Adolfo Caminha: um polígrafo do século XIX

Carlos Eduardo de Oliveira Bezerra · Capítulo 9 de 10

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Adolfo Caminha: um polígrafo do século XIX

Conclusão: Adolfo Caminha, autor-polígrafo

Conclusão: Adolfo Caminha, autor-

polígrafo

 

Jesus perguntou-lhe: Qual é o seu nome? Ele respondeu:

Legião! (Porque eram muitos os demônios que nele se

ocultavam).

(Lucas 8, 30)

Multipliquei-me, para me sentir, Para me sentir, precisei ser

tudo, Transbordei, não fiz senão extravasar-me, Despi-me,

entreguei-me,

E há em cada canto da minha alma um altar a um deus

diferente.

(Fernando Pessoa, "Passagem das horas")

Nos cinco capítulos que antecedem esta conclusão, procuramos reunir dados e argumentações que confirmassem a nossa tese, qual seja: a de que Adolfo Caminha foi um polígrafo na literatura brasileira do século XIX, no período de 1885 a 1897, constituindo-se como um autor segundo as circunstâncias materiais e intelectuais que o rodeavam. Esse período corresponde aos tempos de produção e de publicação do conjunto de sua obra como o definimos na introdução deste estudo. O objetivo de Adolfo Caminha era constituir o conjunto da sua obra e colocar-se o mais próximo possível do que, para a sua época, seria um autor profissional, que ele, de fato, não chegou a ser. Adolfo Caminha não viveu somente de sua escrita; a sua renda vinha do trabalho como funcionário público e era desse modo que ele e muitos dos seus pares das letras garantiam a vida.

Claramente, porém, Adolfo Caminha tinha ideia do que seria e de como seriam as atitudes do autor profissional, de como esse se colocava no campo literário de sua época, uma vez que ele tratou, de forma pioneira, dos direitos do autor, em seus artigos críticos. Foi nesses artigos que o seu desejo ganhou materialidade. Se Adolfo Caminha não viveu dos ganhos de sua atividade intelectual, havia a intenção de viver exclusivamente dela, por isso colocou-se contrariamente aos autores que chamou de boêmios. Esses, segundo Adolfo Caminha, não entendiam a literatura como um trabalho. Entre queixas e desejos, entre o presente possível e o futuro imaginado, entre viver e escrever, entre as armas e a letras, Adolfo Caminha constituiu no conjunto de sua obra um pensamento interno que o motivava a produzir, juntamente com outros pares de tensões que foram cultivados ao longo de sua vida. Esses pares, aliás, estão espalhados por tudo quanto produziu o autor em causa.

Em nossa leitura, a poligrafia foi o modo possível, encontrado por Adolfo Caminha, para fazer parte de um sistema ou campo literário no período citado. Foi ainda o modo encontrado para que ele passasse de escritor a autor, pois o que define o autor não é somente o ato de escrever. Ser autor é algo definido por um conjunto de forças existentes em sua volta. Ganhar o público e ganhar a vida com o que produzia pareciam ser preocupações que movimentavam Adolfo Caminha. Para um homem de letras, no Brasil do século XIX, estar em diversos "lugares" era a possibilidade de desenvolver a sua obra e também conseguir algum ganho financeiro, afinal, era preciso manter-se, manter a família e manter a escrita que resultava na sua obra e na sua passagem de escritor e autor. Da poligrafia, assim compreendida, surge também uma extensa rede de contatos com editores, jornalistas, críticos, gráficos, leitores, outros autores, fossem eles seus amigos ou inimigos. Nomes de autores e de títulos citados ao longo do conjunto de sua obra são indícios desse fato. Não são simples citações, são indícios, para retomar aqui o método indiciário de Carlo Ginzbourg, de que o autor não se faz sozinho.

O autor é como a andorinha do ditado popular ou o galo da poesia de João Cabral de Melo Neto. Na cena da morte de Adolfo Caminha, descrita por Sânzio de Azevedo em seu Adolfo Caminha (Vida e obra), estavam presentes Frota Pessoa, Nestor Vítor, Cruz e Souza e Oliveira Gomes. Isso não nos parece um mero fato. Mas demonstra o quanto fazer-se autor requer, além da escrita de textos, a participação em uma rede que não contempla somente a escrita, mas outros fazeres e saberes, entre eles o de estabelecer-se como sujeito nos campos literário, social, cultural, artístico e político de sua época. Compreendemos que esses campos se conectam, o que significa dizer que não acreditamos que arte se estabelece sozinha, e nessa crença está incluída a literatura. Há, por certo, os que advogarão ao contrário...

No caso de Adolfo Caminha parece-nos importante perguntar: Por que em suas "Crônicas de Arte" ele ocupou-se da pintura? Por que em seu romance A normalista as personagens cantam algumas músicas? Por que discutem sobre literatura? Por que fazem crítica literária? Haverá quem diga que se trata apenas de uma forma de constituir as personagens ou de dar sabor de referencialidade aos seus textos, o que, aliás, é uma característica do naturalismo literário. A necessidade da presença do referente tem sido a resposta mais constante para essas perguntas. Quem ler A normalista, por exemplo, encontrará referências à cidade de Fortaleza no século XIX: a rua do Trilho; o Passeio Público; o Colégio da Imaculada Conceição; a Escola Normal, o bairro do Benfica etc.

Essa resposta é coerente com a estética do naturalismo, sobretudo se o crítico considerar que Caminha foi essencialmente um naturalista. Mas, se considerarmos que ele foi também um romântico e um realista, cremos que é necessário ir além. E se considerarmos a sua poligrafia, é preciso dar passos mais largos. Na nossa opinião, esses nomes e obras são exemplos de uma cultura da escrita, da produção da escrita, que se efetiva sendo atravessada por forças diversas, incluindo-se nelas a força de escrever-se. Não raro há na sua obra e, notadamente, na sua crítica literária uma escrita de si, uma escrita sobre a escrita corrente em seu tempo, o que revela o caráter memorialístico daquilo que Adolfo Caminha produziu. Para fazer-ser autor no Brasil do século XIX era preciso também escrever-se. Falar de si no que produzia, falar das condições de produção e aqui voltamos mais uma vez ao item sobre o discurso do descontente. Parece-nos que foram as práticas geradoras desse discurso o motor que impulsionava a colocação política do autor. Política, é claro, como aqui apresentamos a respeito de Adolfo Caminha. Essas práticas não somente o rodeavam, elas estavam nele e em sua obra. O que nos faz, mesmo na conclusão do estudo, refletir e questionar: que tipo de campo literário produzia esse perfil de autor? E mais: que tipo de campo literário necessitava que esse autor permanecesse como tal?

Ser um político dentro e fora das letras, ser um editor, ser um leitor são exemplos dessas forças e da vontade de atuar no campo literário. Estar em todos os lugares para estar em um único lugar – a literatura – parecia ser, senão a única, a possibilidade mais viável para Adolfo Caminha. A cultura da escrita a qual nos referimos exigia dos homens de letras a interação com outros fazeres, que eram também portas abertas para a interação com outras artes e o contato com outros atores. Atuar na relação com esses outros campos era garantir também outros públicos. Além disso, a referencialidade já citada estabelecia um sentimento de reconhecimento entre leitores e obras, incluindo-se entre esses leitores os homens de letras do seu tempo.

Aqueles homens de letras presentes na cena de morte de Adolfo Caminha em algum momento também compareceram na sua obra. Se esse fato sempre foi lido dentro da equação vida+obra, cremos que ele pode ser lido dentro de uma outra equação. Justamente aquela que busca conhecer a história do processo de escrita. Ainda que seja reconhecida como uma prática acessória ou exterior aos estudos literários propriamente ditos, investigar a literatura com essas ferramentas nos parece válido, lembrando aqui da proposta de Roland Barthes para a atuação do crítico literário: a de dizer validades e não verdades. Trata-se de ver com olhos novos para um objeto supostamente conhecido, pois, como afirmou Bourdieu (2008, p.10): "O 'olho' é um produto da história reproduzido pela educação". Educar o olhar para ler de outros modos, por outros ângulos, ver o que não foi visto e o que já foi visto também pode parecer ambicioso, mas é uma proposta que o leitor pode realizar ou não.

A poligrafia expõe a dimensão humana do autor sem fazer relações diretas e explicativas entre a sua vida pessoal e íntima e a sua obra, o que, comumente, encontramos na fortuna crítica da obra caminhiana como pudemos ler na introdução deste estudo. Vale aqui também pensar em que tipo de campo literário insistia nesse perfil de autor. A poligrafia explica a obra, mas o faz de um outro modo que não aquele constituído pela equação vida+obra. Nela, a vida analisada foi a do autor, do sujeito que escreveu e se colocou por meio de seus textos na sociedade de sua época, compreendido também como um sujeito e uma categoria dos estudos literários historicamente constituídos e condicionados às circunstâncias materiais e intelectuais de seu tempo. Como um polígrafo, compreendemos que o conjunto da obra de Adolfo Caminha foi construído em dois movimentos: um movimento horizontal ou extensivo, que se apresentou, por exemplo, nos gêneros literários ficcionais que ele cultivou: o romance e o conto; nas práticas que resultaram em linguagens como a ficção e a metalinguagem, o que fez dele, por exemplo, um autor-crítico. No jornalismo noticioso e literário. No prefácio. Esse movimento horizontal também se expressou nos diversos objetos impressos que resultaram da escrita de Adolfo Caminha e da publicação de sua obra. Publicação nesse caso significa também dar ao escrito uma forma com a qual os leitores entram em contato com aquele ato inicial de escrever.

Se esse movimento estende, horizontalmente, a obra de Adolfo Caminha, o movimento vertical ou intensivo aprofunda os seus fazeres, criando intertextualidades, pontos de encontro, fronteiras, superfícies de aproximação, que não se dão somente no campo ficcional, mas também em campos da referencialidade, como o jornalismo, seja o noticioso, seja o literário. Foi graças ao método que utilizamos – a polileitura – que pudemos perceber esses movimentos, que são formados por binômios e por triangulações e por outras relações, que, se transformadas em figuras geométricas nos ajudam a perceber as suas ocorrências. Durante a escrita deste estudo, procuramos evidenciar essas figuras. Essas foram formas encontradas para constituir uma outra possibilidade de leitura, ou, como propôs Roland Barthes, uma outra "validade" de leitura da obra de Adolfo Caminha. Tentamos vê-la por dentro, na sua constituição. Assim, a obra deixa de ser explicada simplesmente pela vingança, como ocorreu com os seus romances A normalista e Bom-Crioulo. Compreendemos que essas explicações são próprias de um tempo, de um método e de um modo de compreender a literatura. São registros da recepção da obra, o que significa dizer do papel de seus leitores, muito mais do que os supostos fatos que motivaram Adolfo Caminha a construí-la. Mais do que nos perguntar pela intenção do autor, parece-nos importante perguntar pela intenção do leitor.

Na constituição da tese ocupou-nos a construção de um método que rompesse com essa leitura, que chamamos de crítica fundadora. O método encontrado foi a polileitura. Buscar compreender esses movimentos da constituição da obra caminhiana foi um dos desafios da escrita do trabalho, uma vez que focalizamos o nosso objeto pela suas dimensões externa e interna. Na nossa leitura, foi sobretudo aquele movimento vertical, citado anteriormente, que possibilitou a criação de um conceito de polígrafo que se fundamentou não somente nos diversos fazeres, ou melhor, nas diversas escritas que ele praticou, como nos parece acontecer com outros homens de letras de seu tempo, mas no diálogo dessas escritas, na contribuição de umas com as outras, no intercâmbio de matéria entre elas. Assim, a poligrafia, que pode ser um fenômeno encontrado em outros autores do mesmo período, encontrou na obra de Adolfo Caminha algumas especificidades, uma vez que nem todos os autores cultivaram os mesmos gêneros ou realizaram as mesmas práticas que ele. Ainda que o fizessem eram motivados por outros interesses e o faziam de modo diferenciado, uma vez que nenhum autor se sabe ou se coloca, premeditadamente, como um polígrafo. Buscando as especificidades de sua atuação como polígrafo, consideramos os seus fazeres e não as categorias encontradas comumente na fortuna crítica de sua obra. Focalizamos o político, o editor, o leitor e o crítico literário. Mesmo que sejam categorias estanques, são categorias novas na análise de sua obra.

A atuação de Adolfo Caminha como político não foi partidária. Trata-se de uma atuação política possível para um homem de letras. Essa sua preocupação serviu-lhe como matéria de crítica e de ficção. Os fatos históricos dos quais participou, notadamente a Proclamação da República, estão presentes na sua ficção e na sua crítica, no caso dessa, os primeiros anos do governo de Floriano Peixoto. Também consideramos a sua atuação como o editor, notadamente do jornal O Diário e de uma revista intitulada de A Nova Revista, na qual Adolfo Caminha não somente publicou vários de seus textos críticos, como teve a oportunidade de experimentar a atuação de editor, que ele tanto criticou em um de seus artigos de crítica literária.

No capítulo sobre o autor-editor, conhecemos as circunstâncias e as experiências de Adolfo Caminha nesse fazer. Nele, Adolfo Caminha teve a oportunidade de conviver com as letras e os números, uma vez que, na direção de O Diário, ele e seu sócio, R. d'Oliveira e Silva, esperavam alcançar algum lucro financeiro. Como já sabemos, a empresa faliu alguns meses após a publicação do primeiro número do periódico. Independentemente do malogro, Adolfo Caminha teve a oportunidade de ser um editor, experiência que se repetiu em A Nova Revista, que era um periódico apenas literário. Nesse caso, destacamos o fato do periódico ter servido a Adolfo Caminha como suporte para a publicação de outros textos críticos. Em A Nova Revista, ele teve também a oportunidade de publicar contos e poemas de autores simbolistas, o que, na história de sua fortuna crítica, parece destoar com o julgamento que foi comumente feito. Esse fato também expôs as contradições do autor, ou, como preferimos dizer, as suas tensões, demonstrando que Adolfo Caminha não passou incólume à encruzilhada literária do momento em que teve a sua obra publicada.

Associado aos simbolistas, Adolfo Caminha parecia movimentar-se ainda mais para as margens do campo literário. No entanto, essa movimentação pode ser compreendida também como as possibilidades oferecidas, o que reforça, ainda mais, o fato dele ser, como polígrafo, o autor possível em seu tempo. Escrever dentro das possibilidades ou apesar das impossibilidades, é esse o grande movimento vivido por Adolfo Caminha. Ao fazermos o arrolamento dos periódicos que foram comentados em A Nova Revista, pudemos constatar uma rede de relações estabelecidas no campo das letras, relações essas que remetem os leitores novamente para o campo político e, consequentemente, para o conhecimento de Adolfo Caminha como um autor-político nos termos aqui expostos. Essas relações são o exemplo de que o autor não se fazia somente pela sua capacidade de escrita. Um capítulo evoca o outro e a estrutura dialógica deste estudo se mostra como num contínuo movimento de ação e reação, de fluxo e refluxo, lembrando aqui daquelas palavras de Gilles Deleuze a propósito do livro, que nos servem de epígrafe no Capítulo 1.

Se nas histórias da literatura nacional os autores não costumam ser pensados como editores, e esses nem sequer aparecem nas suas páginas, o mesmo acontece com o autor como um leitor. Inserimos a prática da leitura na constituição do polígrafo por compreendermos que o autor-escritor não se faz sem o autorleitor. Pesquisas atuais a respeito da história do leitor e da leitura fundamentam essa perspectiva de tratamento do autor. O arrolamento dos indícios de leituras de Caminha nos permitiu compreender um pouco mais o seu processo de escrita. Procuramos nesse arrolamento e nos comentários realizados perceber as permanências e as modificações dos indícios de leitura de Adolfo Caminha. Para um autor que a história da literatura e a crítica literária localizou sobretudo entre os naturalistas, as recorrentes leituras românticas parecem desfazer essa localização tão exclusiva. Nesse sentido, as leituras de Adolfo Caminha parecem corresponder à sua escrita, uma vez que os seus dois primeiros livros são românticos. O arrolamento dos indícios de leitura de Adolfo Caminha nos ajuda a responder as questões a respeito de sua formação. A leitura, o gosto pessoal, a "cultura livre", nos termos criados por Pierre Bourdieu (2008, p.9), parecem complementar a sua formação nos bancos escolares da Marinha e explicar, ao menos em parte, como um marinheiro de formação se tornou um autor. A formação do leitor preencheu a lacuna da formação do estudante.

Por último, nos detivemos na atuação de Adolfo Caminha como um autor-crítico. Já em nossa dissertação de mestrado nos detivemos na relação da sua crítica com a sua ficção, notadamente nos seus livros Cartas literária e A normalista. Para que pudéssemos conhecer mais a sua atuação como crítico, faltava-nos a análise e problematização de alguns textos que não faziam parte das já citadas Cartas literárias. Foi esse conjunto ausente que incluímos no estudo. Nele pudemos constatar o desenvolvimento da crítica caminhiana para além daqueles dez anos de produção crítica que resultou em um dos títulos do conjunto da obra caminhiana, o que nos deu a compreensão de que Adolfo Caminha continuaria a dedicar à atividade de crítico, movimentando-se em outras direções, dirigido por outras forças.

Com as "Crônicas de Arte", o crítico deixou de dedicar-se somente à literatura e vimos entre esses seus artigos um dedicado à pintura, notadamente ao trabalho do pintor Oscar Pereira da Silva. Adolfo Caminha apresentou-se não somente como um observador da literatura de seu tempo, mas das artes em geral. Esse fato exemplificou para nós a sua intenção de entrar em contato com outros fazeres artísticos, o que significava entrar em outras arenas, mas também ter outras possibilidades de contato e, assim, continuar tentando constituir o conjunto de sua obra num sistema ou campo literário que lhe era possível.

Existir nesse campo de possibilidades exigia do autor o esforço de ser muitos ao mesmo tempo, uma espécie de autor-legião, como se apresentara o demônio no episódio bíblico do possesso e dos porcos. Era preciso uma legião de sujeitos e de seus fazeres para constituir um sujeito: o autor. Talvez, premido por algumas circunstâncias, tendo que defender-se dos seus críticos, como o foi Valentim Magalhães, Adolfo Caminha foi dando à sua obra outros rumos ao incluir nela outros fazeres. Tratava-se, talvez, de abrir janelas quando portas estavam sendo fechadas. Ver pelas janelas o que não via pela portas, escrever olhando através delas, mediado por espaços menores, tudo isso parece ter exigido de seu olhar um foco para aquilo que estava mais próximo, para a dimensão mais vizinha de si. Adolfo Caminha tematizou a cidade, a vida urbana e se o interior e a vida rural aparecem em sua obra é somente pelo modo de dizer o que a cidade não é. Um contínuo esforço de fazer-se, de colocar-se, de impor-se foi exigindo de Adolfo Caminha uma capacidade de multiplicar-se por meio da sua escrita ou, como aqui defendemos, das suas escritas, constituindo-se, desse modo, a poligrafia, que, na nossa opinião, constitui a principal característica de sua obra.

Nesse movimento contínuo em busca da constituição, notadamente no movimento vertical de que nos ocupamos, é possível constatar uma estética do aproveitamento, que se origina das superfícies de contato entre uma e outra escrita da sua poligrafia. É essa estética que configura um movimento interno da obra, uma costura por dentro, que não se mostra de forma contínua, como uma linha reta, mas uma linha feita de lacunas, de junções, de sobreposições. Foi essa linha que procuramos perseguir. Pensar o conjunto da obra de Adolfo Caminha dentro desses movimentos, dentro dessas linhas parece dar a ele uma nova dimensão, retirando o autor e o próprio conjunto de sua obra de recortes limitados e limitadores.

Procuramos nesse exercício, que foi a escrita do estudo, imaginar uma estrutura em constante movimento. Não negamos que muitas vezes imaginamos Adolfo Caminha (1999, p.18) trabalhando, talvez sentado em sua escrivaninha, no "penoso trabalho de gabinete, monótono e esfalfante, que produz sábios e loucos, literatos e tuberculosos", como ele mesmo escrevera em "Novos e velhos", dando-nos uma imagem do trabalho dos homens de letras, ainda que idealizada.

A imagem que nos ficou do autor, no entanto, não foi a imagem ideal, como essa que ele constituiu. O polígrafo não é esse ideal. Se o ideal de Adolfo Caminha era um autor estático, preso ao seu gabinete, ele mesmo foi um autor em movimento. Indo e vindo pelas ruas do Rio de Janeiro, pelas ruas de Fortaleza, indo e vindo entre o Rio e a capital cearense, indo e vindo do trabalho para casa, de casa para os encontros com os outros homens de letras com os quais convivia, mesmo que esses não fossem muitos, marginalizados ou não do sistema literário. Um autor em movimento, participando deles, fazendo-os e sendo feito por eles. Esse parece-nos que foi Adolfo Caminha.

Ainda que ele tenha condenado "a suave palestra, descuidada e livre, no beco do Ouvidor" (ibidem), a sua obra não parece ter sido constituída na inércia. Imaginamos um autor dividido entre a casa, o trabalho como servidor público, os jornais, que eram as salas de encontro dos homens de letras do século XIX, os encontros políticos... Imaginar essa movimentação foi essencial para a escrita do trabalho e buscar uma dinâmica que ajudasse também a constituir o método utilizado. Na escrita deste estudo, trabalhamos com noções de tensão, de força, de figuras para demonstrar este movimento. O mesmo esperamos ter feito com as relações entre fazeres.

Não sabemos, leitor, se conseguimos dar-lhe essa impressão. Se de um certo modo isso dá-nos o sentimento de falha diante da empreitada a que nos propusemos e, por favor, desculpe-nos por esse fato; por outro lado nos anima, porque não pretendemos impor-lhe uma leitura assim tão certa, uma imagem tão bem construída que não possa vir a ser questionada. Outros estudiosos de Adolfo Caminha virão, como virão também outros leitores, e essa nossa leitura sucumbira. Mas, somente assim, ela cumprirá o seu papel. Este trabalho, leitor, também foi escrito em movimento, entre São Paulo, Rio de Janeiro, Assis, Fortaleza e Aracati. Esse movimento também se deu na busca das fontes, nos arquivos e nas bibliotecas públicas e particulares onde pesquisamos. Não queremos com esta conclusão colocar um ponto final na discussão e sermos imperativamente afirmativos a respeito de Adolfo Caminha e de sua obra. Que o leitor, que nos acompanhou até então, tenha também a oportunidade de imaginar outras estruturas, outros movimentos, outras imagens, fazendo o seu exercício de leitura e de escrita, seja com Adolfo Caminha, seja com o autor de seu interesse... Despedimo-nos por aqui, leitor. Agradecemos a leitura e a atenção que nos foi dispensada.