Agridoce

Colleen McCullough · Capítulo 4 de 7 · parte 3/4

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PARTE TRÊS: O Novo Diretor

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Cynthia Norman, que há muito era secretária assistente e fora agora pessoalmente escolhida como secretária privada do doutor Charles Burdum, mandou as quatro irmãs entrarem juntas. O novo diretor não se levantou para as cumprimentar nem lhes disse para se sentarem. Três permaneceram de pé em frente da secretária (cujas pernas tinham sido encurtadas, como reparou Edda), enquanto a quarta irmã se virou de costas para ele a fim de examinar os títulos dos seus muitos tomos de medicina. O facto de não parecer um ato insolente deveu-se à quantidade de gente presente na sala.

Sentado parecia relativamente alto, um traço bastante comum aos homens baixos, cujos troncos aparentavam ter um comprimento normal; perdiam altura nas pernas. Desproporcionado, pensou Edda, a mais alta de todas. Sinto-me tão feliz por estar a usar sapatos com um salto de cinco centímetros! Saltos grossos em sapatos de trabalho, mas pelo menos eram saltos, ha, ha. Porque será que ele desperta este tipo de atitude em mim? Não é por ele ser um pommy, não. É mais porque é um homem tão seguro de si mesmo.

— Obrigado por serem tão pontuais, irmãs — disse ele, sem se levantar da cadeira —, e perdoem-me não vos ter dito para se sentarem. Não vão ficar aqui muito tempo. — Um sorriso encantador transformou o seu rosto de gárgula em estrela de cinema. — Três das quatro enfermeiras que começaram o treino completaram o curso e registaram-se, e uma enfermeira extremamente competente de longa data também conseguiu obter o registo, o que já não era sem tempo que acontecesse. — Surgiu outro sorriso encantador. — Não me digam os vossos nomes, vou seguir a minha lista. Irmã Lena Corrigan?

— Sou eu — disse Lena. — Fui eu que obtive o registo.

— É muito jovem. Diz aqui que quer exercer no hospício… é verdade?

— Sim, senhor.

— Excelente, excelente! — exclamou ele, como se fosse realmente o caso. — Já traz consigo vinte anos de experiência de enfermagem, irmã, uma mais-valia incomparável para quem vai assumir o controlo do hospício, mesmo a tempo de o preparar para o novo psiquiatra que pretendo contratar. Não há muito que se possa fazer em relação aos pacientes com epilepsia crónica, demências congénitas e outros problemas do mesmo tipo, mas acredito que vamos aprender a tratar com sucesso doenças como a mania ou a depressão nos próximos anos. A irmã Corrigan será a enfermeira-adjunta, mas o seu título no hospício será de enfermeira-chefe. Os trabalhos necessários ao hospício vão começar imediatamente e o psiquiatra chegará no ano novo. Parece-lhe bem, enfermeira-chefe Corrigan?

— Estou nas nuvens, senhor. Obrigada, obrigada!

— Então, encontramo-nos esta tarde às duas para conversarmos mais um pouco.

Com a expressão do rosto alterada, Lena saiu da sala.

— Irmã Edda Latimer?

— Sim, senhor.

Nada de estrela de cinema para ela. A gárgula olhava-a de esguelha, com a língua bifurcada de fora.

— Vejo que prefere o bloco operatório, mas é claro que sabe que não há vagas de momento — disse o doutor Burdum, parecendo sentir pena dela.

— Sim, senhor.

— Ainda não estou no distrito há tempo suficiente para perceber de forma realista se o hospital é adequado às necessidades da cidade ou não, por isso não lhe sei dizer se acho que o hospital deva ter um segundo bloco operatório, mas parece-me que, de momento, um é suficiente. Com Sydney a apenas três horas de distância, é melhor referenciarmos para lá as cirurgias mais complexas e atendermos por aqui apenas as verdadeiras emergências. — Os olhos, reparou Edda, mudaram de dourado brilhante para caqui escuro; a gárgula retraiu a língua e ficou com um ar trocista. — Posso oferecer-lhe um emprego, irmã Latimer, mas não um bloco operatório. O turno das seis às duas na ala Dois dos homens precisa de uma segunda enfermeira, tal como o mesmo turno na maternidade. Alguma preferência?

— Obrigada, senhor, prefiro a ala Dois dos homens — disse Edda, virando-se de forma elegante e saindo da sala.

— Irmã Heather Scobie?

— Sim, senhor.

— Basicamente — disse ele alegremente —, já tem o cargo de irmã tutora e tem feito um trabalho exemplar no departamento doméstico e de culinária. O que planeio fazer é colocar, de forma permanente, o departamento doméstico sob a supervisão de uma enfermeira-adjunta, que também ficará encarregada das auxiliares de enfermagem e dos porteiros. No entanto, a partir de agora, as empregadas das alas, os porteiros e as auxiliares terão de frequentar um curso sobre higiene e limpeza básica, e ser-lhes-á mostrado como levar a cabo os seus deveres e, uma vez por ano, terão de frequentar outro curso. A irmã tutora ficará responsável por toda a instrução.

— Essa ideia é fantástica — disse Tufts, radiante.

— O departamento de culinária é um problema diferente — continuou o doutor Burdum —, com algumas semelhanças. Também eles vão precisar de instrução na área da higiene, por exemplo. Como todos já devem saber, alimentar toda a gente vai custar mais do que seis dinheiros por dia, mas, mais importante que isso, é o problema de providenciar comida decente. Eu e a enfermeira-chefe tencionamos ter uma enfermeira unicamente responsável por esse departamento, mas por onde começar?

— Sendo impiedoso, senhor — disse Tufts. — A enfermeira-chefe Newdigate é uma pessoa da cidade, que não seria capaz de reconhecer um cozinheiro de meia-tigela, mesmo que tropeçasse nele, mas o doutor Frank Campbell sempre geriu o Hospital de Corunda com este tipo de cozinheiro. Os cozinheiros de meia-tigela, senhor, trabalham arduamente durante longas horas e comem qualquer coisa. As pessoas doentes, por outro lado, têm dificuldade em comer, mesmo a comida mais saborosa. — Tufts encolheu os ombros. — Deixo à sua imaginação, senhor. Despeça-os e contrate cozinheiros decentes.

— É o que vou fazer. Escusado será dizer que a irmã Scobie é a enfermeira tutora e fica responsável por toda a instrução no hospital.

— Obrigada, senhor — disse Tufts, sorrindo e saindo da sala.

Três já estavam despachadas, só faltava uma, a que ainda estudava os seus livros.

— Irmã Katherine Treadby?

Kitty virou-se numa pirueta, retirando ao rosto de Charles toda a capacidade de se assemelhar a uma gárgula ou a uma estrela de cinema; parecia que tinha sido passado a ferro e não possuía qualquer expressão, exceto espanto profundo.

— És tu! — disse ele.

— Isso depende a quem se refere quando diz «tu», senhor. No entanto, sou o «tu» que corresponde à irmã Katherine Treadby.

— Mas o seu nome é Kitty Latimer, é a filha do reverendo!

— Sim, também sou isso — disse ela, claramente divertida. — O meu apelido legal é Latimer, mas visto que as quatro enfermeiras que começaram o curso aqui, em abril de 1926, eram irmãs com o mesmo apelido (Latimer), foi dado a três de nós um novo apelido. Edda manteve o Latimer; Grace, que desistiu do curso para se casar, ficou com Faulding; Tufts… ups, quero dizer Heather, ficou com Scobie, enquanto eu, a mais nova por apenas alguns minutos, me tornei Treadby.

Charles levantou-se e deu a volta à secretária, sorrindo para ela de uma forma que a deixou sem fôlego, pois o sorriso invadia-lhe os olhos, de um extraordinário tom de caqui acobreado que, desconfiava ela, seria capaz de se dissipar e mudar da mesma forma que um camaleão muda a cor da sua pele. O choque de um encontro tão inesperado com esta mulher que o assombrava, acordado ou em sonhos, desde que embarcara naquele comboio há várias semanas, era profundo. Qualquer vestígio de bom senso em Charles Burdum cessou de existir. Tudo o que conseguia fazer era estender a mão e sorrir estupidamente, apaixonado.

— Irmã Treadby, então, se é esse o seu nome — disse ele, e aproximou-se demasiado dela. — Existe apenas um cargo que eu lhe poderia oferecer… o de minha esposa. Desde aquele momento em que me desprezou no comboio, não pensei em mais nada nem em mais ninguém! Quero dizer, olhe para nós! — exclamou ele, gesticulando com a mão esquerda. — A Katherine tem o tamanho certo para mim, sua criatura divina, e nunca mais passará pelos meus lábios o nome de Marion Davies, juro-o sobre o túmulo de Guinevere! Eu adoro-a! Venero o chão sobre o qual flutua! Sou seu escravo, seu prisioneiro do amor!

Fascinada, Kitty permaneceu de pé a ouvir, incrédula, até Charles terminar. Ele levantou-se, também fascinado, embora por razões completamente diferentes das de Kitty. Os lábios dela contraíram-se, tremeram; esforçou-se por se controlar, mas sem sucesso… era a expressão do rosto dele, que lhe fazia lembrar Francis X. Bushman a tentar transmitir uma paixão eterna em silêncio, à espera que o quadro negro aparecesse no filme silencioso e revelasse ao público as palavras que o doutor Charles Burdum dizia.

Kitty desatou a rir à gargalhada.

— Vá lá, brincalhão, tente passar a perna a outra! Nunca ouvi tanto disparate junto em toda a minha vida… não me diga que as pommies caem nisso? É tão meloso que até dá vómitos!

A humilhação tingiu o seu rosto de um tom carmesim arroxeado. Durante alguns segundos em que o seu coração bateu com mais força, Charles sentiu-se impotente, sem saber o que fazer. Era capaz de fazer uma lista com os nomes de uma dúzia de mulheres que se tinham derretido completamente ao ouvir tamanhos elogios… as suas palavras eram sentidas! E até a pedira em casamento! No entanto, esta jovem mulher ridicularizara-o por ser… ser o quê? Ela era uma mulher, e as mulheres adoravam elogios rasgados!

Charles bateu em retirada, mas de forma inteligente; encontrou uma gargalhada algures dentro de si e soltou-a, recuou descontraidamente e apoiou-se na cadeira.

— Sente-se, irmã — disse ele. — Depois de me esmagar de forma tão selvática, é o mínimo que pode fazer por mim.

— Está bem — respondeu ela, e sentou-se.

— A que parte da minha declaração objeta? — perguntou ele, com o traseiro empoleirado na beira da secretária, que fora encurtada, reparara ela. Oh, pobre coitado! As colónias não lhe estão a fazer muito bem!

— A sua pergunta é um ótimo exemplo… tão cerimoniosa e afetada! Ao ouvido australiano soa a ensaiado, a falso. Tal como a sua poética declaração de amor. Foi extremamente hilariante para mim.

— Bárbaro! — murmurou ele.

— Essa é, provavelmente, a descrição adequada. A Austrália deve ser um choque para si.

— Então, como se fala de amor em Corunda?

— Noé é capaz de ter falado dessa maneira quando fez a arca, mas em Corunda não é assim. Pode tentar essa abordagem com uma rapariga de Toorak, talvez ela vá na sua conversa romântica, mas poucas mulheres australianas seriam recetivas a isso. Pelo menos não de imediato, senhor! Numa entrevista de trabalho? Fá-lo parecer um autêntico pervertido! Não existe uma única mulher no mundo que não saiba que todos os homens se consideram superiores a todos os níveis, por isso, quando um homem debita estas palavras melosas e enjoativas, a sua sinceridade é posta em causa. Se a mulher der ao homem o que ele quer, este volta ao seu estado de superioridade de imediato — disse Kitty descontraidamente. — É capaz de se safar com flores e chocolates, mas Tennyson e palavras melosas? Nem pensar! Um homem de Corunda é capaz de dizer que sou uma rapariga atraente e deixar o resto para… hum… uma ocasião mais reservada. O senhor, doutor Burdum, se não gosta de ser ridicularizado, é melhor pôr de lado a poesia imagística e o discurso fastidioso. As suas ideias para o hospital são fantásticas, senhor, por isso tem a maioria dos habitantes da cidade do seu lado. No entanto, se começarem a vê-lo como um Lotário reles, vai perder o seu apoio!

A terrível humilhação começava a dissipar-se. Charles Burdum era suficientemente nobre para perdoar Kitty. Contudo, numa pequena parte do seu cérebro guardou aquele episódio juntamente com muitos outros insultos, injúrias e ofensas, alguns dos quais cometidos na mais plena inocência, embora ele não os interpretasse desta maneira visto ser ele o insultado, o injuriado, o ofendido. Charles tinha uma falha que desconhecia: a tendência para guardar rancor para toda a vida, e o número dos seus rancores aumentava sem parar, pois Charles Burdum era um homem extremamente sensível e até a mais pequena ferida infetava.

Naquele momento, em que a sua vergonha diminuía de intensidade por saber que não havia qualquer intenção maldosa por trás das gargalhadas de Kitty, Charles conseguiu ver para lá do seu orgulho ferido e percebeu que não era indiferente a Kitty e que ela se protegera do seu magnetismo com um escudo de escárnio. E ela tinha tanta razão! Como podia ter trazido assuntos tão pessoais para uma entrevista de trabalho? Não, não era só ele que sentia algo, e o que tinha de fazer agora era construir uma relação profissional com ela… sem intimidades! Teria de adiar a sua vontade de a deslumbrar. Kitty teria de gostar dele, mas não do Charlie errado: ele era Charles Burdum, não Charlie Chaplin.

Sentado atrás da secretária, Charles observava Kitty com o maior desprendimento possível, visto que era completamente louco por ela e sempre seria. Sybil? Um Chardonnay muito jovem. Kitty era um champanhe vintage, acima de qualquer rival. Mesmo com aquele cabelo louro quase branco escondido, o contraste das sobrancelhas e das pestanas glaciais com a pele morena era arrebatador. No comboio não tivera tempo suficiente para observar os seus olhos e reparar que o seu azul profundo estava raiado de lavanda, um ligeiro traço de gato oriental. Na verdade, o nome «Kitty» era bastante apropriado, desde as sobrancelhas arqueadas e olhos rasgados ao permanente esboço de sorriso nos seus lábios requintados. Nunca vira em toda a sua vida uma mulher tão bonita com a pele tão escura. Nem nunca vira, apercebeu-se de repente, uns olhos tão zangados. Mas era ridículo! O que poderia uma mulher tão bonita ter sofrido para ficar zangada com um elogio? Não era, decerto, a emoção que esperava encontrar. Quando muito, imaginara nas suas fantasias mil maneiras de satisfazer o que deveria ser uma mulher extremamente convencida, rainha de todas as coisas. Bem, já vira humor, raiva, uma picada de escorpião, mas não qualquer indício de presunção. Quem és tu, Kitty?

— Tem preferência por algum tipo de enfermagem em particular, irmã?

— Sim, senhor. Crianças.

Charles bateu com o dedo na pasta de Kitty.

— Sim, reparei que grande parte dos seus três anos de treino foi passada na pediatria. A irmã Moulton fala muito bem de si.

— Também a tenho em grande consideração.

— Gostaria de continuar a trabalhar com crianças?

— Sim, senhor, gostaria.

— A enfermeira-chefe recomendou-a para ficar encarregada do turno das duas às dez na ala das crianças. Seria apropriado para si?

— Sim, senhor.

O sorriso de estrela de cinema emergiu; Kitty não retribuiu o sorriso.

— Então, o cargo é seu, irmã Treadby.

— Obrigada — disse ela, levantando-se e saindo.

Depois de passar o gabinete de Cynthia Norman, Kitty encostou-se à parede e abateu-se sobre ela um misto de alegria e tristeza. Alegria por ter um cargo de responsabilidade na ala das crianças. Tristeza por ter um começo tão atribulado com o novo diretor.

Durante a entrevista, Kitty observara Charles como um falcão. A sua reação inicial à exibição patética de Charles foi guardada dentro de uma caixa, tendo fechado bem a tampa até encontrar algum tempo para a voltar a abrir e examinar, livre de outras considerações. De algum modo, ela achava que Charles era um misto de sinceridade e chicanice, embora não soubesse a proporção que ocupavam na sua personalidade. Tão atraente! E não era demasiado baixo para ela; se usasse sapatos de salto alto, ele ainda ficava uns centímetros mais alto que ela. No entanto, teriam filhos muito baixos se casassem! Praticamente anões!

Kitty sentia-se muito confusa, e cada palavra que ele dizia só contribuía para agravar o seu estado. Como seria ele por baixo das palavras? Inteligente, sofisticado, experiente. Kitty apercebera-se de uma raiva furiosa ao longo da breve entrevista. Por causa do seu maldito rosto, Charles assumira imediatamente que ela era arrogante e orgulhosa! Oh, como é que ele se atrevia a fazer-lhe isto? Outro colecionador de arte, ao que parecia, ansioso por exibir a sua beleza como sua propriedade através do casamento. Não, não vás por aí!

Mas como posso evitar pensar nisso? Ele ofereceu-me as tradicionais tentações de riqueza, poder, conforto para o resto da vida… sem qualquer outra prova de mérito sem ser o meu rosto! Odeio o meu rosto! Ele falou de amor, mas o que pode um homem que julga uma mulher pela beleza do seu rosto saber sobre o amor? Indica que ele é superficial, um homem frio. Frio, não gelado; ele não é indiferente ao sofrimento dos outros, apenas frio, pois nunca sofre de forma sentida. Um analista frio.

Kitty desencostou-se da parede e descobriu que era capaz de andar. No entanto, guardaria para si o conteúdo da entrevista daquela manhã. Se Edda e Tufts soubessem…

 

Entretanto, Charles Burdum apercebeu-se de que Kitty e Heather (ou Tufts) eram idênticas, com a exceção da cor da pele. Tufts diminuíra, quase por completo, as parecenças no que respeitava à constituição e às características do rosto. Uma diferença óbvia era a falta de, pelo menos, uma covinha, mas o tom de pele era mais que uma mera diferença: refletia algo mais sobre a própria alma. Ao olhar para Tufts, qualquer pessoa minimamente perspicaz conseguia perceber o quanto um temperamento prático, organizado e doce afetava a dinâmica da atração. Em Kitty, o dínamo rugia; em Tufts, o dínamo zunia. Nunca tendo lidado com gémeos, Charles sentia-se fascinado. E havia mais um par, Edda e Grace, que, segundo diziam, eram mais parecidas que Tufts e Kitty.

Qual era a natureza de Kitty? Existiam alguns mistérios, alguns de enorme importância, mas com quem podia contar para o ajudar a descobrir?

A imagem de Edda surgiu na mente de Charles. Sim, Edda sabia tudo, ela era a líder do quarteto, de acordo com os rumores. Devia falar com Edda, mas já aprendera a lição com Kitty. Como abordo a Medusa? Nunca a olhar nos olhos ou ela transforma-te em pedra! Ela também não gostaria dele, embora isso não fosse tão importante como o que ela acharia que ele significava para a sua irmãzinha Kitty. Edda não era egoísta, ela poria as necessidades e desejos de Kitty à frente dos seus. Sim, teria de ir falar com Edda.

Sou uma vítima da minha época e da minha nacionalidade, pensou ele. Sou um homem inglês, um membro genuíno de uma nação que governa o maior império que alguma vez existiu. Virem o globo terrestre para qualquer direção e as terras estarão coloridas de um rosa-avermelhado, o código geográfico para as possessões do Império Britânico. Apenas a Antártida não tem áreas a rosa, muitas delas enormes, e o continente australiano é integralmente rosa. No entanto, estas pessoas ressentem o rosa, gostariam antes de ser verdes, a cor da autonomia absoluta, como os Estados Unidos da América. Tenho de me esquecer de ser inglês da mesma forma que ser inglês tende a fazer-nos esquecer a Escócia, o País de Gales e a Irlanda, todos de nome parte da reinante Grã-Bretanha. Todos têm de admitir, ainda que secretamente, que os verdadeiros donos e dirigentes são os ingleses.

Charles chamou a secretária pelo intercomunicador.

— Senhora Norman, as três irmãs Latimer. Elas vivem na propriedade do hospital?

— Sim, senhor.

— Como é que eu faço para contactar uma delas?

— Normalmente, por carta. O senhor entrega-me a carta e eu coloco-a no compartimento respetivo no gabinete das irmãs. Se for urgente, pode contactar por telefone, mas a enfermeira-chefe também pode enviar um porteiro para ir buscar a pessoa em questão.

— Vou escrever uma carta, obrigado.

Pegou em papel de carta, com o sobrolho franzido. Material de má qualidade, do mais barato. Já encomendara material de escritório da W. C. Penfold em Sydney, mas até chegar estava limitado a este… a este papel higiénico. Na próxima semana ia reunir o conselho de administração pela primeira vez desde que tomara posse… ia ser um autêntico circo!

 

Edda encontrou a carta quando chegou a casa do seu habitual passeio a cavalo com Jack Thurlow, fisicamente satisfeita, mas mais inquieta do que estivera em muito tempo. Oh, o que sentia por Jack ainda tinha o poder de a manter amarrada a Corunda, mas era inegável que a sua devoção estúpida a Grace e Bear a irritava, mesmo antes da discussão… ele fora o seu amigo exclusivo, independentemente do que Grace alegara naquele dia memorável. Edda não discutira o assunto com Tufts ou Kitty, dando graças a Deus pelo facto de os seus turnos não lhe darem a oportunidade de lhes contar o que se passava com Grace no seu isolamento em Trelawney… que gostava de imaginar que as outras donas de casa pensavam que Jack era seu amante! Para Edda, era tão ridículo que se tornava engraçado. Grace não vivia num vácuo; havia sempre vizinhas bisbilhoteiras a visitá-la quando Edda e Jack trabalhavam no seu jardim, e não podia existir qualquer dúvida sobre qual das gémeas era o objeto do amor de Jack, visto que eles chegavam e iam embora no mesmo carro e olhavam um para o outro de uma forma muito especial. O que Edda não conseguia compreender era o efeito que dois bebés e um marido muito ausente tinham sobre a sua irmã, que via o glamour, as roupas e o estilo de vida livre de Edda, bem como a sua forma descontraída de se relacionar com os homens, como prova de que todas aquelas qualidades lhe haviam sido roubadas a ela, Grace. Um ciúme tão violento ferira-a de tal maneira que parte dela começou a odiar a descontraída, despreocupada e disponível Edda.

A fantasia de um caso amoroso entre Jack e Grace fora para Edda apenas isso, uma fantasia, mas descobrir que Grace acreditava, com convicção, que este caso existia em mentes bisbilhoteiras espantou Edda inicialmente, mas mais tarde, depois de pensar sobre isso, um ataque de pena e cólera impeliu-a a fazer o mais fácil: anunciar aos quatro ventos o seu caso com Jack. Jack não se importara. Grace podia ficar descansada, a sua reputação em Trelawney mantivera-se intacta. É assim que eu vejo a situação, era este o pensamento que passava pela cabeça de Edda quando tinha algum momento para refletir sobre Grace.

A discussão em si nunca poderia ter sido prevista por qualquer pessoa com bom senso e lógica… não, isso não está certo! A discussão não poderia ter sido prevista por qualquer pessoa com o mínimo de inteligência, já para não falar de bom senso. Brandindo ferozmente o machado, Grace deixara-o cair às cegas sobre a cabeça de Edda, destrutivamente; a fúria dos seus olhos revelava um desejo de matar, tal como uma multidão, sem qualquer razão. Depois de a sua própria raiva passar, a imagem que tinha da irmã ficou de tal forma destruída que Edda nunca mais queria ver Grace. A sua lógica dizia-lhe que o que quer que estivesse errado com a sua irmã tinha pouco que ver com ela enquanto irmã, ou mesmo enquanto ser humano, mas a sua raiva era tão forte, tão implacável, que não era capaz de esquecer ou de perdoar. A injustiça das acusações de Grace corroía e desgastava o seu amor até ao ponto em que deixou de existir.

Tudo isto tornara o final deste inverno o mais difícil da vida de Edda, mesmo incluindo as tentativas de suicídio de Kitty. É claro que Tufts e Kitty desconfiavam que houvera uma discussão, mas várias tentativas para descobrir o que se passara, por parte de uma e de outra, ou das duas em conjunto, direcionadas quer a Edda quer a Grace, não tinham produzido qualquer resultado. Nem Edda nem Grace queriam falar do assunto, e muito menos resolvê-lo. E, para Edda, que fora injustamente acusada e julgada, a simples magnitude dos insultos de Grace eclipsava a relação entre elas.

Kitty pediu ajuda ao reverendo, que tentou falar com Edda, a gémea com a inabalável capacidade de ser racional… sem qualquer sucesso. Quando falou com Grace, a sua única recompensa foi um ataque histérico de lamúrias, choro copioso e total falta de racionalidade. Quando Maude se intrometeu e ficou do lado de Grace, Edda cortou relações com ela e recusou-se a voltar ao presbitério até Maude deixar de se meter na sua vida.

Até a enfermeira-chefe Newdigate acabou por se envolver na discussão com o seu fiel machado de guerra afiado, segundo os agentes infiltrados diziam, pelo equipamento de Liam Finucan, que fazia o mesmo com as lâminas do micrótomo. Liam foi arrastado para o meio da querela por Tufts, que vislumbrara uma ténue luz ao fundo do túnel Edda-Grace.

— Esta situação precisa da mão de Deus — disse ela a Liam —, de uma mão feminina de Deus. Tem de ser a enfermeira-chefe a intervir.

— Mas Grace já não tem nada que ver com a enfermagem há anos — protestou ele.

— A voz da razão está gravada no cérebro de Grace — contra-argumentou ela —, e a enfermeira-chefe é a voz da razão suprema.

Desta forma, Grace foi chamada à presença da enfermeira-chefe, como se ainda estivesse no seu treino de enfermagem, e, assim que se sentou, Edda entrou.

Nenhuma das gémeas desconfiava do estratagema, nem nenhuma das gémeas tinha a coragem necessária para sair impetuosamente do gabinete da enfermeira-chefe.

— Sente-se, irmã Latimer — disse a enfermeira-chefe com enorme afabilidade —, e dê os bons-dias à sua gémea.

Um enorme peso caiu dos ombros de Edda.

— Bom dia, Grace — disse ela, esboçando um sorriso forçado com os seus lábios paralisados.

O sorriso de Grace foi muito mais rasgado. Ela sabia de quem era a culpa da discussão e há três meses que não dormia bem, tentando encontrar uma forma de sair desta situação com algum orgulho. O problema é que não havia maneira de preservar o orgulho… Oh, se ao menos Edda não estivesse tão bonita naquele dia, tão… tão soignée! Mas a verdade é que estava, e as palavras cruéis tinham jorrado da sua boca numa torrente maldosa e mesquinha. Arrependo-me tanto delas! Mas orgulho era orgulho, insaciável.

Edda apresentou-se no gabinete da enfermeira-chefe com o véu, mas sem avental, uma efígie fria às riscas verdes e brancas, enquanto Grace, a mulher casada, se encontrava vestida com a sua melhor roupa de domingo: um vestido fúcsia cintado de crepe, que lhe assentava muito bem, um chapéu de palha sofisticado a condizer e acessórios em azul-marinho.

— Estás trés chic, Grace — disse Edda.

— E tu pareces uma freira… muito intimidante.

— Então, vão finalmente pôr um fim a esta discussão ridícula? — perguntou a enfermeira-chefe com um sorriso.

— Sim… se eu pedir desculpa — disse Grace —, e peço, Edda, do fundo do coração. Reconheço que estava completamente errada.

— Excelente — disse a enfermeira-chefe, radiante. — As razões para esta discussão já são águas passadas… a propósito, Faulding, nunca me chegou a entregar aquele relatório de cinco páginas sobre o registo de equilíbrio de fluidos.

A porta abriu-se e uma funcionária entrou com um carrinho de chá.

— Ah, chá! Agora podemos pôr de parte as formalidades e usar os nossos nomes próprios.

Grace respirou com dificuldade.

— Enfermeira-chefe, não posso fazer isso!

— Que disparate! Aliás, preciso de si, Grace. O hospital sob a nova direção precisa de uma voz em Trelawney e, pelo que já ouvi, a sua é muito respeitada por lá.

Grace, lisonjeada, corou e os seus olhos brilharam.

— Estou à inteira disposição do hospital, enfermeira-chefe.

— Gertie — disse Edda com um sorriso. — O nome próprio da enfermeira-chefe é Gertie.

A carta pouco volumosa dentro do envelope selado encontrava-se no compartimento de Edda, com Irmã Edda Latimer escrito a tinta preta. Enviada pelo novo diretor, presumiu Edda… caligrafia interessante, muito chamativa e executada com uma caneta de bico grosso. Edda abriu-a.

Franca, direta ao assunto: um convite para tomar uma bebida no bar do Grand Hotel às seis, depois da qual, se assim desejasse, podiam ir ao Parthenon jantar. Não precisava de responder ao convite; se estivesse interessada, bastaria comparecer no local indicado à hora combinada, hoje, amanhã ou em qualquer outra noite.

Ele não tinha qualquer interesse romântico nela, Edda estava certa disso. O olhar que tinham trocado naquela manhã era semelhante ao trocado por dois guerreiros de tribos rivais. Não, ele queria Kitty, aquele dia na estação de comboios dissera-lhe isso, e agora descobrira que Kitty Latimer era Katherine Treadby, uma enfermeira. Um problema, tal como o facto de ela não simpatizar com ele. Ele era o invasor desconhecido, demasiado inteligente para não se aperceber disso, e precisava de saber mais sobre Kitty antes de dar seguimento ao seu interesse por ela. E escolhera cuidadosamente Edda Latimer para ser sua informadora.

Teria de ser esta noite; amanhã estaria de serviço no bloco operatório e trabalharia nos sete dias seguintes até à sua próxima folga. Ele também sabia disto, mas não a pressionara.

Com apenas 500 libras no banco, Edda fazia toda a sua roupa e vivia de forma tão frugal que fizera todo o seu guarda-roupa com o miserável salário de enfermeira. Tecidos, sapatos, luvas e malas tinham de ser comprados. Fazia os vestidos e os chapéus de forma tão extraordinária que todos em Corunda pensavam que ela os comprava nas melhores lojas de Sydney. Terminara há pouco de coser a última conta num vestido cinzento arroxeado, com bainha abaixo do joelho e ligeiramente cintado, e tornara-o ainda mais interessante ao coser na bainha e nos punhos vários milhares de contas de vidro roxas. Usava sapatos pretos e uma mala, e, na cabeça, um acessório de tule cinzento-escuro salpicado com as mesmas contas roxas. Sim, isso seria suficiente! Chique.

Charles esperava-a numa mesa baixa isolada no bar do hotel, sem qualquer bebida à sua frente, e levantou-se assim que a viu do outro lado da sala.

— Cocktail? — perguntou ele, puxando uma cadeira baixa e grande para ela.

— Não, obrigada. Um copo de pilsener — respondeu ela, retirando as luvas pretas, dedo a dedo, uma tarefa difícil.

— A maioria das mulheres australianas bebe cerveja? — perguntou ele, sentando-se e fazendo sinal ao empregado de mesa.

— Sim, é verdade. É do clima. Bebemos cerveja leve do tipo alemão, com um teor alcoólico relativamente alto, e gostamos dela bem gelada. Não vai encontrar a pesada cerveja inglesa servida quente por aqui — disse ela, acabando de tirar as luvas. — Como bónus, posso dizer-lhe que Kitty também gosta de beber cerveja gelada.

— A Edda é muito perspicaz — disse ele, depois de fazer o seu pedido. — Não lhe passou pela cabeça que eu pudesse estar interessado em si?

— Nem por um segundo. Sou demasiado alta.

— Touché. A Edda é muito exótica para Corunda, não é?

— Alguém tem de ser. À medida que for conhecendo melhor as irmãs Latimer, vai descobrir que, para dois pares de gémeas idênticas, as semelhanças estão perfeitamente delineadas num dos pares e bastante dissimuladas no outro, como na sala de espelhos de uma feira.

— Fale-me mais sobre isso — disse ele.

— Eu e Grace, por exemplo. Eu sou muito exótica para Corunda, enquanto a minha irmã é bastante típica: dona de casa e mãe, sempre a esforçar-se por aguentar até ao final do mês, mas completamente encantada com o seu papel. Com Kitty e Tufts acontece o seguinte: Kitty é a epítome da beleza moderna, desde a boca em forma de botão de rosa aos enormes olhos, quase transparentes, enquanto Tufts é a solteirona nata, terra a terra e genuína. — Edda pegou no seu copo alto de cerveja, os seus lados molhados com a condensação, e inclinou-o na direção de Charles. — Aqui fica algo para pensar, Charlie.

— Será que toda a gente tem de me chamar Charlie? — perguntou ele, irritado.

— Sim, porque Chikker não lhe assentava bem. Charles é considerado ligeiramente efeminado pelos verdadeiros homens neste ano de 1929… pelo menos, nesta parte do mundo — disse ela, suavemente.

— Jesus Cristo! A Edda é uma cabra!

— Em Inglaterra era capaz de pensar isso, mas nunca o iria dizer.

— Não preciso que tenha uma atitude paternalista comigo, Edda, mas talvez me possa explicar por que razão o facto de ser inglês é tão objetável para quase todos os australianos, e o que significa a palavra pommy?

— Ninguém sabe por que razão os ingleses são chamados pommies, é simplesmente assim, mas não são muito queridos por aqui porque este continente era um conjunto de colónias britânicas até há vinte e oito anos, e nós, os nativos, éramos desprezados. Na verdade, mesmo agora existe uma Comunidade da Austrália e muitos australianos sentem que o país ainda pertence ao Banco de Inglaterra e às companhias inglesas. Os melhores empregos vão para os pommies e, quanto maior entoação britânica o discurso australiano tiver, maiores são as probabilidades de se ser bem-sucedido nos aspetos social e financeiro. Os australianos educados em escolas públicas são castigados por terem uma pronúncia associada às classes mais baixas… sim, vocês trouxeram o sistema de classes e ficou enraizado por aqui! Quer queiram usar a vossa nacionalidade ou a vossa individualidade para se definirem, a resposta é sempre pommy — disse Edda, com os olhos quase brancos a fitá-lo. Em seguida, como que arrependida por ter partilhado tantas emoções, encolheu os ombros. — Se quer que gostem de si em Corunda, Charlie, deixe a faceta pommy de lado o mais depressa possível.

— Cigarro? — perguntou ele, oferecendo-lhe um.

— Não fumo. Nós as quatro deixámos de fumar poucas semanas depois de estarmos na ala dos homens.

— Por causa das doenças? — perguntou ele, sem expressão.

Um sorriso amargurado curvou os seus lábios pintados de vermelho-vivo.

— Não! Se há coisa que os médicos nunca fazem é limpar as canecas de expetoração. Se o fizessem, entenderia o porquê.

A imagem de uma caneca de expetoração invadiu a mente de Charles. Pousou, de imediato, o seu uísque com água gaseificada (sem gelo).

— O que quer fazer da vida? — perguntou ele.

— Viajar. Viver aventuras loucas em todo o lado, exceto na Antártida. Esse é o continente que a maior parte das pessoas do lado de cima do globo terrestre se esquece sempre. Espero tornar-me enfermeira responsável… mais dinheiro. Os meus recursos são quase inexistentes… pobre como um rato de sacristia.

— Bem, a Edda é de facto pobre, mas vou ver o que consigo fazer em relação ao cargo de enfermeira responsável.

— Em troca das informações sobre Kitty?

— Exatamente — disse Charles Burdum de forma descontraída. — Fico eternamente agradecido por toda e qualquer informação.

A segunda metade da cerveja de Edda não continha qualquer magia. Ignorando o seu copo, Edda recostou-se na cadeira, cruzou as pernas e fixou os seus olhos lupinos no novo diretor. A atitude trocista entre eles desaparecera e, por alguma razão que desconhecia, Edda parecia ter reconsiderado a sua opinião inicial e bastante desdenhosa sobre ele. Charles ouviu atentamente uma maravilhosa contadora de histórias narrar uma história apaixonante, apenas interrompendo a narrativa para andar com ela dois quarteirões até ao café grego para jantar.

Assim, Charles descobriu que Kitty tinha muitas cicatrizes internas, não era uma menina bonita e convencida com uma série de relacionamentos e casos amorosos no seu passado. Muito apaixonado por ela, Charles Burdum estava ansioso por conhecer esta mãe tão terrível que Edda odiava tanto. Maude Scobie Latimer… tão enredada nos encantos da sua filha que não era capaz de ver o efeito da sua adulação em Kitty, demasiado superficial para compreender que algumas mulheres bonitas querem ser amadas por algo mais duradouro que o seu rosto ou figura esbelta. Um ralador de queijo, e Kitty só tinha dez anos! Era tão difícil pensar nisso! A tentativa de suicídio de que só ela e o reverendo tinham conhecimento…

Oh, minha pobre coitada, minha querida Kitty! Deve significar tanto para ti seres uma enfermeira qualificada, e a minha declaração de amor deve ter sido tão insignificante! É uma expressão do que passaste a tua vida a fugir… deve ter-te repugnado. Anunciei o meu amor por ti sem qualquer outra razão que não o teu aspeto. Se eu soubesse disso antes! Como vou alguma vez conquistar o teu amor, depois de um começo tão mau?

— Se o Charles a ama, terá de a convencer de que o seu amor não se deve unicamente ao seu aspeto — disse Edda a Charles, enquanto se despediam. — Isto implica conquistar a sua confiança aos poucos, e não se esqueça de Tufts. Terá de conquistar a confiança de Tufts também.

 

Contudo, Tufts já estava rendida, graças a Liam Finucan. O patologista não poupava elogios ao novo diretor.

— Ele vai fazer maravilhas, Heather, e este hospital vai, finalmente, atingir todo o seu potencial — dizia Liam a Tufts, palavras que repetia inúmeras vezes.

Desta forma, quando Kitty se dirigiu a Tufts em busca de algum apoio moral, esta não foi capaz de o dar.

— Se ele está a tentar seduzir-te e tu não estás interessada, Kits, usa a tua língua insolente e manda-o passear. Pessoalmente, acho-o um homem muito bom.

— Sim, mas aí está… não sei o que sinto ou o que quero! — disse Kitty a chorar. — Nunca na minha vida conheci um homem tão desagradável e convencido, contudo ele tem um lado admirável, e acredito piamente que queira dar ao Hospital de Corunda a oportunidade que nunca teve. Mas será que quero ser sua esposa? Tomar as suas dores e ambições como minhas?

— Estás a ser precipitada, Kits, e a pôr a carroça à frente dos bois. Podes gostar e admirar o que ele está a fazer pelo Hospital de Corunda sem te envolveres com ele. Pela forma como estás a falar, parece-me que desejas secretamente o doutor Burdum — disse Tufts, a voz da razão.

— Devo fazer como Edda e sair com ele?

— Seria completamente diferente, Kitty. O doutor Burdum saiu com Edda para obter informações sobre ti. Pergunta-lhe! Como Edda diz, ele não está interessado nela, ela é demasiado alta.

— Sim, e essa é uma das razões por que não estou interessada no doutor Burdum… Ele é demasiado baixo. A única coisa que faz as pessoas rir mais do que uma mulher pequenina com um marido demasiado alto é um polegarzinho com a sua esposa… ridículo!

— O orgulho mata — disse Tufts, com uma gargalhada. — Olha que bom, Edda chegou! Edda, conta a Kitty tudo sobre a tua noite com o diretor.

— O teu pedido é uma ordem — disse Edda, sentando-se com um suspiro. — Há uma parte de mim que não confia nele… é um homem manhoso, capaz de vender gelo a um esquimó, e essa característica não vai desaparecer, pois faz parte do que ele é enquanto indivíduo. Tem tendência a sobrevalorizar-se, a vangloriar-se. Por outro lado, gostei de outros aspetos nele… sobretudo o seu afeto e preocupação por ti, bem como as ideias que tem para o hospital. Se eu tivesse tanto dinheiro no banco como tu, Kitty, apostava que Charlie Burdum, o Pommy, vai fazer maravilhas por Corunda. — Edda mordeu os lábios generosos e franziu o sobrolho. — Quanto a ele ser bom para ti, querida irmãzinha, não sei. As suas intenções são nobres, mas há uma ligeira probabilidade de o amor mais duradouro da vida de Charles Burdum ser o próprio Charles Burdum.

— Não me estás a ajudar, Edda.

— Ninguém te pode ajudar, idiota! Sai com ele! Até o fazeres, estás dependente dos juízos de outras pessoas — disse Edda.

— Ela tem razão — acrescentou Tufts. — Sai com ele!

 

Visto que Corunda já estava ao rubro com o facto de o doutor Burdum ter convidado Edda para tomar uma bebida e jantar, a atmosfera ficou ainda mais elétrica quando este convidou Kitty Latimer para o mesmo. Será que tencionava promover uma competição entre as irmãs pela sua mão ou teria motivos ainda mais perversos? «Charles» já fora esquecido por todos no distrito, o seu nome era agora o diminutivo «Charlie», e a sua imagem fora, também ela, diminuída.

Kitty, reparou Charles, vestia-se de forma diferente de Edda, embora ambas tivessem chamado a atenção de toda a gente ao atravessarem a entrada do Grand Hotel ao seu encontro. O estilo de Kitty era mais descontraído… nada de cetins lustrosos ou tecidos metálicos para Kitty, concluiu ele. O seu vestido de chiffon tinha um tom verde gelado, astutamente realçado por pormenores verde-esmeralda, e os seus acessórios eram azul-marinho. Não usava chapéu, os seus caracóis muito louros e brilhantes num corte curto emolduravam o seu rosto sedutor como uma espécie de auréola. Ao final da noite, Charles achava que Kitty ditava a sua própria moda e perguntava-se onde as raparigas Latimer iam buscar o seu gosto para se vestirem, pois era evidente que Corunda não o tinha.

— Porque és tu a mais insolente? — perguntou ele, enquanto bebiam cerveja.

— O rosto — respondeu ela, sem hesitar. — A minha aparência faz toda a gente presumir que sou um anjo, por isso a minha insolência surpreende as pessoas. Aprendi isso cedo e não tenho qualquer intenção de deixar de ser assim.

— Espero que não me vás obrigar a cortejar-te muito tempo.

— E eu espero que não tenciones cortejar-me, Charlie.

— É claro que tenciono! — A gárgula transformou-se em estrela de cinema. — Já te disse como isto tem de acabar… tu como minha esposa.

— O que te faz pensar dessa maneira? E não respondas que é o amor, porque este tipo instantâneo de amor não é mais do que desejo — disse Kitty, saboreando a sua pilsener. — Se for usar a palavra com o seu verdadeiro significado, existem apenas quatro pessoas que eu amo.

— E quem são?

— As minhas três irmãs e o meu pai.

— E a tua mãe?

O seu nariz perfeito enrugou-se.

— Eu amo a minha mãe, mas não me metia à sua frente se alguém disparasse contra ela.

— Porquê, Kitty?

Os grandes olhos de Kitty abriram ainda mais, conferindo-lhe um ar receoso e espantado. Em seguida, soltou uma gargalhada, um som de divertimento tão contagioso que todos os que a ouviram não puderam evitar sorrir.

— Idiota! Porque ela nunca se meteria à minha frente se a bala fosse para mim. É uma faca de dois gumes, Charlie.

Charles estremeceu.

— Também tu tens de me chamar Charlie?

— Claro. Em vez de te fazer parecer um mariquinhas, faz-te parecer um homem.

Charles engoliu em seco.

— Presumo que um Charles nunca se meteria entre ti e a bala?

— Estou certa de que ele estaria demasiado ocupado a fugir do tiro.

— Enquanto um Charlie não pensaria duas vezes e enfrentaria o atirador?

— Provavelmente.

Chegara a altura de mudar de assunto.

— Quem me dera — começou ele, com os olhos bastante dourados — que esta bendita cidade tivesse um restaurante decente! E por que razão escolher o Parthenon e não o Olympus, se ambos são gémeos idênticos desde o facto de serem gregos até à decoração e às ementas?

— Hábito. Não pela tradição, mas pelos clientes. O Olympus fica mais perto da estrada que liga Sydney a Melbourne, e serve viajantes, bem como turistas. Nunca reparaste nos turistas que visitam Corunda? Em setembro, no auge da primavera. A cidade é conhecida pelos seus jardins. As pessoas viajam até cá para ver sobretudo as azáleas e os rododendros.

— Mas eles florescem consecutivamente, não ao mesmo tempo.

— Aqui, por causa do clima local e de algumas particularidades do solo, florescem ao mesmo tempo e a flor dura duas vezes mais que o habitual. Esta é a semana em que a floração sincronizada atinge o seu auge. Afinal de contas, o mundo está de pernas para baixo.

— Já me tinha perguntado por que razão o hotel estava tão cheio — disse ele, com um ar animado. — Talvez consiga persuadir o Grand Hotel a instalar um restaurante de primeira classe.

— Concentra-te no hospital — foi o conselho de Kitty. — Agora mudaste-te para a casa Burdum, contrata um chef que te agrade. Assim podes ter coisinhos escalfados e não-sei-o-quê estufados.

Continuar: parte 4 de 4