A Revolução Portuguesa: O 5 de Outubro (Lisboa 1910)
Capitulo XVI
No momento culminante, o desanimo
invade os organisadores da revolta
A ultima reunião dos organisadores do movimento realisou-se na noite de 3 no terceiro andar do predio 106 da rua da Esperança, residencia da mãe de Innocencio Camacho, que elle, nas vesperas, transferira para Cintra, receioso de que os acontecimentos a envolvessem nas suas graves consequencias.
Na tarde d'esse mesmo dia Innocencio Camacho e José Barbosa tinham ido ao escriptorio do dr. Affonso Costa avisal-o, por incumbencia do almirante Candido dos Reis, da data fixada para a revolta. O dr. Affonso Costa ouviu attentamente a communicação ensaiando algumas vezes o santo e a senha e depois limitou-se a puxar d'um carnet e a escrever ali o numero do predio da rua da Esperança. Sabia perfeitamente o que se tramava, mas não calculava que o movimento rebentasse d'ahi a horas. Marinha de Campos, que José Barbosa tambem prevenira do facto, cumprindo egualmente uma determinação do almirante, metteu-se n'um automovel com Alfredo Leal e foi a Cintra chamar o dr. Eusebio Leão, que adoecera na vespera.
Ás 7 da tarde, emquanto o engenheiro Antonio Maria da Silva ia tratar de arranjar uns doze automoveis que eram indispensaveis para o serviço de communicações, João Chagas e José Barbosa foram jantar a um restaurante da Baixa, pretendendo dar uma tregua á agitação que os dominava. O que foi esse jantar não se descreve com facilidade. Decorreu tristemente, quasi silencioso, pois que até João Chagas parecia n'esse momento avaro da viveza e do espirito de brilhante causeur que o caracterisam. «Mal comemos, contou-nos mais tarde José Barbosa; e o pouco que ingerimos não tinha o menor sabor».
Ás 8 os conjurados principiaram a affluir á rua da Esperança. Innocencio Camacho appareceu mais cedo para abrir as portas e fazer as honras da casa. Os outros eram, além dos revolucionarios representantes da armada e de todos os corpos da guarnição da capital, Candido dos Reis, Affonso Costa, José Relvas, José Barbosa, João Chagas e Antonio José d'Almeida. Eusebio Leão, que viera de Cintra apesar da doença que o affligia, fôra deitado n'um sophá e ardia em febre. A sala, onde só cabiam á vontade dez pessoas, tinha apenas uma meza e sobre ella um candieiro de petroleo. Em volta da meza perambulavam cerca de cincoenta conjurados. A atmosphera era irrespiravel. Asphyxiava-se lá dentro.
Na reunião, Candido dos Reis falou com rara energia, accentuando nitidamente que se não fosse capaz de collocar-se á frente dos marinheiros e de os conduzir á victoria não tinha o direito de viver. Examinou-se a situação. Os revolucionarios contavam em absoluto com elementos de lanceiros 2, cavallaria 4, caçadores 2, infantaria 5 e caçadores 5. De infantaria 16 comparecera á reunião apenas um alferes e havia duvidas sobre se o regimento podia entrar desde logo na revolta. Infantaria 1 não adheria, mas tambem não contrariava a acção conjuncta dos militares e do povo. Dentro da sala, repetimos, abafava-se... Isso não impedia, entretanto, que todos os conjurados se mantivessem n'um estado de espirito que removia mentalmente quaesquer obstaculos que surgissem ante o projecto de insurreição.
A reunião acabou ás 10 e 30, dando-se alguns dos officiaes presentes rendez-vous na rua do Livramento, depois de se fardarem convenientemente. O movimento seria iniciado á 1 hora da madrugada com uma salva de 31 tiros dada pelos navios de guerra fundeados no Tejo, salva que teria o seu echo no quartel de artilharia 1. O Directorio e os outros elementos de organisação installar-se-hiam, como já dissémos, no balneario de S. Paulo, d'onde, uma vez iniciada a revolta, sahiriam para Alcantara e ao encontro do monarcha João Chagas, José Relvas e Affonso Costa. Tencionavam, n'essa altura, pegar em D. Manuel e mettel-o a bordo d'um navio.
Dissolvida a reunião, José Barbosa foi ao Centro de S. Carlos, encontrando ali tres officiaes de marinha que pediam armas. Como lhes fosse respondido que no momento as não havia, retorquiram immediatamente:
—Não ha duvida. Voltaremos, fardados, a buscal-as!...
E voltaram. No Centro tambem estava o engenheiro Oliveira, que em companhia de Alvaro Pope devia iniciar o ataque ao quartel de engenharia. De tarde, falaram na necessidade de arranjar um pé de cabra para arrombar a porta d'um edificio militar. O empreiteiro Oliveira, embora lhe repugnasse usar tal instrumento, tanto forcejou que o obteve e á noite lá estava no Centro com o pé de cabra, tranquilisando d'este modo a sua consciencia:
—Como é para servir a boa causa...
Candido dos Reis appareceu no Centro de S. Carlos ás 11 e 50. Combinou com Simões Raposo que este iria a Belem aguardar o inicio da revolta, a Belem, onde o pharmaceutico Abrantes, como já tivemos ensejo de registar, organisára um nucleo fortemente combativo e que depois falaria com elle na Rocha do Conde d'Obidos, dando-lhe Simões Raposo n'essa occasião conta do que se passasse n'aquelle ponto da cidade. Candido dos Reis ainda alludiu á morte do dr. Miguel Bombarda e elle e Simões Raposo assentaram em que esse facto doloroso não influira de modo algum no projecto da revolta, quer para a adiar, quer apenas para a modificar em determinado sentido.
Proximo da meia noite, juntaram se no estabelecimento de banhos de S. Paulo: Affonso Costa, José Relvas, Eusebio Leão, Innocencio Camacho, José Barbosa, Antonio José d'Almeida, João Chagas, Joaquim Pessoa, Celestino Steffanina, Ricardo Durão, Manuel Duarte, engenheiro Antonio Maria da Silva, Malva do Valle, Marinha de Campos, Alfredo Leal, Simões Raposo e Soares Guedes. Este revolucionario e Joaquim Pessoa tinham-se incumbido de arranjar os barcos necessarios para o embarque de officiaes e forças de marinha nos caes do Gaz e da Viscondessa. Não se faz ideia da agitação moral que a todos dominou durante a longa hora em que esse grupo de conjurados esperou que os navios ancorados no Tejo dessem o signal para o começo da revolta. Ao soar a 1 hora da madrugada, nada se percebendo, vindo do exterior, que lhes indicasse o cumprimento do que momentos antes fôra decidido, a anciedade recrudesceu. Vinte minutos depois, ouviam-se apenas tres tiros de peça; a seguir alguns tiros isolados que muito pouco podiam significar para a satisfação do seu espirito... Nada ou quasi nada do que fôra combinado se produzia. Os factos succediam-se por modo a fazer desesperar os mais optimistas. Até o primeiro regimento a sahir á rua era exactamente aquelle com que os organisadores do movimento menos contavam: infantaria 16.
Não constitue segredo para ninguem que os organisadores do movimento revolucionario tiveram um momento de desanimo, um momento em que suppozeram tudo perdido. Foi durante o espaço de tempo que decorreu entre a hora anteriormente marcada para o inicio da revolta e o alvorecer do dia 4, quando um nucleo de republicanos se defrontava já com uma fracção das forças fieis á monarchia. Esse momento, em que as melhores energias sentiram um desfallecimento semelhante ao do 28 de janeiro, marca uma étape curiosissima da Revolução.
No estabelecimento de banhos de S. Paulo—já o dissemos concentrara-se proximo da meia noite uma duzia de homens decididos e resolutos, tendo cada um d'elles uma missão definida a cumprir. D'ahi, d'esse quartel general, os revolucionarios partiriam ao signal combinado para diversos pontos da cidade a executar o plano fixado. Aguardavam, portanto, esse signal com a anciedade precursora dos grandes acontecimentos decisivos. Mergulhados quasi na treva, dir-se-hia que continham a respiração para evitar que do exterior surprehendessem o menor symptoma agitador. Um relogio proximo bateu a uma da madrugada e todos os ouvidos se apuraram. A incerteza, dominava-os. Escoaram-se alguns minutos que pareceram seculos. Do grupo destacaram-se então tres ou quatro que foram percorrer as immediações do balneario. Nada se percebia que denotasse o começo da refrega e o desalento—uma interrogação insatisfeita—pairava no ambiente.
Á uma e vinte, os tiros de peça que soaram no Tejo deram o alarme. Contaram-nos um a um. Não correspondiam ao que fôra planeado. Que se passaria a bordo n'esse instante supremo? Que significava esse troar d'artilharia que não tranquilisava os espiritos? Alguem aventou a ideia de que os tiros constituiam um signal pedindo soccorro. Mas soccorro para qual dos barcos de guerra? Evidentemente, um d'elles fôra atacado pelos outros e solicitava para terra urgente auxilio.
A situação complicava-se. Para mais, logo a seguir a esse alarme tudo recahira no silencio. A cidade dormia em plena paz. A curta distancia do balneario vigiavam mollemente tres policias. Affonso Costa, Alfredo Leal e Malva do Valle tomaram uma resolução: ir a Alcantara vêr o que se passava. Sahiram de S. Paulo n'um automovel e recommendaram aos que ficavam:
—Se dentro de vinte minutos não voltarmos, siga para o quartel de marinheiros outro grupo...
Foi o que succedeu. Affonso Costa, Alfredo Leal e Malva do Valle não regressaram ao balneario dentro do praso marcado e João Chagas e Antonio José d'Almeida, enfiando n'outro automovel, abalaram pelo Aterro adeante.
O silencio da madrugada ainda se não rompera com os echos do tiroteio. A meio do Aterro, João Chagas e Antonio José d'Almeida encontraram um official de marinha, que assistira, no 3.º andar da rua da Esperança, á ultima reunião dos conjurados. Andava agitadissimo d'um lado para o outro, como a procurar um ponto de embarque ou quaesquer amigos que já se lhe deviam ter reunido. Falaram-lhe e elle não occultou a sua decepção. Falhara tudo... O movimento liquidara n'um pessimo esboço de insurreição.
O automovel andou mais uns metros e estacou em frente do quartel dos marinheiros, do lado em que o edificio olha para o Tejo. As janellas do quartel estavam illuminadas. Um grupo de populares avançou ao encontro de João Chagas.
—Que ha?—perguntou-lhes o grande publicista.
—Nada... Absolutamente nada.
E um dos revolucionarios, apontando para o quartel, accrescentou:
—Ali parece ter havido qualquer coisa, mas agora está tudo em socego.
direito ao largo do Calvario. O regimento de João Chagas João Chagas O automovel poz-se de novo em andamento e foi infantaria 1 avançava sobre Alcantara dividido em duas porções. «Os soldados,—disse-nos João Chagas recordando os episodios d'essa madrugada de perfeita desillusão—davam mostras d'um cançaço extremo. Vinham derreados, sem ordem na marcha, moviam-se somnolentamente como se a noticia da revolta lhes tolhesse a vontade. Tinham o aspecto d'um corpo já derrotado, desfeito, por longos minutos de ataque renhido».
Do largo do Calvario, o automovel foi á Praça d'Armas. «Suppunha—é ainda João Chagas que o diz—ir encontrar n'essa altura a reproducção d'uma d'essas revoluções francezas em que um bairro inteiro, iniciando o movimento, dava abrigo aos elementos insurreccionados. Calculava que n'esse reducto nos defenderiamos então até a ultima, depois de bem barricados contra os ataques do inimigo monarchico. Mas não... Alcantara, o bairro que eu sonhara para esse papel historico, parecia dormir serenamente, confiadamente, como se não suspeitasse da imminencia d'uma grave agitação».
Na Praça d'Armas, estacionava outro grupo de populares. João Chagas formulou a eterna pergunta:
—Que ha?
A resposta foi desanimadora:
—Nada... absolutamente nada. No quartel dos marinheiros houve qualquer coisa, mas agora está tudo em socego...
Era de desesperar. O socego do quartel dos marinheiros, após qualquer coisa de anormal, significava claramente que a revolta no edificio fôra promptamente suffocada. Não havia que insistir. O movimento falhara e quasi sem resistencia, sem um impulso de heroismo que o dignificasse na agonia. O silencio no local dizia-o melhor que quaesquer outros depoimentos. A menor tentativa de reacção, a produzir-se, teria sido assignalada no momento pelo estalar de uma bomba, pela percursão d'um gatilho, por um grito de triumpho ou de raiva...
O automovel rodou para o balneario de S. Paulo, a confirmar o insucesso do complot.
João Chagas mandou parar o vehiculo a certa distancia do edificio para não despertar suspeitas, mas, antes de entrar, foi abordado por um amigo que o aconselhou a retirar-se, affirmando que a policia cercava o balneario.
—E os outros?—inquiriu João Chagas, alludindo aos restantes revolucionarios que tinham ficado no quartel general.
—Os outros sahiram por uma porta das trazeiras... A policia não os apanhou.