Adolfo Caminha: um polígrafo do século XIX
3 Adolfo Caminha, autor-editor
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
O autor-editor
Mais uma face (ou máscara?) do autor
Como já vimos, Adolfo Caminha não foi apenas autor. No rol de suas atividades no campo literário ou, de modo mais amplo, no campo intelectual, a edição de jornais e revistas constitui mais uma de suas faces ou mais uma de suas máscaras, que, se analisada, enriquece a compreensão do conjunto de sua obra e a sua atuação como homem de letras, definindo, desse modo, a sua atuação como polígrafo, pois é sempre válido lembrar que o compreendemos como tal, tanto porque essa parece ser uma prática comum no seu tempo, como ela significava também um modo de garantir algum ganho financeiro, o que era indispensável para os que deviam sustentar não somente a si e a sua arte, mas também a sua família. Portanto, a poligrafia era uma forma de estar em todos os lugares da República das Letras: na ficção, na crítica, no jornalismo. Ela era também um tipo de propaganda possível das obras que os autores produziam e uma forma de tecer as inúmeras relações que sustentavam a trama das condições de produção da literatura nacional no final do século XIX.
Antes, porém, apresenta-se-nos um problema: como podemos conceituar o autor-editor, sujeito, à primeira vista, ambíguo, sobretudo se tomarmos como referência o ensino compartimentado da literatura? Como unir esses sujeitos supostamente tão diferentes? Em busca de uma conceituação, citamos François Bessire (2001, p.7):
Écrivain éditeur: la réunion de ces deux mots qui, dans leur
acception courante, désignent deux fonctions bien distinctes,
deux mondes très différents – d'un côté la pensée et l'écriture, Mais importante do que partir dessa compreensão, no entanto, é buscar-lhe uma via alternativa, ou seja, é preciso pensar sempre que a realidade é mais complexa do que o nosso propósito de supostamente organizá-la; organizá-la dizemos: limitá-la em estruturas estanques. Se a conceituação estanque de categorias possibilitaria uma melhor compreensão dos papéis experienciados no campo literário, partindo da prática do isolamento, ela também proporciona a quebra das articulações possíveis entre os fazeres; ela torna imóvel o que tão agilmente se movimentava. São essas articulações diversas, portanto, que nos interessa discutir. O que está, então, por detrás dos exemplos aqui apresentados por meio das diversas citações, sejam elas retiradas da obra de Adolfo Caminha, sejam de outros autores, é a rearticulação dos conceitos que uma prática que se apresentou como pedagógica nos ensinou. O autor-editor institui, desse modo, um incômodo na nossa compreensão desses papéis como eles nos foram ensinados. Parece-nos sempre importante citar as palavras de Andrade Muricy (1973, v.1, p.36) ao tratar da relação entre os movimentos simbolista e parnasiano no Brasil: "Na correnteza dos fenômenos literários o movimento da vida não permite senão artificial e efemeramente formarem-se compartimentos estanques: a realidade é feita de vasos comunicantes". Utilizando a metáfora orgânica dos vasos comunicantes, Muricy encontrou o modo de demonstrar quão ágeis e intercambiáveis são as relações no campo literário.
de l'autre la production et la vente, d'un côté le texte et de l'autre
le livre – permet de délimiter de façon rapide et commode notre
sujet. L'écrivain est éditeur dès lors qu'il intervient dans ce qu'on
pourrait appeler le «champ éditorial», c'est-à-dire tout le
processus qui commence une fois le point final mis au texte et
s'achève quand le livre arrive entre les mains du lecteur;
l'écrivain est éditeur quand il prend em charge tout ou partie des
fonctions éditoriales (au sens scientifique comme au sens
téchnique), qu'il édite ses propes œuvres ou celles d'autrui:
préparation du texte (choix, ordre, état, etc.), annotation, avantet
après-texte, choix d'un système d' «énonciation typographique»
(caractères, format, mise en page, illustrations, etc.),
impression, diffusion. Seul maître du texte, l'écrivain entre dans
le champ éditorial en concurrence avec d'autres acteurs,
variables selon l'époque: le mécène, le commanditaire, le
protecteur, le censeur, le juge, l'imprimeur, le libraire, l'éditeur,
etc. L'enjeu est pour lui de conserver, contre eux et malgré eux,
selon des modalités historiquement variables, la maîtrise du
texte et ses effets: contrôle du moment de sa publication, de
son état, part des bénéfices attendus de l'operation, influence
sur sa lecture par le moyen d'une «poétique du livre».1
Antes de passarmos propriamente a tratar do caso de Adolfo Caminha como autor-editor, parece-nos importante desenvolver uma breve reflexão a partir da proposta de Bessire, sobre a qual podemos dizer que a figura do autor-editor coloca em questão a noção que temos do conceito de autor ou escritor, pois ao longo de seu desenvolvimento, esse conceito consagrou uma figura, um tipo bastante específico; esse tipo viveria em um mundo no qual as preocupações financeiras não estariam presentes; ele mesmo não saberia ou não gostaria de lidar com os números. Já no caso do editor, sua concepção e seu nascimento se confundem com o mercado, com a venda, o lucro, o ganho. Se partirmos dessa dicotomia, que opõe as letras aos números, ou se partirmos da compreensão de papéis bastante demarcados, o autor-editor é um ser ambíguo, uma espécie de anfíbio das artes, capaz de viver em mundos diferentes.
Foi, então, nessa condição de mobilidade do autor–editor que Adolfo Caminha participou da edição e publicação, senão de livros, mas de duas revistas e de um jornal, a saber: a Revista Moderna, de 1891, editada em Fortaleza; o jornal O Diário, de 1892, também editado naquela capital e sua última realização no jornalismo literário: a Nova Revista, de 1896, publicada no Rio de Janeiro. Portanto, podemos constatar que Adolfo Caminha teve a oportunidade de conhecer ativamente o processo de produção de impressos, fossem esses considerados por ele como meios de fazer circular as suas ideias e as ideias dos grupos ou de movimentos literários e políticos aos quais ele estava vinculado, fossem para lhe servir de mais uma fonte de renda, afinal, era preciso manter-se, o que ele pretendeu fazer não somente com o jornalismo, mas com os próprios textos de crítica literária enfeixados por ele sob o título de Cartas literárias, como informou Sabóia Ribeiro (1967, p.10):
Tinha, no mais alto grau, o recato da sua intimidade e poucas
vezes se abria com os outros para contá-la. Na última fase de
sua vida – "a família crescera, vieram os filhos, o ordenado
tornava-se insuficiente para os mais urgentes gastos" –
ninguém, dos mais chegados a ele, suspeitava o que estava
realmente passando. "Os martírios dessa fase da sua vida são
pungentes". Tivera a idéia de lançar a Fôlha dos Estados, com
vistas a ajudar o orçamento, mas fora obrigado a desistir. "Sem
dinheiro nada se faz", concluira. Pensou que, com a publicação
em livro, das Cartas literárias, do seu próprio bolso, conseguiria
um êxito financeiro, pois elas obtiveram indiscutível sucesso
quando saídas na Gazeta de Notícias; mas apenas se
sacrificaria ainda mais, o dinheiro não retornou. Assim entraram
os dias de 1896. (grifos nossos).
Vemos, portanto, que a relação entre crítica literária, literatura ficcional e jornalismo literário ou jornalismo de circulação era um dos modos encontrados pelo autor para fazer-se presente no sistema literário e com isso garantir algum lucro financeiro.Vemos também que Adolfo Caminha pensou em publicar um outro jornal que teria o nome de Fôlha dos Estados, mas foi malogrado em sua intenção, justamente por lhe faltar dinheiro. Essa condição não era diferente de tantos outros de sua geração, que, mais e mais, se viram ligados aos jornais e revistas, sendo esse fato até mesmo representado em seus títulos de ficção; daí surgiram um bom número de personagens jornalistas, críticos literários, comentadores de obras, leitores e escritores como o é possível constatar, no caso específico de Adolfo Caminha, no seu romance de estréia: A normalista (Cenas do Ceará), de 1893. Nele, aparecem algumas personagens discutindo sobre literatura na redação da Província, um dos jornais que movimentam a sua trama.
Em 1893, portanto, ano de publicação de A normalista, Adolfo Caminha já estava familiarizado com o mundo dos impressos
jornalísticos, fosse na condição de colaborador, 2 como o foi, por exemplo, no jornal O Pão, da Padaria Espiritual ou na condição de editor, como oportunamente apontaremos. Antes de seguir, é preciso considerar que grande parte dos jornais e revistas que circularam no Ceará do final do século XIX não contavam com uma grande estrutura. Alguns não passaram do primeiro exemplar ou seus números circularam com grande irregularidade. Em muitos deles, uma única pessoa era responsável por fazer todo o trabalho de produção do jornal, o que significava produzir textos, captar informações, preparar originais, ficando, a cargo de operários tipográficos a sua diagramação e impressão, que nem sempre tinha a qualidade garantida, muito mais pela condição do maquinário existente no estado, do que pelo trabalho dos gráficos. Assim, boa parte dos jornais e das revistas que circulava naqueles idos anos do século XIX no Ceará e, em especial, em Fortaleza era organizada por um homem só.
Uma redação com um homem só
Como estamos acostumados a pensar nos jornais como grandes empresas, sempre à espera de notícias as mais diversas, chegando de diferentes partes do mundo, para que assim façam rodar as suas máquinas impressoras, pode-nos ser bem difícil imaginar uma redação com um único homem, um homem à moda de um faz-tudo. No entanto, a leitura de O Diário nos leva a essa conclusão. O modelo de imprensa que conhecemos hoje tem uma história e, pelo menos no Brasil, a sua origem, se deu com a chegada do século XX. Nelson Werneck Sodré (1999, p.1), na introdução de sua História da imprensa no Brasil, afirmou: "Por muitas razões, fáceis de referir e de demonstrar, a história da imprensa é a própria história do desenvolvimento da sociedade capitalista". No caso específico do Brasil do final do século XIX, já republicano, essas mudanças estão submetidas às circunstâncias do momento, como também nos faz crer Sodré:
A mudança de regime na alterou o desenvolvimento da
imprensa. Os grandes jornais continuaram os mesmos, com
mais prestígio e força os republicanos, com mais combatividade
os monarquistas. Não surgiram de imediato grandes jornais
novos: só em 1891 apareceria o Jornal do Brasil. Multiplicaram-
se os pequenos, os órgãos de vida efêmera, mas isso sempre
acontecera e continuaria a acontecer nas fases de agitação,
desaparecendo em seguida. (ibidem, p.251)
Esse período, que vai do fim da Monarquia à primeira década da República, Sodré o chamou de "esboço”, numa espécie de conceituação evolucionista, mas também submetida às condições econômicas, numa leitura tipicamente marxista da produção capitalista e das condições de produção específicas da imprensa. Uma passagem irônica e bem característica desta idéia de "esboço”, ou seja, de algo em estado ainda indefinido é a que transcrevemos abaixo:
As inovações técnicas da imprensa prosseguirão em 1895, já
os jornais definindose com estrutura empresarial: aquelas
inovações e esta estrutura estão intimamente ligadas. O
primeiro prelo Derrey, italiano, para impressão de 5000
exemplares por hora, aparece nesse ano; nesse ano aparecem
também os primeiros clichês obtidos por zincografia, com os
gravadores Antônio Freitas e Antônio José Gamarra, do Jornal
do Brasil. A produção do jornal (porque, agora, já pode se falar
assim) compreende várias operações: "Preparado assim, o
jornal vai para as prensas, onde se tira a matriz; e, obtida esta,
coloca-se no molde, em que se despeja o chumbo quente,
formando o bloco de cada página. Pronta esta primeira parte, a
estereotipia, entra a folha nas prodigiosas máquinas rotativas
Marinoni, máquinas que, montadas no fundo do térreo do
edifício, ao lado da rua do Ouvidor, além de imprimir, contam e
dobram, um por um, todos os exemplares que vão saindo aos
milheiros". Mas a distribuição continua sendo feita em carroças.
(ibidem, p.266, grifo nosso)
Segundo Sodré, após essa fase viria aquela que ele intitulou de "Empresa", isto é, o nascimento do que hoje conhecemos como a grande empresa jornalística:
A passagem do século, assim, assinala, no Brasil, a transição
da pequena à grande imprensa. Os pequenos jornais, de
estrutura simples, as folhas tipográficas, cedem lugar às
empresas jornalísticas, com estrutura específica, dotadas de
equipamento gráfico necessário ao exercício de sua função. Se
é assim afetado o plano de produção, o da circulação também o
é, alterando-se as relações do jornal com o anunciante, com a
política, com os leitores. Essa transição começara antes do fim
do século, naturalmente, quando se esboçara, mas fica bem
marcada quando se abre a nova centúria. Está naturalmente
ligada às transformações do país, em seu conjunto, e, nele, à
ascensão burguesa, ao avanço das relações capitalistas: a
transformação na imprensa é um dos aspectos desse avanço; o
jornal será, daí por diante, empresa capitalista, de maior ou de
menor porte. O jornal como empreendimento individual, como
aventura isolada, desaparece, nas grandes cidades. Será
relegado ao interior, onde sobreviverá, como tal, até os nossos
dias. Uma das conseqüências imediatas dessa transição é a
redução no número de periódicos. (ibidem, p.274)
Assim como os sujeitos, práticas e objetos ligados ao mundo do impresso, essa história não é linear. Influenciado pelas ideias econômicas de uma leitura da sociedade, Sodré a compreende de forma mais complexa, ou seja, levando em conta a situação interna de um país que, só no século XIX, diferente do Peru, México e outros países de colonização espanhola, passou a produzir impressos dos mais diversos tipos: "A ascensão burguesa acompanha, necessariamente, o lento desenvolvimento das relações capitalistas no país e sofre tortuoso processo, que nada tem de contínuo e harmonioso" (ibidem, p.276).
No processo crescente de transformações que mudaria o tipo de economia e um modo de ser e de estar, os jornais não passariam incólumes, pelo contrário. Tania Regina de Luca (2005, p.138), tratando das mudanças ocorridas nos periódicos na virada do século XIX para o XX, afirmou:
Os jornais diários profissionalizavam-se, sem perder o caráter
punitivo e de intervenção na vida pública. Os novos métodos de
impressão permitiram expressivo aumento das tiragens,
melhora da qualidade e barateamento dos exemplares, que
atingiam regiões cada vez mais distantes graças ao avanço dos
sistemas de transportes, que agilizavam o processo de
distribuição. Aos imperativos ditados pela busca de
produtividade e lucro aliava-se a intenção de oferecer aos
consumidores uma mercadoria atraente, visualmente
aprimorada, capaz de atender aos anseios da crescente classe
média urbana e dos novos grupos letrados.
O fato de que um homem só desse conta de todo o trabalho da redação era bem o caso de Adolfo Caminha, pois como vemos nas páginas de O Diário, ele respondia pela cargo de radactor-principal. Já o seu sócio – R. d'Oliveira e Silva – era o seu redactor-proprietário. Essas informações se encontram não somente no cabeçalho do jornal, mas também nos recibos de pagamentos dos impostos e no documento de concessão de licença do Conselho Municipal de Fortaleza para a impressão e circulação do periódico.Também nas colunas do jornal a informação a respeito dos responsáveis e de seus cargos foi reproduzida, como que marcando, de forma clara e bem definida para os leitores, a atribuição de cada um dos seus membros, esclarecendo, de um modo nada sutil, a quem, pelo menos em tese, cabia a propriedade intelectual e a quem cabiam os supostos lucros:
A redacção d'O DIARIO, fazendo-se representar por seus
principaes redactores, assignou hoje na Intendencia Municipal,
no livro competente, o seguinte termo: Os abaixo assignados
declaram ser os redactores do jornal O Diario que se publica
nesta capital. Fortaleza, 16 de Maio de 1892. ADOLPHO
CAMINHA – Redactor principal. R. DE OLIVEIRA E SILVA –
Redactor proprietario.3
A Adolfo Caminha caberia, portanto, a obrigação de redigir o jornal, de transformar textos recebidos ou redigidos por ele mesmo em artigos e notícias. Era seu o ofício de praticar a edição do jornal, selecionando aquilo que lhe parecesse interessar aos leitores, o que os motivaria a comprar o periódico.
Os tempos começam a mudar
Ainda não estávamos nos tempo de planificação das ações de produção dos bens de informação. O fato destacado aqui dá-nos a ideia de como funcionava o processo de produção do próprio jornal. Esse processo está ligado ao resultado final alcançado, seja do ponto de vista estético, isto é, da qualidade tipográfica, mesmo que essa seja delegada a outros, seja do ponto de vista literário, uma vez que o jornal se ocupou, como veremos a seguir, em divulgar também a literatura ficcional em poesia e prosa, assim como notícias diárias, notas humorísticas, anúncios dos mais diversos tipos. A imprensa do século XX vai tratar de tirar de cena esse sujeito que fazia tudo e era tão comum desde os primeiros anos da imprensa no Brasil:
A fatura dos matutinos começou a exigir gama variada de
competências, fruto da divisão do trabalho e da especialização:
repórteres, desenhistas, fotógrafos, articulistas, redatores,
críticos, revisores, além dos operários encarregados da
impressão propriamente dita. Esses artífices da imagem e da
palavra encontravam na imprensa oportunidades de
profissionalização, conforme já destacado. (Luca, 2005, p.138)
A relação entre escritores de ficção e o jornalismo era cada vez mais constante e crescente. Se, de início, essa relação se dava com o objetivo de defender as ideias de uma estética literária, por intermédio do órgão de um grupo específico, com o passar do tempo e cada vez mais com a entrada do Brasil na rota do comércio e da indústria internacionais, esse fato foi-se modificando. A esse respeito afirmou Tania Regina de Luca (2005, p.134):
O caráter doutrinário, a defesa apaixonada de idéias e a
intervenção no espaço publico caracterizaram a imprensa
brasileira de grande parte do século XIX, que, é bom lembrar,
contava com contingente diminuto de leitores, tendo em vista as
altíssimas taxas de analfabetismo. Os aspectos comerciais da
atividade eram secundários diante da tarefa de interpor-se nos
debates e dar publicidade às propostas, ou seja, divulgá-las e
torná-las conhecidas. A imprensa teve papel relevante em
momentos políticos decisivos, como a Independência, a
abdicação de D. Pedro I, a Abolição e a República.
De fato, a mecanização do processo de produção, a transformação do jornal em uma empresa como outra qualquer aumentou o número de periódicos em circulação, mas também aumentou a concorrência e a competitividade. Aqueles que sabiam ler e escrever, e os faziam bem, acharam nesse ramo mais uma possibilidade de remuneração menos instável, considerando-se como exemplo de instabilidade a incerteza da vida de autor de literatura de ficção. Foi esse fato que levou muitos dos autores brasileiros a colaborarem com os jornais. Essa relação pareceu tão marcante à época, que não foram apenas os autores que passaram a circular nos jornais, a viver em suas redações, como se estivessem em casa, como o declarou Olavo Bilac ao substituir Machado de Assis na coluna de crônicas da Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro. Os jornais também passaram a fazer parte da literatura. Ambos – texto jornalístico e texto literário – passaram a conviver de forma mais intensa e articulada.
A literatura nos jornais; os jornais na literatura
As redações funcionavam, como livrarias, cafés, confeitarias e bares, de ponto aglutinador da intelectualidade brasileira, até mesmo nas capitais mais distantes do poder como era o caso de Fortaleza. Como já afirmamos, os jornais passaram também a se fazer presentes nas páginas dos romances como mais um recurso a ser explorado em nome da trama narrativa, da formação das personagens ou da formação dos demais elementos da prosa como o tempo, o espaço etc.Vale lembrar aqui, como exemplo, o já citado romance A normalista, de Adolfo Caminha. Nele, lemos a cena que a seguir reproduzimos:
O escritório da Província estava quase deserto. Apenas o José
Pereira e o estudante [Zuza] conversavam amigavelmente,
sentados defronte um do outro à mesa dos redatores, fumando,
enquanto lá dentro, nos fundos onde ficavam as oficinas, os
tipógrafos compunham atarefados a matéria do dia.
Seriam duas horas da tarde. O calor abafava.
Um rapazinho raquítico, em mangas de camisa, com manchas
de tinta no rosto e um ar amolentado, veio trazer as provas do
expediente do governo.
– Falta matéria?, perguntou o José Pereira encarando-o: 'Não
sabia, não senhor, ia ver'. E saiu voltando imediatamente: que o
jornal estava completo.
– Bem, disse o Zuza, levantando-se, vou à casa do Sr. Guedes.
Preciso acabar com isso.
– Mas olha, recomendou o redator, não vás fazer asneiras,
hein?
– Não, não. A coisa é simples. Addio.
E retirou-se fazendo piruetas com a bengala no ar.
É um criançola esse Zuza, murmurou José Pereira molhando a
pena.
Imediatamente entrou o Castrinho, outro colaborador da
Província, também poeta e amigo particular de José Pereira,
autor das Flores agrestes, publicadas há dias e que tinham sido
muito bem recebidas pela crítica indígena. Vinha trazer a
resposta ao crítico do Cearense que o chamara – plagiador de
obras alheias.
– Então, temos polêmica?, perguntou José Pereira sem levantar
a cabeça, revendo as provas.
– Por que não? Hei de provar a evidência que não preciso
plagiar a ninguém. Aqui está o primeiro artigo. É de arromba!
(Caminha, 1998, p.75)
Vemos nessa citação a articulação entre jornal, vida privada e literatura. Na redação da Província, as personagens se encontram para resolver os seus dramas, como o fez Zuza ao tratar do seu namoro com Maria do Carmo noticiado nas páginas da Matraca, outro periódico citado no romance, uma daqueles jornalecos "immundos" aos quais se referia Adolfo Caminha, e também como o fez o Castrinho, ao buscar o revide de seu crítico que o acusara de plagiador nas páginas do Cearense. Há na cena citada uma preocupação excessiva em caracterizar a redação do jornal. O mobiliário, a caracterização das personagens, tudo, enfim, que geralmente se via na redação de um jornal foi usado para dar à cena efeitos de real, para usar aqui o conceito de Roland Barthes. O uso desse tipo de recurso não parece ser em vão. Ainda em A normalista temos mais uma cena em que esse fato fica bem caracterizado: "Vendedores de jornais esperava a Província, à porta da redação, inquietos, turbulentos, a questionar por dá cá aquela palha, e já se ouvia o barulho do prelo lá dentro, imprimindo a folha governista" (ibidem, p.77).
Não foi, porém, somente Adolfo Caminha que utilizou o cenário do jornal em seu romance citado. Em A conquista, romance de Coelho Neto, encontramos referências explícitas ao jornal Cidade do Rio, fundado por José do Patrocínio. É Brito Broca (2005, p.45) quem nos dá notícia do malogro dessa empresa:
A Cidade do Rio, jornal que ele fundara e em que fizera a parte
mais aguda da campanha abolicionista, de cujas sacadas se
habituara a discursar, já não interessava ao público. E tudo vai
à matraca. Os redatores recebem, às vezes, algum dinheiro por
meio de vales, enquanto o diretor continua a aumentar-lhes os
ordenados hipotéticos e imaginários. Em 1900, a folha se acha
instalada à rua do Sacramento, 8, onde Patrocínio arrendara o
material de uma empresa tipográfica meio arruinada e dois
pavimentos do prédio. O triste espetáculo da decadência do
homem reflete-se no jornal. Um dia, os redatores encontram o
prédio fechado: por falta de pagamento, o proprietário pusera-
lhe as trancas na porta. Ninguém sabe onde anda Patrocínio no
momento. A folha está na iminência de não sair nessa tarde.
Mas Vivaldo Coaracy, um dos redatores – de quem colho estas
informações – consegue de Gaetano Segreto uma velha oficina
abandonada, na rua Uruguaiana, tremendo ninho de pulgas,
onde improvisaram, aos trancos e barrancos, um número
pavorosamente mal impresso da Cidade do Rio.
Além de Broca, a personagem Anselmo Ribas ocupou-se da Cidade do Rio na cena final do citado romance A conquista:
Anselmo procurou umas tiras e, afastando velhos ramilhetes,
que entulhavam a sua mesa, poz-se a escrever machinalmente.
Em baixo, na officina, os compositores chalravam. Justamente
terminava a chronica e começava a rubricar o noticiário quando
Patrocínio appareceu esbaforido com o chapéu derreado sobre
a nuca. Atirou-lhe uma palmada ao hombro e sentou-se á
secretaria procurando alguma coisa nas gavetas.
– Então, José... Que vamos fazer agora?
– Hein? Escrevia, muito inclinado, de costas para o secretario.
– Qual é o teu programma?
– Que programma? Ergueu-se e, sorrindo, estendeu a mão: Dá
cá um cigarro. Perguntas que é o meu programma?
– Sim. Conquistaste o teu ideal e agora...?
– Agora?... E, rindo, inclinou-se ao hombro do companheiro,
dizendo-lhe ao ouvido: Agora vou ali ao banco com esta letra
arranjar dinheiro. (Coelho Neto, 1921, p.453-4)
Com os exemplos citados, seja no caso do romance de estreia de Caminha ou nesse de Coelho Neto, na literatura do final do século XIX e início do XX, sobretudo em alguns títulos de forte conteúdo memorialístico, a relação entre literatura e jornalismo foi estreitamente representada. Os vínculos nesses casos são incontestáveis. As articulações entre um fazer e outro passaram a se fazer presentes mais e mais. As personagens passaram a ser leitoras de jornais, a acompanhar os dramas nacionais ou de casos específicos, às vezes a respeito da sua própria vida, pelas páginas das folhas da manhã ou da tarde. Já para os autores de literatura de ficção, e especificamente no caso de Adolfo Caminha, a estratégia para vencer as sanguessugas, o minotauro e os borradores era estar, ao mesmo tempo, em vários veículos, cultivando vários gêneros fossem eles propriamente literários ou não.
Os escritores iam de pena na mão escrevendo do conto à crônica, passando pelo romance, pela poesia, pela crítica, pelas colunas de humor, assinando o que escreviam com o próprio nome, com abreviaturas, com pseudônimos, com criptônimos, às vezes invertendo a ordem das iniciais de seu nome, como o fez o autor das Cartas literárias, na Gazeta de Notícias, ao assiná-las com C. A. em vez de A. C., causando confusão quanto ao reconhecimento da autoria, como observou Tristão de Ataíde. Talvez tudo isso fosse feito tendo em consideração um velho ditado da sabedoria popular que diz: Quem não aparece não é lembrado.
Esse modo de fazer-se presente urdia uma malha coesa, como veremos a seguir ao demonstrarmos que entre os jornais O Diário, O Pão, O Operário e O Combate havia, senão uma relação ideológica, ao menos uma relação de ordem prática, afinal foi das oficinas destes dois últimos jornais que saiu o órgão dos Padeiros e ao qual se faziam constantes referências naquele jornal de Adolfo Caminha. Essa rede de malha fina revela também uma rede de afinidades as mais diversas e revela ainda as condições materiais, a tecnologia existente na cidade, os meios de produção e as estratégias de divulgação do material impresso. Era preciso mostrar-se, então, que todos falassem de todos, ou, pelo menos daqueles com os quais havia pontos em comum. Os jornais e revistas eram vitrines do mundo das letras.
Os jornais e revistas como vitrines
A participação do Brasil como consumidor de bens era cada vez maior no final do século XIX. Em algumas cidades, como Rio de Janeiro e Fortaleza, esse período foi posteriormente denominado pela historiografia de Belle Époque. Os vapores traziam as novidades da vida europeia para a capital do país e dos Estados. Com a ascensão de São Paulo, vieram os chamados tempos eufóricos, juntamente com a iniciante industrialização do país, para fazer a história entrar em um movimento mais acelerado, mudando modos de vida, agigantando as cidades, alargando os horizontes e expectativas, criando ilusões, essas talvez já há muito circulantes, como a de se estar na capital do Rio de Janeiro como se essa fora Paris, mesmo que, numa adaptação linguística e circunstanciada, considerassem alguns de seus moradores tratar-se de uma Paris "em ponto pequeno". Era o que dizia, por exemplo, o narrador do romance Tentação, de Adolfo Caminha (1979, p.10):
Figurava a Corte do Império uma terra legendária de aventuras
e de muito dinheiro, onde, com algum trabalho, qualquer
homenzinho podia fazer fortuna em poucos anos, ou, quando
mais não fosse, galgar posições, eminências cobiçadas,
conquistar nome – celebrizar-se. Devorava os jornais do Rio, na
biblioteca; lia tudo quanto na grande capital se publicava em
prosa e verso; não era estranho ao movimento literário, aos
saltos-mortais da política, às artes; interessava-se,como
republicano, pela saúde do monarca e pelos escândalos mais
ou menos ruidosos da Rua do Ouvidor; enfim, o Rio de Janeiro
era, a seus olhos estáticos de provinciano, a quintessência da
civilização – Paris em ponto pequeno.
Desse modo, era preciso aproximar as realidades diárias da cidade, buscar vitrinas para mostrá-la, o que não significava expor somente o que havia de positivo. Era preciso mostrar o erro, julgá-lo e combatê-lo. Para tal, o meio mais prático parece ter sido o desenvolvimento dos jornais, das revistas, dos impressos em geral, uns mais do que os outros, criando assim um setor industrializado, mecanizado, próximo do poder, fosse ele o poder político, capital ou partidário, ou os três de uma só vez.
Correspondente a toda ação há uma reação, e assim surgiu também uma imprensa minoritária, de caráter combativo, uma imprensa crítica, satírica, sarcástica, que usava dos recursos do humor para representar aspectos da vida política, social, cultural, entre ela, a vida literária, mesmo que essa opção levasse os seus representantes, ou seja, os pequenos jornais de tiragem ínfima, à morte prematura. Tania Regina de Luca (2005, p.137), tratando da relação entre imprensa e lucros, afirmou:
A partir da segunda metade do século XIX, o Império desfrutou
de relativa tranqüilidade política e da prosperidade econômica
advinda do café. O mundo urbano expandia-se, os trilhos das
ferrovias rasgaram as regiões mais prósperas, a navegação a
vapor acelerava as trocas, as atividades comerciais e os
serviços começavam a se diversificar, contexto que a um só
tempo favorecia e demandava a circulação de informação.
Aliás, seus mecanismos de difusão foram aperfeiçoados com a
invenção do telégrafo e a posterior ligação Brasil-Europa por
cabo submarinº. A famosa fórmula "O último paquete trouxe a
notícia..." foi substituída pelos rapidíssimos informes
telegráficos.
A já citada aproximação dos autores de literatura de ficção, fossem poetas ou prosadores, alguns deles também ligados às lutas políticas, como o fim da escravidão, ideal da vida de José do Patrocínio como vimos no excerto destacado do romance de Coelho Neto, fez que eles tivessem experiências também como editores, conhecendo de perto o mundo das tipografias, dos linotipos. Essa oportunidade nem sempre resultava em experiências positivas, fosse no que diz respeito ao alcance artístico ou ao financeiro; assim, muito jornal ou revista, abertos no desejo de fazer-se notar, de celebrizar-se e de lucrar economicamente, preenchendo a lacuna deixada pela literatura, fechavam as suas portas mal punham o primeiro número na rua.
De sucessos e de malogros, porém, se fez essa história, ao mesmo tempo história de amor, ao mesmo tempo história de ódio, mas história.Talvez, por isso mesmo, nem sempre reconhecida como tal; afinal, como afirma Tania Regina de Luca, ao tratar da prática dos historiadores em escrever não somente a história da imprensa, mas a história por meio da imprensa, "Reconhecia-se, portanto, a importância de tais impressos e não era nova a preocupação de escrever a História da imprensa, mas relutava-se em mobilizá-los para a escrita da História por meio da imprensa" (ibidem, p.111). Como toda história, a da relação entre literatura de ficção e jornalismo no Brasil do século XIX pede um fato, e, nesse caso, o melhor é demonstrar a experiência de Adolfo Caminha como editor.
A experiência de O Diário
Adolfo Caminha editor de O Diário
Entre as atuações de Adolfo Caminha como editor destacaremos o seu trabalho em O Diário e em A Nova Revista. É importante observar que O Diário foi editado por Caminha em 1892, portanto dois anos antes de ele publicar o seu artigo intitulado "Editores", que é de 1894, nas páginas da Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro. No caso de A Nova Revista, trata-se de uma publicação de 1896, exatamente dois anos após a publicação do artigo citado. Assim, podemos constatar não somente duas experiências de edição, mas duas experiências em momentos diferentes, ambas, porém, perpassadas por uma reflexão do autor a respeito dos editores, o que significa também pensar em uma reflexão a respeito das condições de produção da literatura e da vida intelectual brasileiras. Vale ressaltar que, enquanto a publicação de O Diário se deu em Fortaleza, a de A Nova Revista se deu no Rio de Janeiro, ou seja, na capital do país onde, supostamente, as condições materiais para que uma publicação literária ou comercial florescesse fossem bem melhores.
Uma radiografia de O Diário
Nesse jornal, a tensão entre publicar literatura e alcançar o lucro financeiro mostra-se mais forte do que em A Nova Revista. A escolha de O Diário para ser objeto de nossa problematização e análise deu-se, justamente, por ele se encontrar no limiar do lucro comercial e a missão de divulgar a literatura a partir da publicação de sonetos, contos etc. Além de, em uma seção específica, divulgar o título das obras que lhe eram envidas, o que também ocorreu em A Nova Revista.
Publicado em Fortaleza, O Diário era uma "Folha da Tarde", cujo primeiro número data de 16 de maio de 1892. O seu último número, que é o 59º, data de 4 de agosto de 1892, tendo, portanto, a sua circulação durado menos de três meses. Constituído de apenas quatro páginas, cada uma com três colunas, resultando no total de 12 colunas, o jornal possuía algumas seções fixas e outras ditas livres, variando, portanto, o seu conteúdo segundo as circunstâncias. Essa situação produz o desaparecimento de seções e o aparecimento de outras ao longo dos seus 59 números.
Entre as seções fixas destacamos: o expediente; o "Kalendário", sempre indicando o santo do dia e um fato histórico relacionado à data; a seção "Balas e Bolas", na qual ainda nos deteremos; "Bom Dia", seção em que os aniversariantes eram saudados; o "Cambio", dando o valor da moeda corrente; uma dita "Secção Livre" aberta a vários temas com textos na maioria das vezes assinados por outros que não o redator-principal, o que já indica um outro modo de ganhar dinheiro a partir da publicação de matérias ou notas pagas, o que também parece ocorrer com a citada coluna "Bom Dia"; uma coluna intitulada "Humorismo", com anedotas e piadas bem ao estilo do jornal O Pão, da Padaria Espiritual, além dos anúncios, que eram uma outra fonte de renda; a seção "Editaes", em que eram publicados os editais da Thesouraria da Fazenda, repartição pública onde Adolfo Caminha trabalhou após desligar-se da Marinha, o que já evidencia relações entre fazeres e relações de amizades que se estabelecem em uma longa e densa rede de contatos, que se intensifica à medida que os sistemas sociais se relacionam, entre eles o sistema de poder, econômico, literário.
Figura 7 – Primeira página do número 1 do jornal O Diário Fortaleza,
16 de maio de 1892. Biblioteca particular de Sânzio de Azevedo.
Infelizmente, não sabemos ao certo se o contato se deu por intermédio de Caminha ou de seu sócio ou ainda de ambos, mas o certo é que havia uma relação entre aquela repartição pública e O Diário.
O jornal parecia aberto à diversidade de notícias fossem elas colhidas na própria cidade, quando as havia, ou colhidas em outros jornais, o que dá a entender que O Diário era redigido e editado a partir da leitura de outros jornais, como geralmente acontecia com as "folhas da tarde", sendo essa uma maneira de preencher lacunas que a vida na pequena cidade não preenchia, mas também era uma estratégia para segurar os assinantes e leitores conquistados e chamar a atenção daqueles que estavam por vir. Assim, encontramos nas suas páginas expressões do tipo: "Lemos n'A Província do Pará" (O Diário, n.1), "Extrahimos do Correio do Cariry" (O Diário, n.2); "Dispertou-nos a attenção o anuncio inserto na Republica de 17 corrente..." (O Diário, n.13); "Diz O Tempo, da Capital Federal" (O Diário, n.14); "Extrahimos do Jornal do Brasil, de 11 de maio" (O Diário, n.15); "O Jornal Brazil da capital federal, publicou a seguinte notícia" (O Diário, n.18). É importante destacar esse fato, tanto como estratégia comercial como forma de diálogo com outros periódicos, notadamente os da capital do país.
A esses exemplos de entrelaçamento de leituras e escrita, poderíamos juntar muitos outros como as seguidas seções intituladas "Tellegramas", cujo subtítulo era: "Serviço especial d'O Diario". Essa seção trazia um noticiário rápido, curto e preciso como o era de esperar pelo vínculo com a tecnologia de informação então vigente: o telegrama. A respeito dessa seção lemos:
O Diario do Maranhão, a folha mais antiga d'aquelle Estado e
um dos jornaes mais conceituados do norte, acaba de contratar
conosco a permuta de notícias telegraphicas.
Correspondente em Maranhão do Jornal do Commercio do Rio,
o nosso colega transmitir-nos-á pelo telegrapho as novidades
de maior vulto, quer da CapitalFederal, quer dos Estados do
norte, o que será de grandes vantagens para o publico desta
capital e, em particular, para os nossos assignantes.
Neutros em politica, daremos publicação a todos os
telegrammas do nosso illustre correspondente, satisfazendo
assim, plenamente, a curiosidade publica até agora obrigada a
julgar os fatos por telegrammas de cunho oficial.4
Vemos então, que os redatores de O Diário procuravam mostrar o jornal como participante de uma conceituada rede de comunicação, destacando sempre que as informações vindas de outros jornais, como o que vemos na citação, seriam "de grandes vantagens para o público desta capital e em particular, para os nossos assinantes". Isso evidencia e reforça a estratégia de conservar as assinaturas e conseguir outras novas. Certamente, esses telegramas com o objetivo de mostrar a outra face de fatos ocorridos no país fizeram com que O Diário fosse visto como uma folha não tão neutra em política ou indicava que o jornal encontrou estratégias para noticiar fatos políticos.
No expediente eram divulgadas as modalidades e os valores das assinaturas. A assinatura semestral, por exemplo, custava para o morador da capital cearense 5$000 (cinco mil réis) e para o do interior do estado 5$500 (cinco mil e quinhentos réis); já para os assinantes de fora do estado, a assinatura era anual e custava 11$000 (onze mil réis). Os números avulsos custavam 40 rs (quarenta réis) e os números atrasados, chamados de anteriores, custavam o dobro daqueles, ou seja, 80 rs (oitenta réis). Porém, no 12º número, os editores deram aos seus leitores da capital do estado a possibilidade da assinatura por trimestre, o que já denota uma mudança nas estratégias de venda, possivelmente ocasionada pela recepção do periódico até então.
De fato, a estratégia de venda não ficou restrita à assinatura. No número dois do jornal encontramos o seguinte anúncio: "Precisa-se de um menino para distribuir 'O Diario'" (grifo nosso). Se até aquele número o problema era apenas de distribuição, o que nos dá a entender que houve um bom número de assinaturas do periódico de Caminha e d'Oliveira, mais à frente veremos que o problema era bem outro. Nos números 9, 11 e 13 encontramos um outro anúncio nos seguintes termos: "Precisamos de meninos para vender 'O Diario'" (grifos nosso). Esse fato denota, como já dissemos, uma mudança na estratégia de venda, uma vez que os meninos vendedores de jornal, também chamados de gazeteiros, vendiam números avulsos, gritando-os nas ruas aos berros para transeuntes e moradores. É importante mostrar aqui que esta estratégia de venda e o sujeito que a realizava, ou seja, o gazeteiro, também está presente na ficção de Adolfo Caminha (1998, p.38), mais precisamente em seu romance A normalista: "O dia seguinte era domingo. Todos em casa do amanuense acordava muito bem-dispostos. Havia missa cantada na Sé. Espocavam foguetes e repicavam sinos. Meninos apregoavam numa voz cantada a Matraca a 40 réis!".
Se inicialmente O Diário necessitava de apenas um menino, como grifamos, ele passa, logo em seguida, a precisar de meninos, e não somente para a sua distribuição, mas sim para a sua venda, indicando o malogro da estratégia mais tradicional, isto é, as assinaturas. E esses indícios são confirmados no editorial do último número do periódico intitulado "A verdade no caso", datado de 4 de agosto de 1892, pois nele encontramos a seguinte afirmação:
este publico, com raras e louváveis excepções, recusa pagar
3$000 reis pela assignatura de um jornal que lhe foi entregue
pontualmente, e, o que é mais, este publico, tão civilisado e tão
inteligente, tem a coragem inaudita, o incrível desplante de
pretextar que nós exploramos, quando é certo que até hoje só
temos tido muito trabalho e algum prejuiso com a empreza que
ousamos levantar! (itálicos do autor; negritos nossos)
Voltemos, porém, à primeira página do jornal. Vemos também no expediente que os redatores pretendiam fazer chegar o jornal às outras praças além da capital cearense, como deixam entender as assinaturas. E parecem ter conseguido, senão pela forma citada, mas divulgando o periódico que editavam e as ideias que difundiam, enviando-o a outros órgãos de imprensa, como nos faz pensar a seção "Nós e a imprensa", que dava notícia do recebimento de O Diário por jornais das cidades do interior cearense como Sobral,Viçosa e a região do Cariri, e nas capitais de outros Estados: Manaus, Maceió, Rio de Janeiro, São Luís, além de ser recebido por jornais de Fortaleza como O Operário, de cuja tipografia saíram alguns números de O Pão como veremos a seguir, A Republica, A Verdade e Silva Jardim.
A leitura atenta nos faz considerar que as pretensões de O Diário eram ainda maiores como podemos constatar ao final de um dos comentários da seção intitulada de "OS SETE DIAS – CRHRONIQUETA" no número 7, de 23 de maio de 1892:
Indubitavelmente a questão do dia é o apparecimento d'O
DIARIO. Modéstia á parte.
O DIARIO veio quebrar a monotonia da vida cearense.
Um jornalsinho alegre, neutro em politica (e isto é tudo!)
noticioso, muitissimo noticioso, interessando-se vivamente por
tudo quanto diz respeito ao commercio e progresso do Ceará,
tratando as questões com criterio e independencia – que melhor
presente podia ter o publico d'esta capital?
E não é tudo; muito breve O DIARIO terá correspondência
especial do Rio deJaneiro e até de Paris e Lisboa!
Ahi está porque o acontecimento de maior importância na
ultima semana foi O DIARIO, folha da tarde a 40 réis. (grifo
nosso)
Essas pretensões parecem verdadeiros devaneios diante de problemas com a distribuição, a venda das assinaturas e a impressão do jornal, sem falar de problemas na qualidade gráfica que, somente aos poucos, ia sendo melhorada e ainda assim era deficiente, fosse pelos meios existentes, possivelmente precários, fosse pela falta de recursos financeiros para oferecer um material de melhor qualidade ao seu público leitor. Certamente, a pretensão de ter correspondentes naquelas cidades foi uma estratégia para garantir a fidelidade dos leitores já conquistados e, também, atrair aqueles que estavam por conquistar, usando como recurso o apelo a tudo que fosse importado, incluindo as notícias, dando ao público fortalezense a oportunidade de conhecer o que se passava em cidades de grande porte e de vida mais movimentada, pois sempre havia a queixa de que a vida na capital cearense era monótona.
Logicamente, as cidades escolhidas não poderiam ser outras – Rio de Janeiro, Lisboa e Paris. As três cidades eram fortes referências para o Ceará no final do século XIX, pois delas vinham as mais diversas novidades trazidas pelo último paquete. Os intelectuais, por exemplo, aguardavam os títulos mais recentes publicados naquelas terras para onde desejavam ir, sobretudo Paris. Rio de Janeiro e Paris eram como uma ponte para o sucesso nacional e internacional. Lisboa representava o meio do caminho ou era uma alternativa ante a hegemonia da influência francesa no Brasil do final do século XIX, hegemonia essa que se estendeu até pelo menos o final da Segunda Grande Guerra, quando o país já passou a viver sob a influência dos Estados Unidos e o seu american way of life.
A influência cultural do país de Balzac, Flaubert, Zola e outros era tanta, que Brito Broca fala em uma bebida – a parisina – tomada por aqueles brasileiros egressos de Paris, mais especificamente por Olavo Bilac, que a contragosto teve que deixar a Cité lumière...
Mas quantos, depois de haver desfrutado de Paris todas as
delícias e sortilégios, desembarcaram no Cais Pharoux a
trautear o último couplet do Rat Mort! Bilac parte todos os anos,
regressando sempre com um desejo único: o de partir de novo.
Fizera a primeira viagem em 1891, como correspondente da
Cidade do Rio. De Paris escreve a Max Fleuiss, aludindo ao
Brasil como a uma Cafraria Portuguesa, que a generosidade
dos povos persistia em chamar de país civilizado; para em outra
cata lhe fazer perguntas assim: "Como vai essa terra ignóbil?"
Acabava de conhecer Eça de Queirós na casa de Eduardo
Prado, e parecia querer imitá-lo na maneira pela qual o
romancista costumava referir-se a Portugal. Ao regressar dessa
viagem, Bilac mostrara-se tão dépaysé no ambiente brasileiro,
que chegou a sugerir a Artur Azevedo esse comentário no
Correio do Povo: "O nosso poeta está seriamente intoxicado" –
dizia o cronista, noticiando-lhe o regresso –, "ingeriu
pantagruélicas doses de 'parisina' a famosa bebida de que
falava Charles Nordier, e agora não há volta a dar-lhe. Se ficar
aqui a passear, entre o beco das Canelas e a rua da Vala,
morre da pior da nostalgias, a nostalgia de Paris". (Broca, 2005,
p.143-4).
Se no Rio de Janeiro escritores e intelectuais sofriam de tal influência, o mesmo podemos afirmar a respeito dos intelectuais e escritores fortalezenses; afinal, pelo menos uma parcela mais abastada dos moradores da capital cearense vivia, como demonstra Sebastião Rogério Ponte (1999, p.206), a sua Belle Époque, importando, diretamente de Paris, o dernier cri dos costumes, da moda, das letras e das notícias, pois era preciso regenerar ruas, corpos e mentes; desse modo esperava-se constituir uma nova ordem social, dando origem a casos semelhantes como aquele citado a respeito de Olavo Bilac, chegando a situações às vezes hilárias, às vezes trágicas, como aquelas que marcaram a vida de Bembém da Garapeira e a do poeta José Albano.