Agridoce
PARTE TRÊS: O Novo Diretor
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Para juntar às preocupações das enfermeiras mais novas, a enfermeira-chefe e as suas duas adjuntas passaram o resto daquele inverno de 1929, até setembro, a pôr em ordem os registos e vários documentos a fim de impressionar o novo diretor. Ele veria o departamento de enfermagem como um grupo de indivíduos disciplinados, capazes de o fazer poupar bastante tempo e energia no que dizia respeito a todos os aspetos da enfermagem. O secretário do hospital, Walter Paulet, estava igualmente enclausurado com o pessoal do departamento de contabilidade. Corriam rumores de que Walter andava a arrancar pela raiz o pouco cabelo que tinha devido à falta de um sistema organizado na papelada de Frank Campbell. Quando tudo se reduzia aos números pretos sobre as folhas brancas, as maquinações do doutor Campbell para alimentar toda a gente no hospital por seis dinheiros por dia pareciam, bem, bastante chocantes.
No entanto, com alguma sorte, o Hospital de Corunda continuou a funcionar com médicos, enfermeiras, pessoal de limpeza e de cozinha e auxiliares da mesma velha maneira, e os pacientes continuaram a viver (e a morrer) na mesma ignorância relativamente ao drama que se passava a nível executivo. Na verdade, era até raro que um paciente soubesse que o hospital tinha pessoal executivo.
Informada de que estava de folga durante três dias, Kitty Latimer fez uma mala, despediu-se das irmãs e foi para Sydney. Quando chegou à cidade, ficou hospedada num quarto no Country Women’s Club e lançou-se num frenesim de compras, idas ao cinema e a todas as peças de teatro e exposições em Sydney. Os filmes com som tinham acabado de surgir, e Kitty não sabia bem se gostava ou não… agora que as bocas proferiam as palavras em vez de mimarem frases dramáticas ecoadas num requintado quadro negro, os atores pareciam demasiado encenados, demasiado artificiais, até mesmo demasiado engraçados… e será que os homens precisavam mesmo de usar tanta maquilhagem que lhes dava um aspeto tão feminino? Se os filmes com som iam perdurar, pensou Kitty, toda a técnica de produção teria de mudar.
Contudo, no final dos seus três dias de folga, Kitty instalou-se num compartimento de primeira classe no comboio do dia para Melbourne, uma vez que todos os expressos tinham de parar em Corunda para deixar a sua segunda locomotiva. Num comboio expresso era uma viagem de três horas que ela adorava, sobretudo pelo facto de conseguir ter o compartimento de seis passageiros só para si.
Mas hoje não. Depois de se acomodar no assento junto à janela e de fechar sugestivamente as cortinas que davam para o corredor, de forma a sinalizar que o compartimento se encontrava cheio, Kitty tirou os sapatos cor-de-rosa (que lhe magoavam os calcanhares) e abriu o romance que estava a ler distraidamente, deixando assim o resto do seu pensamento vaguear por reinos mais inconscientes. A última coisa de que uma enfermeira precisava era da dura realidade num livro. Kitty era mais sensata do que a maioria ao perceber que a autora do romance compreendia, na sua vida real e sem qualquer dúvida, a dura realidade.
A porta deslizante do corredor abriu, uma cabeça espreitou e, em seguida, a porta abriu-se completamente e um homem entrou.
— Oh, que bom! — disse ele, dirigindo-se para o outro lugar junto à janela.
Kitty levantou a cabeça.
— Este compartimento é para não fumadores — disparou ela num tom frio.
— Eu sei ler — respondeu ele, apontando, depois olhou fixamente para ela de forma bastante descarada. — Marion Davies! — exclamou.
— Vai-te lixar, seu imbecil presumido! — disse Kitty. — Se insistir em entrar, não se atreva a sentar-se à minha frente! Sente-se do lado do corredor, guarde os seus comentários para si mesmo e dê-me alguma privacidade. De outro modo, vou chamar o condutor.
O homem encolheu os ombros. Atirou a sua mala para o compartimento da bagagem e sentou-se no lugar junto ao corredor, mas de frente para Kitty. Privado de uma janela, olhou para as coberturas da NSWGR que protegiam os assentos de veludo.
Kitty regressou ao seu livro. Sob a sua atitude distante e fria, estava a ferver. Como se atrevia? Um tipo novo e elegante, com pouco mais de um metro e sessenta de altura, vestido com um fato às riscas azul-escuro com colete, relógio de ouro e corrente. Um magnífico anel de rubi adornava a sua mão esquerda, tinha outro rubi preso ao que parecia ser uma gravata antiquada e mais dois incrustados nos botões de punho. Os seus pés, reparou ela deliciada, estavam calçados com sapatos feitos à mão com saltos bastante óbvios… era sinal de que ele se sentia extremamente consciente do seu tamanho diminuto. Aposto que caminha como um garnisé, pensou ela, assimilando tudo isto com a sua invulgarmente precisa visão periférica, o resultado de três anos como enfermeira, treinada para ver tudo e mais alguma coisa. Ele tem um complexo napoleónico, ou pelo menos é assim que os alienistas o chamam, e não é que adora mostrar-se, o pequeno exibicionista?
O seu cabelo era grosso, áspero e encaracolado, de uma cor dourada verdadeira, também presente nas sobrancelhas e nas pestanas, mas Kitty ainda não sabia de que cor eram os seus olhos, para além de parecerem ter um tom âmbar. Pele escura, que já se encontrava bronzeada, perfeitamente barbeado e um rosto que Kitty teve de admitir considerar fascinante, não necessariamente por a repelir ou atrair. Simplesmente, não conseguia perceber se era feio ou bonito e mudava de cada vez que olhava para ele. Por vezes, o rosto tinha características de um ator de cinema, tão belo quanto o dos figurantes que adornavam os cenários dos filmes, no meio da multidão, e que ofuscavam o protagonista. Se fosse mais alto e tivesse apenas esta faceta, poderia ter sido rei, presidente ou líder de uma seita religiosa. Como era, a outra faceta do seu rosto negava qualquer esperança de ter sido dotado por Deus. Este rosto pertencia a uma gárgula ou talvez a um sátiro castrado. Feio e disforme, tinha o poder de transformar a estrela de cinema num mapa sinistro tão duro quanto insensível.
Quem quer que este homem seja, assusta-me, pensou Kitty, o seu livro incapaz de competir com uma personagem acabada de sair de um livro de histórias. Sim, ele ia ser importante, nem que fosse por se esforçar tanto. Olhando para os rubis, o ouro e o fato feito à mão, um homem rico… ia de certeza sair em Corunda, pois os rubis vermelho-sangue eram típicos de Corunda, sendo os mais cobiçados e caros do mundo. E com aquele ar de menino nascido em berço de ouro, ele é um Burdum.
Finalmente percebeu. Com um enorme esforço, Kitty manteve os olhos no livro e a respiração calma. A não ser que estivesse errada, este era o doutor Charles Henry Burdum, vindo da Manchester Royal Infirmary, a caminho do Hospital de Corunda para se tornar o seu novo diretor. Que mundo pequeno! Podia ir para outros hospitais, como o Bart ou o Middlesex ou o Guy, o que o levaria a ir para um sítio de que nunca ouvira falar antes? Ele é um pommy, não é australiano, e nunca vi um homem vestido de forma tão incongruente com a vida na Austrália. Um diminuto garnisé…
Após aquela troca de palavras inicial, as três horas de viagem passaram-se em silêncio. Como era seu hábito, Sid, o condutor, chegou com cinco minutos para dar à língua, tirou a mala de Kitty da bagageira e levou-a pelo corredor até à porta da carruagem, onde ficou parado a conversar com Kitty, que conhecia de inúmeras viagens de comboio. O desconhecido elegante foi obrigado a carregar a sua própria bagagem e a ficar atrás deles, enquanto as duas locomotivas se aproximavam da estação a gemer e a chiar. Edda estava lá para a receber, na conversa com o velho Tom Burdum.
— Onde arranjaste esse vestido? — quis saber Edda, sem sequer olhar para o homem, enquanto Tom Burdum se afastava.
— É de Mark Foy. Encontrei um lindo para ti, mulher-cobra. — Kitty deu o braço à irmã e levou-a dali. — Olha para trás e vê o homem que o velho Tom está a cumprimentar.
— Jeeeeesus! O pequeno Lord Fauntleroy!
— Isso mesmo, Edda. Não tenho a certeza absoluta, mas estou disposta a apostar que aquele é o doutor Charles Burdum, ou seja, o novo diretor.
— O hospital ainda não nomeou ninguém para o cargo.
— Talvez ele tenha vindo conhecer o sítio, com a intenção de recusar a oferta — retorquiu Kitty. — Viemos no mesmo compartimento e tive de o pôr no seu lugar.
— Oh! Ele meteu-se contigo, Kits?
— Não. Chamou-me Marion Davies.
— Isso é ainda pior. A tua resposta foi amarga… ou pior.
— Apenas mais amarga que o café. Com picles! Disse-lhe para se ir lixar. Viemos o resto do caminho em silêncio.
Edda virara-se e olhava descaradamente para o recém-chegado.
— Bem, ele é um Burdum e é mais pretensioso que Lúcifer. Que rosto! Como o de Jano.
— Sim, pobre coitado.
— Tens pena dele? — perguntou Edda, incrédula.
— Muita. Olha para os sapatos feitos à mão, minha querida. Saltos de cinco centímetros. Ele é um complexo de Napoleão ambulante. Dotado de tudo, menos da altura de que qualquer homem precisa.
— Sim, percebo o que queres dizer — disse Edda, divertida. — Mesmo assim, se ele decidir aceitar o cargo, provavelmente só vai estabelecer-se quando o pior tiver passado. Então ele não sabe que és enfermeira?
— Não faz a menor ideia.
— Vai ser divertido quando ele descobrir!
Se Charles Burdum foi um choque para Kitty, em nada se comparava ao efeito que teve sobre o velho Tom Burdum, que esperava há noventa e cinco anos pela chegada de um herdeiro definitivo. Dirigira-se à estação à espera de encontrar alguém parecido com Jack Thurlow e, em vez disso, encontrou um anão com ares de lorde, cujo fato fora feito por um alfaiate da Savile Row e a camisa pela Turnbull & Asser. E com uma gravata semelhante às que usam no Balliol College, ainda por cima! Tom só descobriu quem ele era porque lhe perguntou, embora esperasse uma resposta irónica. Mas não deste tipo, que transbordava autoconfiança e caminhava como se tivesse um cabo de vassoura enfiado no rabo (tal como Tom disse a Jack mais tarde), e que se mostrou bastante aborrecido com o condutor do comboio por este não lhe ter carregado a mala de viagem.
— Na Austrália, os condutores não o fazem — disse Tom, não conhecendo outra forma de o convencer. — Na Austrália, ninguém te serve.
— Ele foi bastante diligente ao carregar a mala da madame! — disse Charles Burdum com um sotaque acentuado.
— De quem? Kitty Latimer? — disse o velho Tom com uma gargalhada. — Era preciso estar morto para não querer carregar a mala de Kitty.
— Ela mandou-me lixar… não é propriamente a linguagem apropriada de uma senhora.
— Tch! Tenho a certeza de que mereceste, Charlie.
— Não me chame Charlie, o meu nome é Charles.
— Se ficares em Corunda, vai passar a ser Charlie… ou Chikker.
— O quê?
— Não há snobismos nem mordomias nesta parte do mundo, meu querido neto. Aviso-te já porque alguém tem de o fazer e prefiro que seja eu do que o teu primo Jack Thurlow, por exemplo. Ele é o meu outro herdeiro, embora não queira ser reconhecido como tal. Vais tornar-te um homem influente em Corunda se souberes fazer as coisas — disse o velho Tom, colocando as três malas na bagageira do seu Daimler preto. — Tens mais bagagem no porão? Sim? Então, entrega os bilhetes a Merv que ele vai buscá-la e entrega-ta em casa.
O velho Tom esperou que Charles encontrasse os bilhetes da bagagem e os entregasse a Merv, juntamente com uma nota de cinco libras, que deixou o homem de boca aberta.
— Tch! — disse o velho Tom — Que disparate, Charlie! Nunca dês gorjeta a um homem que recebe ordenado. Eu pago o suficiente a Merv para ele não precisar de gorjetas. Agora, deixaste-o descontente com o ordenado justo que recebe, só porque, de onde tu vens, tal não aconteceria e ele teria de depender de gorjetas para sobreviver. Lição número um.
Acomodaram-se no Daimler Tonneau com a capota dobrada para trás.
— Como Hannah, a minha mulher, também tem noventa e tal anos, não te acomodámos na nossa propriedade, Burdumbo. Vais ficar hospedado no Grand Hotel na Fergunson Street… Fica a um pulinho do hospital e da George Street, que não é um lugar muito mau para ir às compras… até tem um grande armazém. No entanto, ficas já avisado! Se queres comida decente, tens de ir ao Olympus ou ao Parthenon. São os dois geridos por gregos e a comida é de qualidade… bifes soberbos!
Tom Burdum continuou a divagar enquanto o velho carro, açoitado pelo vento rigoroso que se fazia sentir, percorria uma paisagem que muito se assemelhava a uma Inglaterra rural, embora bastante desmazelada… nada de eiras impecáveis, apenas imensos barracões em ruínas; nada de muros de pedra, apenas arame farpado enrolado em volta de postes feios, colinas arredondadas e coroadas não por pequenos bosques, mas por pedregulhos de granito. Não era o deserto escaldante que imaginara, mas também não parecia a Europa, nem mesmo a Grécia ou Maiorca.
As pessoas olhavam fixamente para ele, apesar de não serem olhares de admiração. Algumas sorriam de forma desdenhosa, a maioria parecia interessada, da mesma forma que olhariam para uma zebra ou uma girafa. O seu elevado grau de inteligência dizia-lhe que isto se devia em grande parte ao seu vestuário. Alguns habitantes locais usavam fatos de três peças, embora gastos e fora de moda. A maioria, incluindo o velho Tom, preferia calças aveludadas e confortáveis, camisa e casaco de tweed, botas de montar com elástico de lado e chapéu de feltro com abas largas. As mulheres usavam roupa horrível e fora de moda, enquanto algumas, reparou ele com um fascínio assustador, desfilavam pela cidade vestidas com roupa de montar masculina, até mesmo as botas de cavaleiro com elástico de lado e chapéu de feltro com abas largas… e ninguém parecia achá-las estranhas! Então, onde estavam as mulheres como aquela rapariga deslumbrante do comboio e a que a fora esperar à estação? Ambas vestiam o último grito da moda! Contudo, não vira nenhuma assim nesta longa excursão. Bem, elas não eram fruto da sua imaginação, elas existiam algures nesta cidade sombria.
O velho Tom levou-o a conhecer a cidade e chegaram aos edifícios da Victoria Street, que ficava paralela à George Street. Câmara municipal, serviços municipais, o hospital, a igreja anglicana de St. Mark e o presbitério… oh, será que a excursão nunca mais acabava?
Por fim, o hotel onde ia ficar hospedado surgiu no horizonte, um daqueles estabelecimentos medonhos ao estilo de Bournemouth ou Bognor, construídos para albergar a classe média mais baixa que poupara o ano inteiro para gozar uma semana de férias junto ao mar. No interior do Grand Hotel, encontravam-se colunas inabilmente pintadas de vermelho, luxuoso papel de parede vermelho, chão de madeira que fazia eco nos tetos imensamente altos, uma sala de jantar onde ele apostava que se servia uma sopa que sabia a batata e a carne rançosa. Meu Deus! Dezoito mil quilómetros de viagem para isto?
Bem, ele sabia porquê, embora Tom Burdum não soubesse… nem viesse a saber. É óbvio que ele não fazia ideia de que Corunda possuísse pessoas como Maude entre os seus habitantes, e por isso pensava que os olhares mesquinhos que todos lhe lançavam se deviam à sua roupa requintada e feita por medida. Se ele se tivesse apercebido de que toda a gente em Corunda sabia da história de Sybil, a filha do duque, antes de ele chegar, teria fugido aos gritos, e os habitantes de Corunda nunca o teriam conhecido.
No final de agosto de 1929, quando chegou a Corunda, Charles Burdum ainda sofria de tal maneira que pensava que nunca sentiria outra dor tão forte na sua vida. Apesar de os seus sorrisos serem rasgados e a sua disposição alegre, estes escondiam uma alma danificada. As suas velhas ambições estavam mortas; Charles apenas salvara bens materiais.
O seu amor por Sybil fora genuíno, tal como o amor dela por ele. Nunca lhes passou pela cabeça que o duque pudesse pensar que um Charles Burdum não fosse suficientemente bom para casar com a sua filha, mas, quando Charles pediu a mão dela em casamento, isso tornou-se evidente. Sybil casaria com alguém cujos antepassados fossem dignos da oitava linhagem do duque. Dinheiro e inteligência eram insuficientes, sobretudo num homem com uma estatura tão pequena. Quando a conversa com o duque terminou, Charles ficou horrivelmente consciente de que, entre todas as mágoas que a recusa provocara, a referente à sua altura fora a pior. É óbvio que Charles conhecia o tipo de marido aprovado pelo duque para Sybil (um metro e noventa) e culpava a sua estatura baixa pelo seu fracasso. Se fizessem uma pesquisa genealógica, descobririam que Charles descendia de Guilherme, o Conquistador, e de Harold Godwineson.
Com a sua autoimagem despedaçada, o seu ego de tal forma ferido que já nem era capaz de olhar para todos aqueles rostos desdenhosos, Charles mergulhou no seu trabalho em Manchester. Quando isso não resultou, ganhou coragem e passou algum tempo na City de Londres a gerir a sua fortuna, tendo acabado por sair de Inglaterra. Não sou suficientemente bom, hem? Bem, existia outro lugar onde podia fazer um brilharete… emanaria um brilho bastante mais ténue, mas ao mesmo tempo seria um astro maior, o que fascinava imenso um homem tão pequeno. Primeiro-ministro… ora aí está um cargo que valeria a pena perseguir, embora fosse apenas um pequeno ministério colonial. O Canadá não o seduzia; o seu francês era inexistente e o Canadá era tão frio. Na Nova Gales do Sul, ele tinha terras, riquezas minerais, família… não demoraria muito a tornar-se primeiro-ministro da Austrália!
No seu quarto de hotel, uma caverna lúgubre em tons castanhos, beges e um horrível amarelo-mostarda, Charles tomou um banho e vestiu um roupão. É claro que não havia serviço de quartos, mas uma conversa com o gerente assegurou-lhe um bule de café execrável e um prato com sanduíches de presunto. A comida era surpreendentemente boa. O pão era caseiro, e o presunto curado com açúcar e saboroso. Comeu avidamente, enquanto pensava sobre tudo o que observara em Corunda e sobre os comentários do velho Tom.
Daí em diante, não vestiria mais fatos da Savile Row nem usaria acessórios de rubi; em vez disso, apenas camisas confortáveis com colarinho e punhos. Um sotaque britânico menos acentuado, algo bastante fácil para um imitador nato como Charles. Finalmente encontrara uma voz que não irritava os ouvidos demasiado sensíveis dos australianos! Iria às lojas nessa tarde comprar roupa adequada, e amanhã daria uma volta pela cidade, incógnito, para fazer alguma pesquisa. Se os seus planos corressem bem, ficaria a saber muito sobre Corunda e a sua importância para a Austrália e para si mesmo, e sobre o que os seus habitantes esperavam dos homens que os governavam na vida pública e política.
Charles assumira automaticamente que esta enorme ex-colónia da Austrália seria pouco diferente da Inglaterra, contudo, a descoberta constante de diferenças significativas foi como uma onda de choque. Este era um lugar bastante diferente que evoluíra por caminhos muito estranhos. As pessoas apelidavam Corunda de «muito inglesa», mas, para um verdadeiro inglês como Charles, não passava de uma cidade feia, decrépita, sem gosto e vulgar. Como iria sobreviver ali se aceitasse o cargo de diretor do hospital?
Quando Tom e Hannah o foram buscar ao hotel para jantar no Parthenon — um café grego! —, Charles já tomara algumas decisões, sendo a primeira não usar smoking. Por esta altura, já se questionava se alguma vez existira um jantar formal em Corunda? Começava a duvidar disso. No entanto, o café grego compensava bastante as suas limitações em termos de comida ao servir um magnífico vinho branco seco e um tinto ainda melhor… vinhos australianos! Mas estavam à altura dos melhores vinhos do mundo!
— Pede o bife e as batatas fritas, é o que toda a gente pede — aconselhou Hannah.
— Eu não costumo comer bife — disse Charles de modo encantador. — Em Inglaterra é considerado demasiado grosseiro. No entanto, avó, quando estás em Roma, sê romano, e vou tentar habituar-me ao seu gosto. Desconfio que não é muito popular em Inglaterra devido ao seu preço astronómico.
— Come as costeletas de cordeiro, são produto local — disse Tom.
Então, Charles optou pelas costeletas, que seriam deliciosas se não estivessem tão bem passadas. O bife que Tom e Hannah comiam com gosto, como ele reparou, também estava bem passado. Malpassado não era algo disponível na ementa.
Carne soberba demasiado cozinhada e batatas fritas com tudo e mais alguma coisa. Não havia molhos que demorassem três dias a fazer… até mesmo, aposto, nos melhores restaurantes de Sydney. Qualquer coisa frita ou grelhada, mas nada de haute cuisine…
— Fale-me da rapariga arrebatadoramente bonita do comboio — disse ele, tendo recusado a sobremesa, que consistia num gelado de fruta com creme ou num banana split. O café, como veio a perceber, era bebível se pedisse ao estilo grego, preparado por infusão num pequeno bule de cobre. Como obter um café decente? Porém, a sua refeição com os Burdum indicou-lhe que ninguém bebia café em Corunda. Bebiam o chá tão forte que era preto e, ao que parecia, o Parthenon fazia-o exatamente da maneira que os habitantes gostavam. Estou agora abandonado num mar de chá cor de carvão, uma substância que odeio!
— Kitty Latimer — disse o velho Tom de forma ponderada. — Há quatro raparigas Latimer, filhas do pastor da nossa igreja anglicana, Tom Latimer. Por acaso, Corunda está cheia de homens chamados Tom. Ao final da rua, em Bardoo, a maioria dos homens chama-se Dave, enquanto para o lado de Doobar há imensos Bills. Corbi está cheia de Bobs. Não faço ideia porquê.
— Kitty? — insistiu Charles suavemente.
— Oh, sim, Kitty. O pastor teve duas mulheres. A primeira faleceu a dar a luz as meninas gémeas, Edda e Grace. A rapariga que foi esperar Kitty à estação era Edda, alta e elegante. Maude Scobie foi a segunda esposa, era a empregada doméstica do presbitério. — Tom soltou uma gargalhada seca. — Quando Adelaide morreu, Maude casou-se com Tom Latimer num abrir e fechar de olhos. Ela deu à luz um segundo par de gémeas, Heather e Kitty. Estranho, não é? Das duas vezes que teve filhos, saíram quatro lindas meninas com menos de dois anos de diferença.
— A família é abastada?
— Nem por isso, embora Kitty tenha mais dinheiro do que as outras três graças às intrigas de Maude relativamente a um testamento.
— Parece-me um pouco injusto — arriscou dizer Charles, num tom muito descontraído.
— Oh, e foi! Maude mima demasiado Kitty, mas não se preocupa com as outras como uma mãe devia. Não estou a ser maldoso, é algo que toda a gente sabe, do West End a Catholic Hill.
— As outras três devem detestar Kitty — disse Charles.
— Oh, não — respondeu Hannah, soltando uma gargalhada em seguida. — Nunca conhecerás irmãs mais dedicadas umas às outras como as Latimer. Porquê, não sei, mas Kitty parece ser aquela que as outras amam e protegem mais. Elas adoram a Kitty.
Estava na altura de se fazer simpático.
— Avô, o senhor não vai receber nenhuma conta do Grand Hotel, apesar de os ter instruído para lhe enviarem as minhas despesas. Sou suficientemente rico para custear a minha estadia, e informei o Grand de que vou ser eu a pagar. — Charles fez uma pausa e lançou um olhar penetrante ao velho Tom com uns olhos que eram um misto de cinzento, verde e castanho-dourado. — O que o senhor podia fazer por mim era recomendar-me um banco. Tenho uma nota de crédito do meu banco de Londres, mas, se aceitar o cargo de diretor, vou ter de transferir mais fundos e estabelecer uma reputação financeira sólida por aqui. A propósito, espero que os bancos cá sejam suficientemente modernos para transferirem dinheiro, mesmo quantias elevadas.
— Vamos falar com Les Kimball no Rural Bank amanhã à tarde — disse Tom suavemente. — Mais vale usares o Rural, todos os Burdum o fazem… ou fizeram. É um estabelecimento moderno, o banco do governo da Nova Gales do Sul. É isso que queres?
— Sim, obrigado.
— Tinha ficado com a impressão de que o meu filho Henry continuava a ser um caso perdido depois de deixar a Nova Gales do Sul — disse o velho Tom enquanto se servia da sua terceira chávena de chá.
Charles encolheu os ombros.
— Parece que não, avô. Fundou uma companhia de seguros, tornou-se um dos mediadores do Lloyd’s e casou-se na plutocracia do Lancashire. Como seu filho único, herdei uma fortuna quando ele morreu, mas, como provavelmente já sabe, nessa altura já ele se tornara o que os ingleses chamam um excêntrico, tendo renegado a fortuna e a família e escolhendo viver como um nómada.
— E a tua mãe também já faleceu, estou certo?
— Quando eu nasci — disse Charles num tom de voz que indicava que não queria falar sobre ela. Para aliviar a tensão do momento, Charles dirigiu-lhe um sorriso irresistível e disse: — Quem me pode fazer uma avaliação fidedigna do Hospital de Corunda? Alguém que conheça o hospital como a palma da mão, que seja veterano, mas que não esteja interessado no cargo de diretor e não tenha medo de pisar os calcanhares de alguns médicos ao dar as suas opiniões.
— Liam Finucan — disse a velha Hannah sem hesitar.
O velho Tom acenou com a cabeça.
— Sim, Charlie, essa é a pessoa com quem queres falar. Posso estar quase com noventa e seis anos e há muito que já não estou no conselho de administração do hospital de Corunda, mas juro-te que Liam é o único membro mais antigo do pessoal médico que te pode ajudar… e que o fará sem hesitar. Faz parte do pessoal, um autêntico patologista, sem consultório privado. E, acrescento ainda, um protestante do Ulster que se formou em Londres… demasiado bom para Corunda, que só o agarrou porque ele se casou com uma rapariga de Corunda. Ela era uma rameira e agora estão divorciados, mas ele sempre foi um solteirão por natureza. Posso arranjar maneira de falares com ele amanhã. — O velho Tom franziu o sobrolho. — Tens dinheiro para comprar um carro?
— Tenho um Packard que vem de Sydney. Deve chegar amanhã de manhã bem cedo.
— Um carro americano em vez de inglês?
— Devo apontar o facto de o senhor conduzir um carro alemão? — O seu rosto, um misto intrigante de beleza e fealdade, tomou uma expressão irreverente. — Comprei-o por causa da cor… cor de vinho, não o inevitável preto.
— Eu pensei que todos os carros tinham de ser pretos! — exclamou a velha Hannah, chocada.
— E, por isso, deve culpar Henry Ford. — Charles terminou o seu clarete Hunter Valley e, educadamente, reprimiu um bocejo. Estava na hora de ir para a cama.
Quando Charles conheceu o doutor Finucan na tarde seguinte, teria sido difícil para Kitty Latimer identificá-lo como o mesmo homem do comboio se não fosse pela sua altura. Vestia calças aveludadas, que poderiam ser usadas para montar a cavalo, camisa branca com colarinho mole e uma gravata semelhante às do Balliol College, casaco de tweed, botas de montar com elástico de lado (com salto alto embutido… que astuto!) e um chapéu de abas largas de feltro. Apenas a sua maneira pomposa de andar não mudara, embora estivesse a tentar atenuá-la. Estes colonos mal-educados não tentavam esconder o seu divertimento com qualquer tipo de presunção, sobretudo num homem, e eram tão indelicados quanto impiedosos. O conceito de masculinidade, como estava a aprender, fora forjado com aço temperado.
O doutor Liam Finucan, que se encontrava em Corunda há dezoito anos, apreciava o facto de o doutor Charles Burdum se parecer com um Burdum sem a erosão provocada pelo arame farpado e pelo sabonete Solvol… um tipo brando, tal como os ingleses eram quando pertenciam às classes mais altas. E usava um anel de rubi no dedo mindinho da mão esquerda, uma vaidade bastante efeminada e estranha nesta parte do mundo. Os seus olhos eram da mesma cor do uniforme de um soldado britânico da Grande Guerra, um caqui acobreado, mais cor de ferrugem que verde, e tinha tanto de feio como de atraente. No entanto, Liam achava-o curiosamente simpático e não tinha qualquer interesse no cargo de diretor, por isso não alimentava ressentimentos preconcebidos.
— Se vou aceitar o cargo — disse Charles na sala de convívio do Grand Hotel enquanto tomava uma bebida com Liam —, preciso do relatório imparcial de alguém que conheça o hospital como a palma da mão. Os meus avós disseram-me que o senhor era a minha melhor aposta, por isso estou aqui. Quais considera serem os aspetos atrativos do cargo que me está a ser oferecido?
— A degradação daquele lugar — respondeu Liam sem hesitação. — Frank Campbell era um escocês forreta que economizava e poupava em tudo. O que aguentou o Hospital de Corunda ao longo dos vinte e cinco anos da sua administração foi a qualidade da sua medicina e enfermagem, conseguida contra todas as adversidades. Na raiz de todos os problemas encontrava-se o amor do conselho de administração pela parcimónia do velho Frank… uma coisa perversa! Deliciavam-se com o facto de ele conseguir alimentar os pacientes e o pessoal com seis dinheiros por dia e obrigar as enfermeiras a remendar a roupa de cama quando estavam de serviço. Para mim, o patologista, a sua direção significava uma escassez crónica de reagentes, químicos, recipientes de vidro e de aço inoxidável, equipamento… muitas coisas! Era muito mais fácil conseguir aparelhos grandes, pois qualquer homem empreendedor conseguia convencer um dador disponível a comprar um afiador automático de lâminas de corte para o micrótomo ou um microscópio imponente. Não, o hospital foi mais prejudicado ao nível das provisões básicas, desde papel higiénico a esfregões e lâmpadas de alta potência. Sabe que os bebés são alimentados sobre folhas de jornal? O antimónio é tóxico! Tudo para poupar roupa, já para não falar da despesa de a lavar! Tudo isto se passava enquanto os membros do conselho de administração aplaudiam! Fuinhas? Eu chamar-lhes-ia antes baratas!
— Eles têm conhecimento dos pormenores horríveis ou só dos números?
— Apenas dos números, é claro. O reverendo Latimer teria ficado horrorizado se soubesse os pormenores. No entanto, poderia ter descoberto.
— Quando algo implica demasiado esforço, ninguém vai além do estritamente necessário.
— A comida é terrível, verdadeiramente terrível. Contudo, em Bardoo, existe uma quinta e uma casa de convalescença do hospital que deviam produzir leite, natas, ovos, carne de porco e alguns vegetais da estação. Frank transformou o lado da casa de convalescença numa hospedaria e vendia a lojas locais e fornecedores os produtos que deviam ir para as cozinhas do hospital. Nojento! Perverso! — A sua voz com um sotaque muito ligeiro, modificado por estar há tanto tempo na Austrália, não subiu de tom, mas tornou-se mais ríspida. — Digo-lhe, Charlie, aquele homem devia apodrecer no pior Inferno que Lúcifer conseguisse conceber. Lucrou com a doença e com a morte.
— Por Deus! — exclamou Charles, sem fazer ideia de que frase um australiano usaria. — Também havia dinheiro do governo envolvido?
— Sim, claro, mas quase que aposto que se poupou mais do que se gastou. Frank era exímio em manipular os livros de despesas, embora nunca ficasse com dinheiro para si. Foram feitas inúmeras doações ao hospital… é uma das instituições de caridade preferidas. Contudo, nunca nada foi gasto sem ser num artigo especificamente identificado.
— Isso é maravilhoso! — exclamou Charles. — Já me imaginava a passar anos a lutar contra lesmas sem rosto para obter fundos, a fim de tornar o Hospital de Corunda tão moderno como a Mayo Clinic, mas o senhor diz-me que há dinheiro em caixa? Quanto? Seis dígitos?
— Sete dígitos — disse Liam, com um tom irritado. — Existem quatro milhões de libras espalhadas pelas sucursais de vários bancos australianos de renome em Corunda. É por esta razão que Frank Campbell era tão odiado… tinha uma fortuna à disposição e recusava-se a gastá-la.
Charles estava boquiaberto.
— Quatro milhões? Isso é impossível!
— Não é, se pensar bem no assunto — disse Liam de forma inexpressiva. — Dou-lhe o exemplo dos rubis de Treadby. Apesar de terem acabado em 1923, o legado dos rubis foi feito em 1898… as primeiras cem mil libras de cada ano deveriam ser entregues ao Hospital de Corunda e assim aconteceu. Nem um único cêntimo desse dinheiro foi gasto, incluindo o juro miserável que o banco paga. Tudo isto resultou de um desentendimento grave entre Walter Treadby e os filhos. Walter alterou o seu testamento e morreu dois dias depois, uma consequência das suas tendências apopléticas que colocou os rubis de Treadby no colo pouco merecedor de Frank Campbell durante vinte e cinco anos. Se Walter tivesse vivido mais dois dias, teria retirado o novo codicilo do seu testamento.
Os dois desataram a rir; Charles de forma bastante ruidosa.
— Nunca subestimem a tendência para a apoplexia! Fale-me do conselho de administração do hospital.
— O conselho é tão mau como Frank era. Bem, eles são criaturas de Frank, e este escolheu-os a dedo para obedecerem a cada regra, e foi exatamente isso que fizeram. Por exemplo, as enfermeiras, sempre recrutadas de famílias carenciadas… raparigas sem qualquer tipo de instrução ou esperança de se tornarem, mais tarde, enfermeiras registadas, embora fossem boas profissionais, às quais Frank pagava uma miséria. O terreno é todo livre de impostos e taxas, o abastecimento de energia foi negociado a ponto de ser quase gratuito e o gás também é barato.
— Não admira que o conselho de administração nunca se tenha oposto a Frank — disse Charles, num tom de voz admirado. — O homem era genial. — Charles parecia, subitamente, pensativo. — Não gostaria de ser subdiretor do hospital? — perguntou ele.
— Não, obrigado! — respondeu Liam, sem hesitar. — Ajudo-o de boa vontade em tudo o que precisar, Charles, mas as minhas ambições limitam-se a conseguir o melhor departamento de patologia do Estado, desde o seu equipamento de análise à amplitude das suas funções e instalações. Também quero um radiologista num departamento separado de radiologia, um membro permanente e não alguém que tenha também um consultório privado. Já tenho sido usado como radiologista, quando não tenho nem o tempo nem o talento necessários… sou capaz de ver uma fratura simples, mas fraturas por fadiga? Até tremo. Erich Herzen é melhor que eu, mas também não tem a instrução necessária. Precisamos de um verdadeiro radiologista, capaz de usar técnicas mais complexas, e necessitamos de um técnico de raios X.
— Já percebi que o assunto do raio X é delicado para si, Liam, mas dou-lhe a minha palavra de que, quando a poeira assentar, a radiologia será um departamento à parte, completamente separado da patologia — disse Charles a sorrir. — Também não me vou esquecer de que este hospital tem um excelente patologista. Agora fale-me das enfermeiras baratas.
Esta entrevista e várias outras dotaram Charles Burdum de um conhecimento do Hospital de Corunda que a maior parte dos homens envolvidos na seleção do novo diretor não esperava. Charles adquiriu a reputação de ser um homem estranhamente perspicaz e aceitou o cargo no hospital. Começou a trabalhar no dia a seguir a ser oficialmente informado de que fora nomeado. O novo diretor não brincava em serviço!
Três semanas depois de chegar no expresso de Melbourne, foi anunciada a sua nomeação no Corunda Post. Durantes estas semanas, o velho Tom Burdum oferecera ao seu neto a Casa Burdum, a mansão que Henry Burdum, o fundador da família, construíra no cimo de Catholic Hill, o melhor bairro residencial de Corunda. Charles contratou empregadas domésticas e encarregados de manutenção, tirou os protetores de pó da mobília e, em seguida, traçou os planos para transformar o jardim de oito mil metros quadrados em algo ao estilo de Inigo Jones. O seu Packard cor de vinho chegara juntamente com dois carros baratos para circular pela cidade quando o carrão fosse demasiado pomposo. Uma empresa transportadora de Sydney entregara dez malas enormes cheias de pertences de Inglaterra sem os quais Charles não podia viver. Os seus dez mil livros, disse Charles aos avós, tinham sido embalados e armazenados em Londres, mas não fariam a viagem de seis semanas de barco para Corunda até ele conseguir converter um dos quartos maiores da Casa Burdum numa biblioteca.
— Confesso — disse o velho Tom Burdum ao reverendo Tom Latimer — que o meu neto Charlie é mais do que eu aguento. Vivi até esta idade na esperança de ver o meu neto pommy, que não estava com pressa nenhuma de aparecer. O que eu esperava é que ele fosse um pouco melhor que Jack Thurlow. Bem, até é… mas tinha de ser tão pommy?
— Tom, ele é um pommy — disse o reverendo — e não faz a mínima ideia do que é que isso significa. Eles têm de chegar aqui antes de perceberem o que é ser um pommy. No entanto, não me preocupo muito com ele. Ele não é completamente alheado do fenómeno pommy, como a maioria dos pommies é. Na verdade, acho que, quando dizem a Charlie para não tratar os colonos como se fosse superior, ele até se controla.
— O reverendo é muito perspicaz. — O velho Tom recostou-se na cadeira, com uma chávena de chá a escaldar junto ao seu cotovelo e um dos cupcakes de Maude num prato… que delícia! — Ao princípio, não pensei que fosse gostar dele, mas acabou por ser fácil. Ele não é nenhum molenga, o meu neto Charlie! Jack age e tem o aspeto certo para Corunda, embora agora comece a ter a impressão de que Charlie é capaz de ser a escolha mais acertada a longo prazo. — O rosto enrugado e extremamente envelhecido de Tom esboçou um sorriso rasgado. — A sua maneira de ser pommy significa que tem algumas ideias controversas, que devem ser eliminadas, mas ele não tem qualquer convicção inabalável de que é melhor que os colonos só pelo simples facto de ser um pommy. Na verdade, o seu passado e a sua educação mostram que ele se comporta com os outros pommies da mesma maneira que se comporta connosco, os colonos.
— Estás a ficar confuso, Tom, mas eu sei o que queres dizer — disse o reverendo. — Eton, Balliol e Guy’s Hospital colocam-no bem à frente da sociedade, até mesmo da sociedade pommy. Afinal, ele tem dinheiro suficiente para ser um príncipe de Gales playboy… festas de luxo em Mayfair, corridas de cavalos em Ascot, banhos de sol na Côte d’Azur, viagens para esquiar em Kitzbühl, etc. Contudo, formou-se em medicina e não parou de trabalhar desde Balliol. Acho que o seu neto Charles tem uma natureza bastante altruísta. Tal como o seu outro neto, Jack, embora de uma forma diferente. — O reverendo Tom franziu o sobrolho. — Algo que ambos têm em comum é a relutância em ir à igreja.
O velho Tom desatou a rir.
— Jack é um caso perdido, reverendo, como já sabe. No entanto, tenho a certeza de que, assim que a novidade do seu aparecimento em Corunda esmorecer, Charles representará os Burdum em St. Mark. Se ele frequentasse a igreja agora, provocaria um motim… a cidade inteira está ansiosa por inspecioná-lo da cabeça aos pés, e que outro local, que não o banco da igreja, seria melhor para encurralar o pobre coitado? Pergunte a três das suas quatro filhas.
Tal comentário deixou o reverendo Latimer sem palavras.
É claro que todos os membros do Hospital de Corunda estavam ansiosos por conhecer o novo diretor, que não amarrotou o uniforme engomado branco nem aqueceu o assento de pele da cadeira do seu gabinete antes de entrar em ação, subindo e descendo as rampas, entrando e saindo das alas, acenando levemente com a mão como que a dizer para ignorarem a sua presença, invadindo as áreas e os privilégios sagrados da enfermeira-chefe, exigindo os registos financeiros, extratos bancários e portefólios de propriedades ao secretário Walter Paulet, chegando até a provar as terríveis refeições dos pacientes.
— Ele é um homem ocupado — disse Tufts a Kitty e Edda, enquanto comiam sanduíches de bacon na sua pequena casa de campo.
— Está sempre a conversar com o teu médico preferido, Liam Finucan — disse Edda, mastigando despreocupadamente. — Oh, não há nada como fatias fininhas de bacon num pão branco fresco!
— Admito de boa vontade que Liam é o meu médico preferido — disse Tufts sem se sentir ofendida —, mas, desde que o garnisé ocupou o poleiro, raramente vejo Liam. Como disseste, Edda, ele está constantemente em conversas privadas com o novo diretor.
— Pergunto-me o que é que o novo e aprumado mandachuva vai fazer em relação às suas quatro enfermeiras recentemente registadas? — perguntou Kitty, satisfeita por ter mandado o homem do momento passear. Também lhe chamara imbecil presunçoso! Visto que já relatara o episódio a várias amigas enfermeiras e às irmãs, a história tornou-se motivo de conversa por todo o hospital, embora até agora Kitty não tivesse tido a oportunidade de o conhecer com o uniforme vestido. Na verdade, o facto de Charles ter começado a trabalhar sem se ter apresentado uma única vez aos seus subordinados era considerado pouco ortodoxo e rude… contudo, ele era um pommy e eles eram meros colonos!
Tufts falava; Kitty emergiu dos seus pensamentos.
— Imagino que nós as quatro estejamos nos últimos lugares da sua lista de prioridades — disse Tufts, lambendo os dedos. — Liam disse-me que ele é um planeador nato e que está a trabalhar arduamente para dar uma nova cara ao Hospital de Corunda, é por isso que já foi visto a intrometer-se em assuntos há muito esquecidos. Na verdade, segundo Liam, o homem é um autêntico furacão, com enorme capacidade analítica e de construção lógica.
— Eu sabia que uma sanduíche de bacon te faria falar mais que uma seringa cheia de soro da verdade — disse Kitty trocista. — Então, o garnisé anda a contar cada pena no galinheiro?
Edda sorriu.
— A enfermeira-chefe deve estar furiosa.
— Oh, ele conquistou a enfermeira-chefe na primeira conversa de cinco minutos que tiveram — informou Tufts, mais satisfeita com a sua posição de oráculo do que com o almoço. — Ao que consta, ambos têm as mesmas ideias relativamente à enfermagem, às enfermeiras e a outros assuntos domésticos e culinários.
— Ouvi um rumor de que andam a voar penas por todo o lado na casa de convalescença — disse Kitty.
— Minhas queridas irmãs — disse Tufts —, há tantas penas a voar em tantas direções diferentes que o ar está repleto delas. Temos reunião com o doutor Burdum amanhã às oito. E a Lena também.
— Até que enfim, saímos do Limbo — gritou Edda.
— Sim, mas a caminho do Céu ou do Inferno? — perguntou Kitty, fazendo uma careta. — Tenho um estranho pressentimento relativamente ao doutor Burdum.
— Bem, vai ser difícil para ti… como é que vais voltar a cair nas boas graças dele depois de o mandares lixar?
Os olhos de Kitty relampejaram com um súbito tom violeta.
— Huh! Ele estava a pedi-las, aquele verme miserável! Se me ofender novamente, vou fazer pior do que lhe dizer para se ir lixar.
As quatro irmãs, ainda de avental, apresentaram-se na receção do gabinete do doutor Charles Burdum um minuto antes das oito da manhã seguinte. Sentiam-se apreensivas, mas não assustadas. Lena Corrigan era a que menos sofria, mas ninguém a invejava. Voluntariar-se, sobretudo depois de registada, para prestar serviços de enfermagem na ala psiquiátrica era de tal forma extraordinário que não havia grande probabilidade de um diretor de hospital não a empregar. Os dias de Frank Campbell já pertenciam ao passado. O doutor Charles Burdum, apesar de estar em funções há tão pouco tempo, já se revelava um chefe sensato e sensível.