talvez considerado, por o não verem a seu lado, um medroso, um covarde.
E então, Candido dos Reis, que trabalhara com alma e decisão n'uma longa preparação revolucionaria, como trabalharam Sá Cardoso, o capitão Palla, Machado Santos e outros, sacudido por essa idéa, magoado porque o pudessem suppôr o que elle nunca tinha sido, achando, certamente, que já era tarde para enfileirar condignamente com os que luctavam desde a 1 e 30 da madrugada, elle, que estivera inactivo até esse momento, julgou que desmerecera por completo no conceito dos seus amigos, dos seus camaradas, dos seus correligionarios e... suicidou-se. Repetimos: isto é uma hypothese que formulamos. Para nós, como para muita gente que seguiu de perto a discussão jornalistica que apoz a revolução se estabeleceu sobre o assumpto, a hypothese do suicidio é perfeitamente acceitavel. Para outros não: para outros Candido dos Reis foi victima d'uma cilada preparada pelos inimigos da Republica e argumentam que seria coincidencia muito extraordinaria que, a dois passos da victoria, desapparecessem exactamente duas grandes figuras da preparação revolucionaria,— uma, Miguel Bombarda, attingido por um doido, a outra, o valoroso almirante, esmagado pelo desespero.