Adolfo Caminha: um polígrafo do século XIX
4 Adolfo Caminha, autor-leitor
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Espírito coletivo. – Um bom escritor não tem apenas o seu
próprio espírito, mas também o espírito de seus amigos.
(F. Nietzsche, Humano demasiado humano: um livro para
espíritos livres)
Estou desempacotando a minha biblioteca. Sim, estou. Os
livros, portanto, ainda não estão nas estantes; o suave tédio da
ordem ainda não os envolve. Tampouco posso passar ao longo
de suas fileiras para, na presença de ouvintes amigos, revisitá-
los. Nada disso vocês têm de temer. Ao contrário, devo pedir-
lhes que se transfiram comigo para a desordem de caixotes
abertos à força, para o ar cheio de pó de madeira, para o chão
coberto de papéis rasgados, por entre as pilhas de volumes
trazidos de novo à luz do dia após uma escuridão de anos
justamente, a fim de, desde o início, compartilhar comigo um
pouco da disposição de espírito – certamente não elegíaca,
mas, antes, tensa – que estes livros desertam no autêntico
colecionador.
(W. Benjamin, Desempacotando a biblioteca)
...o último que vi foi as minhas mãos sobre um livro.
(J. Saramago, Ensaio sobre a cegueira)
– Que é que você está fazendo aqui, garoto?
– Nada.
– Então, por que está aqui?
– Porque estou.
– Já sabe ler?
– Sei.
– Quantos anos tem?
– Nove.
– Que é que você prefere: um chocolate ou um livro?
– Um livro.
(E. Canetti, Auto-de-fé)
Leitura e escrita na obra de Caminha
Caro leitor, agora você terá a oportunidade de conhecer um outro leitor: Adolfo Caminha. Assim, aparece mais uma face do polígrafo. Nas histórias da literatura, os autores não costumam ser pensados como leitores. Dito de outra forma: nelas, pouco se registra o diálogo entre as práticas de escrita e leitura concernente ao fazer autoral. Talvez, somente a partir das teses propostas por Hans Robert Jaus, a leitura tem sido pensada como parâmetro para a história e a teoria literárias. Mais recentemente, as pesquisas de Roger Chartier e Robert Darnton também enveredam por esse caminho, pois trazem para o centro de suas preocupações a leitura e a escrita como atos culturais, sociais e históricos.
A compreensão de que o autor é uma unidade-criadora parece impedir que estudiosos tradicionais da literatura pensem nele de forma descentralizada. Segundo a compreensão tradicional dos fatos literários, o autor é toda a fonte de criação, não lhe cabendo dialogar com outras fontes. Nessa compreensão, é unicamente dele que emerge a criação. Essa, por sua vez, se confunde com o ato de escrever, que não é pensado em suas relações com o ato de ler ou mesmo com os demais atos de escrever que resultem em outros textos que não os considerados como literários ficcionais ainda que produzidos pelo mesmo sujeito.
As práticas dos autores, no entanto, mostram-nos que a escrita não se produz sem a leitura. Conclusão óbvia, leitor? Possivelmente. Mas, de fato, pouco sabemos o que leram ou leem os escritores, sobretudo se dependermos das histórias da literatura para sabê-lo. Essas leituras feitas pelos escritores, ou parte delas, são direta ou indiretamente anunciadas em seus textos. Talvez seja por esse fato que Alberto Manguel (2006, p.150) considere os escritores como uma "subespécie de leitores" ao falar do lugar de onde escrevem:
Os aposentos em que os escritores (essa subespécie de
leitores) se cercam dos materiais de que precisam para seu
trabalho adquirirem alguma coisa de animal, à maneira de uma
toca ou ninho, tomando as formas de seu corpo e oferecendo
um receptáculo para seus pensamentos. Ali, o escritor pode
fazer a cama entre os livros, ser leitor monógamo ou polígamo
a seu bel-prazer, selecionar um clássico consagrado ou um
novato desconhecido, deixar argumentos pela metade, começar
por qualquer página aberta ao acaso, passar a noite lendo em
voz alta para ouvir o eco da própria voz sob o silêncio amigável
da lua tácita", nas famosas palavras de Virgílio. (grifo nosso)
Os modos de apresentar as leituras realizadas pelos autores prévia e simultaneamente ao ato da escrita são exemplos da constituição de uma importante rede de diálogo entre esses cidadãos da República das Letras. São também exemplos de aspectos da vida privada dos autores que chegam ao público. Talvez, como aspecto da vida de quem escreve, as leituras tenham sido o que menos interessou aos críticos, sobretudo se compararmos com dados a respeito da vida íntima dos escritores. Sabemos dos amores, das dificuldades financeiras, das dívidas, e muito disso já serviu para explicar as obras, mas nem sempre sabemos o que leram os autores ao escreverem os seus textos. Podemos dizer também que todos esses interesses pela vida dos autores são representações do que se faz nos bastidores da escrita, como o é também a leitura. E, aqui, quando dizemos representações o fazemos com base no conceito de Roger Chartier (2002, p.27):
Por outro lado, é preciso pensá-la [a definição de história
cultural] como análise do trabalho de representação, isto é, das
classificações e das exclusões que constituem, na sua
diferença radical as configurações sociais e conceptuais
próprias de um tempo ou de um espaço. As estruturas do
mundo social não são um dado objectivo, tal como o não são as
categorias intelectuais e psicológicas: todas elas são
historicamente produzidas pelas práticas articuladas (políticas,
sociais, discursivas) que constroem as suas figuras. São estas
demarcações, e os esquemas que as modelam, que constituem
o objecto de uma história cultural levada a repensar
completamente a relação tradicionalmente postulada entre o
social, identificando com um real bem real, existindo por si
próprio, e as representaçõs, supostas como reflectindo-o ou
dele se desviando.
Dito isso, então, lançamos as seguintes perguntas: 1 Quais seriam as fontes desses registros de leitura? 2 Como eles se apresentam no texto escrito? 3 Com eles, o que é possível compreender do processo de criação autoral? Feitas essas perguntas, vamos a algumas possíveis respostas. Primeiramente, lançamos algumas indicações de quais seriam as fontes dos registros de leitura. Uma delas seriam as cartas, que, trocadas entre autores ou entre autores e os demais sujeitos que compõem o diverso campo literário, revelam cada vez mais as leituras que realizavam ao passo que escreviam. Muitas vezes, esses registros estão presentes diretamente, chegando mesmo a ser indicados como leitura ao amigo com quem se corresponde. Assim, as cartas, são fontes importantes para a compreensão de como se faz a literatura por via da leitura. O autor, esse animal bípede, apoia um pé na leitura, o outro na escrita e, de par em passo, caminha; às vezes, ele salta sobre um pé só; às vezes, apoia-se em outro. E as circunstâncias da vida, entre elas as ações da história literária tradicional, podem torná-lo manco ou mais radicalmente coxo. São, talvez, os perigos do ofício.
Aos tipos de fontes que são as cartas, podemos juntar os diários, as memórias, as biografias e as autobiografias. Certamente, há nelas muito dos registros de leituras realizadas pelos autores. As citações constituem também uma fonte para o conhecimento da leitura dos autores. Citações diretas com nomes e títulos de obras, trechos de romances, versos de poemas e de tudo o mais que possa servir à escrita de um texto. Além disso, citar e ser citado é também uma forma de solidariedade entre os pares da República das Letras. A citação é uma forma de indicação do outro em si. É igualmente uma forma de crítica que diz, de um outro modo, que não o fundamentado no argumento e expresso na dissertação, o que se deve ler ou não ler. As citações fazem parte de uma economia da escritura, de uma engenharia que está por detrás da escrita ou também dentro dela. Ela é a expressão de um pensamento do outro, mas que poderia ser também de quem o cita. Há, desse modo, um reconhecimento dos/entre os envolvidos, uma incorporação da fala do outro, da escrita do outro, do pensamento do outro e às vezes do próprio outro quando esse é feito personagem. A leitura aqui é pensada como uma força formadora do autor. Uma força que atua externa e internamente à constituição da obra. Uma força externa realizada como forma de aprendizagem e uma força interna quando ela sai da aprendizagem e ganha as páginas da ficção.
A escolha de citar um trecho em detrimento de um outro, um autor no lugar de um outro é um ato objetivo, funcional, matemático em alguns casos. O mesmo se pode dizer da escolha de palavras. As citações juntam-se às epígrafes, aos textos de apresentação, às notas prévias, enfim, a todo o conjunto de paratextos, que constituem um texto sobre o texto, servindo como forma de reflexão e como textura, ou seja, constituindo uma camada que envolve o texto, que o cerca e o guarnece de pensamentos, máximas, expressões importantes para a sua compreensão e para a compreensão do trabalho do autor ou ainda como alavanca do momento de escrita, esse momento sempre difícil que é o começar. Quem escreve sabe o quanto uma epígrafe ajuda, incentiva. Para quem escreve, às vezes, uma epígrafe é como um primeiro tiro, um primeiro grito, não mortal ou de dor, é um tiro ou um grito que faça avançar uma multidão. Porque um autor é uma multidão. A epígrafe é também o registro do encontro entre o pensamento de quem escreve e lê à medida que escreve. Em todas essas possíveis fontes dos registros de leitura há o que podemos chamar de indícios de diálogo. Elas são talvez a exemplificação do que Nietzsche chamou de "espírito coletivo", como pudemos constatar na epígrafe deste capítulo. As fontes citadas são também exemplos das relações entre o "bom escritor" e seus amigos, naqueles termos propostos por Nietzsche.
No caso específico de Adolfo Caminha, porém, em quais fontes podemos conhecê-lo como leitor? As cartas não ficaram; os diários não ficaram, as memórias escritas pela sua própria mão também não ficaram, a autobiografia não ficou, não ficaram bilhetes. Não ficaram cadernetas de notas, rascunhos, marginálias etc. Uma fonte importante para conhecermos as suas leituras seria a sua biblioteca. Para um escritor, uma biblioteca, por menor e mais pobre que ela seja, significa muito. Não se trata apenas de uma biblioteca particular, doméstica, mas do registro daqueles livros que, mesmo estando em uma biblioteca pública ou na de outro escritor, continua junto de si, na sua memória. Ter os livros de Adolfo Caminha nas mãos, folheá-los, sentir as marcas deixadas pelo leitor que ele foi, ler alguma marginália, algum papelzinho entre as páginas, as ditas marginálias apensas, alguma página marcada por um lápis, seria uma oportunidade ímpar. Mas, assim como o seu corpo que se perdera, perdeu-se também essa possibilidade. Sumido o registro de onde fora sepultado o escritor, parece que igual destino tiveram os seus livros. Para quem foi considerado maldito, fim mais coerente não poderia haver. Mas a maldição no seu caso é também uma personagem da crítica que dele se ocupou ao longo de mais de cem anos de leitura de sua obra.
Infelizmente, um trabalho desse tipo, ou seja, que lide com a sua biblioteca, não pode ser realizado, pois não sabemos ao certo se seus livros foram roubados tão logo sua família e amigos saíram para sepultá-lo –" logo após a saída do féretro, ladrões entraram na casa deserta para saqueá-la, pouca coisa encontrando além de livros. [...] a família do escritor, desolada, não se alterou com isso: 'Já havia perdido tudo'" (Azevedo, 1999, p.15) – ou se um outro destino lhes foi dado, uma vez que não há em suas biografias nenhum registro a respeito. E por não o haver é que temos que encontrar uma outra possibilidade de o conhecer como leitor.
É, pois, pelo conjunto do seu trabalho como autor que poderemos ter algum conhecimento das leituras de Adolfo Caminha. Talvez o arrolamento de suas leituras nos ajudem a saber como o homem formado nos bancos escolares da marinha se tornou um autor de ficção e um polígrafo. Diante da perdas citadas anteriormente, só podemos conhecer Adolfo Caminha como autor-leitor a partir das referências que ele deixou no já dito conjunto de sua obra. Neste capítulo, arrolaremos somente os seus livros de ficção, uma vez que já comentamos parte de suas leituras registradas nas suas Cartas literárias em nossa dissertação de mestrado. Chamaremos essas referências de indícios de leitura, uma vez que não temos prova cabal de que ele tenha lido aqueles livros que citou em seus poemas, contos, romances e crítica literária. Tudo nos levou a crer que sim, que ele os lera, no entanto, como já dissemos, fonte segura não há.
Assim, valemo-nos dos procedimentos que Carlo Ginzburg (1989,
p.143- 79) nomeou como método indiciário1 para buscar na obra de Caminha os títulos que, supostamente, fizeram parte de suas leituras. O trabalho realizado, como veremos adiante, assemelha-se alguma coisa ao trabalho do arqueólogo, uma vez que precisamos levantar dados auxiliares, estabelecer relações intratextuais e extratextuais para conhecermos o funcionamento da leitura no conjunto da escritura caminhiana. Para tal, este capítulo foi dividido em duas parte: a primeira diz respeito ao Adolfo Caminha autor-leitor dos outros, uma vez que os indícios de leitura nos remetem aos livros de outros autores que ele supostamente lera e que os utilizou de modo direto e indireto em seus textos; a segunda parte diz respeito ao Adolfo Caminha autor-leitor de si, uma vez que realizamos um estudo comparado das edições das Cartas literárias editadas em jornal e em livro, como constataremos a seguir, a fim de saber o que o crítico, resguardado pelo pseudônimo C. A., afirmou de A. C, ou seja, de Adolfo Caminha, o autor.
É fato que o arrolamento dos ditos indícios de leitura de Adolfo Caminha nos leva a constituir, em princípio, um lista considerável de nomes, de títulos de obras, de trechos de romances, de versos de poemas e de citações indiretas que de algum modo nos remetam a autores e obras. Custou-nos levantar todo o material necessário e certamente alguns indícios foram pouco explorados. Procuramos também conhecer a recorrência dos indícios, o que nos faz pensar na tessitura de uma rede de leituras ao longo da escrita do conjunto de sua obra. Muito nos preocuparam as permanências de leituras, atravessando todo o conjunto investigado. Igualmente nos preocupou o uso específico de cada uma delas, apontando, desse modo, para um movimento contínuo de mudança no uso do que fora lido, mas também uma contínua permanência por mais redundante que possa parecer a ocorrência. Assim, à medida que escrevemos este capítulo, folhas e folhas foram usadas para constituir essas listas; a elas eram acrescentadas informações dos mais diversos textos, livros, dicionários, enciclopédias em língua nacional e estrangeiras como se pode constatar nas notas de rodapé.
O que o leitor encontrará a seguir é resultado desse trabalho com as listas prévias. É um texto em que encadeamos os indícios de leitura conforme eles foram aparecendo em cada obra. Talvez esse trabalho de fazer as listas seja explicado por aquele amor maior que o pequeno Franz Metzger, personagem do romance Auto-de-fé, de Elias Canetti, que neste capítulo também nos serve de epígrafe, tivesse aos livros em vez dos chocolates. Ainda assim, lembrando do longo trabalho de fazer as ditas listas, de percorrer os corredores da biblioteca, de procurar os livros em sebos eletrônicos e adquiri-los, enfim, de construir página a página este capítulo, conservamos para o tópico seguinte um título que lembrasse essa tarefa. Os leitores estão convidados a conhecer ao menos em parte esse percurso.
Uma lista a perder de vista
É preciso dizer, a bem da verdade, que fazer um arrolamento das leituras de Adolfo Caminha a partir de sua ficção já não é inédito. A lista dos títulos e nomes não é pequena e já houve quem iniciasse essa empreitada. Por esse motivo, vale bem aqui o registro do trabalho de quem nos antecedeu. Maria Letícia Guedes Alcoforado o fizera em sua tese de doutorado defendida, em 1982, na Universidade de São Paulo sob a orientação da professora Leyla Perrone-Moisés. Possivelmente, essa sua tese seja um dos primeiros trabalhos acadêmicos a ocupar-se de Adolfo Caminha como leitor e, salvo engano, um dos primeiros a ocupar-se dele como autor de ficção nesse nível de instrução acadêmica. No entanto, o seu arrolamento foi delimitado à análise dos três romances, atendendo assim ao objetivo de sua tese já expresso no título: As marcas da França nos romances de Adolfo Caminha. E que também se repete em seu interior como justificou a autora:
No corpo da tese, limitar-nos-emos à análise dos três romances
de Caminha, A normalista, Bom-Crioulo e Tentação, por
considerá-los a parte mais representativa de sua obra e
suficientes para permitir-nos pôr em destaque o trabalho
realizado por aquele escritor. (Alcoforado, 1982, p.9)
Em nosso estudo, além de procedermos o arrolamento e análise dos indícios de leitura presentes no romances já citados, incluímos os dois primeiros livros de Caminha – Voos incertos (primeiras páginas) e Judith e Lágrimas de um crente –, que Maria Letícia traz em suas referências bibliográficas, e ainda os indícios de leitura presentes no volume intitulado de Contos. A nossa leitura se diferencia da de Maria Letícia, seja pelo instrumental teórico utilizado, seja pela natureza mesma do nosso trato com as fontes. Para nós aqueles dois primeiros livros de Caminha funcionaram para ele como um laboratório do que mais adiante veio a tornar-se concreto: a sua atuação como ficcionista destacadamente nos romances A normalista (Cenas do Ceará) e Bom-Crioulo, que salvo as críticas do calor da hora, sobretudo as de cunho moralista, garantiram a sua entrada em diversos títulos da história da literatura nacional.
Ainda que a crítica literária classifique Voos incertos (primeiras páginas) e Judith e Lágrimas de um crente como obras de principiante, como veremos a seguir, achamos por bem incluí-los em nosso arrolamento, pois trata-se de livros raros, de difícil acesso aos pesquisadores interessados na obra de Adolfo Caminha e também por esse motivo merecem ser comentados. Outro valor já presente nesses primeiros livros está no fato de que neles encontramos indícios de leitura de obras que serão recorrentemente citadas nos demais livros, demonstrando haver, assim, uma permanência de suas leituras e de um possível uso diferenciado delas em cada obra em que eles comparecem. É nesses dois primeiros livros de Caminha que nasce os movimentos de permanência e de modificação que constatamos no conjunto dos seus indícios de leitura e que muito interessou-nos registrar como forma de discussão e análise de seu papel como autor-leitor.
Quanto ao Adolfo Caminha contista, no apêndice de seu trabalho pioneiro, Maria Letícia já trazia a publicação de um dos seus contos perdidos, aquele intitulado Minotauro. No entanto, somente em 2002, os contos publicados esparsamente em diversos periódicos nacionais, quando ainda vivia e mesmo posteriormente à morte do escritor cearense, foram enfeixados em um volume com aquele título geral graças ao trabalho do professor Rafael Sânzio de Azevedo. No caso específico do conto Minotauro o volume de contos de 2002 traz mais duas versões dele, que foram encontradas pelo pesquisador norte-americanoWalter Toop na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, como informa o organizador da referida edição de 2002. A versão apresentada por Maria Letícia Guedes Alcoforado é uma dessas duas versões encontradas por Toop, mais precisamente a de julho de 1893, publicado no periódico O Álbum, número 27. Assim, o trabalho realizado por nós também se difere do de Maria Letícia pelo acréscimo das fontes citadas.
Uma outra diferença é quanto ao arrolamento e análise dos registros de leitura de Adolfo Caminha em função dos objetivos de ambas as pesquisa. No caso da pesquisa de Maria Letícia Alcoforado (1982, p.9) o objetivo era "buscar a originalidade do romancista cearense, seu modo pessoal de assimilar a cultura e a literatura francesa". Já o nosso objetivo é conceituar Adolfo Caminha como um autor polígrafo no final do século XIX no Brasil, mais precisamente entre os anos de 1885 e 1897, período em que se deu a produção e a publicação de sua obra. Para a construção desse conceito, no seu caso, estão em problematização e análise a sua atuação como editor, crítico literário e político das letras, ações essas que resultaram em textos escritos.
Também acreditamos que a sua atuação como leitor concorreu positivamente para construirmos a conceituação que aqui objetivamos; desse modo, não nos detivemos somente nas leituras francesas e portuguesas de Caminha, mas também em suas leituras da literatura ficcional e não-ficcional brasileiras. É por esses termos que o trabalho realizado por nós difere-se do trabalho de Maria Letícia Guedes Alcoforado sem deixarmos aqui de fazer referência a ela, mas buscando com ela dialogar toda a vez que acharmos necessário fazê-lo.
A partir de então apresentamos os registros desses que chamamos de indícios de leitura de Adolfo Caminha. A apresentação dá-se em ordem cronológica de edição dos seus livros de ficção. O que podemos constatar é que a lista desses indícios aumenta à medida que a sua ficção se torna mais madura e o autor, apoiado com o pé na leitura, vai dando passos mais seguros na constituição do conjunto de sua obra ou ainda quando se faz necessário como ficou constatado nos seus primeiro e último romances. No entanto, dos dois primeiros – Voos incertos (primeiras páginas) e Judith e Lágrimas de um crente – ao último livro não faltaram registros desses indícios, mesmo que escassos como se deu no caso do romance Bom-Crioulo.
Vale aqui destacar, quanto ao primeiro livro, que não parece acaso que o seu subtítulo seja "primeiras páginas". Nele, as páginas parecem funcionar como significado da incerteza dos primeiros tempos. Não há a mesma noção de concretude de palavras como volume, obra, livro e quetais, são páginas apenas, ainda que encadernadas como o percebia e sentia os seus leitores ao tê-los diante dos olhos e nas mãos. O termo páginas, nesse caso, funciona como uma marca do tempo de produção do autor, da consciência da (in)maturidade de seu trabalho. É o registro de um lançar-se, ainda que incertamente, na República das Letras. Somente com o decorrer de produção da escrita é que os indícios de leitura, como em A normalista e Tentação, se tornam mais presentes. O que, assim como já afirmamos, não acontece no Bom-Crioulo. Os motivos prováveis dessa variação dos indícios de leitura veremos ao tratar de cada um dos romances.
A reflexão sobre as possíveis fontes dos registros das leituras dos autores podem ser relembradas aqui quando circunstancialmente forem citadas. Já é tempo de, assim como fizera Walter Benjamin, desempacotar a biblioteca de Adolfo Caminha, ou melhor, do que podemos saber dela ou dela inferir. Já é tempo de nos transferir, assim como Benjamin convidara os seus leitores, para a desordem dos pacotes de livros, aqui, desordem de indícios, de traços, de títulos, de nomes, de versos e trechos ditos, enfim, de pormenores, de indícios. Tomando como incentivo o convite de Benjamin, de agora em diante, cada título do conjunto da obra de Adolfo Caminha será pensado como um pacote de livros de sua biblioteca, que o leitor está convidado a abrir conosco.
Primeiro pacote
Este primeiro pacote traz em sua etiqueta o título do primeiro livro de Adolfo Caminha, Voos incertos (Primeiras páginas), de 1887. Portanto, seu livro de estreia e seu único livro de poesias, dedicado à memória de sua mãe, Dona Maria Firmina Caminha, falecida em 27 de novembro de 1878, quando ele tinha apenas onze anos de idade. Da morte de sua mãe à publicação do livro já houvera passado nove anos. Esse livro é, pois, depositário de uma memória: a memória dos anos vividos em companhia da família, dos anos de infância na sua Aracati natal, na casa da rua Coronel Alenxanzito, um sobrado com porta e duas janelas no térreo e mais três grande janelas no andar superior, de fachada recoberta por azulejos portugueses em tom de azul, com filetes brancos e amarelos. Na fachada, lemos em placa hoje bastante gasta: "Nesta casa nasceu Adolfo Caminha em 29 de maio de 1867". A casa hoje está em ruínas.
Atualmente, a vila colonial do Aracati é uma cidade turística próxima de Fortaleza, não porque ela crescera, mas porque a capital cearense foi-se espraiando e as distâncias com o uso do automóvel foram-se encurtando. Antes, Aracati fora uma cidade de comércio. Era um entreposto comercial em razão do porto que lá existia e por onde desaguava parte da carne de sol do Ceará. Esse livro de Caminha é também depositário do próprio momento de sua publicação, quando o seu autor contava então com dezoito anos. Os poemas publicados nele foram escritos entre 1885 e 1886, o que evidencia um tempo de sua produção, apesar de os poemas "Melancolia" e "Ideal" datarem, respectivamente, de 15 e 23 de março de 1887, ambos escritos na Ilha Grande, no Rio de Janeiro, portanto feitos no mesmo ano de publicação do livro, o que evidencia um encontro entre as datas de produção e edição.
Como já dissemos, o título ganhou um subtítulo – (primeiras páginas) –, possivelmente por sentir-se o então poeta inseguro em mostrar-se ao público e entregar-se às apreciações da crítica, amortecendo, desse modo, cobranças mais ferozes. Trata-se de um livro de poemas românticos. Tão romântico que Caminha somente com eles talvez não tivesse entrado na Padaria Espiritual, pois em um dos versos do poema intitulado "No campo" chega mesmo a falar em carvalho e cotovia, palavras que estavam proibidas no vocabulário dos Padeiros: "No tronco do carvalho/ abandonado, annoso/ desprende a cotovia um cantico amoroso". A respeito do romantismo desse primeiro livro de Caminha afirmou Sânzio de Azevedo (1999, p.28):
É forçoso admitir que se trata de estréia bastante bisonha: o
problema não se cinge somente ao fato de os versos serem
extremamente românticos, quando já circulavam obras
parnasianas, como as Sinfonias (1882), de Raimundo Correia,
as Meridionais (1884) e os Sonetos e Poemas (1885), de
Alberto Oliveira, sem se falar nas Canções Românticas (1878),
desde (sic) último, nao tão românticas, como se sabe. O
problema é que Adolfo Caminha, cuja verdadeira vocação seria
o romance, se nos versos que ainda haveria de compor, na
década de 1890, jamais se alçaria à condição de poeta
apreciável, muito menos nesses poemas de juventude.
Há nesse livro de Caminha duas epígrafes que abrem esses ditos poemas da juventude. Aliás, vale lembrar que Caminha falecera ainda jovem, talvez não para a sua época, em que os homens já aparentavam ser velhos bastante cedo. Como exemplo desse fato, vale lembrar aqui as figuras de José de Alencar e do imperador D. Pedro II. A primeira epígrafe, em francês, é da escritora George Sand; a segunda é do escritor português Almeida Garret. Assim, Caminha prenunciava nesse seu primeiro livro as duas possibilidades de diálogo que viria a ter ao longo de sua carreira como escritor: França e Portugal. As mesmas duas possibilidades de diálogo que esteve presente junto aos membros da Padaria Espiritual. De Sand lemos: "Si je passe pour fou, si je le deviens, qu'importe! J'aurai vécu dans uns sphère idéal, e [sic] je serai peut-
être plus hereux que tous les sages de la terre 2 ". De Garret, lemos: "Foi só meu coração que fez meus versos...". Entre a loucura e os devaneios do coração foi onde se colocou o poeta iniciante, marcando, assim, a incerteza da qualidade daqueles versos que entregava ao público. E assim demonstrava aderir à estética romântica.
Mais importante do que dizer que esse poeta ainda não era o Adolfo Caminha que conheceremos em seus romances é constatar que o poeta transitara pelo romantismo e que os escritores românticos, como o já citado José de Alencar, ainda eram referenciados em suas Cartas literárias, mais precisamente nos artigos "Novos e velhos" e "À sombra de Molière", aquele de 1893 e este de 1894, quando A normalista, romance claramente naturalista, já estava publicado e circulando entre os leitores. O fato é que Adolfo Caminha viveu o período que Afrânio Coutinho chamou de "encruzilhada literária", como vimos anteriormente. O final do século XIX caracterizou-se pela confluência de estéticas ao que Adolfo Caminha não passou incólume. A poesia romântica, o romance naturalista, a defesa de Cruz e Souza nos seus textos críticos são exemplos da experiência de viver entre estéticas literárias.
A escolha de George Sand pode indicar também o gosto de Adolfo Caminha pelas personalidades controversas e polêmicas. Gosto esse que se foi fazendo mais e mais presente em suas leituras como veremos ao tratarmos de autores que ele mesmo os considerou como "obscuros". George Sand era romântica, porém já dotada de interesses pelo socialismo mesmo que romântico e utópico. Ela foi uma das primeiras mulheres a viver de seu trabalho como escritora, além, é claro, de tecer uma importante rede de
relações entre os grandes nomes de sua época.3 Essa epígrafe de Sand traz também um certo gosto pelo afastamento, pela crítica aos estabelecido, a afeição ao louco como aquele que está fora da ordem, e por assim o estar se encontra em melhor situação, criando uma ordem própria. Trata-se de uma leitura romântica da loucura, que equipara o louco ao gênio. Esses gostos parecem também ter acompanhado Adolfo Caminha ao longo da escrita de sua obra.
No caso do escritor português, sabemos que Garrett foi um dos iniciadores do romantismo em seu país com a publicação, em 1825, em Paris, de Camões. Dizemos um dos iniciadores, pois Saraiva & Lopes (1975, p.741) preferem dar a primazia do feito a Alexandre Herculano com A voz do profeta. Questão de primazia à parte, o que nos interessa é reforçar a aproximação de Adolfo Caminha com a estética romântica, a mesma que ele em alguns momentos fez questão de combater, servindo-lhe até mesmo como aspecto de formação de personagem como o foi, por exemplo, com o José Pereira no seu romance A normalista. Segundo lemos, essa personagem escrevia "contos femininos em estilo 1830" (Caminha, 1998, p.71) numa referência aqui ao romantismo, valendo justamente lembrar que é de 1836 que a historiografia literária brasileira data o início dessa estética literária com a publicação de Suspiros poéticos e saudades, de Gonçalves de Magalhães. Mesmo criticando a estética romântica, Caminha não deixou de cultivá-la ou de lhe reconhecer os seus valores.
Infelizmente, não sabemos ao certo de quais obras são essas duas epígrafes; porém, ainda assim, elas evidenciam a ligação de Caminha com a estética romântica o que se repete ao longo da sua obra, denotando haver uma coerência entre elas e o conteúdo. No interior do livro, encontramos um poema intitulado Margarida, numa referência direta a A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho. O poema de Caminha, que é formado por três partes, – "Em Pariz", "No Campo" e novamente "Em Pariz" – como se essas fossem três atos de uma peça teatral, traz como personagens Margarida e Armando como numa referência à peça e ao romance no qual encontramos Marguerite Gautier e Armand Duval como protagonistas. Esse poema de Caminha traz uma epígrafe de Victor
Hugo – 4 "N'insultez jamais une femme qui tombe !" – e uma outra de Boileau, essa infelizmente ilegível em razão da péssima qualidade de impressão do livro.
Victor Hugo, porém, não figurou somente com uma epígrafe. Seu nome é o título de um poema escrito por ocasião de sua morte e traz como epígrafe esse verso de Castro Alves: "Mestre do mundo! Sol da eternidade!...", que faz parte do poema "Sub Tegmine Fagi", de 1867, do livro Espumas flutuantes. Nesse poema de Castro Alves (1960, p.101) lemos: "Irei contigo, pelos ermos – lento – / Cismando, ao pôr do sol, num pensamento/ Do nosso velho Hugo/ – Mestre do mundo! Sol da eternidade!.../ Para ter por planêta a humanidade,/ Deus num cêrro o fixou" (grifo nosso). Esse é o primeiro indício de leitura da obra de Castro Alves que encontramos na obra ficcional de Adolfo Caminha e não será o único, como veremos adiante. Voltaremos ainda a esse poema e à sua relação com As bucólicas, deVirgílio ao tratarmos neste capítulo dos contos de Adolfo Caminha.
O poema de Caminha remete à ocasião em que estando ele discursando diante do Imperador D. Pedro II na Escola de Marinha, justamente para lembrar da morte daquele poeta francês, lamentou que esse não pudesse ver o Brasil transformado em uma República. Em" Notas do final do livro" lemos: "Os versos á Victor Hugo foram escriptos por occasião da morte do autor dos 'Miseraveis', ainda sob a dolorosa impressão do programma que annunciava á capital do Império o passamento do immortal poeta francez" (Caminha, 1887a, p.40). Mas se a recorrência dos autores românticos é exemplo de permanência, há nesse livro exemplos de ruptura ou, pelo menos, do início dela com a estética citada ou com uma face sua e reconhecimento de que o romantismo teria outros rostos como por exemplo o gótico.
Desse seu primeiro livro vale ainda destacar o seguinte fato: ele já apontaria para uma das características de Adolfo Caminha como autor naturalista: a preocupação com a referencialidade, sobretudo uma referencialidade trágica como encontramos no poema intitulado "A creança suicida", que abaixo transcrevemos:
A creança suicida
Pobre creança!... Pobre... Um pensamento impuro
apagou-te da mente os sonhos infantis...
Quanta dôr! quanto amor no teu semblante puro
ao ver-te só no mundo entregue aos homens vis!...
E um dia a sociedade, esse vampiro enorme,
que o sangue chupa ao justo e poupa a tyrannia,
essa ave negra, vio-te, arroxeado e informe,
o corpo de creança, a alma... já não via!...
Como era triste o quadro! A bocca se entreabria
como s'inda quizesse um ai! Soltar ao mundo.
A negra multidão te olhava e parecia
tocada de pavor e de um odio profundo!
Via-se em cada rosto um riso de ironia,
como desafiando os céos e o mundo inteiro.
Uma creança loira os labios entreabria
e apontava sorrindo o corpo do caixeiro!...
E o corpo, já sem vida, o vento balouçava!
Era como uma lampada sombria, negra,
alumiando o povo... A multidão seismava
e ouvia-se distante a voz da tontinegra...
Dezembro, 1885.
Mais uma vez na ditas "Notas" lemos a respeito desse poema:
"A creança suicida". Esta poesia lembra um facto acontecido no
Rio de Janeiro em fins de 1885 e que muito horrorisou a Côrte
do Império. A imprensa referio-se unisona a esse acto talvez
inocente de uma creança que apenas estrava na vida. Eis a
carta deixada pelo pobresinho:
"Eu vou dizer o que sinto dentro do meu coração. Eu vou fazer
uma asneira, conheço que é, mas é por causa de eu pensar de
[...] e de meus irmãos. Eu estou empregado trabalhando para
uns e outros, de graça, e eu sem lenços para assoar, sem
botinas para calçar, sem dinheiro para o bond. E uma vez vim a
pé da [...] Real Grandeza, em Botafogo, á rua Sete de
Setembro n. 119. [...] isso... bem pensado, não e para se ter
pena e doer o coração? depois de ver meus irmãos
desgraçados, sem ter, coitados, roupa [...] vestirem e sabe
Deos sem comida para comerem, coitados. E eu lembrando
disto tudo e mão tendo para socorrer não tenho coragem de
vel-os nesta triste miseria e por isso mato-me porque não [...]
em mais nada e o mais adeos.
"Lembrança a quem por mim perguntar."
Esta carta foi publicada pelo Diario de Noticias" de 6 de
dezembro.
A creança que tinha 13 annos chamava-se José Alves de
Castro. (ibidem)
O aspecto trágico do poema parece ter exigido de seu autor uma justificativa, uma explicação. Transformar um fato até então impensado – o suicídio de uma criança – em poesia exigiu do poeta um forte amparo na referencialidade, o que fez que ele recorresse aos jornais e ainda trouxesse à cena a fala de sua "personagem". Talvez, o fato trágico carecesse de referencialidade para ser aceito como representação. O gosto pelo trágico, sobretudo ao dar à sociedade a imagem de um vampiro, bem como o ambiente e as imagens agourentas parecem se manter ao longo da obra de Caminha, destacadamente em seu romance Bom-Crioulo, cujo primeiro capítulo traz, segundo Leonardo Mendes, fortes traços do estilo gótico, que é também um modo de representação do romantismo. Ainda segundo Mendes (2000, p.122), o gótico é:
Originário do romance sentimental, o gótico surge das
narrativas românticas de terror. O gótico romântico trata da
condição atormentada de uma criatura suspensa entre os
extremos da fé e do ceticismo, da beatitude e do horror, do ser
e do nada, do amor e do ódio. O ser gótico tragicamente
dividido revela o rio barroco subterrâneo que atravessa a
província romântica, unindo ambos na mesma revolta contra a
ordem clássica. Ao combinar o terror com o horror e o mistério,
as narrativas góticas criam uma atmosfera de apreensão...
Talvez esse poema seja o ápice do trágico nesse livro de Caminha. Todo o livro é marcado por passagens trágicas, desde a dedicatória à sua mãe já falecida, bem como nos poemas "Tristeza no lar"," Melancolia", "Aquelle lenço" e "Convalescente", mas também respingando nos demais poemas, uns mais outros menos. Concluímos a abertura desse pacote da biblioteca de Caminha por dizer que os indícios aqui apresentados nos possibilitara conhecer um pouco de Adolfo Caminha como autor-leitor e, notadamente, o seu diálogo com a literatura romântica com a qual as histórias da literatura que registram o seu nome e os títulos da sua obra pouco o identificam ou o fazem a modo de exceção ou de outra rubrica, a nosso ver, pouco esclarecedora. Esse diálogo não cessa em seu primeiro livro, pois ele se estende para o segundo como veremos ao abrir o segundo pacote de sua biblioteca.
Segundo pacote
Este segundo pacote da biblioteca de Caminha traz em sua etiqueta o título de seu segundo livro, Judith e Lágrimas de um crente, de 1887, que, para Lucio Jaguar, pseudônimo do Padeiro Tibúrcio de Freitas:
foram apenas uma vaidade muito bem entendida de alumno
talentoso que ao concluir o seu curso de "humanidade", achou
que devia assignalar a sua passagem pela Escola com alguma
cousa mais do que uma estudantada ali qual quer! um livro,
uma obra d'arte que em todo o tempo falasse de sua
cerebração.
Foi, pois, sob este impulso que elle escreveu seu primeiro livro
ás vesperas do exame, emquanto recordava os pontos
esquecidos do programma. Com a mesma ponta de lapis com
que ia resolvendo os theoremas e as equações esquecidas, foi
elle, dia a dia, construindo os ingenuos e simples capitulos da
"Judith".
Era uma vaidade a satisfazer que elle tinha. O livro podia
pertencer a qualquer escola, isto, neste tempo para ele era
cousa muito secundaria; o que o preocupava era que o livro
fosse publicado n'aquelles dias, antes que a Armada contasse
mais um tenente.5
E foi o que se deu. Antes de um galão por seu brilho de
lantejoula na manga da farda do official, já elle havia sido
ungido com a santa unção da critica que viu no jovem militar um
talento de eleição que desabrochava.
Essa citação é, possivelmente, a certidão de nascimento mais completa do segundo livro de Caminha, que é formado por dois longos contos. A extensão do primeiro, com dezessete capítulos, bem como a sua forma fazem dele mais uma novela do que um conto propriamente dito. Obviamente que a trama narrativa ainda não é tão complexa quanto a de A normalista e nos romances posteriores a esse. O número de personagem também não é tão grande que permita um maior número de ações. O mesmo também se pode dizer do segundo, no entanto esse é um pouco mais curto que o anterior, contando somente quatorze capítulos e uma trama narrativa também não complexa. As páginas dos dois contos possuem numeração distintas: o primeiro vai de 1 a 115; o segundo de 1 a 57.Vale destacar também que no original o segundo conto possuiria somente 53 páginas, o que de fato não se confirma. Lágrimas de um crente tem de fato 57 páginas, uma vez que alguns números foram trocados ou repetidos.
Do que, porém, trata Judith? A sua narrativa se passa em 1879. Nela, o leitor conhece a história de Judith, a protagonista, órfã de pai e mãe, que, por influência do irmão, Alberto, casou-se com o comendador Soares, bem mais velho do que ela, o que a desagrada tanto quanto o casamento por interesse. Alberto é o que o narrador chamou de "um libertino gasto". Ele se aproveita da riqueza do cunhado e, entre uma embriaguez e outra, jura amor à irmã. Essa, inconformada com a própria situação e a vida do irmão, que considera dissoluta, passa a receber os galanteios de Edmundo B. como uma expectativa de, enfim, encontrar o grande amor. Os galanteios acontecem quando Soares a deixa na companhia do irmão e vai à fazenda a fim de conter uma revolta dos escravos.
Na fazenda, o comendador Soares recebe uma carta anônima denunciando as visitas de Edmundo à Judith, o que faz que Soares volte à cidade onde chega justamente na hora em que os dois iam fugir. Surpreendido, Edmundo é atingido e Judith é impedida de fugir. Edmundo deixa o Brasil e vai para os Estados Unidos. Judith e Alberto são aconselhados por Soares a deixar a casa dele, que não os queria mal, mas que precisava manter a sua honra limpa, desfazendo-se da traidora. Alberto, que se arrepende da vida que levava, procura o padre Nogueira, que era conhecido de sua mãe. Judith e ele vão viver em companhia do sacerdote.
Esse segundo livro de Adolfo Caminha foi dedicado ao seu pai, Raimundo Ferreira dos Santos Caminha, que à época ainda estava vivo, uma vez que veio a falecer em 23 de abril de 1893. O conto Judith tem como epígrafes estas palavras de Madame de Staël: "Il'y a dans un mariage malhereux une force de douleur qui depasse
toutes les autres peines de ce monde 6 ". No centro desse conto está o tema do casamento infeliz, que tanto movimentou os românticos. Está também a crítica ao casamento entre uma mulher jovem e um homem bem mais velho, tema esse que encontramos em Senhora, de José de Alencar, que considerou como indesejada a união de Aurélia com o Sr. Lemos, seu tio e tutor. Para esse tema não poderia haver melhor epígrafe do que essa de Mme de Staël, justamente ela que fornecera " des idées (plus que des thèmes) aux
Romantiques 7 ".
No livro de Caminha não há indicação de qual obra de Mme de Staël foi retirada a citada epígrafe; no entanto, acreditamos que se trate de seus dois romances Delphine e Corrine ou l'Italie, o primeiro é de 1802 e o segundo, de 1807. Sobre Delphine, lemos:" L'eloge du divorce que contient Delphine se situe dans le contexte d'une douloureuse et déjà ancienne opposition de la romancière à la
morale profesée par sa mère 8 ". Ou seja, houve a preocupação de Caminha em definir uma linha de relação entre a epigrafe e o conteúdo direto do conto, já anunciando para os seus leitores e leitoras o que encontrariam pela frente.
Em Judith, encontramos no terceiro capítulo a personagem do comendador Soares lendo o Jornal do Commercio, mais precisamente a "parte Commercial, cambios, etc.". O que já apresenta uma relação entre a literatura e os periódicos, a mesma relação que constaremos no conjunto da obra de Caminha e que, de fato, era bem comum entre os homens de letras no Brasil do final do século XIX. Na mesma cena em que o comendador lê o jornal citado, uma chamada à porta, enquanto as personagens almoçam, os faz pensar que se tratasse do entregador da Revista Ilustrada, o que reforça a relação já citada, e que se repete ao longo do conto uma vez que são nomeados outros periódicos como a Gazeta, o Jornal, o Paiz. A literatura e a imprensa de circulação ou propriamente literária estavam alimentando-se constantemente, valendo-se uma da outra. São exemplos de construções de representações, lembrando aqui o conceito de Chartier, realizadas dentro da própria representação por meio da linguagem poética.
Nas conversas entre Alberto e Judith há referência às histórias da Carochinha e do afamado João de Calais, uma das narrativas tradicionais da literatura oral e de cordel que circulava e ainda circula no Brasil, notadamente no Nordeste. São geralmente histórias que se contam em família ou entre amigos como podemos constatar nessa cena de Judith na fala de Alberto: "– Não faz mal. Elle hoje hade vir outra vez e, então, passaremos a noute ou jogando o ècarté ou contando histórias, ainda que sejão da Carochinha ou do João de Calais" (ibidem, p.59). Assim como as obras citadas mostram-se como constituidoras de momentos, situações e apontam para fatos vindouros, guiando a leitura, elas também fazem parte da constituição das personagens como é, nesse conto, o caso da personagem Edmundo, o galanteador que teria seduzido Judith:
Detenhamo-nos a porta do quarto de Edmundo, um
compartimento bem arejado, fresco, mas, onde reinava a maior
desordem. Trouxas de roupa suja por debaixo da cama
entregues aos ratos e ás baratas, calças de todas as côres e
feitios, paletós e sobre-casacas misturavam-se pelos cabides e
nada faltava alli para que um rapaz da tempera do filho do
barão de... sahisse elegantemente vestido e penteado á ultima
moda. O leito estava desarranjado como si alguem acabasse de
se espojar sobre elle, e a cabeceira o romance de Zola Nana,
com as folhas machucadas que o vento açoitava. (ibidem,
p.103)
Por esse indício, ou seja, pela citação do romance de Zola, vemos que Adolfo Caminha já tomara conhecimento da existência de Nana, publicado em 1880 como parte de Les Rougon-Macquart. Não é por acaso que esse romance de Zola é citado, pois como sabemos, a sua personagem é uma cortesã. Assim como encontraremos em A normalista, o narrador preocupa-se em descrever o espaço mais íntimo em que vive a sua personagem, ou seja, o quarto. Juntando-se à escolha do romance o ambiente em que o livro se encontrava vemos que a sua função na trama narrativa é conformar ainda mais a personalidade de Edmundo. Nana se insere na longa linhagem de cortesãs que talvez tenha surgido na literatura francesa com Manon Lescaut, de 1731, do Abade Prevost, seguida de A Dama das Camélias, de 1848, de Alexandre Dumas Filho, já aqui citada quando tratamos do primeiro livro de Caminha. No Brasil, podemos juntar a elas Lucíola, de 1862, de José de Alencar. Melhor leitura parecia não haver para a personagem Edmundo, ele mesmo representado como uma versão masculina de Nana.
Ainda a respeito dos indícios de leitura que encontramos em Judith estão os livros do padre Nogueira com quem Judith e seu irmão foram morar após deixarem a casa do comendador. A casa do sacerdote é assim descrita:
Não havia um canto onde não estivesse um relicario, uma
imagem de santo. Entre as duas janellas que abriam para o
jardim ficava a estante repleta de obras religiosas e livros
catholicos. Ahi estavam ricamente encadernados a famosa e
inprescindivel (sic) Biblia Sagrada, a vida de Jesus de E.