Adolfo Caminha: um polígrafo do século XIX

Carlos Eduardo de Oliveira Bezerra · Capítulo 5 de 10 · parte 1/4

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Adolfo Caminha: um polígrafo do século XIX

2 Adolfo Caminha, autor-político na República das Letras

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

2 Adolfo Caminha, autor-político na

República das Letras

 

Um homem de letras

Dizendo idéias

Sempre se inflama

(J. M. Wisnik,

S. Peres, L. Tatit, Gramática)

 

A política dentro e fora das letras

O autor-político na República das Letras

Com fonte na historiografia literária brasileira, sabemos da participação de um grande número de nossos homens de letras na política. Alguns chegaram mesmo a ocupar cargos públicos como deputados provinciais. Podemos citar como exemplo: Sílvio Romero, Coelho Neto, Antônio Sales, Faria Neves Sobrinho, Artur Orlando, Félix Pacheco, Luís Murat, Alcindo Guanabara, os senadores Luís Delfino e Rui Barbosa (Broca, 2005, p.119-39). Também, grande foi a participação dos homens de letras em dois movimentos políticos no Brasil do final do século XIX: a Abolição da Escravatura (1888) e a Proclamação da República (1889). Adolfo Caminha foi um deles. Sobretudo no caso da Proclamação da República, que ele fez aparecer em seus livros de ficção e em seu livro de viagem aos Estados Unidos.

Em A normalista, a cena final do romance é a chegada, no Ceará, das primeiras notícias do golpe militar contra a Monarquia e início da República:

A esse tempo um grande acontecimento preocupava toda a

cidade. Liam-se na seção telegráfica da Província as primeiras

notícias sobre a proclamação da República brasileira. Dizia-se

que o barão de Ladário tinha sido morto a pistola por um oficial

de linha, na praça da Aclamação, e que o imperador não dera

uma palavra ao saber dos acontecimentos, em Petrópolis.

O Ceará estremecia a esses boatos. Grupos de militares

cruzavam as ruas, ouviam-se toques de corneta no batalhão e

na Escola Militar. Tratava-se de depor o presidente da

província, um coronel do Exército. Os canhões La Hitte, da

fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, dormiam enfileirados

na praça dos Mártires, defronte o Passeio Público, guardados

por alunos de patrona e gola azul.

Ninguém se lembrava de escândalos domésticos nem de

pequeninos fatos particulares. (Caminha, 1998, p.174)

Também em seu romance Tentação, publicado postumamente, não faltaram críticas à Monarquia, mas também ao movimento republicano. A personagem Evaristo de Holanda, um republicano ardoroso, ou como ele mesmo se definia, um democrata, não deixou, ao longo da narrativa, de bater-se contra os monarquistas, entre eles o visconde de Santa Quitéria. Não são poucas as passagens do romance em que o descontentamento da personagem foi representado. A vida na casa dos Furtado, o casal de amigos que acolhera Evaristo e a sua esposa, passou a ser um martírio, pois Dona Branca, a esposa de Furtado, era uma monarquista ferrenha e comadre da princesa Isabel. Um exemplo dessa tensão instalada no interior da narrativa de Tentação pode ser percebido no diálogo que reproduzimos a seguir:

A propósito dos filhos, a mulher [Dona Branca] anunciou o

batizado da Julinha no primeiro domingo de janeiro. Ia fazer

uma festa sem cerimônia, entre pessoas da intimidade.

Evaristo recebeu a notícia com um – oh!... de surpresa. – Muito

bem! muito bem! Era preciso batizar a menina... Ele, se tivesse

filhos, batizava-os ao nascer.

E com ironia:

– Temos, então, a princesa?

– Como, Sr. Evaristo?

– Digo: a princesa há de comparecer à festa...

– Qual o quê! Pensa o senhor que a princesa anda se exibindo

assim?

– Pensei...

– Vai ser a madrinha de minha filha, por procuração; isso bem...

– E Evaristo, sempre irônico:

– O imperador é o padrinho...

– Não senhor, não senhor... O padrinho é o Lousada, o velho

Lousada. O imperador já é o padrinho do Raul.

– Onde estamos nós metidos, Adelaide! – exclamou o bacharel,

arregalando os olhos. – Tudo aqui é principesco, minha

senhora!

D. Branca compreendeu o debique, mas atalhou risonha:

Tudo aqui não é principesco, não senhor! Não queira fazer

pouco...

Eu, fazer pouco? Oh, não se lembre de tal coisa! Principesco é

uma maneira de dizer.

Ah! o senhor é republicano? Republicano não: democrata.

Pois está muito bem arranjado com a sua democracia! Furtado,

que estava lendo o Comércio do Rio, saltou:

– Quem é democrata – o Evaristo?

– Eu, sim...

– Democrata enquanto não conheceres bem o Rio de Janeiro..

– Por quê?

– Ora, por quê! Porque o Rio de Janeiro em globo é

monarquista e quem diz monarquista diz aristocrata.

– Não é razão. Se o Rio de Janeiro em globo (quero dizer o

município neutro...) é monarquista, eu posso bem sair um

republicano às direitas.

Furtado abriu numa gargalhada estridente.

– Aonde vens pregar essas teorias, meu caro? Na Corte do

Império, e o que é mais, em Botafogo! Ilusões de academia,

rapaz, ilusões de estudante de retórica!

– Não senhor, que o partido republicano está ganhando terreno

aqui mesmo, na

– Corte, às barbas d'El-Rei! Fala-se na ida do velho à Europa; o

velho está doido, já não pode governar, e o resultado é que...

– É estás a dizer tolices... A monarquia está guardada por

sentinelas da força do barão de Cotegipe, do visconde de Ouro

Preto, do João Alfredo e de outros... Cada um desses homens é

um obstáculo contra qualquer tentativa de assalto às

instituições.

Chegou a vez do bacharel rir, mas rir com gosto, dando

pulinhos na cadeira.

– O Cotegipe! (e ria). O Ouro Preto! (tornava a rir). O João

Alfredo! No momento psicológico voam todos, como aves de

arribação, para Petrópolis! Desaparecem como por encanto,

somem-se na noite do medo...

– É o que pensas. A opinião deles, o povo não permitirá que

eles sejam desacatados.

– O povo! – exclamou Evaristo com voz de trovão. – A que

chamas tu povo?

– À população do Rio de Janeiro, à população do Brasil – a

treze milhões de almas que adoram o imperador!

– O povo brasileiro não se envolve nisso não, meu Furtado; se

fôssemos esperar pelo povo, estávamos bem arranjados...

– E então?

– E então, é que a força armada...

– Basta de política, basta de política, Sr. Evaristo. Ó Luís, por

favor, continua a ler teu jornal – interveio Branca, – É favor!

(Caminha, 1979, p.22-3)

Vemos por essa cena que a discussão a respeito da política, notadamente do confronto entre monarquistas e republicanos, ou democratas como Evaristo se dizia ser, saiu do âmbito da vida privada – o batismo de Julinha, a filha caçula do casal Furtado – para atingir uma discussão a respeito da atuação do gabinete de então e do próprio imperador. No romance em causa, essas discussões serão crescentes. O embate entre os antagonistas políticos fazem parte da trama narrativa, construindo a intriga necessária para o andamento do romance.

As opiniões de Evaristo e dos Furtado se alternam. Uma hora o vemos defendendo a República, outra vemos Furtado defendendo a Monarquia. Evaristo chega mesmo a definir o espaço em que se passava a trama a partir de uma ou de outra forma de governo. Para ele o Rio de Janeiro ideal seria o Rio de Janeiro republicano: "O Rio de Janeiro sem o imperador e sem os preconceitos da monarquia, o Rio de Janeiro tal qual sonham os bons republicanos, há de ser uma coisa única! Palavra de honra como eu não desejava abandonar esta terra, enquanto não visse um homem do povo governando o Brasil!" (ibidem, p.100). E Evaristo vai além:

Que mas o quê! Para longe deste inferno! para longe desta

porqueira! Vive-se melhor, mais barato e mais honradamente na

obscuridade da província, criando galinhas ou plantando

jerimuns. Estou farto de aturar a pedantocracia de Botafogo e

do Sr. Luís Furtado. Um bacharel em direito vive em qualquer

parte do mundo: vou advogar, vou esperar a República no

sertão! (ibidem, p.104)

No romance em causa, há um capítulo todo dedicado a uma das viagens do imperador D. Pedro II à Europa. Nesse capítulo, o narrador, e também Evaristo, tecem considerações a respeito dos membros do movimento republicano como lemos abaixo:

E Evaristo, indignado, pôs-se a andar de um lado para o outro

da sala, com o panfleto abolicionista na mão. Ultimamente

encasquetara-se-lhe, como uma idéia fixa, o programa

republicano: abolir a escravidão e declarar a república

brasileira, o governo do povo pelo povo... Um dos membros do

partido já o convidara para sócio e ele se comprometera a

tomar parte ativa nas reuniões do clube. Daí a sua indignação

contra o Valdevino que também apregoava entusiasmo pelas

idéias liberais de Saldanha Marinho e Quintino Bocaiúva. Não

lhe saía da cabeça o poeta da Ode à Monarquia! Como é que

se explicava essa pouca-vergonha de um escritor público?

Sentou-se, afinal, e continuou a interrompida leitura do panfleto.

(ibidem, p.90)

Vemos nessa citação que Evaristo é também especialmente crítico com os "republicanos", ou seja, com aqueles que transitam indecisamente entre um lado e outro do poder. A personagem parece mesmo não se sentir adequada dentro do contexto em que se situa. Mais parece uma personagem romântica, ao defender suas utopias, vivendo em uma cidade naturalista, onde as utopias são tragadas pelas circunstâncias. Circunstâncias essas que Adolfo Caminha representou, como vimos, em seus romances.

Não se trata aqui de colar a obra à vida, mas de mostrar as relações-possíveis entre um e outro fazer, ou melhor, entre uma e outra prática, seja ela discursiva ou política ou porque não falarmos em uma manifestação simbiótica de discurso-político ou política discursiva. Como sabemos, no caso dos escritores naturalistas ou dos escritores que em momentos de sua carreira tenham se utilizado dos pressupostos naturalistas, o jogo entre representação e realidade se dá em dimensões bem próximas. Nesse jogo, muitas vezes, o vivido os serviu de fonte para a literatura.

O realismo, mas sobretudo o naturalismo, exigiu de seus cultores um certo empenho, uma vez que a preocupação excessiva com o presente fazia que buscassem em sua volta as matérias-primas de suas narrativas, o que não significa, no entanto, que a obra traduza a vida e vice-versa. O foco excessivo no "real", ou no que Barthes chamou de "efeitos do real", talvez acabem por desfocar aquela suposta captação total da realidade que desejavam os escritores naturalistas. O vínculo com a ciência foi uma tentativa de assegurar este objetivo. No entanto, ele pode ter funcionado também como uma armadilha. O vício nas lentes de aumento proporcionadas pela ciência, lentes essas que foram lançadas sobre a realidade, prendeu a narrativa ficcional naturalista em uma cadeia de tipos e de fatos que passaram a ser recorrentes, desgastando, assim, a narrativa e a expectativa dos leitores. A recorrência do método parece também ter atuado no desgaste da estética naturalista. Nesse sentido afirmou Nelson Werneck Sodré (1992, p.46):

A simples busca de suportes científicos, destinados a conferir

grandeza ao que não a podia conter em si mesmo,

correspondia a uma confissão de fraqueza: era preciso

encontrar, fora da série literária, algo suplementar, que Ainda segundo Sânzio de Azevedo, Adolfo Caminha voltou ao tema do castigo da chibata em 1887, porém não mais com manifestos ou textos diretamente reivindicativos. Ele o fizera transformado o vivido em literatura:

reforçasse, que lhe consolidasse a estrutura, como que lhe

constituindo os fundamentos.

Há nessa equação – vida+obra – meandros e entremeios que não serão atingidos, pois são muitas as forças que atravessam a produção do texto e, em seguida, do livro, forças essas variáveis em diversos sentidos. No entanto, há sempre alguma força ligando representação e realidade, aquilo que supostamente existe e aquilo que se quer fazer existir. E nesse sentido afirmou Nicolau Sevcenko (2003, p.29):

Fora de qualquer dúvida: a literatura é antes de mais nada um

produto artístico, destinado a agradar e a comover; mas como

se pode imaginar uma árvore sem raízes, ou como pode a

qualidade dos seus frutos não depender das características do

solo, da natureza do clima e das condições ambientais.

São essas relações-possíveis que nos interessa mostrar e problematizar para compor a figura do autor como um polígrafo. E, assim, as grafamos – relaçõespossíveis – como forma de defini-las como pontos de contato entre uma e outra prática desempenhada pelo polígrafo. Ainda como o sabemos, Adolfo Caminha também posicionou-se contra a prática da chibata como castigo aplicado em marinheiros; esse posicionamento, segundo conta Sânzio de Azevedo (1999, p.22), um dos seus biógrafos, criou um certo desconforto entre os membros da Marinha imperial, sobretudo porque Adolfo Caminha ensaiara escrever, em 1885, um manifesto contrário ao castigo, com a adesão de alguns de seus colegas de farda, manifesto esse que

seria publicado em um grande jornal, a Gazeta de Notícias.

Entretanto, a idéia não se concretizou porque o Diretor da

Escola, tendo sido avisado a tempo, mandou chamar o aluno

rebelde e aplicou-lhe uma repreensão. O caso chegou a

repercutir ente alunos e oficiais, falando-se em expulsão, o que

afinal terminou não ocorrendo.

"Dois anos depois, ele faria publicar, na Gazeta de Notícias, um conto em que havia a clara condenação do castigo da chibata" (ibidem). Infelizmente, não conseguimos encontrar nos microfilmes da Gazeta de Notícias, existentes na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, esse conto citado.

A referência ao castigo da chibata, no entanto, foi feita também em seu romance Bom-Crioulo, de 1895, portanto dez anos após aquele primeiro posicionamento, uma vez que parte considerável do romance se passa em ambiente de marinha ou no que o narrador chamou de "pequeno mundo flutuante" (Caminha, 1999b, p.14) no qual a ordem devia ser mantida mesmo que fosse à custa do castigo da chibata como o afirmava a personagem guardião Agostinho: "– Navio de guerra sem chibata é pior que escuna mercante..." (ibidem, p.15). Há nesse ponto uma relação entre o texto reivindicativo e a ficção. Se Adolfo Caminha não o pôde fazer nas páginas do jornal, uma vez que ainda estava submetido à hierarquia e à disciplina militares, ele o fez nas páginas de seu romance, escrito quando já estava fora da Marinha.

Foram, porém, as personagens Herculano, esse acusado de

masturbar-se no navio, Sant'Ana, que denunciara aquele, e

com quem brigara, e Bom-Crioulo, o protagonista do romance,

acusado de indisciplina, que receberam o castigo da chibata,

como podemos constatar na leitura do trecho que citamos a

seguir:

Vinte e cinco..., ordenou o comandante.

– Tira a camisa? Quis logo saber Agostinho radiante, cheio de

satisfação, vergando o junco para experimentar-lhe a

flexibilidade.

– Não, não: com a camisa...

E solto agora os machos, triste e resignado, Herculano sentiu

sobre o dorso a força brutal do primeiro golpe, enquanto uma

voz cantava, sonoramente e arrastada:

– Uma!... e sucessivamente: duas!... três!... vinte e cinco!

Herculano já não suportava. Torcia-se todo no bico dos pés,

erguendo os braços e encolhendo as pernas, cortado de dores

agudíssimas que se espalhavam por todo o corpo, té pelo rosto,

como se lhe rasgassem as carnes. A cada golpe escapava-lhe

um gemido surdo e trêmulo que ninguém ouvia senão ele

próprio no desespero de sua dor.

Toda a gente assistia aquilo sem pesar, com a fria indiferença

de múmias.

– Corja! Regougou o comandante brandindo a luva. Não se

compenetram de seus deveres, não respeitam a autoridade! Hei

de ensiná-los: ou aprendem ou racho-os! (ibidem, p.16)

Vemos que nessa cena todos os recursos são usados para dar ao leitor o conhecimento do que era o castigo da chibata: os sons cantados da voz que anunciava uma chibatada após a outra, o modo de descrever o corpo. Enfim, tudo parece colaborar para o mais puro descritivismo, o que de fato marca o tom de denúncia pretendido. Mas essa não é a única cena em que o castigo foi representado. No caso da personagem Sant'Ana repetem-se os mesmo recursos, então, vejamos a cena em que o castigado foi Amaro, o Bom-Crioulo. Justamente a cena em que essa personagem aparece pela primeira vez no romance:

A chibata não lhe fazia mossa; tinha costas de ferro para resistir

como um Hércules ao pulso do guardião Agostinho. Já nem se

lembrava do número das vezes que apanhara de chibata...

– Uma! Cantou a mesma voz. – Duas!... três!...

Bom crioulo tinha despido a camisa de algodão, e, nu da cintura

pra cima, numa riquíssima exibição de músculo, os seios muito

salientes, as espáduas negras reluzentes, um sulco profundo e

liso de alto a baixo no dorso, nem sequer gemia, como se

estivesse a receber o mais leve dos castigos.

Entretanto já iam cinqüenta chibatadas! Ninguém lhe ouvira um

gemido, nem percebera uma contorção, um gesto qualquer de

dor.Viam-se unicamente naquele costão negro as marcas do

junco, umas sobre as outras, entrecruzando-se como uma

grande teia de aranha, roxas e latejantes, cortando a pele em

todos os sentidos.

De repente, porém, Bom-Crioulo teve um estremecimento e

soergueu um braço: a chibata vibrava em cheio sobre os rins,

empolgando o baixo-ventre. Fora um golpe medonho,

arremessado com uma força extraordinária.

Por sua vez Agostinho estremeceu, mas estremeceu de gozo

ao ver, afinal, triunfar a rijeza do seu pulso.

Marinheiros e oficiais, num silêncio concentrado, alongavam o

olhar, cheios de interesse, a cada golpe.

– Cento e cinqüenta! (Caminha, 1999b, p.20)

Nessa cena, os recursos se intensificam para dotar o protagonista de algumas características do herói: a força, a compleição física, a coragem, a capacidade de superar a dor. Em oposição ao protagonista está a reação passiva dos membros da marinha, todos eles admirados que Amaro suportasse tantas chibatadas. O castigo estava então colocado em cena. A Marinha imperial, como já dissemos, não recebera bem o romance e não somente em razão do castigo, mas também pelo fato de que a narrativa estava centrada na relação amorosa e sexual de dois homens, dois marinheiros: Amaro, o já dito Bom-Crioulo, e Aleixo, o grumete. Para um grupamento onde a chibata era o "único meio de se fazer marinheiro" (ibidem, p.15) denunciar o castigo era ir contra a maré da disciplina. Para um grupamento em que a masturbação em bordo era crime, o que pensar então do relacionamento amoroso e sexual entre dois homens?

Adolfo Caminha ainda voltaria ao assunto do castigo da chibata. Em 1890, ele teve publicado nas páginas do jornal O Norte, de Fortaleza, o seu No país dos ianques, cuja publicação em livro deu-se em 1894. Nesse livro, em que escreveu suas memórias da viagem que fizera aos Estados Unidos em 1886 a bordo do cruzador Almirante Barroso para participar da Exposição das Três Américas, Adolfo Caminha (1979, p.129-30) opinou a respeito do castigo, que considerava "bárbaro", "revoltante" e "infamante":

A guarnição do Almirante Barroso, disciplinada e obediente

como todas as que serviam sob as ordens do comandante

Saldanha, primava pelo asseio, pela ordem, pela destreza e

pela atividade. Não se lhe pode fazer maior elogio. Cada

marinheiro era como uma máquina pronta sempre ao menor

impulso.

A chibata era nesse tempo, como ainda hoje, o terror das

guarnições da armada. Sempre manifestei-me contra esse

bárbaro castigo que avilta e corrompe em vez de corrigir. Um

castigo de chibata é a coisa mais revoltante que já tenho visto,

mormente quando é mandado aplicar por autoridade

desumana, sem noções do legítimo direito que a cada homem

assiste, quem quer que ele seja, soldado ou pariá.

O meu primeiro passo ao deixar a Escola e envergar a farda de

guarda-marinha foi publicar um protesto contra essa pena

infamante, e fi-lo desassombradamente, convicto mesmo de

que sobre mim ia cair a odiosidade de meus superiores em

geral apologistas da chibata.

A primeira vez que minha posição oficial obrigou-me a assistir

[sic] um desses castigos, tive ímpetos de bradar com toda a

força dos pulmões contra semelhante atentado à natureza

humana.

Quem já assistiu a uma dessas pavorosas cenas do eito,

magistralmente descritas por Júlio Ribeiro na sua obra A Carne,

pode fazer idéia do que seja o castigo da chibata.

Despir-se a meio corpo um pobre homem, um servidor da

pátria, pés e mãos algemados, muita vez depois de três dias de

solitária a pão e água, e descarregar-lhe sobre a espinha, sobre

as espáduas, sobre o peito, sobre o ventre, na cara mesmo, em

todo o corpo cinqüenta, cem, duzentas chibatadas, em

presença de todos os seus companheiros, me parece indigno

duma geração que se preza, de uma sociedade de homens

civilizados, de cidadão, de cavalheiros que ostentam

triunfalmente galões dourados na farda – na farda que significa

a nobreza, a coragem, o patriotismo e a honra duma nação.

Revoltei-me contra semelhante barbaridade inquisitorial, como

quem tem consciência de quem está praticando uma ação justa

e honrosa. Doía-me por um lado pertencer a uma classe nobre

por tantos títulos, é certo, mas em cujo seio era permitido a

chibata e, o que é mais, o seu abuso.

A esse tempo a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro publicava

semanalmente um boletim literário no louvável intuito de

estimular os incipientes das letras. Oferecia-se-me

oportunidade para um conto marítimo, cujo assunto fosse a

chibata.

Escusado é dizer que o meu artigo provocou o despeito dos

culpados indiretamente feridos no seu amor-próprio. Embora!

Fiquei satisfeito, como se tivesse sacudido para longe um fardo

pesadíssimo; e, é preciso dizer, não hesitei em declarar-me

autor do conto que vinha firmado por meu nome, então

desconhecido na armada.

Alguns de meus companheiros taxaram-me de imprudente e

"indiscreto". Outros levaram seus conselhos até a minha

inexperiência de adolescente indisciplinado.

Todo o mundo julgou-se com direito a censurar meu

procedimento: "que roupa suja deixa-se ficar em casa; que

chibata era um castigo imprescindível" e outros arrazoados

sofrivelmente banais.

Meu consolo é que dentre aqueles que preconizavam os efeitos

prodigiosos da chibata noutros tempos, muito concorreram em

demasia para a sua extinção.

Dei parabéns à pátria e à humanidade.

Devemos atentar aqui para o fato de que é possível estabelecer uma relação entre essa fala publicada originalmente em 1890, uma vez que, assim como afirmamos, No país dos ianques foi publicado primeiramente em jornal, e o romance Bom-Crioulo, de 1895. Em ambas as cenas há não somente um posicionamento claro contra o castigo da chibata, como há também o mesmo apelo aos recursos utilizados na ficção. Assim, se estabelece mais uma relação entre os fazeres de Adolfo Caminha o que nos serve de fundamento para a sua conceituação como polígrafo.

Esse, porém, não foi o único posicionamento "contra a maré" que Adolfo Caminha tomou enquanto foi marinheiro. Na mesma Escola, mais precisamente em junho de 1885, ele se insurgira contra ninguém menos do que o imperador D. Pedro II. Foi na ocasião da morte de Victor Hugo como relatou Sânzio de Azevedo (1999, p.22):

Ainda como aluno da Escola de Marinha, em junho de 1885 – e

não 1884, como registraram Sabóia Ribeiro e Lúcia Miguel-

Pereira –, numa sessão solene em homenagem a Victor Hugo,

falecido um mês antes, Adolfo Caminha, representando a Fênix

Literária, faz um discurso na Escola, na presença dos colegas,

de pessoas da sociedade carioca, do Diretor, Almirante

Fortunato Foster Vidal, e até do Imperador D. Pedro II. É então

que, ao lamentar o desaparecimento do grande poeta e

romancista francês, exclama, a certa altura: "Ah, não poder ele

assistir à nossa marcha triunfal para a Abolição e a República!" Também No país dos ianques não faltaram exemplos do antimonarquismo de Caminha, como exemplificamos em duas situações, o que reforça a sua participação no movimento republicano. A primeira situação deu-se ao tratar do embarque, no Almirante Barroso, de D. Augusto, neto do imperador; na segunda ao tratar do próprio imperador Pedro II. Vejamos na sequência:

Pela manhã de 27 [de fevereiro] o Barroso sulcava as águas do

Lamarrão, lento e majestoso, crivado de olhares. O povo

saudava-o do cais da Lingüeta. Espalhouse logo que o príncipe

D. Augusto, neto do imperador, vinha a bordo, e toda a gente

correu a recebê-lo com essa avidez instintiva das massas

populares. O povo pernambucano, tradicionalmente inimigo dos

imperadores, lembrava-se do tempo em que o Sr. Pedro de

Alcântara dava-se ao luxo de visitar o Norte.

Mais tarde, ao desembarcar a turma de guarda-marinhas, de

que fazia parte o príncipe, subiu de ponto a curiosidade pública.

– Oh! o príncipe! – Que é dele? – É um ruivo? – É aquele

barbado?

O pobre moço viu-se em apuros, e mudava de cores, e fazia-se

escarlate, e vociferava contra a plebe, ocultando-se entre os

colegas, desapontado. Um preto velho teve a lembrança de

ajoelhar-se aos pés de S. A. e suplicar-lhe uma esmola.

Aconteceu, porém, que errou o alvo e foi direto a um outro

rapaz, louro e rubro, como o príncipe, que se apressou em

desfazer o engano.

O imperial senhor achava-se ridículo no meio de toda aquela

multidão servil e anônima que o acompanhava, "como se visse

nele uma animal selvagem..." (Caminha, 1979, p.118-19)

Não falta nessa fala de Adolfo Caminha o tom de ironia. É notável o fato dele não referir-se a Pedro II como imperador, mas como Sr. Pedro de Alcântara, ou seja, usando o nome civil do monarca, uma vez que, em 1890, data da publicação em jornal de No país dos ianques, o imperador já fora deposto. Vejamos então a segunda situação:

Por diversas vezes a academia de direito, pelo órgão de seus

representantes, exorara a piedade imperial, mas o imperador

nunca estendeu o seu magnânimo olhar de piedade até os

cárceres senão em certos dias de gala natalícia para indultar os

escolhidos da política dominante. (ibidem, p.119-20)

Abolição e República: essas foram as lutas que mobilizaram os homens de letras brasileiros naquele final do século XIX. As páginas da literatura do período estão cheias de referências a elas. Adolfo Caminha, já instalado o governo provisório republicano no Ceará, foi convidado pelos membros do Clube Republicano Cearense a discursar em comemoração ao feito que depusera a monarquia e instaurara o novo regime. Mas, essas eram as lutas política de homens de letras no reinado de D. Pedro II. Era a luta contra a situação política instituída em um território regulamentado por leis nacionais, por decretos e partidos políticos, por fronteiras demarcadas a partir de conquistas e acordos. A República das Letras institui-se de outro modo. Talvez ela tenha sido o primeiro lugar virtual laico, uma vez que ela existe a partir de uma rede de relações que se estabeleceu para além da fronteiras nacionais, ainda que, sobretudo no caso brasileiro, tenha muito se ocupado do tema da nacionalidade.

No território da República das Letras, que também tinha suas relações com o território da política institucional e partidária, pois, como afirmamos antes, muitos dos homens de letras também foram homens de política, havia uma preocupação a mais. Essa preocupação exigia dos homens de letras a participação deles numa nova luta: a luta pelos direitos autorais. Nesse sentido, a República das Letras exigia de seus cidadãos um posicionamento político, que se expressava em manifestações escritas e orais, fossem elas publicadas em artigos nos jornais, em debates entre os homens de letras e os homens de política ou nos livros de ficção. É sobre essa luta e o posicionamento de Adolfo Caminha que trataremos também neste capítulo. Trata-se de outro movimento da atuação do político.

O minotauro versus os abnegados

Como dissemos anteriormente, era preciso demarcar no espaço da República das Letras as manifestações favoráveis aos direitos do autor. Acostumados a lidar com as palavras, os homens de letras passaram também a se preocupar com os números. Não faltaram meios de tornar pública essa preocupação, sendo a própria literatura um deles. As manifestações também ganharam as páginas dos jornais, dos textos de crítica literária, das falas públicas, dos movimentos e das tribunas. Era preciso demarcar também no discurso as partes envolvidas. Era preciso citá-las, trazer-lhes à cena, mostrá-las, dar-lhes um corpo, um rosto, representá-las onde a linguagem assim o exigia.

Adolfo Caminha foi um dos primeiros a manifestar-se a respeito. É essa sua manifestação que identificamos como política, que aqui não se confunde com a política partidária, a qual ele mesmo se mostrou contrário ou pouco interessado, como podemos constatar em suas críticas à intervenção dos partidos políticos no jornalismo noticioso ou literário no final do século XIX. A política é aqui entendida como a exposição pública da fala de um sujeito representando um grupo, o que não significa que houvesse unanimidade em relação ao seu nome. O grupo que consideramos que ele representava era o dos homens de letras de seu tempo, notadamente aqueles que passaram a se interessar por garantir os rendimentos financeiros advindos com o trabalho intelectual.

Em um dos artigos intitulados "Cartas literárias", publicados na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, Adolfo Caminha manifestou-se publicamente a esse respeito. Em seguida, os artigos foram reunidos em livros com o mesmo título: Cartas literárias. No artigo intitulado "Editores" há como que duas personagens que se destacam em relação ao tema dos direitos do autor, como podemos constatar com as citações seguintes. A primeira citação diz respeito ao editor: "É preciso ter sofrido ao menos uma vez a pressão esmagadora dessa espécie de minotauro da Arte para se calcularem os efeitos de sua influência. Mil vezes a obscuridade, o isolamento inglório, a inação literária!" (Caminha, 1999a, p.122). A segunda citação trata dos autores:

Dói n'alma e causa desalento o abandono quase completo, a

indiferença já tanta vez invocada, com que são vistos no Brasil

os homens de letras, os obreiros da inteligência, os abnegados

da Arte, para quem a vida consiste principalmente no belo e na

verdade, fundidos num símbolo indissolúvel e eterno... (ibidem,

p.17)

Assim, nesta parte do presente capítulo, privilegiamos a relação entre Adolfo Caminha e os editores de sua época. Para tanto, consideramos as suas definições do que seria o papel dos editores, o que em última instância significa também a possibilidade de desenvolvimento da literatura, uma vez que aos editores cabia a publicação dos textos ou a transformação destes em livros.

Por serem os editores sujeitos nem sempre considerados como participantes da constituição direta da literatura, passamos à leitura da opinião de alguns historiadores a respeito deles.

Os editores segundo os historiadores

Pierre Bourdieu classificou os editores como "personagens intermediárias entre o artístico e o econômico". Porém, nessa classificação não estão apenas os editores. Esse espaço intermediário é bastante extenso para ter diversos ocupantes, não se resumindo, na concepção de Bourdieu, apenas ao mundo do impresso, mas estende-se para a pintura, o teatro, os órgãos do Estado e seus agentes encarregados de mediar a relação desse com os artistas e, entre eles, os escritores. Vejamos o que diz Bourdieu (1996, p.86-7):

É o caso de todas essas personagens intermediárias entre o

artístico e o econômico que são os editores, os diretores de

galeria ou os diretores de teatro, sem falar dos funcionários

encarregados do exercício do mecenato do Estado, com os

quais os escritores e os artistas mantêm com freqüência (há

exceções como o editor Charpentier) uma relação de enorme

violência larvada e às vezes declarada. Testemunha isso o que

Flaubert, que teve ele próprio muitas discussões com seu

editor, Lévy, escreve a Ernest Feydeau, que prepara uma

biografia de Théophile Gauthier: "Faça sentir bem que ele foi

explorado e tiranizado por todos os jornais em que escreveu;

Girardin, Turgan e Dalloz foram carrascos para o nosso pobre

velho, que choramos [...]. Um homem de gênio, um poeta que

não tem rendas e que não é de nenhum partido dado, é

forçado, para viver, a escrever jornais; ora, aí está o que lhe

aconteceu. Na minha opinião está aí o sentido no qual você

deve fazer seu estudo".

Essa citação de Bourdieu é importante por dois motivos: o primeiro, por localizar os editores, mesmo que na condição de intermediários, no campo literário, ampliando, assim, a quantidade e a qualidade dos sujeitos que dele participam, o que implica a escrita de uma crítica literária e da própria história da literatura a partir de novos sujeitos, novas práticas e novos objetos, que, efetivamente sempre estiveram presentes, mas ausentes do ponto de vista das abordagens teórica, crítica e historiográfica, desses campos do conhecimento literário. O segundo motivo é que, nessa citação, ele pôs em cena um editor que será considerado por Adolfo Caminha como um exemplo, uma necessidade para o Brasil e para os autores brasileiros daquele período: Georges Charpentier.

Robert Darnton (1990, p.132-45), ao analisar a Société Typographique de Neuchâtel (STN), também classificou os editores como intermediários, mais precisamente como "os intermediários esquecidos da literatura", pois considerou o fato de que os editores não aparecem nas histórias das literaturas nacionais ou ainda em histórias mais específicas da literatura, como as história de um gênero ou de um período literário. Nas histórias das literaturas nacionais, nada sabemos sobre eles, no entanto sabemos que eles existem, mas existem, supostamente, bem distantes dos autores e dos textos. Porém, os editores são sujeitos fundamentais na literatura escrita, uma vez que ela se expressa por meio de textos impressos em livros, que, por sua vez, dependem, fundamentalmente, do sujeito editor para serem publicados.

Assim, chegamos à compreensão de Roger Chartier (1999b, p.45) a respeito dos editores. Segundo ele, para considerar que os editores tenham de fato relevância na história da literatura é preciso partir do seguinte princípio: "Para 'erigir-se como autor', escrever não é suficiente; é preciso mais, fazer circular as suas obras entre o público, por meio da impressão", sendo a impressão uma atividade que não pertence historicamente ao autor, mas ao editor e aos operários ligados à atividade da impressão de livros e impressos, daí decorre a sua importância.

Roger Chartier é claro ao afirmar a respeito do papel dos editores na cultura escrita e na distinção do trabalho desses e dos autores: "Os autores não escrevem livros: não, eles escrevem textos que se tornam objetos escritos, manuscritos, gravados, impressos, e, hoje, informatizados" (ibidem, p.17). Assim, a figura do editor se mostra importante para o nosso estudo, pois na larga série de mediadores ele é um dos que mais ativamente interfere no texto, sobretudo porque lhe dá um formato que recebemos e reconhecemos como um objeto de importante valor cultural: o livro. A esse respeito afirmaram Cavallo & Chartier (1998, v.1, p.9):

Contra a representação, elaborada pela própria literatura e

retomada pela mais quantitativa das histórias do livro, segundo

a qual o texto existe em si mesmo, separado de qualquer

materialidade, devemos lembrar que não existe texto fora do

suporte que permite sua leitura (ou da escuta), fora da

circunstância na qual é lido (ou ouvido). Os autores não

escrevem livros: não, escrevem textos que se tornam objetos

escritos – manuscritos, gravados, impressos e, hoje,

informatizados – manejados de diferentes formas por leitores de

carne e osso cujas maneiras de ler variam de acordo com as

épocas, os lugares, os ambientes. (grifo nosso)

A análise do campo literário a partir de intermediações entre os sujeitos que dele fazem parte não é uma necessidade somente dos dias atuais, quando mais e mais as fronteiras entre um fazer e outro estão ficando borradas. Esse caminho pareceu-nos uma necessidade para a renovação dos estudos literários. A esse respeito afirmou o já citado Darnton (1990, p.132): "O historiador de hoje precisa trabalhar com uma concepção mais ampla de literatura, que leve em conta os homens e as mulheres em todas as atividades que tenham contato com as palavras". E a propósito das operações a serem realizadas pelo historiador da literatura que tenha como objetivo um novo olhar e uma nova escrita, acrescentou Darnton:

O contato popular com a palavra inclui as mães que cantam

versinhos, crianças que recitam versos de pular corda,

adolescentes que contam piadas sujas e negros que trocam

insultos rituais ("xingar aos pais"). Os historiadores podem

preferir deixar essas pessoas para os antropólogos. Mas,

mesmo que restrinjam a literatura à comunicação por meio da

palavra impressa, eles poderiam ampliar a sua concepção, de

modo a incluir algumas figuras pouco familiares – trapeiros,

fabricantes de papel, tipógrafos, carroceiros, livreiros, e até

leitores. A literatura livresca faz parte de um sistema que produz

e distribui livros. Mas a maioria das pessoas que fizeram

funcionar esse sistema desapareceu da história literária. Os

grandes homens expeliram os homens médios, os

intermediários.Vista da perspectiva dos transmissores da obra,

a história literária poderia surgir a uma nova luz. (ibidem)

Para Darnton, a história da literatura, seja como forma de organização do conhecimento literário ou como disciplina, não pode ser dissociada das práticas de leitura, fato já apontado pela Estética da recepção e as teses propostas por Hans Robert Jauss. Ao final do seu capítulo sobre os editores, afirmou Darnton:

Para os franceses do século XVIII, a literatura – ou a República

das Letras, como diriam eles – certamente incluía Voltaire e

Rousseau. Mas também incluía Pidansant de Mairobert, Moufle

d'Angerville e uma legião de outros escritores que

desapareceram da história literária. Suas obras se alinhavam

nas estantes setecentistas ao lado de Candide e O contrato

social. Uma lista de sucessos editoriais do Antigo Regime teria

de incluir O ano 2440, Teresa, a filósofa e inúmeros outros

"maus livros". Até que ponto eram ruins? São de leitura muito

agradável hoje em dia. E, mais importante, ele abrem a

possibilidade de reler a história literária. E, se forem estudados

em ligação com o sistema de produção e difusão da palavra

impressa, poderão nos levar a repensar nossa idéia sobre a

própria literatura. (ibidem)

Analisando a história da literatura a partir das práticas de leitura, Darnton chega a um conceito bastante caro para os estudos literários: o conceito de cânone e o seu processo de formação, que se apresenta também ao longo dos textos críticos de Adolfo Caminha, pois uma das operações que ele realiza em suas Cartas literárias é estabelecer um cânone pessoal e particular no qual estão inclusos nomes de autores e títulos de obras praticamente desconhecidos do grande público de hoje, ou quando muito são conhecidos por estudiosos e historiadores literários especializados em determinados períodos ou temas de nossa história literária. A respeito dos nomes e das obras presentes nas histórias das literaturas nacionais afirmou Darnton:

Os grandes livros fazem parte de um conjunto canônico de

clássicos selecionados retrospectivamente, ao longo dos anos,

pelos profissionais que se encarregaram da literatura – isto é,

pelos críticos e professores universitários cujos sucessores

agora desconstroe-na. Esse tipo de literatura talvez nunca

tenha sequer existido fora da imaginação dos profissionais e

seus estudantes. (ibidem)

Em entrevista concedida a Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke (2000, p.256), Darnton foi ainda mais claro na sua conceituação a respeito dos editores e do trabalho desses, pelo menos no que diz respeito aos editores ligados à publicação da Enciclopédia e à já citada STN:

E se pensarmos nos editores, devemos lembrar que editar é um

negócio e que é errado supor que os editores publicavam livros

em nome da verdade e da beleza. Alguns editores, é claro,

tinham valores, acreditavam na verdade e na beleza, e eram

pessoas eminentes. Mas tinham que fazer seu negócio dar

lucro, ao contrário podiam se arruinar. E no século XVIII, em

caso de falência, perdia-se tudo: a casa, todos os bens e até a

liberdade, já que havia prisão por dívida. Era um tipo de

capitalismo muito bruto e cruel.

Certamente, trata-se, no caso dos editores citados por Darnton, de um exemplo específico, no entanto a impressão e a edição de livros não deixaram de ser um negócio, tanto para os editores como para os autores, pois, se Darnton conceituou como intermediários aqueles sujeitos, ele foi também categórico quanto ao seu conceito de autor, no modo que aqui o entendemos e, assim, voltamos ao que o mesmo Darnton chamou de hack-writer. Tratando a propósito do que chamou de "um mito do Iluminismo", isto é, do suposto desinteresse dos philosophes pelo ganho financeiro, além dos ganhos intelectuais e da difusão das Luzes, o que nos faz pensar queVoltaire, Diderot, D'Alambert e Rousseau vivessem unicamente do alimento do espírito, afirmou Darnton:

Todavia, os intelectuais têm que comer, e, às vezes, os

iluministas tinham família para sustentar. Não quero denegrir

esse empenho genuinamente idealista, pois o Iluminismo é a

época em que esse animal que chamamos de intelectual surgiu.

O intelectual como tipo engajado, comprometido com uma

causa. O que acontece, então, se não tiverem como pagar as

contas? Nem todos os philosophes seguiam o antigo preceito

que lhes recomendava o celibato. Quando eram aristocratas,

não havia problema porque tinham uma renda garantida: mas

Rousseau, por exemplo, era filho de um relojoeiro, e Diderot, de

um cuteleiro. Não deviam ter se casado, mas o fizeram. Se

havia, pois, família a sustentar, intelectuais como eles tinham

que ganhar dinheiro e, para isso, se dispunham a escrever

qualquer coisa. Um dos assuntos que me fascina é o do hack-

writer, o indivíduo que é forçado a escrever para sobreviver. O

que estou querendo dizer é que, ao lado de idealismo, havia

uma realidade social e econômica na qual os escritores tinham

que viver. (ibidem)

Assim, assumimos em nossa perspectiva de trabalho a figura dos editores, sabendo também que além deles outros sujeitos pertencem ao sistema e ao campo literários, bem como ao comércio de livros no Brasil, que, se não aparecem nas histórias da literatura brasileira, aparecem em textos de crítica, como nos textos de Adolfo Caminha, ou estão presentes de algum modo no aspecto físico dos livros, isto é, na sua materialidade, sendo eles capistas, tipógrafos, diagramadores etc.

Já aqui adiantamos uma prova da relação de Adolfo Caminha com esses sujeitos, práticas e objetos considerados intermediários do campo literário, pois no jornal O Diário, publicado por ele e Raimundo d'Oliveira e Silva, no ano de 1892, em Fortaleza, encontramos a seguinte notícia: "Dos Estados Unidos do Norte recebemos El Avisador Typographico impresso e publicado pela companhia Kellar Smithes y Jordan, de Philadelphia, contendo muitas informações sobre a arte typographica, typos novos, prelos,

etc.".1 Essa informação dá-nos a ideia de que Adolfo Caminha tinha conhecimento a respeito das condições técnicas de produção do livro e de impressos em geral, portanto ele era conhecedor das condições de produção dos impressos no final do século XIX no Brasil.

Como afirmamos, na lista das intermediações entre autores e leitores há muito mais sujeitos do que imaginamos. Seguimos, então, com exemplos de intermediações que marcaram a obra de Adolfo Caminha.

As intermediações

Cada época teve os seus sujeitos intermediários, cada época produziu práticas de intermediação entre o autor e o leitor, operando, fundamentalmente, no texto, ao passá-lo do original para o manuscrito ou para o livro impresso que chegaria às mãos dos leitores. No entanto, os autores, muito mais do que possamos supor, sempre estiveram a par das práticas intermediárias de edição de seus escritos. Na Idade Média, por exemplo, Patrícia Michon (2001, p.27-8), analisando uma edição manuscrita de Eustache Deschamps, afirmou a respeito do trabalho dos copistas e de sua relação com a edição princeps:

Aussi chaque nouvelle copie s'apparente-t-elle à une nouvelle

édition de l'œuvre, revue et corrigée, abrégée ou augmentée,

selon les opportunités. Et le texte rédigé par l'auteur, l' «édition

princeps» en quelque sorte, sombre alors plus ou moins dans

l'oubli, nul copiste ne se souciait de le rechercher, ni même de

le mentionner. Dès lors, ne rêvetant aucune importance

particulière aux yeux du public et des gens de lettres, ce

manuscrit originel n'a bénéficié d'aucune protection au fil du

temps. Il a pu disparaître à un moment indéterminé, être mutilé,

jeté, brûlé, sans que son sort attire l'attention de quiconque. Il

n'est devenu qu'un exemplaire parmi tant d'autres. Et même s'il

a survécu jusqu'à nos jours, il nous est seulement loisible de

constater qu'il est l'une des plus anciennes copies de l'œuvre 2 .

Segundo Patricia Michon, essa situação descrita acima só veio a se modificar a partir do século XIV, ou seja, só a partir de então os autores buscaram maneiras de garantir o futuro de suas obras:

En fait, c'est seulement à partir du XIVe siècle que nous

constatons de réelles préocupations chez certains auteurs

quant au devenir de leur production littéraire. Il n'est pas exclu,

assurément, que d'autres, avant eux, aient efféctué ces mêmes

demarches, tant matérielles qu'intelectuelles, mais nous n'en

retrouvons aucune trace. (ibidem) 3 .

Muitas vezes, esses sujeitos se fazem presentes por meio de uma linguagem do mundo do livro, que também tem os seus códigos. Um exemplo são as expressões "Nota do editor", "Nota do organizador" e "Nota do tradutor", pois elas não contêm somente informações ou explicações destinadas ao leitor, mas são verdadeiras falas desses sujeitos que se ligam diretamente aos leitores e conformam, ou ao menos tentam conformar, uma orientação de leitura que pode ou não ser seguida. Portanto, os sujeitos que supostamente estariam do lado de fora do texto, de algum modo, se tornam presentes nele, mesmo que essa presença se faça pelas margens, espaço que nos leva a colocá-los numa dimensão desprestigiada em relação ao texto, afinal suas falas supostamente só constituiriam notas, mas é preciso percebê-las como um texto sobre o texto.

Vale, porém, lembrar também que esses sujeitos interferem diretamente na compreensão dos textos e chegam mesmo a interferir na sua constituição, afinal, entre os papéis a serem desempenhados, ao editor cabe o de discutir formas mais viáveis de escrita tendo em vista que se deseja alcançar um público específico, bastando como exemplo as "adaptações" na passagem de um suporte ao outro, o que significa também mudar de gênero, de linguagem, de discurso. Mas não são somente os editores os intermediários que atuam nas obras. Vejamos outros exemplos.

Os herdeiros

Além dos editores, os herdeiros também podem ser arrolados como sujeitos pertencentes ao mundo do livro e assim interferir diretamente nos textos e até de decidir preservá-los ou não, mesmo contra a vontade do autor como o foi, por exemplo, o caso da obra de Franz Kafka. A respeito da atuação dos herdeiros na permanência das obras e na constituição dos textos afirmou Annie Prassoloff (1994, p.58-9):

Des œuvres terminées ou «toilettées» par des héretiers , on

oublie vite qu'elles sont des montages (Le Requiem de Mozart,

Les Paysans de Balzac, ou Bouvard et Pécuchet) pour prêter à

leurs créateurs principaux des intentions ultimes et solennelles

qui devraient revenir, en bonne justice distrubutive, à Sussmayr,

Caroline Commanville, Madame Balzac. De tels ajustement

donnent peut-être l'occasion de réflechir sur la part

d'intervention externe qui entame la religion de l'auteur, par des

héretiers, mais aussi, du vivant de l'auter, de l'editeur, du

directeur de collection, qui fréquemment, donnent au moins au

livre le baptême d'un titre de leur cru, comme l'a montré

JeanYves Mollier pour Tocqueville ou Renan.4

Tratando da organização das cartas de Émile Zola, afirmou José-Luiz Diaz (2007, p.131):

Mas é também o caso de numerosas cartas do século XIX,

século de ouro da correspondência e ainda mais da valorização

dos autógrafos. Exemplo-tipo, a correspondência de juventude

de Zola, cujos manuscritos (roubados!) não puderam ser

utilizados por seus recentes editores. Ei-los pois obrigados a

retomar, sem outro recurso, a edição Fasquelle, feita pelos bons

cuidados de Madame Alexandrine Zola – a com a sua

supervisão. E é famosa a costumeira pudicícia das viúvas...

Como muito rapidamente se evidencia a quem tem o hábito

desses objetos naturalmente impuros que são as

correspondências, o texto de cartas apaixonantes é

visivelmente expurgado de tudo o que fazia a sua roupagem

propriamente epistolar e também provavelmente das revelações

mais ou menos comprometedoras para os familiares – a família

Zola, mas também a família Cézanne (o correspondente

privilegiado).

No caso específico de Adolfo Caminha há um relato que nos leva ao encontro da atuação de seus herdeiros na condução de sua obra e que diz respeito a um livro de contos intitulado de Pequenos contos. A fonte dessa informação está em Sabóia Ribeiro (1968, p.86), Brito Broca e Sânzio de Azevedo. Sabóia Ribeiro tratando de um livro de Caminha, que para ele não chegou nem mesmo a ser escrito, afirmou:

Pequenos Contos foi encontrado; nós mesmos folheamos o

volume datilografado, que a filha do escritor conservava para

sua publicação em livro, em 1942. Ao todo, quinze contos. Isto

foi no escritório de meu saudoso amigo Leão de Vasconcelos,

com vistas à publicação de um dêles na Vida Literária, que

realmente lhe estampou o conto Estados d'alma num dos seus

números. Posteriormente, os Pequenos Contos estiveram nas

mãos de Brito Broca, que sôbre eles escreveu um estudinho

que está em Horas de Leitura, 1957, livro, aliás, composto de

artigos publicados na imprensa, anteriormente. Ali, Brito Broca

confessou ter recebido os contos de Maurício Caminha de

Lacerda, neto do escritor. Tive, aliás, informação, aí por 1963,

1964, de Maurício, que todo o Pequenos Contos se achava,

para edição, na Editôra José Olímpio, mas pude apurar o

absoluto equívoco dessa informação. E é pena.

Vemos por essa citação que os Pequenos contos, de Adolfo Caminha, hoje desconhecidos como tal, sofreram a ação dos seus herdeiros, que infelizmente não alcançaram meios efetivos de publicá-los. Vemos que na citação, Sabóia Ribeiro chegou a falar em um volume datilografado, ou seja, um volume organizado para a publicação. Além da perda dos contos, em tese, perdeu-se também alguma introdução que o autor houvesse feito ou algum prefácio, perdendo-se, portanto, algumas informações que seriam importantes para a compreensão de pelo menos uma parte do conjunto da obra de Adolfo Caminha, ou seja, os seus contos que por muitos anos ficaram dispersos em publicações de revistas brasileiras especializadas.

Citado que fora por Sabóia Ribeiro, além de nos informar a respeito dos ditos contos, Brito Broca deu uma outra informação que consideramos relevante: a de que em um dos contos, intitulado de "Vencido", que não figura, infelizmente, na edição de Contos organizada por Sânzio de Azevedo com os contos que conseguiu recolher, tem entre as suas personagens um editor. Antes de tratar deste assunto, vejamos o que nos diz Brito Broca (1957b, p.226):

Hoje, graças à gentileza do meu amigo e confrade Maurício

Caminha de Lacerda, neto do romancista cearense, venho de

ler uma dezena de contos inéditos dêste último. Todos os

estudiosos de história literária bem sabem do interêsse com

que nos debruçamos sôbre inéditos de escritores cuja posição

histórica já está mais ou menos definida. A possibilidade de

uma revisão crítica, de uma mudança de pers-pectiva, é sempre

algo de fascinante. E foi com a volúpia da pesquisa, o anseio da

descoberta que percorri as páginas dactilografadas dêsses

contos, alguns dos quais já divulgados em revistas há muito

tempo, sem se tornarem por isso menos ignorados.

Vemos por essa citação de Broca o quanto a publicação dos contos seria importante para o estudo do conjunto da obra de Adolfo Caminha e para a sua compreensão como autor. Destacamos também dessa citação o fato de Broca falar em uma dezena de contos e Sabóia Ribeiro falar em quinze contos, o que pode nos fazer considerar que alguns ter-se-iam perdido, talvez na busca de seus herdeiros em fazê-los publicar, pois o mesmo Sabóia Ribeiro informou que o volume com os quinze contos que manuseara não estava na Editora José Olympio para um possível publicação.

Sânzio de Azevedo (2002, p.10-11) foi ainda mais claro ao tratar do assunto e ao referir-se à atuação dos herdeiros de Adolfo Caminha no caso que envolve os Pequenos contos:

Quanto ao conto, continuou a cultivá-lo, estampando algumas

narrativas na imprensa de Fortaleza e do Rio de Janeiro,

Continuar: parte 2 de 4